Total War: A espada de Átila

David Gibbins · Capítulo 22 de 27

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Total War: A espada de Átila

Capítulo 16

 

 

O vento farfalhava pelo trigal na planície, com um sussurro pungente que parecia deixar os homens tensos, suas cabeças elevando-se acima dos trechos planos pela margem do rio, onde estavam desde o amanhecer, esperando pela ordem de avançar. Por toda aquela manhã o ar estivera parado, o calor aumentando inexoravelmente, até que eles começaram a pingar de suor sob a armadura; pelo menos a brisa lhes trazia algum alívio. Flávio a observava agora, redemoinhando e agitando os caules de trigo na encosta diante dele, e mais uma vez passou os olhos pela cumeeira a leste, procurando algum sinal dos batedores que subiram disfarçadamente ali durante a noite, buscando posições ocultas para examinar o acampamento inimigo do outro lado. A espera a manhã toda por um sinal parecia interminável, mas pelo menos o sol se elevara o suficiente para que não estivesse mais em seus olhos durante o assalto; o inimigo perdera uma vantagem tática evidente, mas provavelmente fazia o mesmo jogo, esperando para ver que lado atraía o outro para a batalha, todos atentos para aquela elevação do terreno onde os comandantes sabiam que estaria a chave para qualquer vitória.

Flávio tateou o gládio e mexeu no cinto do ombro que trazia sua espada adicional às costas, a longa lâmina embainhada e o punho escondido por uma capa de lã. Pegou um odre de água com os alanos que andavam de um lado a outro do rio para manter os homens abastecidos. Sangibano, seu líder, esquivava-se em algum lugar atrás, ofendido por não ter sido convidado a se juntar ao conselho de guerra. Esta era a menor das preocupações de Aécio, no entanto. Os alanos em seu estado atual de preparo físico não representavam ameaça alguma à ordem mundial depois da batalha e serviam hoje ao propósito pragmático de carregar água. Aécio aproximou-se dele, tomou um gole do odre estendido e observou ele mesmo a cumeeira, de olhos semicerrados.

— Caminhe comigo, Flávio. — Os dois saíram do trecho plano que servia como quartel e andaram mais ou menos vinte passos para o trigo na frente das linhas romanas, fora do alcance dos ouvidos de terceiros. Aécio virou-se para ele, falando em voz baixa: — Ainda tem certeza de que Átila avançará? Já se passaram oito horas desde o amanhecer.

Flávio fez que sim.

— Átila é um tático perspicaz, mas não é um homem paciente. Ordenará que seus soldados ataquem antes de você, magister militum.

Aécio tomou outro gole, enxugou a boca e devolveu o odre a Flávio.

— Muito bem. Continuaremos a esperar pelo sinal dos batedores. Podemos aguentar mais um dia, se necessário for.

— Átila não esperará tanto tempo. Não tem reservas de alimentos, como nós. Para protelar mais um dia, ele teria de enviar homens a procurar comida, diminuindo sua força e tornando-o mais vulnerável. Ele não tem alternativa senão atacar hoje.

Aécio assentiu e voltou para conferenciar com os dois comandantes comitatenses, Aspar e Anagasto. A disposição de suas forças baseava-se nas informações recebidas mais cedo de batedores sobre a dispersão do inimigo abaixo, do outro lado da elevação, e da provável ordem de batalha. Quando chegasse a hora, eles liderariam os dois exércitos subindo pelo flanco norte da encosta para enfrentar os ostrogodos sob comando de Valamiro, bem como os hunos de Átila no centro, enquanto a leste os visigodos combateriam os gépidas comandados por Ardorico. Flávio lembrou-se das negociações de Aécio no dia anterior com Teodorico e Torismudo para garantir que os dois exércitos godos não se encontrassem em batalha. Fora uma atitude sensata que talvez escapasse a um comandante menos capaz do que Aécio, sem seu intelecto político e a capacidade crítica nascida da própria ancestralidade goda: ele sabia o que motivava seu povo. O generalato moderno, percebeu Flávio, era uma questão muito mais complexa do que na época dos césares, quando havia uma rígida cadeia de comando e as legiões raras vezes se aliavam em batalha com uma força de mesmo poder, em particular que uma força tivesse sido uma inimiga jurada apenas algumas semanas antes.

