Total War: A espada de Átila
Epílogo
Bretanha, inverno, 455 d.C
Flávio assoprou nas mãos em concha, sentindo o calor de seu hálito nas palmas e observando a condensação rodopiar acima dele. Agora a neve caía com mais força, mas ele ainda distinguia os picos escarpados que se elevavam ao redor como um grande anfiteatro, abrindo-se apenas onde eles subiram a trilha rochosa no fim de tarde anterior, do vale a leste. Passaram por um lago após outro, cada um deles mais alto do que o seguinte, unidos por torrentes de água cristalina, as margens congeladas em cascatas de gelo que lambiam a trilha e tornavam o caminho traiçoeiro para cavalos e homens. Enfim chegaram ao mais alto de todos, o lago que Arturo chamava de Glaslyn, suas águas escuras pouco visíveis abaixo dele através do redemoinho de neve e da neblina matinal.
Como a maioria dos outros, ele passou uma noite espasmódica enroscado sob seu manto, por dentro da entrada de uma das minas de cobre que pontilhavam as encostas, mais como proteção contra a montanha do que contra qualquer saxão tolo o bastante para tê-los seguido até este lugar.
Subindo no vento uivante na noite anterior, ficara assombrado ao ver pedras voando dos picos e se encolheu com os outros atrás de uma laje irregular enquanto uma avalanche caía a volta deles. Os bretões lhe disseram que um gigante andava por estes penhascos, um monstro chamado Rhitta Gawr, aprisionado ali em cima desde a época em que mantos de gelo cobriam as montanhas e pingavam sobre a pedra, deixando pedaços irregulares para ele empurrar quando os ventos de tempestade incitavam sua fúria e ele batia e berrava pelos picos.
Macróbio, porém, contava uma história diferente, passada dos soldados da legião que antigamente ocupavam o forte arruinado à cabeceira do vale, construído ali na época dos primeiros césares para dar proteção aos mineradores. Diziam que quando o imperador Constantino se converteu ao cristianismo, o deus da guerra Marte teve uma explosão de revolta pelo lugar e era ele quem andava pelos picos e batia as pedras, jogando-as no vale abaixo. Desde a época em que Constantino o desprezou, nenhum soldado romano que andava por esta via estava a salvo de sua fúria. Os homens no forte recusaram-se a sair do vale e as minas foram abandonadas. Quando Flávio soube da história, recurvado contra o vento enquanto subiam a trilha, os penhascos assomando hostis no alto, ele puxou seu pesado manto de lã pelo corpo, escondendo os últimos vestígios de sua aliança passada, o pesado conjunto cibanius de cinto e espada que seu tio Aécio lhe dera em Roma uma vida atrás. Sentia-se distante de Cristo ali e estava disposto a dar o benefício da dúvida à história. Pela primeira vez, sentiu prazer por não mais combater por Roma.
Macróbio agora subia a encosta depois de sair dos fogos de cozimento, carregando um odre cheio numa das mãos e uma perna de carne cozida na outra. Escalou a pedra na frente do poço da mina e se sentou pesadamente na laje solta ao lado de Flávio, entregando-lhe o odre.
— Cerveja fraca e carneiro. É só o que eles têm.
Flávio abriu o odre e bebeu um gole fundo, erguendo-o bem. Estava gelado, mas revigorante. Ele baixou o odre e olhou o carneiro.
— Lembra-se do cervo que comemos diante de Cartago? Feche os olhos e imagine que é isto.
Macróbio pegou o odre e bebeu ruidosamente, engolindo o conteúdo e derramando pela barba. Baixou o odre e limpou a boca.
— Se tivermos sorte, teremos cervo mais uma vez muito em breve. O último dos bandos guerreiros dos bretões apareceu algumas horas atrás e Arturo conferencia com eles agora. Dizem os boatos que voltaremos à fronteira e ao vale do rio Dee, à antiga floresta de caça da Vigésima Legião. Teremos um banquete de reis.
Flávio franziu os lábios.
— Se é para lá que vamos, não será cervo que caçaremos.
Desanimado, Macróbio olhou a carne.
— Só bárbaros comem carneiro — resmungou.
Flávio estreitou os olhos para ele.
— Bárbaros? Tem olhado para si mesmo ultimamente? Esse rabo de cavalo tem tamanho suficiente para atrelar uma carroça e sua barba daria orgulho a qualquer comandante de guerra germânico.
