Total War: A espada de Átila

David Gibbins · Capítulo 16 de 27

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Total War: A espada de Átila

Capítulo 10

 

Flávio ficou em posição de sentido, de costas para a parede, em meio à longa fila de outros oficiais, do magister do comitatenses de Roma à esquerda, perto do trono imperial, aos tribunos menores à direita, homens recém-comissionados da schola que ainda não tinham sido atribuídos a uma unidade. A fila era espelhada na parede oposta por oficiais dos foederati, entre eles Arturo, discreto junto aos godos, suevos, saxões e outros foederati que agora compunham mais da metade do corpo de oficiais romano, sem contar aqueles no exército regular, como o próprio Flávio, que tinham sangue bárbaro nas veias.

Esta era uma imagem da Roma moderna e seu exército que seria inconcebível na época em que foi formada a coluna de Trajano, quando a distinção entre romano e bárbaro fora talhada com muita clareza em rocha; todavia, este também era um exército mais poderoso do que nunca contra outra força bárbara de além-fronteiras, uma ameaça que teria sido muito bem compreendida por Trajano e os outros césares que primeiro levaram Roma às florestas e estepes do Norte.

Soaram duas trombetas, retumbando do salão de entrada, e aqueles na fila que estiveram farfalhando inquietos fizeram silêncio. Todos vestiam suas melhores túnicas, resplandeciam de insígnias de patentes e condecorações por serviço. Por ordem do eunuco Heráclio, contudo, não portavam espadas ou armas; uma precaução sensata contra o assassinato, entretanto algo também deliberadamente humilhante, como se Heráclio projetasse sua própria emasculação nos homens que olhava com quase total desdém. Um grande velarium cobria o teto acariciado pela brisa e Flávio viu o toldo se apertar onde os marinheiros que o manejavam puxavam em catracas as cordas de sustentação do lado de fora. Eles estavam dentro do antigo hipódromo particular do palácio imperial no Palatino, um espaço que antigamente era aberto ao céu, mas agora se escondia sob o toldo; na extremidade, o camarote imperial que outrora dava para o Circo Máximo, lugar onde o imperador podia ser visto por quase toda a população de Roma, agora era emparedado, de modo que tinha se tornado outra sala de trono dando para dentro. Tornou-se um espaço onde o imperador podia presidir um mundo quase inteiramente artificial e divorciado do povo que ele deveria governar.

Apesar de seus anos em Ravena e Roma e de sua proximidade de Aécio, o próprio Flávio nunca vira o imperador pessoalmente; era uma percepção que só aumentava o caráter sobrenatural do lugar onde se encontrava, como se todos fizessem parte de um palco armado em que aqueles que estavam para desfilar diante deles fossem meros atores cujos personagens abandonariam assim que saíssem de vista.

Apareceu o primeiro da procissão: o bispo de Roma, homem que recebera recentemente poderes draconianos do imperador Valentiniano, e cujos decretos agora traziam suprema e exclusiva autoridade, como a palavra de Deus. Era um sujeito corpulento, portando o orbe imperial e o bastão episcopal, seus dedos tomados de anéis de ouro e o manto cravejado de joias, erguido do chão por uma dúzia de meninos — a imagem mais distante possível de Jesus de Nazaré que Flávio podia imaginar. Atrás dele veio um grupo de catamitas egípcios de Valentiniano, jovens magros e despidos, vestindo apenas tangas, sua pele escura cintilando de óleo; em seguida, cinquenta membros de sua feroz guarda pessoal sueva formando um quadrado em torno do cortejo imperial. Dentro do quadrado, Flávio viu o imperador em pessoa, reconhecível de imediato pela efígie nas moedas, de mãos dadas e erguidas com duas mulheres de penteados complicados que Flávio imaginava serem sua irmã Honória e a esposa Eudóxia.

