Total War: A espada de Átila

David Gibbins · Capítulo 6 de 27

Páginas do PDF

Total War: A espada de Átila

Prólogo

 

 

A Grande Planície Húngara, 396 d.C.

 

Os dois prisioneiros romanos tombaram para a frente, arrastando as correntes pela neve molhada na encosta que conduzia à campina. Um forte vento açoitava o planalto que cercava a ravina, trazendo com ele uma intensa ferroada de inverno àqueles reunidos para a cerimônia. No alto, águias subiam, voando livres dos pulsos de seus senhores, esperando pela carne e o sangue que lhes seriam deixados quando a cerimônia acabasse. À volta da margem da campina, grandes caldeirões de bronze chiavam acima de fogueiras, o vapor de seu conteúdo subindo e formando uma névoa fina sobre as pessoas. O delicioso aroma da carne cozinhando, de boi, carneiro e veado, vagava pela ravina, sobre as tendas circulares do acampamento, passando pela fonte onde a água sagrada começava sua jornada ao grande rio a dois dias de viagem para o oeste, no lugar onde a terra dos caçadores terminava e começava o império de Roma.

O mais jovem dos dois prisioneiros tropeçou e se apoiou no outro homem, que o colocou de pé com um empurrão e pronunciou palavras ásperas e autoritárias em um idioma desconhecido para a maioria dos que assistiam. Vestiam os restos esfarrapados das túnicas romanas de milites, manchadas do marrom da ferrugem da cota de malha, seus pés descalços e ensanguentados dos dias de marcha algemados um ao outro. O mais velho, grisalho, descarnado, a barba branca interrompida por cicatrizes havia muito curadas nas bochechas e no queixo, tinha vergões no braço, onde há muito tempo marcou o nome de sua unidade: LEGII. Fitava desafiador à frente enquanto seus captores o empurravam; era o olhar de um soldado que esteve frente a frente com a morte com demasiada frequência para temer o que sabia que agora esperava por eles.

Soou uma trombeta, aguda e estridente, perturbando as águias bem no alto, seus gritos ásperos ecoando por toda a ravina. Uma carroça arrastou-se para o campo de visão do acampamento, puxada por dois bois e cercada por cavaleiros, as lanças erguidas e os arcos pendurados nas costas. Usavam calça e túnica de couro, com o pelo voltado para dentro contra o frio, e sentavam-se em selas acolchoadas com fatias de carne crua, que escorriam sangue pelos flancos dos cavalos; a carne protegia os animais de ferimentos provocados pela sela e proporcionaria uma comida amaciada para os homens na longa caçada na estepe que se seguiria à cerimônia. Tinham elmos cônicos e reluzentes por cima de chapéus de pele de aba larga, com coberturas para as orelhas que podiam ser amarradas contra o vento acre do planalto; por cima das túnicas, usavam armaduras elaboradas, feitas de pequenas placas retangulares costuradas, adquiridas em troca de peles raras de mercadores da distante Serikon, terra que os romanos chamavam de Tina. Desses mercadores também vinha a seda com que as mulheres do grupo envolviam as cabeças, além da magia feroz que os arqueiros lançavam ao céu para indicar o fim da cerimônia e o início do grande banquete que se estenderia pela noite.

O primeiro cavaleiro passou a meio galope pelos caldeirões e pelo grupo de pessoas, parando no meio da campina diante de uma pira alta de gravetos, ainda apagada, com o dobro de sua altura. Puxou as rédeas, faiscando a folha de ouro gravada no couro, e se virou para ficar diante da carroça que se aproximava, curvando-se para a frente e sussurrando para acalmar o cavalo, que relinchava e pisoteava. Quando a carroça parou, ele atirou a lança no chão, retirou o elmo, segurando-o de lado, e olhou, impassível. Sua testa era alta e oblíqua por ter sido atada quando criança; o cabelo preto estava bem amarrado no alto, o rabo de cavalo comprido caindo solto de onde estivera enrolado, abaixo do pico cônico do elmo. Sua pele era profundamente marcada pelo tempo e ele tinha os olhos estreitos e o nariz achatado característicos de seu povo; filetes de barba caíam dos cantos da boca. Uma cicatriz nítida atravessava cada bochecha em diagonal, da têmpora ao queixo, havia muito curada, porém mosqueada e arroxeada no ar gelado.

