Vida e Morte
8. Port Angeles
8. PORT ANG ELES
JEREMY DIRIGIA MAIS rápido do que Charlie, então chegam os a Port Angeles às quatro horas. Fom os ao florista prim eiro, onde a m ulher atrás da bancada logo convenceu Allen a m udar de rosas para orquídeas. Allen tom ava decisões rápido, m as Jerem y dem orou bem m ais tem po para decidir o que queria. A vendedora fez parecer que todos os detalhes seriam m uito im portantes para as garotas, m as eu tinha dificuldade em acreditar que alguém se im portaria m uito.
Enquanto Jerem y discutia cores de fita com a m ulher, Allen e eu nos sentam os em um banco perto da vitrine.
— Ei, Allen…
Ele ergueu o rosto, provavelm ente por notar a tensão na m inha voz. — O quê?
Tentei falar m ais com o um a pessoa aleatoriam ente curiosa, com o se não ligasse para qual seria a resposta.
— Hã, os Cullen faltam m uita aula? Esse é o com portam ento norm al deles? Allen olhou por cim a do om bro, pela vitrine, quando respondeu, e tive certeza de que ele estava sendo legal. Sem dúvida conseguia ver o quanto eu m e sentia constrangido de perguntar, apesar do m eu esforço para parecer descolado. — Faltam . Quando o tem po está bom , eles saem para acam par sem pre, até a doutora. Eles adoram a natureza, eu acho.
Ele não fez nenhum a pergunta e nem com entário m alicioso sobre m inha paixonite óbvia e patética. Allen devia ser o garoto m ais legal da Forks High School.
— Ah — eu disse, e deixei o assunto de lado.
Depois do que pareceu ser m uito tem po, Jerem y finalm ente decidiu com prar flores brancas e um laço branco, o que foi m eio anticlim ático. Mas, quando os pedidos foram assinados e pagos, ainda tínham os tem po antes de o film e com eçar.
Jerem y queria ver se havia algum a coisa nova na loj a de videogam es algum as quadras a leste.
— Vocês se im portam se eu for fazer um a coisa? Encontro vocês no cinem a. — Tudo bem .
Jerem y j á estava arrastando Allen rua acim a. Foi um alívio ficar sozinho de novo. O passeio estava dando errado. Claro, a resposta de Allen foi encoraj adora, m as eu não conseguia m e obrigar a ficar de bom hum or. Nada m e aj udava a pensar m enos em Edy the. Talvez um livro muito bom .
Segui na direção oposta a deles, querendo ficar sozinho. Encontrei um a livraria algum as quadras ao sul do florista, m as não era o que eu estava procurando. As vitrines estavam cheias de cristais, apanhadores de sonhos e livros sobre cura espiritual. Pensei em entrar para perguntar onde havia algum a outra livraria, m as um a olhada no hippie cinquentão com sorriso sonhador atrás da bancada m e convenceu de que eu não precisava ter aquela conversa. Eu encontraria um a livraria norm al sozinho.
Andei por outra rua e fui parar em um a ruazinha m enor que m e confundiu. Eu esperava estar indo na direção do centro de novo, m as não tinha certeza de que a rua faria um a curva na direção que eu queria. Eu sabia que devia estar prestando m ais atenção, m as não consegui parar de pensar no que Allen disse e no sábado e no que eu devia fazer se ela não voltasse, e olhei para a frente e vi um Volvo prata estacionado na rua. Não era um sedã, era um utilitário, m as m esm o assim fiquei zangado de repente. Seriam todos os vam piros tão traiçoeiros? Segui num a direção que achei que fosse nordeste, a cam inho de uns prédios de frente de vidro que pareciam prom issores, m as, quando cheguei lá, eram só um a loj a de conserto de aspiradores e outra loj a vazia. Dobrei a esquina da loj a de consertos de aspiradores para ver se havia m ais ali. Era o cam inho errado, só levava a um beco lateral onde ficavam os lixões. Mas não estava vazio. Ao olhar para o círculo de pessoas, tropecei no m eio-fio e cam baleei para a frente, fazendo barulho.
Seis rostos se viraram na m inha direção. Havia quatro hom ens e duas m ulheres. Um a das m ulheres e dois hom ens se viraram rapidam ente de costas para m im e enfiaram as m ãos nos bolsos, e tive a im pressão que estavam escondendo aquilo que estavam segurando. A outra m ulher tinha cabelo preto e pareceu estranham ente fam iliar ao olhar na m inha direção. Mas não parei para pensar de onde a conhecia. Quando um dos hom ens se virou, eu tive o vislum bre de um a coisa que parecia um a arm a enfiada na parte de trás da calça j eans. Com ecei a andar para atravessar o beco e ir para a rua seguinte, com o se não os tivesse reparado ali. Assim que saí de vista, ouvi um a voz sussurrar atrás de m im : — É um policial.
Olhei para trás, na esperança de ver alguém de uniform e, m as não havia m ais ninguém na rua vazia. Eu estava m ais longe da rua principal do que tinha percebido. Apertei o passo e olhei para o chão para não tropeçar de novo. Fui parar em um a calçada que levava por vários arm azéns cinza, cada um com portas am plas para carga e descarga de cam inhões, presas com cadeados durante a noite. O lado sul da rua não tinha calçada, só um a cerca com aram e farpado em cim a para proteger um terreno de arm azenam ento de partes de m otor. Eu j á tinha passado da parte de Port Angeles que os visitantes deviam ver. Estava escurecendo agora, as nuvens tinham voltado e se acum ulavam no horizonte, criando um crepúsculo adiantado. Eu tinha deixado o casaco no carro de Jerem y, e um vento frio m e fez enfiar as m ãos nos bolsos. Um a van passou por m im , e a rua ficou vazia.
— Ei, porco — cham ou um a voz de m ulher atrás de m im . Olhei para trás, e ali estava a m ulher que vi antes, a fam iliar. Atrás dela estavam dois dos hom ens do beco, um cara alto e careca e o m ais baixo que eu achava que era o que tinha um a arm a.
