Total War: A espada de Átila

David Gibbins · Capítulo 10 de 27

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Total War: A espada de Átila

Capítulo 4

 

 

Flávio ajudou o último dos feridos e o escorou ao se arrastarem para o leste, atravessando Cartago na direção do porto. Estavam seguindo a rota que Arturo tomara à frente para encontrar seus núbios e recuperar o alforje. A cidade não resistiria aos vândalos por muito tempo; assim que percebessem que as muralhas não tinham defesa, usariam ganchos para escalar e abririam os portões para que os outros os seguissem. Flávio sentia a presença do lado de fora, uma força vasta e incansável agitando-se contra a cidade, esperando que seus batedores fizessem um reconhecimento das muralhas e dessem o sinal para o último assalto. Ele tentou acelerar o passo. Vinte minutos depois, tinham colocado a muralha leste a 400 metros de distância. Perto da beira-mar, passaram pela imensa estrutura dos banhos imperiais, rompendo a linha dos molhes. À frente, ficava o famoso porto interior, construído setecentos anos antes pelos cartagineses púnicos contra a ameaça do ataque naval romano, uma ameaça concretizada quando Cipião Emiliano desembarcou suas forças do mar e arrasou a cidade. O porto agora estava à vista, reconstruído na época de Júlio César e, depois de mais vinte minutos passando por casas particulares e de cômodos, eles deram na margem do complexo, pouco antes do promontório oriental, onde a cidade se projetava no mar Mediterrâneo.

As ruas estavam encobertas por um silêncio sinistro, quase sem ninguém, mas Flávio via algumas dezenas de figuras na extremidade do cais, diante da proa de uma galé: a última embarcação atracada no porto. Ao se aproximar, ele localizou Arturo com sua sotaina, os dois núbios e o cavalo, e, atrás deles, o capitão de barba branca que concordara em continuar ali para apanhá-los, se houvesse sobreviventes. Flávio se apressou para o homem, bateu a mão em seu ombro e lhe falou em grego:

— Somos apenas 16 em número. Não há mais. Obrigado por esperar, kyberbetes.

— Não precisa agradecer a mim, Flávio Aécio. Lembre-se, também fui tribuno em minha juventude, o comandante de uma liburnian na frota do Adriático, a classis Adriaticus. Mesmo agora, como civil, jamais deixaria para trás companheiros guerreiros de Roma. Você e seus homens têm virtus, ao contrário daqueles integrantes da guarnição que já fugiram.

— Quando podemos embarcar?

— Muito em breve. Estamos carregando o que resta de lingotes de prata e ouro do bispo de Cartago. É por ordem expressa do primicerius sacri cubiculi do imperador, Heráclio.

— Aquele eunuco? A ama de leite do imperador? — Macróbio se juntou a eles, curvou-se e cuspiu. — É melhor amarrá-lo a bordo, depois jogá-lo no mar.

— O tesouro antes dos homens — resmungou outro homem do numerus. — É sempre assim.

O capitão olhou para Macróbio como se pedisse desculpas.

— Conhece a realidade, centurião. Se eu aparecer em Óstia sem o tesouro e apenas com soldados, os brutamontes godos de Heráclio me arrastarão para a prisão Mamertina em Roma e me esfolarão vivo. Se eu aparecer com tesouro e soldados, tudo ficará bem.

— É melhor para Heráclio que você apareça com o tesouro, porém sem soldados — disse Macróbio. — Assim, aquele sapo choramingas poderá viver outro dia. Admiro Valentiniano, mas seus eunucos podem ir para o inferno.

Flávio olhou o capitão.

— Você tem no máximo dez minutos — falou. — Os vândalos terão invadido e estarão aqui em uma hora.

— Ave, tribuno. — O capitão se voltou para a tripulação, que carregava com esforço caixas e engradados pela prancha para a galé, uma larga embarcação de um convés com espaço para trinta remadores e os homens do numerus, caso conseguissem se encaixar entre os engradados no convés estreito que corria acima da quilha do casco, entre os bancos. A embarcação estava ancorada na beira do porto retangular, de frente para o canal leste que levava ao mar, sua rota de fuga. Do outro lado do cais ficava o porto circular interno, lar no passado das galés de guerra dos cartagineses e depois quartel-general da frota romana de cereais. Esboçados contra a margem do porto havia os restos de quatro naves de guerra romanas, seu fundo despedaçado e os remos quebrados. Flávio olhou para Arturo.

— Pelo menos depois que estivermos no mar, os vândalos não poderão nos seguir rapidamente.

Arturo amarrou o alforje e observou o porto.

