Total War: A espada de Átila
Parte 4 | Os Campos Cataláunicos, Gália, 451 d.C
P a r t e 4
Os Campos Cataláunicos, Gália, 451 d.C
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Flávio e Macróbio pararam com os cavalos no pátio do mosteiro em Châlons, no passado uma casa de campo de um rico nobre gaulês de gosto romano, mas, depois da conversão de Constantino, entregue à Igreja como casa de Deus. Os monges a ofereceram como quartel a Aécio na expectativa de que o liderassem em oração antes da batalha, mas ele os rejeitara bruscamente, esvaziara os cômodos principais como acomodações para seu corpo de assistentes e montara a sala de operações no salão de convocação, antes o átrio da casa. Eles ainda estavam de mudança, carroças de boi trazendo todo o equipamento de escritório do pessoal de logística e secretariado de Aécio, e Flávio sabia que teriam de ser pacientes para a oportunidade de ver o general em pessoa.
Ele pensou nos acontecimentos que os levaram até ali, agora em campanha por quase três meses. Fazia quase dois anos desde que ele e Macróbio chegaram exaustos em Roma depois de sua fuga de Átila, tendo tomado rumos separados de Arturo e Erecan no sul dos Alpes e os visto cavalgar para o Oeste, na direção da costa atlântica e da Bretanha.
Os guardas hunos Optila e Trastila de Erecan os acompanharam ao sul e ingressaram no serviço a Aécio como sua guarda pessoal quando ele estava em Ravena, uma nomeação engendrada pelo general para que fossem seus olhos e ouvidos na corte. O que ele descobriu ali o desanimou, mas não foi nenhuma surpresa. O eunuco Heráclio havia estimulado Honória, irmã cada vez mais demente de Valentiniano, a consumar uma obsessão por Átila com uma proposta de casamento, um constrangimento para Aécio que se agravou quando o próprio Valentiniano se envolveu, enviando seu próprio emissário para refutar o casamento e protestar contra o dote que Honória oferecera, de metade do Império do Ocidente.
Em vez de ficar seguramente engaiolados em Ravena, os loucos fugiram do ninho, uma manobra de Heráclio para minar os planos de Aécio. A farsa do único contato do imperador romano do Ocidente com Átila durante uma época de crise e escalação para a guerra ter sido sobre sua irmã patentemente louca convencera o huno da existência de uma fraqueza fundamental do império, algo que o fez antecipar seus planos para a conquista. Durante os meses seguintes, tudo foi pesado na balança, Aécio cada vez mais desesperado na tentativa de obter reforços e forjar alianças, o espectro da recusa dos visigodos pairando sobre tudo. Por fim o trabalho de Pelágio de convencer o clérigo da Gália a pressionar por uma aliança compensou e Teodorico aderiu em cima da hora.
Flávio lembrou-se da luva que ele lançara a Átila, o convite à batalha. Na época, havia sido uma forma de ocupar o tempo, uma provocação mais divertida para Átila do que as trivialidades e tentativas de conciliação que estava acostumado a receber de outros emissários, mas agora tinha um ar profético, com todos os acontecimentos dos últimos dois anos levando inexoravelmente a um confronto. O planejamento, a expectativa e o medo tornaram-se uma realidade três meses antes, quando Átila saiu intempestivamente de sua terra natal, chegando à Gália e tomando Aurelianum antes de seguir para o norte, aos campos ondulantes das Planícies Cataláunicas.
Alguns pensaram que a chegada de Aécio e do comitatenses havia estimulado Átila a sair da cidade em uma fuga desordenada para o norte da Gália e, para Aécio, era bom que pensassem assim. Mas Flávio sabia da verdade. Lembrou-se do que tinha oferecido a Átila, em sua leve vaidade: um campo de batalha de sua preferência. Ele não tinha fugido, mas os arrastava, levava-os a algum lugar onde os dois exércitos podiam se encontrar no embate dos sonhos do huno: a mãe de todas as batalhas.
