Total War: A espada de Átila
Capítulo 12
No dia seguinte, logo depois do amanhecer, eles deslizaram por entre as últimas pedras no final da garganta, usando um refluxo da água pela face do penhasco para evitar a correnteza no meio do canal que tornara seu progresso tão árduo durante a noite. Tiraram algumas horas de sono na madrugada, após atracarem numa baía e amarrarem a embarcação numa rocha, mas, fora estes intervalos, a jornada tinha sido incansável, cada um se revezando no leme para descansar um pouco enquanto os outros dois batalhavam contra a correnteza, sempre procurando por pedras traiçoeiras e submersas que aparecessem brancas e cabais à luz da lua. O vento esmorecera firmemente durante a noite, aumentando sua labuta, e pela última hora antes do amanhecer só os remos os impeliam para a frente, centímetro por centímetro de agonia até que enfim saíram do estreito e adentraram num canal mais largo, de corrente mais fraca. Acompanhando a margem do grande lago que agora estendia-se à frente, eles conseguiram evitar inteiramente a correnteza e, com o sol no alto e a primeira brisa no ar, a vela começou a bater e enfunar, permitindo que se deitassem para descansar pela primeira vez em horas.
Macróbio tomou um grande gole do odre que encheram em uma fonte onde atracaram na baía e rasgou um pedaço de pão e queijo do suprimento de comida em sua bolsa.
— Creio que posso ver o formato da ilha à frente, ao norte, a cerca de 1 quilômetro e meio do outro lado do lago — disse, mastigando ruidosamente. — Para chegar lá, teremos de atravessar a correnteza de novo, mas com esta brisa atrás de nós podemos fazer isso em uma hora.
Flávio e Arturo estavam despidos até a cintura nos bancos ao lado dos remos, seus corpos cobertos das cicatrizes de batalha do passado distante. Arturo se levantou, tomou um gole de água do odre que lhe ofereciam e protegeu os olhos, fitando o norte.
— Um de meus informantes disse-me que a ilha sempre fica coberta numa espécie de neblina, que a isola completamente do mundo. Creio que tem razão, Macróbio. Posso vê-la também. — Ele cutucou Flávio, semiadormecido nos bancos. — Hora de vestir nossas sotainas de novo. Nem mesmo monges de uma ordem de autoflagelados exibiriam a coleção de cicatrizes que temos e aparecer assim seria entregar nossa identidade. Precisamos sofrer o calor e manter o disfarce até entrarmos em contato com o primeiro posto avançado huno, quando faremos o máximo para nos despir de qualquer coisa cristã e revelar quem realmente somos.
Flávio vestiu com relutância a pesada sotaina e deu a volta nos bancos, pegando o odre com Arturo e bebendo fartamente. Macróbio afastou-se da margem na direção do banco de neblina, auxiliado pelos remos de Flávio e Arturo, onde a pressão da correnteza era mais discernível, deixando depois que a vela os levasse à parte norte do lago. À medida que se aproximavam, viam a curiosa atividade do vento, que mantinha a ilha coberta de névoa, uma consequência de sua localização, aninhada contra os penhascos e a garganta contínua do rio para além dali; o terreno elevado fazia o vento sul rodopiar sobre si mesmo e empurrar a brisa para o alto, levando por sua vez a água na frente da ilha a parecer imóvel e a névoa da manhã a permanecer sobre ela, pendendo abaixo do vento como um miasma, mesmo bem depois de o resto do lago ter clareado.
A vela bateu quando a brisa se elevou acima deles e Macróbio a içou, jogando a verga perpendicular ao barco e abrindo e fixando o mastro. Assumiu novamente o leme e Flávio e Arturo remaram lentamente para a névoa, a neblina rodopiando a volta deles até que só conseguiam enxergar alguns passos à frente. Começaram ao ouvir ruídos, um bater e um martelar distantes, vozes humanas se elevando e sumindo. Apareceu na meia luz uma fila de postes de madeira a espaços regulares, indicando que o lago começava a ficar mais raso e também um mecanismo para sinalizar e auxiliar no caminho que os barcos deviam seguir. O fedor de peixe podre e estrume humano se elevava da água, sinais certos de habitação próxima. Em seguida, outros odores os assaltaram, um cheiro doce e enjoativo que eles conheciam muito bem das consequências de uma batalha. Foi Macróbio quem primeiro localizou a origem, apontando os postes que entravam em visão da névoa à frente.