— Não conte com isso. Há um mito de que o mar é o calcanhar de Aquiles dos bárbaros, porque os godos não conseguiram atravessar o Bósforo em Constantinopla depois da batalha de Adrianópolis, sessenta anos atrás. Mas, na época, eles eram inexperientes na navegação pelo Mediterrâneo e pretendiam ir mais para o oeste do que o leste. Quando alcançaram a extremidade sul da Grécia e depois a Itália em sua grande migração, não foi tanto a ignorância do mar que os impediu de ir mais além ao sul, mas o fato de que não viam sentido nisso; queriam terras, e não se tornar piratas. Genserico é diferente. Compreende que o mar não é uma barreira, mas uma rota, que o Mediterrâneo é um campo de batalha que qualquer bárbaro que pretenda enfrentar Roma ignora por próprio risco. Entre os mercenários da Bretanha que ficaram com Genserico depois que deixei seu serviço estava um antigo artífice da frota do canal, a classis Britannica, que sabia construir as embarcações de fundo achatado preferida pelos povos do mar do noroeste. Eram barcos de tal projeto que permitiram a Genserico atravessar o estreito de Gibraltar, da Espanha à África. E você pode ter certeza de que depois que ele e seus vândalos tomarem os portos de Cartago, rapidamente se afirmarão no Mediterrâneo. Os invasores em terra irão se tornar invasores por mar. Lembre-se, conheço esses bárbaros. Já os vi com meus próprios olhos, lutei junto deles, nas montanhas e planícies do Norte, nas florestas, nas estepes muitos estádios a leste, muito além do alcance de Roma.

Flávio o olhou.

— Você viajou para longe, Arturo.

— Fui a lugares sombrios.

Arturo voltou-se para os núbios, procurou em sua sotaina e deu a cada homem uma bolsinha de moedas, depois acariciou o focinho do cavalo, sussurrando em seu ouvido. Bateu em seu flanco e ergueu a mão em despedida enquanto o cavalo trotava atrás dos núbios, saindo do porto em direção ao portão leste da cidade.

— Para onde eles vão? — perguntou Flávio.

— A um lugar onde homens como eles não são escravizados por homens como nós — disse Arturo. — Eu os aconselhei a viajar ao Oriente à margem do grande deserto para o Egito, depois ao sul, pelo curso do rio Nilo, ao reino de Aksum. É o primeiro reino cristão no mundo, fundado bem antes de Constantino, o Grande, ter sua revelação e converter o Império Romano. Se chegarem a salvo em Aksum, poderão encontrar santuário e liberdade.

— E você? Por que não se junta a eles?

Arturo colocou o alforje no ombro.

— Porque fiz o juramento de que levaria estas obras de Agostinho para a segurança na Itália.

— São para as bibliotecas de Roma? Ali pelo menos os monges do scriptoria as conservarão como a palavra de Deus, e não as desfigurarão e destruirão, como estão fazendo com muitas grandes obras do passado pagão.

— Eu lhe direi quando estivermos a bordo. Agora devemos ir.

O capitão da galé acenava com urgência para que avançassem. Um clérigo gordo passou apressado — um bispo, a julgar pelo hábito —, arrastando um saco que tilintava de lingotes numa das mãos e com a outra puxava uma escrava pelo pescoço. Ela era alta, africana, porém incomum, de cabelos pretos crespos e face machucada. Enquanto era rebocada, lançou a Flávio um olhar insondável. Ele tinha visto o bastante de escravas espancadas na vida para pensar que estava imune a isto, mas a visão da mulher sendo arrastada pelo clérigo suarento, com seu saco de despojos, repugnou-o. Sabia que era a última coisa com que devia se preocupar agora e tentou tirar a questão da cabeça enquanto Arturo subia a prancha e embarcava. Flávio esperou até que o último de seus homens o seguisse e subiu na prancha atrás de Macróbio. Pensou por um momento, virou-se e correu de volta, passando pelo marinheiro que desamarrava a prancha do cais, agachou-se e pressionou sua mão contra a antiga pedra púnica de Cartago pela última vez. Ao baixar os olhos, viu algo numa rachadura entre os blocos, uma moeda de prata corroída, e a retirou, observando a cabeça de uma deusa numa face. Girou a moeda, analisando-a, e a meteu na bolsa do cinto. Virou-se e correu de volta pela prancha, pulando no convés da galé pouco antes de os homens puxarem a prancha para bordo. Olhou para trás e viu apenas os odres de água e cascas de comida descartados que eram os últimos resíduos do exército romano nas margens da África do Norte.

