Vida e Morte
22. Esconde-Esconde
— O QUE FOI? — eu tinha perdido o controle da voz. Estava sem inflexão, indiferente.
Jessam ine ficou m e olhando. Mantive a expressão vazia e esperei. Os olhos dela se desviaram do rosto de Archie para o m eu, sentindo o caos. Eu sabia o que Archie tinha visto.
Um a atm osfera de paz surgiu ao m eu redor. Eu não lutei contra. Usei-a para m anter as em oções sob controle.
Archie tam bém se recuperou. O rosto dele voltou à expressão norm al. — Nada — disse ele, a voz incrivelm ente calm a e convincente. — Só a m esm a sala de antes. — Ele olhou para m im e se concentrou pela prim eira vez. — Você quer café da m anhã?
— Vou com er no aeroporto. — Eu tam bém estava calm o. Quase com o se estivesse pegando o sentido adicional de Jessam ine, consegui sentir o desespero escondido de Archie para m e tirar da sala para que ele pudesse ficar sozinho com ela. Para contar a ela que eles estavam fazendo algum a coisa de errado, que iam fracassar.
Archie ainda estava concentrado em m im .
— Sua m ãe está bem ?
Tive que engolir um a onda de bile. Eu só podia seguir o roteiro que planej ei m ais cedo.
— Minha m ãe estava preocupada — falei, a voz m onótona. — Queria voltar para casa. Tudo bem . Eu a convenci de ficar na Flórida por enquanto. — Que bom .
— É — concordei roboticam ente.
Eu m e virei e andei lentam ente até o quarto, sentindo os olhos deles m e seguindo por todo o cam inho. Fechei a porta e fiz o que podia. Tom ei banho e m e vesti com roupas que cabiam . Vasculhei m inha bolsa até achar a m eia cheia de dinheiro. Eu a esvaziei no m eu bolso.
Fiquei ali por um m inuto, olhando para o nada, tentando pensar em coisas que podia pensar. Tive um a ideia.
Eu m e aj oelhei ao lado da m esinha de cabeceira e abri a gaveta de cim a. Por baixo do exem plar da Bíblia, havia folhas de papel de carta e um a caneta. Peguei um a folha de papel e um envelope na gaveta.
“Edy the”, eu escrevi. Minha m ão estava trem endo. As letras estavam quase ilegíveis.
Eu te am o.
Desculpe de novo. Desculpe.
Ela está com a m inha m ãe e eu tenho que tentar. Sei que pode não dar certo. Lam ento tanto.
Não fique com raiva de Archie e nem de Jessam ine. Se eu conseguir m e livrar deles, vai ser um m ilagre. Diga a eles que agradeço. Principalm ente a Archie. E, por favor, não vá atrás dela. É o que ela quer. Não consigo suportar a ideia de m ais alguém se m achucar por m inha causa, principalm ente você. É a única coisa que posso pedir agora. Por m im .
Não lam ento ter conhecido você. Nunca vou lam entar am ar você.
Me perdoe.
Beau.
Dobrei o papel em três partes e guardei no envelope. Ela acabaria encontrando. Eu esperava que ela entendesse. Esperava que perdoasse. E, m ais do que tudo, esperava que ouvisse.
Quando voltei para a sala, eles estavam prontos. Fiquei sentado sozinho dessa vez no banco traseiro do carro. Jessam ine m e olhou pelo espelho quando achou que eu não repararia. Ela m e m anteve calm o, e gostei disso.
Archie estava encostado na porta do passageiro, o rosto virado para Jessam ine, m as eu sabia que estava m e olhando pela visão periférica. O quanto ele viu? Estava esperando que eu tentasse algum a coisa? Ou estava concentrado nos gestos da rastreadora?
— Archie? — perguntei.
Ele estava cauteloso.
— Sim ?
— Escrevi um bilhete para m inha m ãe — falei, lentam ente. — Você daria para ela? Deixaria na casa dela?
— Claro, Beau. — A voz dele estava cautelosa, da form a com o se falava com alguém de pé em um peitoril. Os dois conseguiam m e ver desm oronando. Eu tinha que m e controlar m elhor.
