Total War: A espada de Átila

David Gibbins · Capítulo 19 de 27

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Total War: A espada de Átila

Capítulo 13

 

 

Flávio estava sentado na proa do barco, olhando a neblina à frente, a sotaina agora usada como leito e a insígnia de tribuno nos ombros reluzindo na luz fraca. Fora uma viagem árdua de três dias desde a ilha, um lugar que todos ficaram muito felizes em deixar, através de gargantas, corredeiras e redemoinhos, sempre contra a corrente do grande rio. No último dia, porém, a margem rochosa caíra constantemente até não ser mais alta do que o mastro do barco e eles começaram a sentir que tinham passado pelo pior da viagem. Tiveram sorte com o vento, sempre forte para encher a vela e empurrá-los em ritmo lento contra a correnteza, mas naquela manhã, com frequência, houve uma lufada fria do nordeste, com uma sugestão dos ventos severos que eles sabiam varrer as estepes de seu destino. Prisco lhes contara que o sentiriam quando se aproximassem da pedra que marcava o ponto de virada no rio, a entrada a um tributário que os levaria a um embarcadouro, onde sua jornada pelo rio terminaria e teria início a última parte da viagem pela planície aberta.

Flávio pensou no que Prisco dissera a eles sobre a espada de Átila. Ela tinha sido forjada há muito tempo, nos dias dos ancestrais de Mundiuk, antes da época de Trajano, Decébalo e das guerras dácias, antes que os romanos sequer tivessem tentado penetrar as terras bárbaras do Norte. Diziam que os ferreiros vieram pela rota da seda de uma misteriosa ilha no mar para além de Tina, um lugar onde as espadas que faziam eram tão afiadas que tocar a lâmina era perder um dedo. Os homens de olhos estreitos montaram sua forja num vale escuro nas estepes, em um dos lugares no fundo de um leito de regato erodido, onde os hunos viviam protegidos dos ventos que varriam acima, saindo de lá apenas para caçar, comercializar e ir para a guerra. Ali, durante meses seguidos, temperaram e enrijeceram o aço, fazendo uma lâmina imensamente forte, no entanto flexível, acrescentando ao ferro uma rara liga de metal que fazia a lâmina brilhar com um lustro radiante mesmo na fraca luz do Norte. O chefe tribal que ordenara a produção da espada, um ancestral distante de Mundiuk, tinha dado aos ferreiros uma pedra que seus próprios ancestrais viram cair do céu no manto de gelo de sua área de caça, ao norte, uma pedra que atraía ferro. Com ela, fizeram o pomo da espada. Os ferreiros ainda estavam lá, queimados e enterrados no vale com sua forja, mortos pelo chefe tribal com a mesma espada que lhe fabricaram, a fim de evitar que vendessem suas habilidades a outros que se colocassem contra o poder que agora brilhava de suas mãos.

Erecan, filha de Átila, havia dito a Prisco que, no nascimento do futuro rei, seu pai Mundiuk colocara a espada em uma fogueira e que, quando a usou para cortar as marcas no rosto do bebê e ele não chorou, Mundiuk percebeu que estava contemplando o futuro rei, aquele a quem deu o nome antigo da própria espada. E, por tradição, o xamã que lera os presságios pegou a espada e a enterrou em um lugar secreto, fazendo arranjos para que o menino a encontrasse quando tivesse a idade de um guerreiro. Desde então, Átila tem usado a espada nas cerimônias de nascimento dos próprios filhos, da própria Erecan, e a ergue em batalha, em todas as outras ocasiões guardando-a em uma sala-forte em sua cidadela, junto com o ouro e o butim de guerras travadas no leste e oeste à medida que ficava mais forte e sua ambição para a conquista se ampliava.

Entretanto, Erecan também havia contado que o próprio Átila não era influenciado pelos xamãs, que não acreditava que a espada em si tivesse propriedades mágicas; como Aécio, que zombava dos monges por seu desejo de trazer as forças de Roma sob o sinal de Cristo, Átila era um general bom demais para permitir que o misticismo e a religião influenciassem sua capacidade crítica, a não ser onde via seu efeito no moral dos homens. Átila sabia que o poder da espada vinha não dos deuses, mas da genialidade dos ferreiros, homens capazes de criar uma arma que brilha no campo de batalha. Sabia que a habilidade deles era não apenas um dom divino, mas o resultado de gerações preparando armas para guerreiros por toda a extensão do mundo conhecido que podiam apelar à sua perícia.

