Total War: A espada de Átila

David Gibbins · Capítulo 23 de 27

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Total War: A espada de Átila

Capítulo 17

 

Flávio e Aécio observavam da cumeeira quando uma cena extraordinária se desenrolou frente a seus olhos. A encosta descia a uma planície monótona semelhante àquela que eles acabaram de atravessar, mas ali não havia rio ao longe para quebrar a vista. O calor do sol e de tantos homens e cavalos em um espaço tão confinado, respirando, transpirando e sangrando, tinha criado uma névoa que flutuava sobre o campo de batalha e ocultava tudo que estivesse além de alguns estádios de distância. Porém, da névoa, a cerca de quinhentos passos abaixo da cumeeira, assomava a frente do círculo de carroças de Átila, as rodas colocadas para fora e as laterais das carroças formando uma tela quase contínua de madeira, como a muralha de um forte. De seu ponto de observação na cumeeira, podiam enxergar o interior do círculo, mas a visão era bloqueada pela elevação de uma enorme nuvem de poeira; tudo o que Flávio conseguia observar era um ocasional clarão de aço e um borrão de cascos e pernas. Além disso, ouvia também relinchos e uivos com o barulho que subia do círculo, como o ronco de uma multidão em uma arena. Ele se virou para Aécio, elevando a voz para ser ouvido no tumulto:

— Vi isto em Pártia. Átila está atiçando seus arqueiros montados, fazendo-os cavalgar em círculo de modo que fiquem tensos como uma mola, prontos para disparar ao ataque.

Aécio voltou-se para Aspar.

— Diga aos tribunos dos sagitarii para alinhar os homens em formação cerrada em duas fileiras de salva. Não devem atirar suas flechas em um arco alto para cair entre o inimigo, mas esperar até que eles estejam à queima-roupa, até que possam ver o branco dos olhos dos cavalos. Só devem disparar a uma ordem minha.

Aspar gritou as ordens pela linha. Flávio virou-se e viu os primeiros homens dos dois numeri de sagitarii, cada um deles com quinhentos arqueiros, chegando à crista e pegando os arcos. Tinham ficado como reservas atrás da força principal, valiosos demais para desperdiçar no assalto inicial, mas agora era essencial que estabelecessem posição com a maior rapidez possível, para tirar proveito do terreno elevado. Outros deles chegaram, ofegando muito, as aljavas repletas de flechas, as pontas de ferro brilhando por terem sido afiadas um pouco mais na noite anterior.

Ouviu-se outro som do círculo de carroças, um som que Flávio já tinha escutado antes, o entoar gutural sinistro que enchera o ar noturno nas terras da estepe do Oriente três anos antes. Era o último som que os cavaleiros hunos na planície de Pártia fizeram antes de atacar e ele viu o primeiro deles aparecendo agora, rompendo de uma abertura no círculo e liderando um fluxo de cavaleiros que se espalhou pela planície e subia com estrondo a encosta na direção deles.

Apsachos, o sármata, virou-se para Macróbio.

— Permissão para me unir aos sagitarii, centurião.

— Permissão concedida — resmungou Macróbio, com os olhos nos hunos. — Mas poupe a última flecha para mim, caso me veja capturado.

O chão agora se sacudia com a aproximação dos hunos. Flávio olhou os dois lados da cumeeira. À direita, ao longe, teve um vislumbre de Quinto, ensanguentado, porém de pé, os homens sobreviventes de sua unidade formando um perímetro defensivo na extremidade da elevação. Muito poucos sagitarii estavam em formação, menos de cem de cada numerus, o resto ainda fora de vista, subindo a encosta a partir do oeste. Mas o ponto fraco da posição na frente da primeira carga huna podia funcionar a favor deles. Em sua velocidade atual de ataque, os hunos manobrariam e disparariam antes que o grosso dos soldados tivesse assumido posição, limitando as baixas aos homens já na cumeeira. Aqueles que vinham atrás teriam de manter a coragem, passando por cima dos corpos dos camaradas e refazendo a linha, mas estariam presentes em número suficiente. Flávio segurou com força a guarda da espada. Os hunos agora estavam a menos de duzentos passos, perto de seu alcance preferido para manobrar a montaria e apresentar os arcos.

