Total War: A espada de Átila
Parte 3 | O rio Danúbio, 449 d.C.
P a r t e 3
O rio Danúbio, 449 d.C.
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Dez dias depois, Flávio estava com Arturo e Macróbio em um barco nos trechos intermediários do rio Danúbio, a vela enfunada e os remos que usaram para se afastar da praia agora recolhidos. Foi uma jornada árdua, porém tranquila, saindo de Ravena, primeiro atravessando a planície do rio Pó ao porto de laguna do Vêneto, em seguida por barco pelo Adriático ao local do palácio do imperador Diocleciano em Split Dali, em etapas, ao leste, cruzaram os sopés e montanhas pedregosos da Ilíria, e finalmente a cavalo e depois a pé ao atravessarem os passos do planalto e prosseguirem para o curso do grande rio, alcançando sua margem ocidental e o canto mais distante do território romano no fim de tarde anterior. Como monges viajando a terras bárbaras, não lhes fizeram perguntas sobre o propósito da viagem e as armas escondidas por baixo das sotainas passaram despercebidas pelos companheiros de jornada e proprietários de estalagens onde ficaram hospedados. Outros seguiam ocasionalmente este caminho a partir do Império do Ocidente: alguns seduzidos pelas riquezas a auferir no comércio pelo rio Danúbio; outros procurando fuga e anonimato nas terras da fronteira do império; uns ainda eram monges autênticos querendo converter os pagãos para além das fronteiras, mas só Flávio e seus companheiros fariam a perigosa jornada rio acima e atravessariam as estepes para a corte de Átila, o Huno.
Macróbio estava no leme de popa, o cabelo tonsurado como de um monge e a face bem barbeada, o que não era característico dele, uma cruz de madeira rudimentar pendurada no pescoço por cima da sotaina. Fora criado no litoral ilírio e se encarregou de conduzir o barco, tendo primeiro o examinado com um velho pescador que lhes vendeu a embarcação. O homem fez uma negativa com o dedo quando soube que eles pretendiam seguir corrente acima, meneando a cabeça e enumerando os perigos, mas não fez perguntas depois de Flávio ter mostrado um punhado generoso de solidi de ouro. O barco fedia a peixe e os embornais estavam cobertos das escamas distintas do esturjão, do tamanho de uma palma, o principal pescado no rio. Contudo, era uma embarcação de fundo chato conhecida de Macróbio, de carena rasa e muito espaço para os três homens e suas bolsas. Mais importante, tinha um mastro retrátil e uma vela quadrada, com largura suficiente para subirem contra a correnteza, usando o vento sudeste que começara a soprar naquela manhã.
Flávio voltou a olhar a margem do rio. Tinham acabado de passar entre as pilastras de concreto em ruínas de uma grande ponte construída pelos césares para a travessia do Danúbio, a estrada de madeira que outrora fora sustentada por arcos há muito desaparecida e as próprias pilastras surradas e danificadas pelas enchentes do rio. Do outro lado havia um castrum; o na outra margem abandonado muito tempo atrás, porém o mais próximo guarnecido de tropas na memória viva, suas paredes construídas em sessões de tijolos alternadas com séries de lajes planas que Arturo disse ter visto nas ruínas romanas na Bretanha. Passaram a noite no forte antes de pegar o barco, uma experiência sinistra entre os detritos de homens que podiam ter sido de sua própria unidade limitanei, que receberam a ordem de abandonar o forte no início do reinado de Valentiniano e foram absorvidos no exército móvel comitatenses.
