Total War: A espada de Átila
Capítulo 18
Flávio recuperou a consciência de cara para o chão em uma poça de sangue, que tinha se acumulado no terreno duro e escorrera sob sua cabeça e seu corpo. Com um olho aberto, podia ver o filete de sangue alimentando a poça da pilha de cadáveres mais além, seus ferimentos drenados e abertos: cabeças parcialmente decepadas, cortes abertos por membros e troncos, buracos escuros de onde se derramavam entranhas que brilhavam em cascatas lúgubres sobre os corpos. Ele tentou se mexer, mas seu corpo parecia paralisado, uma sensação que não tinha desde que fora atacado pelos primos godos durante um jogo de bola quando meninos. Então ele se lembrou de Andag, o brutal golpe enquanto ele cravava a espada, a convergência de visigodos que correram aos gritos para apoiar Teodorico, a gritaria e os cânticos dos hunos, as últimas investidas do rei golpeado. Tentou se mexer de novo e sentiu os joelhos se flexionarem, depois os braços. Ao fazer isso, viu um braço se estendendo da pilha, meio imerso em sangue, o tronco pulverizado irreconhecível e a cabeça numa massa de cabelos ensanguentados, osso e cérebro. Manteve a mão em sua vista enquanto se levantava lentamente de joelhos, depois viu: o anel de ouro, inconfundível, no indicador. Era Teodorico.
Ele olhou fixamente, com a cabeça girando. Via as letras gravadas ali: HEVA. Lembrou-se do banquete no grande salão na floresta quando Teodorico tinha lhe mostrado, entre risos e histórias emocionantes de bravura em batalha, inebriados da bebida de mel e vinho e da carne da caça. Teodorico explicou o significado das letras: Hic est victoriae anulus. Eis o anel da vitória. Flávio olhou em volta, vendo o sangue começar a coagular, as moscas já pousando nos olhos e bocas dos cadáveres. Se esta era verdadeiramente a vitória, Teodorico garantira seu lugar no grande salão dos céus. Flávio viu a espada curta do rei projetando-se do sangue e a mais longa empalada em um guerreiro huno um pouco mais adiante. Puxou a cota de malha para cima no braço do cadáver do rei e cobriu a mão, escondendo o anel de qualquer um que aparecesse para pilhar os mortos, puxou o punho da espada para baixo e cerrou os dedos sem vida em volta dela. Ele encontraria Torismudo e seu irmão e os traria a este lugar, e o anel provaria que o cadáver mutilado era de seu pai. E eles veriam que o rei tinha morrido de espada em punho, enfrentando o inimigo, na batalha mais sangrenta que já fora travada em nome de seu reino e de Roma.
Flávio se colocou de pé lentamente, vendo o ferimento em carne viva no braço atravessando as quatro cicatrizes brancas onde o Alaunt o atacara todos aqueles anos antes diante das muralhas de Cartago. Lembrou-se da sede furiosa que sentira depois daquela batalha e a sentia novamente agora, mas desta vez era como se sua própria alma precisasse de reabastecimento. Avançou alguns passos hesitantes, oscilando nos pés, depois viu a forma colossal de Andag prostrada e retorcida em meio aos cadáveres pouco à frente da poça. O peso do corpo de Andag enquanto escorregava no sangue e caía na espada de Flávio impelira a lâmina mais para dentro de seu crânio, entretanto o inimigo tinha conseguido viver mais alguns instantes atormentados, de algum modo erguendo-se e cambaleando para trás antes de cair, com as mãos segurando as laterais da cabeça e os olhos arregalados e distorcidos de pavor.
