Total War: A espada de Átila
Capítulo 2
Flávio puxou com os dentes os últimos fiapos de carne da perna de cervo e jogou o osso longe, limpando com as costas da manga a gordura na barba por fazer. Já se sentia melhor, os primórdios de algo parecido com calor se espalhando pelo corpo. Rejeitou a oferta de vinho, temeroso de se embriagar, aceitando em vez disso a bebida que Macróbio lhe passava. Era uma infusão de folhas chamada catha, vinda do deserto oriental que os soldados da fronteira aprenderam a beber com os nômades para se manter despertos. Tomou o que restava da tigela de madeira e a devolveu a Macróbio, que pegou um chumaço de folhas e as meteu na bochecha, mascando-as e cuspindo os pedaços de caule. Ele olhou para Flávio, falando com a bochecha cheia:
— Depois que você cria gosto por esta coisa, a infusão não basta. Nem imagina o que é passar meses em um posto avançado do deserto tentando ficar acordado.
— Agora creio entender por que sua visão noturna é tão boa — disse Flávio. Desde que tomara a bebida, a luz parecia mais intensa, mais clara, como se seu ponto de visão fosse projetado um pouco para a frente. Apontou para o sudoeste. — Eles estão vindo, subindo a elevação. A no máximo dois estádios de distância. Devo ordenar aos homens que se preparem para a ação?
— A decisão é sua, tribuno.
Flávio olhou pela linha.
— A última seção pode continuar comendo. O resto ficará de prontidão atrás do parapeito, de elmo e espadas sacadas. Os sagitarii espaçados a intervalos de cinco homens com uma flecha pronta para ser lançada. Só devem atirar a uma ordem minha.
— Ave, tribuno.
Macróbio transmitiu a ordem a seu primeiro optio e o clamor de armaduras e espadas pôde ser ouvido pela trincheira dos dois lados enquanto os homens se preparavam. Ele se virou para Flávio e ambos subiram e se colocaram novamente no parapeito, Macróbio com os pés firmemente plantados e separados e a mão no pomo da espada, o elmo agora cobrindo o gorro. Flávio afrouxou a espada, sentindo mais uma vez na boca a poeira do ar. O grupo de refugiados entrou no campo de visão, três homens e uma mula, andando lentamente para o parapeito, um homem na frente erguendo uma cruz que parecia ter sido feita apressadamente com dois galhos e uma corda. Houve um arrastar e murmúrios entre os soldados atrás de Flávio.
— Os vândalos também alegam ser cristãos — disse um deles. — Não podemos confiar nessa cruz. Digo para atirar neles.
— Só alguns são cristãos e de uma espécie bem estranha. De qualquer modo, aquele na frente veste uma sotaina. Claramente é um monge.
— Calem-se — rosnou Macróbio pelo canto da boca. — Ou colocarei os dois ali para prática de tiro ao alvo.
O homem de sotaina chegou a 20 metros deles, passou as rédeas da mula a um dos companheiros, ambos núbios, vestindo pouco mais que tangas. O homem tirou o capuz, revelando o cabelo comprido e a barba de um monge penitente, ergueu a mão para proteger os olhos e olhar o parapeito, localizando o elmo de Flávio, e avançou alguns passos em sua direção. O arqueiro atrás de Flávio puxou o arco, mas o tribuno estendeu a mão e o deteve.
— Identifique-se — exigiu.
— Sou um homem de Deus.
— Podemos ver o que finge ser — rosnou Macróbio. — De onde vem?
— Venho de Hippo Regius. Meu nome é Arturo, escriba do bispo Agostinho.
— Arturo. É um nome muito estranho — disse Macróbio com desconfiança, puxando a espada pela metade da bainha. — Parece vândalo para mim.
— É bretão.
Macróbio bufou.
— O que faz um monge bretão no deserto africano?
— Se não estou entendendo mal sua pronúncia e aparência, posso do mesmo modo perguntar também o que faz aqui um ilírio, possivelmente um rético do Danúbio com algo de cita.
