Vida e Morte

Stephenie Meyer · Capítulo 14 de 27

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Vida e Morte

12. Oscilando

 

— BONNIE! — GRITOU CHARLIE assim que saiu do carro. Eu m e virei para a casa, acenando para Jules ir com igo enquanto corria para a varanda. Ouvi Charlie cum prim entá-la ruidosam ente atrás de m im . — Vou fingir que não a vi ao volante, m ocinha. — Conseguim os a habilitação m ais cedo na reserva — disse Jules enquanto eu destrancava a porta e acendia a luz da varanda. Charlie riu.

— Sei, claro.

— Eu tenho que m e locom over de algum j eito. — Reconheci com facilidade a voz ressoante de Bonnie, apesar dos anos. O som fez com que de repente eu m e sentisse m ais novo, um a criança.

Entrei, deixando a porta aberta e acendendo as luzes antes de pendurar o casaco. Depois, fiquei parado à porta, olhando ansiosam ente enquanto Charlie e Jules aj udavam Bonnie a sair do carro e sentar em sua cadeira de rodas. Saí do cam inho quando os três entraram às pressas, sacudindo a água da chuva. — Que surpresa — disse Charlie.

— Faz m uito tem po — respondeu Bonnie. — Espero que não sej a um a hora ruim . — Seus olhos escuros lam pej aram para m im de novo, a expressão indecifrável.

— Não, está ótim o. Espero que possa ficar para o j ogo. Jules sorriu.

— A ideia é essa. Nossa TV quebrou na sem ana passada. Bonnie fez um a careta para a filha.

— E é claro que Jules estava ansiosa para ver Beau novam ente — acrescentou ela. Jules tam bém fez um a careta para a m ãe. — Estão com fom e? — perguntei, virando-m e para a cozinha. O olhar perscrutador de Bonnie m e deixou pouco à vontade. — Não, com em os antes de vir para cá — respondeu Jules. — E você, Charlie? — gritei por sobre o om bro enquanto fugia para o outro aposento.

— Claro — respondeu ele, a voz na direção da sala e da TV. Consegui ouvir a cadeira de Bonnie o seguindo.

Os queij os-quentes j á estavam na frigideira e eu estava cortando um tom ate quando senti alguém atrás de m im .

— E aí, com o vão as coisas? — perguntou Jules. — Muito bem . — Eu sorri. Era difícil resistir ao entusiasm o dela. — E você? Term inou seu carro?

— Não. — Ela franziu a testa. — Ainda preciso de peças. Pegam os esse em prestado. — Ele apontou com o polegar na direção do j ardim . — Lam ento. Não vi nenhum … O que estava procurando m esm o? — Um cilindro m estre. — Ela sorriu. — Algum a coisa errada com a picape? — perguntou ela de repente.

— Não.

— Ah. Eu estranhei porque você não a estava dirigindo. Olhei para a frigideira e levantei a beirada de um sanduíche para verificar o lado de baixo.

— Peguei carona com um a am iga.

— Carona, legal. — A voz de Jules era de adm iração. — Mas não reconheci a m otorista. Pensei que eu conhecesse a m aior parte do pessoal daqui. Assenti, sem querer m e com prom eter, m antendo os olhos baixos ao virar os sanduíches.

— Minha m ãe parecia conhecê-la de algum lugar. — Jules, pode m e passar uns pratos? Estão no arm ário em cim a da pia. — Claro.

Ela pegou os pratos em silêncio. Eu esperava que desistisse do assunto. — E aí, quem era? — perguntou ela, colocando dois pratos na bancada ao m eu lado.

Suspirei, derrotado.

— Edy the Cullen.

Para m inha surpresa, ela riu. Olhei para ela. Jules parecia m eio constrangida. — Acho que isso explica, então — disse ela. — Estava m e perguntando por que m inha m ãe agiu de um j eito tão estranho.

Fingi um a expressão inocente.

— É verdade. Ela não gosta dos Cullen.

— Velha supersticiosa — m urm urou Jules.

— Você acha que ela vai dizer algum a coisa a Charlie? — Não consegui deixar de perguntar, as palavras saíram num fluxo baixo. Jules olhou para m im por um m om ento, e não consegui interpretar a expressão em seus olhos escuros.

— Duvido — respondeu, por fim . — Acho que o Charlie lhe passou um belo serm ão da últim a vez. Eles não se falaram m uito desde então. Hoj e é m eio que um reencontro, pelo que sei. Não acredito que ela vá levantar o assunto novam ente.

— Ah — eu disse, tentando parecer indiferente. Fiquei na sala depois de levar a com ida para Charlie, fingindo ver o j ogo enquanto conversava distraidam ente com Jules. Na verdade, eu ouvia a conversa dos adultos, procurando qualquer sinal de que Bonnie ia m e entregar, tentando pensar em m aneiras de im pedi-la se ela com eçasse. Foi um a longa noite. Eu tinha um m onte de dever de casa atrasado, m as tinha m edo de deixar Bonnie sozinha com Charlie. Por fim , o j ogo term inou. — Você e seus am igos vão voltar à praia logo? — perguntou Jules enquanto em purrava a m ãe pela soleira da porta.

