Vida e Morte

Stephenie Meyer · Capítulo 11 de 27

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Vida e Morte

9. Teoria

 

— POSSO… POSSO FAZER só m ais um a pergunta? — gaguej ei depressa enquanto ela acelerava rápido dem ais na rua silenciosa. Eu não estava com pressa de responder à pergunta dela. Ela balançou a cabeça.

— Nós tínham os um acordo.

— Não é exatam ente um a pergunta — argum entei. — Só um esclarecim ento de um a coisa que você disse antes.

Ela revirou os olhos.

— Que sej a rápido.

— Bom … Você disse que sabia que eu não tinha entrado na livraria e que fui para o sul. Estou aqui m e perguntando com o sabia disso. Ela refletiu por um m om ento.

— Pensei que tínham os deixado as evasivas para trás — m urm urei. Ela m e lançou um olhar de foi você que pediu. — Tudo bem , então. Eu segui o seu cheiro.

Não tive resposta para isso. Fiquei olhando pela j anela, tentando absorver a inform ação.

— Sua vez, Beau.

— Mas você não respondeu a m inhas outras perguntas. — Ah, pare com isso.

— Estou falando sério. Você não m e falou com o é que isso funciona, esse negócio de ler a m ente. Você consegue ler a m ente de qualquer um , em qualquer lugar? Com o faz isso? Toda a sua fam ília é capaz de fazer a m esm a coisa? Era m ais fácil falar disso no carro escuro. As luzes dos postes j á tinham ficado para trás, e, no brilho fraco do painel, todas as coisas m alucas pareciam um pouco m ais possíveis.

Parecia que ela tinha a m esm a sensação de não realidade, com o se a norm alidade estivesse pausada enquanto estivéssem os naquele espaço j untos. A voz saiu casual quando ela respondeu.

— Não, só eu. E não consigo ouvir todo m undo, em qualquer lugar. Tenho que estar bem perto. Quanto m ais conhecida for a… “voz” da pessoa, m aior a distância em que posso ouvi-la. Mas ainda assim , só a poucos quilôm etros. — Ela parou pensativam ente. — É m eio com o estar em um a sala enorm e cheia de gente, todas falando ao m esm o tem po. É com o um zum bido, um m urm úrio de vozes ao fundo. Até que m e concentro em um a só voz, e depois o que ela está pensando fica claro.

“Na m aior parte do tem po, fico fora de sintonia. Isso tudo pode ser m uito incôm odo. E é m ais fácil parecer normal — ela franziu a testa quando disse a palavra — quando não estou respondendo sem querer aos pensam entos de alguém , em vez de às palavras.

— Por que acha que não consegue m e ouvir? — perguntei, curioso. Ela olhou para m im , os olhos parecendo perfurar os m eus, com aquela expressão frustrada que eu conhecia bem . Percebi agora que cada vez que ela m e olhava daquele j eito, ela devia estar tentando ouvir m eus pensam entos e fracassando. A expressão relaxou quando ela desistiu.

— Não sei — m urm urou. — Talvez sua m ente não funcione da m esm a m aneira que a m ente dos outros. Com o se seus pensam entos estivessem na frequência AM e eu só pegasse FM. — Ela deu um sorriso para m im , divertindo-se de repente.

— Minha m ente não funciona bem ? Eu sou algum a aberração? — A especulação dela ficou clara. Eu sem pre suspeitei disso e m e constrangi com a confirm ação. — Eu ouço vozes na cabeça e você está com m edo de ser a aberração. — Ela riu. — Não se preocupe, é só um a teoria… — O rosto dela se enrij eceu. — O que nos leva de volta a você.

Franzi a testa. Com o diria isso em voz alta?

— Pensei que tivéssem os deixado as evasivas para trás — lem brou ela delicadam ente.

Desviei os olhos de seu rosto, tentando reunir os pensam entos em palavras, passei os olhos pelo painel… e vi o velocím etro.

— Caram ba! — gritei.

