Total War: A espada de Átila
Capítulo 6
A porta da câmara da schola se abriu e de lá saiu Macróbio, de pernas separadas e mãos às costas, sua túnica recém-tingida de vermelho e o número de seu velho limitanei numerus ainda orgulhosamente exposto nos ombros. Flávio olhou o relógio de sol visível pela janela ao lado do mercado de Trajano. Excedera-se no tempo, como sempre. Deixou que os cadetes terminassem de escrever, recolheu as tabuletas e se levantou.
— É tudo por hoje. Na semana que vem, trataremos da cultura bárbara.
Ouviu um gemido da fila da frente.
— A cultura bárbara de novo não, tribuno. É tudo ísatis, abraçar árvores e gritos estridentes.
— Conheça seu inimigo, Marco Durânio. E não se preocupe, não precisa forçar a vista na biblioteca com um livro, começando do zero. Para pesquisar, você vai ter apenas que conversar com seus amigos. Metade dos presentes aqui tem ancestrais godos.
— Quando voltaremos às batalhas?
Flávio o olhou com severidade.
— Na semana seguinte, vocês receberão instruções sobre levantamento e leitura de mapas com Gneu Uago Alêntio, tribuno veterano dos fabri. É um oficial da reserva que ministrou aulas na schola por décadas e concordou em vir lhes ensinar como um favor especial a mim, então vocês têm sorte. É gépida por parte de pai, com algum sangue alano, então você também poderá interrogá-lo sobre a cultura bárbara, Marco Durânio. E ele é um disciplinador duro como uma rocha, portanto cuidado com a boca. Agora desçam, bebam alguma água da fonte e se preparem para ver alguns itens interessantes da coleção de Macróbio na palaestra.
— Sim! — exclamou Marco Catão, dando um soco no ar. — A melhor parte da semana.
— Poderemos experimentar? — perguntou Quinto.
— Isto é de decisão do centurião. Dispensados.
A turma rapidamente recolheu seus pertences e saiu em fila, passando por Macróbio, que observou o último deles partir e se virou para Flávio.
— Você não lhes disse que este é seu último dia.
— Minha nomeação no quadro de Aécio ainda não foi confirmada — respondeu Flávio. — Mas eu não queria partir com trombetas. Afinal, foram apenas seis anos e Uago ficou aqui por mais de trinta.
— Cabe ao instrutor cuidar para que a turma de partida olhe à frente, e não a suas costas — disse Macróbio. — A recompensa está na qualidade do corpo de oficiais que você ajuda a criar.
— Como esteve o campo de exercícios nas últimas semanas?
— Começou com alguma delicadeza entre os rapazes ricos de Ravena, mas isso logo se resolveu. Ficar na mesma classe de veteranos grisalhos das fronteiras faz maravilhas por eles.
— Corpora sano, mens sana, centurião. Vejo os efeitos de seu treinamento quando eles entram em sala de aula. Exaustos e batidos, mas com a mente mais afiada.
— Estou ansiando por voltar aos meus próprios soldados.
— Sua nomeação como centurião na guarda pessoal de Aécio deve vir com a minha. Significa que o antigo numerus estará todo reunido novamente, aqueles de nós que ainda estão vivos. Você ficará à disposição de Aécio para qualquer tarefa que ele lhe dê, assim como eu.
— Isto é o melhor que um velho veterano como eu pode esperar. E servir diretamente a Aécio será uma honra maior do que qualquer condecoração.
Flávio assentiu e pôs a mão em seu ombro. Macróbio já passara da idade normal de aposentadoria, tendo servido no exército por mais de trinta anos, mas era resistente e vigoroso como muitos homens no auge da forma física. Depois de Cartago, Flávio tentara lhe conseguir a corona civica por sua coragem ao salvar a vida de dois de seus homens na batalha contra os vândalos, mas, como a defesa de Cartago fora um fracasso, ele e todos os outros recomendados para as premiações foram ignorados. Dois anos de duras campanhas contra os ostrogodos depois disso acrescentaram uma nova safra de cicatrizes no corpo de Macróbio, entre as quais um vergão nítido pelo pescoço, de uma machadinha saxã, as únicas condecorações que realmente importavam entre soldados. Aécio, porém, as notara e recompensara todo o numerus escolhendo-os como sua guarda pessoal, a maior honra que podia ser concedida a uma unidade. Com o numerus retirado da linha de frente, Flávio aceitou o cargo de instrutor em táticas de batalha na schola militarum em Roma, trazendo Macróbio consigo para preencher um posto vago no departamento de treinamento físico. Mais de seis anos tinham se passado desde então, e nesse tempo eles viram três turmas de tribunos recém-comissionados, jovens ainda na adolescência, junto com veteranos promovidos das fileiras, homens que reforçaram as unidades da linha de frente de limitanei e comitatenses contra a crescente ameaça das estepes, para além dos confins do rio Danúbio, a leste.
