Total War: A espada de Átila
Capítulo 7
Meia hora depois, Flávio estava fora da sala de aula, na sacada que dava para a palaestra, um pátio retangular cercado por colunatas e espargido com areia para absorver o sangue. Fazia apenas vinte anos desde que ele e Torismudo lutaram à exaustão ali, corpo a corpo e com espadas, praticando com cada arma bárbara em que pudessem pôr as mãos; entretanto, agora Flávio supervisionava ele próprio sua última turma. Era na palaestra e no Campo de Marte, nos arredores da cidade, que os instrutores tomavam sua última decisão sobre aqueles adequados para a patente de tribuno, excluindo cadetes com quaisquer características que ele, Macróbio e os demais soubessem que lhes garantiriam a falta de respeito de seus homens no campo. A hesitação, e até o medo, podiam ser perdoados, em especial entre os candidatos mais jovens; a arrogância e o pensamento tacanho, não. Este podia ser seu último dia na schola, mas Flávio sabia que não devia ser diferente dos demais; teria de tentar esquecer Una e Arturo e se concentrar intensamente em cerca de uma dezena de cadetes oficiais que Macróbio logo estaria orientando na areia.
Ele olhou para além da palaestra os cilindros superiores da grande coluna de mármore que se erguia do Fórum de Trajano, a estátua de bronze do próprio imperador reverenciado que parecia olhar diretamente para ele. Ali, no interior das quatro paredes da schola, sentia-se protegido da corrupção e da sordidez da corte de Valentiniano, como se aquele olhar do alto banhasse o pátio na pureza de sua visão. Às vezes, ele sentia que se olhasse a estátua por tempo suficiente, seria levado de volta no tempo, que conseguiria descer e abrir os portões para a rua e se juntar ao grupo de legionários retratados na coluna, marchando com eles pelas multidões vibrantes para colocar seu butim aos pés do imperador antes de segui-lo a outras conquistas e vitórias para além das fronteiras. Era uma visão de Roma que o sustentava quando era um menino crescendo entre esses monumentos e uma visão que ainda o seduzia, apesar de tudo que ele sabia sobre a vacuidade do poder imperial e das trevas à frente, que pareciam oferecer poucas chances de um retorno triunfante às glórias do passado.
Ele foi trazido repentinamente ao presente quando apareceram na palaestra quatro escravos carregando uma mesa de armar, seguidos por Macróbio, com uma braçada de armas embrulhadas que abriu no tampo da mesa. O treino desta tarde deveria ser a última aula dos dois sobre as armas dos inimigos. Na semana anterior, foram as redes de arremesso dos suevos, que diziam se basear naquelas usadas pelos velationes nos tempos dos gladiadores, algo que nem mesmo Macróbio podia dominar; hoje ele estaria em terreno mais firme com as armas dos hunos. Dali, iriam para um treinamento intensivo de três meses no Campo de Marte, liderando infantaria e cavalaria numeri em falsas batalhas, aprendendo os fundamentos da artilharia e da engenharia de campo com os homens da catapulta e os fabri, e terminando com as marchas e os testes de resistência que determinariam a seleção final. Na aula da manhã, Flávio fora menos severo do que o normal depois da óbvia displicência de sua turma nas tabernas na noite anterior, lembrando-se de sua própria última noite de liberdade antes que os centuriões de treino do Campo de Marte berrassem suas ordens e os trancassem por todo o treinamento.
Eles agora saíam em grupo, uma dezena de meninos e cadetes veteranos, formando um semicírculo frouxo na frente de Macróbio, semicerrando os olhos e os protegendo contra o sol. Ele olhou para Flávio, que assentiu, depois olhou duramente a turma.
— Bem-vindos à luz do dia. Isto deve assar o que resta do vinho em vocês. Quem pode me falar dos hunos?
Houve silêncio por um momento, em seguida Quinto ergueu a mão e deu um passo à frente.
— Moram a leste do Danúbio e ao norte do lago Maeotis, perto do Oceano Congelado, e são uma raça selvagem sem paralelo.
O rapaz parou de falar e Macróbio o olhou fixamente.
— E então? Continue.
Quinto deu um pigarro. Prosseguiu:
— Eles são de porte grande, mas têm pernas curtas, como feras bípedes desgrenhadas. No momento de seu nascimento, são cortados no rosto três vezes, o que lhes confere cicatrizes para a vida toda e por consequência os homens não podem deixar crescer a barba. Perambulam pelas estepes, dormindo sob as estrelas e em barracas grosseiras, e em campanha moram em carroças como os godos.