— Foi conselho de seu tio Aécio, lembra-se? Misture-se com os nativos ou alguém o identificará. De qualquer modo, você não pode falar nada.
Flávio abriu um sorriso.
— Então, se afinal somos bárbaros — respondeu ele —, podemos comer carneiro. Estou faminto.
Macróbio pegou a perna de carneiro com as duas mãos e a rasgou ao meio, entregando uma parte a Flávio e comendo ruidosamente seu pedaço, a gordura brotando em sua barba e unindo-se à cerveja. Um cavalo relinchou alto, o som ecoando pelas encostas montanhosas, e ele se levantou, ainda comendo.
— Hora de cuidar dos animais — disse Macróbio com a boca cheia. Ele lançou-se para a frente, a ponta da bainha da espada batendo nas pedras, e desceu ao amontoado de rochedos perto da margem do lago onde tinham encurralado os cavalos para passar a noite; os animais haviam ficado apavorados na tempestade e se recusaram a entrar nos túneis, e Macróbio permaneceu com eles atrás do pequeno abrigo proporcionado pelos rochedos. Mais além, pela margem do lago, Flávio distinguia Arturo e mais ou menos dez chefes bretões, reunidos em torno da laje circular de pedra que era o antigo local de conferência para aqueles que se reuniam ali. Flávio não estava entre eles por opção própria. Era companheiro de batalha de Arturo, e não seu conselheiro, e Macróbio era mestre-cavalariço de Arturo, nada mais. O papel de Flávio como estrategista e tático de guerra tinha terminado nas Planícies Cataláunicas, no momento em que entregara as insígnias de classe a Aécio e se afastara do exército romano para sempre. Ali, era apenas um soldado e outro homem era rei.
Flávio arrancou com os dentes o último pedaço de cartilagem do osso e deixou que a gordura pingasse na lâmina da espada sobre seus joelhos, onde a estivera polindo quando Macróbio subiu ali. Esfregou a gordura na lâmina e a virou, cuidando para que entrasse no espaço da guarda, onde o ar úmido provocava ferrugem no aço. Ele limpou o excesso com a bainha do manto, depois passou o dedo pelas marcas que eram profundas demais para ser removidas pela pedra de amolar. Olhou o caminho que tomaram do vale, agora marcado de branco, onde a neve caíra no terreno ininterrupto da trilha, entre o amontoado de pedras caídas. Os quatro anos desde as Planícies Cataláunicas foram de luta quase incessante, continuamente em movimento. Daqueles homens do numerus original que decidiram acompanhar Flávio e Macróbio na travessia do mar à Bretanha, só alguns permaneceram. Não eram mais limitanei romanos, mas cavaleiros de um novo senhor, endurecidos pela batalha, a guarda escolhida por Arturo, cada homem equivalente a qualquer campeão que os saxões lançassem contra eles. Era uma guerra de duelos, de escaramuças, de emboscadas sangrentas, enquanto eles e os outros bandos guerreiros dos bretões recuavam diante do avanço incessante dos invasores, os sobreviventes se reunindo sob a liderança de Arturo à medida que se espalhava a notícia de que ele tinha sido aceito pelos chefes tribais como seu soberano, seu rei.
E agora, neste baluarte desolado de montanha, eles chegavam ao final da trilha.
Mais a oeste ficava Mona, a antiga ilha dos druidas, plana e indefensável, e depois Hibérnia; para além dali havia apenas mar aberto, a beira do mundo. Eles chegaram ao último lugar onde se entocaram os bretões que resistiram a Roma quatrocentos anos antes, e agora Arturo e seus homens viam-se diante da mesma decisão fatídica de seus antepassados: ficar nestas montanhas, neste lugar que nenhum invasor podia dominar, ver o futuro para seus filhos somente sob os olhos malignos do deus dos penhascos, ou voltar e partir, usar as poucas centenas de homens de seus bandos para tentar o que nunca foi feito: enfrentar os saxões em batalha campal, usando táticas dos romanos que o inimigo ainda não tinha vivenciado. A decisão era tomada agora, por aqueles reunidos à margem do lago, em torno da laje circular. Mas Flávio sabia que curso tomaria Arturo. Ele não desapareceria na história como o último dos guerreiros bretões quatrocentos anos atrás, vivendo como ogros nas montanhas, sempre em movimento, sempre sendo perseguido. Estes eram os ancestrais de Arturo, mas ele também era descendente dos soldados romanos que viajaram até a Bretanha e casaram-se com mulheres bretãs, e Flávio sabia que era o sangue romano de Arturo que venceria. Se eles caíssem, seria como soldados no campo de batalha, firmando terreno junto das sombras de seus ancestrais romanos, os legionários e milites de uma guerra de mil anos, uma história que não terminaria com o último deles recusando seu lugar de direito como guerreiros jurados a lutar até a morte para proteger sua honra e a de seus camaradas.