Flávio podia não ter visto Valentiniano em pessoa em outra ocasião, mas dez anos depois de olhar sua imagem naquele solidus de ouro e jogá-lo no mar de Cartago, sabia que tinha razão em nutrir dúvidas. Superficialmente, Valentiniano cumpria o papel, seu rosto de maxilar quadrado como o dos imperadores-soldados do passado, mas Flávio sabia que não passava de uma fachada, a face de um imperador que nunca liderou seu exército em batalha, nem os passou em revista no campo de exercícios; até a armadura legionária que ele usava era uma réplica, o peitoral feito de tecido dourado estofado e a cota de malha de fios tecidos de seda reluzente. Como o bispo, seus olhos e o rosto das duas mulheres voltavam-se para o alto, sem sequer vislumbrar as filas de oficiais, uma atitude aparentemente devocional que Flávio sabia representar um senso de seu próprio status divino, um imperador e seus sicofantas tão divorciados de Deus quanto eram do próprio povo.

Formando a retaguarda, cercado de meninos que jogavam pétalas de flores, vinha o eunuco Heráclio, excessivamente corpulento, mais alto até que os godos, a gordura em dobras do queixo e da barriga balançando-se com seu avanço. Saltitava e gesticulava como se estivesse se deliciando num jardim, arquejando, batendo palmas e entoando versos em sua voz aguda. Era um espetáculo para além da farsa, repulsivo aos olhos de um soldado, mas não um homem com os olhos distantes como os outros: deslocavam-se constantemente, fixavam-se, absorviam o que viam, apanharam os olhos de Flávio numa fração de segundo que o deixou nervoso, os globos pretos de porco inescrutáveis e assustadores. Naquele momento, ele compreendeu o que assustava até Aécio nos eunucos: a capacidade que sua singularidade lhes dava para agir fora dos parâmetros normais, com motivações que eram desconhecidas e frustrantes para quem tentava minar seu poder.

Flávio pensou em outro monumento antigo que o fascinava quando menino, o arco do imperador Tito no lado sul do Fórum. Ali, os relevos esculpidos mostravam cenas de triunfo, de grandes tesouros erguidos por soldados romanos em procissão, armados e exuberantes, o povo de Roma reunido os aplaudindo, o imperador postando-se alto e visível. Se a procissão de catamitas e eunucos de hoje era o equivalente moderno das procissões triunfais do passado, Roma verdadeiramente dera com os burros n’água e não tardaria para chegar a época em que os bárbaros entre as fileiras de oficiais ascenderiam e acabariam com este espetáculo grotesco.

As trombetas soaram mais uma vez e os guardas suevos começaram a empurrar os oficiais para fora do hipódromo. Encerrara-se o único encontro em suas vidas com o imperador por quem eles lutavam e sangravam. Flávio andou a uma distância discreta atrás de Arturo, observando os outros oficiais saírem do palácio ao quartel e ao Campo de Marte, depois alcançou Arturo na escada que descia ao antigo Fórum. Macróbio esperava embaixo, de manto e carregando duas mochilas do exército. Enquanto Flávio se aproximava, entregou-lhe seu cinto e o gládio.

— Eu mesmo afiei e oleei — disse ele. — Você não teria tempo.

Flávio afivelou o cinto, olhando para Macróbio.

— Eu esperava vê-lo em meus aposentos.

Macróbio o puxou de lado, falando em voz baixa:

— Pedi a Una para me trazer seu equipamento quando ela saísse da cidade. Foi uma providência da fortuna, porque, quando fui a seus aposentos, encontrei-os saqueados.

Flávio o olhou fixamente, perplexo.

— Saqueados. Como?

Arturo girou o corpo, verificando se alguém os seguia, puxando para cima o capuz do manto.

— Era só uma questão de tempo até que os agentes de Heráclio caíssem sobre nós — falou. — Precisamos chegar a nosso ponto de encontro, e rápido.

— Há notícias piores — disse Macróbio. — Uago desapareceu. Quatro homens esperavam do lado de fora da sede dos fabri esta tarde, atacaram-no e o levaram encapuzado e amordaçado. O capitão da guarda no quartel é um amigo meu e viu tudo, mas não tinha poderes para interferir. Os homens usavam o manto púrpura da guarda pessoal do imperador.

— Isto significa Heráclio — comentou Arturo. — E significa que não voltaremos a ver Uago.

— Mas ele de nada sabe — rebateu Flávio, com um frio na boca do estômago. — Não devia pagar com a vida por nossa visita à sala de mapas.