As narinas de Macróbio inflaram e Flávio estendeu o braço para contê-lo.
— Diga-nos o que foi feito do bispo Agostinho.
Arturo fez uma pausa.
— Deixamos Hippo Regius em segredo quando os vândalos apareceram no horizonte a oeste — respondeu. — Vivemos escondidos num monastério próximo ao grande deserto, trabalhando em seus escritos finais. Quando a doença do bispo Agostinho piorou, ele me ordenou que fugisse, para preservar seus livros. Estão aqui, em meus alforjes. Tomamos uma rota ao sul conhecida por meus núbios, à margem do grande deserto, para evitar a perseguição, mas felizmente os vândalos ficaram em Hippo Regius para saquear e queimar, e mostraram pouco interesse naqueles que fugiam; eles sabem que, no fim, alcançarão a todos nós. Quanto ao bispo Agostinho, só posso temer o pior.
— Soubemos que ele morreu.
Arturo baixou a cabeça.
— Ouvi este boato de outros refugiados. Foi como o próprio Agostinho teria desejado.
Flávio olhou o homem, tentando avaliá-lo.
— E o exército vândalo?
— O senhor saberá que são liderados pelo rei Genserico. Saberá também que Bonifácio, magister do exército de campo africano e comes Africae, bandeou-se para o inimigo, de modo que quase toda a África romana já está nas mãos de Genserico, exceto por aqui, Cartago. Genserico voltou em sua palavra e abateu a maioria dos comitatenses que se entregaram a ele para que não haja aumento de sua força como resultado da traição de Bonifácio, mas isto nada muda, pois Genserico tem mais de 20 mil guerreiros vândalos a sua disposição, todos sedentos por sangue. Ele também tem quase mil alanos.
— Alanos? — disse um dos homens, aos sussurros. — Aí fora?
Arturo concordou com um movimento de cabeça, sua expressão sombria.
— Agora Genserico intitula-se Dux Vandales et Alanes. Os chefes tribais dos alanos estão subordinados a ele. Genserico os usa como ponta de lança nos ataques. São mais altos do que os demais, gigantes louros de olhos azuis. Tudo e todos têm caído diante de seu assalto. — Ele se interrompeu mais uma vez, semicerrando os olhos para os homens. — Mas se estiverem interessados, sei de uma maneira de matá-los. Se tiverem coragem para tanto.
— Esta é uma declaração ousada para um monge — disse Flávio. — E também uma avaliação tática muito astuta. Você é um dos convertidos de Agostinho? Um soldado convertido a monge?
Uma lufada de vento, quente e seco, ergueu a sotaina de Arturo e Flávio viu o brilho de metal por baixo, a bainha de uma espada que parecia um gládio antiquado. Ele estreitou os olhos para o homem e apontou a espada com a cabeça.
— Seus monges lutam corpo a corpo, então?
Arturo também o fitou, de olhos frios e duros, depois abriu a sotaina de modo que a guarda da espada ficou à vista de todos.
— Você não esteve em Hippo Regius — rebateu ele em voz baixa. Puxou a espada e colocou a face da lâmina na palma da mão. Era uma espada antiga, seu gume irregular, desgastado por marcas e amassados, mas as partes limpas eram reluzentes e afiadas. Uma mancha de sangue seco cobria a lâmina perto do punho, onde coagulara numa camada grossa. — Não tive a oportunidade de limpá-la e oleá-la adequadamente — disse ele. — Estivemos nos deslocando continuamente desde a fuga de Hippo Regius, e tive alguns encontros com saqueadores vândalos.
O sármata Apsachos, atrás de Flávio, desembainhou a lâmina, uma espada muito maior, e a ergueu, fazendo-a brilhar na neblina.
— Crave a espada na areia — disse. — É assim que costumamos limpar as nossas quando estamos no deserto. Limpa em segundos e também a pole.
Arturo lançou a cabeça para seus dois companheiros.