No passado, esta havia sido uma fronteira do Império Romano, mas tal conceito mudara radicalmente desde a época em que imperadores como Trajano avançaram contra a resistência bárbara e estabeleceram uma fronteira que precisava ser tripulada e defendida, neste caso pelos limites naturais de um grande rio. Agora, a ameaça bárbara era maior, mas se concentrava mais além, nas florestas e estepes ao norte; lá, grandes exércitos podiam ser organizados para golpear fundo o Império Romano, a leste ou a oeste. Mesmo a fronteira mais fortemente defendida não teria chances contra tal força e fazia mais sentido retirar seus soldados restantes e absorvê-los nos comitatenses, exércitos que podiam fazer frente aos bárbaros de igual para igual nos campos de batalha, além de avançar bem pelas fronteiras do império, lugares aos quais os bárbaros seriam atraídos para aumentar sua exaustão e a dificuldade de encontrar alimentos em meio a uma população hostil. A batalha decisiva não se espalharia mais pelas fronteiras; em vez disso, ocorreria centenas de quilômetros dentro do Império, na Gália e na própria Itália. Flávio lembrou-se da política sendo martelada nos candidatos a tribunos na schola militarum; ainda assim, ver essas ruínas então o deixou reflexivo. Apesar do sentido estratégico da retirada, os fortes abandonados eram uma triste visão e representavam o defeito inevitável da política: eliminava a exibição de tropas e do poderio romanos aos olhos dos bárbaros, o que significava, para muitos soldados dos dois lados, que sua primeira visão do inimigo, sua primeira chance de avaliá-lo, aparecia nos poucos segundos de antecedência ao ataque, quando os exércitos adversários entravam em batalha.
À frente deles, dos dois lados do terreno rochoso, erguiam-se penhascos irregulares à medida que o rio se estreitava numa garganta, os primórdios de muitos quilômetros de terreno elevado praticamente impenetrável que dividia os últimos postos avançados romanos das estepes além. O vento aumentava com o estreitamento da garganta e Macróbio carregou a vela a meio mastro a fim de reduzir seu ritmo e possibilitar a navegação, contornando qualquer pedra submersa que os pescadores os alertaram que encontrariam na passagem. Arturo apareceu na proa ao lado de Flávio, o capuz cinza ainda cobrindo a cabeça e, juntos, os dois procuraram qualquer sinal de perigo no rio. As águas eram opacas, mas não do tom leitoso do degelo glacial que Flávio vira nos Alpes; aqui, elas eram mais escuras, marrons, uma cor que Arturo disse ter visto nos tributários que alimentavam o Danúbio dos planaltos de turfa ao norte. Era uma visão ameaçadora, que tornava impossível avaliar a profundidade da água ou a presença de qualquer pedra submersa, e, à medida que o vento começava a se afunilar e ecoar nas paredes do penhasco, Flávio teve o pressentimento que levara muitos outros viajantes a dar meia-volta e deixar que a correnteza os devolvesse a terras mais seguras no sul.
Macróbio gesticulou para a face do penhasco a oeste, içou a vela completamente e girou o leme para que seguissem junto dela, mantendo o barco afastado da pedra com um remo. Uma inscrição erodida entrou em seu campo de visão, engastada em uma placa rebaixada que fora entalhada na pedra:
IMP.CAESAR.DIVI.NERVAE.F
NERVA.TRAIANVS.AVG.GERM
PONTIF.MAXIMUS.TRIB.POT.IIII
PATER.PATRIAE.COS.III
MONTIBVS.EXCISIS.ANCONIBVS
SVBLATIS.VIAM.FECIT
Flávio ergueu a mão e Macróbio se aproximou mais, de modo que os caracteres assomavam acima deles.
— É antigo, do tempo dos césares — disse Flávio. — Quando eu era menino em Roma, meu professor Dionísio ensinou-me a ler essas inscrições. — Parou de falar por um momento, passando os olhos pelas linhas. — O Imperador César, filho do divino Nerva, Nerva Trajano Augusto Germânico, Pontifex maximus, tribuno pela quarta vez, pai de Roma, cônsul pela terceira vez, escavando montanhas e usando vigas de madeira, fez esta estrada. — Ele olhou os arcos arruinados da ponte ainda visíveis a suas costas. — Isto é obra do imperador Trajano, quase 450 anos atrás, durante sua campanha contra os dácios. E também registra a conclusão da estrada militar e deve marcar o ponto mais acima no rio alcançado pelas forças romanas, naquela época ou desde então.
