Total War: A espada de Átila

David Gibbins · Capítulo 7 de 27

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Total War: A espada de Átila

Parte 1 | Cartago, África do Norte, 439 d.C

P a r t e 1

Cartago, África do Norte, 439 d.C

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Um cachorro uivou, um som estranho e sobrenatural que penetrou o ar parado da manhã e ecoou no vale árido entre o deserto e o mar. O homem no parapeito ergueu-se, seu manto enrolado no corpo contra o frio, agradecido por suas botas de pele de ovelha e as calças e túnica de lã que vestia por baixo da cota de malha, e escutou atentamente. O som atravessava as colinas africanas sem árvores, mas estava próximo, a não mais de uma hora de distância a pé. Ele olhou os homens que tentavam dormir na trincheira atrás, inquietos, indóceis, como se o som do cachorro penetrasse seus sonhos, e por um momento se perguntou se ele mesmo não estava numa espécie de mundo dos mortos, os sentidos entorpecidos pelo frio e a carência de sono. Mas o uivo recomeçou, não só de um cachorro, mas de vários, um crescendo que se elevou e ondulou como uma rajada de vento e voltou a esmorecer. Desta vez ele soube que era real. Sentiu um súbito arrepio pela coluna, não de frio, mas de outra coisa, e rapidamente bateu as mãos e os pés. Sabia que muitos homens agora estariam acordados, seus olhos baços lhe ancorando, as sentinelas da noite espaçadas pela linha olhando, esperando as ordens. Ele devia manter a coragem. Não podia demonstrar seu medo.

— Passe adiante. As cidades da África Proconsular a oeste caíram. O bispo Agostinho morreu. O exército dos vândalos está chegando.

O soldado que trouxe a mensagem parou para recuperar o fôlego, seu rosto contorcido de frio e os olhos injetados e exaustos sob a aba do elmo. Flávio parou de bater as mãos e o olhou fixamente, sua mente lutando para entender, depois assentiu, observando o homem passar por cima daqueles ainda adormecidos na trincheira, indo à sentinela seguinte, repetindo a mensagem em um sussurro rouco. As cidades a oeste caíram. Flávio bateu as mãos novamente, tentando controlar o tremor. As horas do dia eram de um calor suportável, mas a noite africana no início da primavera ainda era amargamente fria, mantendo-o acordado até durante o breve momento em que se permitia deitar e procurava dormir um pouco. Ele subiu pelo lado de terra irregular do parapeito que eles ergueram no início da noite anterior e olhou a oeste. Hippo Regius era o último bastião da costa africana antes de Cartago, a antiga cidade cujas muralhas oeste assomavam da neblina menos de 1 quilômetro atrás dele. Por quase seiscentos anos, Cartago estivera nas mãos de Roma, o centro da mais rica província do Império do Ocidente. E agora até o bispo Agostinho os desertara. Oito anos antes, quando os vândalos tomaram o episcopado de Hippo Regius e fizeram dele sua fortificação, houve boatos de que o bispo Agostinho morrera de inanição durante o cerco, mas seu destino nunca havia sido confirmado. Agora, no entanto, sabiam ser verdade: finalmente ele abandonara a cidade terrena em troca da Cidade de Deus, o único lugar em que podia encontrar proteção contra o ataque iminente.

Acima de Flávio, o céu avermelhava-se, raiado da luz do sol que começava a aparecer acima da montanha com o cume de chifre a leste de Cartago. O ar ainda tinha o cheiro da noite, úmido, húmico, de um lado repleto do travo do mar, do outro, a exalação arenosa do deserto. Políbio, mais de quinhentos anos antes, escrevera do sabor no ar diante de Cartago, um gosto de sangue, e Flávio pensou senti-lo agora, um odor acobreado e acre que parecia se elevar com a poeira acima dos morros. Eles estavam presos entre dois mundos, entre o mar e o deserto, defendendo um estreito corredor que logo se tornaria uma torrente de morte, como se a cheia de um grande rio se formasse nos morros e ravinas a oeste e logo descesse precipitada sobre eles, irredutível, impossível de resistir.

Ele pegou a espada, prendeu-a abaixo do manto e ergueu o elmo, vendo que a folha de ouro da classe de tribuno que encomendara na oficina em Milão já tinha ficado desalojada e suja, mesmo antes de ele ter visto qualquer ação. Ele se curvou, cuspiu nela e esfregou com uma ponta do manto, depois olhou em volta quando alguém apareceu do lado do fogo para cozinhar, atrás da cumeeira.