— Qual é o problem a? — perguntou ela, olhando para a direita e para a esquerda em vez de para a frente, para onde devia estar olhando. O carro não desacelerou. — Está indo a 180 por hora! — Eu ainda estava gritando. Lancei um olhar de pânico pela j anela, m as estava escuro dem ais para ver grande coisa. O cam inho só era visível no longo trecho de luz azulada dos faróis. A floresta j unto às m argens da estrada era com o um m uro preto: duro feito um a barreira de aço se derrapássem os na estrada nesta velocidade. — Relaxe, Beau. — Ela revirou os olhos, ainda sem reduzir. — Está tentando nos m atar? — perguntei.

— Não vam os bater.

Tentei m odular a voz.

— Por que estam os com tanta pressa, Edy the? — Eu sem pre dirij o assim . — Ela se virou para m e dar um sorriso. — Não tire os olhos da estrada!

— Nunca sofri um acidente, Beau. Nunca fui nem m ultada. — Ela sorriu e deu um tapinha na testa. — Detector em butido de radar. — Mãos no volante, Edy the!

Ela suspirou, e vi com alívio o ponteiro aos poucos cair para os 130. — Satisfeito?

— Quase.

— Odeio dirigir devagar — resm ungou ela.

— Isso é devagar?

— Chega de com entários sobre com o eu dirij o — rebateu ela. — Ainda estou esperando sua resposta.

Forcei os olhos para longe da estrada à frente, m as não sabia para onde olhar. Era difícil olhar para o rosto dela sabendo a palavra que eu teria que dizer agora. Minha ansiedade deve ter ficado óbvia.

— Prom eto que não vou rir desta vez — disse ela delicadam ente. — Não estou preocupado com isso.

— Com o quê, então?

— Se você vai ficar… chateada. Infeliz.

Ela tirou a m ão do cam bio e esticou na m inha direção, só alguns centím etros. Um a oferta. Olhei para ela rapidam ente, para ter certeza de que tinha entendido, e os olhos dela estavam suaves.

— Não se preocupe com igo — disse ela. — Consigo aguentar. Segurei a m ão dela, e ela envolveu m eus dedos com os dela com delicadeza por um breve segundo, depois baixou de novo até o câm bio. Com cuidado, coloquei a m ão em cim a da dela de novo. Passei o polegar pela parte externa da m ão, do pulso até a ponta do m indinho. A pele era tão macia, ainda que não cedesse. Mas m acia com o cetim . Ainda m ais, até.

— O suspense está m e m atando, Beau — sussurrou ela. — Desculpe. Não sei com o com eçar.

Houve outro longo m om ento de silêncio, só com o zum bido do m otor e o som da m inha respiração pesada. Eu não conseguia ouvir a dela. Acom panhei novam ente a lateral da m ão perfeita dela.

— Por que você não com eça do início? — sugeriu ela, a voz m ais norm al agora. Prática. — É um a coisa que você pensou sozinho ou algum a coisa levou você a essa conclusão, com o um gibi ou um film e?

— Nada assim — falei. — Mas não pensei sozinho. Ela esperou.

— Foi no sábado. Na praia.

Arrisquei um a olhada para a cara dela, que parecia confusa. — Encontrei um a velha am iga da fam ília, Jules. Julie Black. A m ãe dela, Bonnie, e Charlie são am igos desde que eu era bebê.

Ela ainda parecia confusa.

— Bonnie é um a das líderes dos quileutes…

A expressão de confusão pareceu congelar no rosto dela. Era com o se todas as partes planas do rosto tivessem virado gelo. Estranham ente, ela ficou ainda m ais linda assim , um a deusa de novo na luz do painel. Mas não parecia m uito hum ana. Ela ficou parada, e senti que devia explicar o resto.

— Tinha um a m ulher quileute na praia, Sam algum a coisa. Logan fez um com entário sobre você, tentando tirar sarro com a m inha cara. E essa Sam disse que sua fam ília não ia à reserva, só que pareceu que ela queria dizer m ais do que isso. Jules pareceu saber do que a m ulher estava falando, então fiquei sozinho com ela e enchi o saco dela até ela m e contar… as lendas antigas dos quileutes. Fiquei surpreso quando ela falou. O rosto dela estava m uito parado e os lábios quase não se m overam .

