Total War: A espada de Átila

David Gibbins · Capítulo 14 de 27

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Total War: A espada de Átila

Capítulo 8

 

Naquela noite, Flávio deitou-se com Una nas areias ao lado da foz do rio Tibre, olhando o luar dançar na superfície ondulada do mar Tirreno. Tinham chegado de Roma naquela tarde no cavalo de Flávio, pela cidade dilapidada de Óstia, passando pelo canal que levava ao porto octogonal de Portus, e foram até a grande extensão de areia perto de Âncio, que se alongava ao sul até onde a vista alcançava. Agora apareciam menos embarcações no Tibre do que nos tempos da juventude de Flávio, a queda de Cartago tendo interrompido o comércio de cereais e óleo africanos. A última nave do dia partira horas antes, a solidão dos dois desde então rompida apenas por alguns pescadores que foram lançar suas redes no início da noite, mas partiram ao cair a escuridão.

Flávio se apoiou em um cotovelo, pegando algumas uvas da comida que levaram, bebeu de um jarro de vinho e observou Una, deitada de olhos fechados e estendida na manta a seu lado. Ela tinha pernas longas e era mais alta do que ele, de maçãs do rosto pronunciadas e cabelo preto bem encaracolado mesmo entre o povo de Roma acostumado a escravos e soldados de toda parte do mundo, ela erguia sobrancelhas ao passar pelas ruas e mercados, mais bela aos olhos de Flávio do que qualquer das mulheres pálidas de famílias nobres que desfilavam interminavelmente diante dele como candidatas adequadas ao casamento.

Una não era parecida com as escravas de pele negra que ele vira vendidas como exotismo nos mercados de Roma, escravas que diziam ter vindo de terras muito distantes ao sul do grande deserto africano; tampouco se parecia com as núbias e berberes que se aglomeraram em Cartago em seus últimos dias. Ela era de uma terra africana a leste, onde o rio Nilo se eleva nos planaltos que davam para o mar da Eritreia, um lugar que ela chamava de Etiópia. Ela lhe contou que nos planaltos de sua terra natal, as mulheres corriam entre as aldeias levando mensagens e notícias, cobrindo sem qualquer esforço 48 quilômetros ou mais em um dia, mais até do que uma marcha de um dia para um soldado. Quando desciam do ar rarefeito do planalto às planícies e ao deserto, podiam correr ainda mais e com maior velocidade. Ele vira isso com os próprios olhos nas muitas ocasiões em que a trouxera de Roma para o lugar onde estavam, e ela repetira o feito este fim de tarde, Flávio a meio galope ao lado dela enquanto Una cobria quilômetros e mais quilômetros, sua respiração mal se acelerando e as pernas parecendo flutuar acima da areia.

Depois disso, fizeram amor e nadaram no mar, e a pele de Una ainda brilhava da água que deixou o gosto de sal nos lábios de Flávio, um gosto purificador que por algumas preciosas horas tornou as maquinações de Roma e a venalidade do imperador e sua corte uma irrelevância distante.

Ela abriu os olhos e se sentou ereta, puxando o manto contra o primeiro frio da noite e olhou o mar, sem nada dizer. Flávio se aproximou a seu lado, arrastando a jarra e tomando outro gole, sentindo no ventre o calor do vinho.

— No que está pensando? — perguntou ele, limpando os lábios e passando a jarra a Una.

Ela a pegou, levou aos lábios e a baixou.

— Pensava em Quodvultdeus, o bispo de Cartago.

— Por que pensar naquele monstro, neste lugar? Ele quase a matou de pancadas no barco em Cartago. Se Macróbio não tivesse me contido, eu o teria matado com minhas próprias mãos.

