Total War: A espada de Átila
Fontes do Romance
A “espada de Átila” é um artefato genuinamente atestado, descrito por Prisco de Panio em uma citação no início deste romance. Prisco, personagem da história, é nossa principal fonte para Átila e os hunos no quinto século d.C. e praticamente tudo que pode ser dito sobre Átila deriva ou de seus relatos remanescentes, ou de fontes posteriores que podem ser atribuídas a ele. Prisco nasceu em Panio no mar Propôntida, perto de Constantinopla, por volta de 420 depois de Cristo, e com seu amigo Maximino — jovem oficial do exército — foi para a corte de Átila em nome do imperador do Oriente Teodósio em 449 d.C., apenas dois anos antes da grande ofensiva de Átila no Ocidente.
Prisco era sobretudo um erudito, autor de obras de retórica bem como de extensas histórias do Império do Oriente e de Átila, e o texto sobrevivente de sua expedição à corte do rei huno fornece uma das narrativas em primeira mão mais vívidas a chegar a nós da Antiguidade clássica. Dele, sabemos detalhes dos hunos para os quais não há outras evidências, inclusive a construção de madeira “ininterrupta” da fortaleza de Átila, o ritual de marcar as faces de um guerreiro e o papel do xamã. Prisco também nos dá um senso da imensa complexidade deste período, uma época de intriga e maquinações contínuas nas cortes, tanto do Império do Oriente de Teodósio, como no ocidental de Valentiniano.
Como os hunos foram um povo nômade e só construíam em madeira, nas poucas vezes em que construíam, as provas arqueológicas de sua existência são muito limitadas, excluindo-se as descobertas ao acaso em sepulturas. Algumas geraram esqueletos de homens e mulheres cujos crânios mostram claros sinais de achatamento, resultando na testa oblíqua, descrita neste romance. Uma descoberta de destaque foi um túmulo encontrado em 1979 perto do mosteiro beneditino de Pannonhalma, não muito longe de Budapeste. Entre os achados, estavam magníficos adereços de folha de ouro para cavalos, a base para os adornos equestres de Mundiuk no prólogo deste romance, bem como a bela espada que aparece na capa deste livro, seu punho cercado por faixas de ouro decoradas e a bainha também adornada em ouro.
Está claro que os ferreiros hunos eram artesãos muito habilidosos e que a veneração da espada tinha raízes profundas; quase mil anos antes de Prisco, o historiador grego Heródoto descreveu que os citas veneravam o seu deus da guerra na forma de uma espada de ferro, colocada em um monte feito de gravetos e que não só gado bovino e equino, mas também inimigos capturados eram sacrificados diante destes altares: “(...) Cortam o pescoço de suas vítimas, recolhem o sangue, carregam-no ao alto do monte e despejam sobre a espada. Ao pé do altar, cortam o braço direito e o ombro do corpo e os jogam no ar, deixando o braço onde cai. Os troncos jazem separadamente” (Histórias, 4.62).
Infelizmente para nós, Prisco não era um historiador militar, dando poucos detalhes de campanhas e batalhas, e seu trabalho remanescente não contém nada sobre os dois enormes confrontos retratados neste romance. Apesar de estar no ápice de uma das mais extraordinárias campanhas militares da história, a conquista da Cartago romana pelos vândalos no reinado de Genserico em 439 d.C. é conhecida apenas por algumas linhas de outros historiadores, nenhuma com mais de uma frase de extensão.
Estamos melhor servidos para o que provavelmente foi o maior confronto militar da Antiguidade clássica, a batalha das Planícies Cataláunicas em 451 d.C. entre romanos e visigodos de um lado e os hunos, ostrogodos e gépidas do outro, com numerosos outros aliados em ambos os lados representando a maioria dos povos belicosos na Europa do período. Todos os relatos modernos da batalha derivam de História dos godos (Getica) de Jordanes, um oficial menor em Constantinopla em meados do século VI que baseou grande parte de seu trabalho — inclusive uma história de Átila e dos hunos — em volumes perdidos de Prisco. O relato que Jordanes faz da batalha cobre mais de 2 mil palavras, mas grande parte dele é formalista — incluindo um discurso de Átila, por exemplo, que deve ser fictício — e existem apenas alguns detalhes topográficos e táticos, inclusive o aparecimento da cumeeira central, a disposição dos exércitos, o regato correndo com sangue e o destino do rei godo Teodorico, “(...) Lançado de seu cavalo e pisoteado pelos próprios homens (...). Dizem alguns, porém, que ele foi morto pela lança de Andag, da hoste dos ostrogodos, que estava então sob influência de Átila” (Getica, 40).
Ele também nos conta sobre o cometa que supostamente foi visto na véspera da batalha. Ao avaliarmos Jordanes como fonte histórica, é importante lembrar não só que ele escrevia um século depois da batalha, mas também que sua principal fonte, Prisco de Panio, não foi nem testemunha ocular do confronto, nem historiador militar.