O capitão largou os cabos e a galé afastou-se do cais. Os remadores sentaram-se nos bancos, flexionaram-se, preparavam-se para a tarefa. Aqueles poucos do numerus que ainda estavam aptos e capazes assumiram um lugar junto deles nos remos, enquanto o resto se espalhou pelo convés central e na popa. Um iatros grego, médico que estivera entre os poucos civis a partir com eles, já se curvava sobre o primeiro dos homens, seu escalpelo de bronze posicionado para raspar a carne pulverizada e a esponja ensopada de água do mar para limpar o ferimento. A mulher de cabelo crespo levantou-se para ajudar, mas foi puxada violentamente para baixo pelo bispo e obrigada a massagear seu pescoço. O capitão gritou uma ordem e o primeiro golpe dos remos levou a galé para o meio do porto e à estreita passagem no lado leste, que levava a mar aberto pela muralha da cidade. O barulho dos conquistadores ecoavam pela cidade: ordens aos gritos, a ocasional palavra em uma língua gutural ouvida com clareza no ar parado da manhã, o latido dos cães. Eles embarcaram com pouco tempo de folga e Flávio sabia que só estariam livres quando passassem sob a linha da muralha da cidade e saíssem do alcance de qualquer arqueiro vândalo que conseguisse chegar a tempo aos portões do porto.

Os remos bateram de novo e o capitão se apoiou no leme, apontando a galé para a passagem. Flávio andou entre seus homens até a popa, onde Arturo estava sentado, e se ajoelhou a seu lado. Ainda estava tomado de adrenalina e se sentia nervoso, os olhos disparando para todo lado, procurando o inimigo, virando-se e espiando ansiosamente o estreitamento à frente, onde ficariam mais vulneráveis. Um dos homens apontou para a acrópole da cidade.

— Dá para vê-los agora. Na plataforma — disse.

Flávio protegeu os olhos e observou. O soldado tinha razão. Um fluxo de homens podia ser visto junto da margem da imensa plataforma de alvenaria que se elevava acima da cidade, o local do antigo templo púnico a Ba’al Hammon e agora uma grandiosa basílica. Um homem estava destacado, de mãos nos quadris, olhando o porto e o mar, como se fitasse a própria Roma. Naquele momento, Flávio entendeu que via Genserico, via um rei bárbaro pela primeira vez. Sentiu um arrepio tomar o corpo e segurou os bancos da nave, olhando fixamente, sem mais pensar nos acontecimentos das últimas horas, mas agora nos meses e anos à frente, na configuração que homens como Genserico dariam ao império que Flávio jurara defender.

— Agora é hora de ver Cartago arder — resmungou o soldado.

Arturo apertou as alças do alforje para manter o conteúdo seco, as primeiras gotas de respingos dos remos os alcançando.

— Talvez vejamos chamas, mas serão fogueiras de vitória, não de destruição — disse ele. — Assim como os cristãos em Roma converteram basílicas em igrejas e o coliseu em um altar a Deus, Genserico e seus chefes não destruirão Cartago, mas converterão os palácios e palacetes em seus salões de banquete. Os grandes monumentos de Roma sobreviverão, mas não se iludam. Serão meros esqueletos, como os ossos embranquecidos de guerreiros mortos há muito tempo no campo de batalha, a não ser que Roma se reagrupe e reaja à ameaça com uma força militar muito maior do que qualquer coisa já imposta contra os bárbaros.

O capitão gritou uma ordem e os remadores empurraram com força e puxaram os remos, mantendo-os perto das aposturas enquanto deslizavam na obscuridade da passagem. As laterais eram escuras, indiscerníveis, os antigos blocos de alvenaria mal podiam ser distinguidos da pedra em si, e, acima deles, a imensa forma das muralhas da cidade mal era visível na névoa do sol. Era como se Cartago já estivesse sumindo na história, espectral, diáfana, pronta a ser reclamada pelo lodo e o pântano que havia ali quando os fenícios aportaram a primeira galé na margem, antes mesmo de Roma nascer. Flávio virou-se para Arturo, lembrando-se do que ele acabara de dizer.

— E o que nós, soldados de Roma, devemos fazer?

O próprio Arturo parecia fazer parte daquele limbo, a barba e o cabelo comprido apanhados na estranha semiluz da passagem, sentado de costas retas na proa, como um rei mítico. Ele pôs a mão no alforje e falou em voz baixa.

