Total War: A espada de Átila

David Gibbins · Capítulo 20 de 27

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Total War: A espada de Átila

Capítulo 14

 

Flávio parou em frente ao fogo na câmara de audiência, tentando manter a postura relaxada enquanto Átila e o irmão o encaravam fixamente.

— Meu nome é Flávio Aécio Gaudêncio, tribuno do exército romano, sobrinho de Aécio de mesmo nome, magister militum dos exércitos do Ocidente. Vim perante o senhor em nome dele.

Bleda curvou-se e falou junto ao ouvido de Átila na língua gutural dos hunos, seu corpo tenso e os punhos cerrados. Átila respondeu e o irmão se afastou, com o rosto contorcido de fúria, andando atrás do trono.

— Meu irmão deseja matá-lo aqui mesmo — disse Átila, a voz grave e sonora. — Ele crê que um enviado que não representa um imperador não é enviado nenhum e é um insulto à corte dos hunos.

Flávio já decidira como jogar com Átila. Não haveria conversa de concessões, nem oferta de ouro. Eles falariam como homens e como soldados, não como negociantes.

— Vim representando Aécio porque é o único general na terra que é um oponente digno para Átila. Valentiniano é um fraco, servido por eunucos. Eu desonraria a mim mesmo se concordasse em representar tal homem. Pode dizer isto a seu irmão Bleda, de um guerreiro para outro.

— Meu irmão entende cada palavra que você diz. Fomos bem instruídos em latim e grego por eruditos trazidos por meu pai, como qualquer príncipe godo enviado a Roma. — Ele pegou uma porção de carne, mastigou e engoliu, jogou o osso no fogo e contemplou Flávio, limpando as mãos na túnica. — Também não gostamos de eunucos. Bleda, em especial, os detesta. Ele usa os que encontra para praticar a caça de porcos no campo. — Ele olhou para o irmão, que resmungou, com a expressão um pouco menos feroz. Átila voltou-se de novo para Flávio. — E então, o que quer?

— Trouxe-lhe um presente. — Flávio ia abrir uma sacola pendurada de lado, que até então estivera dentro de sua mochila, mas foi imediatamente interpelado por um dos guardas godos, que torceu seu braço dolorosamente nas costas e pôs uma faca em seu pescoço.

Átila o observou com ironia, fez um gesto e o godo o soltou.

— Meus guardas são sensíveis com armas — disse Átila. — Os últimos três reis hunos foram assassinados nesta mesma câmara, inclusive meu pai Mundiuk.

— Não é uma arma — retrucou Flávio, esfregando o braço. — É um livro.

Átila grunhiu, seu interesse agora despertado, e fez um gesto com o braço novamente. O godo se afastou e Flávio desembrulhou o pacote na bolsa. Era um pequeno códice de capa de couro e páginas de velo, um presente de Uago em sua formatura na schola 12 anos antes.

Junto com o gládio, esta era sua posse mais valiosa dentre os pertences que Una havia retirado de seus aposentos e deixado com Macróbio, e, sem ter onde guardar, ele se decidira por trazê-lo para fazer anotações durante sua viagem. A conversa com Prisco na ilha sobre o interesse de Átila em geografia lhe dera a ideia de que seria um presente adequado, uma forma de manter Átila ocupado enquanto os outros tentavam entrar na sala-forte. Ele avançou um passo, fez uma leve mesura e o entregou.

— É uma compilação de mapas do mundo conhecido em formato de livro de bolso, com base em Ptolomeu, mas incorporando acréscimos mais recentes, inclusive uma imagem mais detalhada da Bretanha, por exemplo. Pensei que o senhor poderia usar para traçar suas conquistas.

Átila pegou o volume, abrindo-o com cuidado e virando as páginas.

— Mas, pelo que vejo, não incorpora o mais recente trabalho realizado pelo departamento de cartografia dos fabri em Roma — disse.

— O senhor sabe que não seria possível lhe trazer isto. Mas este foi baseado nas mais recentes informações, quando foi criado pelo mesmo departamento na época em que eu era um candidato na schola, 12 anos atrás.

Átila abriu uma página e a olhou atentamente, passando o dedo pelo mapa e meneando a cabeça.

— Ptolomeu traçou as terras a nordeste do Danúbio de modo inteiramente errado e os erros foram repetidos nos mapas desde então. O lago Maeotis fica mais a leste e o grande manto de gelo muito mais ao norte. Eu mesmo não os vi, mas Bleda e meu pai, quando jovens, foram à borda do gelo e encontraram uma raça de caçadores que vivem em cabanas de neve e trouxeram marfim de morsa. Um dia irei também ao norte.