— Você não deve fazer isso, Flávio Aécio — disse o homem, falando em latim com um forte sotaque da fronteira do Danúbio. — Isto é, a não ser que queira tornar-se alvo fácil para a primeira lança de arremesso bárbara.

— Os homens devem ver meu posto e saber a quem seguir — respondeu Flávio, tentando aparentar severidade.

O outro homem bufou.

— Neste exército do homem, todos lideram do fronte — rebateu. — Não é como o exército de seus honrados ancestrais, dos tempos de Cipião e César, cheios de elmos com plumas e peitorais polidos, como aqueles que vemos nas esculturas no Fórum de Roma. Neste exército do homem, se um tribuno quer o respeito dos homens, ele lidera primus inter pares, o primeiro entre muitos. Deste modo, quando morre, sua unidade não titubeia, porque os que estão à volta preenchem o espaço e outro assume seu lugar. Se quiser mostrar a seus homens a quem respeitar, deve esfregar na folha de ouro a terra e o suor de cavar as trincheiras, depois o sangue pegajoso das entranhas de seus inimigos. Aposto que não ensinaram isso na schola militarum em Roma. Pense nisso, depois coma alguma coisa. Inspecionarei as armas dos homens.

Flávio olhou pensativamente o elmo e o homem que partia. Macróbio Vipsânio era muito musculoso, mais baixo do que o ilírio comum, os olhos amendoados traindo alguma linhagem distante para além das estepes citas. Como centurião, parecia um romano, mas, no sangue, era um bárbaro. O próprio Flávio não era muito diferente, descendendo, por parte de mãe, da antiga gens Júlia, mas, também, de um comandante godo por parte de pai. Muitos soldados agora eram assim, consequência da integração e do casamento inter-racial, de apaziguamento e colonização de terras dentro das fronteiras, da necessidade de recrutar um número cada vez maior de guerreiros bárbaros para manter as forças do exército romano. Chefes tribais bárbaros como o avô de Flávio admiravam a tradição marcial romana e enviavam os filhos à escola militar em Milão e em Roma, mas sempre havia alguma coisa que distinguia esses homens, uma tensão, algo que Flávio tinha visto no tio e no pai, e que esperava ter nele mesmo. Era uma inquietude que impelia os bárbaros que não mandavam os filhos a Roma — já que não admiravam seu estilo — a queimar e causar destruição pelo Império, a fazer o que alguns julgavam impossível e realizar a travessia marítima pelas Colunas de Hércules, da Espanha à África, transformando-se e adaptando-se como uma imensa fera transmorfa em sua marcha incansável pelo litoral africano na direção de Cartago. E todos sabiam que a marcha dos vândalos era meramente um presságio do que estava por vir, pois, para cada tribo que Roma apaziguava, para cada grupo de guerreiros integrados, havia outra força mais beligerante à espreita nas florestas e nas estepes. E, atrás delas, existia um poder como nunca se viu, um exército de guerreiros inclinados unicamente à destruição que ameaçava eclipsar Roma não por acordos e tratados, mas pelo fogo e pela espada.

Flávio conheceu Macróbio apenas três semanas antes, quando desembarcara em Cartago com os outros novos tribunos e fora encarregado do numerus de reconhecimento da guarnição da cidade, seu primeiro comando de campo. Metade dos candidatos a oficial que passaram pela schola militarum de Roma com ele era de veteranos como Macróbio, homens que ascenderam das fileiras e foram recomendados pelo comes de sua força de fronteira ou pelo dux de seu exército de campo. O conselho militar do imperador deliberadamente situou a schola na antiga cidade não só para lembrar os cadetes das glórias passadas do Império, mas para mantê-los longe das cortes imperiais em Ravena e Milão, onde cadetes mais jovens e privilegiados como Flávio podiam apelar ao patronato para facilitar seu caminho pelo programa de treinamento e ganhar favores. O próprio Macróbio teria escarnecido da schola, um desperdício nela. Era um centurião nato, soberbo na composição de uma unidade de luta a partir dos pouco mais de oitenta homens de um numerus de fronteira, mas preferindo deixar as decisões de vida e morte ao tribuno que respeitava. Ele apreciava sua patente antiga, derivada do fato de que sua unidade parental era a famosa Vigésima Legião Valeria Victrix, outrora o orgulho da guarnição romana na Bretanha, mas, com a retirada daquela província trinta anos antes, ficara reduzida a uma unidade do exército de fronteira africano. Seus soldados brincavam que ele era o último centurião da Roma antiga. Considerando o provável resultado dos acontecimentos de hoje, talvez se provassem certos.