— Os guerreiros númidas acreditam que enterrar a espada na areia traz má sorte. Acreditam que isto seria perfurar a pele da mãe terra, que os poços secariam e nosso inimigo cairia sobre nós. Eles limpam suas lâminas com azeite de oliva. Podem ser pagãos e supersticiosos, mas neste caso estou inclinado a acompanhá-los.
Apsachos olhou a lâmina de sua espada, grunhiu e a recolocou na bainha.
— Ora, isto é ótimo — resmungou ele. — Como se as coisas já não fossem bem ruins sem um mau presságio.
A sombra de um sorriso passou pelos lábios do monge e ele se virou para Flávio.
— Em resposta a sua pergunta, sempre preferi a luta corpo a corpo às táticas à meia distância ensinadas à infantaria romana hoje em dia. Usar essas espadas longas e atirar lanças em formação em massa para repelir um ataque inimigo é muito bom, desde que o inimigo não rompa suas linhas e, de qualquer modo, não é este tipo de combate que está em meu sangue.
— E qual é? — perguntou Flávio, olhando indagativamente o monge.
O homem parou, olhou a fila de soldados e baixou a espada, estendendo a mão direita.
— Caio Arturo Prasutago, ex-comandante do Cohortes Britannicus da Comites Praenesta Gallica, o exército de campo do norte.
Flávio olhou nos olhos do homem, tomou a decisão e apertou a mão dele.
— Flávio Aécio Segundo, tribuno do protectores numerus da Vigésima Legião Victrix, patrulha avançada da guarnição de Cartago. — Correu a mão pela trincheira. — Estes são meus homens.
Flávio sentiu Macróbio tenso e o viu descer a mão novamente à guarda da espada.
— Espere um momento — grunhiu o centurião. — Não foi esta unidade que desertou na Gália? Que se bandeou para os bárbaros? Que matou romanos? — Houve um movimento geral entre os soldados, de olhos fixos e desconfiados no monge, as armas sendo sacadas. Flávio ergueu a mão.
E ele agora é um homem do clero.
— Ou finge ser — rosnou Macróbio.
Arturo ergueu a mão e puxou a sotaina para baixo, revelando uma antiga cicatriz que corria pelo pescoço, da orelha esquerda à clavícula oposta.
— Quando eu tinha 6 anos, os saxões atravessaram o mar e invadiram o forte litorâneo onde eu morava, matando minha mãe e minhas irmãs e cortando meu pescoço, deixando-me ali para morrer. Meu pai era o comandante da guarnição.
Flávio se virou para o soldado a suas costas, um veterano grisalho ainda mais velho do que Macróbio, mantido na unidade por suas habilidades de arqueiro. Perguntou:
— Você esteve lá, não esteve, Semprônio, na Bretanha, no fim?
O homem baixou o arco, curvou-se e cuspiu.
— É verdade, estive lá. Ainda um jovem recruta com a classis Britannicus, a frota bretã, tripulando o forte litorâneo em Dover. Fomos os últimos a partir, depois de supervisionar a retirada de todos os soldados da fronteira norte e dos outros fortes costeiros. Não houve glória nenhuma nisso. Nem mesmo foi uma retirada em combate. Partimos sob o manto da escuridão, impelindo nossas barcaças de transporte do exato lugar onde César desembarcara quase quinhentos anos antes. Eram tempos em que Roma era liderada por homens fortes. Fomos liderados pelo fraco imperador Honório, que abandonou a Bretanha e deixou os civis à própria sorte.
Arturo ouviu o homem com seriedade, depois assentiu.
— Se a guarnição na Bretanha tivesse sido mantida, as coisas podiam ter sido muito diferentes. Eles não teriam conseguido repelir os saxões, mas podiam tê-los convencido a chegar a um acordo, a aceitar terras, como os visigodos a aceitaram do imperador na Aquitânia. A Bretanha ainda teria sido uma província do Império e os saxões teriam mandado os filhos a Roma para serem educados como os godos agora fazem com a Gália. Em vez disso, os imperadores esvaziaram a guarnição bretã para travar suas próprias guerras de sucessão e reforçar a própria guarda pessoal, enfraquecendo a Bretanha e proporcionando um alvo tentador para a invasão. Na época da última retirada, a guarnição bretã era pouco mais do que uma força mínima. A Bretanha foi perdida não pela pressão dos bárbaros, mas pela obsessão dos imperadores com sua própria segurança e a ameaça de usurpadores.
