Total War: A espada de Átila
Parte 2 | Roma, Itália, 449 d.C
P a r t e 2
Roma, Itália, 449 d.C
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Flávio olhou com um fascínio perplexo a infantaria dos godos avançar em blocos, formando uma linha estacionária no terreno elevado enquanto a cavalaria estendia-se dos dois lados. Era uma manobra clássica, saída dos livros, algo que ensinavam aos comandantes desde as guerras contra Aníbal. Também era errada, terrivelmente errada a ponto de Flávio começar a se desesperar com a noção de que jamais conseguiria que este grupo específico de futuros generais desistisse das distrações noturnas e fizesse seu dever de casa. Suspirou e observou as forças romanas se distribuírem com uma precisão um pouco maior na colina oposta, as sete legiões ocupando a crista: no centro, os lanciari e os mattiarii, a infantaria armada com maça; os scutarii protegendo a cavalaria de reserva; os sagitarii dispersos pelo front. Ele lhes daria mais alguns minutos para entender como esta distribuição igualitária não podia terminar em nada além de uma batalha de atrito e depois, não pela primeira vez, tentaria preencher os enormes espaços no conhecimento que claramente não foram encontrados nas tabernas e bordéis em volta do Fórum na noite anterior.
Ele acariciou as três marcas brancas e paralelas no braço direito, sentindo a pulsação que vinha quando o clima estava quente ou ele se exercitava, quando as veias e artérias do braço pulsavam e pressionavam o tecido cicatricial endurecido. Já fazia quase dez anos desde Cartago — dois anos de campanha contra os ostrogodos no Norte, dois anos de administração e treinamento nos quartéis comitatenses nos arredores de Ravena e agora quase seis anos em Roma —, apesar disso, o ataque dos cães de guerra Alaunt naquela manhã na periferia de Cartago parecia nítido como se fosse ontem; algo que ele reviveu nos anos seguintes em sonhos que o faziam saltar, tenso e agarrando o próprio braço na cama, banhado de suor, incapaz de respirar ou de gritar. Agora havia menos pesadelos, mas ouvir um cão latir ao longe ainda o deixava nervoso, fazendo um filete de suor escorrer por suas costas. Ele observou novamente os exércitos opostos. O que tinha vivido na época não podia ser ensinado. Tratava-se de algo que os presentes ali só podiam entender em primeira mão, quando também enfrentassem a morte em batalha e quando os sobreviventes aprendessem a viver com suas consequências.
— Flávio Aécio. — Alguém sacudia seu braço. — O que faremos agora?
Flávio se assustou e olhou nos olhos do primo Quinto. De súbito lembrou-se de onde estava e se voltou para o modelo na mesa.
— Desculpe. Eu estava a 2.400 quilômetros daqui, pensando em minha própria experiência de batalha.
— Fale-nos dela — adiantou-se um dos rapazes. — Os alanos eram de fato tão ruins? Os únicos que vi são agricultores da Aquitânia, e pareceram-me bem domesticados.
— Em um outro momento — disse Flávio, endireitando as costas. — Temos vinte minutos até o final da lição. Torismudo lhes contará sobre a batalha.
O godo alto assentiu para ele e pegou um ponteiro de madeira com um dos rapazes. Torismudo fora parceiro de luta de Flávio nos dias em que ambos eram alunos na schola, vinte anos antes. Era o filho mais velho e herdeiro do rei visigodo Teodorico, no passado um aliado. Muitos anos antes, no entanto, tornara-se um inimigo de Roma; agora, se achava sob uma bandeira de trégua no forte visigodo de Tolosa, na Gália, para discutir os termos com o tio de Flávio, o magister militum Aécio, desejando outras concessões de terras agrícolas e vinhedos que Aécio rejeitava categoricamente. Embora a missão tivesse um fracasso, os termos da trégua permitiram que Torismudo e seu cortejo permanecessem mais um dia em Roma e ele havia concordado em passar uma hora na turma de Flávio na schola naquela tarde.
— A Batalha de Adrianópolis, perto de Constantinopla, cinco dias antes do Idos de Agosto, Anno Domini 376 — começou ele, sua voz grave e seu latim com um leve sotaque. — Quem pode me dizer alguma coisa sobre as condições daquele dia?