O rei visigodo e seus filhos não estavam com Aécio, mas em seu próprio quartel, separado, com os chefes tribais, 800 metros ao sul. Esta também fora uma estratégia cautelosa por parte de Aécio, sublinhando uma promessa que fizera a Teodorico de que ele seria um aliado igual em campo, não um subordinado. Mantendo os comandantes visigodos longe do comitatenses, ele também evitava surtos de raiva que poderiam facilmente surgir entre antigos inimigos e que destruiriam num instante sua possibilidade de sucesso na batalha iminente. Aécio fazia um número de equilíbrio em muitos níveis, entretanto, mesmo neste jogo de espera, podia ser apenas uma questão de tempo para os visigodos questionarem sua estratégia, podendo lançar um ataque independente, enfraquecendo desastrosamente o plano. Flávio podia imaginar o que passava pela mente do tio, e sabia ser esse o motivo pelo qual ele o puxara de lado e o interrogara mais uma vez sobre Átila. Quanto antes os hunos atacassem, melhor.

Ele olhou o campo de trigo dos dois lados, um mar ondulante e dourado que continha mais de 50 mil homens posicionados para a batalha, o maior exército já colocado em campo por Roma no Império do Ocidente. Por um breve momento, sentiu-se sobrecarregado, como se o crisol da batalha estivesse apenas em suas mãos. Aécio fizera dele seu conselheiro especial devido a seu conhecimento em primeira mão sobre Átila e havia nomeado Macróbio e o restante do numerus como sua guarda pessoal. Era uma honra enorme, mas também uma responsabilidade assustadora. E se ele estivesse enganado? Tinha sido ele que aconselhara Aécio a não fazer um assalto preventivo, mas esperar até que os próprios hunos atacassem, encontrá-los de igual para igual na cumeeira, travar uma batalha sangrenta de atrito e torcer para vencer ali; um ataque preventivo podia encontrar arqueiros de Átila distribuídos abaixo, preparados para despejar uma tempestade mortal de flechas nos romanos e visigodos e obrigá-los a voltar pela elevação acima, enfraquecendo-os e tornando-os menos capazes de resistir ao assalto huno que inevitavelmente se seguiria. Era uma tática que Flávio tinha visto Átila empregar na Pártia três anos antes, atraindo o inimigo para um assalto sobre uma elevação deserta e encontrando uma linha fixa de arqueiros hunos.

Flávio lembrou-se da grande espada, empunhada pela primeira vez com Arturo na sala-forte do palácio de Átila. Se tivesse razão hoje, o legado dessa aventura extraordinária poderia ser não apenas a ausência das mãos de Átila na espada, o poderoso símbolo do reinado huno, mas também o que Flávio aprendera cavalgando junto dele em sua batalha simulada, absorvendo o conhecimento dos pontos fortes e fracos do grande guerreiro que agora podiam ser colocados contra ele neste dia nas Planícies Cataláunicas, onde o destino do mundo ocidental logo seria decidido.

Pela linha à direita, viu seu primo Quinto Aécio, gritando ordens ao numerus misto de visigodos e romanos que ele afiara numa das melhores formações de choque do exército nos últimos meses. Quinto estava musculoso e bronzeado, uma grossa cicatriz correndo por sua barba rala e descendo ao pescoço, muito diferente do menino que Flávio vira deixando a schola inconsolável depois de matar acidentalmente o amigo Marco Catão dois anos antes.

Outros desta turma também estavam ali, aqueles que sobreviveram para tanto: um era membro da equipe de Aécio, dois estavam entre tribunos fabri que supervisionaram a fortificação do acampamento atrás das linhas, e o resto liderava numeri de cavalaria e infantaria na encosta. Flávio viu que Macróbio também observava Quinto e eles trocaram um sorriso. Apesar de toda a bravata e tenacidade, os dois sabiam que Marco Catão estava hoje com Quinto, que, a cada passo que ele desse encosta acima, seus ouvidos estariam soando com aquelas palavras que Macróbio lhe gritara ao lado do cadáver ensanguentado na palaestra, que ele devia, pelo amigo, sustentar o que fazia como homem e levar adiante a honra de Roma.