— O quê? — perguntei, indo autom aticam ente m ais devagar. Ela estava olhando diretam ente para m im . — Me desculpe, você está falando com igo? — Me desculpe? — repetiu ela. Eles ainda estavam andando na m inha direção, e eu recuei para o lado sul da rua. — Essa é sua palavra favorita, por acaso? — Eu… Me desculpe. Não sei do que você está falando. Ela repuxou os lábios, que estavam pintados de um verm elho escuro e grudento, e de repente eu soube onde a tinha visto. Ela estava com o cara em quem acertei a bolsa quando cheguei em Port Angeles. Olhei para o cara m ais baixo e vi na m esm a hora partes das tatuagens dos dois lados do pescoço dele. — Você não vai pedir reforço, policial? Tive que olhar para trás de novo. Eu estava sozinho. — Acho que vocês estão falando com o cara errado. — Claro que estam os — disse a m ulher. — E você tam bém não viu nada lá atrás, viu?
— Ver? Não. Não, eu não vi nada.
Meu calcanhar bateu em algum a coisa enquanto eu recuava, e com ecei a oscilar. Estiquei os braços para tentar m e equilibrar, e o hom em m ais alto, o que eu nunca tinha visto, reagiu.
Ele apontou um a arm a para m im .
Eu achava que era o cara m ais baixo que estava com um a arm a. Talvez todos estivessem .
— Ei, ei — falei, levantando as m ãos ainda m ais para ele ver que estavam vazias. — Não sou policial. Ainda estou no colégio. Fui recuando até encostar na cerca.
— Você m e acha burra? — perguntou a m ulher. — Acha que seu disfarce à paisana m e engana? Vi você com seu parceiro. — O quê? Não, era o m eu pai — eu disse, e m inha voz falhou. Ela riu.
— Então você é só um porquinho?
— Sim , claro. Então isso está esclarecido. Vou parar de atrapalhar vocês agora… — Eu com ecei a chegar para o lado na cerca. — Pare.
Era o hom em careca, ainda apontando a arm a. Eu congelei. — O que você está fazendo? — indagou o hom em baixo. A voz estava baixa, m as a rua estava m uito silenciosa, e consegui ouvi-lo claram ente. — Não acredito nele — disse o alto.
A m ulher sorriu.
— Com o é aquela m úsica pirata? Os m ortos não contam histórias. — O quê? — gem i. — Não, olha, isso… Isso não é necessário. Não vou contar nada. Não tem nada para contar.
— Isso m esm o — concordou ela. Olhou para o hom em alto e assentiu. — Minha carteira está aqui no m eu bolso — ofereci. — Não tem m uita coisa dentro, m as podem ficar com tudo…
Com ecei a m over a m ão na direção do bolso, m as foi o gesto errado. A arm a se levantou dois centím etros. Levantei as m ãos de novo. — Precisam os ser silenciosos — disse o m ais baixo, e se inclinou para pegar um pedaço de cano na vala. — Guarde a arm a.
Assim que a arm a fosse abaixada, eu ia correr, e o careca parecia saber disso. Ele hesitou na hora que o tatuado partiu para cim a de m im . Zigue-zague, foi o que m eu pai m e disse um a vez. Era difícil acertar um alvo em m ovim ento, principalm ente se não estivesse se m ovendo em linha reta. Aj udaria se eu não estivesse fadado a tropeçar em algum a coisa. Só um a vez, que eu conseguisse correr com pés firm es. Eu podia fazer isso um a vez, não podia? Só um a vez, quando m inha vida dependia disso?
O quanto um ferim ento não fatal de bala doeria? Eu conseguiria continuar correndo com a dor? Eu esperava que sim .
Tentei destravar os j oelhos. O hom em com o cano estava a poucos passos de m im agora.
Um cantar de pneus o fez parar. Todos olham os quando o barulho ficou m ais agudo.
Faróis apareceram na esquina e seguiu na m inha direção. O carro ficou a centím etros de bater no tatuado, obrigando-o a pular para sair do cam inho. A cerca trem eu quando ele se chocou nela. Eu m e virei para correr, m as o carro sam bou inesperadam ente e derrapou até parar com a porta do passageiro se abrindo a um a pequena distância de m im .
— Entra — sibilou um a voz furiosa.
Pulei para o interior escuro do Volvo, sem nem questionar com o ela havia ido parar ali, com o alívio e o pânico tom ando conta de m im ao m esm o tem po. E se ela se m achucasse? Puxei a porta e gritei:
— Dirij a, Edy the, saia daqui. Ele tem um a arm a. Mas o carro não se m exeu.
— Fique com a cabeça abaixada — ordenou ela, e ouvi a porta do m otorista se abrir.
Estiquei a m ão cegam ente na direção do som da voz dela, e m inha m ão segurou o braço fino e frio. Ela parou quando toquei nela. Nada cedeu sob a pressão dos m eus dedos, em bora eu estivesse segurando com força o couro da j aqueta dela. — O que você está fazendo? — perguntei. — Dirij a!
Meus olhos estavam se aj ustando, e consegui identificar os olhos dela no brilho refletido dos faróis. Prim eiro, olharam para a m inha m ão segurando o braço dela, depois se apertaram e olharam pelo para-brisa para o lugar onde o hom em e a m ulher deviam estar olhando, avaliando. Eles podiam atirar a qualquer m om ento.
— Me dê só um m inuto, Beau. — Consegui perceber que os dentes dela estavam trincados.
Eu sabia que ela não teria problem a para se soltar de m im , m as parecia estar esperando que eu soltasse. Isso não aconteceria. — Se você for lá para fora, eu vou com você — falei baixinho. — Não vou deixar você levar um tiro.
Os olhos dela observaram a rua por m ais m eio segundo, então a porta dela se fechou e dem os ré num a velocidade que parecia ser de noventa por hora. — Tudo bem — bufou ela.
O carro girou em um arco fechado quando disparam os de ré por um a esquina, e de repente seguim os em frente.
— Coloque o cinto de segurança — disse ela.