Marco Catão também levantou a mão.
— E eles comem carne quase crua de qualquer animal, meramente aquecendo-a ao colocá-la entre as coxas enquanto cavalgam ou no dorso de seus cavalos — acrescentou com entusiasmo. — E usam gorros redondos com protetores de orelha, perneiras de pele de bezerro, túnicas feitas com a pele costurada de pequenos camundongos e armaduras de pequenas placas de bronze entrelaçadas em suas túnicas, que dizem ser copiadas dos guerreiros da própria terra de Tina. E eles se cobrem de ísatis azul.
— Não, idiota — zombou Quinto, virando-se para ele. — Estes são os agatirsos.
Macróbio estreitou os olhos para eles.
— Isso me parece familiar — falou. — O que os dois estiveram lendo?
— Fui ontem à tarde à biblioteca de latim — respondeu Quinto.
— Quando deveria estar pesquisando a Batalha de Adrianópolis.
— Encontrei o volume de Amiano Marcelino, Res Gestea, “O que Fiz”, escrito na época de nossos avós — disse Quinto. — Era o melhor livro, muito mais interessante do que aqueles sobre Adrianópolis. Não quero faltar com o respeito, mas parece-me que os gregos que os escreveram não sabiam muito sobre a batalha, enquanto Amiano era verídico. E escreveu em latim.
Macróbio grunhiu.
— Nisso tenho de concordar com você: Amiano foi um verdadeiro soldado, ao contrário dos supostos historiadores de nossa época, monges e escribas que nunca levantaram uma espada por raiva em toda a vida.
— Ele escreveu que esteve no proctetores domestici — disse Quinto. — Era uma unidade baseada na antiga Guarda Pretoriana, para proteger o imperador.
— Isto foi no início da carreira, um posto cerimonial para meninos ricos, como metade de vocês. Depois ele passou a agir como um soldado de verdade, em campanha na Gália e na Pérsia no regime dos imperadores Constantino e Juliano. Tornou-se braço direito do magister militum Ursicino, o maior general dos tempos modernos até Aécio. Meu próprio avô lutou com um filho de Ursicino, Potentias, em Adrianópolis — disse Macróbio bruscamente —, parando sobre seu corpo depois que ele caiu e arrastando-o de volta às linhas romanas, um ato que lhe granjearia a corona civilis se algum oficial estivesse vivo para assistir. Ursicino e Amiano foram dispensados do exército depois que os persas tomaram Amida, na Ásia Menor. Era um lugar impossível de defender, mas o imperador precisava de alguém para culpar, e assim afastou seu melhor general e seu tenente mais capaz. O que é bem característico. — Ele olhou feio os dois rapazes mais uma vez. — E então? O que mais diz Amiano?
Quinto deu outro pigarro.
— Não tive tempo para me informar melhor sobre os hunos, mas li a parte em que ele fala que nenhuma fera selvagem é mais mortal para os romanos do que os cristãos são uns com os outros.
Macróbio olhou para Flávio na sacada e se curvou para a frente, com a mão em um joelho, baixando a voz:
— Neste exército do homem, qualquer deus, qualquer ídolo que o faça atravessar a noite, qualquer um que o fortaleça antes de uma batalha, é seu para venerar, sem questionamentos. Fora das quatro paredes desta schola, porém, esteja precavido. Repita qualquer coisa parecida com a que acaba de dizer e se meterá em problemas. Estou surpreso que os monges que administram as bibliotecas não tenham localizado isto e posto Amiano na pilha de lixo. O bispo de Roma agora pensa que é o próprio Deus e tem espiões em toda parte.
Quinto fez que sim pensativamente e ergueu de novo a mão, seu rosto corado de empolgação.
— Amiano também diz que para além da terra dos hunos está a tribo dos gelões, que esfolam os inimigos que abatem em batalha e fazem roupas com a pele para eles e seus cavalos.
— Ouvi falar disso — concordou outro dos rapazes. — Meu antigo mestre de cavalaria soube de um cavaleiro cita que realmente viu. Disse que os gelões preferem esfolar um homem antes que esteja morto, pois então a pele ainda está viva, e quando é vestida ela se gruda ao corpo como uma luva e cabe perfeitamente. Economiza o pagamento a um alfaiate, não é?