— O imperador Valentiniano é diferente — disse Flávio. — Ele fortalecerá Roma mais uma vez.
— Talvez — respondeu Arturo. — Mas não o vejo aqui, parado atrás de uma cruz, liderando seus homens contra a maior ameaça enfrentada pelo Império. Perder a África com seus rendimentos e cereais seria muito mais grave do que o saque da própria cidade de Roma. Todavia, o imperador está sentado com sua corte em Milão e só o que vejo aqui é um jovem tribuno, um centurião e sessenta homens de um limitanei numerus, um seixo para conter uma torrente furiosa.
— Estes somos nós — murmurou um dos homens. — O derradeiro limitanei.
— Roma precisa de generais como Genserico — afirmou Arturo. — Homens que são ao mesmo tempo reis e líderes de guerra, homens como Júlio César ou Trajano, o Velho. Sem eles, Roma pode vencer batalhas, mas jamais vencerá guerras. E os vândalos não são os piores. Atrás de sua terra natal ao norte, nas florestas e estepes do Oriente, há uma força das trevas maior do que qualquer um aqui pode imaginar, acumulando energia para um confronto que será o teste dos limites do Império.
Flávio gesticulou para a arma de Arturo.
— Essa espada... Um legado do passado?
— Meu pai também foi abandonado à morte naquele dia, quando tive o pescoço cortado, e os mortos saxões foram empilhados em volta dele. Consegui engatinhar em sua direção e, num último suspiro, ele me deu esta espada. Disse-me que desde que ela fosse carregada por um soldado descendente de seu dono original, a Bretanha resistiria à invasão. Tornei-me um menino seguidor de uma unidade comitatenses, depois fui adotado pelos soldados e dois anos mais tarde, quando saí da Bretanha com eles, ainda tinha a espada comigo. Seu dono original foi um soldado da Nona Legião que esteve entre os primeiros a desembarcar com a força de invasão do imperador Cláudio, mais de 350 anos atrás.
— Então você é um romano — rosnou Macróbio. — Isto torna ainda pior o crime de deserção.
— O que significa ser romano? — disse Arturo, olhando em volta. — Quem de vocês, aqui, é verdadeiramente romano? Sim, vocês combatem para um exército romano, contra bárbaros. Mas são também sármatas, godos, ilírios. Tenho ascendência romana, mas a família de meu pai era principalmente do reino bretão dos icenos, e a de minha mãe, brigante. E depois que Honório nos abandonou, não nos chamamos mais de romanos. Consideramo-nos bretões.
— Então, por que a sotaina? — perguntou Flávio. — Por que não está na Bretanha, combatendo os invasores? Há rumores de resistência contínua nas montanhas no oeste da ilha.
Arturo pôs a espada na bainha e fechou a sotaina. Levou as mãos ao rosto, passando-as pelas bochechas e pela barba, e ficou em silêncio por um momento. Flávio viu pela primeira vez como ele estava desgastado e sujo pelas intempéries, como parecia cansado. O homem deixou suas mãos caírem na rudimentar cruz de madeira pendurada no pescoço. Macróbio continuou impassível, a mão ainda no pomo da espada. Arturo levantou a cruz e a beijou, olhando em seguida para Flávio.
— Quando parti da Bretanha, estava decidido a voltar, a levantar a espada de meu pai contra os saxões. Minha missão para o bispo Agostinho ainda não terminou. Devo levar seus livros a um lugar seguro, a um mosteiro na Itália. Mas não fugirei de Cartago sem enfrentar o inimigo em batalha. Ofereço minha espada a vocês.
— Você ainda não nos disse como matar alanos — resmungou um dos homens.
Flávio fitou o monge. Eles ainda não sabiam toda a história de como Arturo deixara sua unidade na Gália, mas agora havia pouco tempo para isso.