Repentinamente, uma rocha assomou à frente, uma sentinela branca na margem do rio e, na frente dela, Flávio viu a neblina girar sobre a entrada para um tributário que se juntava do leste ao rio. Ele ergueu a mão e Macróbio virou o leme, depois dobrou rapidamente a vela e baixou o mastro para a última parte da jornada. A densa floresta de coníferas da garganta se fora e só o que podiam enxergar agora era relva espessa e algumas árvores baixas. O tributário se estreitava a pouco mais do que um regato e, quando o remo de Flávio bateu no fundo, ele entendeu que seu destino não poderia estar muito distante. Minutos depois, viu uma praia pedregosa com dois barcos atracados e Macróbio virou o leme até que a proa encalhou no cascalho. Flávio saltou do barco, seguido por Arturo e Macróbio, que tirou as bolsas de dentro antes de puxar o barco o máximo que pôde e amarrar o proiz em uma estrutura de madeira na frente das outras duas embarcações. Ele tirou a sotaina, meteu em sua bolsa, pendurou-a nas costas e olhou o regato, com as mãos nos quadris.

— Bem, e agora? — perguntou.

— Por ali — instruiu Arturo, assentindo para o aclive. Os outros dois seguiram seu olhar, avançaram e pararam abruptamente no mesmo instante.

Uma fila de cavaleiros hunos estava acima da margem, de elmo, com seus mantos jogados para trás, mas as armas ainda embainhadas. Usavam armadura e vestimentas que Flávio reconheceu como tipicamente hunas: camisa de lã azul e calça marrom leve, botas de couro e um gorro de couro com abas, um elmo cônico e a armadura corporal característica dos hunos, um colete de segmentos de ferro bem entrelaçados numa armadura justa e flexível que cobria o tronco e os ombros. Dois homens carregavam arcos hunos, compostos e recurvos, feitos de chifre e madeira laminados; dois deles tinham machados de guerra e todos portavam espadas longas em bainhas afiveladas na cintura. Ao contrário dos godos ou dos alanos, eram homens relativamente baixos, atarracados e musculosos, típicos em sua aparência facial de homem das estepes ventosas e das planícies de tundra que se estendiam do coração das terras hunas na vertente do Danúbio ao Extremo Oriente, como fizeram os homens do Ocidente, a Tina e além.

Um dos cavaleiros desceu o cascalho a meio galope, parando a cerca de dez passos, o cavalo pisoteando e bufando. O cavaleiro se curvou para acalmá-lo e Flávio viu que tratava-se de uma mulher, vestindo a mesma armadura dos demais, mas com a cabeça exposta e o cabelo comprido bem amarrado, as cicatrizes de nascimento de uma guerreira nas bochechas. Ela os olhava com arrogância, em especial para Arturo, cujo rosto ainda se ocultava sob o capuz, depois voltou aos homens, falando com eles na língua gutural dos hunos.

— Esta é Erecan — disse Arturo em voz baixa, ainda cabisbaixo. — Como Átila, fala fluentemente o latim, tendo sido instruída por eruditos trazidos de Constantinopla para este fim. Foi a única dentre os filhos de Átila a ser aprovada na cerimônia de nascimento, assim foi criada como uma princesa guerreira.

Ela voltou a olhá-los e Flávio avançou um passo, baixando ligeiramente a cabeça.

— Eu sou Flávio Aécio Gaudêncio, tribuno, sobrinho do magister militum Aécio e enviado especial do imperador Valentiniano à corte de Átila, e este é meu centurião Macróbio.

— Você serve a Valentiniano ou a Aécio? — perguntou ela, girando com o cavalo, sua voz sonora e ressonante. — Soube que Valentiniano é servido apenas por eunucos.

— Valentiniano é meu imperador e Aécio, meu general.

O cavalo bufou e ela puxou seu pescoço, encarando Arturo.

— E quem é este?

Arturo puxou o capuz para trás e tirou a sotaina, revelando seu cabelo longo e a barba, a túnica e o cinto da espada de um comandante foederati.

— Sou Arturo, dos bretões, antigo tribuno do foederati Britannorum do comitatenses do Norte.

Ela o olhou fixamente, depois se curvou e cuspiu.

— Não conheço este homem. — Erecan conduziu o cavalo com firmeza para a direita e cavalgou até os outros. Arturo continuou imóvel.

— Mantenham-se onde estão — disse ele em voz baixa. — Isto não passa de teatro.

