Total War: A espada de Átila

David Gibbins · Capítulo 9 de 27

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Total War: A espada de Átila

Capítulo 3

 

 

Os cães caíram num silêncio apavorante, um silêncio que Flávio conhecia de seus próprios cães de caça: era o silêncio de um animal que pretendia unicamente matar, que ia além da necessidade de aterrorizar a presa. O primeiro dos animais tinha dominado os refugiados alguns instantes antes e agora ele via dezenas deles, correndo à frente de uma onda de guerreiros vândalos que ele sabia que absorveria quem tentava fugir deles com a facilidade de um maremoto engolfando tudo a caminho da terra. Ele e seu numerus faziam parte dessa inexorabilidade, uma frágil linha de defesa que não tinha qualquer chance de deter o assalto, mas que não cairia sem lutar.

Ele se obrigou a desviar o olhar, voltando-se para averiguar que tudo estivesse preparado. Um quilômetro atrás deles, as muralhas de Cartago estavam emolduradas pelo brilho vermelho do sol nascente, como se a cidade já estivesse em chamas. Flávio se perguntou se alguém observava das muralhas ou se as sentinelas tinham fugido para as embarcações no porto. Para além dos morros, quinhentos passos atrás da trincheira, ele distinguia os braços de arremesso das cinco catapultas, cada uma delas recuada por um guincho contra a torção da corda enrolada que prendia a base do braço à estrutura pesada. Abaixo de cada braço estava pendurada uma bolsa contendo uma bola de argila cheia da mistura de combustível, pronta para ser lançada depois que os artilheiros golpeassem o pino de retenção com uma marreta de madeira. Ele agora via os homens, um para cada catapulta, segurando as velas que tinham acendido com os últimos resíduos do fogo de cozimento; a seu comando, eles inflamariam as bolas de fogo e nafta na vala diante deles.

Agora o olhavam fixamente, esperando pelo sinal. Todos os homens na trincheira faziam o mesmo, os nós de seus dedos brancos nas armas, como se todo o numerus estivesse teso como as catapultas. Flávio se virou para olhar sobre o parapeito. Os cães se aproximavam, a não mais de quatrocentos passos, precipitados em sua ansiedade para alcançar a presa, erguendo uma imensa trilha de poeira a suas costas. Cavalgando pela poeira, ele viu o primeiro dos mestres dos lobos, os guerreiros alanos, homens imensos com peles nos ombros, estalando os chicotes que usavam para impelir os cães, portando maças cruéis, crivadas de pregos, que eram sua marca registrada em batalha. Uma torrente de vândalos parecia cair em cascata sobre o aclive atrás deles, atravessando o vale e correndo encosta acima para a trincheira, os cães perto o bastante para que suas presas e o vermelho dos olhos estivessem visíveis. Flávio olhou a massa em aproximação, avaliou sua velocidade e possível ponto de impacto. Havia algo errado. Ele se virou para Macróbio.

— As bolas de fogo devem cair na massa do inimigo. Os cães chegarão a nós antes que os vândalos entrem em alcance.

Macróbio segurou a espada preparada.

— Então cuidaremos dos cães quando estiverem aqui — respondeu ele. — Atenha-se a seu plano, tribuno. — Ele se virou e olhou para seus homens. — Firmes — rosnou. — Sagitarii, retesem os arcos.

Os arqueiros a cada cinco homens pela linha ergueram os arcos e apontaram, mantendo posição enquanto Macróbio levantava a mão. Flávio olhou os artilheiros. Havia lhes dito para só atacar a seu comando e tinha esperanças de que mantivessem a coragem. Eram homens especialmente recrutados por ele ao numerus para a tarefa, veteranos do limitanei de fronteira, recomendados por Macróbio, que juraram sacar a espada e manter posição depois que os onagros disparassem.

O primeiro dos Alaunt estava agora à distância de apenas um arremesso de pedra, um vulto em disparada, maior do que qualquer lobo que Flávio já tinha visto na vida, triturando o que havia pelo caminho ao subir o aclive na direção deles, seu pelo preto eriçado e pontilhado com a espuma que babava das mandíbulas. Flávio segurou a espada com as duas mãos, pronto para cravar em ventres e pescoços, sabendo que haveria pouco espaço para girar ou cortar. Ele invejou Arturo e seu gládio, e viu o bretão de sotaina mais além no parapeito, perto da estrada, para onde enviara seus núbios e o cavalo de volta à cidade. Os cães estavam quase sobre eles, uma linha de imensas feras maciças numa nuvem de poeira que cobria tudo o que vinha atrás. Macróbio se retesou e baixou o braço.