— E que lendas eram essas? O que Jules Black disse que eu era? Abri um pouco a boca, m as voltei a fechar.

— O quê?

— Não quero dizer — adm iti.

— Tam bém não é m inha palavra favorita. — O rosto dela se aqueceu um pouco; ela parecia hum ana de novo. — Mas não dizer não faz com que sum a. Às vezes… acho que não dizer torna a palavra m ais poderosa. Eu m e perguntei se ela estava certa.

— Vam pira? — sussurrei.

Ela se encolheu.

Não. Dizer em voz alta não tornava a palavra m enos poderosa. Engraçado com o não parecia m ais idiotice, com o pareceu no m eu quarto. Não parecia que estávam os falando sobre coisas im possíveis, sobre lendas antigas ou film es e livros de terror im becis. Pareceu real. E m uito poderoso.

Seguim os em silêncio por m ais um m inuto, e a palavra vampira pareceu ficar cada vez m aior dentro do carro. Não parecia pertencer a ela, na verdade, era m ais com o se tivesse o poder de m achucá-la. Tentei pensar em algum a coisa, qualquer coisa que apagasse o som da palavra. Antes que eu pudesse pensar em algum a coisa, ela falou. — O que você fez depois?

— Ah. Hã, eu pesquisei um pouco na internet. — E isso o convenceu? — Ela foi bem obj etiva. — Não. Nada se encaixava. A m aior parte das coisas era m eio boba. Mas eu… Parei abruptam ente. Ela esperou, depois olhou para m im , quando não term inei. — Você o quê? — insistiu ela.

— Ah, não im porta, não é? Então eu deixei pra lá. Ela arregalou os olhos, m as de repente os apertou bem na m inha direção. Eu não queria ter que dizer de novo que ela devia olhar para onde estava indo, m as a velocidade passou de 150 agora, e ela parecia totalm ente alheia à estrada curva à nossa frente.

— Hã, Edy the…

— Não importa? — Ela m eio falou, m eio gritou, com a voz aguda e quase… m etálica. — Não importa?

— Não. Não para m im , pelo m enos.

— Você não liga que eu sej a um m onstro? Que eu não sej a humana? — Não.

Ela voltou a olhar para a estrada, com os olhos ainda apertados de raiva. Consegui sentir o carro acelerando em baixo de m im . — Você está chateada. Está vendo, eu não devia ter dito nada — m urm urei. Ela balançou a cabeça e respondeu por entre dentes. — Não, eu prefiro saber o que você está pensando, m esm o que sej a loucura. — Desculpe.

Ela deu um suspiro exasperado, depois ficou em silêncio de novo por alguns m inutos. Passei o polegar lentam ente pela m ão dela. — Em que você está pensando agora? — perguntou ela. A voz estava m ais calm a.

— Hã… em nada, na verdade.

— Fico louca de não saber.

— Não quero… sei lá, ofender você.

— Bota pra fora, Beau.

— Tenho m uitas perguntas. Mas você não precisa responder. Só estou curioso. — Sobre o quê?

— Quantos anos você tem .

— Dezessete.

Fiquei olhando para ela por um m inuto, até parte dos lábios dela se erguerem em um sorriso.

— Há quanto tem po você tem 17 anos? — perguntei. — Há algum tem po — adm itiu ela.

Eu sorri.

— Tudo bem .

Ela m e olhou com o se eu tivesse perdido a cabeça. Mas isso era m elhor. Mais fácil, com ela sendo ela m esm a, sem se preocupar em m e deixar no escuro. Eu gostava de saber das coisas. O m undo dela era onde eu queria estar.

— Não ria… m as com o você pode sair durante o dia? Ela riu m esm o assim .

— Mito.

O som da gargalhada dela foi caloroso. Senti com o se tivesse engolido um raio de sol. Meu sorriso ficou m aior.

— Queim ada pelo sol?

— Mito.

— Dorm ir em caixões?

— Mito. — Ela hesitou por um m om ento e acrescentou, baixinho: — Eu não durm o.

Levei um m inuto para absorver essa inform ação. — Nunca?

