Total War: A espada de Átila

David Gibbins · Capítulo 15 de 27

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Total War: A espada de Átila

Capítulo 9

 

No início da manhã seguinte, Flávio tirou Arturo da schola, levou-o pelo pátio de exercícios à rua na frente da grande coluna do imperador Trajano, seus cilindros de mármore branco subindo 30 metros no ar entre as bibliotecas grega e latina. Quando menino, entre as aulas com seu mestre Dionísio, passava horas olhando a coluna dos andares superiores das bibliotecas, examinando cada cena no friso em espiral até que se gravassem na memória: cenas de guerra e conquista, de armas, fortificações e travessias de rios, de bárbaros derrotados e romanos vitoriosos, do próprio imperador comandando seus homens do front e os liderando a avançar. Ele viu a inscrição na base da coluna, o local onde as cinzas do imperador jaziam em uma urna de ouro dácio, e leu a primeira linha — SENATVS POPVLVSQVE ROMANVS —, lembrando-se do resto de cor: O Senado e o povo de Roma doam esta ao imperador César, filho do divino Nerva, Nerva Trajano Augusto Germânico Dácico, Pontifex maximus, no décimo sétimo ano no posto de tribuno, tendo sido aclamado seis vezes imperador, seis vezes cônsul, pater patriae.

Ele ergueu os olhos, viu uma cena com o derrotado rei Decébalo e outra dos hunos atravessando o rio Danúbio, a imagem que mais ardera em sua imaginação quando menino, e se sentiu dominar pela empolgação. Nem acreditava que logo estaria no mesmo lugar, que ele, Macróbio e Arturo atravessariam o rio aonde os legionários tinham ido 350 anos antes, pisariam onde o reverenciado herói Trajano levara o exército a uma guerra de conquista que alcançaria os limites de Pártia e veria o Império Romano se expandir a sua máxima extensão.

Eles deixaram a coluna para trás e subiram a rua sinuosa no lado norte do Fórum de Trajano ao complexo adjacente de mercados, uma enorme estrutura de alvenaria convertida, por ordem de Aécio, na sede de Roma dos fabri, o corpo de engenheiros militares. Passaram por várias escravas robustas que carregavam cestos atrás de um clérigo de peso avantajado e lhes abriram sorrisos, e ele pensou em Una, perguntando-se quando a veria novamente. Pouco antes de sair da schola, havia chamado Macróbio de volta e lhe pedira para dizer a Una que partisse, levasse seus pertences à casa de sua irmã em Cosa, no litoral, e esperasse pela volta dele. Era uma besteira, mas ele teve uma sensação súbita de que não valia a pena correr riscos, que se Heráclio tinha informações sobre Arturo, poderia também ter agentes que houvessem visto os dois juntos e agora talvez os seguissem. Flávio tinha pouco a perder neste mundo, mas, se algo acontecesse a Una, sabia que teria de se vingar daqueles que perpetrassem o ato, algo que podia desencadear um terrível banho de sangue que derrubaria todos a sua volta e destruiria os planos de Aécio. Não saber quando poderia revê-la era uma bagatela que ele pagaria para evitar o pior, embora fosse um preço que sabia que teria dificuldade de suportar nos dias e semanas à frente.

Depois de passar pela inspeção dos guardas, tomaram um corredor e atravessaram uma porta, adentrando em um salão quase tão grande quanto um tribunal de justiça, as janelas largas deixando entrar o sol que iluminava uma fila de mesas no meio. Pelas paredes, abaixo das janelas, estavam presos cartas esquemáticas e mapas, um deles um pergaminho contínuo estendido por duas paredes; às mesas, várias dezenas de homens copiavam mapas e anotavam ilustrações em grandes folhas de velo e papiro.

Um dos homens os viu, acenou e rapidamente se aproximou. Era um sujeito de barba branca no final da meia-idade, usando a insígnia de um tribuno fabri sênior. Deu um tapa no ombro de Flávio e imediatamente se recurvou de dor, com a mão nas costas.

— Isto não melhora com a idade — exclamou ele, deixando os dois homens à vontade para se sentar. — Tempo demais recurvado sobre mapas, sem ar fresco suficiente. Já faz muito tempo que não vejo o serviço ativo.

— Quando foi isso? — perguntou Arturo.