Macróbio gesticulou com a cabeça para a entrada da schola.
— Há alguém aqui que deseja vê-lo.
Flávio olhou para a sala da guarda, junto da rua, e seu humor azedou.
— Não me diga que é Lívia Vipsania — resmungou. — Se for ela de novo, precisamos bater em retirada rapidamente pela entrada dos fundos.
— Desta vez você tem sorte. É um velho amigo.
Flávio soltou um suspiro de alívio. Lívia Vipsania era a mãe insistente de várias meninas que lhe eram empurradas como possíveis candidatas ao casamento. Como sobrinho do magister militum Aécio, o homem mais poderoso no Império do Ocidente depois do próprio Valentiniano, Flávio era considerado um ótimo partido, embora, ao abrir mão da maior parte de sua herança como doação aos homens de seu numerus, ele valesse pouco mais do que seu salário como tribuno de classe mediana e morasse nos modestos aposentos dos oficiais no quartel que dava para o Circo Máximo. Já tinha uma namorada, uma mulher chamada Una, a ex-escrava que vira ser maltratada e espancada pelo bispo na galé de Cartago. Depois de vê-la sendo surrada de forma particularmente selvagem, Macróbio evitou por pouco que Flávio matasse o bispo, convencendo-o a oferecer todo o ouro que lhe restava pela mulher, um pagamento que o bispo aceitou com demasiada prontidão. Flávio ofereceu-se para fazer o que pudesse para devolver Una a seu próprio povo, mas ela preferiu permanecer com ele. A última coisa que o tribuno queria agora era ser tragado no mundo dos casamentos dinásticos e na etiqueta de classe alta em Ravena e Roma, em uma época em que as nuvens de guerra pairavam sobre o império e tornavam qualquer ambição doméstica não apenas irrelevante, mas irresponsável.
Eles entraram no vestíbulo, onde um homem que estivera sentado nas sombras se levantou, jogou para trás o capuz do manto e abraçou Flávio, que o levou rapidamente à sala de aula, longe do alcance de outros ouvidos. Ele fez um gesto de cabeça para Macróbio, que fechou a porta ao sair, as sombras de seus pés visíveis pela fresta na base, onde ele montava guarda. Flávio voltou-se para o recém-chegado.
— Arturo — exclamou, segurando o homem pelos ombros. — Pensei que estaria em Pártia. Não esperava vê-lo por meses.
Arturo arriou numa cadeira, aceitando o copo de água que Flávio lhe oferecia. Não era a primeira vez que ele via Arturo desgastado ao voltar de uma missão de coleta de informações para Aécio, mas desta vez ele aparentava mais idade, os primeiros fios grisalhos na barba e no cabelo, a pele do rosto muito bronzeada e enrugada em torno dos olhos. Estava magro, quase emaciado.
— Você precisa comer — disse Flávio, olhando o amigo com preocupação. — Venha comigo a meus aposentos e Una preparará alguma coisa.
Arturo balançou a cabeça.
— Mais tarde, prometo-lhe. Agora há assuntos mais urgentes.
— O que houve?
Arturo curvou-se para a frente.
— Viajei pelo leste, de Persépolis a Ctesifonte, disfarçado de mercador de vinhos. Em Ctesifonte, passei quatro meses em um calabouço por me atrever a perguntar se podia vender minhas mercadorias aos agentes do imperador, como meio de entrar no palácio. Um desses meses passei amarrado a uma estaca no sol do deserto todos os dias. Até o melhor agente de informações pode cometer um erro e agora sei que ninguém no império sassânida sequer menciona a palavra palácio, que dirá o nome do imperador. Mas depois de ser libertado e me recuperar, levei parte de meu vinho, retirando-o de onde havia guardado, a meus captores, que admiraram sua qualidade e o divulgaram no palácio. Em resumo, fui convidado aos aposentos domésticos e depois à câmara de jantar real, onde depois de me fazerem beber meu próprio vinho para testar se estava envenenado, passei um dia e uma noite servindo-o em um grande banquete imperial, ouvindo tudo o que podia. A boa notícia é que um pequeno comércio familiar de vinhos em Hispânia Tarraconense está prestes a receber uma encomenda surpresa e ficar muito rica. A má notícia é a que acabo de transmitir a Aécio.
— E qual é?
Arturo o olhou, desgostoso.