Nas semanas antes da chegada de Flávio, Macróbio recebera a tarefa de montar a unidade de reconhecimento usando os soldados de fronteira do deserto que afluíram a Cartago com a ameaça do Ocidente, seus fortes abandonados e a fronteira encolhida ao perímetro de defesa que eles agora ocupavam, à vista das muralhas da própria Cartago. O efetivo na guarnição da cidade era desesperador: menos de mil homens da Vigésima Legião exaurida, junto com o equivalente a três numeri do limitanei de fronteira, pouco menos de trezentos homens a mais, no cômputo geral. Mesmo dentro da cidade, a guarnição se reduzira desesperadoramente, com grandes setores da muralha da cidade ocupados apenas por sentinelas, insuficientes para alertar o comandante da guarnição da aproximação de um inimigo, que dirá montar qualquer reação séria. Sem esperanças de outros reforços, agora a defesa de Cartago dependia da sustentação do prestígio e da honra romanos, da luta até a morte e da bravura suicida, e de fazer o suficiente contra as probabilidades para garantir que a história não se lembrasse do fim da África do Norte romana como uma derrota e um massacre ignominiosos.

Flávio deixou esses pensamentos de lado e se concentrou em seus homens. Ao contrário dos legionários voluntários do passado, quase todos eram recrutados, com exceção dos ilírios do Danúbio, que representavam o mais próximo que Roma ainda tinha de um quadro profissional motivado por tradição marcial. Entretanto, Macróbio tinha lhe mostrado que mesmo o fracassado menos promissor podia ser colocado em forma, que sempre havia força a encontrar em algum lugar. A maior força deste exército da Roma cristã estava em suas unidades pequenas, de administração menos complexa do que as antigas legiões e mais adaptadas para distribuição dispersa e pequenos combates. Flávio lhes pagara um bônus em solidi de ouro de seu próprio bolso, sempre um bom começo para um novo comandante e, com Macróbio para guiá-los, tentou elevar seu esprit des corps, falando-lhes dos antigos generais e das guerras, de Cipião Africano e da captura de Cartago por Roma; contou-lhes que não havia motivo para que não fossem tão bons como os soldados dos Césares e que mesmo então eram os auxiliares de fronteira, como o limitanei moderno, que compunham a força principal do exército.

Nas três semanas anteriores ao avanço na direção dessa cumeeira, Flávio se juntou aos homens como um soldado comum enquanto Macróbio os treinava, fazendo-os marchar incansavelmente sob o sol africano, liderando-os em missões práticas de reconhecimento quilômetros adentro do descampado ao sul de Cartago; usaram guias númidas para lhes ensinar a encontrar água e algum calor à noite, algo que evidentemente Flávio deixou de fazer ele próprio nas últimas horas. Ele se lembrou de todo o treinamento, todos os exercícios, e bateu as mãos novamente para se aquecer, olhando pela crista da cumeeira, onde estavam entocados. Por cima do declive, era cortada pela estrada para Cartago, a rota que um atacante tomaria do oeste. Metade de seus homens estava metida de um lado e metade do outro, e atrás deles Flávio distinguia a ravina rasa com o poço de água e o fogo para cozinhar, a fumaça fina dos preparativos para o desjejum enroscando-se por sobre a elevação. Quanto menor a unidade, mas fácil era ficar vigilante, pensou ele ironicamente, e mais fácil de alimentar; esta era uma vantagem do tamanho de seu comando.

Observou enquanto Macróbio avançava em sua direção ao lado da trincheira, tocando as lâminas das espadas dos homens, lambendo o dedo quando faziam-no sangrar e deixando a lâmina desembainhada para ser amolada quando isso não acontecia. Apesar da inexperiência, Flávio sabia que Macróbio o respeitava por ter se apresentado à unidade avançada quando nenhum dos outros oficiais da guarnição o faria; e Flávio, por sua vez, respeitava Macróbio por não dar a menor importância ao fato de que o tio de Flávio, Aécio, era magister militum do Império Romano do Ocidente, o segundo em poder depois do imperador Valentiniano. Ali fora, na linha de frente, o patronato e as ligações familiares à moda antiga eram irrelevantes e só o que importava era se um soldado tinha a coragem de permanecer firme e lutar até a morte pelo homem a seu lado. Flávio começava a compreender que alimentar este caráter entre seus subordinados era mais importante do que todas as táticas e estratégias que aprendera na schola militarum em Roma, e que seu sucesso como líder de uma pequena unidade como esta, no pouco tempo que tinha, dependeria de dar ouvidos a Macróbio e atenção a seus conselhos.