— Temos companhia — disse ele.
Flávio olhou e conseguiu enxergar com clareza, um poste com uma viga cruzada e a forma escurecida de um cadáver humano suspenso ali, a caixa torácica exposta, buracos no abdome onde as aves estiveram bicando. Mais além havia outro, depois outro, dezenas deles em variadas fases de decomposição, alguns não passando de troncos com cabeças em que faltavam pedaços das pernas. Flávio quase vomitou ao deslizarem por ali, tentando respirar o mínimo possível. Macróbio apontou o último da fila.
— Parece que nosso disfarce não nos garantirá segurança aqui tampouco. — O cadáver vestia os restos esfarrapados, mas inconfundíveis, da sotaina de um monge, tendo enrolada na mão esquelética a faixa de couro de uma cruz de madeira.
Arturo afastou a manga que estivera mantendo contra a boca e torceu o nariz, enojado.
— Como monges, não teríamos ninguém nos incomodando por nossas mercadorias, nem supondo que carregamos ouro escondido — falou. — Mas ninguém está seguro aqui. Cada momento em que permanecermos nesta ilha, estaremos a um passo de uma faca nas costas; pise em falso e você estará aqui, nesta área de execução. Precisaremos ter cuidado.
À direita, apareceram as estacas de um cais de madeira, em seguida a névoa se abriu, revelando um porto cheio de pequenas embarcações como a deles e homens levando mercadorias escada acima e jogando-as do barco para a margem. Eles se desviaram da área de execução, deixando o cheiro terrível para trás, e lentamente passaram por entre os barcos até encontrarem espaço para ancorar, Flávio e Arturo erguendo os remos enquanto Macróbio virava o leme e deixava a embarcação deslizar. Um rapaz em farrapos apareceu do nada, pulou a bordo, tirou o proiz enrolado na proa e amarrou a um poste no cais, mantendo o barco firme enquanto Arturo e Flávio saltavam em terra. Macróbio pegou uma das bolsas para levar, mas Arturo o deteve.
— É melhor pagar ao menino para cuidar delas — disse ele em voz baixa. — Qualquer coisa levada em terra será considerada bem comercializável e será revistado e tributado. Se fizerem isso, provavelmente também nos revistarão e, se encontrarem nossas armas, estaremos acabados. Se nos perguntarem, há um pequeno mosteiro na extremidade da ilha e lá passaremos em nossa viagem ao norte para prestar nossos respeitos, em seguida tomaremos nosso caminho.
Macróbio resmungou, abriu um manto sobre as bolsas e pulou em terra, por pouco não batendo a ponta da bainha sob a sotaina no poste. Arturo pegou uma moeda de ouro e mostrou ao menino, que balançou a cabeça; Arturo acrescentou outra, despertando a mesma reação até a quinta moeda, quando o menino as apanhou e correu cais acima a um imenso mercenário godo que estava de braços cruzados observando a chegada do grupo. O homem examinou as moedas, mordeu uma delas para testar a pureza, tomou todas e deu ao menino apenas uma. Quando Arturo viu que seu pagamento foi aceito, rapidamente levou os outros dois pelo cais a um muro de arrimo de pedra, onde as mercadorias eram descarregadas e o comércio acontecia no local.
Havia mercenários godos em toda parte, policiando cada transação, cada um acompanhado por um menino que recolhia dinheiro e corria entre fardos, ânforas e barris que preenchiam cada espaço disponível, mercadores de todas as nacionalidades pesando produtos em balanças e usando medidores de volume que haviam sido entalhados em mesas de mármore pelo cais.