Flávio olhou o redemoinho de neve. Quatro anos desde as Planícies Cataláunicas. Agora os assuntos de Roma pareciam história antiga, tão remotos quanto os grandes acontecimentos das Guerras Púnicas sobre os quais ele lera quando menino nos livros de Políbio e Lívio. Por um bom tempo, depois de chegar à Bretanha, eles receberam poucas notícias, apenas rumores da captura de mercenários godos que atravessaram o canal para combater com os saxões, mas nada de primeira mão.
E então seu primo se juntou a eles depois de uma perigosa jornada a partir da Itália. Quinto, seu antigo aluno na schola em Roma, fora morto uma semana antes, resistindo sozinho a um ataque saxão na sangrenta escaramuça perto de Virocônio que acabou por empurrar Arturo para o oeste, através das montanhas, até este lugar. As notícias trazidas por Quinto mostravam que Flávio tinha sido bem aconselhado a deixar Roma, como fez. O abominável eunuco Heráclio convencera Valentiniano de que Aécio cobiçava a púrpura imperial e, juntos, os dois homens apanharam seu tio desprevenido e o apunhalaram e espancaram até a morte. Flávio sabia que Aécio um dia teria problemas com a intriga da corte, mas morrer desse jeito, nas mãos de homens que nem uma vez viram um inimigo em batalha, era um fim abominável para um soldado romano, para o melhor general que Roma havia produzido por gerações e a última esperança para o Império do Ocidente.
Flávio deixara a cabeça pender quando ouviu a notícia. O que aconteceu depois da morte do tio parecia tão inevitável quanto o ciclo das estrelas. Os guardas hunos de Aécio, Optila e Trastila, antigas escoltas de Erecan que se tornaram intensamente leais a seu novo senhor, executaram uma vingança sangrenta, assassinando Valentiniano enquanto ele praticava arco e flecha no Campo de Marte, nos arredores de Roma. Agiram por lealdade a Aécio, e não a Átila, mas parecia preordenado que fossem justamente guerreiros hunos aqueles que derrubaram o último imperador romano relevante no Ocidente. Depois de Valentiniano, só poderiam chegar ao trono fracos e marionetes.
Temendo pela própria vida depois de seu assassinato, a imperatriz Eudóxia ofereceu-se, assim como as duas filhas, ao rei vândalo Genserico. Em uma guinada inacreditável do destino: os bárbaros cujo exército dera a Flávio seu primeiro gosto da batalha, mais de um quarto de século antes, diante de Cartago, agora eram convidados aos portões da própria Roma. Era como se a deusa Roma, expulsa pelos padres e bispos de Cristo, se erguesse uma última vez de seu desterro e chamasse a cidade à autodestruição, recusando-se a permitir que se rebaixasse ainda mais, abrindo uma greta no inferno para que fosse tragada e se encerrasse sua ascendência de mil anos sobre os assuntos humanos.
E Quinto também trouxera notícias de Átila. O homem que o próprio Flávio ouvira berrar nas Planícies Cataláunicas que desejava morrer pela espada também teve um fim vergonhoso, afogado em seu próprio sangue depois de uma hemorragia provocada por uma bebedeira excessiva nas comemorações de outro casamento. Após bater em retirada da batalha, ele reagrupou os sobreviventes hunos e marchou para Roma, saqueando as cidades do norte da Itália pelo caminho, mas seu exército era uma força gasta e voltou rapidamente para as estepes para além do Danúbio. Átila podia ter fracassado na conquista do Império do Ocidente pela força das armas, mas, no fim, venceu. Espiões que vigiavam seu strava, as celebrações do funeral, disseram que ele foi sepultado com o vasto tesouro de moedas de ouro romanas, todas dos tributos que arrancou dos imperadores, secando os cofres de Roma. A perda desse ouro empobrecera o império, impossibilitando que os imperadores em Ravena pagassem ao exército. Depois de saber disto, Flávio entendeu que seria apenas uma questão de tempo até que os godos, os mais fortes vassalos que restavam a Átila, invadissem a Itália e depusessem os últimos governantes que sucederam Valentiniano, os imperadores marionetes que supervisionavam a desintegração final do exército romano no Ocidente.