Flávio estreitou os olhos para o céu. O sol estava perdido na neblina, mas a umidade aumentava e ele sentiu o suor escorrer pelo pescoço. Olhou novamente a cumeeira. De súbito viu algo, um homem ao longe correndo pelo trigo na direção deles, cortando uma trilha na elevação, encosta abaixo. Seguiu-se outro, e mais além ele viu outros dois saírem de seu esconderijo e agitar as bandeiras. Todos os batedores deviam permanecer na cumeeira depois que o assalto começasse para sinalizar quaisquer alterações no movimento inimigo, mas ele não culpava os dois que fugiam, procurando a segurança relativa em suas próprias linhas, em vez de a morte certa entre os dois exércitos adversários.

Aécio e os dois generais levantaram-se rapidamente, colocaram o elmo, e Flávio fez o mesmo.

Por toda a linha, uma imensa massa de homens se erguera, faiscando lanças e espadas, a cavalaria comitatenses montada, os cavalos bufando e pisoteando. O chefe do mosteiro em Châlons, que estivera esperando por este momento com vestimenta e água benta, tentou ungir Aécio, que o empurrou de lado; não era hora para Deus. Ele irrompeu à frente da linha e se virou.

— Preparem-se para a batalha — gritou, em seguida avançou cumeeira acima, de espada em punho.

Flávio puxou o gládio e olhou para Macróbio.

— Está preparado, centurião? — Ele se virou aos demais do numerus. — Apsachos? Máximo? Catão? Todos vocês, soldados? Estão preparados?

Eles bateram as espadas.

— Ave, tribuno.

Flávio apontou a espada para Aécio.

— Então, à guerra.

No início, o exército avançou sem saber se o inimigo fazia o mesmo, sua visão das linhas hunas completamente obstruída pela elevação e tendo que se basear apenas pelos sinais dos batedores. E então, um dos homens que descera correndo da cumeeira passou disparado por Aécio, gritando: “Os hunos estão chegando, os hunos estão chegando.” Aspar o segurou, arrastando-o trôpego e ofegante encosta acima enquanto o interrogava, soltando-o em seguida.

— Átila aproxima-se em linha, subindo a encosta como nós, primeiro sua infantaria — gritou ele a Aécio. — Você tinha razão.

Flávio olhou de um lado a outro. A cavalaria estava a meio galope atrás da infantaria, pronta para cavalgar ao conflito ou contornar pelos flancos. Mandá-los avançar em um ataque frontal teria sido arriscar sua chegada à elevação exaustos e à plena vista dos arqueiros hunos, que no momento podiam estar mirando do outro lado. Átila claramente decidira fazer o mesmo, manter a cavalaria em reserva, sabendo que os arqueiros montados, em particular, eram valiosos demais para serem enviados cumeeira acima, alvos fixos nesse de momento de incerteza enquanto percebiam que não havia investida da cavalaria romana para contra-atacar e só uma enorme onda de infantaria avançando contra eles. Flávio sentiu a boca secar enquanto avançava, o sinal do medo e da adrenalina que experimentara pela primeira vez diante de Cartago. A batalha dos Campos Cataláunicos seria um embate de soldados a pé, uma batalha de um tipo mais brutal, milhares de homens atacando e lutando com espada, maça e punhos pela posse daquela elevação e pelo controle do campo de batalha.

Logo à direita de Flávio, o flanco esquerdo do exército visigodo avançava sob o comando de Radagaiso e Tiudimer, com Teodorico e Torismudo fora de vista, vários estádios para o sul, onde se esperava a principal investida dos gépidas de Ardorico. Um homem — um milites romano que ousadamente avançara atrás de Aécio, mas depois refugou, provavelmente esmagado pela enormidade do exército atrás dele e sua própria visibilidade à frente dos soldados — oscilou, cambaleou e errou demais à direita, à frente das linhas visigodas; de repente caiu de joelhos e largou a arma, cobrindo as orelhas com as mãos e enroscando-se em uma bola no chão. Radagaiso foi a ele, o rosto contorcido de fúria, pegou o homem pelo cabelo e o decapitou com um único golpe de espada, virando e segurando a cabeça no alto para que seus homens vissem.