Macróbio voltou a ele, limpando a mão no gibão e assoando o nariz com os dedos na terra.

— Se este fosse um exercício de treinamento, eu os crucificaria — resmungou. — Mais da metade das espadas têm pontos de ferrugem nas lâminas. Se o gume está cego, eles podem muito bem usar a face da lâmina, que será de mesma ajuda.

— Todo o óleo que restava foi usado para cozinhar na noite passada e, sem uma boa lubrificação, as lâminas enferrujam em questão de horas — disse Flávio. — Onde está o ferrador?

— Com o optio, perto do fogo. Montando a pedra de amolar agora. Cuidarei para que os homens afiem suas lâminas quando forem para o desjejum.

Flávio virou a cabeça para a extremidade sul do parapeito, de onde o mensageiro voltava.

— Soube das notícias?

Macróbio fez que sim sombriamente.

— Um extraviado as trouxeram há cerca de uma hora, enquanto você dormia. — Estiveram avançando do oeste nas últimas horas, principalmente escravos númidas que mal conseguem juntar duas palavras em latim e estão chocados e exaustos demais para nos dizer muita coisa. Precisamos encontrar alguém com autoridade que possa nos dar boas informações.

Flávio colocou o elmo, subiu ao ponto mais alto do parapeito e olhou por cima da cumeeira. Jorravam refugiados do Ocidente desde que o numerus fora lotado neste lugar, sobreviventes das aldeias e cidades que caíram para o exército vândalo desde as Colunas de Hércules. Macróbio colocou-se a seu lado, sua barba cinza e rala cintilando na luz do amanhecer e seu gorro de feltro panônio comprimido no formato do elmo, solidificado pelos anos de uso por baixo dele. Juntos, examinaram o horizonte a oeste, as cristas e vales ainda cobertos pelas sombras do início da manhã. Macróbio estreitou os olhos e apontou.

— Por ali, a pouco mais de 3 quilômetros a sudoeste. Distinguem-se dos outros refugiados por virem daquela direção, já que alguém tentando escapar da captura se viraria para o sul a partir das cidades a oeste e viria a nós pelo leste, à margem do deserto, um terreno cruel onde a probabilidade de perseguição seria menor. Podem ser cidadãos fugidos, e não escravos poupados, como aqueles númidas. Três, talvez quatro pessoas, e dois animais.

Flávio seguiu seu olhar, sem nada enxergar.

— Sua vista é melhor do que a minha, centurião.

— Servi por 22 anos no exército de fronteira limitanei, dez deles aqui na África, à margem do grande deserto. Você aprende a localizar manchas distantes na poeira.

Uma voz semiadormecida resmungou por entre as formas deitadas atrás deles na trincheira, a maioria agora acordada:

— Junte-se ao limitanei, foi o que me disseram. Veja as fronteiras do império, disseram. Coma javali e cervo todo dia, escolha a mulher local que quiser e selecione cem iugera de terras de primeira como presente de aposentadoria. Nunca tenha de erguer sua lança por raiva. Conheça bárbaros fascinantes tribais bárbaros.

— É bem verdade — grunhiu outro. — Fascinantes mesmo, isto é, nos poucos momentos em que você consegue enxergá-los em meio a um borrão de pintura de guerra e gritos enquanto avançam da floresta na sua direção. Depois, se tiver a sorte de sobreviver, você é embarcado em um navio na direção do outro lado do império, para um lugar como este, e lhe dizem para cavar uma trincheira e esperar que a mesma coisa se repita.

— E, enquanto isso, o exército de campo comitatenses se esquiva nas cidades e ao redor do imperador, engordando e enriquecendo à nossa custa.

Macróbio olhou Flávio de banda.

— Já ouviu essa?

— Sobre o comitatenses? É o que eu sempre ouço — disse Flávio.