— Hã, não sei — falei, tentando desconversar. — Foi divertido, Charlie — disse Bonnie.

— Venha para o próxim o j ogo — encoraj ou Charlie. — Claro, claro — respondeu Bonnie. — Nós virem os. Boa noite para vocês. — Seus olhos voltaram -se para os m eus e seu sorriso desapareceu. — Cuide-se, Beau — acrescentou, seriam ente.

— Obrigado — m urm urei, desviando os olhos. Fui para a escada enquanto Charlie acenava da porta. — Espere, Beau — disse ele.

Eu m e encolhi. Será que Bonnie conseguira de algum j eito falar antes que eu m e j untasse a eles na sala?

Mas Charlie estava relaxado, ainda sorrindo por causa da visita inesperada. — Não tive a chance de conversar com você esta noite. Com o foi seu dia? — Foi bom . — Hesitei com um pé no prim eiro degrau, procurando detalhes que pudesse partilhar com segurança. — Meu tim e de badm inton venceu todos os j ogos.

— Uau, eu não sabia que você j ogava badm inton. — Bom , na verdade, não j ogo, m as m inha parceira é m uito boa — adm iti. — Quem é ela? — perguntou Charlie, dem onstrando interesse. — Hã… McKay la Newton.

— Ah, é, você disse que era am iga da garota dos Newton. — Ele se anim ou. — Boa fam ília. — Ele refletiu por um m inuto. — Ela não quis ir com você ao baile no fim de sem ana?

— Pai! — resm unguei. — Ela está nam orando m eu am igo Jerem y. Além disso, você sabe que não sei dançar.

— Ah, sim — m urm urou ele. Depois, sorriu para m im , desculpando-se. — Então acho que é bom que estej a fora no sábado… Marquei de pescar com os rapazes da delegacia. O clim a deve estar bem quente. Mas, se quiser adiar a viagem até que alguém possa ir com você, eu fico em casa. Sei que deixo você m uito sozinho aqui.

— Pai, você está se saindo m uito bem — falei, torcendo para que m eu alívio não transparecesse. — Nunca m e im portei de ficar sozinho. Sou m uito parecido com você. — Sorri para ele, que tam bém abriu um sorriso cheio de pés de galinha.

***

Naquela noite dorm i m elhor, cansado dem ais para sonhar de novo. Quando acordei na m anhã cinza-pérola, estava quase eufórico de tão otim ista que era m eu estado de espírito. A noite tensa com Bonnie e Jules parecia bem inofensiva; decidi m e esquecer com pletam ente dela. Eu m e peguei assoviando enquanto passava um pente pelo cabelo e de novo ao descer a escada aos saltos. Charlie percebeu.

— Está anim ado esta m anhã — com entou ele no café. Dei de om bros.

— É sexta-feira.

Corri para ficar pronto para sair logo depois de Charlie. Minha m ochila estava preparada, os sapatos, calçados, os dentes, escovados, m as em bora eu tivesse corrido para a porta assim que m e certifiquei de que Charlie estava fora de vista, Edy the foi m ais rápida. Ela estava esperando com as j anelas abertas e o m otor desligado.

Dessa vez, não hesitei ao m e sentar no banco do carona. Ela sorriu e m ostrou as covinhas, e m eu coração teve aquele m iniataque cardíaco. Não consegui im aginar nada m ais bonito: anj o, deusa ou anj o. Não havia nada nela que pudesse ser m elhorado.

— Com o você dorm iu? — perguntou ela. Im aginei se ela tinha algum a ideia de com o sua voz era irresistível e se ela falava assim de propósito. — Bem . Com o foi sua noite?

— Agradável.

— Posso perguntar o que você fez?

— Não. — Ela sorriu. — Ainda é a minha vez. Ela hoj e queria saber das pessoas: m ais sobre m inha m ãe, seus passatem pos, o que fazíam os j untos em nosso tem po livre. E depois sobre a única avó que conheci, m eus poucos am igos da escola, e fiquei verm elho quando perguntou sobre as m eninas que nam orei. Fiquei aliviado de não ter nam orado sério ninguém , então essa conversa específica não podia durar m uito. Ela ficou surpresa com m inha falta de história rom ântica. — Então nunca conheceu ninguém que quisesse? — perguntou ela, num tom sério que m e fez indagar o que ela estava pensando. — Não em Phoenix.

Seus lábios se com prim iram num traço fino.

A essa altura, estávam os no refeitório. O dia voou, num padrão que estava rapidam ente se tornando rotina. Aproveitei a breve pausa para dar um a m ordida no m eu sanduíche.

— Eu devia ter deixado você vir de carro hoj e — disse ela de repente. Eu engoli.

— Por quê?

— Vou em bora com Archie depois do alm oço. — Ah. — Pisquei com decepção. — Está tudo bem , não é um a cam inhada tão longa.

Ela franziu o cenho para m im com im paciência. — Não vou deixar você ir a pé para casa. Vam os lá pegar sua picape e deixar aqui para você.