Ela ficou em silêncio por um momento e depois falou em voz baixa:

— Você deve se lembrar do que eu passei. Depois que os mercadores de escravos me raptaram de minha aldeia na Etiópia, passei dois anos trabalhando para um proxeneta núbio, enjaulada com outras mulheres em carroças que viajavam de um oásis a outro, esperando para servir aos homens das caravanas de camelos quando apareciam. Eu já sabia do cristianismo pelos seguidores do monge Frumêncio, que levou a nova religião da Alexandria a meu povo, e ele se tornou minha salvação; saber do sofrimento de Jesus e dos dois ladrões nas cruzes me deu forças para continuar. Quando o bispo Quodvultdeus apareceu um dia, apontando para mim e outras duas mulheres, oferecendo uma bolsa de ouro ao proxeneta, pensei que o próprio Cristo respondera a minhas preces e caí de joelhos, em adoração. Mais tarde, quando nos liderava em oração, fascinando a nós todas com seus olhos messiânicos e voz grave, ele costumava dizer que éramos as inocentes sagradas, que aqueles que nos maltrataram e descarregavam sua fúria sobre nós na realidade nos homenageavam, como Herodes fez quando derramou sua fúria sobre o menino Cristo. Foi só muito mais tarde, depois de estar muito tempo sob seu feitiço, que percebi que ele não era mensageiro de Cristo, mas um homem venal e cruel que queria satisfazer os próprios desejos, quando não estava ocupado perseguindo meninos pelos claustros em Cartago.

— Quodvultdeus, “O Que Deus Deseja” — murmurou Flávio, jogando uma pedra nas ondas. — Se um homem assim pensa ser o que Deus quer, então é melhor ficarmos sem uma Igreja.

— Jamais perdi minha fé — continuou Una —, porque o cristianismo ensinado em minha terra não é o cristianismo de Roma. Nunca vi Quodvultdeus como um intermediário de Deus, apenas como alguém que em minha imaginação febril parecia ter sido enviado por Deus para trazer libertação. Depois que vi quem ele realmente era, enxerguei a verdade da Igreja que ele representava, um vaso oco criado pelos homens para satisfazer as próprias ambições e anseios, tão distante de Deus como ele é das cortes dos imperadores.

Flávio franziu os lábios, olhando o mar.

— Da última vez que eu tive notícias, Quodvultdeus se fez nomear inquisidor especial do bispo de Roma em Nápoles, liderando um esquadrão de brutamontes de casa em casa para arrancar os chamados hereges que não acreditavam que o bispo pode julgar junto do próprio Cristo.

Una estremeceu, fechando mais o manto junto ao corpo.

— Isso fica apenas a dois dias de cavalgada daqui. Quanto mais perto ele chega, mais quero partir. Já sou visível o bastante em Roma, mas os métodos que ele usa para arrancar confissões levarão alguém a apontar o dedo para mim, em algum momento.

Flávio a olhou de lado.

— Você costuma sair em silêncio à noite e só volta ao amanhecer. Nunca lhe fiz perguntas, mas fico conjecturando.

Una pôs a mão no braço dele, apertando, depois a colocou por baixo do manto.

— Agora você pode muito bem saber. Nós nos reunimos nas catacumbas, abaixo de Roma e da Via Ápia. São lugares secretos, conhecidos por poucos.

Flávio a olhou atentamente.

— Conheceu Pelágio?

— Nunca sabemos os nomes daqueles que nos lideram em oração, nem vemos seus rostos. É perigoso demais para eles. Tem sido assim por quase quatrocentos anos, desde logo após a crucificação, quando os apóstolos chegaram a Nápoles e Pompeia, adorando em segredo em meio aos fossos de enxofre dos Campos Flégreos, antes de se dispersarem para Roma, quando as primeiras catacumbas foram cavadas. Somos um cristianismo subterrâneo, sempre escondido, agora perseguido pela Igreja de Roma como éramos nos tempos pagãos.

— O que você fará?

Ela colocou a mão entre as dobras do manto e pegou uma cruz dourada em um colar que tinha retirado quando foi correr, uma treliça complexa de figuras geométricas com um quadrado na base que ela lhe disse representar a Arca da Aliança. Una a ergueu, o luar brilhando através da treliça, e se virou para ele.

— O que você sabe sobre o reino de Aksum?

Flávio fez uma pausa antes de responder:

— É o lugar que Arturo disse que seus dois escravos núbios procurariam quando os enviou para longe, antes da queda de Cartago. Disse que lhes proporcionaria um porto seguro e liberdade da escravidão.