Chegam os ao aeroporto rapidam ente. Jessam ine estacionou no centro do quarto andar da garagem ; o sol não chegava tão fundo do prédio de concreto. Não precisam os sair das som bras enquanto seguíam os para o term inal. Era no term inal quatro, o m aior, o m ais confuso. Talvez isso aj udasse. Eu os conduzi pela prim eira vez, por conhecer m ais o am biente do que eles. Pegam os o elevador para o terceiro pavim ento, onde os passageiros desem barcavam . Archie e Jessam ine passaram um longo tem po olhando o quadro de em barque. Eu podia ouvi-los discutindo os prós e contras de Nova York, Atlanta, Chicago. Lugares que eu não conhecia. E j am ais conheceria. Tentei não pensar na m inha fuga. Ficam os sentados em um a fila com prida de cadeiras perto dos detectores de m etal, e m eu j oelho não parava de balançar. Jessam ine e Archie fingiam olhar as pessoas, m as só estavam m e olhando. Cada centím etro que eu m e m exia na cadeira era seguido de um olhar rápido de canto do olho deles. Era im possível. Eu devia correr? Eles ousariam m e deter fisicam ente com tanta gente em volta? Ou só iriam atrás? O que quer que eu fizesse, teria que decidir a hora certa. Se aguardasse até Edy the e Carine estarem perto, Archie teria que esperá-las, certo? Mas eu não podia deixar que chegassem perto dem ais. Eu tinha certeza de que Edy the não se im portaria com as testem unhas hum anas quando com eçasse a correr atrás de m im .
Parte de m im conseguiu fazer essas avaliações calculadas. A outra parte estava m uito ciente de que Edy the estava quase chegando. Com o se todas as células do m eu corpo estivessem m e puxando para ela. Isso tornou tudo pior. Vi-m e tentando pensar em desculpas para ficar, para vê-la prim eiro e depois fugir. Mas isso era im possível se eu quisesse ter chance de fugir. Por várias vezes, Archie ofereceu-se para m e acom panhar ao café da m anhã. Mais tarde, eu disse. Agora não.
Olhei o quadro de chegadas, observando enquanto um voo depois de outro pousava no horário. O voo de Seattle se aproxim ava cada vez m ais do alto do quadro.
E então, quando eu só tinha trinta e cinco m inutos para escapar, os núm eros m udaram . O avião dela estava dez m inutos adiantado. Eu não tinha m ais tem po. Peguei o envelope em branco no bolso e entreguei para Archie. — Você entrega isso para ela?
Ele assentiu, pegou a carta e botou na m ochila. — Acho que vou com er agora — falei.
Archie se levantou.
— Vou com você.
— Você se im porta se Jessam ine for com igo? — perguntei. — Estou m e sentindo m eio… — Não term inei a frase. Meus olhos eram turbulentos o bastante para transm itir o que não falei.
Jessam ine se levantou. Os olhos de Archie estavam confusos, m as, com o vi, para m eu alívio, não havia suspeita neles. Ele devia estar atribuindo a m udança em sua visão a algum a m anobra da rastreadora e não a um a traição m inha. Ele não estava m e observando, estava observando Joss. Jessam ine andou em silêncio ao m eu lado, a m ão na base de m inhas costas, com o se m e guiasse. Fingi não ter interesse nas prim eiras lanchonetes do aeroporto, m inha cabeça procurando algum a coisa, qualquer coisa. Tinha que haver um a j anela, um a oportunidade que eu pudesse usar. Vi um a placa e tive um a ideia. Inspirada no desespero. Havia um lugar para onde Jessam ine não m e seguiria. Eu tinha que ir rápido, antes que Archie visse algum a coisa. — Im porta-se? — perguntei a Jessam ine, indicando a porta. — Volto logo.
— Estarei aqui — prom eteu ela.