— Oferta aceita.
Arturo assentiu em reconhecimento e lhe lançou um olhar de aço.
— E agora, se vamos lutar por vocês, meus homens e nossa mula precisam de água.
Flávio observou Macróbio levar o grupo ao poço, descendo na trincheira e subindo do outro lado, com a mão no punho da espada, claramente ainda sem conceder a Arturo o benefício da dúvida. Ele se virou para o oeste, refletindo sobre o que Arturo contara. Lembrou-se, quando menino em Roma, de se intimidar com Agostinho, o destemperado que todos desejavam imitar, e ficar tão perplexo quanto os demais quando ele de repente abriu mão do vinho e das mulheres pela batina. Alguns viram isto como um ponto forte, como a vontade de se afastar de vícios mundanos, mas outros entenderam como uma fraqueza, com a noção de que o clero em si era uma tentação a qual os homens de ação deveriam resistir a fim de fazer o bom trabalho de Deus na terra: liderar os exércitos de Cristo contra o inimigo bárbaro.
Flávio aprumou a orelha. Estava convencido de que tinha ouvido novamente o mesmo som que o assombrara algumas horas antes, deitado ali, lutando contra o frio, entrando e saindo da inconsciência; um som do oeste que se elevava e ondulava sobre os roncos e grunhidos a sua volta. Os barulhos pareciam mais altos e precisos desde que bebera a infusão das folhas de chata que Macróbio lhe dera. Ele se perguntou se experimentava a mesma percepção ampliada daqueles que não conseguiam dormir, se sua imaginação e a lembrança daquele som na noite lhe pregavam peças. Depois ouviu de novo e viu outros pararem o que faziam para escutar, uma onda de tensão que parecia farfalhar pela trincheira. Era um cachorro latindo, em seguida outros, ecoando de uma ponta do horizonte a oeste a outra, agora um pouco mais perto do que quando ele ouvira antes. Não eram apenas os latidos e uivos de cães selvagens, mas algo diferente, mais orquestrado, e provocou o mesmo frio na espinha que ele tinha sentido menos de uma hora antes.
Ele tentou ignorá-lo e se concentrou no plano tático que elaborara com Macróbio nos últimos dois dias. Tudo dependia dos homens do numerus manterem a coragem e deixarem que o inimigo se aproximasse o máximo possível. Escondidas entre os morros atrás da trincheira estavam cinco catapultas onager com bolas de fogo, retesadas e pesadas para que as bolas explodissem no terreno íngreme menos de 100 metros à frente da trincheira. Eles teriam tempo apenas para disparar uma vez e os artilheiros tinham molhado as máquinas com nafta para garantir que as bolas de fogo, quando acesas, também inflamassem as catapultas, impedindo que caíssem em mãos inimigas. Uma equipe de fabri da guarnição de Cartago também cavara uma vala na frente das catapultas e a tinha enchido com potes de nafta, prontos para virar e inflamar depois que as bolas de fogo explodissem e quaisquer homens sobreviventes do numerus tivessem voltado para as muralhas de Cartago.
Para uma linha defendida por menos de cem homens, esta prometia ser uma extravagante exibição de força, mais impressionante que qualquer coisa que os vândalos tivessem encontrado enquanto as guarnições reduzidas da costa ocidental africana caíam uma por uma com seu avanço. Mas Flávio e Macróbio não tinham ilusões a respeito de sua eficácia. Depois que os vândalos percebessem a força mínima imposta contra eles, a pausa momentânea provocada pelas bolas de fogo apenas redobraria sua fúria e a única chance de sobrevivência para aqueles do numerus que conseguissem voltar às muralhas de Cartago seria escapar com o resto da guarnição por mar. Mas Flávio sabia que tramar uma defesa planejada não era meramente um gesto heroico; o que estava em risco eram os restos em farrapos do prestígio militar romano. Este prestígio já sofrera um massacre com a traição do comandante comitatenses no Ocidente e sofreria um golpe maior se corresse a seus outros inimigos a notícia de que o exército de Roma não se incomodava nem mesmo em impor uma resistência simbólica contra um assalto a Cartago, cidade cuja conquista por Roma seiscentos anos antes tinha dado início ao império. Se ele, Macróbio e cada homem que restasse do numerus caíssem levando um guerreiro vândalo ou alano, ele teria cumprido o juramento a seu tio Aécio na nomeação como tribuno, de sempre manter a honra de Roma e a dos soldados sob seu comando, garantindo que seus atos não fossem lembrados pela história como o último suspiro de um exército, mas como um ato final de valor e fúria.