— Isso é doentio — disse outro dos rapazes.
Marco Catão deu um passo à frente, com os olhos brilhando.
— Quinto, lembra-se daquela última passagem de Amiano que você leu para mim na biblioteca? Sobre os antropófagos e as amazonas? — Ele se voltou para o grupo. — Os antropófagos vivem para além dos gelões, perto de Tina, e só comem carne humana. As amazonas, ora, todos sabemos sobre elas da taverna amazonica perto do Tibre, onde as meretrizes se vestem de amazonas. Elas lutam nuas, apenas com uma tanga, e estão sempre ávidas por homens. Dão um desconto especial para os cadetes da schola.
O outro rapaz que tinha falado zombou dele.
— Quer dizer que elas dão a você um desconto especial, Marco Catão, mas só porque sempre termina seus assuntos antes mesmo que elas tenham a oportunidade de te tocar. Você não saberia dar prazer a uma cabra, que dirá a uma mulher.
— Posso tentar com uma amazona da vida real quando quiser — disse outro rapaz agressivamente. — Se são ávidas por carne de homem, mostrarei do que é feito um romano de verdade.
— Um romano de verdade ou um godo de verdade? — interveio outro. — Lembre-se de sua linhagem, Júlio Ácer. E, pelo que soube, os godos de verdade só levantam quando estão perseguindo em retirada um exército de eunucos com traseiro de fora.
— Cuidado com o que diz — rosnou um optio mais velho. — Metade de nós aqui é de godos e veteranos de combate e sabemos o que é derramar sangue no campo. Se quiser uma demonstração, pode desnudar seu traseiro para nós no Campo de Marte depois da schola. Isto é, se não estiver ocupado demais sendo perseguido por amazonas.
— Basta — berrou Macróbio, mal reprimindo um sorriso. — Guardem esta rixa para o campo de exercícios. Quanto a comedores de carne e esfoladores, não posso afiançar. Mas posso atestar pelas amazonas. E você não tentaria nada com elas, Júlio Ácer, elas é que tentariam com você. — Ele se virou e pegou cuidadosamente um objeto na mesa, uma massa escurecida e endurecida com o que parecia um rolo de cobras mortas havia muito tempo. — Alguém reconhece isto?
Quinto avançou um passo, olhando.
— É um chicote. Um chicote muito antigo.
— Muito bem. — Macróbio postou-se de pernas separadas, mostrando o objeto à volta, para que os demais vissem. — Dizem que este chicote de guerra foi carregado por uma princesa cita que combateu com Cipião Emiliano no sítio de Cartago e que o uso que fez dele desfez a vontade do Batalhão Sagrado cartaginês. Por quase seiscentos anos, este chicote foi passado pelas gerações da família Cipião e agora é uma das estimadas posses do arsenal da schola. A princesa cavalgava com tribais berberes no deserto e aprendeu com eles a incrustar lascas afiadas de obsidiana perto da ponta do chicote, como podem ver aqui. Ela o deixou com Cipião quando voltou para seu povo, mas levou a ideia e os guerreiros de sua tribo foram armados com chicotes com ponta de aço. Ela nunca se casou, mas dizem que seu filho teve como pai um príncipe gaulês que também esteve com Cipião em Cartago, e que tornou-se o primeiro grande rei guerreiro do povo que logo se chamaria de os hunos, os ancestrais de Mundiuk e Átila.
Os cadetes olharam o chicote em silêncio, esquecendo-se de suas provocações.
— Então, isto será usado contra nós em batalha? — disse Quinto, estendendo a mão e tocando uma das lâminas de obsidiana, tirando uma gota de sangue.
— Eu mesmo só vi um deles à distância, quando uma unidade huna juntou-se ao flanco da linha ostrogoda perante Aquileia, a primeira ação de meu numerus depois que voltamos de Cartago — disse Macróbio, estufando o peito. — Tudo o que conseguimos enxergar foi um brilho prateado acima da cabeça de nossos soldados, o reflexo do sol nas lâminas de aço polidas, mas foi o suficiente para matar de medo alguns foederati em nossa linha, que viram os hunos destruírem sua terra natal. Aqueles mais próximos da ação disseram que, enquanto a fileira da frente dos hunos enfrentava nossos soldados com espadas, a seguinte usava os chicotes para puxar nossos homens na segunda fila, laçando seu pescoço e arrastando-os para a disputa, desequilibrando nossa linha de frente. Os hunos depois saltavam e lhes davam cabo com a espada, exceto por aqueles que já tiveram a garganta cortada ou foram decapitados pelas lâminas dos chicotes.