Flávio pôs um pé na cabeça de Andag, abaixou-se e puxou o gládio, segurando desequilibrado e olhando em volta, caso mais algum guerreiro de Átila estivesse pronto a investir e atacá-lo. Mas só quem ele conseguia ver vivos no campo de batalha eram as figuras confusas de milites romanos e visigodos vagando entre as pilhas de cadáveres, de vez em quando se abaixando para examinar um camarada caído, às vezes desferindo um golpe de espada ou lança para dar fim à agonia de um amigo ou despachar um inimigo. Macróbio estava ali e atrás dele Flávio distinguia meia dúzia de homens do antigo numerus; Astragos, o sármata, apoiava Máximo, sua cabeça enrolada num tecido ensanguentado. Macróbio retirara o chapéu de feltro e parecia velho, o cabelo branco e o rosto marcado de rugas; porém, ao se aproximar um pouco mais, era a imagem atemporal de um guerreiro romano. Flávio ergueu o braço e os dois homens entrelaçaram as mãos, os sobreviventes do numerus reunindo-se em volta deles. Pela primeira vez, não houve ditos espirituosos, nem o humor de batalha. Estavam todos exaustos e cobertos de sangue e a escala da carnificina parecia deixar até mesmo Macróbio estupefato.
— Preciso encontrar Torismudo — disse Flávio com a voz rouca. — O pai dele jaz atrás daquela pilha de cadáveres.
Macróbio apontou para um grupo de homens e cavalos sobre um sulco no terreno a oeste.
— Está em conferência com Aécio — respondeu. — Torismudo deseja perseguir Átila, mas Aécio o aconselha contra isto. Átila é uma força esgotada e Torismudo, como novo rei dos visigodos, precisa garantir seu trono em Tolosa antes de partir em campanha novamente.
— Irei a ele. Antes disso, precisamos encontrar água para nossos homens.
— O regato que atravessa o campo de batalha está vermelho de sangue. A fonte mais próxima é um rio acima do ponto de onde flui o regato, cerca de dois estádios a oeste. Precisaremos partir agora para chegar lá antes do pôr do sol.
Flávio pousou a mão no ombro de Macróbio.
— Assim seja, centurião. A última grande batalha de Roma acabou. Cumprimos com nosso dever e sustentamos nossa honra. Agora é hora de cuidar de nossos homens.
— Ave, tribuno.
Naquele fim de tarde, Flávio ficou no escuro ao lado do rio Aube, um pouco afastado do círculo bruxuleante de archotes que cercava a sepultura. Abaixo da margem, no ponto de travessia, os cavalos relinchavam e pisoteavam, já selados e tratados para a longa jornada que começariam naquela noite em direção à capital visigoda em Tolosa, dez dias ao sul. A leste, sobre o campo de batalha, o céu brilhava alaranjado como um falso amanhecer, iluminado pelas piras que os romanos e os visigodos fizeram dos montes de seus próprios mortos; os hunos e ostrogodos caídos seriam deixados no campo de batalha para se decompor, um último grande banquete para os abutres que seguiam os exércitos de Roma desde que eles partiram pela primeira vez em suas guerras de conquista, mais de mil anos antes.
Começava a chuviscar e, através do crepitar dos archotes, Flávio via os chefes visigodos em volta do túmulo, cabisbaixos e com as espadas puxadas e estendidas de ponta para baixo diante deles. O único outro romano presente era Aécio, nas sombras para além dos archotes, seu elmo nas mãos e o olhar severo e resoluto. Depois de Flávio ter levado Torismudo e o irmão ao corpo do pai, trouxeram-no a este local e cavaram eles próprios a sepultura, removendo facilmente a areia macia que se acumulara na margem do rio neste lugar; só depois que dispuseram do cadáver, passaram a ordem aos chefes de sair dos acampamentos. O sepultamento era apressado e sigiloso para escondê-lo dos olhos de catadores que já estariam à espreita, rondando o campo de batalha, esperando para despir os corpos e tirar qualquer coisa de valor da terra ensopada de sangue. Mas havia outro motivo para a urgência de Torismudo. Ele usou a cerimônia para garantir o juramento de lealdade dos chefes tribais, homens cujo apoio seria fundamental para ele fortalecer sua reivindicação ao trono visigodo. Alguns voltariam ao acampamento para angariar a lealdade de seus homens, enquanto outros cavalgariam naquela noite como guarda pessoal de Torismudo a Tolosa, na esperança de chegar à capital antes da notícia da morte de Teodorico e afirmar o direito de Torismudo ao reinado sobre qualquer reivindicação de seus irmãos. A cerimônia sobre a sepultura de Teodorico não era de tristeza e luto; era um novo conselho de guerra.