— Nunca — m urm urou ela. E se virou para m e olhar com um a expressão pensativa. Sustentei o olhar e m e perdi no tom dourado. Depois de alguns segundos, perdi com pletam ente a linha de pensam ento. De repente, ela virou o rosto e apertou os olhos de novo. — Você ainda não m e fez a pergunta m ais im portante. — A pergunta m ais im portante? — repeti. Não consegui pensar no que ela queria dizer.

— Não está curioso com a m inha dieta? — perguntou ela com tom debochado. — Ah. Isso.

— É. Isso — disse ela friam ente. — Você não quer saber se bebo sangue? Eu fiz um a careta.

— Bom , Jules disse algum a coisa sobre isso.

— Disse?

— Ela disse que vocês não… caçam pessoas. Disse que sua fam ília não devia ser perigosa porque vocês só caçavam anim ais.

— Ela disse que não éram os perigosos? — A voz dela estava profundam ente cética.

— Não exatam ente. Jules disse que vocês não deviam ser perigosos. Mas os quileutes não querem vocês nas terras deles m esm o assim , por segurança. Ela olhou para a frente, m as eu não sabia se estava vendo a estrada. — E aí, ela estava certa? Sobre não caçar pessoas? — Tentei m anter m inha voz o m ais estável possível.

— Os quileutes têm boa m em ória — sussurrou ela. Tom ei isso com o confirm ação.

— Mas não perm ita que isso o deixe com placente — alertou ela. — Eles têm razão em m anter distância de nós. Ainda som os perigosos. — Não entendi.

— Nós… tentam os — explicou ela. A voz foi ficando m ais pesada e m ais lenta. — Em geral, som os m uito bons no que fazem os. Às vezes, com etem os… erros. Eu, por exem plo, m e perm itindo ficar sozinha com você. — Isso é um erro? — Ouvi a tristeza em m inha voz, m as não sabia se ela tam bém tinha percebido.

— Um erro m uito perigoso — m urm urou ela. Nós dois ficam os em silêncio. Olhei os faróis girando com as curvas da estrada. Andavam rápido dem ais; não parecia real, parecia um videogam e. Eu estava ciente de que o tem po passava rapidam ente, com o a estrada escura diante de nós, e senti um m edo pavoroso de nunca ter outra oportunidade de estar com ela assim de novo, abertam ente, sem os m uros entre nós, pelo m enos um a vez. O que ela estava dizendo parecia… um a despedida. Apertei a m ão sobre a dela. Eu não podia perder um m inuto que fosse com ela. — Me conte m ais. — Eu não m e im portava com o que ela diria, só queria ouvir sua voz.

Ela m e olhou rapidam ente, sobressaltada com a m udança em m eu tom de voz. — O que m ais quer saber?

— Me conte por que vocês caçam anim ais em vez de gente — falei. Foi a prim eira pergunta em que consegui pensar. Minha voz soou rouca. Pisquei duas vezes para afastar a um idade dos olhos.

A resposta dela foi em voz baixa.

— Eu não quero ser um m onstro.

— Mas os anim ais não bastam ?

Ela fez um a pausa.

— Não posso ter certeza, m as eu com pararia a viver de tofu e leite de soj a; nós nos dizem os vegetarianos, nossa piadinha particular. Não sacia com pletam ente a fom e, ou m elhor, a sede. Mas nos deixa fortes o suficiente para resistir. Na m aior parte do tem po. — Sua voz ficou agourenta. — Às vezes, é m ais difícil. — Está m uito difícil para você agora? — perguntei. Ela suspirou.

— Está.

— Mas agora você não está com fom e — eu disse, afirm ando e não perguntando.

— Por que pensa assim ?

— Seus olhos. Tenho um a teoria sobre isso. Parece que a cor está ligada ao seu hum or, e as pessoas costum am ficar m ais m al-hum oradas quando estão com fom e, não é?

Ela riu.

— Você é m ais observador do que eu achava. Ouvi o som da risada dela para guardar na m em ória. — Então tudo que eu pensei que vi naquele dia da van. Tudo aquilo aconteceu de verdade. Você segurou a van.

Ela deu de om bros.

— Foi.

— O quanto você é forte?

Ela olhou para m im de rabo de olho.

— Bem forte.