Ele sabia que Aécio não daria a ordem para que os sagitarii atirassem neste momento, que aqueles que estavam em posição seriam sacrificados para garantir o máximo efeito quando o resto dos homens tivesse chegado. Disparar uma saraivada exaurida agora seria mandar a mensagem errada aos hunos, faria com que redobrassem os esforços enquanto se preparavam para outra carga, acreditando que a cumeeira tinha uma defesa fraca e Aécio estava despreparado para um assalto. Para ter qualquer possibilidade de derrotar um inimigo tão formidável, Aécio teria de garantir o mais poderoso golpe possível quando a linha estivesse em sua maior força.

Os hunos agora estavam dentro do alcance, movendo-se em paralelo com a cumeeira, os cavalos arremetendo para a frente e os arqueiros virando-se e erguendo os arcos. Pálido e abatido, o tribuno dos sagitarii mais próximo olhou para Aécio, mas o magister militum permaneceu impassível, mantendo-se firme e olhando inexoravelmente à frente. Com um forte grito enquanto os cavalos rodavam, os arqueiros hunos soltaram suas flechas ao se aproximarem, as pontas cortando o ar com um assovio estridente e caindo nos homens da cumeeira como se fossem hastes de trigo, cada segundo ou terceiro homem dos sagitarii tombando mortos ou feridos. O tribuno que tinha parecido desesperado tombou com uma flecha atravessada no alto da coxa, o sangue pulsando da artéria em grandes jatos, até que ele arriou lentamente no chão. Atrás de Flávio, Catão, o optio de seu próprio numerus, largou a espada e passou a lutar em vão com uma flecha que atravessara seu pescoço, gorgolejando e espumando sangue, em seguida caindo morto de costas, arregalado de incredulidade.

Os hunos rodaram perto da linha de suas carroças, prontos para outra investida, o ar entre os dois exércitos um redemoinho de poeira dos cascos dos cavalos. Aécio virou-se para Flávio e o segurou pelo ombro.

— Você e Macróbio devem assumir o numerus sagitarii sul. O centurião deles também caiu. Devem reunir os homens que chegam e colocá-los em posição. Com as pontas de ferro pesadas que ordenei que colocassem nas flechas na noite passada, seus arcos lhes darão uma vantagem de vinte passos no nível de voo sobre os arcos hunos. Espere por minha ordem.

Macróbio já estava entre os homens, gritando ordens para aqueles que quase tinham chegado, ajudando a empurrar de lado os cadáveres e feridos para abrir espaço e refazer a linha.

Minutos depois havia duzentos deles, depois trezentos homens espaçados pela cumeeira, protegidos na extremidade por Quinto e seus soldados, os arqueiros representados por um número semelhante no numerus do outro lado. Era a massa crítica necessária para tornar eficaz a salva de flechas, mas, mesmo assim, a vantagem seria mínima. Os hunos já subiam a encosta novamente, seus cavalos espumando e de olhos arregalados, galopando com o próprio ímpeto, deixando os arqueiros livres para preparar os arcos a fim de disparar quando estivessem dentro do alcance.

Macróbio andava de um lado a outro da linha, berrando ordens:

— Escolham seu adversário enquanto ele estiver manobrando o cavalo e mantenham-se fixados nele. Quando vier a ordem, os dois primeiros homens à direita da linha disparam no primeiro cavaleiro, percorrendo a linha aos pares enquanto eles rodam e atacam. Lembrem-se, eles são alvos móveis, portanto mirem pouco à frente deles. Esperem pela ordem de Flávio Aécio.

O chão trovejava e vibrava quando os primeiros hunos começaram a girar o corpo. Macróbio gritou novamente:

— Retesar os arcos! — Passaram-se segundos, longos segundos, enquanto outros hunos se preparavam para atirar.