— O comitatenses diz a mesma coisa do limitanei. Cada um considera o outro de segunda classe. Quando não é um resmungo sobre isso, é outra coisa. Acontece o mesmo com os soldados no mundo todo. Queixas, queixas, queixas. — Ele se virou para os homens, falando mais alto. — E, olhando para vocês, eu poderia concordar com eles.

— E nunca temos pagamento — acrescentou o primeiro homem, levantando-se de olhos baços.

— Não temos pagamento desde os tempos de meu pai — grunhiu o outro. — Se não fosse pelos prêmios dados pelos imperadores ou um comandante excêntrico de mentalidade generosa querendo que realmente lutemos por eles, não passaríamos de escravos.

— Você terá o seu, Máximo Cunobelino — afirmou Flávio. — Fui fiel a minha palavra e dei a cada um de vocês um bônus de cinco solidi quando passaram na inspeção como unidade, e vocês e suas famílias receberão mais cinco quando isto acabar. Equivale a dois anos de pagamento. Mandei instruções ao contador-chefe de meu tio Aécio em Milão para receber os pedidos de qualquer mulher ou filho cujo nome esteja de acordo com a lista que lhe enviei duas semanas atrás, de Cartago. Suas famílias serão bem-cuidadas.

— E quanto à sua, tribuno? Quem recebe seu prêmio?

Flávio pigarreou. Sabiam muito bem que ele não tinha pagamento, que sua renda vinha da riqueza de família.

— Um décimo de meu ouro vai para a basílica de São Pedro, em Roma, para a glória de Deus.

O soldado escarrou no chão sem cuidado algum.

— A Igreja tem dinheiro demais, na minha opinião — rebateu. — Jesus era um homem pobre como nós e não precisava de padres com vestimentas elegantes, nem imensas basílicas de mármore. Nós somos os verdadeiros soldados de Cristo, e não os padres.

O outro homem, um arqueiro sármata de nome Apsachos, resmungou e se levantou.

— De qualquer modo, os solidi de ouro não têm utilidade aqui. Não vejo um mercado em lugar nenhum neste deserto desolado onde comprar comida. E estou morto de fome.

Macróbio desceu na trincheira e se postou diante dos dois soldados.

— Ora, então vocês têm sorte. Pelo cheiro, o fogo me parece pronto. Como são os primeiros a se levantar, mandarei vocês e o resto da sua seção para a primeira turma no desjejum. Há um lombo de cervo e uma tigela de caldo para cada um de vocês. Levem as espadas e cuidem para que sejam afiadas. Quando terminarem, voltem aqui e enviarei a próxima seção. E, lembrem-se, se eu vir qualquer um de vocês urinando ou defecando em qualquer lugar que não seja a trincheira de latrina, sabem que trabalho farão a seguir.

Os dois soldados pularam da trincheira, seguidos por mais ou menos uma dúzia de outros homens que estiveram se arrastando por perto, todos bem despertos ao ouvir falar em comida. Macróbio subiu a trincheira até o optio da seção seguinte. O cheiro de carne assada e fervida fez Flávio salivar; de repente, percebeu como estava faminto. Uma vantagem de ser uma unidade avançada de reconhecimento era que seu comando incluía um destacamento de sagitarii, arqueiros como o sármata Apsachos, úteis tanto na busca de alimentos como na batalha. Na noite anterior, em um oásis arborizado, eles encurralaram e abateram três dos cervos europeus colocados ali séculos antes, quando os romanos tomaram essas terras depois das Guerras Púnicas, transformando-as em uma vasta reserva de caça. Flávio tinha se emocionado com a caçada, esquecendo-se do iminente ataque, sua exuberância levando-o de volta aos anos de infância, quando aprendera a caçar com o pai e os tios na floresta da Gália central. O cervo proporcionaria um desjejum forte para os sessenta homens distribuídos pelo alto do morro e o cozimento daria uma bebida quente com o caldo.

Ele tentou ignorar o ronco do estômago e o conhecimento de que a comida quente seria útil contra o frio. Primus inter pares ou não, uma coisa que ele não faria seria ir à frente de seus homens ao fogo de cozimento. Por trás do humor grosseiro estavam alguns dos sujeitos mais valentes que restaram na guarnição africana e todos sabiam que esta refeição podia ser a última. Se Flávio fosse mesmo liderá-los até a morte em batalha, teria pelo menos a satisfação de saber que tinha cumprido com sua responsabilidade como comandante e cuidado de suas famílias e seus estômagos.