Assim que passei pela entrada sem porta e sum i, eu saí correndo. Era um a solução ainda m elhor do que a prim eira em que pensei. Eu m e lem brava daquele lugar. Meus passos aceleraram . O único lugar para onde Jessam ine não m e seguiria: o banheiro m asculino. Eles costum avam ter duas entradas, que norm alm ente eram próxim as. Meu prim eiro plano, entrar atrás de outra pessoa, j am ais teria dado certo. Mas aquele lugar, eu j á estivera ali. E m e perdi um a vez, porque a outra saída era do outro lado, em um corredor diferente. Eu não podia ter planej ado m elhor. Eu j á estava no corredor agora, disparando até os elevadores. Se Jessam ine ficasse onde disse que estaria, eu nunca entraria em sua linha de visão. Não olhei para trás enquanto corria. Era m inha única chance e, m esm o que ela estivesse atrás de m im , eu precisava continuar. As pessoas olhavam , m as não pareciam chocadas dem ais. Havia m uitos m otivos para alguém correr em um aeroporto. Disparei até os elevadores e enfiei a m ão entre as portas que se fechavam de um elevador cheio que estava descendo. Eu m e esprem i entre passageiros irritados e olhei para ter certeza de que o botão para o prim eiro andar fora pressionado. Já estava aceso, e as portas se fecharam .
Assim que as portas se abriram novam ente, eu saí, causando m urm úrios irritados atrás de m im . Dim inuí o passo enquanto passava pela segurança perto da esteira de bagagem e voltei a correr devagar quando as portas de saída entraram em m eu cam po de visão. Eu não tinha com o saber se Jessam ine j á estava m e procurando. Eu só teria segundos se ela estivesse seguindo m eu cheiro. Pulei para as portas autom áticas, quase m e chocando contra o vidro quando elas se abriram devagar dem ais.
Junto ao m eio-fio abarrotado de gente, não havia nenhum táxi à vista. Eu não tinha tem po. Archie e Jessam ine ou estavam prestes a perceber que eu sum ira ou j á haviam se dado conta disso. Eles m e encontrariam num piscar de olhos.
Um m icro-ônibus branco estava fechando as portas a pouca distância de m im . — Espere! — gritei, correndo, acenando para o m otorista. — Este é o m icro-ônibus para o Hy att — disse o m otorista num a confusão enquanto abria as portas.
— Sim — gritei —, é para lá que eu vou. — Subi correndo a escada. Ele ergueu a sobrancelha para m im por causa da m inha falta de bagagem , m as deu de om bros, sem se incom odar em perguntar. A m aioria dos lugares estava vaga. Sentei o m ais distante possível dos outros passageiros e olhei pela j anela prim eiro para a calçada, depois para o aeroporto, que se afastava. Não conseguia parar de im aginar Edy the, onde ela pararia, na beira da estrada, quando descobrisse o final do m eu rastro. Não se descontrole ainda, eu disse para m im m esm o. O caminho a percorrer é longo.
Minha sorte continuava. Na frente do Hy att, um casal que parecia cansado pegava a últim a m ala no porta-m alas de um táxi. Pulei para fora do m icro-ônibus e corri para o táxi, deslizando para o banco de trás. O casal cansado e o m otorista do m icro-ônibus m e olharam .
Dei o endereço da m inha m ãe à taxista surpresa. — Preciso chegar lá o m ais rápido possível.
— Isso fica em Scottsdale — reclam ou ela.
Atirei quatro notas de vinte no banco da frente. — Isso basta?
— Claro, garoto, sem problem a.
Encostei no banco e cruzei os braços. A cidade com eçou a passar por m im , m as não olhei pela j anela. Eu tinha que lutar para m anter o controle. Não havia sentido em desm oronar agora, não aj udaria em nada. De form a im provável, eu fugi. Agora faria tudo possível pela m inha m ãe. Meu cam inho estava determ inado. Eu só precisava segui-lo.
Assim , em vez de entrar em pânico, fechei os olhos e passei a viagem de vinte m inutos com Edy the.
Im aginei que eu estava no aeroporto para recebê-la. Visualizei com o eu ficaria bem no lim ite da linha am arela, a prim eira pessoa que ela veria quando entrasse no longo corredor depois dos portões. Ela andaria rápido dem ais no m eio dos outros passageiros, e eles ficariam olhando porque ela era graciosa dem ais. Ela dispararia pelos últim os m etros, de um j eito nada hum ano, e j ogaria os braços ao redor da m inha cintura. E eu não m e daria ao trabalho de tom ar cuidado. Perguntei-m e aonde nós iríam os. Para algum lugar ao norte, para que ela pudesse sair durante o dia. Ou talvez para algum lugar m uito afastado, para que pudéssem os nos deitar ao sol j untos de novo. Im aginei-a na praia, sua pele cintilando com o o m ar. Não im portaria por quanto tem po tivéssem os de nos esconder. Ficar preso em um quarto de hotel com ela seria o paraíso. Eram tantas coisas que eu ainda queria saber sobre ela. Eu podia ouvi-la falar para sem pre, j am ais dorm ir, j am ais deixar de estar a seu lado. Podia ver seu rosto com tanta clareza agora… quase ouvir a voz dela. E, apesar de tudo, por um segundo m e senti feliz. Estava tão envolvido em m eus devaneios escapistas que perdi a noção dos segundos.