— Soltem! — gritou Aécio. A primeira dupla de sagitarii soltou suas flechas à queima-roupa no cavaleiro líder, derrubando-o de seu cavalo e, em rápida sucessão, o restante do numerus disparou enquanto os hunos se aproximavam. O que parecia um ataque irreprimível tornou-se uma cena do mais completo caos, os primeiros cavalos caídos bloqueando os demais e, em instantes, dezenas de cavalos e homens se empilhavam em um monte na encosta, os cavaleiros que vinham atrás dando guinadas para todo lado numa tentativa de evitar a carnificina, caindo presas eles mesmos das flechas. Agora os sagitarii atiravam à vontade, despejando um fluxo contínuo de flechas nos hunos. Centenas jaziam mortos e feridos, os cavalos sobreviventes galopavam para o círculo de carroças, mais frequentemente sem seus cavaleiros. Flávio respirou fundo e olhou para Aécio. Seu plano dera certo. Sem uma única baixa para os romanos durante o segundo assalto, os hunos foram afugentados e abatidos, os sobreviventes obrigados a entrar num círculo de carroças mal abastecido demais para suportar um sítio por muito tempo.

Ele voltou pela cumeeira até Aécio, parando para se ajoelhar junto do cadáver de Catão, quebrando e retirando a flecha de seu pescoço e fechando-lhe os olhos. Não sentiu nada, nem remorsos, nem pesar, como se o falecimento em batalha de um homem que ele conhecia havia 12 anos fosse tão inevitável como o ciclo lunar; então se lembrou do filho pequeno de Catão em Roma e se perguntou se um dia ele saberia como o pai tinha morrido: enfrentando o inimigo e entregando sua vida ao maior combate que Roma já travara contra uma força bárbara em toda a história. Ele se levantou, foi a Aécio e, juntos, olharam a matança de homens e cavalos encosta abaixo, observando enquanto os sagitarii finalizavam os inimigos feridos que tentavam mancar e se arrastar para fora de alcance.

— Átila ficará furioso, mas saberá que perdeu qualquer esperança de vantagem tática — disse Flávio. — Pode experimentar outra incursão, mas sabe que terá o mesmo resultado. Por fim, a fome e a sede o impelirão a sair. Esta parte da batalha pode estar vencida, porém a matança ainda não acabou.

Aécio apontou para o sul com a cabeça, onde um difícil embate ainda acontecia entre a principal força visigoda e os gépidas de Ardarico.

— Os sagitarii continuarão aqui com o resto do comitatenses de Aspar para manter Átila ao largo. Anagasto agora pode deslocar seu comitatenses para reforçar Teodorico e Torismudo contra os gépidas. Isto é, se Teodorico e seus filhos ainda estiverem vivos e dispostos a aceitar um exército comitatenses em suas alas. Com a batalha agora virando a nosso favor, as intenções e o equilíbrio de poder entre nossos aliados pode ter se alterado, Flávio. O que começou como uma aliança de necessidade entre romanos e visigodos pode se tornar uma competição para preencher um vácuo deixado no império do Norte com o recuo do espectro de Átila. Para um general, a orquestração da tática de batalha muda rapidamente para a estratégia da política e do jogo de poder. Considere-se sortudo por ainda ser um tribuno e poder se concentrar apenas na luta. Eu agora devo participar de um jogo diferente.

Outro barulho surgiu do círculo de carroças, um ruído oco e retumbante, ecoando do círculo no ar úmido acima da cumeeira. Os soldados pararam o que faziam: os sagitarii que completavam suas aljavas, Macróbio e os outros do numerus que estavam agachados em torno do corpo de Catão... Todos pararam para observar a cena extraordinária que se desdobrava abaixo deles. A poeira dos cavaleiros tinha baixado e o interior do círculo agora era claramente visível, os sobreviventes do exército huno agachados e deitados desordenadamente pela beira, seus cavalos encurralados em volta deles. No meio, havia um monte de selas dos cavalos mortos que se elevava a uma altura de no mínimo cinco vezes a de um homem, cercado por tábuas e rodas empilhadas de carroças desmontadas. De pé em uma plataforma estava um sujeito, de manto e armadura pretos, os pés plantados e firmemente separados, de frente para a cumeeira. Sempre que ele gritava, erguia os braços e cerrava os punhos, como se seu corpo sofresse espasmos de fúria.