Seu pedido foi respondido com silêncio e Flávio olhou os 16 candidatos a oficiais distribuídos em volta da mesa. Metade era de cadetes de ingresso direto, adolescentes como Quinto, aprovados nos exames de acesso, e a outra metade era de homens das classes optio e centurião recomendados por uma comissão de seus comandantes de limitanei e comitatenses, o mais velho deles com pouco mais de 30 anos. Os cadetes mais novos sentiam-se intimidados por Torismudo e alguns dos mais velhos estavam visivelmente apreensivos, homens que podiam ter enfrentado os visigodos em batalha e talvez alimentassem lembranças nítidas e apavorantes, como aquelas que Flávio suportava da luta contra os vândalos e alanos diante de Cartago.
Flávio bateu a mão na mesa.
— E então?
Quinto deu um pigarro.
— Fazia calor.
— Muito bem. — Torismudo bateu o ponteiro na mão. — Algo mais?
Quinto respondeu novamente, com a voz trêmula:
— E não havia água.
— Muito bem. — Torismudo baixou o ponteiro com força na mesa, rachando a ponta e abalando os blocos. — E isso é o que vocês não aprendem nesses jogos de guerra. De pé nesta sala fresca, cuidando de sua ressaca e se perguntando que pústulas contraíram das meretrizes na noite passada pelo Tibre, não tinha como estarem pensando como soldados em batalha, não é verdade? Qualquer um com dor de cabeça e olhos turvos pode empurrar blocos por uma maquete e fingir que é general. Mas ser um bom comandante não é apenas tática. Também é saber como ser um soldado: como é se sentir exausto, faminto e sedento, sentir-se desorientado, desapontado por falsas expectativas, humilhado. Se vocês não compreendem isso, podem empurrar esses blocos até que Júpiter volte para governar Roma, e ainda não vencerão batalhas.
Quinto apontou o modelo com a mão um tanto trêmula. Então, falou:
— Antes da batalha, os godos queimaram a relva e as lavouras, aumentando o calor e reduzindo a visibilidade. Já estava um forno, doentiamente quente. O imperador Valente fez seus homens marcharem por quase sete horas da cidade de Adrianópolis ao acampamento godo, chegando no início da tarde, no auge do calor. Naquela época do ano não havia regatos, nem outra fonte de água. Homens desmaiaram de desidratação antes mesmo que a batalha começasse e outros mal conseguiam se deslocar com sua armadura. Isto foi o que obtive no relato de Amiano Marcelino antes de a biblioteca fechar — declarou, olhando tristemente em volta.
— Você quer dizer antes de as tabernas abrirem — disse Torismudo, olhando feio.
Um dos cadetes mais novos de repente empurrou a cadeira para trás e correu a um canto onde vomitou ruidosamente, enchendo a sala com o cheiro. Flávio cerrou os dentes, pegou o próprio ponteiro e empurrou a linha de blocos vermelhos em um círculo.
— Foi assim — explicou ele. — Os godos formaram um círculo de carroças, na realidade uma fortificação protegendo suas mulheres, crianças e posses, com anéis de infantaria à volta e sua cavalaria posicionada por perto. Os romanos chegaram exaustos e desidratados, como disse Quinto, mas acreditando que sua força era maior. É possível que Valente tenha perdido o controle de seus homens; jamais saberemos, porque ele não saiu dali vivo. Meu avô Gaudêncio, que estava na batalha do lado dos godos, disse que os romanos deixaram que as paixões os regessem, que, à primeira visão do exército godo, lembraram-se da devastação causada por eles em suas terras nos anos anteriores, enfureceram-se e atacaram, sem as ordens de Valente. Outros contam que a desidratação e o cansaço os fizeram delirar, incapazes de raciocinar e tomar decisões sensatas. Para mim, esta é uma boa explicação para o que aconteceu em seguida.
Ele empurrou os blocos azuis dos romanos para o vale abaixo e para o círculo de carroças.