— Veja ali à frente — disse Macróbio, apontando para o alto.
Flávio acompanhou seu olhar e ficou boquiaberto de espanto. Onde a garganta chegava a seu ponto mais estreito, pouco além da inscrição, os penhascos subiam ainda mais do que antes, comprimindo a passagem até que o rio não tinha mais de duzentos passos de largura. Porém, em vez da face de penhasco escarpada que viram antes, a pedra fora cortada em duas enormes figuras humanas, uma de frente para a outra na garganta, com as cabeças quase fora de vista, bem no alto.
De um lado a figura era romana, usando o peitoral das legiões e com o cabelo bem aparado dos césares; e, do outro, um rei bárbaro, de cabelo comprido esvoaçante e barba. Ambos seguravam espadas apontadas para baixo diante de si, o romano com um gládio como o de Flávio e o outro, empunhando uma espada mais longa, parecida com aquela dos godos e hunos. Era como se as duas figuras avançassem uma contra a outra, um imperador romano e um rei bárbaro, mas tivessem sido petrificadas pouco antes de fazer contato, condenadas a permanecer de frente como gigantes ancestrais paralisados pelos deuses no ponto inicial do combate.
— São Trajano e Decébalo, o rei dácio — disse Flávio. — Romano e bárbaro, nenhum deles vitorioso ou vencido.
— Chamam este lugar de Portões de Ferro — revelou Arturo. — Aqui termina o governo de Roma e começa a terra sem lei antes do império de Átila.
— Já esteve aqui, Arturo? — perguntou Macróbio, baixando a vela e afastando o barco novamente. — Você parece falar com conhecimento de causa.
— Só sei deste lugar pelos relatórios de informações. Antes de partirmos de Ravena conversei com todos que já fizeram esta rota que conheço. Quando fui à corte de Átila como mercenário na guarda de Genserico, passei pelas montanhas do Norte, a leste dos Alpes e pelos trechos superiores do Danúbio.
— Qual é nossa próxima parada? — perguntou Macróbio.
Arturo apontou a garganta.
— A ilha de Ada-Kaleh, talvez a um dia inteiro de viagem se este vento continuar forte, para além de um lugar onde o rio volta a se alargar. Ali há um porto livre, um empório a que chegam mercadores de todo o mundo conhecido, habitado por uma raça de mercadores que dizem estar ali há centenas de anos. De Ada-Kaleh, os hunos conseguem a seda de Tina que entrou em voga entre suas mulheres, bem como o peridoto verde do mar Vermelho que preferem em suas joias. Com o ouro dos tributos de Teodósio despejado nos cofres de Átila, os hunos conseguem o que quiserem. Mas trata-se de um lugar que fica fora de qualquer jurisdição, governado apenas pelos próprios mercadores, que empregam mercenários para policiar as regras do comércio justo. Às vezes os mercenários tomam o poder e houve décadas, gerações inteiras, em que foi o lugar mais perigoso da terra, onde se podiam fazer enormes lucros, mas a expectativa de vida para qualquer um com ouro nos bolsos podia ser medida em dias, se não em horas. Os mercadores chegavam, faziam seus negócios e saíam com a maior rapidez possível.
— E nós? — perguntou Macróbio, apoiando-se no leme. — Por que vamos a este buraco?
— Para fazer precisamente isto — respondeu Arturo. — Chegar lá, fazer nossos negócios e partirmos. Porém, nossos negócios são com um homem que se esconde por lá, um sujeito que pode nos revelar o melhor caminho para a capital huna e nos dar as últimas informações sobre Átila.
— Fale-nos dele — pediu Flávio.
— Seu nome é Prisco de Panio. É de Constantinopla e foi emissário a Átila.
— Tomara que não seja outro eunuco — resmungou Macróbio.
Arturo balançou a cabeça.