— Se ele de nada sabe, nada pode falar — disse Arturo com severidade. — Tire-o de sua mente. O melhor que podemos fazer por Uago é prosseguir com nossa missão.

— Precisamos saber qual é.

— Acompanhem-me. Agora está escuro o bastante para não ficarmos visíveis. É hora de recebermos nossas ordens.

Enquanto eles saíam furtivamente na noite, Flávio pensou mais uma vez na procissão que acabara de testemunhar. Sentira-se repelido pelo que tinha visto e estava nauseado por ter de ficar tão perto daquele que provavelmente acabara de ordenar a execução de seu reverenciado mestre e amigo Uago. Contudo, era sobretudo a imagem oca do imperador que o perturbava. Na época dos césares, apesar de toda a corrupção e venalidade, da ignorância de Nero e da insanidade de Calígula, sempre havia homens trajando a púrpura imperial prontos para liderar Roma na guerra e imperadores guerreiros como Trajano, que qualquer um dos oficiais naquela sala hoje teria desejado seguir em batalha. Mas, com Honório e depois Valentiniano, isto parecia ter ficado no passado. Flávio agora compreendia mais do que nunca por que Arturo e tantos outros oficiais tinham seu tio Aécio em tão alta conta, um homem que parecia resistir como Júlio César no final da República, ambos procurando devolver a Roma a honra e a virtude do passado. E, assim como Júlio César quinhentos anos antes, este retorno agora só podia ser a uma república. O experimento imperial tivera seus dias de glória, momentos de supremo triunfo, quando a ideia de um imperador parecia inatacável, mas havia cumprido seu curso e agora afundava inchada em um lodaçal de sua própria criação. Se Flávio retornasse da missão e se Roma não fosse conquistada por um rei bárbaro, pelo próprio Átila, ele não mais voltaria em nome do imperador, mas em nome de Roma como os pais fundadores da República a viam, uma Roma em que um homem como Aécio encontraria sua maior satisfação a serviço do povo e do Estado.

O grupo passou pela Muralha Aureliana e agora marchava rapidamente pelas pedras gastas da Via Ápia, as tumbas das mais importantes gentes de Roma assomando à volta. Flávio reconheceu a entrada do túmulo dos Cipiões, um lugar que ele visitava na juventude para prestar seus respeitos a outro de seus heróis, o conquistador de Cartago, Cipião Emiliano Africano. Arturo os tirou da rua para a esquerda, passando rapidamente pelo perímetro do Circo de Maxêncio e em seguida por um complexo de banhos, virando outra esquina, parando para olhar para trás e verificar se eram seguidos. Ele apontou para uma entrada baixa na parede, uma antiga tubulação de esgoto ou canal de aqueduto abandonado, abaixou-se e os levou por ali, parando a cerca de dez passos e acendendo uma vela com uma pederneira e aço.

— Estas são as catacumbas de Zacarias — explicou Arturo. — É uma entrada secreta usada na época em que os cristãos eram perseguidos, mas abandonada depois da conversão do imperador Constantino, quando as catacumbas tornaram-se públicas. A parte acima de nós ficou sem uso por séculos, isolada do resto, e é local de reunião para Aécio e seus agentes. São cerca de 8 quilômetros de passagens, túneis e milhares de cadáveres. Cuidado com a cabeça e sigam-me de perto.

Ele se sentou à beira de um buraco na parede e deslizou para dentro, baixando suavemente no chão. Flávio o seguiu, depois Macróbio, puxando as bolsas consigo. A passagem à frente fora cortada grosseiramente em pedra, deixando espaço suficiente para uma pessoa passar recurvada, quase dobrada, e Flávio ficou agradecido pela vela de Arturo apenas sugerir as dimensões claustrofóbicas do lugar. Esperava o cheiro adocicado e enjoativo de decomposição, o odor a que estava acostumado dos orifícios de drenagem de sarcófagos de pedra, mas ali era apenas embolorado e saturado, o último corpo tendo apodrecido e se decomposto gerações antes. Quase de imediato eles passaram por nichos e alcovas nas paredes, alguns cheios de formas humanas amortalhadas e outros com pilhas de ossos, em que as famílias reutilizaram o mesmo cubicula por séculos. Viraram num canto e deram com o primeiro sinal do início do cristianismo, uma alcova coberta de gesso com a pintura PRISCILLA IN PACE acompanhada de um símbolo Chi-Rho, em seguida entraram numa câmara mais larga com um altar e uma pintura rudimentar na parede, retratando Cristo com espinhos e os dois ladrões sendo crucificados no Monte do Calvário. Flávio pensou naqueles que veneraram ali, alguns talvez apóstolos do próprio Jesus, depois lembrou da opulência opressora do bispo que acabara de ver no palácio, a um mundo de distância da simplicidade e austeridade dos primeiros seguidores de Cristo.