— É isto que acontece aos covardes — berrou, jogando a cabeça na direção da cumeeira, o sangue espirrando em volta dela.

Aécio estava muito à frente e concentrado demais na cumeeira para testemunhar o acontecimento, mas, ainda que não fosse o caso, Flávio sabia que não teria tentado impedir; só o que importava agora era manter o ímpeto. Que o primeiro sangue numa batalha fosse um ato disciplinar de seu próprio lado não era necessariamente um mau presságio, tratava-se de algo que podia endurecer a determinação dos soldados que seguiam; entretanto, nas circunstâncias desta aliança, a execução de um soldado romano por um líder godo à plena vista do exército podia ser compreendida como um ato de provocação letal, algo que levaria à total desintegração da linha porque os camaradas do homem procurariam se vingar, atacando os visigodos. Felizmente, o acontecimento pareceu ter sido esquecido com a mesma rapidez com que se desenrolou e o corpo do homem foi pisoteado e deixado bem para trás, com o avanço do exército. O próprio Flávio viu que Radagaiso não teve a intenção de provocar e sem dúvida teria feito o mesmo com um de seus próprios homens, se tivesse mostrado hesitação ou desespero, provavelmente lidando com ele com mais selvageria e fúria do que a que infligira ao romano.

A cumeeira estava a menos de trezentos passos à frente. Flávio ofegava muito, o suor escorria de seu rosto, o coração batia como um tambor. O solo seco abaixo do trigo estremecia e vibrava com o martelar de milhares de homens de armadura subindo a encosta. Tudo no passado, todo o planejamento e estratégia, os pensamentos que ocuparam as longas horas da manhã, pareciam recuar como o campo plano de trigo a suas costas e ele só conseguia se concentrar no presente, em um mundo de sensações e na ação, dando pouco espaço para a reflexão. Era um mecanismo antigo do soldado prestes a entrar em batalha, um travamento dos processos de pensamento que permitia colocar em menor perspectiva a enormidade e o horror do que estava a ponto de acontecer. A única coisa que importava agora era segurar bem a espada, o bater dos pés, o treinamento e o instinto que assumiriam assim que ele fizesse o primeiro contato com o inimigo.

Macróbio estava à frente, avançando com os outros do numerus para cercar e proteger Aécio, tentar reduzir seu passo e trazê-lo de volta, para trás da liderança do exército. Ele não precisava mais estar no front para estimular e liderar as tropas no avanço, e era mais importante que sobrevivesse ao embate inicial para orientar a batalha à medida que ela se desenrolasse. Aécio também entendeu isto e ficou para trás com eles, deixando que o numerus o envolvesse enquanto a infantaria fluía à volta e subia a encosta com estrondo. Os indivíduos mais à frente estavam a menos de duzentos passos da crista da cumeeira e ainda não viam nada à frente, apenas a linha ondulante de trigo e a névoa do céu mais além. Por um momento fugaz, Flávio se perguntou se tudo aquilo não seria só um sonho, se Átila e seu exército não passariam de uma fábula da imaginação conjunta, uma miragem vista pelos batedores na névoa e no calor. Era como se eles subissem correndo uma encosta onde tudo o que havia além era a margem do mundo e uma queda no abismo.

E então ele ouviu. O bater dos pés parecia ter se duplicado, um ruído pulsante que martelava em seus ouvidos. O chão não mais vibrava apenas, mas sacudia-se, toldando a linha da cumeeira à frente. E então o exército huno entrou repentinamente em seu campo de visão, milhares de homens vestidos de preto, berrando e brandindo as armas na linha da cumeeira, no máximo a dez passos dos primeiros soldados romanos. Ele mal teve tempo de registrar isso quando os dois exércitos se chocaram, o enorme ímpeto de cada lado provocando uma sanfona humana até que o centro tornou-se uma massa sólida de carne, esmagando os homens no meio com uma força que repercutia de cada lado, lançando os homens à frente de volta a Flávio e empurrando no trigo aqueles atrás dele.