Flávio olhou, hipnotizado. Era Átila.

— O que ele está fazendo? — murmurou Aécio.

— Construindo sua própria pira funerária — respondeu Flávio. — Está nos dizendo que talvez o tenhamos engaiolado, mas ele não permanecerá assim por muito tempo. Os hunos são guerreiros das estepes, dos vastos espaços abertos, e não estão acostumados a ser enjaulados em fortalezas e cidades. Ele nos diz que prefere morrer pelas próprias mãos ou na luta a definhar em um sítio.

Macróbio aproximou-se e ficou ao lado deles.

— Ele parece um leão abatido pelas lanças de caçadores, que anda de um lado a outro da jaula e não se atreve a correr, mas jamais deixa de apavorar os que estão por perto com seu rugido.

Aécio estreitou os olhos. Falou:

— Assim que os visigodos e o comitatenses de Askar tiverem destruído os gépidas e não houver mais nenhuma ameaça de contra-ataque pelos flancos, ordenarei que os sagitarii desçam a encosta a uma posição onde podem fazer chover flechas dentro do círculo. A cavalaria comitatenses subirá à cumeeira, pronta para conter qualquer último assalto huno. Não me interessa atender aos desejos de Átila, mas eu o verei e a seu exército destruídos neste dia, ou permitirei que parta como um inimigo derrotado. Minha decisão dependerá dos visigodos, de quem sobreviver entre Teodorico e seus filhos e de onde estará seu futuro.

Outro som chegou a eles, desta vez do barulho abafado do conflito entre os visigodos e os gépidas ao sul: o som grave e ressonante de um toque de chifre, longo, seguido por outro curto, como se interrompido abruptamente. Flávio sentiu os pelos da nuca se eriçarem, cada músculo de seu corpo tenso, uma reação instintiva de algum lugar no fundo de sua alma. Ele já ouvira este som antes, quando o avô Gaudêncio fora encurralado por lobos quando caçavam na floresta e ele e seus primos godos cavalgaram em seu resgate. Era o chifre de guerra dos reis godos, soprado apenas em momentos de maior perigo. Ele se lembrou da pergunta de Torismudo sobre sua aliança, na noite anterior no salão de banquete. Seu lado romano lhe dizia que havia pouco que agora pudesse fazer por Teodorico, que seu lugar era ali, ao lado de Aécio, que o rei já não poderia ser auxiliado. Mas seu lado godo lhe dizia que, mesmo que Teodorico tivesse caído, era seu dever se juntar a Torismudo e o irmão e reclamar o corpo, então lutar para se vingar daqueles que mataram o rei. Flávio sabia que, apesar de sua inimizade amarga e passada com Teodorico, Aécio devia sentir o mesmo chamado ancestral do chifre de guerra, pois ele era ainda mais próximo do que Flávio de seu ancestral godo, mas que, como general, devia livrar-se do instinto e permanecer em seu lugar, senhor do campo de batalha.

Flávio virou-se para ele, mas não precisou pedir. Aécio apontou para o sul.

— Vá.

Flávio gritou para Macróbio, que tinha voltado aos sagitarii:

— Centurião, comigo.

Colocou a espada na bainha e desatou a correr, seguido por Macróbio e os outros homens do numerus, Apsachos e Máximo vindo com dificuldade atrás deles, desviando-se e pulando os cadáveres que jaziam no campo de batalha, saltando o regato tomado de sangue pouco abaixo da cumeeira e avançando com a maior velocidade possível para a luta. Ele distinguia um ou outro visigodo subindo da margem do rio, avançando atrás de seus chefes para se unir à refrega, gritando e berrando ao alcançarem o embate de armas no centro; os gépidas mantinham a linha e resistiam a cada tentativa visigoda de rompê-la e separá-los, o que tornaria mais fácil dominar e matar. Duzentos passos mais adiante, com as pilhas de corpos ainda mais altas, Flávio sacou o gládio e gritou enquanto corria, liderando Macróbio e os demais pela linha externa gépida, à peleja no centro do combate.