— Deixando seu ponto de observação na colina adjacente, os romanos investiram pelo vale e subiram a encosta até os godos, esgotando-se ainda mais. Ao chegarem, descobriram que o círculo era impenetrável e eles eram repelidos sempre que tentavam atacar. — Flávio empurrou os blocos azuis novamente para o vale, depois trouxe os blocos vermelhos e finos que representavam a cavalaria goda na direção dos adversários, deixando o círculo de blocos vermelhos inalterado. — Os romanos bateram em retirada em completa desordem e, na fuga, a cavalaria dos godos caiu sobre eles, seguida pela infantaria que, naquele momento, sabia que podia deixar em segurança o círculo de carroças. Sobrecarregados pela pesada armadura e pelos escudos, os romanos foram destruídos e o vale transformou-se em um rio de sangue. Uma estimativa afirma que morreram 20 mil romanos, quase três quartos daqueles que entraram em ação no dia.
— A maior batalha dos tempos modernos — disse Torismudo. — A pior derrota da história das forças romanas. Uma humilhação para todos que se chamam soldados e eu falo como godo, assim como Flávio fala como neto de um dos vitoriosos.
— Os hunos usam círculos de carroças — disse um dos homens mais velhos, seu rosto pétreo ao fitar Torismudo. — Eu mesmo já vi, bem de longe, quando os hunos avançaram para a Trácia. Em vez de distribuir sua cavalaria fora do círculo, como os godos em Adrianópolis, eles mantiveram seus arqueiros montados dentro do círculo, lançando-os às linhas inimigas quando chegava a hora certa. Disseram que a tática foi desenvolvida pelo próprio Átila.
À menção deste nome, a atmosfera na sala mudou, tornando-se tensa, mais concentrada, as faces pálidas dos cadetes mais jovens olhando para Torismudo.
— Que chances crê que temos contra ele? — perguntou Quinto.
— Numa batalha aberta? Nenhuma, a não ser que vocês aprendam as lições de Adrianópolis.
Ele olhou para Flávio, que se voltou para a turma.
— Vocês são afortunados por terem o príncipe Torismudo para instruí-los. Agora me escreverão um sumário de dez pontos das principais lições a aprender com Adrianópolis. Aqueles que forem aprovados seguirão diretamente ao pátio de exercícios para a demonstração de armas desta semana com Macróbio, depois irão a uma higiene completa nos banhos de Caracala, cuja tarifa de entrada é cortesia minha, e voltarão aqui a fim de preparar o equipamento para treinamento de infantaria no Campo de Marte. Os que forem reprovados passarão a noite inteira com os monges na biblioteca grega ajudando a reorganizar a sessão de história militar. Há tabuletas de cera e penas na caixa embaixo da mesa.
Quinto rapidamente pegou a caixa e distribuiu o conteúdo, e todos se recurvaram sobre suas tarefas. Flávio se levantou e acompanhou Torismudo à porta dos fundos da sala e falou em voz baixa, sem ser ouvido da mesa:
— Peço desculpas pelo estado deles, especialmente o de meu primo Quinto. Sinto o cheiro da noite passada em seu hálito. Ele tem talento para ser um bom tribuno, mas, se não for aprovado em seu exame por conta da farra e da bebedeira, trará desonra não só a si mesmo, mas a mim também.
Torismudo tossiu.
— Ele me lembra alguém que conheci no passado.
Flávio fez uma expressão exageradamente séria.
— E quem poderia ser?
— Lembra-se daquele concurso de bebida junto do Tibre? Uma copa de cada vinho, de Falerno à Campânia, até que um de nós caísse.
— Eu venci.
— Essas bebidas romanas elegantes não caem bem em minhas entranhas.
Flávio pôs a mão em seu ombro.
— Até nosso reencontro, Torismudo.
— Em luta ou como aliados.
— Crê que isto seja possível? Que Roma e os visigodos voltem a ser aliados?
Torismudo olhou o chão.
— Sombras escuras caem sobre o mundo — respondeu. — A ameaça de Átila é maior do que qualquer coisa que já enfrentamos. Sobreviveremos apenas se novas alianças forem forjadas, se homens que antes foram inimigos deixarem as diferenças de lado pelo bem comum. Sem isto, entraremos numa era das trevas.
— Guarde um lugar em seu salão de banquete para mim, Torismudo. Podemos realizar muito juntos.
— Considere feito. Agora, devo ir.
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