— Os sassânidas não apoiarão uma aliança contra Átila, nem com a Roma do Oriente, nem a do Ocidente — respondeu. — Os hunos são seus inimigos, mas preferem enfrentá-los nos próprios termos e no próprio território, no deserto em que seus soldados estão familiarizados e onde acreditam que um aliado romano inexperiente e nessas condições seria apenas um estorvo. Eles acreditam poder conter qualquer ataque de Átila no gargalo da antiga fronteira pártia ao norte, entre o mar Negro e o mar Cáspio, ao sul das montanhas do Cáucaso. Também acreditam que Átila não tem intenções com Ctesifonte e que seus olhos estão firmes no oeste, e assim qualquer ataque a Pártia seria apenas um joguete, atiçando seus guerreiros e estimulando seu apetite pela verdadeira guerra de conquista que ele planejou contra o Ocidente. A julgar por todas as outras evidências que os agentes de Aécio reuniram, creio que os sassânidas têm razão.
— E como isto afeta os planos de Aécio?
— Se uma aliança com os sassânidas está fora de cogitação, a única outra maneira de compor um efetivo suficiente para enfrentar Átila será voltar-se para Teodorico e os visigodos.
— O filho dele, Torismudo, esteve aqui há pouco. Partiu antes de você aparecer.
— Segurei-o na rua quando cheguei. Ele sabe quem sou porque me viu no passado quando ele era menino e eu, um mercenário a serviço de Genserico, visitando a corte visigoda. Ele me disse que não irá diretamente a Aécio, mas levantará a questão com seu pai em Tolosa, no conselho de guerra.
— Você não deve deixar que uma só palavra disto vaze. O eunuco Heráclio de Valentiniano sabe o quanto os visigodos o detestam e fará qualquer coisa para sabotar planos de uma aliança entre Roma e os visigodos, mesmo que as consequências condenem todo o império do Ocidente.
— Heráclio é o principal motivo para Aécio não guardar mais confiança em Valentiniano nas questões de inteligência — disse Arturo. — A predileção do imperador por eunucos, como Teodósio no Oriente, o está transformando em pouco mais do que uma figura de proa, deixando nas mãos do magister militium as verdadeiras rédeas do poder, mas também criando um vácuo perigoso que Heráclio e os eunucos no Oriente podem preencher. Torismudo compreende isto e, antes que o conselho se reúna, levantará a questão de uma aliança apenas privadamente com o pai Teodorico.
Flávio franziu os lábios e meneou a cabeça.
— Conheço bem meu tio e conheço também Teodorico, parente distante de meu avô godo, que vi pela primeira vez quando Torismudo levou-me à corte dos visigodos nos tempos em que estávamos na schola. Ambos são homens da razão, mas também são guerreiros que relutariam em ceder. Os ventos da guerra do Leste terão de ser fortes para afastá-los de sua animosidade.
— Por este motivo vim e estou lhe dizendo isto. — Arturo tirou de sua túnica um cilindro de madeira contendo um pergaminho. — Isto é a confirmação de sua nomeação como tribuno especial a serviço de Aécio e de Macróbio como centurião em sua guarda. Você agora se subordina diretamente a ele. Seu tio tem outro plano, e envolve os dois.
Flávio sentiu um jorro de empolgação.
— Diga-me o que devo fazer — pediu.
— Primeiramente, precisaremos ir amanhã pela manhã ver seu velho instrutor Uago, para examinar alguns mapas. Depois disso, improvisaremos. Valentiniano e seu séquito estão na cidade e os agentes de Heráclio notarão qualquer oficial que não vá ao palácio prestar seus respeitos. Se tivermos de ir à corte, não passará de uma distração para nosso verdadeiro propósito, que nos verá partir da cidade ao pôr do sol seguinte, numa missão da qual talvez não retornemos.
Arturo levantou-se e tirou o manto, revelando a túnica e a insígnia de um tribuno dos foederati, o emblema do lobo do numerus Britannorum preso à espádua. Flávio pôs a mão em seu ombro.
— Aécio restabeleceu sua patente. Com um longo atraso.
Arturo pendurou o manto novamente.
— Não passa de um truque. Fico menos visível andando por Roma neste uniforme do que num manto de espião.
Flávio foi à porta, abriu e olhou para Macróbio.
— Quando terminar com os cadetes na palaestra, procure Una e peça-lhe para preparar minhas armas e equipamento. Depois, vá a seus aposentos e faça o mesmo.
Macróbio o fitou com os olhos brilhando.
— Eu sabia que havia algo em andamento! — falou. — Arturo nunca veio à schola tão abertamente para encontrá-lo.
— Saberei mais amanhã. Encontre-me em meus aposentos ao meio-dia.
— Ave, tribuno.
— E, Macróbio...
— Sim, tribuno?
— Tem alguém de quem se despedir?
— Só as mulheres nas tabernas junto do Tibre. Elas agradam a um velho veterano como eu, a quem Roma jamais pagou o bastante para criar uma família. Que é mal pago até para uma visita à taberna.
Flávio sorriu e lhe deu um tapa no ombro.
— Ora, é melhor ir lá esta noite. Também terei de fazer minhas despedidas. Talvez partamos de Roma amanhã ao anoitecer.
— Ave, tribuno, com prazer. Antes disto, porém, à palaestra.
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