Tive que soltar o braço dela para obedecer, m as devia ser m esm o um a boa ideia. Não era um a coisa norm al ficar segurando um a garota daquele j eito. Ainda assim … fiquei triste de soltar.
O estalo do cinto de segurança soou alto na escuridão. Ela virou para a esquerda, depois passou por várias placas de pare sem parar. Mas eu m e sentia estranham ente tranquilo e nada preocupado com nosso destino. Olhei o rosto dela, ilum inado só pelas luzes do painel, e senti um profundo alívio que ia além da m inha fuga afortunada.
Ela estava aqui. Era real.
Dem orei m ais do que alguns m inutos olhando o rosto perfeito para perceber m ais do que isso. Para perceber que ela estava absurdam ente furiosa. — Você está bem ? — perguntei, surpreso ao constatar com o m inha voz estava rouca.
— Não — disse ela rispidam ente.
Esperei em silêncio, observando seu rosto enquanto os olhos em brasa olhavam para a frente.
O carro parou de repente, com os freios gritando. Olhei em volta, m as estava escuro dem ais para ver algum a coisa além do contorno vago de árvores nas laterais da rua. Não estávam os m ais na cidade. — Você está m achucado, Beau? — perguntou ela, a voz dura. — Não. — Minha voz ainda estava rouca. Tentei dar um pigarro baixo. — Você está?
Ela olhou para m im nessa hora, com um a espécie de descrença irritada. — É claro que não estou m achucada.
— Que bom — eu disse. — Hã, posso perguntar por que você está tão furiosa? Eu fiz algum a coisa?
Ela expirou repentinam ente.
— Não sej a burro, Beau.
— Desculpe.
Ela lançou outro olhar de descrença e balançou a cabeça. — Você acha que ficaria bem se eu deixasse você aqui no carro só por alguns… Antes que ela pudesse term inar, eu estiquei o braço e segurei a m ão dela, apoiada no câm bio. Ela reagiu ficando paralisada de novo; m as não afastou a m ão.
Era a prim eira vez que eu tocava na pele dela, sem ser acidental e nem por um a fração de segundo. Apesar de a m ão dela estar tão fria quanto eu esperava, a m inha pareceu queim ar com o contato. A pele dela era tão m acia. — Você não vai a lugar nenhum sem m im .
Ela m e olhou com irritação, e, com o antes, parecia que estava esperando que eu soltasse em vez de se soltar, com o poderia ter feito com facilidade. Depois de um m om ento, ela fechou os olhos.
— Tudo bem — disse ela de novo. — Me dê um m om ento. Eu não tinha problem a com isso. Fiquei com a m ão de leve onde estava, tirando vantagem dos olhos fechados dela para encarar abertam ente. Lentam ente, a tensão no rosto dela com eçou a sum ir, até a pele ficar lisa e a expressão, vazia com o a de um a estátua. Um a bela estátua, entalhada por um gênio artístico. Afrodite, talvez. Era ela a deusa da beleza?
Havia aquela leve fragrância no carro de novo, um a coisa que eu não conseguia identificar.
E então, ela abriu os olhos e olhou lentam ente para a m inha m ão. — Você… quer que eu solte? — perguntei.
A voz dela foi cuidadosa.
— Acho que seria m elhor.
— Você não vai a lugar nenhum ? — perguntei. — Acho que não, se você se opõe tanto.
Contrariado, tirei a m ão da dela. Parecia que eu tinha segurado cubos de gelo. — Melhor? — perguntei.
Ela respirou fundo.
— Não exatam ente.
— O que foi, Edy the? Qual é o problem a?
Ela quase sorriu, m as não havia hum or nos olhos dela. — Pode ser surpresa para você, Beau, m as tenho problem as com m eu gênio. Às vezes, tenho dificuldade de perdoar facilm ente quando alguém … m e ofende. — Eu…?
— Pare, Beau — disse ela antes que eu pudesse dizer a segunda palavra. — Não estou falando de você. — Ela m e olhou com olhos arregalados. — Você percebeu que eles estavam falando sério? Que iam m esm o matar você? — É, eu m eio que entendi que eles iam tentar. — É totalm ente ridículo! — Parecia que ela estava se irritando de novo. — Quem é assassinado em Port Angeles? Qual é seu problem a, Beau? Por que tudo que é m ortal parece procurar você? Eu pisquei.
— Eu… não tenho resposta para isso.
Ela inclinou a cabeça para o lado e repuxou os lábios, expirando pelo nariz. — Então não posso dar um a lição de boas m aneiras naqueles bandidos? — Hã, não. Por favor?
Ela deu um suspiro longo e lento, com os olhos fechados de novo. — Que desagradável.
Ficam os em silêncio por um m om ento enquanto eu tentava pensar em algum a coisa para dizer que com pensasse… acho que a decepção que dei a ela? Era o que parecia, que ela estava decepcionada de eu ter pedido que ela não fosse atrás de gangsteres com arm as que a tinham … ofendido ao m e am eaçar. Não fazia m uito sentido, e m enos ainda quando você contava que ela m e pediu para ficar no carro. Ela planej ava ir a pé? Tínham os nos afastado quilôm etros do local. Pela prim eira vez desde que a encontrei hoj e, as palavras de Jules surgiram na m inha m ente.
— Seus am igos devem estar preocupados com você — disse ela. Passava das seis e m eia. Eu tinha certeza de que ela estava certa. Sem dizer m ais nada, ela ligou o m otor e deu m eia-volta. Voltam os rapidam ente para a cidade. De repente, estávam os debaixo dos postes de rua, ainda seguindo rápido dem ais, costurando com facilidade os carros que passeavam lentam ente j unto ao calçadão. Ela estacionou paralelam ente ao m eio-fio em um a vaga que eu teria achado pequena dem ais para o Volvo, m as deslizou para o local sem esforço na prim eira tentativa. Olhei pela j anela e vi a m arquise ilum inada do cinem a. Jerem y e Allen estavam saindo, se afastando de nós. — Com o você sabia onde…? — com ecei a dizer, m as depois só balancei a cabeça.