Flávio vira Pelágio pela última vez em segredo num mosteiro de Arles quatro meses antes, quando o outro lhe entregara a espada, então passada a ele para que ficasse a salvo depois da fuga da corte de Átila, e agora carregada dia e noite embrulhada na mesma velha sotaina que ele tinha usado na aventura pelo Danúbio. Pelágio também estava a caminho da Bretanha, concluído seu trabalho para Aécio. Flávio se lembrou das palavras de despedida de Arturo sob os Alpes, um convite para se juntar a ele na Bretanha, se Roma ficasse perigosa demais e o serviço militar para o império se tornasse uma tarefa demasiado ingrata; era algo que estivera na mente de Flávio nos últimos dias enquanto refletia sobre o que o futuro reservava no serviço romano para Macróbio e os sobreviventes de seu numerus, todos ali hoje preparados para a batalha iminente que, para qualquer um deles, poderia ser a última.
Ele torceu o colar fino de couro que usava sempre desde que Una o presenteara com ele na praia dois anos antes, sentindo o volume da pedra negra polida pendurada ali. Era como se tocá-lo o impedisse de se preocupar com ela, fizesse com que simplesmente se recordasse do calor de sua presença, desviasse a mente da viagem que ela empreendera e os perigos e incertezas que devia ter enfrentado no caminho.
Macróbio, o solteirão grisalho, sempre lhe dizia que ser um soldado era estar condenado a jamais obter sucesso em relações de longo prazo; ainda assim, isso não facilitava a separação nem os momentos em que ele ficava deitado, acordado à noite, perguntando-se se deveria ter feito as coisas de forma diferente.
Flávio soltou a pedra e semicerrou os olhos para o céu. Ser um militar pelo menos tinha o benefício de manter a mente em questões práticas do momento e agora ele precisava estar preparado para dar a Aécio o melhor conselho possível sobre o provável plano tático de Átila. Podia ser a última tarefa de importância que realizaria a serviço de Roma, mas era uma responsabilidade assombrosa e algo que estava decidido a fazer no máximo de sua capacidade.
Ainda assim, ele se indagava sobre Átila. Como teria reagido quando percebeu que sua espada sagrada estava desaparecida? Era impossível saber; não havia serviço de informações confiável da corte huna desde a partida deles. A morte de Bleda teria sido um golpe, um homem volátil e inconstante de gênio selvagem, mas um conselheiro experiente na guerra e irmão do próprio Átila; entretanto, assassinatos eram comuns na corte dos hunos e outros estariam ali para substituí-lo. Flávio sentira um arrepio de dúvida quando soube do exército huno marchando para o oeste três meses atrás, algo que certamente não teria acontecido se Átila perdesse a confiança em si e a de seu povo. Flávio se obrigou a não pensar nisso antes da hora certa. A espada era uma arma de guerra, um símbolo que podia pender a batalha e, se tinha o poder que alegavam, era na batalha que estaria o teste definitivo, a prova de que sua missão valera o custo das vidas de Uago e de outros que tombaram pelo caminho.
Um soldado usando a insígnia de um tribuno saiu da entrada para encontrá-los, tendo Flávio anunciado sua chegada a um dos milites que guardavam o pátio, que foi então informar Aécio. O tribuno o saudou e gesticulou, e Flávio respondeu com um gesto de cabeça.
Ele deixou que seu cavalo terminasse de beber do balde que segurava adiante e passou as rédeas a Macróbio. Fora uma jornada longa e quente e dar de beber aos animais e aos homens seria prioritário no dia seguinte. Tirou o cinto da espada e também entregou a Macróbio, deixando-o para procurar comida e bebida, e seguiu entre as pilhas de esterco de cavalo no pátio, acompanhando o tribuno para dentro.