Ele desceu da sela, com as mãos nos quadris.

— Sou Mundiuk, seu rei — disse. Sua voz era áspera, raspada, como o grito das águias, as palavras terminando nas consoantes duras de uma língua que devia ser ouvida e compreendida acima do uivo do vento. Ele apontou a carroça. — E hoje, se os sinais estiverem corretos, vocês verão seu futuro rei.

Manobrou seu cavalo de lado e os meninos que levavam os bois os conduziram adiante, de modo que a carroça adentrou a roda de pessoas. Tinha laterais altas de madeira, seu interior escondido de vista. Assim que os meninos desatrelaram os bois e os soltaram, quatro homens aproximaram-se de trás: dois traziam archotes acesos; outro, o caminhante das brasas, vestia-se de couro protetor e carregava um balde pesado; e atrás dele arrastava-se a figura do xamã, os olhos brancos e cegos, puxando uma omoplata de boi embranquecida pelo sol. O caminhante das brasas foi à pira e entornou do balde o pesado alcatrão preto que borbulhou no chão da ravina, contornando os feixes de gravetos até que o balde estivesse vazio, voltando em seguida para se colocar ao lado do xamã.

Atrás deles veio a guarda pessoal de Mundiuk: alanos, saxões, anglos, renegados do Ocidente, homens que seriam leais a quem pagasse mais, cuja vassalagem fora comprada com o ouro que ele recebera do imperador em Constantinopla por permanecer a leste do grande rio. Ele aprendera a empregar mercenários com os reis dos godos, governantes que tinha homenageado antes de esmagá-los. Depois de se tornar mais do que um chefe tribal, depois de se tornar rei, aprendeu a não confiar em ninguém, nem mesmo nos próprios irmãos. Os cavaleiros da grande planície, seus guerreiros hunos, eram os maiores que já viveram, mas cada um deles era um rei em formação, acostumado a governar tudo que pudesse ver pelas estepes até o horizonte. E os mercenários lutariam até a morte, não por lealdade, mas porque sabiam que a rendição de um mercenário significava a execução certa.

Os meninos que pastoreavam os bois voltaram e se colocaram um de cada lado da carroça. Mundiuk assentiu e eles soltaram as laterais de madeira, deixando que tombassem. Dentro da carroça, duas mulheres agachavam-se diante de outra, deitada de costas, nos últimos estágios do trabalho de parto: a rainha de Mundiuk. Seu rosto estava coberto por um véu e ela não soltava som algum, mas o véu era aspirado e soprado no ritmo de sua respiração e suas mãos estavam cerradas e brancas. As outras mulheres no grupo começaram a ulular, balançando-se para a frente e para trás, e os homens entoaram um canto gutural, que se elevava num crescendo lento. Houve movimento na carroça e uma das mulheres repentinamente se ajoelhou e olhou para Mundiuk, apontando a pira. Ele pôs o capacete e recuou com o cavalo a meio galope. Chegara a hora.

Ele pegou um archote aceso com um dos homens e conduziu o cavalo à pira. Em um movimento rápido, girou o archote sobre a cabeça e o soltou, vendo-o cair e se desintegrar em uma chuva de faíscas. De início nada pareceu acontecer, como se a pira tivesse absorvido a chama, mas logo um brilho laranja difundiu-se do centro e linhas de chamas lamberam os respingos de alcatrão, disparando pela beira em um anel de fogo. As chamas saltaram dos gravetos e se reduziram em segundos a um monte em brasa, revelando uma visão impressionante. No centro, como se erguida nas garras de um deus, estava uma espada reluzente, a lâmina longa apontando para os céus, o pomo coberto de ouro firme em um pedestal de pedra chamuscada, entalhada na forma de uma mão humana. Era a espada sagrada dos reis hunos, trazida ali pelo xamã para a cerimônia da renovação, pronta para desaparecer novamente e esperar pela redescoberta como ocorrera uma geração antes, quando o próprio Mundiuk era o futuro rei.