Eles viraram outra esquina, passando por um cadáver encolhido e enegrecido cujo braço caíra de seu nicho, e continuaram por uma passagem sinuosa onde outra fonte de luz era visível à frente. Arturo apagou a vela e eles chegaram a uma câmara ampliada e iluminada por lampiões a óleo, diante de um homem de sotaina, sentado em uma cadeira com um livro. Tinha cabelos compridos e barba como Arturo, mas era quase completamente branca e, quando levantou a cabeça e sorriu, Flávio viu que ele também tinha os olhos azuis e as maçãs pronunciadas das feições dos bretões. O homem se levantou desajeitado, sua estrutura alta recurvada sob o teto baixo, e apertou a mão de Arturo, que se virou para Flávio.

— Este é Pelágio, meu superior no serviço de informações. — Ele gesticulou para as sombras ao lado de Pelágio, onde podia ser vista outra figura. — E este homem você conhece.

O segundo homem usava um capuz, mas sobre uma capa militar e não uma sotaina, e ao sair das sombras e jogá-lo para trás, Flávio viu que era seu tio, Flávio Aécio Gaudêncio, magister militum do Império do Ocidente, o homem mais poderoso no mundo conhecido além de Átila, o Huno. Ele tentou ficar em posição de sentido, numa saudação ao tio, e virou-se para Pelágio.

— Não sabia que você trabalhava para Aécio.

Pelágio sentou-se novamente e o olhou.

— Você provavelmente vai se lembrar de mim por meus escritos heréticos contra Agostinho e a Igreja de Roma — respondeu. — Ao contrário de Agostinho, creio que somos capazes de tomar decisões de nosso próprio livre-arbítrio. Que as batalhas, por exemplo, não são preordenadas em algum grandioso plano divino, mas dependem, para seu resultado, da livre tomada de decisão dos indivíduos. Meu cristianismo não é belicoso, nos proporciona um credo melhor para o soldado do que a versão de Agostinho, que faz com que o soldado não seja nada além de um agente de um propósito superior.

— Não li seus escritos — disse Flávio. — São proibidos em Roma, por ordem do bispo. Mas ouvi muito a seu respeito através de Arturo.

— Tenho minhas crenças no que você vê aqui, na realidade do início da cristandade, no que atraiu meu povo aos ensinamentos de Jesus quando o cristianismo chegou às praias da Bretanha mais de quatrocentos anos atrás. Sou um monge cristão, mas venho de uma longa linhagem de druidas, os líderes espirituais dos bretões, e tenho outro nome mais antigo ao qual reverterei quando Arturo e eu deixarmos o serviço a Roma para liderar nosso povo contra os saxões. — Ele sorriu para Arturo, estendendo a mão e segurando seu braço, então sua expressão ficou mortalmente séria. — Enquanto isso, há questões mais prementes a resolver. Também tenho trabalhado para Aécio há mais de 15 anos; fui eu quem chamou sua atenção para Arturo. Aécio procurou-me em segredo porque partilhava das minhas crenças e concordei em usar minha rede de contatos entre meus seguidores nos monges e mosteiros da Gália para fornecer-lhe informações. Acreditei em sua causa na época e ainda acredito, mais fortemente do que nunca.

Flávio olhou assombrado para o tio.

— Você é seguidor de Pelágio? Isto significa sentença de morte imediata.

— Você deve ter visto o bispo de Roma hoje — disse Aécio, sua voz calculada e precisa. — Conseguiria seguir tal homem?

Pelágio curvou-se para a frente.

— Quando o imperador cair, a nova Roma não terá bispos, nem padres. O povo será estimulado a procurar Deus sem mediação, sem medo.

