Total War: A espada de Átila

David Gibbins · Capítulo 26 de 27

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Total War: A espada de Átila

Nota do Autor

 

As páginas seguintes dão um breve acompanhamento histórico ao romance, inclusive o relato do extinto mundo romano no Ocidente, a administração do império, o cristianismo, Santo Agostinho e Pelágio, e o exército romano no quinto século d.C., e termina com um resumo das fontes históricas e arqueológicas do romance.

 

O mundo romano tardio no Ocidente

 

Quase seiscentos anos se passaram desde a época de Total War-Rome: Destruição de Cartago, meu primeiro romance nesta série histórica. Depois de ser uma república iniciante flexionando seus músculos no Mediterrâneo, Roma tornou-se o centro do maior império que o mundo já conheceu, sua influência estendendo-se do estreito de Gibraltar à baía de Bengala, e da margem do Saara à extremidade norte da Bretanha. No centro de tudo isso estava o exército, pilar da força romana, à medida que os séculos se desenrolavam. Enquanto ditadores tornavam-se imperadores, o império oscilava sob a corrupção e a ambição pessoal, a pressão bárbara nas fronteiras tornava-se muito forte para conter e o populacho caía sob influência de uma nova religião. Um ponto crítico fundamental aconteceu durante os reinados dos imperadores Diocleciano e Constantino o Grande, no final do terceiro e início do quarto séculos d.C. Diocleciano reformou o exército, dificultando para que possíveis usurpadores o reunissem para sua causa e tornando-o mais eficaz nas fronteiras, e dividiu o império administrativamente em dois; Constantino adotou oficialmente o cristianismo como a religião do Estado e transferiu a principal capital imperial de Roma para a antiga colônia grega de Bizâncio, no Bósforo, a nova cidade chamada Constantinopla.

O período do Império Romano tardio no Ocidente refere-se ao século e meio entre esses imperadores e a queda do último imperador do Ocidente, em 476 d.C. A primeira metade deste período foi uma época de restauração da prosperidade e da segurança, enquanto as reformas de Diocleciano e Constantino tinham um efeito positivo. Quem visitasse Roma teria visto uma cidade maior do que havia sido no passado, com novas e magníficas basílicas, inclusive a igreja de São Pedro. Mas a segunda metade foi uma questão inteiramente diferente. Nenhuma flexibilidade estratégica, nenhum tratado ou concessão pôde conter a ameaça bárbara nas fronteiras do Reno e do Danúbio, e era inevitável uma ruptura no tecido do império. Em 376 d.C., na Batalha de Adrianópolis, o exército romano oriental e ocidental combinado foi derrotado pelos godos, que avançaram inexoravelmente pela Grécia e a Itália, até saquearem a própria Roma — um golpe psicológico arrasador do qual o Ocidente jamais se recuperou verdadeiramente. Apesar de comandantes capazes, o exército romano estava paralisado por imperadores fracos, mais preocupados em posicionar o exército para garantir sua própria segurança do que defender as fronteiras. Outros exércitos bárbaros seguiram os godos, de vândalos a saxões, os primeiros marchando pela Gália e a Espanha e os últimos obrigando a retirada romana final da Bretanha. Estava montado o palco para o extraordinário pano de fundo histórico deste romance, uma história de tragédia e inevitabilidade, mas também de coragem e bravura militar, contra tudo e contra todos, feitos que colocam as realizações do exército romano tardio junto daquelas de seus ilustres antepassados de séculos anteriores.

Nos anos 430 d.C., época da abertura deste romance, Roma era um lugar em transformação. Uma parte significativa das classes administrativas agora tinha ascendência bárbara, resultado de chefes tribais germânicos pacificados que enviavam os filhos à Itália para ser educados, de mercenários germânicos no exército acendendo a altas patentes e do casamento inter-racial. Assim como as pessoas viviam com mais medo do que nunca da invasão bárbara, do mesmo modo se toldava a distinção étnica entre romano e bárbaro. Estilicão e Flávio Aécio, os dois comandantes militares romanos mais capazes do século V, eram respectivamente de ascendência vândala e goda, e muitos entre os soldados comuns tinham ancestrais que foram inimigos mortais de Roma nas florestas para além do Reno e do Danúbio apenas algumas gerações antes.