— Apenas teatro? — exclamou Macróbio. — Até que ponto você conhece esta mulher?

— Eu fui seu consorte.

— E o que isso significa?

— Ela foi minha esposa. Por assim dizer.

— Sua esposa. Quer dizer então que foi mesmo um pouco mais do que um combate desarmado.

— Um pouco mais, sim.

Macróbio virou-se e olhou para ele.

— Quando você saiu deste lugar 12 anos atrás, despediu-se corretamente dela?

— Não houve tempo. Agora, silêncio. Ela está voltando.

Erecan parou o cavalo novamente na frente dos três homens, mas desta vez saltou dele e andou até Arturo. Postou-se a sua frente e o olhou nos olhos, as cicatrizes de nascimento em seu rosto bastante nítidas, sacou uma faca e a segurou embaixo do queixo de Arturo.

— Explique-se — exigiu. — Não é ato de um futuro rei fugir com o rabo entre as pernas.

— Futuro rei? — exclamou Macróbio, olhando Arturo novamente.

— Ele costumava me contar seus sonhos — disse Erecan, com a faca ainda em seu pescoço. — De que um dia voltaria a sua Bretanha natal, reuniria o povo contra os saxões e criaria um reino que seria um sucessor digno do governo romano. Depois que me deixou sem dizer uma palavra, concluí que tudo não passava de fanfarronice, que ele era apenas outro dos renegados que aparecem nestas plagas com ilusões de grandeza. A maioria deles, nós matamos, e me perguntava se devia ter feito o mesmo com Arturo. Agora pode ser minha chance.

— Vim à corte de seu pai 12 anos atrás como capitão da guarda de Genserico — falou Arturo. — Meu primo na guarda havia sido assassinado e me decidi pela vingança. No dia que parti, um dos guardas, um saxão sem afeto por um bretão como eu, disse a Genserico que eu sabia que ele havia sido o responsável e pretendia me vingar. Quando eu soube disto, entendi que precisava partir imediatamente, ou me arriscaria a ser esfaqueado enquanto dormia. Você estava caçando nas estepes e eu não podia esperar.

Ela roçou a faca pela barba de Arturo.

— E então? Conseguiu sua vingança?

Arturo gesticulou para Flávio.

— Graças a meus amigos aqui, dois anos depois de deixá-la, pude resistir diante das muralhas de Cartago e enfrentar o exército de Genserico, empunhando a espada. Antes que o dia terminasse, eu dei conta de dois de seus guardas pessoais alanos e seis guerreiros vândalos, assim como um cão de guerra Alaunt. O preço de wergild por meu primo foi pago com facilidade e a vingança foi satisfeita.

— E depois disso?

— Minha comissão no foederati foi restaurada e estive combatendo por Roma desde então.

— Combatendo ou espionando?

Arturo baixou a voz:

— Erecan, precisamos conversar. Longe de outros ouvidos.

Ela embainhou a lâmina e os levou alguns passos até o barco.

— Nenhum de meus hunos sabe latim — falou. — A lealdade deles é para comigo e não com meu pai. Pode falar abertamente.

— Não foi coincidência que você tenha vindo nos receber, não?

— Você tem sorte por eu ter voltado da caçada e não ter sido o irmão mais velho de meu pai, Bleda. Ele teve o reinado rejeitado na cerimônia de seu nascimento, mas compensou isso sendo o mais selvagem dos escudeiros de meu pai. Foi ele quem deu cabo dos eunucos que vieram de Constantinopla e os abateu como os porcos engordados que são, com as próprias mãos. Se Prisco e Maximino não tivessem ido embora, teriam sofrido o mesmo destino.

— Então você sabia que nós viríamos.

— Por acaso, os hunos que chegaram da ilha antes de vocês estavam a meu serviço, providenciando vinho e comida para meu séquito. Um deles passou por vocês na cidade e o reconheceu de 12 anos atrás, apesar da barba e da sotaina.

— Logo, você sabe que nos encontramos com Prisco de Panio.

— Não é segredo que ele se esconde em algum lugar na ilha. Meu pai gostava dele, admirava sua erudição, e os dois passaram horas discutindo a geografia dos limites do mundo, meu pai contando-lhe muita informação nova sobre a calota de gelo do Norte, onde os hunos têm enviado expedições para caçar baleias e as grandes focas com presas. Mas meu pai tem um temperamento inconstante e teria ordenado a execução de Prisco se soubesse das maquinações em Constantinopla. Ele detesta intrigas e classifica os homens apenas como eruditos ou guerreiros. Prisco está sitiado de ambos os lados e há pouco que eu possa fazer a favor dele.