Tudo parecia correr em ordem, mas não havia a azáfama de um mercado comum: para Flávio, a ausência de gritos e gestos teatrais era enervante, como se o lugar fosse governado pela ameaça e pelo medo e não pelas regras normais do comércio. Como que para realçar a tensão, ouviu-se um berro súbito de uma das mesas e o godo que policiava a transação enganchou o braço no pescoço de um mercador e o puxou para cima pela garganta, arrastando-o aos gritos e gesticulando para uma jaula de metal na ponta do cais, de frente para a área de execução. O menino que estivera atrás do godo pegou as moedas de ouro que caíram das mãos do mercador e as entregou ao chefe quando ele voltou, os dois reassumindo suas posições na frente da mesa e os mercadores em outros lugares continuando como se nada tivesse acontecido.
Arturo puxou mais o capuz sobre a cabeça e os levou para a massa de construções espremidas que cobria a ilha depois da área de comércio, a maioria construída de madeira de talhe rudimentar com lodo do rio usado para unir as paredes no nível da rua, mantendo à distância o esgoto que corria em sulcos pelas vielas entre os prédios. Arturo ergueu a mão para detê-los quando passou uma carroça, com uma pilha de ânforas de vinho amortecidas com palha e fardos de outros produtos. Flávio espiou por baixo do capuz e rapidamente baixou a cabeça e manteve os olhos desviados, com um tremor no coração. Na frente dos meninos que puxavam a carroça havia dois homens corpulentos de manto preto e armadura segmentada, as testas oblíquas e os cabelos bem amarrados atrás das cabeças, com três cicatrizes em paralelo correndo por cada bochecha. Flávio sabia que acabara de ver seus primeiros guerreiros hunos, próximos o bastante para matar ou ser morto. Mais do que nunca, deixou clara a realidade da missão e, ao avançar, sentiu a respiração ficar mais curta e um gosto metálico na boca: o sinal de apreensão e empolgação que só tinha nos preparativos para a batalha.
Na beira da praça, uma meretriz olhou de esguelha de uma janela no alto, a primeira mulher que ele via na ilha, expondo os seios antes de ser puxada para dentro por um dos godos que estavam com ela. Os dois se enfiaram em uma viela atrás de Arturo, deixando para trás o cais e seguindo seu curso sinuoso por uma série de plataformas e aterros, os andares superiores e frágeis dos prédios amontoando-se em volta. Macróbio reprimiu uma imprecação quando por pouco não foi ensopado por um balde cheio de detritos jogado de uma sacada, seu conteúdo fedorento unindo-se à sujeira que jazia em poças e canais do chão da viela. Arturo parou em um cruzamento, depois deu uma guinada para a esquerda e logo à direita, levando-os por uma seção coberta como um túnel, em seguida por uma sucessão de pátios pequenos. Olhos os observavam do escuro, olhos sob capuzes nos recessos das soleiras, e Flávio se sentiu inquieto e vulnerável, sua mão na guarda da espada por baixo da sotaina. Ali eles podiam ser assassinados e roubados e ninguém jamais saberia o que lhes acontecera, seus corpos retirados de uma viela escura e jogados no rio.
Arturo parou por um momento, tombou a cabeça de lado como se escutasse, depois continuou.
— Alguém nos segue — disse em voz baixa. — Continuem andando como se nada estivesse acontecendo. Quando eu me esconder, façam o mesmo atrás de mim.
Eles passaram por um templo dilapidado à Sagrada Mãe, pararam e se persignaram com a devida demonstração de devoção diante do templo antes de prosseguirem. A viela à frente era bloqueada por um grupo de pessoas em volta de um vendedor de peixe, dando lances por um grande esturjão colocado nas pedras do calçamento, de forma que Arturo os levou por uma rua até outro cais junto do rio, parcialmente coberto pela neblina. Virou à direita, passou por trás de uma pilastra e se espremeu contra uma parede, gesticulando para que os outros o imitassem. Tudo o que Flávio conseguia ouvir era o gotejar de condensação das cumeeiras de telhado na rua e o bater da correnteza contra as pedras do cais. De súbito, Arturo disparou e puxou uma figura contra a parede, prendendo seu pescoço com um braço e cobrindo-lhe a boca com a outra mão. Era um homem pequeno e comum, moreno e barbudo, como muitos dos barqueiros que Flávio vira no porto, possivelmente um trácio do Danúbio inferior. Arturo virou a cabeça do homem para cima e falou bem perto de sua orelha, em grego.