Aécio estava de pé à cabeceira da sala, contemplando uma cruz de madeira calcinada que os monges acreditavam ser uma das verdadeiras cruzes da crucificação armadas no Monte do Calvário no dia do julgamento de Cristo. Outros cinco homens estavam em volta da mesa diante dele: Torismudo e mais dois godos de um lado e, do outro, os dois magistri romanos dos exércitos comitatenses que estavam presentes no campo, Flávio Aspar e Caio Petrônio Anagasto. Aécio viu seu sobrinho entrar e desceu do altar à cabeceira da mesa.
— Este conselho de guerra está convocado. Os dois comandantes comitatenses, todos vocês conhecem. Flávio Aécio, meu sobrinho, é um tribuno que cavalgou com Átila. Teodorico não pôde estar presente.
Torismudo virou-se para os comandantes romanos e falou:
— Meu pai e meu irmão caminham entre nossos homens. É a tradição dos reis na véspera da batalha, seguida por um banquete no salão para o rei e seus capitães, e em torno das fogueiras para os soldados. Boi para os homens, e javali e cervo para o rei foram trazidos para abate e assados em preparação. Estou aqui neste conselho representando meu pai, junto com meus primos Radagaiso e Tiudimer.
Aécio desenrolou uma macia folha de velo que estendeu pela mesa e os dois generais prenderam as pontas com copas. Era um mapa, o curso dos rios claramente marcado em preto, a disposição dos exércitos como blocos de outras cores. A convenção foi imediatamente familiar a Flávio graças às aulas de cartografia na schola militarum em Roma, quase 15 anos antes; trouxe à mente a última vez em que estivera com Torismudo, examinando um mapa semelhante, estudando a Batalha de Adrianópolis e as táticas dos godos na derrota dos romanos naquele dia fatídico quase setenta anos antes. Aécio apontava os traços no mapa enquanto falava:
— Isto foi preparado nas últimas horas por meus fabri e se baseia em seu próprio levantamento, bem como nos relatórios dos batedores do numerus de reconhecimento. Podem ver o rio Aube, dirigindo-se para o norte e definindo o lado oeste do campo de batalha e, ao sul, o ponto em que ele se une com o rio Sena. O triângulo de terra criado por esta interseção é um possível terreno de abate, se um exército ficar preso ali por outro que desça do nordeste. Caso contrário, a topografia compreende planícies baixas e ondulantes, com uma elevação no meio dividindo o campo de batalha e, a leste, os campos abertos.
Aspar bateu o dedo no mapa.
— Nosso exército está a oeste dessa elevação com o rio a nossas costas. O exército huno está a leste, com o campo aberto além dali. Fora o único lugar onde o rio Aube pode ser atravessado, não temos rota de fuga.
Aécio o olhou severamente.
— Então lutaremos até a morte — disse.
— Ave, magister militus.
— E quanto ao terreno? — perguntou Flávio. — Onde meu centurião Macróbio e eu cavalgamos, o solo era muito duro, quase rochoso.
— Não chove há semanas — respondeu Aécio. — Não haverá lama, embora o terreno duro traga outros problemas. Ficará escorregadio onde houver poças de sangue.
— É aí que meus homens e eu lutaremos — disse o godo Radagaiso, a voz gutural e o latim com forte sotaque. — Num lugar escorregadio de sangue huno.
Aécio continuou:
— As únicas árvores aparecem pela linha do rio. Os campos são plantados com trigo, mas não têm altura suficiente para dar cobertura. Há um regato correndo pelo meio do campo de batalha, abaixo de nosso lado da elevação, alimentado por uma fonte, mas a vala é estreita e pode ser saltada por um homem. Não há vantagens particulares dos dois lados desta paisagem do ponto de vista tático, a não ser por esta cumeeira, que se eleva de 15 a 21 metros acima da planície aluvial. Não é muito, mas quem a sustentar conseguirá dominar o campo de batalha.
— E a disposição das tropas? — perguntou Flávio.