— Flávio pode lhe contar. Sem condecorações, sem glória. Mas ensinou-me uma ou duas coisas sobre o serviço militar, algo que tentei transmitir em meus anos de ensino aos rapazes na schola.

— Prossiga, Uago — disse Flávio. — Arturo recebeu a comissão como foederati em campo, assim nunca teve o benefício da schola e de sua experiência.

Uago olhou à meia distância, de testa franzida.

— Foi durante a rebelião berbere no décimo quinto ano do reinado de Honório, quase quarenta anos atrás. Eu estava no primeiro grupo de tribunos a se formar na schola, criado apenas no ano anterior, na esteira do saque de Roma por Alarico. Meu primeiro trabalho com os fabri foi ajudar a retirar o entulho criado pelos godos no Monte Capitolino, quando tentaram derrubar as ruínas do antigo templo. Depois disso, apresentei-me como voluntário ao serviço na fronteira e fui nomeado segundo em comando de um fabri numerus na margem do deserto, em Mauritânia Tingitana. A guarnição limitanei foi depauperada para compor o efetivo na comitatenses da África e, quando a rebelião começou, fomos reagrupados como milites de infantaria. Foi uma campanha difícil, com muitos homens desabando para a doença e a exaustão, e não houve batalhas, apenas breves escaramuças violentas e expedições inúteis. Mais para o fim, voltamos a nosso papel de fabri e fomos usados para fazer estradas, melhorar fortificações e cavar poços, muito mais de meu gosto do que perseguir rebeldes e incendiar aldeias. Descobri um fascínio pelo levantamento de dados e a cartografia, e esta tem sido minha vocação desde então.

— Quarenta anos é longo tempo no exército — disse Arturo.

— Aécio arrastou-me da aposentadoria quando quis um novo mapa detalhado que mostrasse as conquistas de Átila. Deu-me carta branca para apelar aos melhores cartógrafos da Alexandria e da Babilônia, e coloquei os copistas de meu scriptoria trabalhando noite e dia na preparação de um mapa e seu despacho aos comandantes comitatenses e limitanei.

— É isso que desejamos ver — falou Arturo. — Especificamente, a Ilíria e o rio Danúbio, e as terras a leste que levam ao lago Maeotis.

Uago se levantou, pegou a bengala que um dos fabri lhe entregara discretamente e olhou com atenção para Arturo.

— Um destino incomum para um comandante foederati bretão — disse ele. — Estou certo sobre sua origem, não? Em meu tempo de folga, faço um estudo especial de lexicografia e etimologia, em particular de nomes próprios bárbaros.

— Sou da tribo dos brigantes, da linhagem de Boudica, embora minha avó materna fosse descendente romana de um legionário — explicou Arturo. — Meu nome é um antigo patronímico bretão que significa rei-urso, da época em que os ursos vagavam pelas florestas de minha terra.

— Foi o que pensei — respondeu Uago, demonstrando satisfação. — Gostaria de aproveitar seu conhecimento dos nomes bretões. Com o passar dos anos, fiz o mesmo com soldados que aqui vieram consultar meus mapas de todos os cantos do império. Enquanto isso, vamos a sua solicitação. — Ele apontou a bengala para o pergaminho na parede. — Esta é a Tabula Cursorum, uma representação ilustrada do cursus publicus, a rede de estradas oficiais do império. Foi feita pelos monges de Arles no regime de Honório. Na realidade não é um mapa, mas uma representação visual de uma série de itinerários e, como imagem, é repleta de distorções, adornos sem sentido e anacronismos, o tipo de coisa que os monges adoram, mas muito irritantes para um cartógrafo, como eu. Aqui, de baixo para cima, podem ver o sul da Itália, o mar Adriático e a costa dálmata, com as montanhas cercando o rio Danúbio representadas esquematicamente mais para o interior. Porém, creio que isto só atende parcialmente a seus propósitos. Darei a vocês as distâncias e as escalas para a primeira parte de uma jornada, partindo de Ravena ou Roma, seguindo as estradas e atravessando o mar a um porto como Espoleto, mas não há nada retratado além das estradas oficiais. A tabula é projetada para a viagem oficial e o serviço postal, não para aqueles que pretendem realizar missões secretas para além das fronteiras.

— Você presume demais sobre nossos propósitos — disse Arturo.

Uago olhou em volta, certificando-se de que não podiam ser ouvidos pelos outros.