— Faça os dois pararem antes que eu tenha que segui-los tam bém . Não vou conseguir m e controlar se m e deparar com seus outros am igos de novo. Era estranho com o a voz sedosa podia soar tão… am eaçadora. Pulei para fora do carro, m as m antive a m ão na porta. Com o antes, segurando-a ali.
— Jer! Allen! — gritei.
Eles não estavam longe. Os dois se viraram , e acenei com o braço livre acim a da cabeça. Eles correram até m im , o alívio no rosto dos dois passando a surpresa ao verem o carro ao lado do qual eu estava. Allen olhou para dentro do carro e seus olhos saltaram de reconhecim ento.
— O que aconteceu com você? — perguntou Jerem y. — Acham os que você tinha ido em bora.
— Não, eu só m e perdi. E depois, encontrei Edy the. Ela se inclinou para a frente e sorriu pelo para-brisa. Agora, os olhos de Jerem y saltaram .
— Ah, oi… Edy the — disse Allen.
Ela acenou para ele com dois dedos, e ele engoliu em seco. — Hã, oi — disse Jerem y na direção dela; em seguida, olhou para m im . Eu devia estar estranho, com a m ão segurando a porta aberta, m as sem soltar. — É que… o film e j á com eçou, eu acho.
— Desculpe por isso.
Ele olhou no relógio.
— Ainda deve estar nos trailers. Você… — Ele olhou para m inha m ão no carro. — Você ainda quer ir?
Eu hesitei e olhei para Edy the.
— Você tam bém gostaria de ir… Edy the? — perguntou Allen com educação, em bora com um pouco de dificuldade de enunciar o nom e dela. Edy the abriu a porta do carro e saiu, balançando o cabelo com prido para afastar do rosto. Ela se inclinou sobre o capô e m ostrou as covinhas num sorriso. O queixo de Jerem y caiu.
— Já vi esse film e, m as obrigada, Allen — disse ela. Allen piscou várias vezes e pareceu esquecer com o falar. Fez com que eu m e sentisse um pouco m elhor por sem pre agir com o idiota perto dela. Quem conseguia evitar?
Edy the olhou para m im .
— Em um a escala de um a dez, quanto você quer ver esse film e agora? — m urm urou ela.
Cinco mil negativos, eu pensei.
— Hã, nem tanto assim — sussurrei para ela.
Ela sorriu diretam ente para Jerem y.
— Vou estragar a noite de vocês se eu fizer Beau m e levar para j antar? — perguntou ela.
Jerem y só balançou a cabeça. Ele ainda não tinha se lem brado de fechar a boca. — Obrigada — disse ela para ele. — Dou carona para Beau até em casa. Ela voltou para o carro.
— Entre no carro, Beau — disse ela.
Allen e Jerem y ficaram m e olhando. Dei de om bros rapidam ente e entrei no banco do passageiro.
— Mas que diabos? — eu ouvi Jerem y m urm urar quando bati a porta. Não pude olhar m elhor a reação deles. Ela j á estava se afastando em disparada.
— Você quer m esm o j antar? — perguntei a ela. Ela m e olhou com dúvida nos olhos. Estaria pensando o m esm o que eu estava pensando, que nunca a vi com er nada?
— Achei que você talvez quisesse — disse ela. — Estou bem — falei.
— Se você preferir ir para casa…
— Não, não — acrescentei, rápido dem ais. — Podem os j antar. Eu só quis dizer que não precisa ser isso. O que você quiser.
Ela sorriu e parou o carro. Estávam os estacionados na frente de um restaurante italiano.
As palm as das m inhas m ãos com eçaram a suar quando saí do carro, m e apressando para segurar a porta do restaurante para ela. Eu nunca tinha saído em um encontro assim , um encontro de verdade. Já tinha saído em grupo em Phoenix, m as podia dizer com sinceridade que não m e im portava se voltasse ou não a ver aquelas garotas. Isso era diferente. Eu quase tinha um ataque de pânico cada vez que achava que aquela garota podia desaparecer. Ela sorriu para m im quando passou, e m eu coração saltou em um batim ento duplo.
O restaurante não estava cheio; era a baixa tem porada em Port Angeles. Fom os recebidos por um hom em bem arrum ado alguns anos m ais velho do que eu, da m inha altura, m as com om bros m ais largos. Os olhos fizeram a m esm a coisa que os de Allen e Jerem y, se esbugalharam por um segundo antes de ele controlar a expressão. Mas ele logo deu o sorriso m ais caloroso que tinha e fez um a reverência profunda, tudo para ela. Eu tinha certeza de que ele nem sabia que eu estava ao lado dela.
— O que posso fazer por vocês? — perguntou ele enquanto se em pertigava, ainda olhando só para ela.
— Mesa para dois, por favor.
Pela prim eira vez, ele pareceu perceber que eu estava ali. O olhar que m e lançou foi rápido e desinteressado. Seus olhos voltaram para ela im ediatam ente, não que eu pudesse culpá-lo por isso.
— Claro, er, mademoiselle. — Ele pegou dois cardápios de couro e fez sinal para Edy the segui-lo. Eu revirei os olhos. Signorina devia ser a palavra que ele procurava.
Ele nos levou para um a m esa de quatro lugares no m eio da parte m ais m ovim entada da sala de j antar. Estiquei a m ão para um a cadeira, m as Edy the balançou a cabeça para m im .
— Quem sabe um lugar m ais reservado? — sugeriu ela, em voz baixa para o host. Pareceu que ela passou os dedos pela m ão dele, coisa que eu j á sabia que não era típica de Edy the, m as então o vi colocar a m ão no bolso de dentro do paletó e percebi que ela devia ter dado um a gorj eta. Eu nunca tinha visto alguém recusar um a m esa assim , a não ser nos film es antigos. — Claro — disse o host, parecendo tão surpreso quanto eu. Ela nos levou por um a divisória até um a área com m esas em com partim entos, todas vazias. — Que tal aqui?