— Meus batedores dizem-me que os hunos estão concentrados com suas carroças imediatamente depois dessa cumeeira, com Valamiro e seus ostrogodos ao norte, e Ardarico e os gépidas ao sul. De nosso lado, os comitatenses distribuem-se ao norte e os visigodos ao sul, com o centro da linha oposta aos hunos dividido igualmente entre romanos e visigodos.
— Esta divisão não era necessária — resmungou Aspar. — Basta meu comitatenses para controlar a linha contra os hunos.
Aécio o olhou com severidade.
— Sua fé em seus homens é louvável, magister, mas vocês nunca cerraram fileiras contra um exército huno como este. Os milites romanos são mais habilidosos como arqueiros do que os visigodos, porém os visigodos são melhores no combate homem a homem. Não podemos permitir que um huno rompa pelo centro da linha e devemos fortalecê-la para nossa máxima vantagem, independentemente das suscetibilidades dos comandantes. E se isto significa que o comitatenses precisará dividir a tarefa com os visigodos, assim será.
— Nós também assumimos um compromisso — disse Torismudo, encarando os dois comandantes romanos. — Desejávamos que o flanco principal de nosso exército visigodo enfrentasse os ostrogodos ao norte, mas meu pai Teodorico concordou que, em vez disso, enfrentaremos os gépidas ao sul e deixaremos os ostrogodos para os comitatenses.
— No passado, seu pai pode ter sido meu inimigo mortal, mas é um general sensato e experiente — falou Aécio. — As rixas de sangue que vocês sem dúvida têm com seus primos ostrogodos podem endurecer sua determinação contra eles, mas não há lugar para rixas numa guerra. Um chefe tribal pode distrair seus homens a fim de encontrar um primo particularmente detestado, enquanto outro pode evitar um grupo com quem tem laços de parentesco e nenhuma animosidade. Fazer como alguns chefes visigodos desejavam e colocar seu exército em oposição aos ostrogodos pode criar inconsistências na linha, enquanto que contra os gépidas vocês podem lutar como uma só força.
— E Sangibano? — perguntou Flávio.
Aécio franziu os lábios.
— Coloquei Sangibano e seus alanos entre os romanos e os visigodos, mas assim que a batalha começar, nós nos aproximaremos e eles serão obrigados a recuar para formar uma reserva. Eles são nossa única deficiência. Ofereci a Sangibano um suborno de mais terras perto de Orléans para seus alanos se acomodarem, bem como um lugar para seus homens em meu exército em troca de sua aliança, depois de ele ter ameaçado entregar Orléans a Átila e reviver a aliança tradicional dos alanos com os hunos.
— Estes não são os alanos que vimos com o exército de Genserico em Cartago — falou Flávio. — Macróbio e eu passamos por Sangibano e seus homens a caminho de Nîmes. Guerreiros que no passado foram uma torre de força agora são gordos e indolentes, amolecidos pela vida acomodada e a autocomplacência.
— Exatamente o que esperávamos quando lhes oferecemos terras anos atrás. Dê a alguns inimigos uma vida fácil e logo eles não serão mais uma ameaça. Mas quando fui obrigado a negociar os termos com Sangibano, ainda não sabia se Teodorico se uniria a nós contra Átila e eu precisava de cada aliado que pudesse obter. Se na época eu soubesse que podia contar com os visigodos, teria tocado feliz Sangibano e seu chiqueiro de volta a Átila.
— Se eles compuserem uma reserva junto do rio, poderemos usá-los para levar água aos soldados — sugeriu Anagasto.
— São ineptos até para isso — disse Aspar. — Nesse calor, provavelmente desmaiariam antes de andar dez passos.
— Estou mais confiante nos bárbaros nos comitatenses — comentou Aécio. — Quando formei meu exército a caminho daqui, recrutei francos salianos e ripurianos, burgúndios, celtas armoricanos, até alguns bretões exilados. Como não temos tempo para treinamento, aceitei apenas veteranos, oferecendo recrutamento nos comitatenses e patentes conforme sua experiência, bem como todo o pagamento sumamente importante quando se encerrar a batalha. Valentiniano garantiu-me que haverá ouro disponível, mas esses milites veteranos sabem muito bem o quanto podem confiar na palavra de um imperador quando se trata do pagamento. Dei a cada um deles, de meu próprio bolso, cinco solidi de ouro pelo recrutamento e provavelmente compensarei o restante eu mesmo quando chegar a hora de os sobreviventes o exigirem.