Flávio golpeou e atacou, pegando um homem no pescoço e escorregando com ele no chão ensanguentado, colocando-se de pé num salto no instante em que uma saraivada de flechas dos arqueiros visigodos batia na linha de gépidas a sua esquerda. Ele correu ao lugar onde sabia que provavelmente Teodorico estaria liderando o avanço de seus homens, depois viu algo que o fez parar de pronto. Os gépidas eram parentes próximos dos ostrogodos, mas eram mais baixos, mais parrudos e usavam espadas mais curtas; os homens que Flávio viu à frente não eram gépidas, mas ostrogodos, mais altos e musculosos do que os homens a sua volta. Aécio fez o máximo para evitar que os visigodos lutassem com seus primos ostrogodos, mas por algum motivo uma unidade ostrogoda tinha se incorporado à força gépida.

Ao se aproximar mais, ele percebeu que era mais do que isso. Vários homens usavam elmos adornados e armadura segmentada hunos. Estes não eram ostrogodos separados do exército de Ardarico que os comitatenses enfrentaram na elevação do norte, eram da própria guarda pessoal de Átila, uma unidade de elite, talvez os melhores soldados a sua disposição. Era extraordinário que estes homens não estivessem protegendo Átila agora; deviam estar numa missão de grande importância, por ordem do próprio rei huno. Flávio percebeu que Átila, afinal, talvez tivesse dado seu último lance na batalha: ao saber que suas forças hunas foram derrotadas e Aécio era inviolável na cumeeira, a ele agora interessava unicamente tentar matar Teodorico, comprometendo seus melhores recursos neste último ato.

A mente de Flávio disparava enquanto ele avançava, escorregando em sangue e tropeçando em corpos em sua busca pelo rei visigodo. Ele se lembrou do que Aécio dissera sobre o vácuo de poder depois da batalha, sobre a aliança desconfortável entre romanos e visigodos.

Átila também sabia disso: o rei que eles viram berrando no círculo de carroças junto de sua pira funerária era também um mestre estrategista, não apenas um comandante de guerra. Flávio percebeu que o melodrama de Átila na pira depois do fracasso de seus arqueiros havia sido uma distração para que mantivessem seus olhos desviados dos visigodos, longe do envio de sua guarda de elite para o combate. Ao ordenar que seus guardas matassem Teodorico, Átila talvez estivesse tentando garantir uma corda de salvação, sabendo que Aécio pensaria duas vezes antes de permitir aos visigodos, sob o comando de um novo príncipe ambicioso, perseguir e destruir os hunos sobreviventes e criar um ímpeto próprio, podendo se voltar contra seus aliados romanos e o próprio Aécio.

Macróbio apareceu ao lado dele, ofegante e pingando sangue. Apontou com a espada.

— Aquele é Andag. Lembro-me dele da guarda pessoal de Átila na cidadela.

Flávio olhou a figura volumosa cerca de vinte passos à frente, ao lado de uma pilha de corpos visigodos, incitando outros a atacá-lo. Uma imensa maça com corrente se pendurava de sua mão esquerda, a esfera coberta de cravos terríveis. Os visigodos lutavam em volta dele e empurravam para trás a linha gépida, deixando muito espaço para ele girar a maça, em provocação. O motivo para o homem estar parado ali e não lutando entre os visigodos que avançavam estava no chão diante dele: era um chifre de caça esmagado. Ele parecia um predador com uma presa, parado sobre o corpo da vítima, certificando-se de que seu inimigo visse que tinha se saído vitorioso. Os visigodos estavam a cem passos e mais além dele agora, empurrando os gépidas encosta abaixo, porém Andag ainda permanecia ali, encarando e circulando.

Flávio segurou firme a espada, avançando.

Macróbio foi atrás dele.

— Ele agora está isolado e não pode sobreviver — interveio. — Basta esperar e será derrubado por uma flecha.

Flávio meneou a cabeça.

— Não vejo Torismudo e seu irmão em lugar nenhum. Os outros chefes estão mortos ou lideram seus homens nos flancos. Sou eu quem deve executar a vingança.

Um grito elevou-se atrás deles e Flávio virou-se, vendo Máximo cercado por um grupo de gépidas que voltaram da linha de retirada para um último ataque ao inimigo.