Também ocorriam mudanças significativas no estilo de vida e na cultura material. Os pergaminhos eram substituídos por códices, livros como os conhecemos hoje; as togas eram descartadas em favor de calças e túnicas. O antigo sistema monetário, baseado no denário de prata, deu lugar a um novo padrão de ouro na forma do solidus, com a cunhagem em prata e em metal básico sem ampla aceitação, como resultado da corrupção e da instabilidade econômica. A aparência da cidade de Roma, não mais capital do império, também mudava. Na época de meu primeiro romance, ambientado no segundo século antes de Cristo, o Coliseu, o Panteão e os palácios imperiais ainda seriam construídos; no quinto século d.C., já eram monumentos do passado; a última exibição de gladiadores no Coliseu acontecera em 386 d.C. e os palácios agora eram secundários às novas capitais imperiais em Constantinopla, no Oriente, e Milão e Ravena, no Ocidente. As construções que sobreviveriam — templos, tribunais e anfiteatros — em geral só ficaram de pé porque foram convertidas em lugares de adoração cristã. O século V também viu os primórdios de uma nova ordem, que, contudo, veio a ruir perante o estabelecimento do mundo que reconheceríamos como medieval; e por trás dessa queda às trevas, estava um comandante de guerra bárbaro mais do que qualquer outro, a temida figura de Átila, o Huno.

 

Administração do império

 

Os primeiros imperadores costumavam alegar que eram meros guardiões da república, que o título princeps era apenas outra versão do antigo título emergencial dictator assumido por Júlio César para guiar a república pelas guerras civis. Naturalmente, isto era uma ficção; depois de Augusto, a Roma antiga nunca voltou a ser uma república. Mas sobreviveram suas principais instituições administrativas, em particular o Senado, e a forma legada de administração provincial estabelecida na república tardia forneceu uma planta-baixa para o império. O sucesso deste sistema nas novas províncias dependia do fortalecimento da elite nativa — estimulando-os a assumir papéis administrativos nas cidades e a ver o que havia de atraente na romanização.

Se pensarmos nos grandes monumentos pelo império, nos anfiteatros, aquedutos e basílicas, poucos foram de fato encomendados e financiados por Roma; muitos foram o resultado da generosidade competitiva entre aristocratas nativos romanizados, homens que queriam fortalecer seu prestígio e garantir a eleição a um cargo. Em uma província como a Bretanha, a maioria do povo com estilo de vida romano era de nativos, os soldados da reserva compondo a única população imigrante de porte, integrada pelo casamento — e os veteranos nem sempre eram eles mesmos romanos, ou sequer da Itália. Este sistema se provou um meio eficaz de manter a paz e a prosperidade nas províncias, estimulando uma geração rica o bastante para manter uma alta taxa de impostos e proporcionando a base para sua coleta pelo desenvolvimento de cidades e redes viárias.

As circunstâncias que levaram às reformas do imperador Diocleciano foram uma ruptura maciça em seu sistema administrativo durante o terceiro século d.C. — um período que viu mais de trinta imperadores, bem como um aumento da pressão bárbara nas fronteiras e um colapso econômico que ameaçava ao mesmo tempo o abastecimento de comida para o exército e o metal precioso necessário para seu pagamento. Em vez de tentar reconstituir o antigo sistema, Diocleciano e seus conselheiros criaram uma estrutura mais rígida, baseada em províncias menores, organizadas em “dioceses”. A antiga província da África Proconsular, por exemplo, transformou-se nas três províncias de Bizacena, Zeugitânia e Tingitana; a Bretanha tornou-se Britannia Prima e Britannia Secunda. Mais tragicamente, ele dividiu o império em Ocidente e Oriente, com uma tetrarquia governante composta de um “Augusto” maior e um “César” menor em cada uma. Ao fazer isso, preparou o caminho para Constantino criar a nova capital imperial no Bósforo e para a mudança na Itália, afastando-se de Roma para Milão e Ravena. Além de ser uma questão de comodidade administrativa, a divisão de Diocleciano reconhecia as diferenças sociais, econômicas, linguísticas e religiosas arraigadas entre Oriente e Ocidente, e, por fim, levou a sua criação formal como impérios separados em 386 d.C. Na época deste romance, portanto, os soldados do exército do Ocidente não teriam de jurar aliança a um imperador “maior” em Constantinopla, mas a seu próprio imperador na nova capital ocidental de Milão.

Os imperadores romanos tardios em geral nos parecem mais autocratas e despóticos do que seus predecessores. Em parte, isto foi uma consequência do maior controle estatal sobre as atividades econômicas, inclusive a produção de alimentos e equipamento para o exército, bem como a obrigação de o povo se limitar a suas ocupações, tornando muitos trabalhos hereditários por lei.