— Perfeito — disse ela, e abriu seu sorriso para ele. Com o um cervo pego por faróis de carro, ele parou por um longo segundo, depois se virou lentam ente e cam baleou na direção do salão principal, com os cardápios ainda no braço.
Edy the se sentou em um dos lados do com partim ento, perto da beirada, de form a que m inha única opção era m e sentar de frente para ela, com a m esa entre nós. Depois de um segundo de hesitação, eu tam bém m e sentei. Um barulho soou do outro lado da divisória, com o o som de alguém tropeçando nos próprios pés e se levantando. Era um som fam iliar para m im . — Isso não foi m uito legal.
Ela olhou para m im com surpresa.
— O que você quer dizer?
— Essa coisa que você faz, com as covinhas e a hipnose, sei lá. Aquele cara podia ter se m achucado ao tentar voltar até a porta. Ele deu um m eio sorriso.
— Eu faço um a coisa?
— Com o se você não soubesse o efeito que tem nas pessoas. — Acho que consigo pensar em alguns efeitos… — A expressão dela ficou som bria por um segundo, m as se abriu, e ela sorriu. — Mas ninguém nunca tinha m e acusado de hipnose por covinhas.
— Você acha que as outras pessoas conseguem o que querem com tanta facilidade?
Ela inclinou a cabeça para o lado e ignorou m inha pergunta. — Funciona em você, essa coisa que você acha que eu faço? Eu suspirei.
— Sem pre.
E depois, nosso garçom chegou com expressão de expectativa, que logo virou de assom bro. O que quer que o host tenha dito, foi pouco. — Oi — disse ele, com a surpresa deixando seu tom m onótono enquanto ele recitava as falas m ecanicam ente. — Meu nom e é Sal e serei seu garçom esta noite. O que vocês querem beber?
Assim com o aconteceu com o host, os olhos dele não saíram do rosto dela. — Beau? — perguntou ela.
— Hã, um a Coca?
Parecia que eu não tinha dito nada. O garçom só ficou olhando para Edy the. Ela deu um sorriso para m im antes de se virar para ele. — Duas Cocas — disse ela, e, quase com o um experim ento, deu um sorriso largo e cheio de covinhas bem na cara dele.
Ele chegou a oscilar, com o se fosse cair.
Ela apertou os lábios para não rir. O garçom balançou a cabeça e piscou, tentando se reorientar. Olhei com solidariedade. Eu sabia com o ele estava se sentindo.
— E um cardápio tam bém — acrescentou ela quando ele não se m exeu. — Sim , claro. Volto logo com as duas coisas. — Ele ainda estava balançando a cabeça quando se afastou.
— Você nunca tinha reparado m esm o? — perguntei. — Faz um tem po que não m e im porto com o que pensam de m im — disse ela. — E não costum o sorrir tanto.
— Acho m ais seguro assim . Para todo m undo. — Todo m undo, m enos você. Vam os falar sobre o que aconteceu hoj e? — Hã?
— Sua experiência de quase m orte? Ou você j á esqueceu? — Ah. — Na verdade, eu tinha esquecido.
Ela franziu a testa.
— Com o está se sentindo?
— O que você quer dizer?
Torci para ela não ligar os olhos de hipnose e m e obrigar a falar a verdade, porque o que eu sentia no m om ento era… euforia. Ela estava bem aqui, com igo, espontaneam ente, consegui tocar na m ão dela e devia ter algum as horas à frente j unto com ela, pois ela prom eteu m e levar para casa. Eu nunca m e senti tão feliz e perdido ao m esm o tem po.
— Está com frio, tonto, enj oado…?
O j eito com o ela listou as palavras m e fez pensar em um exam e m édico. E eu não sentia frio nem enj oo… nem tontura de um ponto de vista m édico. — Deveria?
Ela riu.
— Estou m e perguntando se você vai entrar em choque — adm itiu ela. — Já vi acontecer com m enos provocação.
— Ah. Não, acho que estou bem , obrigado. — Sinceram ente, quase ser assassinado não era a coisa m ais interessante que tinha m e acontecido naquela noite, e eu não tinha pensado m uito naquilo.
— Mesm o assim , vou m e sentir m elhor quando você colocar algum a com ida para dentro.
Bem na deixa, o garçom apareceu com nossas bebidas e um cesto de pãezinhos. Ele ficou de costas para m im enquanto os colocava na m esa, depois entregou um cardápio para Edy the. Tendo concluído seus experim entos, ela nem olhou para ele dessa vez. Só em purrou o cardápio para m im por cim a da m esa. Ele lim pou a garganta com nervosism o.
— Tem os alguns pratos especiais. Hã, tem os um ravióli de cogum elos e… — Parece ótim o — interrom pi. Eu não m e im portava com o que pediria, com ida era a últim a coisa que eu tinha na cabeça. — Quero isso. — Falei um pouco m ais alto do que o necessário, m as não sabia se ele percebeu que eu estava sentado ali. Ele olhou para m im com surpresa e voltou a atenção para ela. — E você…?
— Vai ser só isso. Obrigada.
Claro.
Ele aguardou por um segundo, na esperança de ganhar outro sorriso, eu achava. Ávido por punição. Quando Edy the ficou com os olhos grudados em m im , ele desistiu e saiu andando.
— Beba — disse Edy the. Pareceu um a ordem . Beberiquei, obediente, e depois tom ei um gole m aior, surpreso por descobrir que estava com sede. Percebi que tinha term inado tudo quando ela em purrou o copo dela para m im .
— Não, não precisa — falei.
— Eu não vou beber — disse ela, e o tom acrescentava um dã. — Certo — retruquei, e, porque ainda estava com sede, tom ei o copo dela tam bém . — Obrigado — m urm urei enquanto a palavra na qual eu não queria pensar girava pela m inha m ente de novo.
O frio do refrigerante se irradiava pelo m eu peito, e precisei afastar um trem or. — Está com frio? — perguntou ela, agora séria. Com o um a m édica de novo. — É só a Coca — expliquei, lutando contra outro trem or. — Não trouxe casaco?