— Tipo, conseguiria levantar duas toneladas?

Ela pareceu m eio abalada com m eu entusiasm o. — Se eu precisasse. Mas não sou de dem onstrações de força. Isso deixa Eleanor com petitiva, e nunca vou ser tão forte assim . — Quanto?

— Sinceram ente, se ela quisesse, acho que conseguiria levantar um a m ontanha sobre a cabeça. Mas eu j am ais diria isso perto dela, porque aí ela teria que tentar. — Ela riu, e foi um som relaxado. Carinhoso.

— Você foi caçar no fim de sem ana com Eleanor? — perguntei quando ela ficou em silêncio de novo.

— Fui. — Ela parou por um segundo, com o se decidindo se diria ou não algum a coisa. — Eu não queria ir, m as era necessário. É um pouco m ais fácil ficar perto de você quando não estou com sede.

— Por que não queria ir?

— Me deixa… angustiada… ficar longe de você. — Seus olhos eram gentis, m as intensos, e pareciam dificultar m inha respiração. — Eu não estava brincando quando lhe pedi para tentar não cair no m ar nem ser atropelado na quinta passada. Fiquei dispersa o fim de sem ana todo, preocupada com você. E depois do que aconteceu esta noite, é um a surpresa que você tenha passado por todo o fim de sem ana incólum e. — Ela balançou a cabeça, depois pareceu se lem brar de algum a coisa. — Bom , não totalm ente incólum e. — Com o é?

— Suas m ãos — lem brou ela. Olhei para as palm as das m ãos, para os arranhões quase curados. Ela não perdia nada.

— Eu caí.

— Foi o que pensei. — Seus lábios se curvaram nos cantos. — Im agino que, sendo você, podia ter sido m uito pior. E essa possibilidade m e atorm entou o tem po todo em que estive fora. Foram três dias m uito longos. Eu dei nos nervos de Eleanor.

— Três dias? Você não voltou hoj e?

— Não, voltam os no dom ingo.

— Então por que não foram à escola? — Eu estava frustrado, quase com raiva ao pensar no quanto a ausência dela m e afetou.

— Bom , você perguntou se o sol m e m achucava, e não m achuca. Mas não posso sair na luz do sol. Pelo m enos, não onde todo m undo possa ver. — Por quê?

— Um dia eu m ostro — prom eteu ela.

Pensei nisso por um m om ento.

— Você podia ter m e telefonado.

Ela ficou confusa.

— Mas eu sabia que você estava bem .

— É, m as eu não sabia onde você estava. Eu… — Hesitei, baixando os olhos. — O quê? — A voz sedosa era tão hipnótica quanto os olhos. — Vai parecer besteira… m as, bem , eu m eio que surtei. Achei que você talvez não voltasse. Que sabia que eu sabia e… fiquei com m edo de você desaparecer. Eu não sabia o que ia fazer. Eu tinha que ver você de novo. — Minhas bochechas com eçaram a ficar quentes.

Ela ficou em silêncio. Olhei para ela, que parecia abalada, com o se algum a coisa a estivesse m achucando.

— Edy the, você está bem ?

— Ah — gem eu ela, baixinho. — Isso é um erro. Não consegui entender a resposta dela.

— O que eu disse?

— Não vê, Beau? Um a coisa é eu ficar infeliz, outra bem diferente é você se envolver tanto. — Ela virou os olhos angustiados para a estrada, suas palavras fluindo quase rápidas dem ais para que eu entendesse. — Não quero ouvir que você se sente assim . É errado. Não é seguro. Vou m achucar você, Beau. Você vai ter sorte se sair vivo.

— Não ligo.

— É um a coisa m uito idiota de se dizer.

— Pode ser, m as é verdade. Já falei, não im porta o que você é. É tarde dem ais. A voz dela soou baixa e ríspida.

— Nunca diga isso. Não é tarde dem ais. Posso fazer as coisas voltarem a ser com o eram . Vou fazer isso.

Fiquei olhando para a frente, feliz de novo pelo cachecol. Meu pescoço era um am ontoado de m anchas verm elhas, eu tinha certeza. — Não quero que as coisas voltem a ser com o eram — m urm urei. Eu m e perguntei se devia afastar a m ão. Mas fiquei parado. Talvez ela esquecesse que estava ali.