Outro fator foi a alteração no foco para o Oriente, onde era mais profundamente arraigada a tradição de reis semideificados. Enquanto em Roma o imperador e sua família foram uma presença visível, em Constantinopla e nas novas capitais na Itália a corte imperial era mais distante e majestosa. Esta distância está incorporada na estátua de Constantino erguida em sua nova basílica no fórum em Roma: colossal, altamente estilizada e fitando os céus, em vez de olhar o povo, ironicamente encomendada quando ele estava prestes a renunciar à religião pagã e ao culto imperial. Se olharmos os retratos cunhados dos imperadores ocidentais durante o século seguinte, a imagem é variada, alguns mostram o realismo de imperadores-soldados, para quem o despotismo significava ser obstinado e brutal, em vez de qualquer tipo de imagem pessoal elevada. Os problemas surgiram por tentativas de sucessão dinástica em que imperadores fracos eram apoiados por homens com ambições sinistras; comandantes capazes de exército, como Estilicão e Aécio, podiam passar mais tempo combatendo intrigas da corte do que a invasão bárbara. Isto, bem como a rixa dinástica, viria a se provar uma parte importante da ruína do Ocidente romano como uma entidade administrativa no quinto século d.C.

 

Cristianismo

 

Uma enorme mudança na Antiguidade tardia foi o surgimento do cristianismo como religião de Estado. Sua adoção nasceu da guerra — uma visão em batalha fez o imperador Constantino se converter ao cristianismo, levando a sua aceitação pelo Estado em sua morte, em 331 d.C. O cristianismo parecia oferecer mais ao povo do que a religião romana pagã. Em sua forma inicial, três séculos antes de Constantino, o cristianismo era menos uma religião — no significado latino original da palavra, uma “obrigação” — do que um curso de ensinamentos morais, mais filosófico, interativo e relevante à vida cotidiana do que a religião pagã. Era, inclusive, receptivo a todos, enquanto a religião pagã, no nível do Estado, era exclusiva e remota, limitando a participação nos rituais aos sacerdotes e privilegiados. Em uma época em que a crueldade volúvel era lugar comum, a tradição judaico-cristã proporcionava um código de moralidade que tinha poucos precedentes no mundo clássico; não havia equivalente aos dez mandamentos na Roma pagã, apenas obrigações de sacrifício e veneração e ameaças de represálias divinas contra aqueles que não cumprissem os ritos. O cristianismo atraía os oprimidos, mostrando-lhes como ter forças com uma vida abertamente moral, e assim proporcionava consolo aos menos privilegiados, que eram severamente limitados a sua alçada no mundo antigo para a melhoria social ou o ganho material.

Seria equivocado, porém, pensar que aqueles no poder em Roma que tornaram o cristianismo a religião do Estado tenham sido influenciados por esses fatores. Para Constantino, o Grande, era mais uma questão de realpolitik do que revelação pessoal, apesar de sua alegação de ter “visto a luz” na batalha contra seu rival Magêncio em 312 d.C. Constantino provavelmente sabia como os governantes sassânidas da Pérsia — arquirrivais de Roma no Oriente — usaram o monoteísmo para proveito próprio, subordinando o zoroastrismo para fortalecer a própria base de poder. Os imperadores romanos, já no século III, estimularam a adoração de Sol Invictus, “o Sol Invencível”, semelhante à adoração do Deus Sol no antigo Egito, e o alinharam com o culto imperial. Deste modo, prepararam o caminho para a transição ao deus judaico-cristão único depois de 331 d.C.

Com a conversão ao monoteísmo, o imperador perdia seu status divino, a base para o culto imperial — não podia mais ser um deus —, porém esta concepção foi rapidamente substituída pela do imperador como divinamente nomeado, como o escolhido de Cristo, igual aos apóstolos. Por conseguinte, os primeiros imperadores cristãos podiam até ser mais divinos em seu comportamento do que os predecessores, alguns exercendo poderosamente esta nova imagem, porém os mais fracos existindo como pouco mais do que símbolos, vivendo remotamente em seus palácios, marionetes nas mãos dos homens fortes que realmente administravam o império.

De outras formas também, a transição para o cristianismo de Estado representou menos uma sublevação do que se poderia imaginar. A antiga “tríade capitolina”, os deuses Júpiter, Juno e Minerva, traduzia-se na Santíssima Trindade de Pai, Filho e Espírito Santo. A Mater Magna foi incorporada na Virgem Maria e os muitos santos que logo proliferaram na Itália e em outros lugares tomaram o lugar de deuses locais pagãos. A ideia de padres divinamente ordenados, como intermediários necessários entre o povo e Deus, deu ao clero um status semelhante ao do antigo sacerdócio, aprimorado pelo desenvolvimento de rituais e liturgias arcanas que posteriormente o distanciaram do povo. O cristianismo começava a assumir muitas daquelas feições que afastaram o povo da religião pagã. Como Constantino havia previsto, o caráter inclusivo do cristianismo — o tamanho de sua congregação — implicava que a população podia ser controlada por intermédio da Igreja. A origem da moralidade cristã na pobreza e na abstinência era adequada a um império de tributação alta, cargos hereditários e servidão para muitos cidadãos, que eram quase escravos, mas que, como cristãos, provavelmente aceitariam melhor seu quinhão. Longe de ser uma transição para o esclarecimento depois de um passado pagão cruel e amoral, o cristianismo tornou-se um meio para uma administração totalitária controlar e oprimir uma população que, de outra forma, entraria em colapso na anarquia e se voltaria contra o imperador.