— Para quem você trabalha?
O homem tentou dizer algo, mas Arturo ainda cobria sua boca com a mão. Ele torceu a cabeça mais incisivamente e o homem soltou um ruído estrangulado, arregalando de medo os olhos, o nariz pingando sangue.
— Eu perguntei para quem você trabalha. — Ele tirou a mão da boca do sujeito, que ofegou e cuspiu, tossindo com ânsias de vômito. Arturo cerrou a mão novamente e o homem soltou um guincho de porco, espirrando o sangue do nariz na parede ao tentar respirar. Arturo diminuiu novamente a pressão que fazia com a mão e o segurou mais alto, seu braço ainda como um torno no pescoço do homem. — Não vou perguntar novamente — rosnou.
— Um ilírio chamado Segesto — revelou o homem entre dentes, seu grego com forte sotaque, a voz rouca e comprimida. — Ele me pagou para vigiar os três ocidentais vestidos de monges que chegaram à ilha. Eu devia segui-los e descobrir quem vocês encontrariam, depois revelar sua localização a outra pessoa.
Arturo torceu com força e o homem ofegou de dor.
— A quem? — exigiu saber.
— Não sei seu nome — respondeu o homem, cuspindo sangue. — Um dos godos que controla este lugar. Solte-me e será a última vez que me verá.
Arturo pôs novamente a mão na boca do sujeito, torceu com força e o manteve suspenso pouco acima do chão. Flávio ouviu o estalo do pescoço se quebrando, depois o viu ficar flácido. Arturo carregou o corpo para a beira da água, deslizou-o para dentro dela e empurrou para a correnteza, vendo-o desaparecer na névoa enquanto lavava as mãos. Sacudiu-as, levantou-se e voltou aos outros dois.
— Segesto é um dos agentes de Heráclio — explicou, enxugando a mão na sotaina. — O homem que eles procuram é Prisco de Panio. Desde a tentativa falha de diplomacia com Átila, os eunucos da corte de Teodósio o querem morto. Embora tenha sido seu imperador Teodósio quem o enviou aos hunos, não agrada aos eunucos o fato de Prisco ter conquistado a confiança de Átila e eles detestam especialmente que ele esteja escrevendo uma história dos hunos, algo que pode retratar suas maquinações numa luz abominável.
— Mas Heráclio é eunuco de Valentiniano — disse Flávio.
— Sabemos há muito tempo que Heráclio é pago pelos eunucos do Oriente. Ele é seus olhos e ouvidos na corte ocidental e é capaz de influenciar Valentiniano a atender a seus desejos. Aécio tentou alertar o imperador, mas foi em vão. Tudo o que podemos fazer é limitar os danos, mantendo o imperador ignorante de grande parte do que acontece, reduzindo assim a possibilidade de Heráclio entreouvir algo de importância estratégica. Valentiniano tem as virtudes de um imperador capaz, mas, como Heráclio está ali, é adequado para nós que passe a vida desligado do mundo real, no palácio em Ravena, onde sua relação com essa criatura abominável cause danos mínimos.
— Entretanto, de algum modo ele descobriu que pretendemos encontrar Prisco.
— Ele tem espiões em toda parte, provavelmente até entre assessores de confiança de Aécio — disse Arturo severamente. — Heráclio sabe que temos conhecimento dele e que tentamos limitar seu acesso a informações importantes; assim, redobrou os esforços em seu próprio círculo de espiões. É uma batalha constante, um jogo de gato e rato.
— Acredita que ele sabe de nosso verdadeiro propósito?
— Ele tem conhecimento de que viemos a este lugar para encontrar Prisco e deve ter imaginado que pretendemos seguir à corte de Átila. Se ele sabe da espada, é apenas uma conjectura. Precisamos manter a guarda alta.
Eles passaram sob outro arco, em seguida entraram num pátio do qual não havia saída, apenas uma série de soleiras baixas nos prédios. Não havia ninguém à vista, somente dois gatos magricelas brigando por um esqueleto de peixe e ratos correndo pelas laterais das paredes.