— Agora! — berrou.

Flávio teve consciência do assovio das flechas justamente quando o cão líder chegou à frente do parapeito e se atirou sobre eles. A flecha do sármata a suas costas se enterrou nos tufos de pelo da boca da fera, tarde demais para impedir o animal, nas convulsões da morte, de jogar-se no homem e rasgar seu pescoço, um emaranhado de pernas e sangue que rosnava, gritava e se contorcia, caindo depois na poeira. Outros cães tombaram no chão em plena correria, espetados por flechas, mas alguns eram rápidos demais para que os arqueiros recarregassem e apontassem, atirando-se nos homens com os caninos à mostra. Macróbio caiu de costas atrás da trincheira com o pomo de sua espada fixado no chão e pegou um cachorro na ponta, estripando-o quando se lançou para ele. Outro animal derrubou Flávio de lado e meteu as garras em seu braço, deixando quatro riscos vermelhos que rapidamente se encheram de sangue. O cão subiu ao lado da trincheira e sumiu, passando pelos artilheiros e as catapultas, seguindo para as muralhas de Cartago, o novo líder de um bando que se desligava da rixa e seguia, como se o cheiro da cidade fosse uma atração ainda maior do que o sangue à volta deles.

Flávio levantou-se com dificuldade, o braço pingando sangue, e num borrão viu as formas erguidas dos mestres dos lobos alanos se aproximando, seguidas pela onda de vândalos a não mais de duzentos passos de distância. Chegara a hora. Ele se virou para os artilheiros, levantou o braço, sentindo o sangue espirrar no rosto, e o baixou.

— Soltem! — gritou ele. Os artilheiros aproximaram as velas para acender as bolas de fogo e bateram as marretas de madeira nos pinos de retenção. Lenta e graciosamente os braços subiram, balançando as bolsas em um amplo arco, até que bateram nas vigas de trava com um baque surdo e as bolsas soltaram seus mísseis. As catapultas explodiram em chamas com o voo das bolas de fogo, a argila rachando no impacto e cuspindo nacos em chamas. O primeiro atingiu um guerreiro alano em cheio no peito, inflamando suas peles e o cabelo num jato de fogo. Isso não o impediu de avançar, porém, trôpego e girando em pirueta como uma fogueira ambulante, até cair pesadamente na terra. Os outros projéteis chocaram-se na primeira fila de vândalos, criando um muro contínuo de fogo de que os homens tentaram desesperadamente se livrar, alguns caindo e se contorcendo na terra para apagar as chamas e outros correndo às cegas como tochas humanas, gritando e largando as armas enquanto os arqueiros atrás de Flávio tentavam pegá-los.

Os alanos à frente do fogo guardaram os chicotes e avançaram segurando apenas as maças de guerra, armas apavorantes talhadas de um mesmo galho de carvalho, cravejadas com pinos de ferro que brilhavam ao sol. O mais próximo investiu diretamente contra Arturo, que estava no parapeito, de capuz baixo e o gládio preparado. Flávio viu os artilheiros avançarem para a vala na frente das catapultas, as velas prontas para acender a nafta e criar uma barreira de fogo atrás dos sobreviventes do numerus, para permitir sua retirada. Flechas começaram a assoviar no alto, partindo das fileiras dos vândalos, algumas batendo inofensivas no parapeito e outras encontrando seu alvo. Macróbio virou-se para ele, sua cota de malha pingando das entranhas do cachorro e, juntos, os dois se viraram e berraram para cada lado da trincheira:

— Recuar! Recuar!

A ordem chegou tarde demais para os homens à esquerda de Flávio. Um alano apareceu no parapeito; um homem enorme, com braços grossos como sua maça. Com um único golpe, arrancou a cabeça de um homem e girou para trás, pegando a barriga de outro, a cabeça empalada batendo na cota de malha do sujeito enquanto o golpe quebrava suas costas, um jato de sangue e entranhas caindo por suas pernas. O alano desceu a trincheira ainda golpeando, os homens desesperadamente saindo de seu caminho, os arqueiros sobreviventes virando-se e atirando à queima-roupa no peito e na cabeça do gigante, enchendo-o de flechas até que uma, atravessando-lhe a testa, finalmente o fez cair, seu corpo se sacudindo de joelhos e tombando para a frente entre a carnificina que ele criara ao redor.