Na época deste romance, cem anos depois de Constantino, muitas instituições do cristianismo tardio tornavam-se bem estabelecidas, inclusive o papado, o bispado e os mosteiros, os primeiros dos quais situavam-se nas aldeias rurais fortificadas típicas deste período. O sistema de datação romana mudou do ab urbe condite, “da fundação da cidade”, para anno domini nostri iesu, do ano do nascimento de Nosso Senhor, uma data fixada pelo monge trácio Antesius. Nas cidades, havia a necessidade premente de construções com tamanho suficiente para receber grandes congregações, proporcionar “casas de Deus”. Em Constantinopla, esta necessidade foi atendida pela grande igreja de Santa Sofia, sua forma em cúpula influenciando o projeto de muitas igrejas no Oriente, bem como as primeiras mesquitas no século VII. Em Roma, foram os antigos tribunais ou “basílicas” — termo originalmente derivado do grego para “rei” e que significava “palácio” — que proporcionaram o plano básico, seu projeto oblongo em colunatas com um apse numa extremidade sendo visto nas primeiras igrejas basílicas, como a de São Pedro. Além disso, muitos templos pagãos transformaram-se em igrejas, como, por exemplo, o Panteão em Roma e outras construções como o Coliseu, que foram consagradas como lugares santos devido a sua associação com o martírio cristão primitivo, garantindo ironicamente sua sobrevivência nos tempos modernos.

Apesar da história inicial do cristianismo, antes de Constantino, como uma religião perseguida, não houve represálias sistemáticas contra aqueles que continuavam a praticar a religião pagã depois de 331 d.C.; estaríamos equivocados em projetar no período romano uma visão condicionada por nossa imagem de extrema intolerância religiosa pela Igreja ocidental no período medieval. No todo, o cristianismo se mostrava atraente às massas e a conversão forçada era desnecessária. O sacrifício pagão foi proibido, mas não o politeísmo. A religião pagã continuou a ter suficiente virtude para que o imperador Juliano “o Apóstata”, em meados do século IV, retornasse ao politeísmo e à perseguição durante seu reinado. Dos quatro principais historiadores do século V, o primeiro deles, Eusébio, era profundamente anticristão, atribuindo os infortúnios do império à rejeição de antigos deuses e à adoção do cristianismo. No exército romano, não pode haver dúvida de que ainda perduravam práticas pagãs profundamente arraigadas, inclusive a adoração de deuses tradicionalmente preferidos por soldados, como Mitras, Ísis e Sol Invictus.

No seio da Igreja, as diferenças no estilo de adoração cristã tornavam-se cada vez mais evidentes entre Oriente e Ocidente, resultando nas distinções que existem até os dias de hoje entre as Igrejas de Roma e Constantinopla. À medida que essas diferenças tornaram-se institucionalizadas, os teólogos envolveram-se em debates sobre questões de doutrina e prática que ficaram cada vez mais obscuros — um paralelo com a tradição sofista do debate filosófico no período clássico tardio, tratando mais do estilo do que da essência. Apesar de sua natureza em geral recôndita, esses debates resultaram em “cismas” que levaram adeptos de uma ou outra posição a serem marcados como hereges e perseguidos, frequentemente até a morte; um número maior de cristãos foi morto por seus colegas de crença desta forma do que atirados aos leões pelos imperadores pagãos, um lado sombrio do cristianismo no Ocidente que mancharia sua história pelos muitos séculos futuros.

 

Santo Agostinho e Pelágio

 

Dois eruditos do início do século V que figuram neste romance destacam-se por seu impacto sobre o pensamento cristão primitivo e pela relação entre o cristianismo romano e a conduta de guerra nas últimas décadas do Império do Ocidente. O primeiro foi o bispo Agostinho de Hippo Regius na África do Norte, mais tarde canonizado como Santo Agostinho; o segundo foi um monge de provável origem bretã chamado Pelágio. Sabemos muito sobre Agostinho porque suas ideias tornaram-se parte do pensamento cristão dominante no Ocidente, por meio de suas duas maiores obras escritas, as Confissões e A Cidade de Deus; Pelágio, por outro lado, foi marcado como herege e nenhum de seus escritos originais sobreviveu.