Flávio olhou para Aécio, tentando avaliar o jogo estratégico que ele fazia agora.
Antes de Átila, Teodorico foi o maior inimigo de Aécio e Torismudo sabia disso. A aliança entre visigodos e romanos acontecera por necessidade, contra um inimigo comum. Com os hunos agora derrotados, Aécio sabia que a antiga inimizade com Roma podia ressurgir entre os filhos de Teodorico. O magister militum também não estava ali para prantear Teodorico, mas para garantir que Torismudo partisse naquela noite a Tolosa com seu exército. Se perseguisse Átila, como desejava, e esmagasse o que restava do exército huno, Torismudo podia ficar tentado a tomar o manto de Átila, renegar sua aliança com Roma e avançar para Ravena. Com os vândalos de Genserico de Cartago agora reunidos como um bando de lobos do mar na costa da Itália, Aécio sabia que Roma não suportaria um assalto simultâneo de duas forças bárbaras. Convencer Torismudo da ameaça em Tolosa e da necessidade de garantir seu reino aliviaria a pressão de Roma, permitindo que as forças esgotadas depois da batalha se reagrupassem e Aécio desenvolvesse uma nova estratégia defensiva.
De todos os filhos de Teodorico, Torismudo era o que provavelmente teria uma melhor disposição para com Roma, depois que fosse aclamado rei, aquele que mais valia a pena cultivar. Fora educado na schola militarum e combatera vitoriosamente junto com Roma na maior batalha que os dois aliados já enfrentaram. Teodorico, o filho mais novo, também estivera nos Campos Cataláunicos, mas era mais afastado na linha de sucessão e servil demais ao irmão para ser um concorrente; sua vez chegaria mais tarde. Dos outros quatro irmãos, Frederico, Eurico, Retimer e Himnerith, nenhum deles auxiliara na batalha, nem tinha fortes laços com Roma. Se Torismudo caísse em suas maquinações, quem quer que sobrevivesse à inevitável guerra de sucessão que se seguiria teria uma probabilidade maior de forjar uma aliança com Genserico do que com Valentiniano e seu exército enfraquecido sob comando de Aécio.
Flávio olhou para Torismudo, parado à cabeça da sepultura, e se lembrou do jovem ávido na schola dez anos atrás, quando estudavam a Batalha de Adrianópolis. Embora todos os rapazes na schola tivessem conhecimento da feia realidade por trás da guerra, tendo sido criados em meio a intrigas, assassinatos e alianças precárias entre seus pais, tios e irmãos, para eles a guerra era de batalhas e táticas em campo; o pano de fundo que lhes interessava era logístico — o movimento de exércitos, o tamanho e a especialização das unidades, manter linhas de suprimento abertas, como organizar o recrutamento e o treinamento.
Nos anos que se seguiram, foram atraídos a assuntos mais sombrios e complexos, muito afastados da ponta da lâmina e da glória das armas. Os Campos Cataláunicos em si eram uma nova forma de guerra, algo que poucos de seus jogos teria permitido, uma batalha em que a visão geral dos generais e a nuança tática não importavam e, no fim, a vitória estava na valentia física e no atrito sangrento.
E agora Torismudo enterrava o pai e tinha diante de si um futuro como rei em que não poderia haver lugar para quatro de seus irmãos. Flávio não o invejava pelo preço que teria de pagar por assumir sua herança de direito: a sordidez de uma luta mutuamente destrutiva, os assassinatos, a aflição e ódio de suas cunhadas e dos filhos delas, a culpa que infeccionaria nele até o dia de sua morte. Hoje era o último dia da juventude de Torismudo; o fardo do rei pesaria duramente sobre ele. Esta era a realidade da guerra, da luta pelo poder que estava por trás dela. Flávio ficou feliz que tudo isso agora estivesse para trás, que seus dias de combate pela grande estratégia de Roma estivessem encerrados.