Flávio apertou o manto no corpo, lembrando-se de como fizera o mesmo gesto tantos anos atrás, naquela última manhã gelada nos arredores de Cartago, antes de os vândalos invadirem.
Ele se lembrou de Arturo também naquela manhã, vendo-o pela primeira vez sair de uma nuvem de poeira no deserto, depois prevendo o futuro juntos, enquanto esperavam pela evacuação das embarcações da cidade em chamas. A história provou que tinham razão em um aspecto crucial.
Antes cavaleiros das florestas dedicados ao saque, os vândalos tornaram-se navegadores habilidosos e guerreiros do mar em sua nova cidade portuária. Assim como Roma um dia tinha aprendido com os bárbaros, adaptando suas armas e táticas, também os bárbaros aprenderam com Roma, tomando a única força que todos pensavam ser inexpugnável e fazendo-a deles. Pela primeira vez desde Pompeu, o Grande, reprimir a pirataria meio milênio antes, Roma perdera o controle do Mediterrâneo. Poucas décadas depois de seu primeiro encontro com o mar, atravessando da Espanha para a África em sua marcha para Cartago, Genserico tornou-se o homem forte dos oceanos, adaptando as táticas de incursões florestais para o mar, evitando ações da frota com a marinha romana remanescente, mas usando seus liburnae velozes para fustigar e esgotar as embarcações romanas em encontros-relâmpago em que os vândalos com frequência saíam vitoriosos.
Com Átila morto e a frota de guerra vândala no Tibre, seria Genserico, e não o rei huno, a marchar pelos portões de Roma, mas este era o final que se tornara inevitável depois de Átila tocar o chifre de guerra e liderar seus cavaleiros pelo Danúbio uma década antes, desviando os olhos de Roma da ameaça por mar e desencadeando o colapso do Império do Ocidente. Pelo que Flávio sabia, já podia ter acontecido; a cidade eterna e todo o simbolismo que o motivava quando jovem agora podia estar em cinzas e ruínas.
Lembrou-se de outra coisa que Arturo dissera em Cartago. Tudo que vai, volta. A perda de férteis terrenos agrícolas na África para os vândalos enfraquecera fatalmente Roma, assim como seiscentos anos antes sua perda para os romanos tinha condenado a Cartago púnica. Ele se lembrou de um volume que vira quando menino na biblioteca em Roma, uma coletânea de elocuções sibilinas que previa a queda de Cartago mais uma vez, que Roma pagaria um alto preço pela destruição da cidade por Cipião e seu exército todos aqueles séculos antes. Flávio aprendera a não acreditar em profecias pagãs; eram os homens, e não os deuses, que decidiam o destino de cidade. O jogo da guerra não era um capricho divino, mas uma questão de estratégia e tática, de equilíbrio de poder, de decisões certas ou erradas, tomadas por homens. Agora, com Genserico às portas de Roma, uma coisa parecia certa. A guerra com Cartago, todos aqueles séculos antes, dera grandeza a Roma; hoje, com Cartago como quartel-general para o último assalto bárbaro a Roma, a guerra a alquebrara.
Flávio embainhou a espada e se levantou. Abaixou-se pela entrada do túnel e pegou seu alforje, pendurou-o no ombro e saiu para se colocar na beira das pedras lançadas fora pelos mineradores. Através da neve, via movimento à margem do lago. Os chefes tribais que estiveram sentados em torno da laje circular partiram, alguns subindo a encosta que levava a seus soldados e outros aos cavalos. À volta, Flávio via pessoas se agitando nas outras entradas do poço da mina e, mais perto da margem do lago, viu homens que antes estiveram reunidos em torno do fogo em busca de calor e agora reuniam as armas e seus pertences. Macróbio levava um cavalo cinza e mosqueado e mais ou menos uma dúzia de montarias restantes pelo caminho até a laje, a única coisa que lhes sobrara, batendo os cascos pela trilha, cada um deles contido por um menino que esperava seu cavaleiro. Depois da laje, Flávio divisava Arturo e outra figura de pé perto da margem, observando o lago. Ele sabia que esperavam por ele. Era chegada a hora.