A Cidade de Deus, de Agostinho, pode ser vista como uma resposta às invasões bárbaras de sua época, bem como à fraqueza endêmica que ele via no Estado romano, levando-o a desprezar impérios terrenos e afirmar que o único império triunfante seria o reino espiritual da Igreja, sua “Cidade de Deus”. Era uma posição que encontraria poucos seguidores na liderança do exército, que procurava por uma Igreja militante para proporcionar um ponto de convergência aos soldados em campo, em vez de uma Igreja que abandonara as questões terrenas e olhava apenas para os céus. Por outro lado, muitas outras afirmações de Agostinho agradavam ao clero e ao Estado porque serviam para fortalecer o poder da Igreja sobre o povo, inclusive sua crença de que os bispos e padres eram ordenados divinamente e que o favor ou a “graça” divina era um pré-requisito da ação humana, algo que exigia a intervenção de padres e os rituais da Igreja que se tornavam estabelecidos neste período.

Foi esta última questão que colocou Agostinho em desacordo com Pelágio, que argumentava que os atos humanos não precisavam de orientação divina ou sacerdotal e que o povo podia se comportar segundo seu livre-arbítrio. O pensamento de Pelágio pode refletir a tendência do individualismo na vida espiritual da Bretanha romana e do antigo mundo celta do noroeste da Europa, entre as pessoas atraídas aos ensinamentos de Jesus quando chegaram à Bretanha no início do império, mas que eram menos receptivas à Igreja romana desenvolvida posteriormente.

O legado desta tradição distintamente do nordeste europeu, em divergência com a Igreja de Roma, pode ser visto mil anos depois na Revolução Protestante e na disseminação do não conformismo na Europa e em outros lugares. O desenvolvimento do pensamento religioso no século V, portanto, não só tem influência direta sobre a estratégia militar da época — se o império “terreno” era ou não digno de combate —, como também sobre nossa compreensão do mundo cristão de hoje.

 

O exército romano em V d.C.

O exército romano tardio era muito diferente do exército republicano de meu romance anterior desta série, Total War-Rome: Destruição de Cartago. O perigo em olhar para eras passadas, onde parecia possível a generalização, tal como a Roma antiga, é o de diminuí-las e aplicar uma imagem bem documentada — de soldados, de estilo de vida, tipos de construção — a todo o período, quando na realidade estamos falando de um enorme intervalo de tempo; os seiscentos anos entre o sítio da Cartago púnica no século II a.C. e as invasões hunas no quinto século d.C. cobrem quase o mesmo período de tempo entre a Batalha de Agincourt e os dias de hoje. Em parte, as mudanças que observamos no exército romano tardio refletem as evoluções que devemos esperar ver por um período de tempo tão longo, mas também devem muito às reformas impostas pelos imperadores Diocleciano e Constantino, mencionados anteriormente.

Em muitos aspectos, sabemos menos sobre o exército romano tardio do que de seu predecessor republicano. Para o exército no século II a.C., temos o extenso tratado militar de Políbio, enquanto nenhum dos historiadores de V d.C. cuja obra sobreviveu era soldado ou estava muito interessado em detalhes militares. Os Notitia Dignitatum, catálogos do quarto século d.C. de cargos do império, fala-nos muito das estruturas superiores de comando, mas pouco da organização no nível da unidade. Ao contrário do início do império, há poucas lápides na Antiguidade tardia com inscrições trazendo informações da carreira militar de um soldado, ou acúmulo de provas arqueológicas e de inscrições de fortificações onde a ocupação por unidades individuais foi mantida por longos períodos. Além disso, poucos sítios e batalhas da Antiguidade tardia foram vitórias cabais para os romanos, e mesmo estes raras vezes foram registrados em relatos de testemunhas oculares ou em mais do que algumas linhas de texto, em geral sem detalhar a tática ou as unidades envolvidas.

Mais uma vez, devido a nossa tendência à miopia, a unir evidências fragmentadas que na realidade estão amplamente dispersas no tempo — mesmo no contexto do exército romano tardio do Ocidente, falamos de um período de um século e meio, de Constantino, o Grande, à queda do Império do Ocidente em 476 d.C. —, alguns relatos modernos do exército romano tardio podem apresentar um quadro espantosamente complexo, enquanto que, se quisermos conhecer o quadro em detalhes a qualquer altura do tempo, ele pode parecer mais organizado e racional. O que mostra a aparente diversidade de patentes e títulos de unidade, em particular quando avançamos no século V, é um exército em evolução e reformulação rápida em resposta a ameaça externa, discórdia interna e a incorporação crescente de unidades bárbaras em suas fileiras, tudo isso ofuscado pelo conhecimento de que o exército em breve teria de enfrentar um inimigo das estepes da Ásia em um confronto tão decisivo quanto qualquer outro na longa história de Roma.