Enquanto ele se levantava e a linha se sacudia, o barulho foi substituído por uma cacofonia de gritos estridentes e berros, pelo choque do aço e o baque e esmagar de maças e clavas. O emaranhado de corpos do embate inicial tornou-se a linha de frente, os hunos de um lado e os milites e visigodos do outro, atacando-se e cortando-se, derrubando homens de seu próprio lado que estavam próximos demais para evitar as armas dos camaradas. Corpos empilhavam-se sobre corpos até que os dois lados estavam separados demais para fazer contato e então subiam e escorregavam pelo monte, não mais capazes de brandir as armas, atacando-se com as mãos e os dentes, procurando os olhos e o pescoço, como lhes ensinaram.

A pressão de homens subindo a encosta forçou-se cada vez mais no moedor de carne, milhares lutando desesperadamente pela vida em uma faixa de terra com no máximo dez passos de largura e já tomada de uma pilha alta de cadáveres. O sangue descia a encosta e passava por Flávio em rios viscosos e vermelhos, como se a própria cumeeira sangrasse, trazendo dedos, pernas e braços decepados e, pior, pedaços de carne que davam a impressão de terem sido arrancados de corpos vivos por animais selvagens em um frenesi de alimentação.

Flávio ficou assombrado com a ferocidade e a velocidade do ataque e sabia que os milhares de outros colocados ao longo da linha pouco atrás do combate sentiam o mesmo. Mas ele tinha ciência de que precisavam manter a coragem e sustentar sua posição, prontos para contra-atacar qualquer avanço e impedir que os hunos assaltassem os flancos romanos. Ele já podia ver homens dos dois lados que tinham ultrapassado a pilha de corpos, travando duelos desesperados antes de serem dominados pela mera vantagem numérica. Ele viu a arma que mais provocara medo nos pártios três anos antes, os laços com lastro que chicoteavam da linha huna como línguas de serpente, matando instantaneamente os romanos e visigodos que levavam toda a força do chumbo na cara, enrolando-se no pescoço de outros que eram arrancados do chão e arrastados indefesos para as linhas hunas, onde lhes davam cabo com espadas e maças, suas mãos agarradas ao pescoço e os olhos e narizes espirrando sangue com o aperto dos nós.

Da massa em turbilhão, veio um guerreiro huno cambaleando para eles, tendo perdido um olho e com a face horrivelmente mutilada, como se um cão o tivesse atacado. Aécio ergueu a espada, mas Macróbio saltou à frente e pegou o homem pelo pescoço, torcendo-o de lado com a espada ainda embainhada e largando-o no chão enquanto o sujeito soltava seu último suspiro aos gorgolejos. Outro homem apareceu atrás dele, mas desta vez era o chefe gordo Radagaiso, uma massa ensanguentada de pele pendendo da boca e um globo ocular balançando-se de um cacho, o resultado horrendo de sua luta com o huno; ele cambaleou, arremeteu e caiu no chão de olhos arregalados, um machado cravado fundo nas costas. Pela linha à esquerda, Flávio via sangue e pedaços de carne voando pelo ar como lama de uma carroça em alta velocidade, onde um numerus de machadeiros ibéricos entrava na refrega, faiscando as armas acima da peleja quando as erguiam e desciam com um barulho nauseante de osso quebrado e carne pulverizada.

Flávio perguntou-se quantos dos guerreiros hunos adversários seriam homens com quem ele cavalgara junto de Átila dois anos antes. Lembrava-se de que ele e Átila tinham conversado sobre o que os gregos chamavam de kharme, a sede de batalha. Perguntou-se se Átila tinha agora esta sede, ou se na realidade era incapaz de senti-la sem ter na mão a espada sagrada. Enquanto olhava pela linha, procurando por algum sinal do líder huno, sentiu uma redução na ferocidade da batalha, os homens que momentos antes se lançavam uns aos outros através das pilhas de cadáveres agora recuando em linhas irregulares de cada lado da cumeeira. O que restava da explosão que havia pulsado pelas linhas romanas desde o assalto inicial, empurrando os homens para a frente uma vaga após outra, finalmente se esgotara, como uma imensa onda do mar que se choca numa praia, para depois recuar fervilhando e desordenada. Flávio sentia que o mesmo ocorria do lado huno. Era como se as baixas, a exaustão e o choque do embate tivessem envolvido os sobreviventes e os deixassem atordoados, o ímpeto de trás não mais o suficiente para obrigá-los a avançar sobre os corpos ou contra o adversário. Eram como duas grandes feras maltratadas e dilaceradas depois de um duelo, rosnando e babando, porém não mais capazes de travar um combate mortal, a vontade de lutar ainda presente, mas a energia dissipada e seus braços e pernas incapazes de responder.