— Teodósio já cometeu este erro. Mandou eunucos e não teve mais notícias deles. Teodósio e Valentiniano estão ambos tão isolados da realidade que não percebem como as coisas são vistas de fora. Os eunucos podem ser bons na lisonja e na manutenção de livros contábeis, mas não impressionaram o comandante mais poderoso do mundo. Logo depois disso, Átila decidiu atacar Constantinopla.
— Então este Prisco é uma espécie de diplomata? — perguntou Macróbio.
— Ele era — falou Arturo. — Agora está no limbo, escondido neste lugar, ao que tudo indica escrevendo uma história dos hunos.
— Você parece conhecer muita gente no limbo, Arturo — disse Macróbio. — Pelágio escondido nas catacumbas de Roma, Prisco neste lugar desolado...
— Se você tivesse a vida que tenho, um desertor do exército romano na Gália, um mercenário renegado com a cabeça a prêmio para metade dos chefes bárbaros do Norte, aprenderia sobre o mundo oculto à nossa volta, os lugares em que fugitivos e proscritos podem viver sem que sejam notados e molestados.
— Se a sua cabeça está a prêmio, que sentido tem para você ir à corte de Átila?
Arturo fez uma pausa antes de responder:
— Porque este é mais um daqueles lugares ocultos. Se você é um eunuco, pode esquecer. Mas se é um erudito como Prisco, com conhecimento que interessa a Átila, ou se é um soldado que pode demonstrar seu talento em combate, poucas perguntas são feitas. Átila sabe que ninguém procura sua corte sem assumir riscos, que aqueles que não são emissários ou mercadores provavelmente são renegados e fugitivos, escapando de problemas em outras partes, em vez de virem como espiões ou assassinos. E é um lugar sedutor, um reino oculto que parece fora da órbita da existência normal, perigoso, porém atraente. Vá até lá, caia sob o feitiço de Átila e suas filhas, e jamais desejará partir.
Macróbio o olhava fixamente.
— E suas filhas? O que quer dizer com isto?
— Erecan, Eslas e Erdaca. Átila tem filhos homens, mas foram as mulheres que herdaram a força marcial transmitida do pai de Átila, Mundiuk. Eslas e Erdaca casaram-se com príncipes ostrogodos, mas Erecan permanece na corte. Foi com ela que travei um combate desarmado quando fui à corte de Átila doze anos atrás, quando ela era uma adolescente e eu chegara a serviço de Genserico.
Macróbio estreitou os olhos para Arturo.
— Há alguma coisa que não esteja nos contando?
— O que quer dizer?
— Você não está aqui apenas para visitar sua antiga namorada, está? É disso de que se trata?
Arturo se virou e olhou com severidade para Macróbio.
— Erecan é uma razão para eu ter me voluntariado para esta viagem, mas não pelos motivos que você tem em mente. Ela tem orgulho de sua herança huna, mas não há amor entre ela e o pai. A mãe de Erecan era uma escrava cita, criada da principal esposa de Átila, mas o bebê foi levado para a casa e criado como uma filha legítima dele e de sua rainha. Erecan sabia a verdade desde muito nova, pois tinha lhe sido contada em segredo pela verdadeira mãe, além de ser fato inquestionável: elas têm os mesmos olhos e o mesmo rosto, e Erecan não é nada parecida com a rainha huna de Átila. Quando ela procurou o pai e lhe contou que sabia, ele ficou enfurecido e ordenou a execução de sua mãe. Desde então Erecan tem ódio por ele e vem alimentando o desejo de vingança, mais forte entre os hunos do que em qualquer outra raça de bárbaros que eu tenha conhecido. Contei a história a Aécio e ele pensou que podia convencê-la a ajudar em nossa causa.
Macróbio tossiu e falou:
— O que pode significar que logo os dois estarão envolvidos num combate desarmado de novo?
Arturo lhe abriu um sorriso fraco.