— Ei, qual era m esm o o núm ero?
A pergunta da taxista destruiu m inha fantasia. O m edo que controlei por alguns m inutos voltou a assum ir o controle.
— Cinquenta e oito, vinte e um . — Minha voz parecia estrangulada. A taxista olhou para m im com o se estivesse com m edo de que eu estivesse tendo um ataque ou coisa assim .
— Então, chegam os. — Ela estava ansiosa para m e ver fora de seu carro, provavelm ente esperando que eu não pedisse o troco. — Obrigado — sussurrei. Não havia necessidade de ter m edo, lem brei a m im m esm o. A casa estava vazia. Eu tinha que correr; m inha m ãe m e esperava, apavorada, dependendo de m im .
Corri para a porta, pegando autom aticam ente a chave na calha. Estava escuro lá dentro, vazio, norm al. O cheiro era tão fam iliar que quase m e deixou incapacitado. Parecia que m inha m ãe devia estar perto, no outro aposento, m as eu sabia que não era verdade.
Corri até o telefone, acendendo a luz da cozinha ao passar. Ali, no quadro branco, havia um núm ero de dez dígitos escrito com um a caligrafia pequena e elegante. Meus dedos se atrapalharam com o teclado, com etendo erros. Tive que desligar e discar novam ente. Dessa vez, concentrei-m e som ente nos botões, apertando com cuidado cada um deles. Consegui. Segurei o fone no ouvido com a m ão trêm ula. Só tocou um a vez.
— Alô, Beau — atendeu a voz tranquila. — Que rapidez. Estou im pressionada. — Minha m ãe está bem ?
— Perfeitam ente bem . Não se preocupe, Beau, não tenho problem a com ela. A não ser que você não tenha vindo sozinho, é claro. — A voz leve, divertida. — Estou sozinho. — Nunca estivera m ais só em toda a m inha vida. — Muito bom . Agora, sabe o estúdio de balé bem na esquina da sua casa? — Sim . Sei com o chegar lá.
— Bem , então o verei em breve.
Eu desliguei.
Corri da sala, passei pela porta e saí para o calor m atinal. Pelo canto do olho, quase pude ver m inha m ãe de pé na som bra do eucalipto grande onde eu brincava quando criança. Ou aj oelhada j unto ao pequeno trecho de terra em volta da caixa de correio, o cem itério de todas as flores que ela tentou cultivar. As lem branças eram m elhores do que qualquer realidade que eu veria hoj e. Mas corri para longe delas.
Eu m e sentia lento, com o se estivesse correndo em areia m olhada; não parecia conseguir im pulso suficiente no concreto. Tropecei várias vezes, caí um a vez, equilibrando-m e com as m ãos, arranhando-as na calçada, e depois m e levantando e caindo de novo. Mas enfim consegui chegar à esquina. Só m ais um a rua agora; eu corri, o suor escorrendo por m eu rosto, arfando. O sol estava quente em m inha pele, brilhante dem ais enquanto se refletia no concreto branco e m e cegava.
Quando virei a últim a esquina e entrei na Cactus, pude ver o estúdio, com o eu m e lem brava. O estacionam ento em frente estava vazio, as persianas das j anelas, arriadas. Não consegui correr m ais. Eu não conseguia respirar; o esforço e o m edo levaram a m elhor sobre m im . Pensei em m inha m ãe para m anter m eus pés em m ovim ento, um à frente do outro.