— Não trouxe a chave. — Eu suspirei. — Não m e im porto m esm o de ir andando. — O que m e im portava era não ter m eu tem po com ela. Ela balançou a cabeça.

— Seu carro estará aqui e a chave estará na ignição, a não ser que tenha m edo de que alguém possa roubar. — Ela riu da ideia. — Tudo bem — concordei.

Eu tinha certeza absoluta de que a chave estava no bolso de um a calça j eans que usei na quarta-feira, debaixo de um a pilha no cesto de roupa suj a. Mesm o que ela invadisse m inha casa, ou o que quer que estivesse planej ando, nunca a encontraria. Ela pareceu sentir o desafio em m eu consentim ento. E sorriu com m alícia e um excesso de confiança.

— E aí, aonde vocês vão? — perguntei com a m aior despreocupação que pude. — Caçar — respondeu ela, som briam ente. — Se vou ficar sozinha com você am anhã, preciso tom ar todas as precauções. — Seu rosto ficou triste… e suplicante. — Sabe que pode cancelar a hora que quiser. Olhei para baixo, com m edo do poder persuasivo de seus olhos. Eu m e recusava a ser convencido a dispensar nosso dia j untos, m esm o que o perigo fosse real. Não importa, repeti em m inha cabeça. — Não — sussurrei, olhando novam ente seu rosto. — Não posso. — Talvez tenha razão — m urm urou ela. Seus olhos pareceram escurecer enquanto eu olhava.

Mudei de assunto.

— A que horas am anhã? — perguntei, j á deprim ido com a ideia de que ela fosse em bora agora.

— Isso depende… É sábado, não quer dorm ir m ais um pouco? — propôs ela. — Não — respondi, rápido dem ais, o que a fez sorrir. — A m esm a hora de sem pre, então?

Eu assenti.

— Onde devo pegar você?

— Eu vou passar na sua casa, tam bém com o sem pre. — Hã, não aj udaria na situação com Charlie se um Volvo inexplicável ficasse parado na porta de casa.

O sorriso dela estava superior gora.

— Eu não pretendia ir de carro.

— Com o…?

Ela m e interrom peu.

— Não se preocupe. Vou estar lá sem carro. Não há chance de Charlie ver nada fora do norm al. — A voz dela ficou dura. — E aí, se você não voltar para casa, o m istério vai ser com pleto, não vai?

— Acho que vai — respondi, dando de om bros. — Talvez apareça no noticiário e tudo.

Ela fechou a cara para m im e eu a ignorei e com i m ais um pouco do m eu alm oço.

Quando o rosto dela relaxou, m esm o que ela não parecesse feliz, eu perguntei: — O que vocês vão caçar hoj e?

— O que encontrarm os no parque. Não vam os m uito longe. — Ela olhou para m im , m eio frustrada e achando um pouco de graça por m inha referência casual à vida incom um dela.

— Por que você vai com Archie? Você não disse que ele estava sendo irritante? Ela franziu a testa.

— Ele ainda é o m ais… favorável.

— E os outros? — perguntei, com hesitação, sem ter certeza de que queria saber. — São o quê?

Sua testa se enrugou.

— Incrédulos, na m aior parte do tem po.

Olhei na direção deles. Estavam olhando em direções diferentes, exatam ente com o na prim eira vez que os vi. Só que agora eram quatro; a irm ã perfeita de cabelo cor de bronze era m inha, ao m enos naquela hora. — Eles não gostam de m im — conj ecturei.

— Não é isso — discordou ela, m as seus olhos estavam inocentes dem ais. — Eles não entendem por que não posso deixar você sozinho. Eu franzi a testa.

— Nem eu.

Ela sorriu.

— Você não é com o ninguém que eu conheça. Você m e fascina. Parte de m im teve certeza de que ela estava zom bando de m im , a parte que não conseguia fugir do fato de que eu era a pessoa m ais entediante que eu conhecia. — Não consigo entender isso — falei.

— Com as vantagens que tenho — m urm urou ela, tocando a testa com o dedo —, tenho um a apreensão da natureza hum ana m aior do que a m édia. As pessoas são previsíveis. Mas você… você nunca faz o que espero. Sem pre m e pega de surpresa.

Virei a cara, e olhei na direção de sem pre, para o canto dos fundos do refeitório, onde a fam ília dela se sentava. Suas palavras fizeram com que eu m e sentisse um experim ento científico. Eu queria rir de m im m esm o por esperar outra coisa. — Essa parte é bem fácil de explicar. — Senti seu olhar em m eu rosto, m as ainda não consegui encará-la. Eu tinha certeza de que ela veria o autodesprezo em m eus olhos. — Só que tem m ais — prosseguiu ela —, e não é tão fácil de colocar em palavras…

Eu ainda olhava distraidam ente os Cullen enquanto ela falava. De repente, Roy al se virou para m e olhar. Não olhar, encarar, com os olhos escuros e frios. Eu queria virar a cara, m as fiquei paralisado por conta do antagonism o aberto até Edy the interrom per sua frase no m eio e soltar um barulho de raiva baixinho, quase um sibilar.