No caso de Cartago, a mera humilhação da derrota e a ausência de um historiador que a tenha testemunhado — um homem como Políbio, que assistiu à conquista romana de Cartago quase seiscentos anos antes — contrabalança um pouco a falta de evidências escritas dos romanos, uma vez que os próprios vândalos não tinham tradição literária. Para as Planícies Cataláunicas, o choque e a exaustão podem ter dominado qualquer um que tentasse descrever a cena, embora houvesse outros fatores. Os principais historiadores do período, cujas obras sobreviveram, homens como Prisco e Jordanes, eram de Constantinopla e estavam mais concentrados nas questões do Oriente. Em Ravena e Roma, qualquer motivo para comemorar a batalha, no máximo uma vitória ambígua para os romanos, logo se perdeu na marcha da história; o próprio Átila não teria sido mais uma ameaça; porém, apenas 25 anos depois, em 476 d.C., seus aliados ostrogodos de outrora invadiram a Itália, tomaram Ravena e declararam rei seu chefe tribal Odoacro, efetivamente dando um fim ao Império Romano do Ocidente.
Os Campos Cataláunicos provavelmente ficam em Champagne, no nordeste da França, perto de Châlons, nome pelo qual a batalha às vezes é conhecida. Para alguns, um fator decisivo nesta identificação foi a descoberta, em 1842, na margem sul do rio Aube, de um túmulo contendo um esqueleto com duas espadas e ornamentos de ouro e prata datados do quinto século d.C. — um deles um anel com a inscrição HEVA, talvez a ser interpretado como descrevi no Capítulo 13 deste romance —, coerente com os bens sepulcrais de um chefe guerreiro godo. A ideia de que este pode ter sido o rei Teodorico, sepultado apressadamente após a batalha, foi proposta pela primeira vez no século XIX e é a base para a cena no Capítulo 16 deste romance.
O chamado “tesouro de Pouan” pode ser visto hoje no Musée Saint-Loup, em Troyes.
Uma figura central neste romance é Arturo, bretão renegado com sangue romano que serve nos foederati na Gália, trabalha como agente secreto do magister militum Aécio e volta à Bretanha para liderar seu povo contra os invasores saxões. As décadas depois da retirada romana da Bretanha, em 410 d.C., sempre me pareceram o contexto mais provável para tal homem, uma época de tumulto na Bretanha, quando o resultado das invasões era incerto — quando um único líder carismático de qualquer um dos lados podia ter pendido a balança — e também quando a Gália provavelmente estava tomada de veteranos e aventureiros bretões, alguns atentos à situação em sua terra natal. Nos Campos Cataláunicos, por exemplo, é impossível acreditar que os exércitos dos dois lados não incluíssem mercenários bretões, alguns com ancestrais legionários, combatendo ao lado de saxões, anglos, jutos e homens de todas as outras tribos guerreiras com quem seus irmãos e primos lutaram nas fronteiras de Gales e no oeste da Inglaterra. Se Arturo realmente existiu e conseguiu estabelecer um reino, perdido para a história, embora preservado na mitologia, é outra questão deste período obscuro mais fascinante da história antiga, em uma época em que nascia a Europa moderna que conhecemos.
As citações de Amiano Marcelino no Capítulo 7 incluem frases traduzidas de seu Res Gestae, sobre os hunos (Livro XXXI) e o comentário de Una no Capítulo 8 sobre a oração do bispo Quodvultdeus de Cartago é uma paráfrase de parte de um sermão atribuído a ele chamado “Inocentes Sagrados”. No Capítulo 9, a inscrição vista por Flávio é real, hoje visível na base da Coluna de Trajano em Roma; já aquela entalhada por ordem de Trajano nos penhascos dos Portões de Ferro no Danúbio, no Capítulo 11, a “Tabula Traiana”, hoje pode ser vista do lado sérvio, de frente para uma imensa escultura no penhasco do adversário dácio de Trajano, Decébalo, minha inspiração para a ideia de que estes entalhes colossais de dois generais podem ter existido naquela garganta, na Antiguidade. O aumento no nível do rio que levou a Tabula Traiana a ser deslocada à sua posição atual também inundou a ilha de Ada-Kaleh, um porto livre medieval e antro de contrabandistas com “vielas sinuosas” que imaginei já ter esta aparência no quinto século d.C.
Nessa época, no outro lado do mundo antigo, na Etiópia, o extraordinário reino cristão de Aksum chegava a seu auge, como conta Una no Capítulo 8. Para muitos, como Una, Aksum teria parecido um refúgio da perseguição e um lugar para recomeçar a cristandade e foi, sem dúvida nenhuma, uma base para as histórias de uma terra cristã fictícia no Oriente — inclusive a lenda de Preste João — que persistiu até o início da era moderna.
Para outras informações por trás da ficção, inclusive minha própria tradução das passagens de Prisco sobre os hunos e de Jordanes sobre a batalha dos Campos Cataláunicos, bem como imagens da grande espada dos hunos, outros artefatos e locais mencionados no romance, veja
www.davidgibbins.com e www.facebook.com/DavidGibbinsAuthor.
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David Gibbins
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