Vinte minutos depois, Flávio desceu a última encosta de entulho das minas e pegou a trilha da margem do lago por onde Macróbio levava um cavalo pouco à frente, com Arturo e seu companheiro esperando mais adiante. A principal força de homens, trezentos, talvez, no total, reunia-se com seus chefes em uma área de terreno mais plano ao lado da extremidade leste do lago, onde a água caía em uma torrente furiosa para o lago seguinte, mais abaixo, a caminho do rio no vale por onde passaram ao subir. Os outros cavalos de que se encarregava Macróbio foram distribuídos entre os chefes, seu único sinal de status entre as formas de manto que se agrupavam contra a neve, entre eles os poucos homens restantes do numerus de Flávio de quatro anos antes.
Ele acelerou o passo, agora que estava em terreno mais firme, ansioso para não deixar que os homens esperassem mais do que o necessário e na esperança de que o movimento aliviasse o frio em seus membros. Instantes depois, estava ao lado de Macróbio na frente de Arturo, sua barba pontilhada de cinza visível por baixo do capuz do manto. A pessoa que o acompanhava tinha descido à beira da água, mas agora voltava, o capuz puxado para trás e o rosto erguido para a neve, o cabelo castanho e comprido amarrado e as cicatrizes nas faces aparecendo lívidas no frio. Os anos de guerra endureceram Erecan, tornaram-na mais feroz, mais bonita. Por baixo do manto, ela ainda vestia a armadura em placas que o Átila lhe dera, e, por baixo dela, a túnica forrada de pelo e calças feitas da pele de animais que ela própria caçou nas estepes de seus ancestrais. Às costas de Erecan, seu arco estava recoberto de couro e, no cinto, Flávio via o laço enrolado, as lâminas de metal cuidadosamente viradas para fora de modo que só o inimigo conhecesse seu golpe letal.
Flávio virou-se para Arturo, que também baixara o capuz. Ele parecia descarnado, o rosto emoldurado pela barba e o cabelo comprido que caía até os ombros, como as imagens de Cristo que os homens do Norte começaram a fazer à própria semelhança. Flávio pôs a mão na guarda da espada e olhou o amigo.
— E então? Tomou sua decisão?
Arturo apontou a trilha abaixo.
— Não podemos ficar aqui — respondeu. — A neve molhada será gelo em algumas horas. O frio desce as encostas. O gelo quebrará as pernas dos cavalos e dos homens.
— Quer dizer que decidiu retornar à guerra.
Arturo olhou para Flávio, seus olhos insondáveis.
— Você me acompanhará?
— Meus homens são seus, Arturo.
— Você ainda é o tribuno deles, Flávio. E Macróbio é seu centurião.
— Isto faz parte do passado. Roma renunciou. Chegou a hora de livrarmo-nos da história. Você é o dux deles. É seu capitão.
Macróbio pegou um grande bloco antigo na margem do lago, parte de uma casa da guarda que no passado ficava abaixo das minas. Limpou a neve, revelando caracteres gravados fundo na superfície: LEG XX.
— Vigésima Legião — disse ele em voz baixa.
Flávio lembrou-se de todos os vestígios do poderio militar romano que tinham visto pela paisagem desolada da Bretanha: as paredes esfareladas da antiga fortaleza em Deva, as ruínas cobertas de mato do forte de marcha na cabeceira do vale, tudo sendo absorvido pela terra. Macróbio virou o bloco e o jogou em uma pedra na margem do lago, despedaçando-o.
— Assim termina Roma — disse ele, estreitando os olhos para Arturo. — Agora é sua vez.
Arturo o olhou fixamente.
— Ave, centurião. Enquanto usar este velho chapéu de feltro, será um milites romano para mim. Roma pode ter acabado, mas seus soldados ainda vivem.
Outra figura aproximou-se deles, encapuzada e com um cajado na mão, apontando a pedra circular onde Arturo tivera seu conselho.
— Nos dias distantes de nossos ancestrais, as pedras e os círculos de pedra tinham grande importância como locais de reunião. Elas existem por todo o lugar, se abrirmos os olhos e soubermos onde olhar.
— Você começa a parecer cada dia mais um druida, Pelágio — comentou Arturo. — Terei de começar a chamá-lo por seu antigo nome bretão.