— Ele nos contou tudo, Erecan. Falou-nos de sua visita noturna e o que você disse a ele e Maximino sobre os planos de Átila. Você se recorda de que eu lhe falei de meus sonhos para a Bretanha, mas eu me lembro de você me contando do ódio por seu pai depois que ele assassinou sua mãe, e do seu desejo de vingança.

— Não se turvou. Vive comigo dia e noite. Eu o conseguirei neste mundo ou no próximo.

— Então há algo que devo lhe dizer. Algo que Flávio e Macróbio sabem apenas em parte, embora possam ter adivinhado a verdade. Quinze anos atrás, quando desertei de meu foederati numerus, não foi apenas por meu desprazer com o que nos ordenavam fazer, exterminar e cobrar represálias depois de uma revolta camponesa no norte da Gália. Quando verbalizei minha insatisfação, fui levado perante Aécio, que soube de minha história e me recrutou para seu serviço de informações recém-criado. Tudo que fiz desde então, unindo-me à guarda pessoal de Genserico e vindo à corte dos hunos, conquistando a confiança de Agostinho e tornando-me seu secretário, nossa missão aqui hoje, tudo tem sido a serviço de Aécio. E não há nada que Aécio deseje mais do que a destruição de Átila.

— Se é assim, você é mais uma vez meu consorte, Arturo. Desta vez, porém, não haverá mais partidas inesperadas. Quando houver necessidade de ir, iremos juntos.

— De acordo.

— Temos cavalos para vocês. Enquanto cavalgarmos, poderá me contar exatamente o que trama.

Nas horas que se seguiram, eles entraram ainda mais nas estepes, passando pelos dois hunos e mercadores que encontraram na ilha, vendo que amarraram suas ânforas nas laterais de burros e colocaram barris e fardos em uma carroça puxada lentamente por dois bois. Erecan parou, quebrou o alto de uma ânfora e encheu um odre para seus homens, colocando o restante em outro odre e entregando a Macróbio. Ele bebeu sua parte e o passou a Arturo e Flávio, que fizeram o mesmo. Era um vinho gaulês de boa safra e Flávio o reconheceu pelo selo na ânfora como Lugdenese, feito perto da propriedade de caça que fora dada a seu avô Gaudêncio quando os romanos decidiram assentar os visigodos na antiga província da Gália.

O vinho era feito ali desde tempos remotos e tinha sido bebido pelos chefes gauleses antes que guerreiros germânicos adquirissem o gosto por ele. Agora, parecia adequado que fosse ingerido pela onda seguinte daqueles para além das fronteiras que achavam inebriante parte do que Roma tinha a oferecer.

Flávio jogou o odre de volta à carroça e voltou a andar ao lado de Macróbio, trotando para a frente, desfrutando do calor no ventre, mas arrependendo-se momentaneamente de não usar sua sotaina porque uma rajada áspera de vento os atingia das estepes. O caminho descia do vento para um canal, e Arturo também ficou para trás, os três cavalgando lado a lado atrás dos hunos. Macróbio virou-se para ele.

— A propósito, Arturo, saiu-se bem com a história do wergild. Isso provavelmente salvou nossa pele.

Arturo lhe lançou um olhar pesaroso.

— Se quiser se livrar de um embaraço com um huno, diga-lhe que procura vingança. Isto os acerta direto na alma e eles o perdoarão por quase qualquer coisa.

— Então... — disse Flávio. — Arturo, futuro rei dos bretões?

— A palavra rei foi de Erecan, não minha — respondeu Arturo. — Por ora, não passo de um agente especial do magister militum, um homem que existe nas sombras da história e pode muito bem partir sem deixar vestígios de sua passagem.

— Pode bem ser o contrário.

Arturo puxou as rédeas do cavalo enquanto eles esperavam para atravessar uma ponte de madeira.

— Se tivermos sucesso em nossa missão aqui, você e Macróbio poderão voltar à vida militar, como homens que Aécio pode valorizar muito pelo conhecimento em primeira mão que terão de Átila e dos hunos. Mas, para mim, é diferente. Heráclio já sabe a meu respeito e muito em breve descobrirá a extensão de minhas atividades como informante de Aécio. Ele pode tentar me cortejar para seu grupo, mas eu jamais serviria a um eunuco. Esta será minha última missão para Aécio. Pretendo voltar ao oeste a partir daqui, a meu próprio povo, e usar as habilidades que aprendi a serviço de Roma para liderar a resistência contra os saxões.