Arturo olhou o caminho de onde vieram, procurando mais alguém que talvez os estivesse seguindo.
— Esperem embaixo do arco. Disseram-me para ir ao pátio mais ao norte e entrar na segunda porta à esquerda. Eu os chamarei quando o encontrar.
Começava a chuviscar e Flávio olhou o céu cinzento que parecia ter assentado na neblina, piscando para livrar os olhos da água.
— Torçamos para que ele esteja lá. Se não estiver, não esperaremos. Precisamos partir ao pôr do sol.
Vinte minutos depois, Arturo reapareceu na porta, de capuz puxado e a face nas sombras, e acenou para eles se aproximarem. Flávio e Macróbio o seguiram sob uma soleira baixa, descendo um estreito lance de escada e seguindo uma passagem por onde mal conseguiram se espremer. No final, uma rampa levava à beira da água, o cheiro fétido erguendo-se de uma massa lodosa no fundo. Arturo abriu uma porta de madeira rangente à esquerda, levando-os por uma passagem escura, e outra porta foi aberta por ele em uma câmara mal iluminada. Do outro lado, uma lâmpada a óleo crepitando revelou um homem recurvado sobre uma massa de papéis em uma mesa. Ele ergueu a cabeça, tirou os óculos de cristal polido e observou Flávio e Macróbio, seus olhos lacrimosos, porém afiados.
— E então? — perguntou ele em grego, olhando para Arturo. — Devo falar em latim ou grego?
Flávio pôs a mão no ombro de Macróbio.
— Latim, por meu amigo ilírio aqui, mascarado de monge.
— Estou vendo — disse o homem, trocando de língua e olhando-os de cima a baixo. — Se Arturo serve de parâmetro, os dois também são monges guerreiros?
— Chamo-me Flávio Aécio Gaudêncio, tribuno especial a serviço de meu tio, o magister militum Flávio Aécio. E este é o centurião de meu antigo limitanei numerus, Macróbio.
— Ah, os limitanei — falou o homem. — Estão desaparecidos por essas plagas. A meu ver, soldados melhores do que os comitatenses, que nunca ficam no mesmo lugar por mais de dez minutos e jamais conhecem o povo local e seus costumes e, de qualquer forma, estão baseados muito além das fronteiras.
Macróbio grunhiu.
— Nisto, estou com você.
— Você deve ser Prisco de Panio — disse Flávio. — Eu o saúdo por empreender sua embaixada a Átila.
— Temo não ser esta a opinião geral em Constantinopla — respondeu Prisco, levantando-se. — Por motivos que estão além da apreensão de um mero erudito, parece que estou na lista negra da maioria dos eunucos de Teodósio, visto meu aprisionamento por vontade própria neste buraco. — Ele era muito alto e de aparência doentia, e Flávio o viu vacilar enquanto farejava o ar. — Peço desculpas pelo cheiro. Todo o esgoto desta carcaça podre de cidade vai diretamente para o rio, naturalmente, e é levado pela corrente, mas eles se esquecem de que há água represada e córregos perto do cais onde ele se acumula, em especial a variedade sólida. Mas não posso apelar aos urinatores da cidade para que limpem, posso? Nem tentar fazer eu mesmo e me arriscar a ter pulando sobre mim um dos brutamontes que infestam esta ilha.
— Arturo deu cabo de um deles — disse Flávio.
— Assim ele me conta e por isto sou grato, mas eles são como ratos. Livre-se de um e dez tomarão seu lugar. — Prisco tossiu violentamente, todo seu corpo abalado em convulsões, depois se sentou, ofegante e tentando se recuperar. Flávio via que o sujeito tinha pouco mais idade do que ele próprio, mas suas bochechas estavam encovadas e o cabelo era ralo como o de um homem muito mais velho. — Eu lhes ofereceria água, mas preciso retirá-la do rio por minha janela dos fundos, a alguns passos dessa sujeira no fundo da rampa. O que posso dar a vocês, porém — disse ele, abrindo um vaso pequeno e servindo vinho em três copas ao lado de seu banco —, é um vinho judeu de boa safra. Meu escravo doméstico de Panio é um dácio que tem conseguido se passar por mercador e usado meu suprimento de ouro cada vez menor para chegar à comida e ao vinho trazidos para cá, negociados das partes civilizadas do mundo. É só o que me mantém vivo. — Eles aceitaram o vinho e beberam, recolocando as copas e se sentando em bancos de madeira na frente da mesa.