— Sei o que significa quando um dos tribunos especiais de Aécio, geralmente um homem com uma comissão nos foederati, vem procurar mapas de regiões para além das fronteiras — afirmou ele em voz baixa. — Mas providenciarei tudo que precisarem sem fazer perguntas. Posso estar enfurnado nesta sala enquanto vocês e outros estão em campo, mas meus mapas fornecem o eixo de informações do império e minha lealdade a Aécio é inabalável. Ele já foi meu aluno estelar na schola, e agora eu sou seu criado.

— Mostre-nos o mapa novo — pediu Flávio.

Uago afastou-se da parede e apontou uma folha de velo mosqueada acima da tabula, com um mapa retratado ali.

— Com esta você estará familiarizado, Flávio. Trata-se da representação do mundo conhecido com base na Geographia de Ptolomeu que eu sempre tinha em minha sala de aula na schola. Arturo, você naturalmente identificará sua terra natal da Bretanha à esquerda, com uma representação de Gales e da península ocidental contendo as terras do estanho, o lugar onde Aécio me diz que ocorre a maior parte dos conflitos entre bretões e saxões. Como representação visual do mundo, é muito mais satisfatória do que a tabula, mas faltam-lhe as medidas precisas entre os pontos conhecidos, com suas orientações, que permitiriam seu uso como instrumento preciso para navegadores e viajantes. O que de fato precisamos é uma combinação entre os dois, entre o mapa ptolomaico e o itinerário representado na tabula. Era isto que meus fabri vinham tentando aperfeiçoar nos últimos meses e creio que agora conseguimos.

Ele os levou às mesas e, pela primeira vez, Flávio viu os mapas que os homens estiveram copiando. No centro havia um grande mapa, semelhante à representação de Ptolomeu, mas coberto por uma teia de formas triangulares; os homens a sua volta faziam cópias reduzidas usando instrumentos de medição e outros reproduziam partes dele em maiores detalhes. Uago andou pela fila e parou ao lado de um dos homens, que baixou o estilete e saiu do caminho.

— Aqui está o que vocês querem — disse ele. — Podem ver o rio Danúbio correndo terra adentro em paralelo com o litoral da Dalmácia, através da garganta conhecida como os Portões de Ferro, depois para o leste, na direção do mar Negro. A montante dos Portões de Ferro, ele corre de sua fonte, passa pelas grandes estepes da Cita, as terras centrais hunas.

— O mundo huno sempre foi de difícil definição e este é um de seus pontos fortes, do ponto de vista estratégico — falou Arturo. — As fronteiras são porosas e indefinidas, na realidade não passam de largas faixas de relva onde poucos vivem, se é que são habitadas, e mesmo o lado oeste do rio Danúbio é tanto um ponto de travessia, como uma fronteira. Não creio que Átila se importe muito com as fronteiras e esta é uma enorme diferença da estratégia romana. Átila tem um conceito de terra natal e possui sua cidadela, mas o império huno fica onde ele decide travar batalhas e, assim, pode mudar de um mês para outro.

Uago assentiu.

— É o pesadelo de um cartógrafo. Gostamos de nossas fronteiras e províncias. Com os hunos, só se pode colocar flechas largas em mapas, cortando todos aqueles pontos fixos e linhas de delimitação que nos são tão caros.

Flávio pôs o dedo no mapa, medindo distâncias.

— De acordo com a escala, a distância dos Portões de Ferro ao início das estepes é de cerca de 3 mil estádios, digamos, uns 210 quilômetros — disse. — Normalmente seria uma marcha de uma semana, mas temos de fazer pelo rio, no Danúbio.

— Contra a correnteza — acrescentou Uago. — Porém, se tiverem sorte, podem pegar um vento sul e velejar contra a corrente, como fazem os barqueiros no Nilo, no Egito.

Arturo olhava fixamente o mapa.

— Pode nos dar uma cópia dele?

— Podem ficar com este. — Ele desprendeu e enrolou o velo, verificando primeiro se a tinta estava seca. — Não mostrem a ninguém e devolvam aqui pessoalmente quando tiverem terminado. Assim que Aécio aprovar, este novo mapa do mundo será de uso comum; até lá, porém, é ouro em pó nas mãos de um estrategista hostil que pode ter os olhos na conquista.

— Entendido — disse Arturo, colocando o mapa dentro de sua túnica. — E agora precisamos ir.