— Há muito do mundo ainda a conquistar.

— A conquistar ou a explorar. Nós, hunos, não somos um povo que reclama a propriedade da terra. Elas pertencem à águia e ao lobo; o manto de gelo do Norte pertence ao grande urso branco.

— É o que torna o senhor tão perigoso — respondeu Flávio, calculando a resposta. — Os romanos conquistam para ocupar território, construir fronteiras e fortalezas, consumindo mão de obra e recursos. Para os hunos, conquistar significa entrar em batalha. Todos os seus homens e recursos são colocados em um único embate cataclísmico contra um inimigo. Por isso Átila tornou-se o nome mais temido do mundo.

Átila o olhou com astúcia, de pernas separadas e uma das mãos no joelho.

— E então, Flávio Aécio Gaudêncio, sobrinho do magister militum Aécio. Por que realmente veio aqui?

Flávio o fitou nos olhos.

— Vim em nome de Aécio para desafiá-lo à batalha.

— Para me desafiar à batalha. — Átila limpou o nariz e olhou para Bleda. — Isto é novidade. Não me lembro de nenhum eunuco oferecendo-me esta concessão, nem daquele erudito desengonçado do Prisco e seu amigo tribuno de Constantinopla.

— Isto porque eles representavam um imperador, e não um general. Vim ao senhor não com ofertas de concessões, mas com uma oferta de guerra. Pode não ser este ano, nem no próximo, mas será em breve, em um local de sua preferência. A mãe de todas as batalhas.

— A mãe de todas as batalhas — repetiu Átila lentamente, olhando para Flávio. — Eu mesmo não poderia ter dito melhor. — Flávio lembrou-se tarde demais de que tinha ouvido a expressão de Prisco, que a citara do próprio Átila. Repentinamente sentiu-se no fio da navalha, sem se atrever a olhar para Bleda. Prisco e Maximino partiram sob suspeita e se Átila adivinhasse que ele estivera em contato com os dois, as coisas podiam desandar com extrema rapidez. Ele procurou não aparentar tensão, mas seu coração martelava e ele sentia o suor escorrendo pelas costas.

Átila estreitou os olhos.

— Há outros dois homens com você. Quem são?

— Meu centurião, Macróbio, e meu criado e armeiro, um gálio da Armórica. Sua filha os levou para encontrar um rebolo em seu arsenal. Nossas espadas precisam ser afiadas.

Átila pensou por um momento, grunhiu e se levantou, colocando o livro cuidadosamente de lado e andando a uma janela fechada em uma parede lateral da sala.

— Disseram-me que em Roma e em Constantinopla as scholae militara incluem dioramas de falsas batalhas — disse ele. — Bem, este é meu campo de exercícios. — Ele abriu os postigos de madeira e levou Flávio a uma sacada, na luz ardente do sol. Flávio protegeu os olhos, piscando com a claridade, e começou a distinguir traços que eles viram pelo caminho, os penhascos circundantes com a estepe acima e a estrada que levava à paliçada e à ravina da entrada.

Ali, do alto da cidadela, ele podia apreciar a imensidão do anfiteatro, com pelo menos 1 quilômetro e meio de extensão, sua posição dominando a vista em todo lado. Átila abriu expansivamente os braços.

— Quando exercito meus guerreiros, fazemos jogos de guerra genuínos. De minha mais recente excursão contra o império persa, temos mil pártios capturados, infantaria e cavalaria, totalmente equipados e armados. Se sobreviverem até o pôr do sol, ganharão a liberdade. Se meus guerreiros caírem para as armas deles, este será seu quinhão. Posso pedir a meus homens para recriar qualquer batalha que eu decidir, usando a planície a leste ou as terras ondulantes que observo daqui, sozinho, em algumas ocasiões com minha filha, e em outras com meus comandantes. Hoje, descerei e me unirei a eles.

Átila se virou e cravou os olhos em Flávio.

— Vejamos do que é feito um sobrinho de Flávio Aécio Gaudêncio. Cavalgue comigo.

As quatro horas seguintes foram as mais revigorantes que Flávio já experimentou fora de uma batalha real e também as mais sangrentas desde aquela manhã, dez anos antes, diante das muralhas de Cartago.