À m edida que m e aproxim ava, pude ver a placa do lado de fora da porta. Era m anuscrita num papel rosa-shocking; dizia que o estúdio estava fechado para as férias de prim avera. Toquei a m açaneta, girando-a com cuidado. Estava destrancada. Lutei para tom ar fôlego e abri a porta. O saguão estava escuro e vazio, frio, o ar-condicionado zum bindo. As cadeiras de plástico m oldado estavam em pilhadas j unto às paredes e o carpete estava úm ido. O salão de dança a oeste estava escuro, pude ver pela j anela de observação aberta. O salão de dança a leste, o m aior, o da visão de Archie, estava ilum inado. Mas as persianas estavam fechadas nas j anelas. O terror se apoderou de m im com tanta força que fiquei aprisionado nele. Não consegui fazer com que m eus pés avançassem . E então, a voz da m inha m ãe m e cham ou.
— Beau? Beau?
O m esm o tom de pânico histérico. Corri para a porta, para o som da sua voz. — Beau, você m e assustou! Nunca m ais faça isso com igo! — A voz continuava enquanto eu entrava na sala com prida de teto alto. Olhei à m inha volta, tentando descobrir de onde vinha sua voz. Eu a ouvi rir e girei para a direção do som .
Ali estava ela, na tela da TV, afagando m eu cabelo, aliviada. Era o Dia de Ação de Graças e eu tinha 12 anos. Tínham os ido visitar m inha avó na Califórnia, no ano antes de ela m orrer. Um dia fom os à praia e eu m e curvei dem ais na beira do píer. Ela viu m eus pés agitados, tentando recuperar o equilíbrio. “Beau? Beau?”, gritou para m im , com m edo.
E depois, a tela da TV ficou azul.
Virei-m e lentam ente. A rastreadora estava im óvel perto da saída dos fundos, então eu ainda não a havia notado. Na m ão, tinha um controle rem oto. Nós nos encaram os por um longo m om ento e ela sorriu. Ela veio na m inha direção, ficou a bem poucos m etros e passou por m im para colocar o controle ao lado do vídeo. Virei-m e com cuidado para observá-la. — Desculpe por isso, Beau, m as não é m elhor que sua m ãe realm ente não tenha que se envolver? — A voz dela era gentil.
E, de repente, eu entendi. Minha m ãe estava segura. Ainda estava na Flórida. Não recebera m eu recado. Nunca ficara apavorada por causa dos olhos verm elho-escuros que m e encaravam agora. Não estava sofrendo. Estava segura.
— Sim — respondi, m inha voz saturada de alívio. — Não parece com raiva por eu tê-lo enganado. — Não estou.
Meu súbito surto de adrenalina m e deu coragem . O que im portava agora? Logo estaria term inado. Charlie e m inha m ãe nunca seriam prej udicados, nunca teriam nada a tem er. Eu m e sentia quase tonto de alívio. Um a parte analítica de m inha m ente m e alertou que eu estava perigosam ente perto de surtar de estresse, m as enlouquecer parecia um a boa opção no m om ento. — Que estranho. Você está m esm o falando sério. — Seus olhos escuros m e avaliaram com interesse. As íris eram quase pretas, só com um toque de rubi nas bordas. Com sede. — Em um a coisa tenho que concordar com esse seu bando esquisito, vocês, hum anos, podem ser bem interessantes. Acho que entendo o que é tão atraente em observar vocês. É incrível, alguns parecem não ter nenhum senso de egoísm o.
Ela estava parada a pouca distância de m im , os braços cruzados, m e olhando com curiosidade. Não havia am eaça em seu rosto nem em sua atitude. Ela era de aparência m uito com um , sem nada de extraordinário no rosto ou no corpo. Só a pele branca, as olheiras a que eu estava acostum ado. Vestia um a cam isa azul-clara de m angas com pridas e j eans desbotados. — Im agino que vá m e dizer que seus am igos o vingarão, não é? — perguntou ela, com esperança, ao que m e pareceu.
— Eu pedi para não fazerem isso.
— E o que sua garota achou disso?
— Não sei. — Era estranham ente fácil conversar com ela. — Eu lhe deixei um a carta.
— Mas que rom ântico, um a últim a carta. E acha que ela vai honrá-la? — Sua voz agora era um pouco m ais dura, um a sugestão de sarcasm o desfigurando o tom educado.
— Espero que sim .
— Hm m . Bem , nossas esperanças então diferem . Vej a bem , tudo isso foi m eio fácil dem ais, rápido dem ais. Para ser franca, estou decepcionada. Esperava um desafio m uito m aior. E, afinal, só precisei de um pouco de sorte. Esperei em silêncio.