— Responderei contando-lhe o que pretendo fazer com estes livros. Quando menino, na Bretanha, antes da chegada dos saxões, fui educado em grego e latim e, depois de minha fuga, os soldados colocaram-me em um mosteiro na Gália até que eu tivesse idade para ingressar no exército. Saí quando tinha 16 anos, mas já tinha ouvido falar de Agostinho pelos monges. Depois de meus anos com os foederati e em seguida como mercenário dos reis bárbaros, encontrei muito de meu agrado neste serviço. Fiquei enjoado de matar, e não endurecido por isso. A Cidade de Deus parecia-me um lugar melhor do que qualquer cidade que os homens pudessem criar. Mas vi como os homens fracos que governavam Roma começavam a encontrar na Cidade de Deus uma desculpa para rejeitar a crise, a estratégia e o planejamento de que precisávamos para contra-atacar a ameaça bárbara.

— Se só o que importa é a Cidade de Deus, por que se incomodar com os assuntos terrenos?

— Você viu com seus próprios olhos, Flávio. Os homens, os imperadores, podem usar os ensinamentos de Agostinho como desculpa para levar uma vida de indolência e prazer. E então Agostinho começou a pregar contra o livre-arbítrio, a alegar que os homens não podem influenciar o próprio destino. A desculpa ficou ainda mais forte. Se a vida é preordenada, por que se dar o trabalho de debater estratégia? Depois de dois anos com Agostinho em Hippo Regius, comecei a ouvir o chamado de minha terra natal, a lembrar-me do juramento que fiz quando menino, de voltar à Bretanha e lutar por meu povo. Falava-se de montar resistência aos invasores saxões nas colinas e vales do oeste, de uma resistência liderada pelo povo e seus capitães eleitos. Os ensinamentos de Agostinho não mais pareciam ter lugar na visão de meu destino. Tornei-me um herege em segredo muito antes de deixar seus serviços.

— Então você decidiu voltar à Bretanha.

— Esta era minha missão quando você me conheceu. O avanço dos vândalos e a queda de Hippo Regius libertaram-me da obrigação para com Agostinho e a ida a Cartago foi a primeira parte de minha jornada para casa. Cumprirei meu juramento a Agostinho. Protegerei sua obra e a levarei até a Itália, mas não a Roma ou Ravena. Levarei ela ao mosteiro de Monte Cassino, ao sul de Nápoles, onde a confiarei a um monge de minha ordem entre os irmãos que não a revelarão a ninguém e a guardarão trancada naquela fortaleza montanhosa.

— Onde acumulará poeira e não será lida.

— Onde aguardará por uma época mais contemplativa, uma época em que os homens possam refletir sobre Deus e o caminho ao Paraíso sem deixar que isto interfira na batalha por um reino dos homens na terra.

— E sua ordem?

Arturo calou-se por um tempo.

— Não posso falar o nome dela — respondeu finalmente. — Somos proscritos em Roma. É uma ordem que vem de meu povo e acredita que os homens podem dar forma ao próprio destino. As batalhas são vencidas por soldados, não por sacerdotes. E são os reis que conduzem os assuntos dos homens na terra, não Deus.

Macróbio aproximou-se depois de ajudar o médico grego e se sentou pesadamente ao lado de Arturo.

— Vi-o abater dois alanos e suportar a primeira onda de vândalos. Um monge guerreiro — disse a contragosto. — Este mérito lhe dou, mas se sua história tem ou não alguma verdade, não posso julgar.

Arturo sacou a espada por baixo da sotaina. Macróbio enrijeceu e o monge pôs a outra mão no ombro do centurião, sorrindo.

— Não tema, meu amigo. Apenas vi seu tribuno Flávio Aécio perder a espada. Deixou-a cair tentando salvar um homem, um ato que no passado teria lhe granjeado a corona civilis. Antes disso, vi-o confrontar um alano com a mesma espada, apesar da dificuldade de manobrar uma arma de tal tamanho. A minha será melhor para ele. É mais curta, projetada para a arremetida. Pode lhe servir bem, Flávio, como serviu a meus ancestrais legionários na Bretanha.

Ele entregou o gládio a Flávio, sua lâmina vermelha e opaca de sangue seco, a ponta mostrando marcas novas da batalha. Flávio a virou nas mãos, sopesando-a.

— E você? Pode um monge bretão e herege lutar com as próprias mãos?

Arturo fechou a sotaina e respondeu:

— Cumpri com meu juramento de wergild pelo assassinato de meu primo por Genserico. Tirei sangue de seu exército e a conta está paga. Uma nova espada será forjada para mim na Bretanha, uma espada de uma nova era, um novo reino. Mas seu reino ainda é o império de Roma e, para você, a espada dos legionários ainda tem poder. Haverá guerra no futuro.

— Genserico atravessará o Mediterrâneo.

Arturo fez que sim.