Uago acompanhou os dois à porta, parou e ficou ali por um momento evidentemente sentindo dor, recurvado na bengala.

— Se conseguirem chegar lá — disse ele —, será que não poderiam me trazer um ou dois hunos? Meu próprio dialeto godo por parte de meu pai é próximo do cita, mas está sendo um inferno fazer uma concordância com o vocabulário huno. Ouvi-lo do diabo em pessoa, por assim dizer, seria útil, embora na realidade seja uma língua dificílima, como é sabido. Estive pensando em criar um idioma universal para vencer esses problemas. Se todos falassem a mesma língua, talvez tivéssemos menos guerras. Outro projeto, se Aécio me liberar.

Flávio sorriu e segurou seu ombro.

— Veremos o que podemos fazer.

Arturo apertou a mão de Uago.

— Antes de partirmos, estou curioso — falou. — O que você dizia aos jovens candidatos a tribunos com base em sua experiência de campo?

Uago fez uma pausa antes de responder:

— Posso não ter ido a nenhuma batalha, mas estive presente por tempo suficiente para saber que as glórias da guerra são transitórias. Vi gerações de jovens que ensinei partirem para a guerra: sangue jovem e vivo quando iam, mas quase sempre sombras pálidas quando voltavam, se voltassem. Assim que uma geração passa pelo ossuário da batalha, a seguinte anseia por ir. Eu lhes disse o que aprendi no deserto, que a guerra não fala da glória, mas de trabalho árduo e de perseverança, de cuidar dos camaradas. A lembrança disto é maior para mim do que qualquer pesar que eu possa ter por perder louros e condecorações, glórias meramente transitórias.

Arturo assentiu.

— Sábio conselho, tribuno. Salve, até a próxima vez.

Ele e Flávio iam se afastando, mas Uago os reteve.

— Uma última coisa.

Flávio se virou.

— O que é?

— Eu pretendia perguntar. Durante sua excursão a Cartago você por acaso não pegou nenhuma das folhas que os berberes chamam de catha, pegou? Adquiri certo gosto por elas quando estive na Mauritânia. Ajuda a aliviar a dor nas costas.

— Meu centurião Macróbio tinha um pouco, mas acabou há muito tempo. Tivemos de partir da África com certa pressa.

— Que pena. Talvez eu mesmo deva ir até lá.

— Antes, você terá de lidar com um detalhezinho conhecido como exército vândalo e um comandante não muito simpático chamado Genserico.

Uago gesticulou para a sala, com um brilho nos olhos.

— Lembra-se do que eu disse sobre meus homens, todos aqueles anos atrás, na Mauritânia? Eles eram primeiro soldados, depois fabri. Meus homens aqui são da mesma cepa. Creio que um numerus de fabri pode lidar com uma pequena perturbação bárbara como Genserico.

Flávio sorriu e acenou.

— Salve, tribuno.

Eles saíram do prédio e foram rua abaixo, a coluna de Trajano erguendo-se novamente diante deles.

— Roma precisa de mais soldados como Uago — disse Arturo.

— Os oficiais fabri são uma raça rara, segundo meu tio Aécio — respondeu Flávio. — Dedicados ao trabalho, meticulosos, com o olho afiado para os detalhes e lealmente calados sobre os defeitos de seus superiores. Quando ele posiciona um exército comitatenses, sempre tem um tribuno fabri como oficial sênior no corpo.

— Ele vai precisar recrutar o melhor que puder para a guerra que temos pela frente.

— Aonde vamos agora?

— Prestaremos nossos respeitos a Valentiniano. Depois disso, iremos a um lugar secreto onde você saberá de nossos planos. Amanhã, pelo fim da tarde, se tudo correr bem, você, Macróbio e eu partiremos para o Oriente, prestes a embarcar na mais perigosa missão que qualquer um de nós já realizou.

Flávio olhou à frente, com a mente em disparada, consciente de passar pela velha casa do Senado e começando a subir a escada para o palácio imperial. Já fazia quase oito anos desde que estivera em campanha, anos recompensadores ensinando na schola, mas ele estava se coçando para entrar em campo de novo. Começava a pensar em tudo que precisaria fazer antes de partir, as pessoas que teria de visitar e equipamento para organizar, o velho gládio que Arturo lhe dera depois da retirada de Cartago, a lâmina a ser afiada e oleada. Sentiu a respiração se acelerar e o coração martelar.

Mal podia esperar.

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