— Quando Victor não conseguiu pegar seu pai, fiz com que descobrisse m ais sobre você. Não tinha sentido correr pelo planeta perseguindo-o quando eu podia confortavelm ente esperar em um lugar da m inha preferência. Depois que Victor m e deu as inform ações de que eu precisava, decidi vir para Phoenix para fazer um a visita à sua m ãe. Eu tinha ouvido você dizer que ia para casa. De início, nunca im aginei que estivesse falando sério. Mas então pensei bem . Os hum anos podem ser m uito previsíveis; eles gostam de estar em lugares fam iliares. “E não seria a tram a perfeita ir para o últim o lugar que deveria quando estivesse se escondendo, para o lugar onde você disse que estaria? “Mas é claro que eu não tinha certeza, era só um palpite. Em geral tenho um a sensação sobre a presa que estou caçando, um sexto sentido, se preferir assim . Ouvi seu recado quando fui à casa da sua m ãe, m as é claro que eu não podia saber de onde você tinha ligado. Foi m uito útil ter seu núm ero, m as você podia estar na Antártida, pelo que eu sabia, e o j ogo não daria certo a não ser que você estivesse por perto.
“Depois, suas am igas pegaram um avião para Phoenix. Victor os estava m onitorando para m im , naturalm ente; em um j ogo com m uitos participantes, eu não podia trabalhar sozinha. E então, eles m e disseram o que eu esperava, o que senti, que você estava aqui, afinal de contas. Eu estava preparada; j á tinha visto seus encantadores film es caseiros. E assim , foi sim plesm ente um a questão de blefe.
“Muito fácil, entende, nada à altura dos m eus padrões. Então, vej a bem , estou esperando que você estej a errado sobre a garota. Edy the, não é?” Não respondi. A bravata dim inuía. Senti que ela estava chegando ao fim do m onólogo, cuj o obj etivo não entendi. Por que explicar para m im ? Qual era a glória em vencer um hum ano fraco? Eu não sentia necessidade de m e vangloriar para cada cheesebúrguer que conquistava.
— Você se im portaria m uito se eu deixasse um a carta m inha para Edy the? Ela deu um passo para trás e tocou num a pequena câm era de vídeo digital equilibrada cuidadosam ente no alto do aparelho de som . Um a luzinha verm elha indicava que j á estava rodando. Ela a aj ustou algum as vezes, am pliando o quadro.
— Acho que ela não vai resistir a m e perseguir depois que vir isto. Isso explicava a cena toda. Não era para m im . Olhei para a lente da câm era.
Minha m ãe estava em segurança, m as Edy the, não. Tentei pensar em qualquer coisa que eu pudesse fazer para im pedir que isso acontecesse, para im pedir que o vídeo chegasse às m ãos dela, m as eu sabia que não era rápido o bastante para chegar à câm era sem que ela m e pegasse.
— Posso estar errada sobre o nível de interesse dela — prosseguiu Joss. Obviam ente, você não é interessante o bastante para ela decidir ficar com você. Então… vou ter que tornar isso m uito ofensivo, não vou? Ela sorriu para m im e se virou para sorrir para a câm era. Ela deu um passo na m inha direção, ainda sorrindo. — Antes de com eçarm os…
Eu sabia que ia m orrer. Achei que estivesse preparado. Não considerei nenhum a outra versão além de que ela m e m ataria, beberia m eu sangue e fim . Havia um a versão diferente, afinal.
Senti-m e entorpecido, congelado.
— Vou contar um a história, Beau. Um a vez, m uito tem po atrás, m inha presa fugiu de m im . Chocante, eu sei! Só aconteceu um a vez, então você pode im aginar o quanto isso m e assom bra. Foi um a situação parecida, de m uitas form as. Havia um garoto hum ano delicioso, que tinha um cheiro até m elhor que o seu, sem querer ofender, m as só um a vam pira o protegia. Devia ter sido um a refeição bem fácil. No entanto, subestim ei a protetora do garoto. Quando ela soube que eu estava atrás do am iguinho dela, roubou-o do sanatório onde trabalhava, você consegue im aginar a degradação? Ter um em prego hum ano para ter com ida? — Ela balançou a cabeça, decrescente. — Com o eu dizia, ela o tirou do sanatório, e quando o libertou, deixou-o em segurança. Ele era bem im portante para ela, m as era m uito especial por si só. Cem anos antes, teria sido queim ado pelas visões que tinha. Nos anos 1920, esse tipo de gente era levado para sanatórios para tratam entos de choque. Pobre garoto, ele nem pareceu reparar na dor da transform ação. Quando ele abriu os olhos, parecia que nunca tinha visto o sol. A velha vam pira o tornou um novo vam piro forte, e então não havia m ais m otivos para que eu tocasse nele, não havia m ais sangue para eu apreciar. — Ela suspirou. — Eu destruí a velha por vingança. — Archie! — sussurrei.