— O golpe dos chicotes pode ser aparado? — perguntou Marco Catão, com voz oscilante.
Macróbio bufou.
— Ele chega rápido como a cauda de um escorpião, rápido demais para ser visto. A única coisa que você pode fazer é rezar para o deus que lhe agrada para que não seja o escolhido e tentar avançar para dentro do alcance de arremesso. Mas eles são habilidosos no uso dos chicotes também a curta distância, estalando-os no ar para que as pontas se enrosquem cruelmente no nível do pescoço, cortando nossos soldados mesmo quando estão sobre eles.
Ele pegou a segunda a arma na mesa, um arco, e a mostrou a todos.
— Alguns de vocês podem lastimar o dia em que virem um destes pela primeira vez. Este é um arco huno, retirado de um godo pelos homens de meu numerus numa escaramuça nas florestas do norte da Gália, oito anos atrás. É composto, feito de três elementos diferentes, laminados. A superfície interna é de uma madeira que dizem vir de uma árvore atrofiada das estepes e a superfície externa, de uma madeira que os bárbaros chamam de iwa ou yew e nós chamamos baccata, uma árvore perene forte e inflexível. Entre as duas há uma extensão contínua de marfim que, segundo contam, é retirado das presas de elefantes mortos há muito tempo, de proporções gigantescas, encontrados pelos hunos à margem do Lago Congelado ao norte. Como só os hunos conhecem a origem das presas, é impossível para nossos fabri reproduzir o laminado. Esses três elementos conferem ao arco uma força inacreditável.
Para reforçar seu argumento, ele colocou o arco entre o chão e a beira da mesa e saltou nele, um ato que teria quebrado um arco romano normal, mas que ali apenas fez Macróbio pular e deixou o arco intacto. Marco Catão aproximou-se e o pegou, devolvendo.
— Por que o formato estranho? — perguntou, apontando a assimetria do arco, o limbo superior maior do que o inferior e a empunhadura colocada abaixo do meio, em ângulo.
Macróbio endireitou o corpo e pegou o arco.
— Isso permite que você atire uma flecha em uma velocidade inicial maior do que com nossos arcos, se tiver força para segurar a empunhadura neste ângulo e suportar a tensão que impõe no pulso e no braço. Nossos arqueiros acham quase impossível usar o arco sem meses de prática. Nossos arcos têm a vantagem sobre os arcos hunos em seu alcance máximo, sendo mais adequados para lançar flechas para o alto e fazê-las cair em uma formação inimiga, mas a flecha huna, com sua ponta de ferro pesada, voa mais veloz e numa trajetória reta por uma distância maior, perfeitamente adequada para os arqueiros montados da tribo, que cavalgam a cinquenta passos antes de atirar no inimigo.
Ele pegou outro arco, de formato mais ortodoxo, trazendo a marca numérica de uma das unidades sagitarii estacionadas na cidade, preparou uma flecha e apontou para um poste que os escravos colocaram no meio da palestra, com uma grossa placa de madeira presa na altura da cabeça, à guisa de alvo. Puxou para trás o máximo que pôde e soltou, a flecha voando e se cravando até o fim da ponta na tábua. Ele o baixou, pegou o arco huno e outra flecha mais curta, preparou-a e cerrou os dentes enquanto puxava para trás, os músculos e as veias dos braços rijos pelo esforço. Com um grunhido, soltou a flecha, que disparou, batendo no canto do alvo, mas o atravessando até as penas, a madeira lascada e a flecha tremendo do outro lado.
Macróbio baixou o arco, esfregou o bíceps direito e se virou para eles, com o semblante duro feito pedra.
— Contarei a vocês o que mais Amiano Marcelino tem a dizer sobre os hunos. Ele atesta que atacam numa velocidade imensa a cavalo ou a pé, berrando, ululando e soltando um canto gutural para aterrorizar o inimigo, que recua, desorganizado. Os adversários são divididos em grupos menores pela cavalaria huna, que cerca cada grupo por vez, dando cabo deles com suas flechas. Mesmo contra uma linha ininterrupta, seus arqueiros e a infantaria a pé infligem baixas terríveis com flechas de ponta de osso e ferro, e com laços. Em combate próximo, lutam sobre o lombo dos cavalos e até com a espada, sem se acanhar de usar as mãos e até mesmo os dentes para dar cabo daqueles que sobreviveram ao assalto. Amiano, um veterano da guerra contra os gauleses, godos e persas, disse que, dos bárbaros que encontrou, os hunos são os guerreiros mais terríveis.