Macróbio subira ao parapeito ao seu lado e ouvia um uivo sinistro vindo das colinas à frente.
— Já escutei este som — grunhiu ele. — Foi enquanto eu servia sob o comando de seu tio na fronteira do Danúbio vinte anos atrás, quando os vândalos saíram das florestas.
— Chamam-se Alaunt — disse Arturo, aparecendo do outro lado de Flávio. — Cães imensos de caça e combate, treinados unicamente para matar. Genserico os mantém na trela até o último instante, até que seus olhos se tornem vermelhos e as bocas espumem, depois os solta junto com os guerreiros alanos. Quando o uivo se transforma em latido, significa que estão chegando.
Flávio sentiu um arrepio por dentro. Agora sabia que o uivo não era um som do deserto, mas das florestas do norte, um lugar onde os cães eram realmente lobos e aqueles que os domavam, os mestres dos lobos, saíam armados aos urros da floresta como um só, trazendo as trevas que estiveram varrendo contra o Império do Ocidente já havia mais de cinquenta anos. Ele fechou os olhos por um instante, tentando se concentrar. Não deve perder a coragem. Olhou novamente, varrendo o horizonte, ainda sem nada ver. O uivo tinha parado e foi substituído por um silêncio estranho e sobrenatural, como a calmaria antes de uma tempestade.
Arturo virou-se para ele.
— Qual é seu plano?
Flávio respirou fundo.
— Você verá as catapultas e a vala com os potes de nafta depois do poço — respondeu. — Após a pirotecnia, será uma questão de lançar as flechas e combate corpo a corpo. Este morro dá para a estrada que vai ao porto oeste da cidade. É a rota que qualquer atacante tentaria forçar primeiro. De nossas posições em terreno mais elevado, talvez possamos defender a passagem por tempo suficiente para que qualquer um que ainda esteja em Cartago e deseje fugir chegue ao porto e embarque nas últimas galés. Quando for a hora certa, voltaremos às muralhas da cidade.
Arturo olhou as muralhas. Então disse:
— Genserico deixará que seus homens estuprem e pilhem até que se satisfaçam, mas poupará a vida dos cidadãos de importância e lhes oferecerá termos generosos. Ele pretende se acomodar em Cartago e sua receita tributária é sua futura riqueza. Mas não poupará ninguém armado.
— Você sabe muito sobre Genserico — resmungou Macróbio.
— Genserico emprega mercenários estrangeiros como guarda pessoal. É mais seguro para um rei do que ter os próprios homens, porque a lealdade de um mercenário é garantida pelo ouro. Antes de eu assumir a sotaina, fui capitão de sua guarda.
Flávio viu Macróbio enrijecer.
— Eu sabia que nossa confiança em você era equivocada — rosnou ele, a mão de volta ao pomo da espada.
Arturo ergueu a mão.
— Isso foi dez anos atrás, depois de deixar o exército de campo do norte. Éramos um pequeno grupo de bretões que compunha a Cohortes Britannicus, uma unidade foederati, mas fomos mal utilizados pelo comes, ordenados a sufocar uma revolta camponesa no norte da Gália, massacrando a população e incendiando as terras. Desertamos, sim, mas não combatíamos mais por Roma. Alguns voltaram para se juntar à resistência na Bretanha e outros procuraram os reis bárbaros, como mercenários. Eu ainda não estava preparado para voltar, portanto vendi minhas habilidades ao rei vândalo. E não tenha medo. Meu primo Prasutagus entrou comigo a serviço de Genserico, mas o rei decidiu que não haveria lealdade de parentesco entre sua guarda e o assassinou. Posso ser cristão, mas ainda estou preso ao antigo juramento wergild dos icenos e a vingar meu primo, neste mundo ou no próximo. Genserico não é amigo meu.