Ele conduziu seu cavalo à volta mais uma vez, os arreios dourados resplandecentes nas chamas refletidas. Na carroça, as mulheres ainda se reuniam sobre a forma deitada, mas à sua frente, avançou um dos meninos que trouxeram os bois. Pela tradição, a tarefa a seguir seria do filho mais velho do rei, Bleda, cujo nascimento não fora acompanhado por sinais propícios, mas que seria companheiro de armas do futuro rei. Bleda colocou-se ali, hesitante, a cabeça ainda atada em tiras de lã, o olho direito caído onde a espada de Mundiuk tinha deslizado nas lágrimas do menino enquanto fazia os cortes em suas bochechas, exibidos por todos os guerreiros hunos. Seus braços e pernas estavam envoltos em panos molhados e ele olhava temeroso o fogo. “Vá”, incitou um dos outros meninos. Ele disparou para a frente, gritando na sua voz estridente de adolescente, e saltou nas brasas, seu grito transformando-se em berros de dor enquanto abria caminho pela pilha bruxuleante até a espada. Ele escorregou e segurou o punho da arma, arrancando-a do pedestal e se virando, saindo trôpego das brasas até Mundiuk. Ofegava, os olhos lacrimejavam e as mãos estavam queimadas, mas ele conseguira. Uma mulher saiu às pressas e jogou um balde de água nele, fazendo-o chiar e fumegar. O garoto estendeu a espada pela lâmina e levantou o pomo para Mundiuk, que a pegou pela guarda e a ergueu bem alto. Mundiuk berrou, fazendo eco pela ravina. Era o grito de batalha huno, um grito que provocava terror a todos que ouviam: um grito de morte.

Mundiuk tocou a lâmina recém-amolada, fazendo sangue escorrer de seu dedo, e olhou os dois romanos. Um viveria, outro morreria. Assim a cerimônia acontecia desde que sua linhagem sanguínea governava a grande planície. Bleda sabia que tinha o direito de escolher. O romano mais velho olhava o menino com uma carranca, puxando as correntes. Bleda o encarou também e ergueu o braço, apontando. Mundiuk precisava testar o ardor do homem, para ter certeza de que era o certo. Pegou na sela a maça que usava nos jogos, avançou a trote e a atirou com força na boca do homem, ouvindo o estalo de osso quebrado. O homem cambaleou para trás, mas ficou ereto em seguida, o maxilar inferior espatifado. Cuspiu um bocado de sangue e dentes quebrados e olhou em desafio para o rei.

— Futuere, bárbaro — rosnou ele.

Mundiuk o encarou. Sabia o que significava a maldição. Mas isso era bom. Este sujeito não tinha nada a ver com aqueles emissários eunucos chorosos de Constantinopla, os únicos cativos que conseguiram encontrar para a cerimônia de nascimento de Bleda: homens que cometeram o erro de viajar até Mundiuk sem ouro, que imploraram por misericórdia em suas vozes agudas e que se borraram na frente de sua rainha. Quando ele os viu encarar a morte daquela maneira, como covardes, entendeu que os sinais não eram certos e que os deuses não desejavam que Bleda fosse o próximo rei. Mas desta vez era diferente. Estes dois eram soldados. Haviam sido capturados três semanas antes em um ataque a uma fortificação no grande rio, o rio que os romanos chamam de Danúbio; lutaram como leões, mas foram laçados e algemados nas próprias correntes, aquelas que usavam para escravizar outros. Os irmãos de Mundiuk, Octr e Rau, que lideraram o ataque, zombaram da lendária capacidade de marcha dos romanos, mas ainda assim eles marcharam. Ele tinha visto as cicatrizes no braço do homem mais velho, a marca da legião. Só os mais resistentes a teriam. Octr e Rau fizeram bem. O sangue do romano levaria seu filho às almas e mentes do maior inimigo que seu povo já enfrentara. Já o sobrevivente serviria ao futuro rei como escravo e ensinaria todos os truques de seus guerreiros — a habilidade na espada e as táticas —, e também a combater como eles e a pensar como seus generais.

Ele fez um gesto com a cabeça e os homens de sua guarda colocaram os prisioneiros de joelhos aos chutes. O sangue vertia da boca do homem mais velho, mas ainda assim ele permaneceu de pé, encarando à frente. Grunhiu para o outro na língua dos romanos, palavras que Mundiuk compreendeu:

— Lembre-se de nossos camaradas, irmão. Lembre-se dos que já partiram. Eles esperam por nós do outro lado.