De repente, um alano estava na frente de Flávio, uma forma descomunal silhuetada pelo fogo que ainda grassava pela linha de vândalos atrás dele. Flávio lembrou-se do que Arturo dissera momentos antes da batalha, cumprindo a promessa de contar como combater os alanos: Não recue. Mantenha posição e escape do primeiro golpe. Depois, quando os braços dele estiverem elevados e ele, vulnerável, avance e crave a espada em seu coração. O alano rugiu, seus dentes afiados como o de seus cães, o cabelo amarelo amarrado atrás e voando a suas costas; mas era como se Flávio não ouvisse nada, não enxergasse nada, preso num momento que pareceu se expandir infinitamente. Era algo que conhecia pelos relatos, nos quais ele próprio não acreditava, daqueles que estiveram em situação de vida ou morte em batalha dessa maneira. E teve consciência do ataque da maça que descia sobre ele, girando baixa para pegá-lo nas pernas. Deu um pulo enquanto a maça o errava e girava no alto para a direita, até que o alano a segurou acima da cabeça, o ímpeto o fazendo tombar para trás, seus olhos arregalados de fúria quando percebeu a própria vulnerabilidade. Flávio imaginou que podia ver o coração do homem batendo embaixo de seu esterno ofegante e cravou a espada ali, empurrando com força, até senti-la atravessar a espinha e sair do outro lado. Manteve a espada no local, cada músculo de seu corpo tenso, sentindo o fedor de suor e adrenalina e o coração falhar contra a lâmina, até estremecer e parar. O homem tossiu uma torrente de sangue e caiu contra Flávio, largando a maça atrás de si, os braços flácidos e sem vida.

Ele empurrou o corpo de lado, pôs o pé no peito do homem e puxou a espada. Macróbio pegara o arco e a aljava do arqueiro morto atrás deles e disparava com a maior velocidade possível sobre o parapeito. Os vândalos tinham passado pela carnificina provocada pelas bolas de fogo e estavam a segundos de distância. Flávio olhou à esquerda e à direita ao longo da trincheira, vendo apenas cadáveres. Macróbio soltou a última das flechas, pegou a espada que tinha enterrado no chão e arrastou Flávio.

— Ou estão todos mortos, ou foram embora — berrou. — Você cumpriu seu dever. Agora devemos nos juntar aos sobreviventes. — Ele arrastou Flávio pela trincheira, subindo do outro lado, aos artilheiros que aguardavam. Ao assim fazer, Flávio viu que o sármata prostrado mais perto deles ainda estava vivo, mexendo a boca e gesticulando. O tribuno baixou a espada e o colocou em suas costas, mas ao fazer isso uma flecha voou através do pescoço e da cabeça do homem, espirrando sangue em Flávio e lançando os dois para a frente. Macróbio os separou, os olhos do homem agora arregalados na morte, e, juntos, os dois passaram pela vala enquanto os artilheiros jogavam nela suas velas e a nafta explodia numa muralha de fogo.

Flávio parou por um momento, recurvado e ofegante, e sentiu o calor nas costas, consciente de Macróbio e Arturo reunindo os artilheiros e os empurrando para diante. Via outros sobreviventes do numerus correndo e passando pelos onagros em chamas por terreno aberto para o leste. Ótimo. Ele seria o último homem a partir. Tinha sustentado sua honra, a palavra dada ao tio Aécio algumas semanas antes em Roma, e não abandonara seus homens. Ele olhou o sangue que pingava do braço, vendo suas veias inchadas, sentindo o coração martelar. Tinha sentido algo mais, não apenas dor e medo, mas uma enorme exaltação. Matara um homem em batalha pela primeira vez. Naquele momento, ele soube o que os gregos queriam dizer com um kharme, o desejo de batalha, e por que os homens ansiavam por ela. Era bom.

Macróbio estava à sua frente, gritando:

— Venha, tribuno. Às muralhas de Cartago. Precisamos correr e salvar nossa vida.