Roy al virou a cabeça, e fiquei aliviado por estar livre. Olhei novam ente para Edy the, de olhos arregalados.

— Aquilo era aversão — m urm urei.

A expressão dela era de sofrim ento.

— Desculpe por isso. Ele só está preocupado. Entenda… não é perigoso só para m im se, depois de passar tanto tem po com você tão publicam ente… — Ela olhou para baixo.

— Se?

— Se isto term inar… m al.

Ela apoiou a cabeça nas m ãos, claram ente sofrendo. Senti vontade de reconfortá-la, de dizer que nada de ruim aconteceria a ela, m as não sabia que palavras usar. Autom aticam ente, estiquei a m ão para tocar o cotovelo dela, que estava usando só um a cam iseta de m anga com prida. Na m esm a hora o frio passou para a m inha m ão. Ela não se m exeu, e, enquanto eu estava ali parado, com ecei a perceber que o que ela disse deveria m e dar m edo. Esperei que o m edo viesse, m as só o que senti foi m ágoa pela dor dela. Ela ainda estava com a cabeça apoiada entre as m ãos. Tentei falar num tom de voz norm al.

— E você tem que ir em bora agora?

— Tenho. — Ela baixou as m ãos. Fiquei com a m inha no antebraço dela. Ela olhou para o ponto onde nos tocávam os e suspirou. De repente, seu hum or m udou e ela sorriu. — Deve ser m elhor assim . Ainda terem os que aguentar quinze m inutos daquele film e horrível na aula de biologia. Acho que não suporto m ais. Dei um pulo e puxei a m ão. Archie, m ais alto do que pensei, o cabelo só um a som bra no couro cabeludo, os olhos escuros com o tinta, apareceu de repente atrás do om bro de Edy the.

Edy the o cum prim entou sem tirar os olhos de m im . — Archie.

— Edy the — respondeu ele, im itando-a com um tom de deboche. A voz dela era um tenor suave, aveludada com o a dela.

— Archie, Beau. Beau, Archie. — Ela nos apresentou, um sorriso torto na cara. — Oi, Beau. — Seus olhos brilharam com o diam antes negros, m as o sorriso era sim pático. — Que bom finalm ente conhecer você. — Com um a leve ênfase no finalmente.

Edy the disparou um olhar som brio para ele.

Não foi difícil acreditar que Archie era um vam piro. A sessenta centím etros de m im . Com olhos escuros e fam intos. Senti um a gota de suor escorrer pela m inha nuca.

— Ah, oi, Archie.

— Está pronta? — perguntou ele.

A voz dela estava fria.

— Quase. Encontro você no carro.

Ele saiu sem dizer m ais nada; seu andar era tão fluido, tão sinuoso, que pensei em dançarinos de novo, em bora não fosse tão hum ano assim . Engoli em seco.

— Devo dizer “divirtam -se” ou é o sentim ento errado? — “Divirtam -se” serve tão bem quanto qualquer outra coisa. — Ela sorriu. — Então, divirtam -se. — Tentei parecer anim ado, m as é claro que não a enganei.

— Vou tentar. E você, fique bem , por favor.

Eu suspirei.

— Ficar bem em Forks, que desafio.

O m axilar dela se contraiu.

— Para você, é um desafio. Prom eta. — Prom eto tentar ficar bem — recitei. — Eu pretendia lavar roupa… ou é um a tarefa perigosa dem ais? Eu posso cair dentro da m áquina, sei lá. Ela apertou os olhos.

— Tudo bem , tudo bem . Vou m e esforçar.

Ela se levantou, e eu tam bém .

— A gente se vê am anhã. — Eu suspirei.

Ela deu um sorriso m elancólico.

— Parece m uito tem po para você, não é?

Eu assenti m al-hum orado.

— Estarei lá de m anhã — prom eteu ela, e andou até o m eu lado, tocou de leve nas costas da m inha m ão e se virou para ir em bora. Fiquei olhando até ela desaparecer.

Eu não queria m esm o ir à aula e pensei em ser saudável e m atar, m as decidi que seria irresponsabilidade. Eu sabia que, se desaparecesse agora, McKay la e os outros iam concluir que fui com Edy the. E Edy the estava preocupada com o tem po que passam os j untos publicam ente… se as coisas dessem errado. Eu m e recusei a pensar no que isso podia querer dizer e no quanto seria doloroso. Só pensei nas form as pelas quais podia tornar as coisas m ais seguras para ela. O que queria dizer ir à aula.