Ele parou, olhando o grupo.
— Sabem por que eu sei de cor o relato de Amiano?
Quinto levantou a mão.
— Porque ele era um soldado — respondeu o rapaz. — Porque sabia do que estava falando.
Macróbio lhes lançou um olhar austero.
— Isto é parte da resposta. Mas há algo mais. Eu mesmo vi os hunos em batalha, mas apenas de longe. Conheço Amiano de cor porque não temos nenhum outro relato de testemunha ocular, porque nenhum romano vivo se postou diante de um ataque huno e sobreviveu. Pensem nisto.
Todos ficaram sombrios, então Quinto apontou a última arma na mesa.
— Esta é uma espada huna, centurião? Podemos ver?
Macróbio pegou a espada, segurando-a pela guarda e a face da lâmina.
— Esta é nossa última arma do dia e igualmente temível nas mãos certas — explicou ele. — Verão que pertence à mesma tradição de nossas espadas, uma lâmina longa e reta de estilo cavalaria, do tipo que o exército romano escolheu como padrão em detrimento do gládio, por ser uma lâmina mais adequada para a ação montada. Abaixo da guarda losangular, vocês podem ver que as bordas da lâmina entram em paralelo, mas depois convergem lentamente até a ponta, tornando a lâmina mais pesada perto da guarda e estranhamente equilibrada, mais adequada para o arremesso bem como para retalhar. Dizem que o aço da lâmina é temperado de tal maneira que o torna mais forte do que o nosso, graças ao uso de uma técnica secreta trazida do Oriente que nossos ferreiros não conseguem reproduzir. Dessa forma, ela traz um gume maior do que o nosso e pode ser afiada à espessura daquelas lascas de obsidiana incrustadas nos chicotes. Cortará inteiramente o couro e atravessará a carne com mais facilidade do que a nossa, porém é uma espada mais difícil de dominar, com o equilíbrio mais perto da guarda e, portanto, exigindo mais destreza e força para desferir um golpe potente.
Ele entregou a espada a Quinto, que sentiu seu peso e olhou a lâmina, os outros se reunindo ao redor para ver. Macróbio sacou a espada que portava, uma lâmina romana padrão cerca de meio pé mais curta do que a espada huna, e a entregou a Marco Catão.
— Vocês dois farão uma demonstração. É sua recompensa por fazer o dever de casa. Lembrem-se, usem a face da lâmina.
Quinto sorriu para o amigo e os dois foram para o meio da palaestra, na frente do poste com o alvo, e colocaram-se em posição. Começaram a bater gentilmente as lâminas e aparar golpes, cercando-se lentamente.
— Vamos lá! — gritou o rapaz que estivera provocando Marco Catão. — Coloquem alguma ação nisto.
Marco Catão o olhou com irritação, rodou sob a lâmina huna e bateu em Quinto com força no traseiro, fazendo-o cambalear de lado sob o peso da espada.
— Grandes coisas, as armas hunas. — O rapaz riu. — Se o peso é todo errado, que sentido tem um aço mais pesado e lâminas mais afiadas?
Quinto se recompôs, fez uma careta exagerada e sorriu, depois eles se colocaram em posição de novo, rondando lentamente um ao outro. De repente ele arremeteu com a espada na cintura de Marco Catão, recolhendo-a no último instante, enquanto o amigo erguia a sua lâmina para aparar o golpe.
Vendo o ataque de Quinto falhar, Marco Catão ergueu a espada no alto para desferir seu próprio golpe, mas, em vez de se recuperar, Quinto deixou que o ímpeto da investida o fizesse girar novamente, traçando um círculo quase completo sem sair do lugar. Tarde demais, Marco Catão percebeu que o giro inicial de Quinto tinha sido uma finta, utilizada para fazê-lo erguer a guarda e expor a cintura, e, tarde demais, Quinto notou que sua espada tinha se endireitado e agora girava de gume para Marco Catão. Na fração de segundo de sua percepção, tentou recuar a lâmina novamente, mas o ímpeto desta vez era grande demais. A lâmina cortou a túnica de Marco Catão e atingiu metade de seu tronco, sulcando com tal rapidez que no primeiro segundo mal saiu uma gota de sangue do ferimento.