Átila determinou dois cenários para reproduzir embates bem-sucedidos com os pártios durante sua temporada de campanha no inverno anterior como forma de introduzir seus jovens guerreiros em táticas de batalha huna e lhes dar um gosto da morte. O primeiro, ele e Átila observaram a cavalo do lado oeste da cidadela, vendo uma força pártia tomar às cegas uma elevação, sem enxergar antecipadamente as posições hunas; foram alvejados por uma linha fixa de arqueiros hunos abaixo de seu lado da elevação enquanto se agrupavam no alto, incapazes de bater em retirada porque os guerreiros que pressionavam por trás não sabiam de sua situação infeliz. Os poucos sobreviventes foram impiedosamente retalhados pela infantaria huna, que avançara rapidamente de trás dos arqueiros para acabar com eles. Os vitoriosos, então, correram e galoparam para a revista de Átila e Flávio, ululando e batendo as armas enquanto aceleravam para o leste, a área seguinte de morte.

O segundo cenário tinha uma escala maior, envolvendo pelo menos mil arqueiros, lanceiros e espadachins montados, e os quinhentos pártios restantes. Ordenaram aos prisioneiros que defendessem um círculo de carroças pequeno demais para conter um número adequado de defensores ou dar proteção para os soldados pártios no campo, permitindo que fossem separados e cercados por colunas da cavalaria huna que os derrubaram e caíram sobre eles com a espada, dando cabo de cada grupo de homens, um por um.

Desta vez, para assombro e deleite de Flávio, dois homens, por instrução de Átila, aproximaram-se a cavalo e vestiram a couraça de armadura segmentada e uma cota de malha sobre a túnica de Flávio, colocando nele luvas, elmo e perneiras, e passando uma longa espada da cavalaria huna pelos flancos de seu cavalo. Quando terminaram e Flávio se flexionou e sacou a espada, Átila bateu no lombo de sua montaria e ele empinou, galopando em alta velocidade para a refrega. Átila o alcançou e cavalgou a seu lado, mantendo-se perto enquanto se uniam à grande rotação da cavalaria, buscando as presas entre os pártios que agora entravam em pânico e corriam desvairados para escapar dos cavalos.

Flávio cavalgou ao grupo que mantinha posição e abateu dois homens com arcos que apontavam para ele, os golpes cortantes de sua espada decapitando um soldado e praticamente dividindo o outro ao meio na altura do peito. Átila olhou com aprovação e saltou da montaria, pegou nas mãos o sangue do ferimento do segundo homem e espalhou no cavalo e no corpo de Flávio, puxando-o para baixo e sujando seu rosto. Ele o colocou ereto novamente, com o rosto vincado de prazer, depois se retesou e rugiu, um forte berro que foi adotado e repetido pelos cavaleiros hunos à volta até que todos pareciam uma horda de touros furiosos. Átila recuou, ofegante e suarento, o sangue pingando de seu rosto.

— Aposto que seu tio Aécio não pode fazer isto — berrou ele, rugindo de novo.

O cavalo de Flávio empinou e ele o colocou sob controle, a adrenalina tomando seu corpo. Pegou uma lança abaixo e cavalgou a outro pártio, perfurando-o onde estava, depois a largou e se afastou com um grupo de arqueiros que galopou a seu redor, envolvendo-o e motivando-o. Um deles lhe atirou um arco com três flechas e ele soltou as rédeas, cavalgando somente com os joelhos. Puxou uma flecha e soltou-a em outro grupo de pártios, atingindo um deles na perna, porém quase caiu do cavalo com o gesto, as pernas bem apertadas ao animal enquanto se endireitava.

Os hunos à volta gritaram sua aprovação e ulularam, um estranho uivo acima do campo de batalha; depois, afastaram-se de novo, atendendo ao chamado de um comandante por um movimento de rotação em massa para descarregar o maior número de arcos que fosse possível em um grupo de pártios protegidos pelo círculo de carroças. Flávio soltou as duas flechas restantes, sem saber se encontraram o alvo, pendurou o arco e sacou mais uma vez a grande espada, cavalgando em uma roda contínua e larga pelo círculo de carroças com os arqueiros, vendo-os soltar uma flecha depois de outra até que não restasse nenhum prisioneiro de pé. Ele respirava o cheiro da batalha, de cavalos e poeira, seu próprio suor e a adrenalina, o sangue e o medo dos pártios. Percebeu que gritava a plenos pulmões, berrando, o som completamente submerso no barulho a sua volta, mas não se importou. Divertia-se e aprendia o que significava ser um guerreiro huno. Aprendia o que motivava Átila.

À medida que a poeira assentava e o campo clareava, com o chão denso de cadáveres de pártios, Flávio partiu na direção da cidadela, colocando a espada na bainha e procurando por Átila.

Bleda veio cavalgando em sua direção, parou e o contornou, com um esgar de desdém na face.