Eu tinha certeza — e achava que ela tam bém — que o dia seguinte m udaria tudo para nós. Ela e eu… se íam os ficar j untos, tínham os que enfrentar isso. Não podíam os ficar tentando nos equilibrar na beirada precária desse “quase j untos”. Cairíam os para um lado ou para o outro, e tudo dependia dela. Eu queria m ergulhar de cabeça, antes m esm o que tivesse escolhido conscientem ente, e estava determ inado a ir até o fim . Porque não havia nada m ais apavorante para m im , m ais excruciante, do que a ideia de nunca m ais vê-la. Não tê-la ao m eu lado na aula de biologia não aj udou m uito m inha concentração. A tensão e a eletricidade não estavam presentes, m as m inha m ente estava m ergulhada dem ais no dia seguinte para eu prestar atenção. Na educação física, McKay la pareceu ter m e perdoado. Disse que esperava que eu m e divertisse em Seattle. Expliquei cuidadosam ente que tinha cancelado a viagem por problem as na picape.

Ela ficou m al-hum orada de repente de novo.

— Vai levar Edy the ao baile?

— Não. Eu falei que não vou ao baile.

— O que vai fazer então?

Menti, alegrem ente.

— Lavar roupa, e depois tenho que estudar para a prova de trigonom etria, senão vou tom ar bom ba.

Ela franziu a testa.

— Edy the vai aj udar você a “estudar”?

Consegui ouvir as aspas que ela colocou na últim a palavra. — Quem dera — falei, sorrindo. — Ela é m uito m ais inteligente que eu. Mas foi passar o fim de sem ana fora com o irm ão. — Era engraçado com o as m entiras estavam vindo com m ais naturalidade do que de costum e. Talvez porque eu estivesse m entindo por outra pessoa, não por m im . McKay la se anim ou.

— Ah. Sabe de um a coisa, você ainda pode ir ao baile com nosso grupo. Seria legal. Vam os todos dançar com você — prom eteu ela. A im agem m ental da cara de Jerem y deixou m eu tom m ais cortante do que o necessário.

— Eu não vou ao baile, McKay la, está bem ?

— Tudo bem — disse ela com rispidez. — Foi só um a proposta. Quando a aula de educação física term inou, fui para o estacionam ento sem entusiasm o nenhum . Não queria ir para casa a pé na chuva, só que tam bém não conseguia im aginar com o Edy the teria pegado m inha picape. Mas havia algum a coisa im possível para ela?

E ali estava, na m esm a vaga em que ela estacionara o Volvo de m anhã. Balancei a cabeça, incrédulo, enquanto abria a porta e via a chave na ignição. Havia um a folha de papel branco dobrada no banco. Eu a peguei e fechei a porta antes de ler. Duas palavras estavam escritas em sua caligrafia elegante. Tom e cuidado.

O rugido da picape m e assustou, e eu ri de m im m esm o. Quando cheguei em casa, a porta estava trancada, o cadeado, aberto, com o eu deixara pela m anhã. Lá dentro, fui direto para a lavanderia. Estava exatam ente com o eu a deixara tam bém . Procurei m inha calça j eans e, depois de encontrá-la, verifiquei os bolsos. Vazios. Talvez afinal eu tivesse pendurado a chave, pensei, balançando a cabeça.

Charlie estava distraído no j antar, preocupado com algum a coisa do trabalho, im aginei, ou talvez com um j ogo de basquete, ou talvez só estivesse curtindo a lasanha. Era difícil adivinhar com Charlie.

— Sabe de um a coisa, pai… — com ecei, interrom pendo seus devaneios. — Que foi, Beau?

— Acho que tem razão sobre Seattle. Acho que vou esperar até que Jerem y ou outra pessoa possa ir com igo.

— Ah — disse ele, surpreso. — Ah, tudo bem . Então, quer que eu fique em casa? — Não, pai, não m ude seus planos. Tenho um as cem coisas para fazer… dever de casa, lavar a roupa… Preciso ir à biblioteca e ao m ercado. Vou entrar e sair o dia todo… Vá e divirta-se.

— Tem certeza?

— Absoluta, pai. Além disso, o freezer está ficando perigosam ente sem peixe. Estam os com quantidade pra só dois ou três anos. Ele sorriu.

— É fácil conviver com você, Beau.

— Posso dizer o m esm o de você — falei, rindo. O som da m inha gargalhada foi estranho, m as ele não pareceu perceber. Senti-m e tão culpado por enganá-lo que quase aceitei o conselho de Edy the e disse a ele onde estaria. Quase. Enquanto executava a tarefa fácil de dobrar as roupas, m e perguntei se, com essa m entira, eu estava escolhendo Edy the em detrim ento do m eu pai. Afinal, eu a estava protegendo e deixando que ele enfrentasse… exatam ente o quê, eu não sabia. Eu desapareceria? A polícia encontraria algum … pedaço de m im ? Eu sabia que não conseguia avaliar o quanto isso seria arrasador para ele, que perder um filho, m esm o um que ele não viu m uito na últim a década, era um a tragédia m aior do que eu conseguia entender.