O jovem soldado tremia, seu rosto lívido e os olhos injetados, o olhar de um jovem que começava a perceber o inimaginável; ele não sabia que podia ser poupado. Nas mãos algemadas, segurava alguma coisa, agarrando com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Ele ergueu os braços para o fogo, manejando o objeto entre os dedos até que ficasse visível: uma cruz de madeira rudimentar que parecia ter sido feita por ele mesmo. Colocou-a em silhueta contra as chamas e murmurou encantamentos, as palavras dos padres de manto marrom que muito tempo atrás viajaram ao encontro do povo da planície para lhes mostrar o deus sangrento da cruz, um deus que eles julgaram de fraqueza e capitulação, um deus que eles desprezavam.

Mundiuk viu a cruz e se enfureceu. Mudou de ideia; o outro seria poupado. Ele berrou, ergueu a grande espada e saltou do cavalo, empurrando Bleda de lado e avançando ao soldado jovem. Em um golpe, decepou suas mãos, fazendo a cruz cair em cambalhota até o fogo. Lançou a espada no ar, segurou o punho enquanto ela descia de lâmina para baixo e a enterrou pelo pescoço e pelo tronco do homem até o chão, prendendo-o ali. O soldado cuspiu sangue, com os olhos vidrados, depois arriou, os pulsos esguichando vermelho e a cabeça tombando para a frente. Mundiuk berrou de novo, socando o peito, e seus homens berraram também. Ele pôs o pé no ombro do homem e o empurrou para longe da espada, limpando o sangue em suas bochechas, lambendo a parte plana da lâmina. Pegou o romano pelos cabelos e o decapitou, jogando a cabeça no fogo, depois arremeteu com a lâmina no meio do tronco, arrancou o coração e o ergueu, espremendo-o até que todo o sangue tivesse esguichado por seu braço e lhe coberto a túnica. Deixando as últimas gotas pingarem na boca antes de jogá-lo de volta ao corpo.

Ele se lembrou das palavras do xamã. Matar as vítimas uma vez não basta. Para que o sacrifício funcione, deve matá-la repetidamente, vezes sem conta, até que os deuses estejam satisfeitos, batendo os canecos nos céus a cada golpe, a cerveja derramada misturando-se com o sangue das vítimas.

Atrás dele, homens jogaram mais achas de lenha no fogo e o caminhante colocou a omoplata de touro nas brasas. Mundiuk ergueu a lâmina no alto, brilhando com o sangue, e virou-se para a carroça. Os homens gritaram de expectativa e as mulheres começaram a entoar. Uma das mulheres na carroça virou-se e ergueu o bebê, um menino, e o barulho ganhou um crescendo. Mundiuk o pegou na mão esquerda e o levantou. Olhou em seus olhos, fendas escuras que pareciam perfurá-lo, refletindo o fogo. O presságio era bom. O bebê ainda não chorara. Ele deve sangrar antes de chorar.

Ele ergueu a espada até que a ponta roçou uma bochecha, sujando o bebê com o sangue do soldado. Mundiuk lembrou-se das palavras que lhe ensinaram. O sangue do inimigo se misturará com o sangue do rei. Só então conhecerá seu inimigo e saberá como derrotá-lo. Você se tornará uno com ele. Mundiuk pressionou a lâmina, cortando a bochecha do menino até o maxilar e fez o mesmo do outro lado, observando as gotas de sangue escorrerem da lâmina no ar, ouvindo o cântico transformar-se em ulos, assistindo as chamas se elevarem acima da pira. O bebê ainda não tinha emitido som algum.

Ele olhou o céu. O grito das águias aumentou a um crescendo, estridente e áspero, tragando o crepitar do fogo. O cheiro e o calor das entranhas as deixaram agitadas. Bem acima, ele via a ondulação de nuvens seguindo para o oeste, como uma torrente de rio irreprimível. Uma das águias, a maior, havia se separado das demais e descia em círculos cada vez menores, o som da investida das asas mais alto a cada vez que sobrevoava a campina. Mundiuk rapidamente recuou e seus homens pressionaram o povo para dar espaço. De repente a ave recolheu as asas e mergulhou no círculo, mirando diretamente o tronco ensanguentado e o coração do romano. Com seu prêmio nas garras, bateu as imensas asas, erguendo o coração do corpo, arrastando uma faixa de entranhas ao subir e voou para o leste, ao ninho distante nas montanhas, onde devoraria sua parte do banquete.