Nosso adjetivo “bizantino”, para indicar algo excessivamente detalhado e complicado, vem do nome da antiga colônia grega no Bósforo onde foi construída Constantinopla. O termo “bizantino” costumava ser usado em referência ao Império Romano do Oriente, desde sua criação no século IV d.C. até a queda final de Constantinopla para os turcos em 1453. À primeira vista, o exército romano tardio pode parecer “bizantino” em sua organização, excesso de administração e paralelos com a complexidade da nova governança provincial criada no quarto século.

Porém, mergulhando mais fundo, chegamos mais perto dos próprios soldados e é possível ver como este retrato pode dar uma impressão equivocada de sua eficácia como força de combate. Em muitos aspectos, o exército imperial inicial era controlado com mais rigidez e menos flexível, com as legiões tendo algo do caráter intratável dos regimentos europeus de linha do século XVIII e início do XIX. Se deixarmos de lado a aparente complexidade da organização de nível superior, podemos ver um exército no século V em que a maior responsabilidade tática era transferida a unidades menores, com mais flexibilidade dada aos comandantes em um nível inferior e mais iniciativa sendo esperada de cada soldado. Foi isto que conferiu força ao exército romano tardio e é algo que tentei abordar neste romance.

 

Oficiais e outras patentes

 

Em grande medida, encerrou-se o cursus honorum, a sucessão de cargos militares e civis que formava uma estrutura de carreira fixa para um romano de classe senatorial ou equestre no início do império. No começo do século V, os filhos de aristocratas ainda seriam “comissionados” como oficiais menores, mas somente depois de ter passado pela escola de tribunos. Enquanto a academia de oficiais do século II a.C. de meu primeiro romance desta série era uma conjectura, a schola militarum do império tardio é atestada historicamente, precursora das modernas academias como Sandhurst e West Point. Uma diferença fundamental de minha academia anterior é que os alunos na schola militarum incluíam muitos ex-oficiais “não comissionados”, homens recomendados pelo magister de seu exército de campo ou pelo dux de sua unidade de fronteira, o que significava que o corpo de oficiais do exército romano tardio incluía mais homens saídos das fileiras do que aconteceu no início do império. Isto conferia um espírito muito diferente ao serviço militar, onde qualquer milites podia aspirar ao alto comando e muitos imperadores-soldados e magister milites eram eles próprios homens de origem humilde que ascenderam por mérito militar e não por privilégio de nascimento.

A antiga patente de centurião persistia em algumas unidades, inclusive aquelas que ainda levavam o título de legio. Porém, a legião conhecida do início do império, composta de até 7 mil homens e dividida em coortes e centúrias, deixou de existir no século V, e unidades que ainda traziam este título não eram diferentes das outras unidades menores, em geral chamadas de numeri — muitas com uma força nominal de talvez mil ou quinhentos homens — que formavam os blocos fundamentais do exército romano tardio. O papel do centurião no comando de uma unidade com o porte de companhia agora é assumido por um tribuno que, como vimos, pode ser tanto um jovem oficial como o veterano promovido das fileiras. A predominância de veteranos como comandantes de unidade teria imposto um ônus específico sobre um tribuno a ser nomeado sem experiência em campo, seus homens sendo menos deferentes a seu status social do que seriam no início do império, esperando que ele conquistasse seu respeito da forma difícil, pela liderança em batalha.

“Tribuno” é melhor compreendido não como uma patente verdadeira, mas como um título que significa “comandante de uma unidade”, sendo o status relativo do tribuno determinado pela unidade envolvida — de modo que o tribuno de um limitanei numerus, com talvez oitenta ou cem homens, seria considerado menor do que o tribuno de um equus comitatenses ou um pedes homoerari, respectivamente uma unidade de guarda de cavalaria de elite ou uma unidade de infantaria maior, de centenas de homens. Em termos modernos, um tribuno pode ser o equivalente de qualquer coisa, de um chefe de pelotão a um comandante de batalhão, de um tenente a um tenente-coronel. Para as fileiras inferiores, os muitos títulos confirmados na Antiguidade tardia para oficiais não comissionados menores e soldados rasos podiam representar uma intercalação de diferentes épocas, como sugeri anteriormente, embora, como o exército britânico moderno, talvez houvesse títulos diferentes para a mesma classe, de acordo com o papel especializado ou a tradição naquela unidade, semelhante a sapador, canhoneiro, cavaleiro, fuzileiro, carabineiro ou sentinela. Neste romance, refiro-me aos soldados rasos por seu título mais comumente atestado, pedes, literalmente “soldado a pé”, ou milites.