Mas, se eu contasse que estaria com Edy the, se a im plicasse no que viesse em seguida, com o isso aj udaria Charlie? A perda ficaria m ais suportável se ele tivesse alguém para culpar? Ou só o colocaria em m ais perigo? Eu m e lem brei da raiva no olhar que Roy al lançou para m im hoj e. Lem brei-m e dos olhos pretos cintilantes de Archie, dos braços de Eleanor, com o linhas longas de aço, e de Jessam ine, que, por um m otivo que eu não conseguia definir, era a m ais assustadora de todos. Eu queria m esm o que m eu pai soubesse de algum a coisa que fosse fazer com que eles se sentissem am eaçados? A única coisa que realm ente poderia aj udar Charlie seria se eu grudasse um bilhete na porta am anhã dizendo Mudei de ideia, depois entrasse no carro e fosse para Seattle. Eu sabia que Edy the não ficaria com raiva, que parte dela torcia exatam ente para isso.

Mas tam bém sabia que eu não escreveria esse bilhete. Não conseguia nem m e im aginar fazendo isso. Quando ela chegasse, eu estaria esperando. Acho que eu estava sim escolhendo-a. E apesar de saber que devia m e sentir m al, errado, culpado, arrependido, não era assim que eu m e sentia. Talvez porque não parecesse um a escolha.

Mas tudo isso seria para o caso de as coisas irem m al, e eu tinha quase noventa por cento de certeza de que não iriam . Parte da certeza era por eu ainda não conseguir sentir m edo de Edy the, nem quando tentava im aginá-la com o a Edy the com dentes com pridos e afiados do m eu pesadelo. Eu estava com o bilhete no bolso, e fiquei pegando-o para reler repetidas vezes. Ela queria que eu tom asse cuidado. Dedicou bastante esforço pessoal ultim am ente para garantir m inha sobrevivência. Não era assim que ela era? Quando todas as m edidas de segurança estivessem fora da j ogada, não era essa parte dela que venceria? A roupa não era o m elhor trabalho para m anter m inha m ente ocupada. Por m ais que eu tentasse m e concentrar na Edy the que conhecia, na que am ava, eu não conseguia deixar de im aginar com o acabar mal podia ser. Eu j á tinha visto m uitos film es de terror e tinha noções preconcebidas, e não parecia o pior j eito de as coisas acontecerem . A m aioria das vítim as parecia inerte e inconsciente enquanto era… sugada. Mas aí, m e lem brei do que Edy the disse sobre ursos, e acho que a realidade de ataques vam piros não era m uito parecida com a versão de Holly wood.

Mas era Edythe.

Fiquei aliviado quando ficou tarde o bastante para ser adm issível ir para a cam a. Eu sabia que não conseguiria dorm ir com tanta loucura na cabeça, então fiz um a coisa que nunca fizera. Deliberadam ente tom ei rem édio para gripe, sem necessidade — do tipo que m e nocauteava por um as boas oito horas. Eu sabia que não era a escolha m ais responsável, m as o dia seguinte j á seria bem com plicado sem que eu estivesse exausto por não ter dorm ido além de todo o resto. Enquanto esperava que o rem édio fizesse efeito, ouvi o CD de Phil de novo. Os gritos fam iliares foram estranham ente reconfortantes, e, em algum m om ento no m eio, eu apaguei.

***

Acordei cedo, tendo dorm ido profundam ente e sem sonhar graças a m eu uso desnecessário do rem édio. Em bora estivesse descansado, fiquei agitado e nervoso, e quase entrei em pânico em alguns m om entos. Tom ei banho e m e vesti em cam adas de roupa por puro hábito, apesar de Edy the ter prom etido sol. Dei um a olhada rápida pela j anela; Charlie j á havia saído e um a cam ada fina de nuvens brancas com o algodão cobria o céu, m as parecia ser tem porário. Com i sem sentir o gosto, lim pei tudo correndo depois que term inei. Eu tinha acabado de escovar os dentes quando um a batida baixinha m e fez voar escada abaixo. Minhas m ãos pareceram de repente grandes dem ais para a tranca sim ples, e dem orei um segundo, m as finalm ente abri a porta, e ali estava ela. Respirei fundo. Todo o nervosism o sum iu e fiquei totalm ente calm o. Ela no início não sorriu; seu rosto estava sério, até cauteloso. Mas ela m e olhou de cim a a baixo e sua expressão se aliviou. Ela riu e disse: — Bom dia!

— Qual é o problem a? — Olhei para baixo para m e certificar de que não tinha esquecido nada de im portante, com o os sapatos ou a calça. — Nós com binam os. — Ela riu de novo.

Ela estava com um suéter caram elo com decote profundo, um a cam iseta branca por baixo e calça j eans. Meu suéter era exatam ente do m esm o tom , apesar de ter gola careca, assim com o m inha cam iseta branca. Minha calça j eans tam bém era do m esm o tom de azul. Só que ela parecia um a m odelo, e eu sabia que eu não.

Tranquei a porta de casa enquanto ela seguia para a picape. Ela esperou ao lado da porta do carona com um a expressão de m artírio que era fácil entender. — Fizem os um acordo — lem brei-lhe enquanto destrancava a porta e abria para ela.

Ela m e lançou um olhar som brio ao entrar.

Eu tam bém entrei e tentei não fazer um a careta quando liguei o m otor, que ganhou vida com m uito barulho.

— Para onde? — perguntei.

— Coloque o cinto. Já estou nervosa.