— Átila tem outros assuntos a tratar. Disse-me para levá-lo a seus amigos e acompanhá-los na saída — anunciou ele. — E não espere nenhum favor de mim, romano. Eu o teria matado prontamente na sala do trono, quaisquer que fossem suas mentiras e lisonjas.

Flávio tirou a armadura, largando-a no chão junto com a espada, e seguiu Bleda, que acelerava. Começou a esfriar depois da empolgação, tomando um longo gole de água do odre pendurado no pescoço do cavalo e jogando um pouco no rosto, vendo escorrer o sangue dos pártios que tinha matado quando limpou o queixo com a mão. Agora já fazia mais de cinco horas desde que deixara seus companheiros, muito mais tempo do que imaginaram ser possível prender a atenção de Átila, e ele só podia torcer para que tivessem conseguido entrar na sala-forte. Mas o envolvimento de Bleda era uma adição indesejada, um homem desconfiado e volátil por natureza que, a qualquer sugestão do que eles estavam fazendo, podia encerrar a missão com uma velocidade apavorante.

Eles chegaram à entrada da cidadela, amarraram os cavalos e tomaram o mesmo caminho feito por Erecan. No ponto em que Flávio seguira sozinho para a câmara de audiência, eles viraram à esquerda, descendo uma passagem com piso de pedra que parecia penetrar nos recessos mais fundos da cidadela. Depois de cerca de cem passos, viraram à direita e Flávio ficou petrificado. À frente, no chão, estavam os cadáveres de dois guerreiros hunos, claramente os guardas do arsenal que agora era visível adiante. Na fração de segundo que Flávio precisou para registrar os dois, Macróbio lançou-se das sombras em Bleda, obrigando-o a recuar contra a parede. Os dois homens caíram embolados no chão, Bleda rosnando como um cão e Macróbio tentando desesperadamente prendê-lo em uma chave de braço. Flávio sacou a espada e tentou encontrar uma oportunidade de usá-la, mas os dois homens rolavam pelo chão como se fossem um só. De repente Macróbio estava de joelhos, segurando a cabeça de Bleda e levando-a contra o chão com um estalo, recuando enquanto o huno cambaleava. Depois ele se sacudiu e investiu novamente, atacando como um touro. Macróbio puxou a própria espada bem a tempo e a desceu com toda força no bíceps direito de Bleda, cortando o músculo grosso e o osso e decepando seu braço pouco acima do cotovelo. O huno berrou de dor, o braço jorrando sangue, e procurou a espada às apalpadelas antes de escorregar no próprio sangue e cair pesadamente em um anteparo de madeira elevado junto da lateral da passagem, quebrando a base das costas com um esmagar nauseante de osso.

Erecan apareceu na passagem, de arco em punho, seguida por Arturo, e Bleda tentou se mexer, virando-se loucamente para eles com a mão esquerda, o rosto contorcido de fúria e dor. Erecan baixou o arco e Bleda deixou cair a espada, segurando o coto do braço direito, as pernas paralisadas. Olhava para ela, respirando com dificuldade, o lábio torcido de desprezo.

— Vamos, filha de uma meretriz. Mate-me.

— Prefiro não desperdiçar a flecha.

— Sua mãe não foi tão inepta quando a matei. Esperneou e gritou como uma verdadeira huna.

— Então foi você — sibilou Erecan.

— Seu pai não queria macular as mãos com o sangue de uma mulher. Para mim, não era problema fazer este trabalho sujo.

— Pensei que você tivesse se enfurecido comigo porque contei a Átila que sabia que ela era minha mãe e porque ele ordenou a morte dela, a morte da sua amante.

— Bah. — Bleda cuspiu. — Existem meretrizes aos punhados pelo mundo. Eu estava enfurecido porque tinha a sede de sangue huna, o que significa que quando você mata uma mulher, quer matar também toda sua prole.

Erecan ficou imóvel por um momento, depois arreganhou os dentes como um animal e disse algo feroz a Bleda na língua dos hunos, um rosnado, um ruído gutural que fez Bleda pegar a espada com o braço restante e tentar se erguer. Em um movimento rápido, Erecan retirou o arco das costas, preparou uma flecha e atirou. A flecha atravessou sua cabeça e se fincou do outro lado da passagem com um pedaço do crânio — o buraco na testa de Bleda ainda bombeando sangue. Ela olhou fixamente para o tio, observando seus olhos ficarem vidrados e a boca se abrir, a poça de sangue rapidamente se espalhando pelo chão.

— Agora eu realmente não posso ficar — disse ela.

— A mim, está bem assim — falou Arturo. — Posso usar uma arqueira huna em meu exército.

— Vai de fato voltar à Bretanha? — perguntou Macróbio, apoiando-se na espada e respirando com dificuldade.