— Sim , seu am igo. Eu fiquei tão surpresa ao vê-lo na clareira. Foi por isso que contei m inha história, para dar conforto a eles. Eu vou ter você, m as eles estão com ele. A única vítim a que m e escapou, na verdade, um a honra. “Ainda lam ento nunca ter sentido o sabor...”
Ela deu outro passo na m inha direção. Agora, estava a centím etros de distância. Inclinou o rosto para perto de m im , esticando-se na ponta dos pés para roçar o nariz na lateral do m eu pescoço. O toque da pele fria m e deu vontade de m e encolher, m as eu não podia m e m exer.
— Acho que você serve — disse ela. — Mas ainda não. Vam os nos divertir prim eiro, depois ligo para os seus am igos e lhes digo onde podem encontrá-lo, j unto com m eu recadinho.
Eu ainda estava entorpecido. A única coisa que estava com eçando a conseguir sentir era m eu estôm ago, dando um nó de tanto enj oo. Olhei para a câm era, e era com o se Edy the j á estivesse assistindo.
A rastreadora recuou um passo e com eçou a circular, despreocupadam ente, com o se estivesse tentando ter um a visão m elhor de um a estátua em um m useu. Seu rosto ainda estava am istoso enquanto ela decidia por onde com eçar. O sorriso foi crescendo até a boca ser um rasgo cheio de dentes. Ela se inclinou para a frente e se agachou.
Não vi que parte dela m e acertou, foi rápido dem ais. Ela virou um a m ancha, houve um estalo alto e m eu braço direito de repente ficou pendurado com o se não estivesse m ais ligado ao cotovelo. A últim a coisa foi a dor, subiu pelo m eu braço um longo segundo depois.
A caçadora estava olhando de novo agora, m as o rosto não tinha voltado ao norm al, era basicam ente todo dentes. Ela esperou que a dor m e atingisse, viu-m e ofegar e m e encolher ao redor do braço quebrado. Antes m esm o que eu pudesse sentir todo o com eço da dor, enquanto ainda estava aum entando, ela virou outra m ancha, e, com m ais estalos, algum a coisa m e derrubou contra a parede; a barra oscilou nas m inhas costas e os espelhos se estilhaçaram .
Um choram ingo estranho e anim alesco escapou por entre m eus dentes. Tentei inspirar, e foi com o se dez facas perfurassem m eus pulm ões. — É um belo efeito, não acha? — perguntou ela, o rosto am istoso novam ente. Tocou em um a das linhas que seguia do ponto onde bati na parede. — Assim que vi este lugar, eu soube que era o local certo para m eu film e. Visualm ente dinâm ico. E com tantos ângulos; eu não ia querer que Edy the perdesse nada. Não a vi se m over, m as houve outro estalo, e m eu indicador esquerdo com eçou a latej ar.
— Ainda de pé — disse ela, e riu.
O estalo seguinte foi bem m ais alto, com o um a detonação abafada. A sala parece voar por m im , com o se eu estivesse caindo por um buraco. A dor m e atingiu na m esm a hora que bati no chão.
Engasguei com o grito que estava tentando sair pela m inha garganta, lutando com a bile que inundava m eu esôfago. Não havia ar suficiente, não consegui encher os pulm ões. Um gem ido estranho e sufocado pareceu vir do fundo do m eu tronco.
Meu corpo cuspiu autom aticam ente o vôm ito para eu conseguir respirar, ainda que respirar parecesse estar rasgando m inhas entranhas. A dor do m eu braço quebrado latej ava ao fundo agora; m inha perna era o palco. Essa dor ainda estava aum entando. Eu estava caído no chão em um a poça de vôm ito, m as não conseguia m exer nada.