 

Armas

 

A armadura e as armas do soldado romano também mudaram drasticamente em relação ao início do império. Desapareceram a armadura lorica segmentata, as pernas expostas e as sandálias do legionário; os soldados agora mais provavelmente usavam cotas de malha, túnica e calças, uma imagem que nos parece mais medieval do que romana. A espada curta de ataque gládio e a lança pilum dos legionários foram substituídas por um leque de armas que às vezes refletia a origem bárbara de seus usuários, inclusive o arco composto. Os tipos de espada que foram copiados por ferreiros germânicos séculos antes a partir de exemplos gregos, etruscos e romanos primitivos, depois evoluíram para corresponder às táticas de combate bárbaras, tornando-se, por sua vez, a base para as espadas romanas tardias; a tecnologia de armas assim teve seu ciclo completo em meados do quinto século d.C., quando os soldados que combatiam por Roma foram contrapostos como nunca a invasores bárbaros, em um confronto em que o poderio militar romano e a reputação de Roma em seu apogeu não podiam mais exercer influência contra o homem que se via como o próximo imperador do mundo conhecido.

 

Organização

 

O exército do início do império pode ser dividido amplamente em legionários — soldados-cidadãos — e auxiliares, homens das novas províncias que seriam recompensados com a cidadania romana depois de um período de serviço; também incluía unidades irregulares das tribos de fronteira recentemente aliadas, os foederati.

Depois que o imperador Caracala garantiu a cidadania universal a homens livres dentro do império em 212 d.C., toldou-se a distinção de status entre legionários e auxiliares, embora as legiões continuassem em seu papel de unidades guarnecidas nas províncias, preparadas para posicionamento, e os auxiliares como unidades de fronteira.

As reformas dos imperadores Diocleciano e Constantino eliminaram esta antiga estrutura militar, substituindo as legiões por comitatenses, literalmente “companheiros”, e as unidades de fronteira por limitanei, tropas de fronteira. Estas novas unidades deram sequência à distinção de papel entre as legiões e os auxiliares, mas houve grandes mudanças na organização interna, em particular entre as legiões e os comitatenses. As legiões foram unidades grandes de no mínimo 5 mil homens, com o esprit de corps de um regimento moderno, porém um papel tático mais semelhante ao de uma brigada; eram adequados para batalhas convencionais típicas da república tardia, por exemplo, durante as Guerras Púnicas. Os comitatenses, por sua vez, compreendiam unidades de oitocentos a mil homens, lembrando mais um batalhão moderno.

A redução do tamanho das unidades tornou o exército de campo mais móvel e flexível, mais adequado a um leque de ações contra invasores bárbaros que provavelmente travariam menos batalhas convencionais. Mas o principal motivo para a mudança talvez tivesse pouca relação com a tática de campo e mais com a segurança do imperador; os comandantes legionários que pretendiam ameaçar a púrpura imperial podiam apelar à lealdade de um grande corpo de homens, enquanto talvez fosse mais difícil um usurpador manejar e mais fácil o imperador controlar unidades menores leais a seus próprios comandantes.

É desconcertante, como vimos, que algumas unidades continuassem a ser chamadas de legiões, por exemplo, a Legio II Adiutrix e a Legio XX Victrix. Porém, estas parecem ter sido legiões apenas no nome e provavelmente representam uma tentativa consciente de manter alguma continuidade da tradição das primeiras formações a fim de estimular o moral e o recrutamento. Uma comparação pode ser feita no exército britânico atual com a retenção do nome Guarda Negra, o antigo Regimento Real das Highlands, as Terras Altas, para uma companhia do recém-formado Regimento Real da Escócia, o que significa que as tradições e símbolos são mantidos, embora a Guarda Negra tenha deixado de existir como regimento.

Junto com a nova organização, vieram novas estruturas de comando. Acabaram-se os antigos legados, em que os comandantes de legiões e exércitos no campo eram liderados por cônsules ou membros da família imperial. Os limitanei de fronteira agora eram liderados por um dux, a origem de nossa palavra “duque”, ou pelos comes, menores, os “condes”. Os exércitos de campo comitatenses eram comandados por um magister e as tropas de modo geral pelo magister militum, braço-direito do imperador e na realidade segundo em comando do império.

Para fortalecer ainda mais sua segurança, os imperadores prepararam uma força especial comitatenses como seu exército pessoal, e com isso retiraram forças dos exércitos provincianos, substituindo a antiga Guarda Pretoriana por uma nova guarda de elite do palácio, a praepecti comitatente.