— Trouxe. — Autom aticam ente, levei a m ão ao banco vazio ao lado do m eu. — Ah, deixei no carro de Jerem y — percebi. Dei de om bros e trem i. Edy the com eçou a desenrolar um cachecol crem e do pescoço. Percebi que nunca tinha prestado atenção ao que ela estava vestindo — não só hoj e, m as sem pre. A única coisa de que eu conseguia lem brar era o vestido preto do m eu pesadelo… Mas apesar de não ter registrado os detalhes, eu sabia que na verdade ela só usava cores claras. Com o hoj e: por baixo do cachecol, ela estava usando um a j aqueta de couro cinza-clara, curta com o as de m otociclista, e um a blusa branca fina de gola alta por baixo. Eu tinha certeza de que ela sem pre cobria a pele, o que m e fez pensar de novo no decote em V do vestido preto do sonho, e isso foi um erro. Um a área de calor com eçou a surgir na lateral do m eu pescoço. — Aqui — disse ela, m e j ogando o cachecol.
Eu devolvi para ela.
— Estou bem m esm o.
Ela inclinou a cabeça para o lado.
— Os pelos da sua nuca estão eriçados, Beau — declarou ela. — Não é cachecol de m ulher, se é isso que incom oda você. Roubei de Archie.
— Não estou precisando — insisti.
— Tudo bem , tem um a j aqueta de Roy al no porta-m alas, eu volto logo… Ela com eçou a se levantar, e eu estiquei a m ão, tentando segurar a dela, fazer com que ficasse ali. Ela fugiu do m eu toque e dobrou as m ãos debaixo da m esa, m as não se levantou.
— Não vá — pedi baixinho. Eu sabia que m inha voz estava intensa dem ais; ela estava só indo até o carro, não sum indo para sem pre. Mas não consegui falar norm alm ente. — Vou usar o cachecol. Está vendo? Peguei o cachecol na m esa (era m uito m acio e não estava quente com o deveria estar por ter acabado de sair do contato com o corpo de outra pessoa) e com ecei a enrolar no pescoço. Eu não conseguia m e lem brar de j á ter usado cachecol, então só fui enrolando em círculo até o tecido acabar. Pelo m enos, cobriria o ponto verm elho no m eu pescoço. Talvez eu devesse ter um cachecol. O cheiro do cachecol dela era delicioso e fam iliar. Percebi que era o m esm o perfum e do carro. Devia ser dela.
— Fiz direito? — perguntei a ela. O tricô m acio j á estava aquecendo m inha pele e aj udou a m e esquentar.
— Fica bem em você — disse ela, m as riu, então achei que isso queria dizer que a resposta era não.
— Você rouba m uitas coisas de, hã, Archie?
Ela deu de om bros.
— Ele é quem tem o m elhor gosto.
— Você nunca m e falou sobre sua fam ília. Ficam os sem tem po no outro dia. — Foi na quinta anterior? Parecia bem m ais.
Ela em purrou o cesto de pão para m im .
— Não vou entrar em choque — falei para ela. — Só para m e agradar? — disse ela, e fez aquela coisa com o sorriso e o olhar que sem pre funcionava.
— Ugh — resm unguei enquanto pegava um pãozinho. — Bom m enino — disse ela, rindo.
Só olhei para ela de cara feia enquanto m astigava. — Não sei com o você pode agir com tanta indiferença — disse ela. — Nem parece abalado. Um a pessoa norm al… — Ela balançou a cabeça. — Mas você não é m uito norm al, é?
Eu balancei a cabeça e engoli.
— Sou a pessoa m ais norm al que eu conheço. — Todo m undo acha isso sobre si m esm o.
— Você acha isso de você? — perguntei, em desafio. Ela repuxou os lábios.
— Certo — falei. — Você algum a vez pensa em responder m inhas perguntas ou isso está fora de questão?
— Depende da pergunta.
— Me diga um a que posso perguntar.
Ela ainda estava pensando nisso quando o garçom passou pela divisória com m eu prato. Percebi que, inconscientem ente, tínham os nos inclinado na direção um do outro sobre a m esa, porque nós dois nos endireitam os quando ele se aproxim ou. Ele colocou o prato diante de m im — parecia m uito bom — e se virou rapidam ente para Edy the.
— Mudou de ideia? — perguntou ele. — Não há nada que eu possa trazer para você? — Eu achava que não estava im aginando o duplo sentido da proposta. — Outro refrigerante seria bom — disse ela, indicando os copos vazios sem afastar o olhar de m im .
O garçom olhou para m im agora, e consegui perceber que ele estava se perguntando por que um a pessoa com o Edy the estava olhando para alguém com o eu daquele j eito. Ah, tam bém era um m istério para m im . Ele pegou os copos e saiu andando.
— Im agino que você tenha m uitas perguntas para m im — m urm urou Edy the. — Só um as duas m il.
— Tenho certeza de que sim … Posso fazer um a prim eiro? É inj usto? Isso queria dizer que ela ia responder as m inhas? Assenti com ansiedade. — O que você quer saber?
Ela olhou para a m esa agora, com os olhos escondidos atrás dos cílios. O cabelo caiu para a frente e escondeu m ais o rosto.
As palavras não passaram de um sussurro.
— Nós conversam os antes que você estava… tentando entender o que eu sou. Eu queria saber se você fez algum progresso com isso. Eu não respondi, e ela levantou o rosto. Fiquei feliz pelo cachecol de novo, em bora não pudesse esconder o verm elho que eu conseguia sentir subindo pelo m eu rosto agora.
O que eu podia dizer? Fiz algum progresso? Ou só tropecei em outra teoria ainda m ais im becil do que aranhas radioativas? Com o eu poderia dizer aquela palavra em voz alta, aquela na qual vinha tentando não pensar a noite toda? Não sei com o m inha expressão devia estar, m as a dela se suavizou de repente. — É ruim assim ? — perguntou ela.