Engoliu em seco e olhou à frente. Os homens que ainda não tinham ido ao desjejum já estavam de pé ao longo do parapeito, em silêncio, as espadas frouxas nas bainhas e as lanças prontas, os arqueiros segurando os arcos, todos fitando o horizonte como Flávio, procurando pelos primeiros sinais do que estava por vir. Ele viu um homem fazer o sinal de Cristo e olhou a imensa cruz de madeira erigida ao lado das muralhas de Cartago, postando-se ali como a cruz da crucificação que diziam ainda assomar sobre a pedra do Calvário, em Jerusalém. A cruz de Cartago fora esculpida com madeira queimada encontrada fora das muralhas, de construções destruídas quando Cipião tomou a cidade, e agora parecia se postar ali como um símbolo da glória do passado, um talismã contra o mal iminente. Entretanto, a cruz estava atrás deles, invisível quando se voltavam para enfrentar o inimigo, como se o próprio Cristo tivesse medo de chegar perto demais das mandíbulas do inferno, como se a magra linha de soldados estivesse encravada em terras do interior onde até o poder do Senhor podia ser jogado de lado pela violência da guerra.

Ele pensou no que o soldado dissera sobre a riqueza da Igreja e a pobreza de Jesus. Já fazia mais de cem anos que o imperador Constantino havia se livrado do manto dos antigos deuses e adotado a cruz, anos que não eram mais calculados secretamente por alguns ad urbe condita, desde a fundação da cidade, mas anno domini nostri iesu, no Ano de Nosso Senhor Jesus Cristo. O próprio Flávio aprendera grego com o monge Dionísio da Cítia, que havia secretamente elaborado o novo calendário, cujos livros costumava levar para ele enquanto o pequeno monge corria entre bibliotecas gregas e latinas de cada lado da Coluna de Trajano em Roma, escolhendo obras de virtude cristã a serem copiadas no scriptoria e outras a descartar como amorais e corruptas. Flávio visitara novamente a biblioteca grega ao saber de sua nomeação para Cartago a fim de consultar os historiadores militares e ficou chocado ao ver os espaços nas prateleiras; levou a obra de Políbio para Cartago a fim de preservá-la dos monges, com a desculpa manifesta de que seria necessária no campo como manual de treinamento para o combate futuro.

Era um mundo em transformação, e isso não se limitava às bibliotecas. As antigas famílias patrícias ainda estavam lá: os senadores e cavaleiros, as antigas gentes como a família de sua mãe, mas seu poder era apenas nominal; a nova aristocracia era dos padres e bispos. Cristãos por gerações agora podiam adorar abertamente, enfim livres dos séculos de perseguição; os antigos templos foram convertidos em igrejas e agora basílicas eram concluídas. Entretanto, muitos evitavam esses lugares e continuavam a adorar privadamente em suas casas ou em salas subterrâneas secretas, em cavernas e catacumbas. Para eles, a promessa do cristianismo era de uma religião sem sacerdotes, uma religião do povo comum, e a Igreja de Roma e de Constantinopla não passava da antiga religião com um novo disfarce, com rituais arcanos, o medo da represália divina e os caminhos obrigatórios para a salvação que escravizavam a congregação ao clero. E, para os imperadores e generais, o profeta amante da paz dos evangelhos não era mais suficiente para preparar a Igreja para a guerra de todas as guerras, para as trevas iminentes; Cristo precisava ser encouraçado, recriado à imagem de Marte Ultor, colocado diante dos soldados no campo de batalha para dissuadi-los de abandonar seus exércitos e seguir o caminho de Agostinho à Cidade de Deus, onde os padres não tinham influência e o único imperador era a verdadeira divindade.

Flávio virou-se, viu a nuvem distante de poeira que Macróbio localizara a sudoeste e respirou fundo. Não havia padres ali e não havia cruz flamejante para os soldados seguirem. O que importava agora não era o poder destruidor do Senhor ou a misericórdia de Cristo, mas as pequenas superstições e rituais que sustentavam a coragem dos soldados desde tempos imemoriais: orações fragmentadas, um amuleto da sorte, a estatueta de um ente querido metida numa bolsa no cinto. Ele pegou a pequena cruz de prata que usava no pescoço, segurou firme por alguns instantes e a recolocou embaixo da cota de malha. Até mesmo o tempo para isso tinha passado. Tudo o que importava agora era manter a coragem, afastar o medo, concentrar-se no aço frio, na ânsia pela batalha e no desejo de matar.

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