— Quais são os números gerais? — perguntou Flávio.
— Quase empatados — respondeu Anagasto. — Aproximadamente 30 mil homens dos comitatenses e 20 mil visigodos contra 20 mil hunos e 30 mil ostrogodos. Os comitatenses têm mais arqueiros de infantaria, os hunos mais arqueiros montados.
Aécio virou-se para Flávio.
— Eu o convidei aqui porque você cavalgou em batalha com Átila, porque conhece o homem. Qual é sua avaliação da tática dele?
Flávio olhou o mapa, lembrando-se dos hunos em sua terra natal e imaginando como seria seu acampamento agora nas Planícies Cataláunicas. Ele pensou bem e olhou para Aécio.
— Átila nunca travou uma batalha campal como esta — falou, enfim. — A maioria de suas batalhas foi de embates de movimento, de um exército constantemente se movendo, dominando e abatendo o inimigo em avanço ou em retirada, encontros rápidos e ferozes com poucos preâmbulos ou prudência prática. Como ele não tem cadeia de suprimento e está acostumado a campanhas nas terras áridas do Oriente, onde há pouca caça, a guerra de improviso é uma questão de necessidade, não de opção. Ao contrário de muitos comandantes godos, homens como nosso próprio Teodorico e Torismudo, ou do general ostrogodo Valamiro, Átila não compareceu à schola militarum em Roma nem em Constantinopla, logo não tem treinamento nas táticas de batalha campal. Não precisou delas até então; só necessitava do terror trazido pelo tufão do assalto montado huno e isto o tinha apoiado até aqui. Mas agora é diferente.
— Ele tem bons conselheiros?
— Valamiro é um tático competente. Mas, como a maioria dos oficiais godos que passaram pela schola em Constantinopla, é obcecado pela Batalha de Adrianópolis. Afinal, foi uma vitória goda e o local de batalha fica a pouca distância da própria Constantinopla. Mas Adrianópolis foi mais uma batalha vencida por pouco, ao contrário do que muitos foram levados a acreditar e, se Valamiro influenciar Átila, essa obsessão por Adrianópolis pode acabar sendo sua maior fraqueza tática amanhã.
— Você fala do círculo de carroças! — exclamou Torismudo. — A fortaleza sobre rodas.
— Exatamente — disse Flávio. — Se nossos batedores tiverem razão, Átila mostrou suas limitações indo ao extremo oposto da guerra móvel e fluida, onde seus guerreiros reinam supremos e optam pelo complexo fortificado atrás de carroças que permitiram que os godos em Adrianópolis resistissem a repetidos ataques romanos e depois investissem. Mas também aprendemos com Adrianópolis, para ser mais exato, a não cometer o mesmo erro: não fazer ataques frontais em um dia quente contra um círculo de carroças, esgotando nossos homens de cansaço e tendo baixas a ponto de serem dominados por uma força que surja do complexo.
— Assim, em vez disso, o que precisamos fazer é cercá-los e matá-los de fome — disse Torismudo.
— Obrigando-os a avançar, a enviar seus arqueiros montados em ataques-relâmpago para manter alto o moral de seus homens e erodir o nosso — interveio Anagasto. — Porém, mantendo nossa linha defensiva forte, resistimos a seus ataques e nossa linha não se interrompe, e as baixas dele serão maiores do que as nossas.
— Nossos sagitarii e os comitatenses usam arcos de alcance maior do que o arco de cavalaria huno — explicou Aécio. — Fiz um estudo especial deles nos alvos do Campo de Marte em Roma com o imperador Valentiniano, que exercita seu fascínio pelo arco e flecha sempre que se permite sair das garras daquele eunuco Heráclio. Se pudermos chegar a terreno elevado e fazer chover flechas no círculo de carroças, poderemos vencer.