Os chefes tribais embainharam as espadas e se afastaram. Era o sinal para que os dois romanos prestassem seus respeitos e Flávio e Aécio entraram no anel de archotes, parando ao lado da sepultura com Torismudo à cabeceira e seu irmão ao pé da cova. Flávio olhou a cova rasa, lembrando-se do cadáver esmagado que tinha encontrado no campo de batalha; viu que a cabeça e o tronco haviam sido cobertos por um manto, os braços cruzados sobre peito e o anel de ouro claramente visível. Junto com o corpo, havia objetos que Teodorico e o irmão conseguiram reunir para garantir que o pai não chegasse ao além de mãos vazias: várias copas de bronze, os adornos e o arnês de ouro e bronze dourado do cavalo do próprio Teodorico, o colar de ouro torcido que havia usado em batalha estendido a seu lado, suas duas espadas, os punhos envoltos em ouro e decorados com granadas. A espada menor, aquela que Flávio colocara na mão de Teodorico no campo de batalha, ainda estava suja de sangue, a maior marca de honra nos bens sepulcrais de um guerreiro godo que morreu enfrentando o inimigo em combate.
Torismudo virou-se para Flávio, seus olhos escuros e insondáveis, já remoendo o futuro.
— Flávio Aécio, você lutou junto de meu pai e tentou salvar sua vida no campo de batalha. Não me esquecerei disto. Eu o saúdo.
Flávio baixou a cabeça em reconhecimento e como despedida ao rei caído. Olhou para Aécio e os dois romanos retiraram-se do círculo e foram à margem do rio, deixando Torismudo e o irmão a sós com o pai. Aécio virou-se e pôs a mão em seu ombro. Disse, então:
— Você lutou bem, Flávio Aécio, e sustentou a honra tanto de Roma como dos ancestrais godos de seu avô. E ao pegar a espada de Átila e retirar seu símbolo de poder, pode muito bem ter virado a batalha a nosso favor. Eu também o saúdo.
— Mas agora não posso voltar a Roma.
Aécio retirou a mão e olhou os archotes acesos, Torismudo e seu irmão pouco visíveis preenchendo a sepultura com a pilha de areia ao lado dela.
— A corte é um lugar perigoso — concordou Aécio. — É perigoso também para mim, mas sou magister militus e vivi nela toda minha vida. Para alguns, o fato de você ter perpetrado um subterfúgio contra um imperador, mesmo um inimigo mortal de Roma, pode sugerir que seja capaz fazer o mesmo com o nosso. Valentiniano é facilmente influenciado por Heráclio, que sabe o que você e seus homens pensam dos eunucos da corte. E existem outros que influenciam o imperador, como os bispos agostinianos de Roma e Ravena, que sabem de sua associação com o herege Pelágio. Já falam em fogueiras públicas, de cristãos purificando cristãos. Se voltar a Roma, estará entrando em um redemoinho tão perigoso quanto qualquer campo de batalha, porém mais difícil de atravessar.
— Assim, devo lhe pedir que me absolva do serviço a Roma.
— Torismudo o aceitará em seu conselho interno. Pode fazer um ótimo serviço lá para mim, como meus olhos e ouvidos na corte do último aliado que resta a Roma. Um dia, em breve, em seu tempo de vida, se não no meu, um príncipe godo será imperador em Roma.
Flávio retirou os adornos de ouro da lateral do elmo, as marcas de sua patente como tribuno que ele ordenara que fossem colocadas pelos ferreiros de Ravena antes de velejar a Cartago todos aqueles anos atrás. Entregou a Aécio.
— Aprendi o que significa ser um soldado — respondeu Flávio. — Não serei espião, nem maquinador. Meu lugar é com minha espada na mão à frente de meus homens. E não servirei a Roma se seu imperador é influenciado por um eunuco.
Aécio pegou as tiras de ouro, pesando-as nas mãos. Respondeu, então:
— Que assim seja. Está livre de qualquer dever para com Roma. Mas ficarei com estes como lembretes honrados de um dos últimos verdadeiros guerreiros de Roma.
— E meus homens? Macróbio?
— Também estão liberados do serviço, se for este o desejo deles.
— Eles esperam com os cavalos. Perguntarei a eles.
— E você? O que fará, Flávio Aécio?
Flávio olhou para cima através do chuvisco, sentindo as gotas se formarem nos lábios, provando o gosto de sal, suor e sangue que ainda estavam em seu rosto. Acima deles, as nuvens baixas refletiam as piras do campo de batalha, como se o sangue daquele dia tivesse manchado os próprios céus. Ele apontou a linha do rio para além da arena em que estiveram lutando até poucas horas antes.