A batalha parecia suspensa na balança. Flávio sabia que o menor evento agora podia mudar o curso da história: uma explosão renovada de ferocidade de alguns soldados na linha, os gritos de um oficial saltando à frente para estimular seus homens, um sinal celeste que repentinamente assumisse um enorme significado. Ele sabia que haveria aqueles do outro lado observando também, esperando pelo momento certo para agir.

E então viu a figura de um guerreiro montado erguendo-se da linha escura do exército huno, o cavalo espumando e pisoteando, jogando a cabeça de um lado a outro, o homem no alto sólido e imperturbável, olhando à frente com as mãos nos quadris. Mesmo antes de reconhecê-lo, Flávio sabia que só podia ser Átila. Estava a menos de cinquenta passos, mais perto do que Flávio teria imaginado chegar ao rei huno novamente, tão próximo que podia ver as linhas de seu bigode e as três cicatrizes brancas em cada face. Ele se ergueu na sela, retesou-se e berrou como um touro, um som extraordinário que trovejou e estalou pela linha como um trovão. Os demais hunos o imitaram, gesticulando e olhando de banda os romanos e visigodos a apenas alguns passos.

O barulho dos berros foi tragado por um imenso choque de armas, espada contra escudo, machado contra perneiras, como o som de uma grande cascata montanhosa caindo em uma garganta.

Flávio sentiu uma repentina apreensão percorrer a linha de frente romana, distinguiu o cheiro do medo. Era tarde demais para Aécio reagir à altura; Átila tinha a vantagem. Mas Flávio sabia que Átila também fizera um jogo muito arriscado: havia aparecido sem arma em punho. Talvez, aparecendo desarmado, pretendesse provocar os romanos, revelar sua invencibilidade mesmo sem armas e fortalecer seu exército huno, mostrar-lhes que confiava na força de armas deles para vencer. Mas havia uma verdade por trás do jogo de Átila que só Flávio, Macróbio e Aécio conheciam, uma verdade que agora podia ser usada de forma arrasadora contra ele. Flávio sentiu a linha huna ficar nervosa, indócil, mais uma vez levando as mãos às armas, preparando-se para um assalto renovado. Olhou para Aécio, que assentiu. Chegou a hora.

— Macróbio! — gritou Flávio, olhando o numerus a sua volta. — Vocês, homens. Levantem-me nos ombros.

Macróbio de imediato avançou, embainhou a espada e pôs as mãos em concha para Flávio subir, o optio Catão de um lado de Flávio e Semprônio e Máximo atrás. Quando estava no alto de seus ombros, acima dos comitatenses e visigodos que o cercavam e claramente visível a Átila e à linha huna, ele estendeu a mão para trás e abriu a aba que cobria a longa espada presa às costas, sentindo a pedra dura e irregular do pomo e fechando a mão no punho. Ele a sacou com um só movimento e a ergueu, olhando ao redor e vendo todos os olhos fixos nele.

— Temos a espada de Átila — gritou Flávio. — Nós temos a espada de Átila.

Macróbio a havia polido na noite anterior e o metal precioso que fora ligado com ferro para tornar a lâmina mais forte do que o aço tinha um lustre especial mesmo nesta neblina, como se absorvesse a luz solar e a irradiasse sobre os homens reunidos na cumeeira. Ao olhar para ela, estreitando os olhos com seu reflexo, Flávio lembrou-se do que Erecan dissera a Prisco sobre a espada, que seu segredo, seu domínio sobre os homens, não estava em qualquer magia dos xamãs, mas na habilidade dos ferreiros, na antiga perícia daqueles que produziam armas de guerra: aqueles que sabiam que o poder de uma ótima espada feita para um rei não estava em seu punho ou em seu nome, mas no caráter especial da aparência que fazia outros se unirem a seu portador ou se encolherem diante dela.