Apsachos procurava por flechas para encher a aljava vazia, mas puxou a espada e correu para ajudar, Macróbio e os outros seguindo bem de perto. Flávio afastou-se deles e avançou até ficar alguns passos de Andag, separado apenas por uma plataforma de pedra exposta e cercado por cadáveres de gépidas e visigodos. Ele olhou o chifre novamente e então, na frente da massa de corpos mutilados em uma poça de sangue, viu uma espada de punho dourado que reconheceu da noite anterior, quando Teodorico aproximou-se e ficou a seu lado a margem do rio.

Andag era um homem monstruoso, com pelo menos dois passos inteiros de altura, e tinha retirado a armadura, revelando um peito largo como um barril e ombros e bíceps imensos, como Flávio jamais tinha visto. De súbito ele ergueu a maça e a desceu com uma força nauseante na cabeça de um dos cadáveres que se projetava da pilha, esmagando-o em uma polpa sangrenta, depois erguendo a arma e a rodando sobre a cabeça, fazendo voar a sua volta os fragmentos de crânio e sangue que foram apanhados nos cravos. O huno deixou a maça baixar e olhou fixamente para Flávio, ofegando e espumando como um cão.

— O rei está morto — escarneceu num latim com forte sotaque godo. — Vida longa ao imperador.

— Seu imperador está aprisionado no círculo de carroças, pronto para acender a própria pira funerária — disse Flávio. — Seus arqueiros montados foram destruídos por nossos sagitarii da cumeeira. Além disso, os ostrogodos foram derrotados pelos comitatenses e você pode ver o que aconteceu com os gépidas. Restamos apenas nós, Andag. Você e eu somos a batalha.

— Então por que você me enfrenta? Por que não deixa que eu seja morto por um de seus arqueiros, ou me deixa escapar e desaparecer?

Flávio respondeu na língua dos godos:

— Porque sei que você não é covarde. Porque permanecerá parado sobre seu troféu até ser desafiado. E porque ele era meu rei e eu terei minha vingança.

Ele pegou o gládio e deu um salto para a frente, evitando uma poça escorregadia de sangue que se acumulara na pedra, e atacou com força o abdome de Andag, sentindo os músculos agarrarem a lâmina enquanto a deslizava até o punho. Andag foi apanhado de guarda baixa pela velocidade de seu ataque e berrou de fúria e surpresa, levantando a maça e golpeando-a na direção das antigas cicatrizes no braço de Flávio. Andag caiu cambaleando de costas, o gládio se soltou e o ferimento em seu abdome se encheu de sangue. Flávio sabia que seu golpe tinha errado a espinha, que não seria o bastante para derrubar Andag imediatamente, e se postou tenso e preparado, a espada gotejando diante dele. Lembrou-se de seu primeiro abate tantos anos atrás, do alano na frente das muralhas de Cartago, o ponto de vulnerabilidade que Arturo lhe ensinara a prever. Agora Andag se enfraquecia visivelmente, o abdome e as pernas brilhando do sangue da ferida, mas girava a maça a suas costas e de repente avançou, o tronco e o pescoço expostos como fizera o alano. Desta vez Flávio é quem foi apanhado desprevenido pela velocidade do ataque, incapaz de fazer qualquer coisa além de se atirar para a frente e estender a espada com ambas as mãos, escorando-a no corpo para se tornar uma lança humana. Sentiu o esmagar da espada entrando pela testa de Andag, o homem imenso incapaz de se deter devido ao ímpeto de seus braços, a maça voando de suas mãos e girando acima da cabeça de Flávio.

Os dois homens escorregaram juntos na poça de sangue e Andag caiu em Flávio, o corpo enorme tirando-lhe o fôlego e jogando sua cabeça para trás. Na fração de segundo enquanto lutava para permanecer consciente, Flávio entendeu que não fora a ausência da grande espada de Átila que tinha vencido esta batalha, mas a mera força das armas, a luta brutal de homens em combate individual, pelejando por suas vidas, como ele e Andag acabaram de fazer.

E então nada viu além de escuridão.

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