Anagasto recuou, pôs as mãos nos quadris e balançou a cabeça.
— Esta ainda será uma batalha vencida principalmente pelo atrito. Temos falado de um cenário em que Átila já foi obrigado a recuar para seu círculo de carroças e, para que isto aconteça, ainda temos de enfrentar seu exército em batalha aberta e empurrá-lo de volta por esta cumeeira. Ela pode não passar de um calombo no terreno, mas para muitos homens amanhã parecerá uma montanha intransponível.
— Temos uma vantagem fundamental — disse Aécio. — Podemos manter a chegada de suprimentos e ele, não? Se conseguirmos evitar a derrota cabal e sustentarmos um impasse por mais de 24 horas, o exército dele começará a sofrer. Átila depende da busca de comida como seu exército fez no Oriente, enquanto nós ainda podemos apelar às reservas militares nas capitais diocesanas e provinciais. Quando eu era um jovem candidato na escola de oficiais, ensinaram-nos que os três eixos da batalha eram a estratégia, a tática e os suprimentos, e esta pode ser uma daquelas batalhas em que o terceiro eixo é decisivo. Agora devo me reunir com meus intendentes.
— E nós iremos ao banquete — afirmou Torismudo, levantando-se de sua cadeira, os dois godos ao lado fazendo o mesmo. — Em sua ausência, peço que Flávio Aécio tome seu lugar na tenda que armamos como salão.
Aécio acenou para Flávio, que se virou para Torismudo e fez uma mesura.
— Ficarei honrado em visitar o rei Teodorico e banquetear junto de seus filhos e capitães.
Os dois comandantes romanos de comitatenses levantaram-se.
— O sol está perto do zênite — falou Anagasto. — Amanhã será um longo dia, o mais longo do ano até agora.
— O mais longo de nossas vidas, para aqueles que o verão chegar ao fim — disse Aécio, pegando o elmo. — Milites, tivemos nosso último conselho de guerra. A próxima ordem que lhes darei será no campo de batalha. Estarei cavalgando à testa dos comitatenses e o rei Teodorico estará à frente dos visigodos. Saboreiem a visão de dois inimigos amargos unidos para combater o maior inimigo que qualquer um de nós já enfrentou. Minha ordem será atacar o inimigo, lutar até a última gota de sangue para derrotar Átila, o Huno.
Quatro horas depois, Flávio sentava-se no improvisado salão de banquete do rei visigodo, tendo bebido sua quarta taça de vinho diluído em um brinde e comido sua parte de javali e cervo caçado. Sabia que para alguns presentes a bebedeira duraria até o amanhecer, que sua ação na batalha seria em uma névoa de embriaguez, mas estava decidido a se levantar com a cabeça clara e não debilitado pela desidratação que resultava de excesso de vinho. Este raciocínio parecia muito distante da mente dos companheiros de Torismudo, passando de um a outro um antigo chifre de auroque adornado de ouro e cada um deles bebendo seu conteúdo todo, o chifre preenchido até a borda com cerveja de um barril de madeira para cada novo bebedor. À cabeceira da mesa, Teodorico sentava-se ao lado de um tio ancião que ele trouxera como conselheiro, um homem de cabelos prateados com pele feito couro que trazia mais cicatrizes do que todos os demais juntos. Diziam que combatera contra os romanos mais de setenta anos antes na Batalha de Adrianópolis, e estava regalando Teodorico e os mais próximos, que podiam ouvir através do barulho tempestuoso, com histórias de guerras do passado, de batalhas em que mito e realidade pareciam entrelaçados. Flávio agora podia ouvi-lo, sua voz baixa e grave recitando no antigo dialeto godo do Oriente, contando de uma batalha travada em algum lugar num baluarte montanhoso do Norte: Corpo a corpo lutamos, em batalha feroz, confusos, estupendos, incansáveis, uma luta sem par em relatos de outrora. Proezas do passado! Os heróis que perderam este milagre jamais poderão rever algo assim.