— Seguirei para o norte esta noite, junto com aqueles de meu numerus que desejarem ir comigo. Encontraremos uma embarcação que nos leve à costa ocidental da Bretanha, onde Arturo tem um baluarte. Oferecerei meus serviços a ele como soldado.
— A guerra está em seu sangue, Flávio Aécio.
— Na Bretanha, ainda posso combater por Roma; não pela Roma de Honório que a abandonou, mas pela Roma que um dia forjou o laço entre os legionários e o povo daquela terra, os ancestrais de Arturo e seus homens. Esta é uma causa na qual Roma não representa intriga, assassinatos e eunucos, mas um lugar onde um soldado pode lutar como um soldado.
Aécio virou a mão para a chuva leve.
— Se vai à Bretanha, terá de se acostumar com isto.
— Fui aos desertos da África combater os vândalos e cavalguei nas estepes com Átila. No deserto, nas terras áridas e ermas que levam a ele, toda a história espalha-se na terra a sua volta, pouco encoberta pela poeira. O lembrete constante das glórias do passado torna-se um fardo, uma visão de batalhas que passamos a acreditar jamais podermos imitar. Cartago foi vencida pelas façanhas de Cipião Emiliano, mas seu legado pesa tanto sobre nós quanto nos inspira. Com Átila foi diferente. Cavalgar com ele foi como sair de uma tela em branco do passado, sem césares ou Cipiões a imitar, sem vitórias a superar, indo para um futuro desconhecido. Foi revigorante. Sinto o mesmo em relação ao Norte, onde a chuva nos limpa do passado. Em breve o sangue dos Campos Cataláunicos será lavado para a terra gretada, as safras amadurecerão como nunca e o povo se esquecerá de que houve uma batalha aqui. Um dia talvez eu seja um velho guerreiro remoendo as glórias do passado. Mas, como soldado, anseio agora por um lugar onde as pessoas olhem apenas para o futuro.
Aécio abriu um sorriso.
— Bem, então a Bretanha pode servir a você. E Arturo tem as virtudes de um rei. Não é uma decisão ruim.
— Ele precisa de toda a ajuda que conseguir, se quiser ter sucesso contra os saxões.
— Ele ainda está com aquela huna? Erecan?
— Ela partiu com Arturo para a Bretanha depois que escapamos da capital huna, atravessando o Danúbio. Tive poucas notícias deles desde então.
Aécio meneou a cabeça.
— Uma neta de Mundiuk. Uma filha de Átila. Isso faria qualquer inimigo pensar duas vezes.
— Lembra-se de quando você me ensinava arco e flecha, quando eu era menino, no Campo de Marte? Jamais acreditei em suas histórias de arqueiros hunos capazes de juntar dois inimigos pela cabeça com uma só flecha, até que a vi fazer isso com meus próprios olhos.
— Eu pretendia perguntar — disse Aécio. — Aquela espada. O que fará com ela?
— A espada de Átila? Seus dias se encerraram. É hora de novos reis com novas espadas. Mas, por direito, deve ir à pessoa seguinte na linha de sucessão, à guerreira huna que perpetuará a linhagem sanguínea de Átila.
— Este também é um motivo para você ir à Bretanha?
— Até então a história estará inacabada. Talvez seja meu último dever para com Roma, iniciado quando você me enviou ao Oriente para encontrar Átila e a espada para além do Danúbio.
Eles observaram enquanto Torismudo e o irmão alisavam a areia sobre a sepultura do pai, depois pegaram os archotes e os jogaram no rio, apagando o que restava das chamas e mergulhando a margem no escuro. Um cavalo relinchou, em seguida um cão uivou, um som agudo e penetrante soando pelo campo de batalha e ecoando nas margens do rio. Flávio recuou um passo e ergueu o braço direito.
— Ave atque vale, Flávio Aécio Gaudêncio, magister militum. Eu o saúdo.
Aécio retribuiu, erguendo a mão.
— Vá com Deus, Flávio Aécio Segundo, último tribuno verdadeiro de Roma.
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