Subiu um grito imenso do lado romano, ressoando pela linha. Átila berrou novamente, mas desta vez de horror. Seu cavalo empinado, quase o lançando para o chão, bateu em retirada e desapareceu na encosta em uma tempestade de poeira. Os hunos na linha de frente viraram-se para vê-lo, tirando os olhos do inimigo, a adrenalina que havia-se acumulado para o ataque agora os deixando confusos e desorganizados. Aécio aproveitou o momento e saltou à frente, de espada em punho, seguido por Macróbio e pelos demais do numerus, rompendo a linha de frente com os comitatenses atrás dele, subindo pelos montes de corpos e irrompendo sobre os hunos. Segundos depois, toda a linha romana e visigoda havia fechado o espaço e tomado a crista da elevação, abatendo uma multidão de hunos que se comprimiam ao grosso de seu exército numa tentativa desesperada de escapar. Por toda a linha, soaram as trombetas romanas, o sinal para os comitatenses firmarem posição e parar na cumeeira; Aécio instruíra os comandantes a consolidar e esperar por reforços, em vez de perseguir o inimigo encosta abaixo e correr o risco de entrar em uma linha reformada, fortalecida com arqueiros da reserva de Átila.

Flávio colocou a grande espada na bainha, pegou seu gládio e observou os hunos batendo em retirada encosta abaixo, na direção do círculo de carroças que ele sabia estar em algum lugar na neblina e na poeira para além dali. O barulho havia mudado, os ruídos de combate substituídos pelos gritos dos feridos e os gemidos dos moribundos, o coro de dor de milhares de homens abatidos.

A carnificina havia sido pavorosa, em uma escala que ele jamais teria pensado ser possível em tão breve tempo. Os homens de seu numerus escaparam incólumes, tendo recuado como um cordão em volta de Aécio, mas aqueles que foram lançados para a frente no horror encrespado da cumeeira pagaram um preço medonho. A maioria dos tribunos das unidades comitatenses de liderança estava morta, bem como muitos de seus oficiais maiores; Aspar jazia ensopado de sangue contra uma pilha de cadáveres, recebendo os primeiros socorros de homens de seu numerus pessoal, de algum modo ainda vivo, apesar de seu pescoço ter sido envolvido por um laço e a cabeça quase decepada.

Átila sofrera um golpe em seu prestígio, mas permanecia vivo e seus arqueiros montados ainda eram inimigos formidáveis. Ele saberia que o exército romano tinha sido severamente enfraquecido e que as baixas incluiriam chefes tribais como o godo Radagaiso, que teriam liderado do front e não se permitiriam recuar e ser protegidos como Aécio. O curso do combate no norte e no sul contra os ostrogodos e gépidas ainda não era claro; Aécio enviou prontamente mensageiros para informar seus comandantes do sucesso no centro, tentando espicaçar sua determinação. Mas, com o centro da cumeeira agora em mãos romanas, eles estavam em uma posição excelente tanto para a defesa quanto para o ataque, capazes de conter investidas hunas encosta acima, bem como fustigar o inimigo de longe. Flávio já via os sagitarii subindo a encosta de suas posições de reserva, por ordens de Aécio, agora que a elevação estava garantida, prontos para despejar flechas no inimigo. Ao longo da cumeeira, tribunos fabri organizavam os milites para empilhar os cadáveres, de companheiros e inimigos, em um longo monte pela vanguarda, criando uma fortaleza de carne a partir da carnificina da batalha.

Flávio voltou-se para Aécio.

— Congratulações, magister militum. Este é o maior feito de armas de todos os tempos.

A face de Aécio estava rígida como pedra.

— A batalha ainda não acabou. A maré da guerra ainda pode se voltar contra nós. Preciso de você a meu lado, tribuno, para me dizer o que Átila fará a seguir.

— Ave, magister militum.

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