Flávio esforçava-se para ouvir, mas surgiu um rugido imenso do outro lado da mesa, quando o último dos capitães bebeu sua cerveja, baixou o chifre no banco e vomitou no chão. Os homens começaram a bater as mãos na mesa, em uníssono, o criado completou o chifre e o entregou ao homem, que bebeu todo seu conteúdo, mas desta vez o reteve, arrotando e se juntando ao tumulto. Flávio viu Torismudo olhando para ele, depois erguendo a mão, pedindo silêncio.
— E então, Flávio Aécio — disse ele em voz alta, levantando a copa e gesticulando para ele, derramando vinho pelo lado. — Seu avô Gaudêncio era um comandante godo, entretanto sua mãe descende de Júlio César. Você é godo ou romano?
A gritaria e as batidas na mesa cessaram e todos os olhos voltaram-se para Flávio. Ele olhou ao redor, vendo os chefes tribais de cara vermelha, barbados e de cabelo comprido, seus elmos na mesa diante deles, enfeitados com os colares e braçadeiras que eram os distintivos de patente e valentia entre seus homens. Eram a própria imagem dos bárbaros do passado, os inimigos dos césares que vira pela primeira vez quando menino nas grandes colunas e arcos esculpidos de Roma. A bebida os deixava ruidosos e rudes, mas também os revelava como de fato eram. Alguns bárbaros tinham se romanizado, homens como o avô de Flávio, mas a corte de Teodorico ainda era de chefes tribais godos e, neste lugar, Flávio estava deslocado. Lembrou-se das últimas palavras de Aécio antes de deixar o conselho de guerra. Até a ascensão de Átila, ele e Teodorico foram inimigos mortais e os homens a esta mesa não teriam desejado nada além da destruição de romanos, tivessem ou não esses romanos avôs godos. Estavam embriagados, e essa era uma razão ainda maior para ter cuidado com o que dissesse.
Ele levantou o braço direito sobre a mesa, consciente dos olhos que o observavam, e enrolou a manga, revelando as quatro cicatrizes paralelas onde o Alaunt o marcara 12 anos antes, perante as muralhas de Cartago.
— Nem uma coisa, nem outra — respondeu ele, olhando para Torismudo. — Sou um guerreiro.
Houve silêncio entre os homens, o único barulho o crepitar do fogo. Depois alguém gritou com aprovação e bateu o punho na mesa e os outros o acompanharam. Torismudo ergueu a mão.
— Você é um guerreiro, mas a quem serve?
A mesa se calou mais uma vez e todos observavam com expectativa. Flávio pegou sua copa e olhou para Teodorico, sentado impassível à cabeceira, desfrutando da brutalidade de seus homens, mas sem se juntar a ela. Flávio ergueu a copa para o rei, bebeu e a bateu na mesa.
— Eu sirvo — disse ele, enxugando os lábios — ao rei que mostra a maior bravura em batalha e àquele que lidera seus homens à vitória ou à morte gloriosa.
Torismudo o olhou fixamente, de olhos indecifráveis, desceu a mão violentamente na mesa, pegou sua copa e a levantou.
— A nosso rei — brindou Torismudo. — A Teodorico, rei dos visigodos. Que o deus da guerra brilhe sobre ele.
Ele bebeu todo o conteúdo e os outros o acompanharam, arrotando e berrando, querendo mais. Flávio permitiu que o escravo completasse seu copo, mas o deixou transbordando, levantou-se, fez uma mesura ao rei e saiu da tenda. Enquanto faziam o banquete o sol tinha se posto e no crepúsculo ele podia ver os fogos dos godos e romanos bruxuleando pelas margens do rio. Ele foi à beira da água. As nuvens baixas se separaram e brilhou por elas a meia-lua, provocando uma miríade de reflexos espectrais nas ondulações do rio, banhando a cena numa luz misteriosa. As árvores pela margem farfalharam e ele sentiu a brisa quente no rosto. Se a batalha verdadeiramente começasse no dia seguinte, seria um combate difícil neste calor, tendo a sede como um inimigo tão grande quanto seu adversário. Precisaria se certificar de que os homens de seu numerus estavam bem hidratados e tinham os odres cheios antes da ordem de avançar.