— Me desculpe por ter feito isso com você. — A voz dela ardia de arrependim ento.

A escuridão deslizava por nós em silêncio. Percebi que o carro estava indo m ais devagar, e m esm o no escuro reconheci alguns lugares. Estávam os passando pelos lim ites de Forks. Dem orou m enos de vinte m inutos. — Vou ver você am anhã?

— Você quer? — sussurrou ela.

— Mais do que qualquer outra coisa que j á quis. Era patético o quanto as palavras eram verdadeiras. Seria im possível eu bancar o difícil.

Ela fechou os olhos. O carro não se desviou nem um centím etro do centro da pista.

— Então, eu estarei lá — disse ela. — Tenho que entregar um trabalho. Ela olhou para m im , e o rosto estava m ais calm o, m as os olhos estavam perturbados.

De repente, estávam os diante da casa de Charlie. As luzes estavam acesas, m inha picape no lugar dela, tudo com pletam ente norm al. Era com o acordar de um sonho, o tipo de sonho que você não quer que escape, o tipo pelo qual você ficava de olhos apertados, rolava e cobria a cabeça com um travesseiro, tentando encontrar um j eito de voltar para ele. Ela parou o carro, m as eu não m e m exi. — Você guarda m eu lugar no alm oço? — perguntei com hesitação. Fui recom pensado com um sorriso largo.

— Isso é fácil.

— Prom ete? — Não consegui deixar m eu tom leve o bastante. — Prom eto.

Olhei nos olhos dela, e foi com o se ela fosse um ím ã de novo, com o se estivesse m e puxando para ela e eu não tivesse força para resistir. Eu não queria tentar. A palavra vampira ainda estava entre nós, m as era m ais fácil ignorar do que eu acharia possível. O rosto dela era tão insuportavelm ente perfeito que doía de um j eito estranho olhar para ela. Ao m esm o tem po, eu nunca quis afastar o olhar. Eu queria saber se os lábios dela eram tão m acios e sedosos com o a pele da m ão… De repente, a m ão esquerda dela estava ali, com a palm a para fora, a dois centím etros do m eu rosto, m e avisando para recuar, e ela estava encolhida contra a porta do carro, os olhos arregalados e assustados e os dentes trincados. Eu pulei para longe dela.

— Desculpe!

Ela ficou m e olhando por um longo m om ento, e eu podia j urar que não estava respirando. Depois de um tem po, ela relaxou um pouco. — Você tem que tom ar m ais cuidado, Beau — disse ela com a voz seca. Com cautela, com o se fosse feita de vidro, a m ão esquerda tirou a m inha de cim a da direita dela e soltou. Eu cruzei os braços sobre o peito. — Talvez… — com eçou ela.

— Posso fazer ainda m elhor — falei, interrom pendo-a. — Me diga quais são as regras e eu as sigo. O que você quiser de m im . Ela suspirou.

— É sério. Me m ande fazer algum a coisa e eu vou fazer. Arrependi-m e das palavras assim que saíram da m inha boca. E se ela m e pedisse para esquecê-la? Havia algum as coisas que eu não tinha com o fazer. Mas ela sorriu.

— Tudo bem , tem um a coisa.

— Tem ? — perguntei, cauteloso.

— Não vá à floresta sozinho.

Consegui sentir a surpresa no m eu rosto.

— Com o você sabia disso?

Ela tocou a ponta do nariz.

— É sério? Você deve ter um sentido incrível… — Você vai concordar com o que pedi ou não? — interrom peu ela. — Claro, isso é fácil. Posso perguntar por quê? Ela franziu o cenho, e seus olhos estavam sem icerrados ao fitar pela j anela atrás de m im .

— Nem sem pre eu sou a coisa m ais perigosa por lá. E vam os parar por aqui. A súbita frieza na voz dela m e deu um ím peto de estrem ecer, m as tam bém fiquei aliviado. Ela poderia ter pedido um a coisa bem m ais difícil. — Com o quiser.

Ela suspirou.