— Ainda não, Arturo. Apenas quando você for coroado rei.
— Então, talvez você precise esperar muito tempo, meu amigo. Sua barba ficará mais branca e será tão longa que se prenderá em seu cinto. De qualquer modo, lembre-se do que acreditamos tão apaixonadamente junto com Aécio em Roma. O tempo dos impérios acabou. O tempo da república está sobre nós.
— Ah — disse Pelágio, curvando o dedo —, esta era Roma. Mas isto é a Bretanha. E não estou falando de um império, apenas de um reino. Possivelmente um reino muito pequeno. Mas de pequenos arbustos podem crescer árvores grandes e fortes.
— Aí está você de novo, falando como um druida. É hora de beber seu chá de visco.
— Bárbaros — resmungou Macróbio, batendo os pés. — Não se pode viver com eles, nem sem eles.
Eles se viraram e observaram o lago. A água tinha uma cor estranha, um vermelho metálico reluzente, tingida pela mineração de cobre nas encostas, havia muito abandonada, mas ainda gotejando vermelho sempre que chovia, como se a montanha sangrasse.
A vista do outro lado era encoberta por neblina e neve, mas Flávio sentia os paredões de rocha que ficavam além, erguendo-se da outra margem aos penhascos bem acima. Diziam que um segundo gigante das montanhas espreitava ali, no lago: Afanc, monstro das profundezas, irmão de Rhitta Gawr, lançado ali depois que os dois travaram uma batalha titânica nos penhascos na aurora dos tempos. Outros diziam que o lago não tinha fundo, que uma pedra atirada nele cairia até o inferno. Para os antigos bretões, tratava-se de um lago sagrado, local de oferendas, como os rios e brejos que Flávio os vira adorar por toda a Bretanha, fronteiras aquáticas entre este mundo e o próximo. Guerreiros que sabiam que seu fim estava próximo jogavam neles seus escudos e espadas, sabendo que as armas estariam esperando para serem equipadas quando eles próprios dessem o último suspiro e passassem ao próximo mundo, prontos para as batalhas por vir.
Arturo acenou para Macróbio, que pegou um fardo longo no alforje do cavalo e lhe entregou. Arturo retirou uma espada do fardo e entregou a Erecan. Era a espada de guerra sagrada de Átila, a espada do deus da guerra, guardada com eles desde que a retiraram da cidadela dos hunos, embaixo do nariz de Átila, quase cinco anos antes. Não via a luz do dia desde a batalha nas Planícies Cataláunicas e a lâmina estava cinza e opaca, pontilhada de ferrugem. Olhando para ela, e vendo a ferocidade nos olhos de Erecan, Flávio perguntou-se se a missão deles de tomar a espada e privar Átila de seu símbolo de poder afinal teria mudado o rumo da história.
Seu primo Quinto dissera que, quando Átila morreu, o novo imperador no Oriente, Marciano, sucessor de Teodósio, não sonhou com uma espada quebrada, mas com um arco quebrado. Os guerreiros hunos não precisavam de um símbolo sagrado como motivação para a batalha, não mais do que soldados romanos precisavam de uma cruz cristã ou de uma águia. Ele olhou para Macróbio, a face desgastada pelas intempéries, enrugado, grisalho, e lembrou-se dos Campos Cataláunicos. Talvez a maior batalha de todos os tempos tivesse sido decidida não pela ausência da espada sagrada, mas pela força das armas romanas, pelo sangue, suor e determinação de homens como Macróbio, levando toda a pujança de mil anos de bravura militar à última batalha a ser travada no Império do Ocidente em nome de Roma.
Flávio se virou para Arturo.
— Tem certeza disto?
Arturo assentiu e deu de ombros.
— Afinal, é uma espada de cavalaria, longa demais para nós. Combatemos como soldados de infantaria, como pedes. É um peso morto.
— Tem toda razão — resmungou Macróbio. — Prefiro sempre um antiquado gládio. O equites sempre foi superestimado.
Arturo pôs a mão em seu ombro.
— Falou como um verdadeiro milites, meu amigo. — Ele se virou para Erecan. — De qualquer modo, a decisão não é minha.
Erecan sopesou a espada, olhando as faixas douradas e opacas em volta do punho, depois falou em grego.
— Enviarei isto a meu pai, para que fique a seu lado em seu lugar de direito no além.