— Tem a imaginação de um soldado, Macróbio. Mas há outro motivo pessoal para mim. Se não for controlado, Átila rolará pelo Império do Ocidente e alcançará a costa norte da Gália. Talvez ele não tenha a capacidade de atravessar o mar, mas logo ficará absorto pela aliança e ameaça de saxões, anglos e jutos que invadiram a Bretanha, e usará sua perícia marítima e suas habilidades para levar seu exército à costa de meu país. Para muitos em Roma e Ravena, minha terra é um lugar de frio, umidade e nostalgia, mas todos os hunos a conhecem pelo estanho, cobre, ferro e ouro, um lugar onde seus ferreiros podem forjar mil espadas de Átila. Fazendo o que posso agora para sabotar a base de poder do rei Huno, luto pelo futuro de meu povo.
— Fale-nos mais de Prisco — disse Flávio.
Arturo fez outra pausa antes de prosseguir:
— Dois anos atrás, depois que Teodósio enviou os eunucos para negociar e eles foram assassinados, Átila lançou seu ataque sobre Constantinopla, o ataque que provocou o temor de Deus em Valentiniano em Ravena e fez Aécio perceber a ameaça que os hunos representavam para o Império do Ocidente. No último minuto, Átila ordenou a retirada de seu exército, fugiu pelas muralhas de Constantinopla e do fato de que seu homens não tinham capacidade para uma guerra de sítio ou abastecimento de longo prazo, retornando a seu covil nas estepes. Mas Teodósio, em Constantinopla, ficou abalado com a velocidade e a ferocidade do assalto huno, que varreu todas as forças romanas colocadas contra eles, e decidiu enviar outra embaixada com ofertas renovadas de negociação e concessões.
— Quer dizer suborno em ouro — disse Flávio.
Arturo confirmou.
— Os imperadores do Oriente desceram por essa ladeira escorregadia há muito tempo, mesmo na época de Mundiuk, e agora os pagamentos são questão de rotina para os hunos. A guerra com Átila sangra os cofres de Constantinopla mais rápido do que o esgotamento de seu efetivo e, se Valentiniano não tiver cuidado, o mesmo acontecerá no Ocidente. É o principal motivo para Aécio querer que debilitemos o poder de Átila assim que for possível, antes que Valentiniano decida enviar carroças cheias de ouro de Ravena.
— Aécio pode prever muito bem o custo da conciliação — afirmou Flávio. — Podemos entregar terras na Gália e na Espanha como concessões aos visigodos e alanos, e isto funcionaria a nosso favor, pacificando e civilizando os dois povos, tornando aliados os nossos inimigos. Mas entregar ouro é outra questão. Faça isso e você não terá como pagar ao exército. O problema do pagamento acumulado do exército já está ruim nas atuais circunstâncias.
— Que pagamento? — resmungou Macróbio. — Não vejo um solidus de pagamento oficial do exército há mais de dez anos.
Arturo lhe lançou outro olhar severo.
— Bem, se entrarmos na sala-forte de Átila, poderá banquetear seus olhos com mais ouro do que já sonhou na vida, todo o ouro que deveria ter estado nos pacotes de pagamento de seus camaradas no exército romano do Oriente.
— Vai contar sobre nosso propósito a Prisco? — perguntou Flávio.
Arturo olhava fixamente o rio.
— Teodósio confiou a embaixada a Maximino, um tribuno da cavalaria no comitatenses do Oriente que conheci depois que o capturamos, quando eu estava a serviço de Genserico e o ajudei secretamente a escapar. Prisco era seu amigo de infância e foi com a embaixada como consultor e erudito, alguém como Maximino, que Átila podia respeitar. Tiveram permissão de entrar na corte huna, mas chegou ao conhecimento de Maximino o subterfúgio entre os eunucos em Constantinopla, um plano para retratar a missão deles como de espionagem, e não diplomacia, e ele decidiu interromper a missão antes que Átila soubesse da trama. Maximino retornou a Constantinopla decidido a desentocar e levar à presença de Teodósio aqueles responsáveis por trabalhar contra ele, mas Prisco temia por sua vida e decidiu ficar na ilha de Ada-Kaleh até que cuidassem dos conspiradores.