Revirei os olhos, m as fiz o que ela pediu.

— Para onde? — repeti.

— Pegue a um -zero-um norte.

Foi surpreendentem ente difícil m e concentrar na estrada ao sentir o olhar dela em m eu rosto. Com pensei dirigindo com m ais cautela do que de costum e pela cidade ainda adorm ecida.

— Você pretende deixar Forks antes do anoitecer? — Esta picape é velha o bastante para ser avó do Volvo. Tenha respeito. Apesar do pessim ism o dela, logo estávam os fora dos lim ites da cidade. Um a grossa vegetação rasteira e a floresta densa substituíram os gram ados e casas. — Vire à direita na um -um -zero — instruiu ela assim que eu estava prestes a perguntar. Obedeci em silêncio. — Agora vam os seguir até o final da estrada asfaltada.

Pude ouvir um sorriso em sua voz, m as estava com m edo dem ais de sair da estrada e provar que ela tinha razão para olhar e m e certificar. — E o que tem lá, no final do asfalto? — perguntei.

— Um a trilha.

— Vam os andar?

— Isso é um problem a? — Ele deu a im pressão de que esperava m ais. — Não. — Tentei parecer confiante. Mas, se ela achava que m inha picape era lenta…

— Não se preocupe, são só uns oito quilôm etros e não estam os com pressa. Oito quilôm etros. Não respondi, para que ela não ouvisse o pânico na m inha voz. Quanto eu andei no sábado anterior? Um quilôm etro e m eio? E quantas vezes consegui tropeçar naquela distância? Isso seria hum ilhante. Seguim os em silêncio por algum tem po. Eu estava im aginando qual seria a expressão dela na vigésim a vez que eu caísse de cara no chão. — No que está pensando? — perguntou ela, com im paciência depois de alguns m inutos.

Menti de novo.

— Só m e perguntando aonde estam os indo.

— É um lugar aonde gosto de ir quando o tem po está bom . — Nós dois olham os pela j anela para as nuvens finas.

— Charlie disse que hoj e faria calor.

— E você disse a Charlie o que ia fazer? — perguntou ela. — Não.

— Mas deve ter dito algum a coisa para Jerem y sobre irm os j untos no m eu carro a Seattle — disse ela, pensativa.

— Não.

— Ninguém sabe que você está com igo? — Agora ela estava com raiva. — Isso depende… Im agino que você tenha contado a Archie, não? — Isso é m uito útil, Beau — rebateu ela.

Fingi não ter ouvido.

— É por causa do tem po? É transtorno afetivo sazonal? Forks deixou você tão deprim ido que ficou suicida?

— Você disse que podia causar problem as para você… se nós estivéssem os j untos publicam ente — expliquei.

— Então você estava preocupado com os problem as que pode causar a mim… se você não voltar para casa? — A voz dela ainda estava irritada, com um sarcasm o am argo.

Assenti, m antendo os olhos na estrada.

Ela m urm urou algum a coisa baixinho, falando tão rápido que não consegui entender.

Fiquei em silêncio pelo resto da viagem . Eu conseguia sentir as ondas de fúria e reprovação vindas dela e não consegui pensar no j eito certo de pedir desculpas quando não tinha nada a lam entar.

A estrada term inou em um a pequena placa de m adeira. Consegui ver a trilha estreita que entrava na floresta. Estacionei no acostam ento e saí, sem saber o que fazer porque ela estava irritada e eu não tinha m ais a direção com o desculpa para não olhar para ela.

Agora estava quente, o dia m ais quente desde que eu chegara a Forks, era quase sufocante sob as nuvens. Tirei o suéter e j oguei dentro do carro, feliz por ter vestido a cam iseta por baixo — em especial se eu ainda tinha oito quilôm etros de cam inhada pela frente.

Ouvi a porta dela bater e vi que ela tam bém tinha tirado o suéter e prendido o cabelo em um coque desgrenhado. Ela agora só estava com um a blusa fina. Estava de frente para m im , olhando a floresta, e consegui ver as form as delicadas das om oplatas dela quase curvadas com o asas sob a pele pálida. Os braços eram tão finos; era difícil acreditar que continham a força que eu sabia que havia ali.

— Por aqui — disse, olhando para m im por sobre o om bro, os olhos ainda irritados. Ela entrou na floresta escura diretam ente a leste da picape. — A trilha? — perguntei, tentando esconder o pânico na m inha voz enquanto contornava correndo a picape para acom panhá-la. — Eu disse que havia um a trilha no final da estrada, e não que íam os pegá-la. — Não vam os pela trilha? É sério?

— Não vou deixar você se perder.

Ela se virou então, com um sorriso debochado, e não consegui respirar. Eu nunca tinha visto tanta pele dela. Os braços pálidos, os om bros estreitos, as clavículas com aparência frágil, os vazios vulneráveis acim a, o pescoço de cisne, a curva gentil dos seios (não fique olhando, não fique olhando) e as costelas que eu quase conseguia contar debaixo do algodão fino. Ela era perfeita dem ais, percebi com um a onda esm agadora de desespero. Não havia com o essa deusa pertencer a m im .