Ela baixou a cruz e olhou o horizonte.

— Aksum faz fronteira com minha terra ao norte, ocupando os vales e colinas que descem ao mar da Eritreia. É a primeira nação a que você chega quando viaja ao sul, partindo do Egito. Sua capital tem grandes colunas de granito, mais altas até do que a Coluna de Trajano, e tumbas e casas escavadas na pedra viva, construídas por uma antiga civilização que alguns acreditam ter sido uma das últimas tribos de Israel, aquelas que trouxeram a Arca da Aliança. Desde os tempos de Constantino, o Grande, quando o monge Gregório converteu ao cristianismo o rei aksumita Ezana, o reino ficou ainda mais forte, espalhando sua influência ao norte para o Egito, ao sul, para o Chifre da África e a leste, pelos estreitos para a Arábia, a terra dos sabeus. Controla o comércio no mar da Eritreia da Índia ao Egito, mas sua verdadeira força está no cristianismo. É a palavra ensinada por Jesus, espalhada de uma pessoa a outra, de uma aldeia a outra. Não há padres em Aksum, nem bispos. Todos são bem-vindos, qualquer que seja sua fé, judeus, pagãos, os árabes com sua religião do deserto, desde que sigam o caminho da paz.

— Deseja voltar, Una?

Ela segurou a cruz com uma das mãos e pegou a dele com a outra.

— Você sabe que não posso lhe dar filhos. O proxeneta e sua esposa cuidaram disso. E agora, diante de nós, só pode haver longas ausências, campanhas e batalhas, e então, um dia, você não voltará. Todos em Roma sabem o que o futuro nos reserva. As mães estão mimando seus filhos, pois têm consciência de que logo serão levados para a guerra. À noite, as arquibancadas do Circo Máximo ao lado de nossos aposentos ficam cheias de amantes que não estão dispostos a esperar um minuto a mais pelo casamento. Pais em idade militar, que temem a convocação, levam os filhos pelos monumentos de Roma, ensinando-lhes tudo que sabem enquanto ainda têm tempo. E não apenas os homens correm risco de ter suas vidas encurtadas. Se as trevas caírem sobre a própria cidade de Roma, se Átila chegar, se os vândalos invadirem por mar, a vida de todos nós corre perigo. Há cada vez mais rumores do Apocalipse bíblico, de um iminente dia do Juízo Final, boatos espalhados pelos monges de Arles e agora entretidos por outros que desceram à cidade aos magotes, monges verdadeiros e charlatães, convencendo as pessoas a abrir mão de todo seu ouro e prata em troca de uma oração especial ao Senhor.

— O exército vencerá — disse Flávio, com emoção na voz. — Derrotaremos Átila.

Una balançou a cabeça e o olhou, segurando com força sua mão.

— Isso não faz diferença para nós. Já me decidi. — Ela chorava, mas havia um fervor em seus olhos que ele nunca vira. Ela os enxugou e continuou. — Ouço quando vocês conversam: você, Arturo e os outros oficiais que partilham suas visões, seguidores de seu tio Aécio. Assim como você deseja escapar do imperador e tomar para si a guerra contra os bárbaros nas fronteiras, nós desejamos arrancar o cristianismo das garras da Igreja e levá-lo a lugares para além do Império, para além do alcance dos padres e bispos. Alguns irão para o norte, Pelágio inclusive, para tentar estabelecer uma nova cabeça-de-ponte cristã na Bretanha. Mas outros entre nós pretendem ir para o sul, a Aksum. Agora mesmo, monges do leste, que se afastaram da Igreja em Constantinopla, vão para lá e logo serão seguidos por outros do oeste. Alguns acreditam que Aksum é a terra prometida, que pode se tornar o reino dos Céus na terra.

— Sente que Deus a está chamando? — indagou Flávio, sua voz vacilando.