Ela estava de j oelhos ao lado da m inha cabeça agora, e a luz verm elha brilhava na m ão dela.
— Hora do seu close, Beau.
Eu tossi m ais ácido da garganta, chiando.
— Agora eu gostaria de um a retratação. Você pode fazer isso por m im ? Se m e fizer um favor, eu acelero tudo. Parece j usto? Meus olhos não conseguiam se concentrar no rosto dela. A luz verm elha piscante parecia m uito enevoada.
— Diga para Edy the o quanto dói — disse ela. — Diga que quer vingança. Você m erece. Ela botou você nisso. De um j eito m uito real, é ela quem está m achucando você aqui. Tente convencê-la.
Meus olhos se fecharam .
Ela levantou m inha cabeça com um a delicadeza surpreendente, em bora o m ovim ento tenha gerado pontadas lancinantes de tortura pelos m eus braços e costelas.
— Beau — disse ela, suavem ente, com o se eu estivesse dorm indo e ela, tentando m e acordar. — Beau, você consegue fazer isso. Diga para Edy the vir atrás de m im .
Ela m e sacudiu de leve, e um som com o um suspiro vazou dos m eus pulm ões.
— Beau, querido, você ainda tem tantos ossos, e os grandes podem ser quebrados em tantos lugares. Faça o que quero, por favor. Olhei para o rosto fora de foco dela. Não era realm ente um a proposta. Nada que eu dissesse agora m e salvaria. E havia tanto em j ogo. Com cuidado, balancei a cabeça um a vez. Talvez Edy the soubesse o que eu queria dizer.
— Não quer gritar — disse ela com um a voz cantarolada esquisita. — Devem os fazer com que grite?
Esperei o estalo seguinte.
Mas ela levantou delicadam ente m eu braço bom e levou m inha m ão aos lábios. A dor seguinte quase não foi dor em com paração ao resto. Ela poderia ter arrancado m eu dedo, m as só m ordeu. Os dentes nem foram fundo. Eu nem reagi, m as ela deu um pulo e voou longe. Minha cabeça bateu no chão, e m inhas costelas quebradas gritaram . Eu a vi, estranham ente alheia enquanto andava pelo outro lado da sala, rosnando e balançando a cabeça de um lado para outro. Ela tinha deixado a câm era ao lado da m inha cabeça, ainda ligada. A prim eira dica do que ela tinha feito foi o calor. Meu dedo estava tão quente. Fiquei surpreso de conseguir sentir isso em com paração às dores m aiores. Mas m e lem brei da história de Carine. Eu sabia o que j á tinha sido com eçado. Eu não tinha m uito tem po.
Ela ainda estava tentando se acalm ar; o sangue, esse era o problem a. Ela estava com um pouco do m eu sangue na boca, m as não queria m e m atar ainda, então tinha que lutar contra o frenesi. Estava distraída, m as não seria difícil cham ar a atenção dela.
O calor estava aum entando rápido. Tentei ignorar, ignorar a pontada no peito. Estiquei a m ão e peguei a câm era. Levantei o m ais alto que consegui e bati no chão.
E saí voando para trás, na direção dos espelhos quebrados. O vidro perfurou m eus om bros, m eu couro cabeludo. O im pacto pareceu quebrar novam ente todos os m eus ossos. Mas não foi por isso que gritei. Fogo ardia no m eu dedo m ordido; cham as explodiam na palm a da m inha m ão. Calor subia pelo m eu pulso. Era um fogo que era m ais do que fogo, um a dor que era m ais do que dor.
As outras dores não eram nada. Ossos quebrados não eram dor. Não assim . O grito pareceu vir de algum lugar fora do m eu corpo; era um uivo de anim al de novo.
Meus olhos estavam fixos, grudados, e vi a luz verm elha piscando na m ão da rastreadora. Ela foi rápida e eu falhei.
Mas não m e im portava m ais.
Sangue corria pelo m eu braço e se acum ulava debaixo do cotovelo. As narinas da rastreadora estavam dilatadas, os olhos, enlouquecidos, os dentes, à m ostra. O sangue pingava no chão, m as não consegui ouvir em m eio aos gritos. Aquele era m eu últim o fragm ento de esperança. Ela não conseguiria se controlar agora. Teria que m e m atar. Finalm ente.
Ela abriu bem a boca.
Eu esperei, gritando.