Esta decisão de priorizar a segurança do imperador em detrimento das defesas de fronteira e das províncias contrabalançava as vantagens táticas da nova organização de comitatenses e foi um ponto fraco que nos ajuda a entender a vulnerabilidade do Império do Ocidente a invasões neste período.

 

Recrutamento

 

O exército do início do império era em grande parte uma força de voluntários, dando continuidade à tradição do exército cidadão da república e incluindo soldados de formação marcial nas províncias recém-formadas. Ser um legionário era honroso e estimado, e podia levar à extremamente importante concessão de terras na aposentadoria; ser um auxiliar era um caminho para a cidadania. Mais relevante ainda era o fato de que os soldados eram bem pagos o bastante para que isto fosse um incentivo também ao recrutamento, permitindo a um homem poupar o suficiente para cultivar seu pedaço de terra na aposentadoria e sustentar uma família, melhorando sua situação social e as perspectivas de aprimoramento de seus filhos.

Grande parte deste quadro mudou no império tardio. A concessão de cidadania universal no regime de Caracala, em 212 d.C., reduziu o incentivo para os homens se unirem como auxiliares.

A crise do século III, uma época de anarquia que viu mais de trinta imperadores, presenciou também sucessivos imperadores depreciarem a cunhagem da prata até que o pagamento dos soldados quase não tinha valor nenhum. Mesmo depois de recriado o padrão ouro, o pagamento dos soldados nos séculos IV e V era notadamente irregular e em geral não existia; os soldados, em vez disso, passaram a depender dos imperadores ou de comandantes abastados para a doação de grandes somas, um sistema que podia permitir que a lealdade de um exército fosse comprada pelo imperador ou por uma facção adversária em uma época em que o exército não devia ter sido afetado pelas manobras políticas, marchando com toda determinação contra a ameaça bárbara.

Como é bastante sugestivo, a base tradicional para o recrutamento voluntário desapareceu em grande parte no século IV e muitos comitatenses e limitanei eram soldados sob alguma forma de coação — alguns em lugar de impostos, enquanto um pai podia enviar um dos filhos para o exército como substituto por suas obrigações em dinheiro ou bens em espécie. Como acontece com qualquer exército convocado, o moral e o esprit de corps não eram garantidos; poucos homens teriam lutado pela glória de Roma, menos do que seus ancestrais legionários e é de se pensar que existiam muitos cínicos e individualistas entre suas fileiras. Entretanto, às vezes são estes homens, em um exército de convocados, sob a coerção da guerra, que se provam os soldados mais capazes e imaginativos, e assim o alistamento no exército romano tardio não era necessariamente um ponto fraco. Embora pudessem começar com relutância, os convocados tendiam a desenvolver uma determinação em face da guerra total, na qual seus lares e famílias eram ameaçados — como certamente aconteceu na Itália depois do saque de Roma pelos godos em 410 d.C. —, e um orgulho de sua capacidade e daquela de suas unidades. A maior lealdade desses homens seria para com seus camaradas e comandantes que combatiam junto deles e angariavam seu respeito, reforçando o foco transmitido da pequena unidade do exército romano tardio, em contraste com as legiões do passado.

Assim como os oficiais de “entrada direta” — jovens tribunos de formação aristocrata —, o aspecto profissional restante do exército romano tardio estava no recrutamento voluntário contínuo de soldados de regiões com fortes tradições marciais, em particular a Panônia, perto do Danúbio, e o norte dos Bálcãs, e sobretudo no influxo de bárbaros que recentemente tinham sido inimigos de Roma. No início do império, oferecer a inimigos recém-pacificados termos favoráveis de serviço no exército foi uma maneira de romanizar os nativos e lhes dar uma válvula de escape para o fervor marcial que de outra forma poderia levar à inquietação e à rebelião. No império tardio, por sua vez, os comandantes de guerra germânicos recém-colonizados por tratados na Gália e na Espanha não foram derrotados nem desarmados, e viam o serviço no exército romano como uma ocupação admirável para seus filhos, bem como um meio de defender seu próprio território recém-adquirido contra a ameaça bárbara. Os bárbaros no exército romano podiam ir de unidades de foederati nas fronteiras, alguns pouco mais do que bandos errantes de guerreiros, a oficiais que chegavam à patente de comandante do exército, algo que não se tem registro no início do império.

As capacidades desses homens de formação bárbara como guerreiros, bem como os convocados endurecidos e cínicos da Itália e das antigas áreas provincianas, ajudam a explicar a extraordinária resistência do exército romano em suas últimas batalhas no Ocidente; estas foram batalhas vencidas menos pela estratégia e a manobra do que pela capacidade de cada soldado de combater um inimigo feroz na luta corpo a corpo, a essência de qualquer reconstrução das hostilidades neste período fundamental da história antiga.

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