Ela m e encarou, chocada com m inha expressão torturada. — Quer ir para casa? — perguntou, falando m ais baixo, um a dor diferente da m inha saturando sua voz.

— Não.

Avancei até estar bem a seu lado, ansioso para não perder um segundo sequer das horas contadas que tinha com ela.

— Qual é o problem a? — perguntou ela, a voz gentil. — Não sou bom de cam inhada — respondi. — Você vai precisar de m uita paciência.

— Sei ser paciente… se m e esforçar m uito. — Ela sorriu, sustentando m eu olhar, tentando quebrar m eu hum or pessim ista repentino. Tentei sorrir tam bém , m as consegui sentir que o sorriso não foi convincente. Ela analisou m eu rosto.

— Vou levar você para casa — prom eteu, m as não consegui entender se a prom essa era incondicional ou restrita a um a partida im ediata. Obviam ente, ela achava que era m edo da m inha m orte im inente que m e incom odava, e fiquei feliz por ser a única pessoa cuj a m ente ela não conseguia ouvir. — Se quiser que eu atravesse os oito quilôm etros pela selva antes do pôr do sol, é m elhor com eçar a andar — falei, com azedum e. Ela franziu o cenho para m im , lutando para entender m eu tom e m inha expressão. Desistiu depois de um m om ento e seguiu para a floresta. Não foi tão difícil quanto eu tem ia. A m aior parte do cam inho era plana, e ela pareceu satisfeita de seguir m eu ritm o. Duas vezes, tropecei em raízes, m as em cada um a ela esticou a m ão e segurou m eu cotovelo antes que eu caísse. Quando ela m e tocava, m eu coração disparava, com o sem pre. Vi a expressão dela na segunda vez que aconteceu e tive certeza de que ela conseguia ouvir. Tentei não olhar para ela; cada vez que eu olhava, sua beleza m e enchia de tristeza. Na m aior parte do tem po, andam os em silêncio. De vez em quando, ela m e fazia um a pergunta qualquer que não incluíra nos dois últim os dias de interrogatório. Perguntou-m e sobre m eus aniversários, m eus professores na escola, m eus anim ais de estim ação da infância — e tive que adm itir que depois de m atar três peixes seguidos, desisti de criá-los. Ela riu disso, m ais alto do que eu estava acostum ado, e os ecos tilintados voltavam em m eio às árvores. A cam inhada tom ou boa parte da m anhã, m as ela não dem onstrou im paciência. A floresta se espalhava à nossa volta em um labirinto de árvores idênticas, e com ecei a ficar com m edo de não encontrarm os o cam inho de volta. Ela estava perfeitam ente à vontade no labirinto verde, sem j am ais aparentar dúvida quanto à direção que tom ávam os.

Depois de várias horas, a luz verde que se infiltrava pelas copas das árvores ficou am arela. O dia ficou ensolarado, com o prom etido. Pela prim eira vez desde que com eçam os, senti em polgação de novo.

— Ainda não chegam os? — perguntei.

Ela sorriu por causa da m udança no m eu hum or. — Quase. Está vendo aquela claridade ali?

Olhei a floresta densa.

— Hm m m , deveria?

— Talvez sej a cedo dem ais para os seus olhos. — Hora de ir ao oftalm ologista. — Eu suspirei e ela sorriu. Mas então, depois de m ais uns cem m etros, pude ver nitidam ente um clarão nas árvores adiante, um brilho que era esbranquiçado e não esverdeado. Acelerei o ritm o, e ela m e deixou seguir na frente e foi atrás sem fazer barulho. Cheguei à beira da fonte de luz e passei por cim a da últim a franj a de sam am baias, entrando no lugar m ais lindo que j á vira. A cam pina era pequena, perfeitam ente redonda e cheia de flores silvestres — violetas, am arelas e brancas. Em algum lugar perto dali, pude ouvir o som borbulhante de um riacho. O sol estava a pino, enchendo o círculo de um a névoa de luz cor de m anteiga. Andei devagar pela relva m acia, pelas flores e pelo ar quente e encantador. Depois daquele prim eiro m inuto de espanto, eu m e virei, querendo partilhar isso com ela, m as Edy the não estava atrás de m im , onde pensei que estivesse. Girei o corpo, procurando com um súbito sobressalto. Por fim , encontrei-a, ainda sob a som bra densa da floresta, na m argem da clareira, observando-m e com olhos cautelosos, e m e lem brei do m otivo de estarm os ali. O m istério de Edy the e o sol, que ela prom eteu explicar para m im hoj e. Dei um passo para trás com a m ão esticada na direção dela. Seus olhos estavam cautelosos, relutantes; estranham ente, m e fizeram pensar em m edo de palco. Sorri para encoraj á-la e com ecei a andar na direção dela. Ela ergueu a m ão num alerta e eu parei, oscilando sobre os calcanhares. Edy the respirou fundo, fechou os olhos e cam inhou em direção ao brilho intenso do sol do m eio-dia.