Vida e Morte
4. Convites
EM MEU SONHO, estava m uito escuro, e a luz fraca que havia parecia irradiar da pele de Edy the. Eu não conseguia ver seu rosto, só suas costas enquanto ela se afastava de m im , deixando-m e na escuridão. Por m ais rápido que eu corresse, não conseguia alcançá-la; por m ais alto que gritasse, ela não se virava. Fui ficando m ais e m ais desesperado para chegar até ela, até que a ansiedade m e acordou. Era o m eio da noite, m as não consegui dorm ir de novo pelo que pareceu um longo tem po. Depois disso, ela entrou em m eus sonhos quase todas as noites, m as sem pre fora da cena, nunca ao m eu alcance. O m ês seguinte ao acidente foi inquietante, tenso e, no início, constrangedor. Virei o centro das atenções pelo resto da sem ana, o que achei um saco. Tay lor Crowley ficou superchata, seguindo-m e por toda parte, inventando j eitos hipotéticos de se redim ir. Tentei convencê-la de que o que eu m ais queria dela era que esquecesse tudo aquilo — em especial porque não tinha acontecido nada com igo —, m as ela não desistia. Seguia-m e entre as aulas e se sentava à nossa m esa, agora abarrotada. McKay la e Erica não pareciam estar gostando; olharam m ais torto para ela do que olhavam um a para a outra, o que m e deixou preocupado com a possibilidade de ter ganhado outra fã indesej ada. Com o se gostar do garoto novo fosse a nova m oda.
Ninguém estava preocupado com Edy the; ninguém a seguia e nem pedia o relato dela de testem unha ocular. Eu sem pre a incluía na m inha versão; ela era a heroína, ela havia m e tirado do cam inho e quase fora atropelada tam bém . Mas o que todo m undo dizia era que não tinham percebido que ela estava ali até a van ser afastada.
Eu refleti m uito sobre o m otivo de ninguém m ais tê-la visto parada tão longe, encostada no carro, antes de salvar a m inha vida de form a tão repentina e im possível. Eu só conseguia pensar em um a solução, e não gostei nada dela. Tinha que ser porque m ais ninguém prestava tanta atenção em Edy the. Ninguém a observava da form a com o eu fazia. Era patético e m eio apavorante. As pessoas continuaram evitando Edy the do m esm o j eito de sem pre. Os Cullen e os Hale sentavam -se à m esm a m esa de sem pre, sem com er, conversando entre si. Nenhum deles voltou a olhar na m inha direção. Quando Edy the se sentou ao m eu lado na aula, o m ais distante possível, com o sem pre, pareceu totalm ente inconsciente da m inha presença. Com o se m inha cadeira estivesse vazia. Só vez ou outra, quando seus punhos de repente se fechavam — a pele esticada ainda m ais branca sobre os ossos — é que eu m e perguntava se ela estava tão distraída com o parecia. Eu queria m uito continuar nossa conversa do corredor do hospital, e, no dia seguinte ao acidente, tentei. Ela estava furiosa quando conversam os da prim eira vez. E, apesar de eu querer m uito saber o que aconteceu e de achar que eu m erecia a verdade, eu tam bém sabia que fui bem insistente, considerando que ela tinha acabado de salvar m inha vida e tudo o m ais. Eu achava que não tinha agradecido direito.
Ela j á estava na cadeira quando cheguei à aula de biologia. Nem se virou quando m e sentei, continuou olhando para a frente. Não deu sinais de ter percebido m inha presença.
— Oi, Edy the — falei.
Ela virou a cabeça um centím etro na m inha direção, m as os olhos continuaram grudados no quadro. Balançou a cabeça um a vez e depois desviou o rosto. E esse foi o últim o contato que tive com ela, apesar de ela estar ali, a trinta centím etros de distância, todos os dias. Eu a olhava às vezes, incapaz de m e conter — m as sem pre de longe, no refeitório ou no estacionam ento. Eu vi os olhos dourados ficarem perceptivelm ente m ais escuros dia após dia (e depois dourados de novo, de repente. Aí, a progressão lenta com eçava de novo). Mas, na aula, eu não conseguia ter m ais acesso a ela do que ela perm itia. Foi horrível. E os sonhos continuaram .
