Total War: A espada de Átila
Introdução histórica
O século V foi um dos períodos mais importantes de toda a história, um momento de turbulência violenta e guerra que marcou a transição do mundo antigo para o medieval. Quase quinhentos anos depois de Augusto tornar-se o primeiro imperador e oitocentos anos depois de Roma iniciar suas guerras de conquista, o Império romano era uma estrela em declínio: não estava mais na ofensiva, mas lutava contra invasões bárbaras que ameaçavam consumi-lo. O impensável aconteceu: a própria Roma fora pilhada por um exército de saqueadores godos no ano 408 d.C. Muita coisa mudou desde os dias de glória do império, três séculos antes. Roma agora era cristã, com uma nova hierarquia de padres e bispos. O império foi dividido ao meio, com dois imperadores e novas capitais em Constantinopla e Milão, ambas dilaceradas por rivalidades dinásticas e lutas internas. O exército romano mudara a tal ponto que era quase irreconhecível; havia muito se foram os antigos legionários, substituídos por homens que podiam ter origem bárbara. No entanto, ainda havia aqueles na classe dos oficiais romanos que remontavam aos dias antigos, homens imersos nas tradições dos Césares e dos grandes generais da República, homens que acreditavam que a antiga imagem de Roma podia ser impelida uma última vez para organizar o exército contra as forças das trevas que caíam sobre ela; portanto, eles marchariam, defendendo a honra dos legionários e generais do passado, se houvesse uma batalha final.
Para muitos, o futuro reservava apenas morte e destruição. O bispo Agostinho abandonou os prazeres terrenos e mirou apenas na promessa do céu, a Cidade de Deus. Os monges de Arles acreditavam que o Apocalipse bíblico caía sobre eles. Entretanto, pela primeira vez na história romana vemos os escritores da época absortos no que poderíamos chamar de “estratégia grandiosa”. Deveria Roma apaziguar os bárbaros, oferecendo-lhes concessões e terras, ou enfrentá-los militarmente? Este debate preocupava todos os níveis da sociedade, envolvendo mesmo o soldado mais humilde em um nível de pensamento estratégico raro entre seus antepassados legionários. O principal comentarista dos anos em que se ambienta este romance, Prisco de Panio, foi ele próprio um diplomata e muito preocupado com esta questão. Sua obra sobrevive apenas em fragmentos e ele tinha pouco interesse pela narrativa militar — nossa reconstrução dos grandes cercos e batalhas deste período exige ainda mais imaginação do que as batalhas do segundo século a.C. descritas em meu livro anterior Total War-Rome: Destruição de Cartago. Porém, assim como o historiador Políbio foi uma testemunha ocular da destruição de Cartago em 146 a.C., o próprio Prisco foi para a corte de Átila, o Huno, e nos dá uma imagem extraordinariamente nítida do que viu. É por ele que sabemos do mito de que os hunos nasceram de grifos, de seus rituais funerários sangrentos, do culto da espada, de todas as razões por que Roma tinha muito a temer deste novo inimigo terrível que levou o império do Ocidente ao precipício nos meados do século V.
Um resumo mais detalhado deste período e do exército da Roma tardia pode ser encontrado na Nota do Autor no final deste romance, bem como uma nota sobre as fontes históricas e arqueológicas.
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