— Quando ele chegar ao norte a partir daqui e tomar a Sicília, o último celeiro de Roma terá acabado. Sem esmolas de cereais, o povo de Roma se rebelará e os escravos se erguerão em revolta, como fizeram quando os godos pilharam a cidade uma geração atrás. A frota naval de Roma deve estar preparada para enfrentar esta nova ameaça. Mas há algo pior por vir, algo de que já falamos. Todos os guerreiros de Roma devem se preparar contra uma nova escuridão no horizonte, uma escuridão que vem se precipitando das estepes para além do Danúbio, um novo líder que surgirá dentre os hunos. Tive um embate com ele certa vez, quando o senhor godo a quem servi levou sua guarda pessoal à cidadela de madeira em uma comunidade nas estepes a leste do Danúbio. Combatemos em sua arena de duelo e eu venci. Mas ele era jovem então, as cicatrizes de nascimento no rosto ainda não tinham endurecido. Agora é um homem, fortalecido pela guerra, impiedoso e motivado pela ambição, de olhos postos no império ocidental de Roma.

— Você fala de um filho de Mundiuk — grunhiu Macróbio. — Dizem que foi batizado com o nome da antiga espada dos reis hunos. Chamam-no de Átila.

A galé deslizava em silêncio sob as muralhas da cidade, o ímpeto do último golpe dos remos ainda a impelindo adiante, e então saíram ao sol ofuscante do mar aberto, as ondas batendo na proa e a plena força do vento nordeste caindo sobre eles. O capitão gritou, os remadores estenderam os remos e o tambor na popa começou a ressoar, o imenso tamborileiro de pele negra dando uma batida a cada vez que os remos golpeavam a água. O ritmo aumentou ao contornarem o promontório e o capitão virou o leme no curso para Roma. Um manto de borrifos caiu na popa e os encharcou, uma limpeza bem-vinda depois da poeira da cidade. Flávio usou a água para limpar a lâmina do gládio, deslizando-a na bainha vazia abaixo de seu manto. Assim que pudesse, pegaria um pouco de azeite de oliva com o cozinheiro do navio para impedir que ela enferrujasse.

Ele viu Arturo o observando, assentiu e se escorou enquanto a galé começava a subir e descer com o balanço do mar. Recordou-se da moeda antiga que encontrara no cais e a tirou da bolsa, segurando à luz do sol. Era de prata, mas perdera o brilho, o metal coberto pela pátina do tempo. Do outro lado da deusa, divisou dois cavaleiros e um cachorro pequeno, e abaixo deles uma única palavra, ROMA. Ele se lembrou das moedas de ouro recém-cunhadas que distribuíra aos homens do numerus antes da batalha, a efígie de Valentiniano de um lado, impassível, de pescoço grosso, e do outro o imperador em armadura com os pés na serpente que segurava o orbe e a cruz. Flávio sabia que a moeda de prata datava de tempos antigos, dos tempos de grandiosas vitórias e conquistas, de generais como Cipião e César, que eles acreditavam jamais poder imitar. Entretanto, neste momento, com a adrenalina da batalha ainda em suas veias, a moeda parecia espectral, como as muralhas por onde tinham acabado de passar: a cor lhe fora sugada, um objeto do passado. Ele pensou no que Arturo dissera. Se Roma quisesse sobreviver como algo além de uma relíquia, precisava planejar antecipadamente. A moeda de Valentiniano parecia dizer isso, resplandecente em ouro, as imagens desenhadas por força da tradição, mas olhando adiante; ali estava um imperador na armadura venerada dos legionários, no entanto subjugando um novo inimigo e erguendo os símbolos de uma nova religião, de uma nova ordem mundial que podia preparar Roma para o futuro. Ele só esperava que a imagem do imperador não fosse desvirtuada pela realidade, algo que poucos dos que não tinham acesso à corte íntima e cada vez mais remota do imperador nos palácios de Ravena e Milão podiam julgar.

O bispo já estava enjoado na proa da galé e a mulher de cabelos crespos observava Flávio, sua atenção arrebatada, curiosa para ver o que ele faria com a moeda. Ele pensou por um momento e então jogou o objeto bem longe no mar, para se juntar aos detritos da história, onde era seu lugar. Agora era o momento de os soldados de Roma segurarem os punhos de suas espadas e enfrentarem um novo inimigo, e não se atolarem nas glórias perdidas do passado. Ele olhou fixamente a mulher, então se voltou para seus homens. Seu ferimento latejava e ele sentia dor em cada osso do corpo, mas os borrifos de água o revigoravam. Ele assumiria seu lugar entre os remadores assim que o primeiro homem estivesse cansado. Seria uma longa viagem para casa.

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