Flávio ouviu movimento às costas, virou-se e viu Teodorico indo para a margem do rio. Trazia suas duas espadas, a scramasax mais curta à esquerda e a espada longa dos godos à direita, e suas mãos pousavam nas guardas de ouro cravejadas de pedras preciosas ao se colocar ao lado de Flávio e olhar a água. As nuvens se fecharam novamente e as águas escureceram, ameaçadoras, como uma imagem do rio Estige, dos relatos antigos da viagem ao inferno. Teodorico respirou fundo e soltou o ar lentamente, o cheiro de vinho e a fumaça do salão de banquete emanando dele.
— Amanhã, este rio correrá vermelho — disse ele em voz baixa. — Os homens saciarão sua sede no próprio sangue.
Flávio se lembrou do mantra dos godos à véspera da batalha.
— Amanhã será um bom dia para morrer — respondeu.
Teodorico virou-se e o fitou, colocando a mão em seu ombro.
— Meu tempo chega ao fim — falou ele. — Esta batalha será minha última e logo Torismudo assumirá meu manto. Se você sobreviver, Flávio Aécio, deve se cuidar. Nem a aliança com um imperador romano, nem com o rei godo garantirá sua velhice. Se precisar seguir um deus da guerra, escolha-o com cautela.
Flávio o viu se afastar e desaparecer na tenda, depois olhou para nordeste, a planície ondulante e sem árvores onde sabia que Átila mantinha acampamento. Átila também estaria lá, junto a uma fogueira, seus comandantes de guerra inebriados e contando histórias assim como faziam os godos, seu círculo de carroças proporcionando uma fortaleza de madeira como o palácio distante nas concavidades das estepes que Flávio uma vez visitara. Ele se lembrou de seu tempo ali, das faces marcadas e dos olhos penetrantes de Átila sentado a seu lado, e por um momento fugaz sentiu nostalgia, desejando também estar junto do fogo ao lado do imperador huno, vendo a batalha não em estratégia e tática, mas na adrenalina e no regozijo de um povo que tinha nascido para a guerra.
As nuvens voltaram a se separar, acima das linhas hunas, e por um segundo ele pensou ter visto algo extraordinário, uma esfera branca com uma cauda raiada subindo ao céu noturno. Ela se apagou praticamente com a rapidez com que apareceu e por um momento Flávio se perguntou se seria apenas um estranho efeito da lua refletida nas nuvens. Mas lembrou-se de sua época de menino em Roma — ainda ensinado por Dionísio, o cita — quando estudara o curso dos cometas e ouvira os monges em Châlons preverem que este ano o grande cometa registrado pelos babilônios reapareceria. Até os homens de Deus acreditavam que isto seria o presságio a grandes acontecimentos: o nascimento ou a morte de grandes reis, a derrota ou a vitória em batalha, eventos que dariam forma ao mundo futuro.
Dionísio zombara do presságio e Flávio era esperto demais para acreditar em destino. Observando a planície, porém, ele se perguntou se os xamãs de Átila também não o teriam visto, ou se estavam ocupados demais junto do fogo lendo omoplatas rachadas de bois, preparando seus próprios rituais de adivinhação. Ele voltou a olhar o céu, vendo apenas a escuridão. Se tinha sido um presságio, só podia significar uma coisa, mas Flávio não precisava acreditar em augúrios para saber o que vinha pela frente. Vira os preparativos a sua volta, os dois lados resolutamente acampados, a planície desolada à frente, o perfeito campo de morte.
Era um presságio da guerra.
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