— Posso… podem os não falar sobre isso aqui? — Olhei para a divisória fina que nos separava do resto do restaurante.
— É m uito ruim — m urm urou ela, em parte para si m esm a. Havia algum a coisa m uito triste e… quase velha nos olhos dela. Cansaço, derrota. Doeu de um j eito estranho vê-la infeliz.
— Bem — falei, tentando deixar m inha voz m ais leve. — Na verdade, se eu responder a sua pergunta prim eiro, você não vai responder a m inha. Você nunca responde. Então… você prim eiro.
O rosto dela relaxou.
— Um a troca, então?
— Isso.
O garçom voltou com as Cocas. Dessa vez colocou-as na m esa sem dizer nada e saiu novam ente. Eu m e perguntei se ele conseguia sentir a tensão tanto quanto eu. — Podem os tentar — m urm urou Edy the. — Mas sem prom essas. — Tudo bem … — Com ecei com a pergunta fácil. — Por que você está em Port Angeles hoj e?
Ela olhou para baixo e cruzou as m ãos lentam ente sobre a m esa vazia à frente dela. Olhou para m im por baixo dos cílios longos, e havia sugestão de sorriso no rosto.
— Próxim a — disse ela.
— Mas essa foi a m ais fácil!
Ela deu de om bros.
— Próxim a?
Olhei para baixo, frustrado. Tirei os talheres do guardanapo, peguei o garfo e espetei com cuidado um ravióli. Coloquei-o na boca devagar, ainda de olhos baixos, m astigando enquanto pensava. Os cogum elos estavam bons. Engoli e tom ei outro gole da Coca antes de olhar para ela. — Tudo bem , então. — Eu a fitei e continuei devagar. — Digam os, hipoteticam ente, que… alguém … pudesse saber o que as pessoas estão pensando, ler a m ente delas, sabe com o é… com algum as exceções. — Parecia idiotice. Não tinha com o, se ela não ia responder a prim eira… Mas ela olhou para m im com calm a e disse.
— Só uma exceção. Hipoteticam ente. Ah, caramba.
Dem orei um m inuto para m e recuperar. Ela esperou com paciência. — Tudo bem . — Tentei parecer casual. — Só um a exceção, então. Com o um a coisa assim funcionaria? Quais são as lim itações? Com o… esse alguém … acharia outra pessoa exatam ente na hora certa? Com o poderia saber que eu estava num a encrenca? — Minhas perguntas convolutas não faziam nenhum sentido no final.
— Hipoteticam ente? — perguntou ela.
— Claro.
— Bom , se… esse alguém …
— Vam os cham á-la de Jane — sugeri. Ele deu um sorriso torto.
— Se sua Jane Hipotética estivesse prestando m ais atenção, o m om ento não teria que ter sido tão preciso. — Ela revirou os olhos. — Ainda não entendo com o isso pode acontecer. Com o alguém se m ete tanto em confusão, de form a tão consistente e em lugares tão im prováveis? Você teria acabado com as estatísticas de crim inalidade de Port Angeles por um a década, sabe. — Não entendo com o isso pode ser m inha culpa. Ela ficou m e olhando com a frustração fam iliar nos olhos. — Eu tam bém não. Mas não sei quem culpar.
— Com o você soube?
Ela olhou nos m eus olhos, dividida, e achei que estava lutando contra o desej o de sim plesm ente m e contar a verdade.
— Pode confiar em m im , sabe — m urm urei. Estendi a m ão lentam ente para colocar em cim a das dela, m as ela puxou as dela dois centím etros, e deixei a m inha pousar na m esa.
— É o que eu quero fazer — adm itiu ela, a voz ainda m ais baixa do que a m inha. — Mas isso não quer dizer que estej a certo.
— Por favor — pedi.
Ela hesitou m ais um segundo, e tudo saiu em um j orro. — Eu o segui até Port Angeles. Nunca tentei m anter um a determ inada pessoa viva, e é m uito m ais problem ático do que eu acreditava. Mas deve ser assim porque é você. As pessoas com uns parecem passar o dia todo sem m uitas catástrofes. Eu m e enganei, quando disse que você era um ím ã para acidentes. Essa classificação não é am pla o bastante. Você é um ím ã para confusão. Se existir algum a coisa perigosa em um raio de quinze quilôm etros, vai chegar a você, invariavelm ente.
Não m e incom odei de ela estar m e seguindo; na verdade, senti um a onda estranha de prazer. Ela estava ali atrás de mim. Ela ficou olhando, esperando que eu reagisse.
Pensei no que ela disse, hoj e e antes… Você acha que eu posso ser assustadora? — Você se coloca nessa categoria, não é? — Tentei adivinhar. O rosto dela ficou duro, sem expressão.
— Sem dúvida.
Estiquei m inha m ão por cim a da m esa de novo e a ignorei quando ela puxou a dela um pouco m ais para trás, colocando a m inha em cim a da dela m esm o assim . Ela ficou m uito parada. Fez com que as m ãos parecessem pedra: frias, duras e agora, im óveis. Pensei na estátua de novo. — Foram duas vezes agora — eu disse. — Obrigado. Ela só ficou m e olhando com um trem or nos lábios e a testa franzida. Tentei aliviar a tensão com um a piada.
— Já pensou que talvez m inha hora tivesse chegado naquela prim eira vez, com a van, e que talvez você estej a interferindo no m eu destino? Com o naqueles film es tipo A premonição?
Minha piada não gerou reação. Ela franziu m ais a testa. — Edy the.
Ela virou o rosto para baixo de novo, com o cabelo caindo sobre as bochechas, e m al consegui ouvir a resposta.
— Aquela não foi a prim eira vez — disse ela. — Sua hora chegou no dia que eu o conheci. Não foram duas vezes que você quase m orreu. Foram três. A prim eira vez que salvei você… foi de m im m esm a.
Tão claram ente com o se estivesse de volta na prim eira aula de biologia, consegui ver o olhar assassino de Edy the. Ouvi de novo a frase que passou pela m inha cabeça naquela hora: Se um olhar matasse… — Você lem bra? — perguntou ela. Estava m e olhando agora, com o rosto perfeito m uito sério. — Entendeu?