— Vej o você am anhã, Beau.

Eu sabia que ela queria que eu fosse agora. Abri a porta sem vontade. — Am anhã — eu disse, com ênfase na palavra. Com ecei a sair. — Beau?

Eu m e virei e m e inclinei, desaj eitado, e ela estava inclinada na m inha direção, o rosto pálido de deusa a centím etros do m eu. Meu coração parou de bater. — Durm a bem — disse ela. Seu hálito soprou em m eu rosto; era o m esm o arom a atraente que assom brava o carro, m as de form a m ais concentrada. Eu pisquei, totalm ente perplexo. Ela se afastou.

Dem orei alguns segundos até m eu cérebro se estabilizar e eu conseguir voltar a m e m exer. Saí do carro, m as precisei m e apoiar na porta. Pensei ter ouvido Edy the rir, m as o som foi baixo dem ais para que eu tivesse certeza. Ela esperou até que eu cam baleasse para a porta da frente e depois ouvi o m otor acelerar baixinho. Eu m e virei e vi o carro prata desaparecer na esquina. Percebi que estava m uito frio.

Peguei a chave m ecanicam ente e destranquei a porta. — Beau? — cham ou m eu pai da sala.

— É, pai, sou eu. — Tranquei a porta e fui até lá para vê-lo. Ele estava no sofá favorito, com um j ogo de basquete na TV.

— O film e acabou cedo?

— Está cedo? — Parecia que eu tinha ficado dias com ela… ou talvez só alguns segundos. Não tem po suficiente.

— Ainda não são nem oito horas — disse ele. — O film e foi bom ? — Hã, não m uito, na verdade.

— O que é isso no seu pescoço?

Peguei o cachecol que tinha esquecido e tentei arrancar fora, m as estava enrolado dem ais no m eu pescoço e só m e enforquei. — Hã, eu esqueci de levar casaco e m e em prestaram um cachecol. — Ficou esquisito.

— É, im aginei. Mas esquenta.

— Está tudo bem ? Você está m eio pálido.

— Não estou sem pre m eio pálido?

— Acho que sim .

Na verdade, m inha cabeça estava girando, e eu ainda estava com frio, apesar de saber que a sala estava quente.

Não seria a m inha cara acabar entrando em choque? Controle-se.

— Eu, hã, não dorm i m uito bem ontem — falei para Charlie. — Acho que vou cair na cam a cedo.

— Boa noite, garoto.

Subi a escada devagar, um estupor pesado nublando m inha m ente. Eu não tinha m otivo para estar tão exausto e nem com tanto frio. Escovei os dentes e j oguei água quente no rosto; isso m e fez trem er. Não m e dei nem ao trabalho de m udar de roupa, só tirei os sapatos e subi na cam a de roupa, a segunda vez em um a sem ana. Enrolei-m e no cobertor e lutei contra um a série de pequenos trem ores. Minha m ente girava com o se eu estivesse tonto. Estava cheia de im pressões e im agens, algum as que eu queria ver m elhor, algum as que não queria recordar. A estrada passando rápido dem ais, a luz am arela e fraca do restaurante cintilando no cabelo m etálico dela, a form a dos lábios quando ela sorria… quando franzia a testa… Os olhos de Jerem y se esbugalhando, os faróis vindo na m inha direção, a arm a apontada para o m eu rosto enquanto o suor frio cobria m inha testa. Minha cam a trem eu j unto com igo.

Não, havia coisas dem ais que eu queria lem brar, queria cim entar na m ente, para perder tem po com as coisas desagradáveis. Tirei o cachecol que ainda estava usando e inspirei o arom a dela. Quase im ediatam ente, m eu corpo relaxou e os trem ores pararam . Im aginei o rosto dela, cada ângulo, cada expressão, cada hum or.

Eu tinha certeza de algum as coisas. Prim eiro, Edy the era um a vam pira de verdade. Segundo, havia um a parte dela que m e via com o alim ento. Mas, no final, nada disso im portava. A única coisa que im portava era que eu a am ava, m ais do que im aginei que fosse possível am ar algum a coisa. Ela era tudo que eu queria, a única coisa que eu quereria na vida.