Arturo fez uma leve mesura e todos recuaram um passo. Erecan pegou o punho na mão esquerda, deixou que a ponta riscasse o chão atrás dela e apontou com a outra mão para o lago.
Com um grito áspero, ela se curvou para trás e atirou a espada por sobre a cabeça, fazendo-a rodopiar bem alto no ar, depois cair para além de sua linha de visão, no redemoinho da neblina. Eles a ouviram cortar a água, então desaparecer, mal deixando uma marola. Erecan se virou, voltou ao caminho e pegou as rédeas de Macróbio, pulando no lombo do cavalo e acariciando seu pescoço, aproximando-se de sua orelha e falando baixinho na língua de seu povo. O cavalo pisoteou e bufou, e ela se sentou reta, tirou o laço do cinto e o estalou no alto, a corda girando e se enroscando na neve que caía, depois o recolheu e guardou no cinto.
— Quando meu pai encontrou essa espada, entendeu que se tornaria um senhor da guerra — disse ela. — A partir daí, passaram a chamar seu exército de um turbilhão. Sigam-me à batalha e verão o motivo.
Flávio percebeu o brilho nos olhos dela. Vira este mesmo olhar antes, muito longe, nas severas planícies perto do lago Maeotis, cavalgando com Átila enquanto ele avançava com seus arqueiros para os prisioneiros pártios. De repente, sentiu-se tonto, como se estivesse vivendo para o momento, para um sinal — como o brilho de uma lâmina recém-oleada —, de que a batalha estava ao largo, que o inimigo estava próximo. Ele se virou para Macróbio.
— Pronto, centurião?
Macróbio apontou os homens que esperavam à frente deles.
— Só pensando em nossos rapazes. Se eles comeram o suficiente. Não se pode fazer marchar um exército de barriga vazia.
Flávio abriu um sorriso.
— Você terá cuidado disto.
Macróbio respirou fundo, assentiu, pegou o velho elmo amassado e o bateu no gorro de feltro.
— Avante, milites — disse ele, marchando à frente pela trilha até seus homens. Flávio demorou-se por um momento, olhando o bloco quebrado no chão diante dele, lembrando-se de todos aqueles soldados romanos que se foram.
— Avante, legionarii — falou em voz baixa.
Erecan puxou as rédeas do cavalo e o olhou de cima.
— Onde ela está?
Flávio a olhou, perplexo.
— A quem se refere?
— Você não para de tocar essa pedra que tem no pescoço. Uma mulher deve tê-la dado a você.
Flávio baixou os olhos, percebendo que seu dedo estava enganchado em volta do colar de azeviche que Una lhe dera. Ele a soltou, metendo-a rapidamente por baixo da túnica, e olhou para Erecan.
— Está com Deus — respondeu.
Erecan lhe lançou um olhar determinado.
— Então você deve encontrar outra mulher.
— Não — disse Flávio. — Não foi isso que quis dizer. Eu quis dizer que ela espalha a palavra de Deus, em meio ao próprio povo.
Erecan não parecia impressionada.
— Ela sabe usar uma espada?
Flávio pensou por um momento, olhando novamente para cima.
— Ela sabe correr. Muito rápido e por muito tempo.
— Então temos utilidade para ela. Quando esta batalha terminar, deve ir buscá-la.
Ela conduziu o cavalo para seguir Macróbio e virou-se para trás.
— E ela pode trazer Deus, se quiser — acrescentou. — Precisamos de toda a ajuda que pudermos encontrar.
Erecan se afastou a galope e Arturo apareceu ao lado de Flávio. Trazia o elmo que Aécio dera ao sobrinho quando foi nomeado tribuno e que Flávio entregara a Arturo quando atravessaram o canal para a Bretanha. Um elmo dourado não tinha lugar na cabeça de um soldado de infantaria que não combatia mais por Roma; ali, era um elmo adequado apenas para um rei. Flávio lembrou-se de quando conheceu Arturo, andando pelo deserto africano, vestindo a sotaina de um monge, um homem que renegara o combate e os prazeres terrenos por uma vida de contemplação, que dera as costas a seu povo enquanto os bárbaros invadiam. Sorriu consigo mesmo da lembrança, vendo o rei guerreiro endurecido pela batalha agora diante dele.
— E você, está pronto?
Arturo colocou o elmo e respirou fundo. Tirou a espada da bainha e apontou o vale.
— À guerra.
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