— Sim .
Ela esperou m ais um pouco, outra reação. Com o não falei nada, as sobrancelhas se j untaram .
— Pode ir em bora agora — disse ela para m im . — Seus am igos ainda estão no cinem a.
— Eu não quero ir em bora.
Ela ficou irritada de repente.
— Com o você pode dizer isso?
Dei um tapinha nas m ãos dela, totalm ente calm o. Era um a coisa que eu j á tinha decidido. Não im portava para m im se ela era… um a coisa perigosa. Mas ela im portava. Onde ela estivesse era onde eu queria estar. — Você não term inou de responder a m inha pergunta — eu disse, ignorando a raiva. — Com o você m e encontrou?
Ela m e olhou com irritação por um m om ento, com o se estivesse desej ando que eu tam bém ficasse irritado. Com o isso não funcionou, ela balançou a cabeça e deu um suspiro.
— Eu estava vigiando os pensam entos de Jerem y — disse ela, com o se fosse a coisa m ais norm al. — Sem cuidado nenhum … Com o eu disse, só você pode ser am eaçado de assassinato em Port Angeles. No início, não percebi quando você saiu sozinho. Depois, quando notei que não estava m ais com ele, saí dirigindo em busca de alguém que tivesse visto você. Encontrei a livraria até a qual você andou, m as percebi que você não tinha entrado. Você foi para o sul, e eu sabia que teria que dar m eia-volta logo. Só estava esperando você, procurando ao acaso pelos pensam entos de todo m undo que conseguisse ouvir, para ver se alguém tinha reparado em você, e assim eu saberia onde estava. Não tinha m otivos para ficar preocupada… m as com ecei a ficar ansiosa… — Ela estava perdida em pensam entos agora, olhando para além de m im . — Com ecei a dirigir em círculos, ainda… escutando. O sol finalm ente estava se pondo e eu estava prestes a sair do carro e procurá-lo a pé. E então… — Ela parou de repente, trincando os dentes com um estalo alto.
— Então o quê?
Ela voltou a se concentrar no m eu rosto.
— Eu ouvi o que ela estava pensando. Vi seu rosto na m ente dela e soube o que ela estava planej ando fazer.
— Mas você chegou lá a tem po.
Ela inclinou a cabeça de leve.
— Foi m ais difícil do que você pode im aginar sair dirigindo, deixar que eles se safassem . Sei que foi a coisa certa, m as, ainda assim … m uito difícil. Tentei não im aginar o que ela teria feito se eu não tivesse pedido que ela se afastasse. Não queria deixar m inha im aginação correr solta por aquele cam inho em particular.
— Esse foi um dos m otivos para eu ter feito você vir j antar com igo — adm itiu ela. — Eu podia ter deixado você ir ao cinem a com Jerem y e Allen, m as tem ia procurar aquelas pessoas se não estivesse com você. Minha m ão ainda estava sobre a dela. Meus dedos estavam com eçando a ficar dorm entes, m as não m e im portei. Se ela não protestasse, eu j am ais voltaria a m e m exer. Ela ficou m e olhando, esperando um a reação que não veio. Eu sabia que ela estava tentando m e dar um aviso com toda essa sinceridade, m as estava desperdiçando o esforço.
Ela respirou fundo.
— Vai com er m ais algum a coisa? — perguntou ela. Eu olhei para a com ida.
— Não, estou satisfeito.
— Quer ir para casa agora?
Fiz um a pausa.
— Não estou com pressa nenhum a.
Ela franziu a testa, com o se m inha resposta incom odasse. — Posso puxar m inhas m ãos agora? — perguntou ela. Eu puxei a m inha.
— Claro. Desculpe.
Ela m e lançou um olhar enquanto tirava algum a coisa do bolso. — Dá para passarm os 15 m inutos sem um pedido de desculpas desnecessário? Se era desnecessário que eu pedisse desculpas por tocar nela, isso queria dizer que ela gostava? Ou só que não se ofendia com o gesto? — Hã, provavelm ente não — adm iti.
Ela riu um a vez, e o garçom apareceu.
— Com o estam os? — perguntou ele.
Ela o interrom peu.
— Nós j á term inam os, obrigado, e isso deve cobrir a conta, não precisa do troco, obrigada.
Ela j á estava fora da cadeira.
Tentei pegar m inha carteira.
— Hã, m e deixe… você nem com eu nada…
— É por m inha conta, Beau.
— Mas…
— Tente não se prender a papéis antiquados de gênero. Ela saiu andando, e fui logo atrás, deixando o garçom atônito atrás de m im com o que parecia um a nota de cem dólares na m esa à frente dele. Passei por ela e corri para abrir a porta, ignorando o que ela tinha dito sobre papéis antiquados. Eu sabia que ela era m ais rápida do que eu podia im aginar, m as a sala com um m onte de gente dentro olhando a obrigou a agir com o se fosse um a sem elhante. Ela m e lançou um olhar estranho quando segurei a porta, com o se estivesse tocada pelo gesto, m as irritada ao m esm o tem po. Decidi ignorar a parte irritada e passei correndo por ela para tam bém segurar a porta do carro. Abriu-se com facilidade, ela não tinha trancado. A expressão dela foi m ais de diversão do que qualquer outra coisa, e encarei com o um bom sinal. Quase corri para o lado do passageiro, passando a m ão no capô no cam inho. Eu tinha a sensação enlouquecedora de que ela estava lam entando ter m e contado tanto e que era capaz de sair dirigindo sem m im e desaparecer na noite. Quando entrei, ela olhou diretam ente para m eu cinto de segurança até eu colocá-lo. Eu m e perguntei por um segundo se ela era algum tipo de m aníaca da segurança, até reparar que não tinha se dado o trabalho de colocar o dela e de que estávam os disparados pelo transito leve sem nem sinal de cautela da parte dela. — Agora — disse ela com um sorriso sinistro — é a sua vez.