— Não temos muito tempo — disse Flávio. — Queremos partir antes do poente.
— Muito sensato — respondeu Prisco. — Caso contrário, seu barco desaparecerá misteriosamente na noite, assim como provavelmente vocês também.
Flávio apontou as folhas de papel na mesa.
— Esta é sua história dos hunos? — indagou. — Arturo falou nisso.
— Eu a estou escrevendo como um códice. Não consigo mais um pergaminho decente, seja de papiro ou velo. Trata-se da história dos hunos, dos primeiros tempos aos dias atuais, incluindo o relato de minha visita a Átila. Se por meus esforços não angario nada além de ameaças de morte de quem deveria estar do meu lado, então pensei que pelo menos podia escrever um relato para a posteridade.
— É a parte dos dias atuais que nos preocupa, não a posteridade — disse Flávio, curvando-se para a frente com a mão no joelho. — O que sabe das intenções de Átila?
Prisco pegou o estilete de metal na mesa e colocou em um pote de tinta aberto. Olhou o que estivera escrevendo, depois fitou intensamente Flávio.
— Posso lhe dizer o seguinte: Átila pretende marchar para o leste na Pártia, contornando o norte do mar Negro, descendo as montanhas do Cáucaso e passando pelas planícies da Anatólia até a cabeceira do Eufrates. Mas isto na realidade é secundário, para manter seus guerreiros exercitados. Seus olhos estão em Roma.
— Em Roma? — perguntou Flávio. — Não em Constantinopla?
Prisco meneou a cabeça.
— Ele sabe que pode derrotar o exército de Teodósio em campo, mas não tem a capacidade de manter um sítio ou lançar um assalto por mar, necessário para tomar a cidade. As muralhas terrestres de Constantinopla podem ser defendidas pela guarnição da cidade, em particular se o exército de campo for retirado para reforçá-la, e desde que as vias marítimas pelo Bósforo e pelo Dardanelos continuem abertas, Constantinopla pode sobreviver quase indefinidamente, mesmo que o resto do Império do Oriente se desintegre. Mas a cidade de Roma é outra história. Átila sabe o que os godos conseguiram quarenta anos atrás, quando Alarico irrompeu e plantou seu estandarte no antigo templo Capitolino, acima do Fórum romano. A cidade pode ter sido substituída por Ravena como capital imperial no Ocidente, mas o saque de Roma ainda foi um golpe imenso para o prestígio romano e deixou cheios de ambição outros chefes bárbaros pelas fronteiras. O pai de Átila, Mundiuk, foi um deles e transmitiu isto ao filho.
— O saque serviu de alerta a Roma — disse Flávio. — Depois que os godos se entediaram e partiram, as muralhas de Roma foram reforçadas, a guarnição foi reorganizada e criaram a schola militarum para o treinamento de oficiais, com base nas lições aprendidas.
— Não sou estrategista militar, mas se a schola em Roma é parecida com aquela de Constantinopla, você terá aprendido quantos homens são necessários para defender a muralha de uma cidade, não? Meu amigo Maximino tentou explicar-me isto certa vez, quando andávamos pelas muralhas de Constantinopla. As muralhas construídas pelo imperador Aureliano em volta de Roma são bem impressionantes, mas, com quase 20 quilômetros de extensão, é impossível defendê-las adequadamente sem uma guarnição muito maior do que Roma pode sustentar. Átila tem conhecimento disto e sabe que pode tomar a cidade, se marchar seu exército sobre Roma. Ele tem os olhos sobretudo no palácio abandonado do Palatino. A cidade de Roma hoje pode ser periférica, mas, com Átila, ela se tornaria a capital de um novo império romano, um império governado por uma dinastia huna.
— Sabe o tamanho de seu exército? Existe alguma aliança?