— Só o que eu sei é que pude levar a palavra de Jesus às outras mulheres escravizadas comigo no deserto e isso lhes deu esperança. Se puder fazer o mesmo ao povo distante nas montanhas de minha própria terra, terei encontrado propósito na vida. E quero voltar a correr, não por estas areias que levam somente ao sul, a Nápoles e à perseguição, ou ao norte, à guerra, mas entre as aldeias de minha terra, nos planaltos da Etiópia, levando apenas mensagens de paz. Já estou farta de Roma e suas guerras.

Ela se virou e tirou mais alguma coisa das dobras do manto, entregando a Flávio. Era uma pedra pequena, preta e lisa, suspensa de um fino cordão de couro que fora passado por um orifício no meio.

— Encontrei este pedaço de azeviche nos arredores de minha aldeia quando eu era criança. Ele ficou gasto e liso de tanto que o toquei. Fique com ele e se lembre de mim.

Atrás deles, o cavalo de Flávio relinchou e pisoteou, descendo do outeiro relvado nas dunas, onde estivera pastando enquanto os dois nadavam. Flávio pegou a cevadeira que tinha preparado e se levantou para alimentá-lo, acariciando o focinho e sussurrando em seu ouvido, depois deu um tapa em seu flanco enquanto ele ia a meio galope até o rio para beber. De repente sentiu-se sozinho, de pé atrás de Una, que olhava o horizonte, observando seu cavalo baixar a cabeça para a água, onde o Tibre corria para o mar. Esperava ser ele a dar a Una a notícia de sua partida iminente, mas, em vez disso, ela virara a mesa. Flávio sentia-se desconcertado com isso, confuso, incapaz de responder. Entretanto, de pé ali, postado entre ela e o cavalo impaciente, Flávio sabia onde estaria seu futuro. O livre-arbítrio pregado por Pelágio e seus seguidores era ótimo, mas, em um mundo à beira de implodir, a vida dos homens era tão limitada como aquela dos gladiadores da Antiguidade no Coliseu. Ele estava tão preso à guerra como Una a sua visão da paz.

Ele ouviu um barulho distante, uma batida de tambor, e olhou o mar. À luz da lua, uma galé entrava no campo de visão, uma liburna de um convés, uma das patrulhas que eles viram partir na foz do Tibre logo depois de terem chegado. Mesmo ali, na praia, sob as trevas, a sensação de paz era uma ilusão. Por meses, a marinha vândala de Genserico de Cartago esteve atacando e saqueando pela costa, usando as embarcações romanas que ele vira abandonadas no porto de Cartago antes de sua queda. Arturo tinha razão em sua previsão naquele dia: os guerreiros da floresta tornaram-se guerreiros do deserto e agora do mar. Genserico não se contentaria em descansar sobre os louros em Cartago, mas levaria seus homens pela única rota de campanha aberta a partir dali, saindo para o Mediterrâneo. Todos os estrategistas de Roma sabiam que era só uma questão de tempo para que o ataque e os saques se transformassem em um assalto por mar. A marinha romana era fraca demais para enfrentar Genserico em uma batalha naval de larga escala e, assim, a única esperança era uma vitória para o exército, não contra os vândalos, mas contra os hunos, uma vitória que permitiria aos soldados se reposicionarem por esta costa para contra-atacar uma invasão.

Entretanto, mesmo esta estratégia era despedaçada de incertezas: qualquer vitória contra Átila provavelmente seria de atrito, deixando o exército romano fraco demais para se reposicionar com eficácia. Tudo era periclitante. A única coisa que parecia certa era que um dia, em breve, estas praias, como aquela diante de Troia, ficariam vermelhas de sangue, que aqueles que restaram para defender Roma fariam os invasores pagarem um alto preço entre as dunas e vales do litoral.

O cavalo voltou e chutou a areia. Una se levantou e Flávio rapidamente enrolou a manta, deixando as uvas e a jarra vazia no chão. Pulou no cavalo, controlando a rédea enquanto ele dava um pinote, relinchando e pisoteando mais uma vez, depois estendeu a mão, puxando Una para cima, atrás dele. Ela o abraçou com força, seus seios quentes nas costas de Flávio, e eles cavalgaram com vigor para Roma.

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