— Maximino obteve sucesso? — perguntou Flávio.
Arturo franziu os lábios.
— Como Aécio, ele descobriu a influência dos eunucos sobre os imperadores. A trama foi um jogo de poder entre dois eunucos que lutavam pela posição de controlador da casa imperial, um deles inventando a história de espionagem e culpando o outro a fim de colocar Teodósio contra ele. A trama deu certo e Teodósio ordenou a execução do eunuco inocente, mas quando tentou expor o verdadeiro perpetrador, Maximino foi isolado, ganhando a inimizade do imperador. Com isso, ele só tornou sua situação e a de Prisco ainda mais instável. Hoje, Maximino já sobreviveu a inúmeras tentativas de assassinato e Prisco foi deixado desprotegido contra qualquer enviado do eunuco que possa descobrir seu paradeiro na ilha. As maquinações dos eunucos em Constantinopla fazem Heráclio parecer um amador, embora ele e seus camaradas em Ravena sem dúvida estejam observando e aprendendo.
— E você, ainda assim, sabe a localização de Prisco.
— Quando Aécio falou-me de seu plano para irmos à corte de Átila, enviei um recado a Maximino, que informou onde eu poderia encontrar Prisco, e também o alertou com antecedência de nossa chegada. Jamais o encontrei pessoalmente. Precisaremos improvisar. Mas a missão dele na corte dos hunos foi apenas alguns meses atrás e Prisco conhece o estado de espírito de Átila. Ele pode ser a nossa melhor fonte de informações.
Flávio olhou para trás. A vela enfunara novamente e impelia o barco na correnteza, sua esteira dando a ilusão de velocidade. Ao avançarem, sentiu mais do que nunca que sua busca era uma batalha contra tudo e todos, uma aventura sedutora que se tornara um desafio hercúleo em um mundo muito distante de sua própria experiência, um mundo em que a lei e a moralidade, até a regra de Deus, não passavam de conceitos a ser descartados por capricho. Ele ainda via os Portões de Ferro, as duas estátuas colossais confrontando-se pelo vazio estreito. Houve uma época em que todos os encontros entre romanos e bárbaros pareciam destinados a terminar assim, em um impasse permanente, quando Roma empurrava ao máximo suas fronteiras e Trajano e Adriano construíam-nas em pedra. Mas isso já fazia muito tempo e as fronteiras eram novamente fluidas. Os bárbaros já não eram mais uma ameaça a ser excluída, faziam parte da própria Roma, uma simbiose que Flávio sabia estar no coração de seu próprio ser. Entretanto, para cada tribo absorvida, para cada povo apaziguado e assentado, parecia haver uma ameaça mais além à espreita, uma ameaça que agora reunia forças em algum lugar à frente deles, na terra dos hunos.
Ele semicerrou os olhos para as estátuas, suas formas agora quase perdidas no nevoeiro. Talvez os césares tivessem razão e a única estratégia viável fosse avançar e criar uma fronteira permanente. Mas talvez os melhores deles, imperadores como Trajano, também soubessem que a estratégia tinha um ponto fraco inerente, que não proporcionaria defesa contra uma força que um dia talvez se aglutinasse com um poder maior do que Roma podia opor e se lançassem às fronteiras, esmagando tudo em seu caminho, como se muralhas e fortes fossem feitos de palitos de madeira.
Flávio observou os Portões de Ferro recuando e desaparecendo, depois voltou à proa.
Não havia como mudar o passado, ou voltar por este rio. Ele agora precisava se concentrar nos desafios que tinha. O fim da tarde e a noite no rio ainda estavam diante deles, horas em que enfrentariam os perigos garantidos pelo velho pescador, os redemoinhos, cataratas e gargantas, antes de chegarem ao lago e à ilha de Ada-Kaleh.
Ele acenou para Macróbio no leme, pegou um remo nos embornais e foi para um lado do banco central, Arturo fazendo o mesmo do outro lado. Sem dizer nada, começaram a remar firme.
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