Prisco franziu os lábios.
— Quando Maximino e eu fizemos nossas despedidas apressadas, chegaram outros dois emissários, um do rei ostrogodo Valamito e outro dos gépidas, governados por Ardarico. Havia outros indícios de alianças sendo forjadas, inclusive o casamento de duas filhas de Átila com príncipes godos. Maximino calculou que, em aliança com Ardarico e Valamiro, Átila pode montar um exército de 50 mil homens.
— Cinquenta mil homens — repetiu Flávio, meneando a cabeça e virando-se para Arturo. — O único jeito de Aécio fazer frente a este número seria em aliança com os visigodos.
— Quer dizer, com Teodorico? — perguntou Prisco. — Com seu inimigo jurado?
Flávio refletiu.
— Os godos do Oriente e do Ocidente separaram-se em determinado momento, com os ostrogodos desdenhando dos visigodos por se acomodarem na Gália e na Espanha, e se romanizarem; e os visigodos, por sua vez, desprezando os ostrogodos como bárbaros. As rixas de sangue entre os dois podem ser usadas por Aécio para conseguir a adesão dos visigodos, embora ele talvez prefira colocá-los de lado se os visigodos se aliarem ao comitatenses. Rixas não fazem nenhum bem à disciplina em batalha; desviam os homens a missões próprias para encontrar um rival odiado.
— Aécio precisaria convencer Teodorico de que ele não teria futuro unindo-se a Átila — interveio Arturo. — Se esta aliança fosse forjada, os visigodos logo seriam agrupados pelos ostrogodos e Valamiro se tornaria o chefe godo dominante. Mas, por outro lado, se Teodorico fosse convencido a se unir a Aécio, precisaria ser persuadido de que uma aliança romana com suas forças produziria um exército igual ao de Átila, de 50 mil homens ou mais, o bastante para lhes dar a possibilidade de vitória.
— Seria pedir demais — disse Flávio em voz baixa. — Mas há mercenários e renegados suficientes com treinamento militar vagando pelas províncias ocidentais para Aécio conseguir montar unidades de foederati que reforcem os comitatenses, aumentando a força que ele pode mostrar a Teodorico. Se alguém pode fazer isto, é Aécio.
— Desde que ele veja o sentido de uma aliança com Teodorico — falou Prisco.
— O futuro do Império do Ocidente está em jogo — considerou Flávio. — Eles podem ser inimigos jurados, mas ambos falam a mesma língua. Há o benefício da ancestralidade goda de meu tio.
— Eles não terão alternativa — disse Prisco. — Uma das filhas de Átila, Erecan, aquela que permanece em sua corte, veio em segredo a nosso acampamento em nossa última noite e contou os planos de seu pai a Maximino. Disse que Átila pretendia destruir Milão e Ravena e marchar para Roma, mas antes disso encontraria Aécio em um último confronto apocalíptico, na maior e mais sangrenta batalha já travada. Erecan disse que ele a chamou de “a mãe de todas as batalhas”.
— A mãe de todas as batalhas — repetiu Flávio, tentando absorver a enormidade da informação e virando-se para Arturo. — Precisamos levar a notícia a Aécio o mais breve possível, assim que chegarmos à corte de Átila. Ele deve começar a reunir suas tropas agora.
Prisco se curvou para a frente, sua pele branca e diáfana à luz do lampião.
— Independentemente do que esperam realizar lá, devem saber que o que está à frente, o que há para além desta ilha, não é para os de coração fraco — disse ele, a voz sussurrada e trêmula. — Tudo que soubemos da época de Trajano e das guerras dácias é verdade: histórias sobre outro mundo lá fora, de bruxaria, xamãs e sacrifícios humanos, de águias que gritam e lobos que uivam na noite. Vocês verão coisas que os chocarão, mas devem manter a coragem. Aqueles que alcançam as fronteiras do reino huno passaram em seu primeiro teste e são admitidos na corte do grande rei.
Arturo olhava fixamente, atento.
— Estamos preparados, Prisco — falou. — E agora temos um último pedido.
— E qual seria?
— Conte-nos o que sabe sobre a espada de Átila.
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