— Isso se algum de nós sobreviver ao que nos aguarda neste lugar — disse Macróbio.

O último dos cavalos dos hunos atravessou a ponte e eles avançaram. À frente, havia um corte que se aprofundava nos sulcos da estepe, um antigo canal de rio que fora erodido a uma ravina. Uma águia voava bem acima deles, escura e ameaçadora, batendo as asas contra um vento que eles mal podiam sentir no nível da planície. Um caminho de terra bem batida ao lado do regato no meio os levou por uma rota sinuosa, à esquerda, depois à direita. Flávio via que a ravina podia ser facilmente defendida por arqueiros e homens em catapultas distribuídos pelo terreno elevado, as guinadas da ravina fragmentando um exército atacante em seções de algumas centenas de homens de infantaria ou cavalaria que podiam ser combatidos antes que a seção seguinte tentasse forçar passagem.

Depois de cerca de 1 quilômetro e meio, a ravina se alargava, áreas grandes de terra bem irrigada, agora limítrofes ao regato dos dois lados, parte delas cultivada em lavouras verdejantes com pessoas visivelmente capinando e coletando. Eles viraram num canto, continuaram por outros 400 metros e chegaram a um enorme valo de barro que se estendia por toda a ravina de um lado a outro, uma paliçada de madeira com ameias e torres baixas correndo pelo topo. O portão diante deles se abriu e Erecan os conduziu para dentro, os cavaleiros hunos agora cercando os três homens em uma formação mais estreita à medida que avançavam.

Ao olhar para cima, uma visão impressionante recebeu os olhos de Flávio. À frente, havia uma vasta cidadela de madeira, quase da altura dos penhascos circundantes, porém distante o suficiente para ficar fora do alcance de uma flecha ou balista. Em primeiro plano, havia numerosos alvos para a prática do arco e flecha e, à direita, uma trilha do tamanho do hipódromo em Roma, onde grupos de cavaleiros a galope erguiam grandes nuvens de poeira. Havia tendas armadas por todo lado, cabanas redondas de pele com filetes de fumaça saindo de buracos no meio do teto, cavalos amarrados por perto e o cheiro de carne cozida vagando para a estrada. Flávio via que Prisco tinha razão: este era o acampamento de um exército que chegava a dezenas de milhares, com muitos outros homens presumivelmente em acampamentos remotos e nas estepes, prontos para atender ao chamado das armas, quando fosse a hora.

Foi a cidadela em si o que mais fascinou Flávio. Uma paliçada a cercava, encerrando uma área com pelo menos o tamanho do Monte Palatino e do antigo Fórum de Roma. No centro, havia uma estrutura semelhante a uma fortaleza elevando-se na planície, cercada por camadas de construções em uma massa compacta que descia ao vale; na aparência geral, era como se uma das cabanas circulares dos acampamentos fosse recriada em escala maior. A paliçada era construída com enormes troncos de cedro, de proporções que Flávio só vira nas florestas que cercavam a garganta do Danúbio, perto dos Portões de Ferro; cortar e transportar esta madeira teria sido um feito prodigioso, presumivelmente realizado pelos carpinteiros do Danúbio a serviço dos hunos. Numa terra em que a madeira era rara e as árvores eram atrofiadas, a tradição na carpintaria dos hunos era vista nas paredes das construções interiores, todas de tábuas curtas de larguras variáveis, encaixadas sem deixar espaço, dando a aparência reta de cascos de navio que Flávio, quando menino, vira serem construídos a partir dos arcabouços nos pátios de Portus, perto de Roma. O ponto fraco da cidadela era sua vulnerabilidade ao fogo, mas a probabilidade de um assaltante se aproximar com a artilharia certa parecia bem remota; a estratégia huna era de ataque, travar guerras a centenas de quilômetros de sua terra natal, atacando a partir de uma base com pouco a oferecer em recursos ou localização, deixando de atrair um agressor que pretenda saquear ou conquistar.

Erecan saltou do cavalo no portão da paliçada, dispensou seus guerreiros e os observou galopar ao acampamento próximo. Antes, ela e Arturo tinham ficado para trás, conversando intensamente, e Flávio sabia que ela havia sido informada do plano de encontrar e roubar a espada. Eles desceram dos cavalos, entregando as rédeas a meninos que aguardavam e a seguiram para dentro, passando pela guarda do portão e subindo uma escada estreita que levava à parte central da cidadela. Quando estavam fora do alcance dos guardas e chegaram à outra entrada, ela parou e se virou para Flávio.