— Quando o imperador cair — repetiu Flávio, sua voz quase um sussurro. — É disto que se trata tudo isto? Planejam um golpe?

Aécio o olhou com severidade.

— Nada pode acontecer antes de Átila ser destruído — respondeu. — Por ora, toda nossa atenção está concentrada neste objetivo. Por isso você e Macróbio estão aqui. Daqui a menos de uma hora, vocês terão embarcado em uma missão que pode mudar o curso da história.

Flávio se agachou.

— Diga-nos o que precisamos fazer.

Arturo retirou da túnica o mapa que pegara com Uago e entregou a Aécio, que se ajoelhou e o desenrolou no chão.

— Uago lhe contou alguma coisa? — perguntou Aécio.

— Como assim? — indagou Flávio.

— Ele é de nosso círculo. Durante anos, foi meus olhos e ouvidos na cidade de Roma, o principal motivo para permanecer ensinando na schola por tanto tempo. Escondi seu papel até mesmo de Arturo, para a proteção do próprio Uago.

Flávio olhou para Arturo.

— Então temos más notícias — falou. — Ele foi levado por quatro guardas imperiais esta tarde.

Aécio olhou fixamente o chão e Flávio viu seus lábios estremecerem, apenas isto.

— Portanto, vocês devem agir rapidamente — disse Aécio. — O propósito de sua jornada é de conhecimento apenas dos presentes neste espaço, mas Uago sabia de seu destino. Ele tentará se matar se julgar que existe o risco de ser obrigado a falar, mas os torturadores de Heráclio são brutais e engenhosos e têm como guia um fascínio de eunuco pela anatomia masculina. Não podemos nos arriscar a ter os agentes de Heráclio já tão prestes a atocaiá-los. — Ele franziu os lábios e apontou o mapa. — Vocês irão disfarçados de monges. Pelágio tem sotainas para vocês aqui. Viajarão subindo o rio Danúbio, dali tomarão o caminho para a capital huna, usando o conhecimento de Arturo e seus contatos para conseguir o que queremos. De posse do objeto, voltarão a Roma e o deixarão neste local, onde será levado e escondido por Pelágio até que seja necessário, até que esteja próxima a batalha há muito esperada.

Flávio curvou-se para a frente.

— E o que é?

Aécio fez uma pausa, olhando atentamente enquanto o respondia:

— Estivemos tentando compor nossas forças contra Átila. Trabalhei no comitatenses, aprimorando o recrutamento e o treinamento, trazendo os melhores oficiais e centuriões, como você e Macróbio, para treinar uma nova geração de tribunos, mantendo-o em Roma quando sei que estava se coçando pelo serviço ativo. E tentamos forjar alianças. Pelágio trabalhou entre os monges da Gália para influenciar os visigodos a nosso favor. Arturo acaba de voltar de uma árdua viagem disfarçado à corte sassânida. Mas nada disso nos deu os resultados que queríamos e precisamos de mais, outra forma de combater o poder de Átila.

Ele assentiu para Pelágio, que se curvou adiante e explicou:

— Sempre que nasce um novo príncipe huno, uma grande espada é revelada como que por mágica e usada para cortar as marcas na face de um guerreiro, para saber se ele suporta a dor. Aqueles aprovados no teste tornam-se o próximo rei e a espada passa a ser seu mais poderoso símbolo de status, um ponto de convergência em batalha. Sem ela, o poder do rei é enfraquecido e a batalha pode oscilar em favor do inimigo.

Flávio olhou assombrado para o tio.

— Quer que roubemos a espada de Átila.

Arturo olhou para ele.

— Pode ser feito.

Macróbio, que estivera ouvindo atrás deles, pendurou as duas bolsas novamente no ombro.

— Quando partiremos? — perguntou.

— Vocês partem agora — disse Aécio. — Arturo tem ouro para a jornada e conhece o caminho.

Flávio se ergueu diante do tio.

— Não o decepcionarei — prometeu ele.

Aécio apertou sua mão.

— Salve atque vale, Flávio Aécio Gaudêncio.

Pelágio pôs a mão no livro diante de si.

— Deus abençoe a todos vocês.

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