Houve um ofegar dos outros e se seguiu um silêncio apavorado enquanto Quinto recolhia a lâmina. Marco Catão cambaleou para trás, debatendo os braços, deixando a espada cair.
Ele olhou para Quinto sem compreender e tombou de lado como uma estátua em queda, sua cabeça batendo no chão com um baque, vidrado, babando. Com um ruído de aspiração, as entranhas caíram do ferimento aberto ao lado, uma massa escorregadia de cores lúgubres, expondo a espinha cortada. Teve uma convulsão violenta, os braços se debateram e a boca espumou. Um suspiro terrível saiu dele enquanto o sangue esguichava na areia, e ele ficou imóvel.
Quinto deixou cair a espada e cobriu o rosto com as mãos, tremendo e gemendo baixinho. Macróbio de imediato foi a ele, pegou a espada, limpou o sangue na túnica de Quinto, baixou uma de suas mãos e colocou nela a guarda da espada. O rapaz ainda chorava, com o corpo quase dobrado ao meio, e Macróbio lhe deu um forte tapa na cara, fazendo-o recuar, arrastando a espada a suas costas. Macróbio o puxou pela gola e apontou o corpo.
— Estão vendo isto? — rosnou ele, olhando em volta. — Estou falando com todos vocês. Isto se chama morte. Se vão usar uma espada, é melhor se acostumarem com ela. Agora, faremos nossas saudações. Marco Catão Cláudio, você ajudou a fazer de Quinto Aécio Gaudêncio Segundo um soldado melhor, que agora sempre o terá consigo quando entrar em batalha, com a honra de sustentar seu nome. Marco Catão Cláudio, salve atque vale. Agora, todos vocês, apresentem-se no Campo de Marte este fim de tarde. Comecem com uma má impressão chegando de olhos lacrimosos e nos próximos três meses desejarão estar onde Marco Catão está agora. Quero vê-los com todo seu equipamento disposto, em ordem de marcha completa, na entrada da schola em meia hora. E isto serve para você também, Quinto Aécio. Agora, vão.
Dois dos alunos, cadetes veteranos, pegaram Quinto de cada lado e foram com ele para fora de vista, abaixo da sacada, seguidos pelos demais. Macróbio pegou a própria espada, reuniu as armas no rolo de couro e foi para o arsenal do outro lado da palaestra. Os escravos que haviam trazido a mesa reapareceram com um carrinho com um saco de areia, empurrando-o para o corpo. Esvaziaram a areia em uma pilha, colocaram o corpo no carrinho e usaram uma pá para recolher as entranhas, despejando-as no saco e jogando por cima do corpo. Espalharam areia por ali, deixando-a por um minuto para sorver o sangue e a jogaram com a pá por cima do corpo, terminando por espargir uma nova camada de areia no chão e alisar com outra ferramenta. Dois deles saíram com o carrinho enquanto outros dois carregavam a mesa. Um instante depois, um deles correu de volta e retirou o poste com o alvo que tinha a madeira lascada e as flechas, correndo para fora de vista. A cena ficou como estivera antes da chegada de Macróbio, como se ajudantes de palco tivessem retirado o cenário de um teatro depois de uma peça, a estátua de Trajano ainda presidindo de sua coluna e a única prova do que acontecera era a sugestão de uma mancha na areia.
Flávio observara o ocorrido sem qualquer entusiasmo. Sua mente vagara para Una depois do início da luta de espadas e ele levou alguns instantes para registrar o acidente. Lembrou-se de seus primeiros choques quando jovem, observando homens de seu numerus dilacerados pelos cães diante de Cartago, sentindo-se aturdido com seu primeiro assassinato. Quinto tinha sofrido o mais cruel dos golpes, matando o melhor amigo na prática de combate, mas Macróbio agira corretamente e Flávio não procuraria o primo. Ou Quinto se despedaçaria, outro renegado da schola, ou a experiência o tornaria um homem, o endureceria, sua capacidade de superação fortalecida pelo impulso de manter a honra de sua família, do próprio Flávio, que Quinto sabia que estava olhando, de seu tio Aécio, da imagem de uma Roma imbuída de glória, honra e virtude militar que todos eles esperavam desesperadamente reconstruir. Ele olhou novamente a estátua de Trajano e se virou para a porta. Era hora de partir.
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