Macróbio grunhiu, com a mão ainda na espada. Houve uma comoção pela linha, um farfalhar e um sussurro entre os homens, e então uma sentinela apareceu correndo.
— Há gente chegando, centurião — ofegou o homem. — Mais refugiados, visíveis do flanco esquerdo do morro. Parecem desesperados, correndo e cambaleando, jogando de lado quaisquer pertences que tenham. É como se algo fora de vista viesse atrás deles, empurrando-os para a frente.
— Eles não vão conseguir — disse Arturo. — Devemos nos preparar. O inimigo está quase sobre nós.
A cabeça de Flávio rodava. Sentiu-se delirar e teve uma súbita revelação. Ele já tinha ouvido esse som. Alguns meses antes, depois de ler em Políbio sobre uma antiga profecia de que Cartago cairia mais uma vez, ele viajou ao sul de Roma aos Campos Flégreos, em visita ao túmulo do grande Cipião Africano, vitorioso sobre Aníbal, havia muito descuidado e tomado de mato. Queria visitar a caverna da Sibila, ver com os próprios olhos a origem da profecia. Encontrou a caverna, passou pelas cruzes e velas que enchiam a lareira da sacerdotisa de Apolo morta havia muito e se postou diante do abismo, escutando. Dizem que o cadáver escurecido e ressecado da Sibila ainda ronda pelos recessos interiores da caverna e que se você prestar atenção, pode ouvir suas últimas emanações. Ele foi embora decepcionado, subjugado, tendo ouvido apenas o vento oeste do mar assoviando e sibilando pelas rochas. Só agora percebia o que realmente escutara. Não era o som do mar. Era o som distante de cães, uivando e latindo. A sombra da Sibila o havia alertado. A profecia se realizaria.
Ele sentiu o suor frio nas mãos e seu coração agora martelava. A boca estava seca, a respiração curta. Tentou ignorar o vazio no estômago, o tremor nas mãos, tentou se convencer de que era apenas cansaço, o ar do deserto e o frio. Entretanto, sabia que estava nas garras do medo. Colocou a mão na bolsa em seu cinto e pegou uma das moedas de ouro que usara para pagar aos homens no dia anterior, tentando refrear o tremor na mão, olhando a efígie do imperador: em uma face estava impassível, quadrada e, na outra, em armadura de legionário antiquada, as pernas expostas, de peitoral, um pé numa serpente de cabeça humana vencida e a mão erguendo um orbe com uma cruz. Flávio pretendia olhar esta moeda nos instantes antes da batalha para lembrar a si mesmo dos motivos pelo qual combatia: o Império, a cruz e Roma. Mas só o que pôde fazer foi fechar a moeda na mão para impedir que tremesse, desviar os olhos e ver a realidade que se desdobrava diante dele. Agora conseguia enxergar os refugiados: formas humanas e distantes tombando e cambaleando pela encosta, levantando-se e tentando prosseguir, mulheres e homens arrastando crianças, todos em suas últimas forças depois de dias de luta diante de um terror que mal podiam imaginar, que latia e uivava atrás deles. Flávio ouvia o coração martelar nos ouvidos. Havia uma diferença entre os soldados da Roma cristã e os legionários que tinham vindo antes deles, dos tempos antes de os anfiteatros transformarem-se em lugares sagrados de peregrinação, quando ainda eram ensopados de sangue. Ele nunca vira uma pessoa ser dilacerada até a morte por um animal.
Macróbio falou algo em voz baixa e gutural, na língua que Flávio o ouvira usar com vários dos outros soldados das terras do Danúbio. Virou-se para ele.
— O que disse?
Macróbio olhou severamente o horizonte e sacou a espada.
— Eu disse na língua dos vândalos o que o mestre dos lobos agora fala a seus homens. Soltem os cães de guerra.
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