Arturo assentiu.

— Fiz tudo que pude por Roma.

Flávio olhou os três.

— E então?

— Então o quê? — indagou Erecan.

— Mostraremos a ele? — Arturo sorriu.

— Por que não?

Ela os levou rapidamente pela passagem, passando pelos guardas mortos até o arsenal, uma vasta câmara cheia de armas e armaduras de cada gênero, prateleiras de espadas e arcos hunos, e passaram por outros dois corpos esparramados a uma grade de metal aberta numa extremidade. Ela gesticulou com uma pesada chave de ferro.

— Só a filha de Átila sabe onde ele a esconde, em uma câmara secreta abaixo do grande tímpano, que fica no alto da cidadela e é usado para dar o alarme — disse ela.

— Parece que vocês encontraram alguma resistência — comentou Flávio, passando pelos dois cadáveres ensopados de sangue, abaixando-se e alcançando a entrada da sala-forte.

— Há outros três mortos do outro lado da sala.

Flávio se espremeu para dentro e arquejou de espanto. Era como um covil de dragão repleto de ouro: uma vasta quantidade de moedas, algumas se derramando no chão, bem como saques em metal precioso de toda parte aonde Átila levara o exército, de placas de ouro pártio a pesados pratos de prata da Gália decorados com cenas clássicas e motivos cristãos. Mas foi o objeto que Erecan retirou de uma plataforma no meio que lhe tirou o fôlego, que fez tudo o mais assumir um tom cinzento. Era uma grande espada, do tamanho das usadas na cavalaria, como aquela que ele acabara de brandir contra os pártios, mas com um punho decorado com um pomo preto e reluzente e uma lâmina brilhando com um lustre cristalino extraordinário.

— A espada de Átila — disse Erecan, entregando-lhe. — Cuide bem dela.

Flávio sentiu o peso da lâmina, seu equilíbrio perfeito, e a sacudiu, sentindo-a ceder um pouco. Quem quer que a tivesse feito, os ferreiros da ilha muito a leste de que Prisco falara, eram mestres artesãos, capazes de forjar uma lâmina de beleza inigualável, mas também uma arma de guerra de afiação perfeita. Ele olhou, sem acreditar no que segurava, e se lembrou de onde estavam e do pouco tempo que tinham antes que soassem o alarme. Pegou a bainha de couro que Erecan lhe estendia, colocou nela a espada e se virou para a entrada.

— Precisamos sair daqui.

Macróbio o seguira para dentro e olhou melancólico para o ouro derramado no chão. Falou:

— Um pagamento simbólico por uma pequena fazenda nas colinas da Etrúria, é só o que peço.

Flávio lhe deu um tapa no ombro.

— Muito bem, centurião. Pegue o que conseguir pelos próximos dois minutos, desde que divida igualmente entre os homens do numerus. Mas não tanto a ponto de que fiquem moles e desistam da luta. E isso vale para você também.

Macróbio o olhou sem compreender.

— Desde quando lutamos pelo ouro? Não me lembro da última vez em que fui pago.

— Entendo sua situação. Acabe logo com isto.

Macróbio ajoelhou-se e colocou punhados de moeda na bolsa, pendurando-a nas costas e seguindo Erecan e Flávio. Eles se juntaram a Arturo, rapidamente reuniram as armas e bolsas e seguiram atrás de Erecan por outra passagem à muralha externa da cidadela, a uma pequena entrada para a planície. Nas sombras do lado de fora, dois guerreiros hunos aguardavam com meia dúzia de cavalos. Macróbio pôs a mão na espada, mas Erecan o deteve.

— São Optila e Trastila, minha guarda pessoal — disse ela. — Ordenei que acompanhassem vocês a Roma. Assim que meu pai descobrir a minha fuga e o desaparecimento de Bleda, enviará cavaleiros por todas as principais rotas, mas teremos uma dianteira partindo agora e viajando no escuro. Se ele o alcançar depois disso, sua recepção não será tão amistosa. A maioria dos ladrões é esfolada viva, mas roubar esta espada exigiria uma punição singular.

— Entendido — respondeu Macróbio, pendurando as bolsas dele e de Flávio nos dois cavalos e amarrando-as. Flávio enrolou a espada na sotaina de sua bolsa e a prendeu às costas, subindo em um dos cavalos. Os outros o acompanharam e, juntos, partiram para o oeste, ao sol poente, deixando a cidadela e seu rei para trás na névoa. Pouco depois, ouviram o clamor e o bater do grande tambor enquanto o alarme era soado.

Eles partiram em cavalgada pelas próprias vidas.

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