Mundiuk respirou fundo, saboreando o cheiro acobreado de sangue fresco. Os presságios foram bons. A espada falara. Ele devolveu o bebê à mulher que estava logo abaixo. Ele mesmo vira os entalhes de águias no penhasco acima dos Portões de Ferro, perto da ponte em ruínas e da fortificação no rio onde capturaram os dois prisioneiros. No passado, as águias eram sagradas para os romanos, sua imagem erguida em estandartes acima dos soldados nos entalhes; mas diziam que, depois que os romanos não conseguiram tomar as terras para além do Danúbio, as águias fugiram enojadas, voltando a seus ninhos ancestrais no Oriente, fervilhando da desonra e da traição. Os soldados na fortificação do rio agora seguiam o deus da cruz, um deus não da guerra, mas da paz, um deus que Mundiuk só podia considerar com desprezo. E agora as águias encontravam novos senhores, cavaleiros que, no ímpeto de vingá-las, um dia varreriam da face do mundo todos aqueles em seu caminho, liderados por um rei que arrancaria o coração da própria Roma.

Houve uma comoção perto do fogo e Mundiuk virou-se, vendo o xamã e o caminhante das brasas usarem uma vareta para tirar a omoplata das chamas. Molharam-na com um balde de água, fazendo-a sibilar e crepitar. O xamã ajoelhou-se ao lado de Mundiuk, murmurando consigo mesmo, e os outros homens guiaram sua mão à face da omoplata, sua superfície queimada e coberta de rachaduras finas. Por alguns minutos, o xamã passou os dedos no osso, lendo da maneira que só ele sabia, murmurando, de vez em quando erguendo os olhos cegos ao calor do fogo, e então baixando-os mais uma vez. Depois de uma última pausa, colocou-se de pé com dificuldade, auxiliado pelo caminhante das brasas. Pegou o cajado e arrastou-se a Mundiuk, o branco dos olhos bruxuleando vermelho com o fogo. Mundiuk colocou a face da espada no ombro, sentindo a umidade do sangue no pescoço.

— E então, velho?

O xamã ergueu a mão.

— Você pegará a espada e a enterrará no pasto acima do grande lago, abaixo dos ninhos das águias. Quando o menino for adulto, um pastor trará um touro diante dele com a perna ensanguentada e o menino saberá que a espada ergueu-se e espera por ele onde o touro foi ferido. Quando ele a encontrar, a lâmina estará polida e reluzente, o gume afiado como se recém-amolado, e então a espada ansiará por sangue e ele conhecerá seu destino.

Outra águia desceu do alto, num grito estridente, pegando um pedaço oferecido a ela pelo xamã e batendo asas para o oeste, provocando uma rajada de ar frio que agitou as chamas na direção do rei. Logo as outras fariam o mesmo, mergulhando para arrebanhar nacos de carne. Mundiuk foi a seu cavalo, segurou a crina com a mão livre e saltou nele, ainda de espada em punho. Uma das mulheres lhe passou o bebê, agora enfaixado, seu rosto limpo do sangue. Mundiuk segurou a espada com uma das mãos e ergueu o bebê com a outra, para que todos vissem. Cada músculo de seu corpo estava tenso e ele se sentiu tomado pelo desejo de batalha. Olhou mais uma vez os olhos do filho e as feridas em carne viva nas bochechas.

— Você aprenderá os costumes de nosso povo — disse. — Aprenderá o arco, a espada e o laço, o cavalo. Aprenderá a língua e os costumes do inimigo, não para dialogar com ele, mas para conhecer suas táticas e seu estilo na guerra, para saber como destruí-lo. Seu exército viajará mais rápido que a notícia de sua chegada. Somente quando os rios correrem vermelhos do sangue de guerreiros hunos e nosso sangue vital estiver extinto, suas conquistas cessarão.

O xamã mancou para o cavalo, de braços estendidos, encontrou as rédeas, segurou-as e ergueu os olhos cegos para o cavaleiro.

— Que nome dará a ele?

Mundiuk olhou fixamente a espada, a espada na qual estava gravado um antigo nome em sua língua, um nome que poucos se atreviam a pronunciar, e olhou o menino de novo.

Você terá o nome daquele que o marcou. Tornar-se-á uno com ele.

Será não apenas um líder na guerra.

Será o deus da guerra.

Ele ergueu o menino e berrou o nome.

— Átila.

OceanofPDF.com