Meia hora depois, Flávio estava sentado entre seus homens do lado de dentro do porto leste da muralha da cidade. Os grandes portões de madeira haviam sido abertos para eles pelo esquadrão de sentinelas da guarnição que jurara permanecer de serviço até que eles estivessem seguros no interior da muralha. Ele vira as sentinelas barrando o portão e se retirando para as ruas na direção do porto a fim de se reunirem à retaguarda da guarnição, que esperava no cais para ser levada pelas últimas galés. Os arredores pareciam desertos, mas Flávio sabia que o povo de Cartago se escondia em suas casas — aqueles que acreditaram nas garantias do traidor Bonifácio de que os civis não seriam machucados, nem teriam suas propriedades destruídas, que as autoridades da cidade teriam lugar garantido na nova administração sob o governo de Genserico e seu conselho de chefes tribais. Não era uma garantia que se estendia aos milites da guarnição ou que mereceria qualquer crédito caso existisse. Sua exibição simbólica de resistência da trincheira infligira baixas suficientes para atiçar a fúria dos vândalos, eliminando qualquer possibilidade de misericórdia que algum dia pudessem demonstrar. Sua única chance de sobrevivência era sair de Cartago, e agora.

Ele ergueu um dos odres deixados pelas sentinelas e permitiu que a água escorresse por sua garganta, sorvendo grandes goles e deixando que espirrasse no rosto. Passou-o ao homem que lhe entregara e olhou em volta. Macróbio tinha lhe informado o número de baixas, mas ele podia contar sozinho. Perderam mais dois homens durante a retirada para as muralhas, um para um Alaunt errante e outro para os próprios ferimentos, desabando morto enquanto era ajudado na travessia. Do numerus original de oitenta homens, apenas dezesseis sobreviveram. Dezesseis homens. Flávio pensou que seu comando era insignificante, para começo de conversa, mas isto ia além de uma brincadeira. Entretanto, eles eram o exército que restava da África, os últimos soldados do exército que séculos antes tinha rompido essas encostas para reclamar Cartago como sua. Ele ainda era seu comandante. Cada um dos homens trazia as cicatrizes do assalto, alguns com ferimentos abertos de mordidas dos Alaunt e outros com a carne esmagada e rasgada, onde suportaram os golpes de maça dos alanos. As próprias marcas de batalha de Flávio, os três talhos em paralelo das garras do cachorro por seu braço, começavam a inchar e latejar dolorosamente.

O arqueiro sármata Apsachos rolou, levantou a perna direita e olhou a carne retalhada de sua panturrilha.

— Isto foi o desjejum de um cachorro, senhor, se quer minha opinião.

O homem ao lado dele riu e fez uma careta de dor, segurando uma mancha vermelha que escorria por entre a cota de malha em seu flanco direito.

— Não me faça rir, Apsachos. Se eu não estivesse segurando minhas vísceras, daria uma bela gargalhada.

— Deixe que saiam e veremos se você realmente é visceral. Não o vi mostrando nada disso lá atrás.

— Isso porque você estava ocupado demais rebolando o traseiro para o inimigo ao tentar fugir, enquanto eu dava conta de um alano sozinho.

— Só quem vi fazer isso foi seu tribuno, Flávio Aécio — disse Macróbio, agachando-se entre os homens. — Mas todos aqui mostraram coragem, assim como nossos camaradas que agora estão com Deus. E Apsachos, se você fosse tão rápido em cavar latrinas como é com seus gracejos, eu lhe daria a corona civilis com grinalda de folhas de oliveira.

— Condecorações por esta ação, centurião? Uma retaguarda que não se aguentou em uma campanha fracassada, o melhor de Roma fugindo com o rabo entre as pernas depois de abandonar Cartago, a joia do Império? Creio que isto não será esquecido por nossos amados generais, que comem uvas e fazem orações em Ravena e Milão.

Macróbio tirou a cota de malha estropiada do braço esquerdo, revelando uma flecha quebrada de vândalo cravada fundo no ombro.

— Todos nós temos nossas condecorações, Apsachos. Condecorações que ficarão conosco, em nosso corpo, para nos lembrar deste dia e de nossos camaradas que caíram aqui. É só isso que importa. Os generais com suas cabeças nas nuvens e os bispos que os lideram podem ir para o inferno. E agora beba deste segundo odre que os guardas nos deixaram. Ouço os Alaunt latindo nos portões. Se não partirmos agora, além de desjejum, também seremos o almoço dos cães.

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