— Arturo é seu criado, seu armeiro — disse. — Ele irá por esta passagem e esperará por minha volta. Em seguida, ele e eu iremos à sala-forte. Primeiro eu o levarei à câmara de audiência. Meu pai só terá um curto tempo para você, porque pretende cavalgar esta noite a Pártia. Mas ele respeita Aécio como general e ouvirá o que você tem a falar.

— Decidirei o que lhe dizer quando o encontrar — respondeu Flávio.

— Não lhe ofereça concessões de terra, como Roma fez aos visigodos e alanos. Átila considerará isto um sinal de fraqueza. Quanto às ofertas de ouro, ele está acostumado com elas, graças aos eunucos de Constantinopla. Você não vai querer lembrá-lo dos eunucos. Ele os despreza e desprezará você.

— Nada de eunucos — disse bruscamente Macróbio, com a mão na guarda da espada. — Pelo menos este pensamento eu tenho em comum com Átila.

— E tire a mão da espada. Terá permissão de levar suas armas à câmara de audiência, pois qualquer homem que permita de boa vontade que outros tomem sua arma é considerado fraco. Mas tocar nelas será um convite à morte imediata.

— Parece que essa audiência será muito divertida — resmungou Macróbio.

Flávio o olhou de soslaio.

— Será uma história para contar a seus netos.

— Filhos já seria um bom começo. Vir aqui não aumenta exatamente minhas chances disso. A maioria dos soldados de minha idade é de veteranos com um bom lote de terra e uma mulher, com os filhos já no exército.

— Espere até ver o ouro — disse Erecan. — Então ficará agradecido por ter vindo.

— Enfim, uma boa ideia.

— Depois de sua audiência, levarei vocês à sala-forte. Chegando lá, precisaremos pensar em nossa melhor rota de fuga.

— Soa como um plano.

— E uma última coisa: cuidado com Bleda. Ele é leal ao irmão, mas amargurado depois de anos de ressentimento por não ter sido escolhido para o reinado. Ele me odeia porque tomou minha mãe escrava para si depois que nasci e me culpa por Átila ter decidido matá-la. Ele encontraria com muita satisfação uma desculpa para me destruir.

— Tem alguém em quem você possa confiar?

— Meus dois guardas mais próximos, Optila e Trastila. São meus guardas desde meu nascimento. Eles virão conosco.

— Muito bem. Vamos agir — disse Flávio.

Arturo e Macróbio desapareceram na passagem à esquerda e Erecan levou Flávio escada acima a uma câmara larga com colunatas de madeira pelas paredes, o piso e os espaços na parede entre as colunas cobertos de tapetes sobrepostos, de cores vivas e trama estreita. Lembrou Flávio do interior das tendas berberes que ele tinha visto na África antes da queda de Cartago, as habitações de outro povo mais à vontade com um estilo de vida nômade do que o sedentarismo. Para os hunos, nem uma cidadela tão impressionante como esta teria a permanência ou o significado de Roma ou Constantinopla e só seria vista como capital temporária enquanto seu rei preparava as forças para a última investida apocalíptica contra o Ocidente.

Erecan passou por outras duas portas e empurrou uma última para dentro, dando um passo de lado enquanto Flávio avançava. Ele estava no interior de outra câmara com colunas, mas em vez de ser fechada, esta era aberta para o clima, uma grande cavidade circular no teto atraindo a fumaça de um fogo que ardia em uma lareira de pedra abaixo. De cada lado da entrada se postavam dois imensos mercenários godos, ambos portando machados, e para além da lareira Flávio via um guerreiro huno, presumivelmente Bleda, o cabelo raiado de cinza e de braços cruzados, olhando severamente para eles, as cicatrizes de nascimento nas bochechas nítidas à luz do fogo.

As portas foram batidas atrás dele e Flávio avançou outro passo. Ao lado do guerreiro huno, via outra figura, sentada em um trono de madeira, arriado de um lado com seu bigode e testa oblíqua claramente visíveis. Também trazia as cicatrizes de nascimento nas faces, bebia de uma caneca de ouro e arrancava a dentadas a carne de um osso, olhando para ele, do outro lado do fogo.

Flávio chegara a seu destino.

Era Átila.

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