Ela desej ava não ter m e tirado do cam inho da van de Tay lor. Eu não conseguia pensar em nenhum a outra explicação. Com o ela m e preferia m orto, estava fingindo que eu estava m orto.
Apesar das m inhas m entiras cabais, o tom de m eus e-m ails deixou m inha m ãe preocupada. Ela ligou algum as vezes, querendo saber se eu estava bem . Tentei convencê-la de que era só a chuva que m e deixava desanim ado. McKay la, pelo m enos, ficou satisfeita com a frieza evidente entre m im e m inha parceira de laboratório. Eu achava que ela estava com m edo de o traum a com partilhado nos ter aproxim ado, talvez. Ela foi ficando m ais confiante, sentando-se na beirada da m inha m esa para conversar antes que com eçasse a aula de biologia, ignorando Edy the com pletam ente, com o ela nos ignorava. A neve desapareceu de vez depois daquele dia perigosam ente gelado. McKay la reclam ou por não ter podido arm ar a grande guerra de bolas de neve, m as ficou satisfeita porque logo seria possível fazer a viagem à praia. Porém , a chuva continuava pesada, e as sem anas se passaram . Eu não percebi que tanto tem po tinha se passado. A m aioria dos dias era igual, cinza, verde e m ais cinza. Meu padrasto sem pre reclam ava que Phoenix não tinha estações, m as, pelo que eu conseguia perceber, Forks era bem pior. Eu não fazia ideia de que a prim avera estivesse perto de aparecer até estar indo para o refeitório com Jerem y em um a m anhã chuvosa. — Ei, Beau — disse ele.
Eu queria sair logo da chuva, m as Jerem y estava andando bem devagar. Fui m ais devagar tam bém , para acom panhá-lo.
— O que está rolando, Jerem y ?
— Eu queria saber se alguém j á convidou você para o baile de prim avera. É a garota que convida.
— Ah. Hã, não.
— Ué. Você quer… Quer dizer, você acha que a McKay la vai te convidar? — Espero que não — falei, talvez um pouco rápido dem ais. Ele m e olhou com surpresa.
— Por quê?
— Eu não vou a bailes.
— Ah.
Andam os m ais um pouco em silêncio. Ele estava pensativo. Eu estava im paciente para sair da chuva.
— Você se im porta se eu disser isso a ela? — perguntou ele. — Não. Acho que é um a boa ideia. Não quero ter que dizer não para ninguém . — Tudo bem .
— Quando é m esm o o baile?
Estávam os perto do refeitório agora. Ele apontou para um pôster am arelo berrante anunciando o baile. Eu nunca tinha reparado, m as estava m eio enrugado nas beiradas e apagado, com o se estivesse ali havia m uito tem po. — No outro sábado — disse ele.
Eu tinha certeza de que Jerem y j á tinha falado algum a coisa quando, na m anhã seguinte, McKay la não estava com o hum or esfuziante de sem pre na aula de inglês. No alm oço, ela se sentou longe de Jerem y e de m im , e não falou quase nada com ninguém . Ficou em silêncio ao andar ao m eu lado para a aula de biologia, m as foi se sentar com o sem pre na beirada da m inha m esa no laboratório. Com o sem pre, fiquei ciente dem ais de Edy the sentada perto, ao alcance da m inha m ão, m as ainda tão distante que podia m uito bem ser produto da m inha im aginação.
— Então — disse McKay la, olhando para o chão e não para m im —, o Jerem y m e disse que você nunca vai a bailes.
— É verdade.
Ela olhou para m im , com expressão m agoada e m eio zangada. Eu ainda nem tinha dito não para ela, m as j á m e sentia culpado. — Ah — disse ela. — Achei que ele podia ter inventado. — Ah, desculpa, não. Por que ele inventaria um a história assim ? Ela franziu a testa.
— Acho que ele quer que eu o cham e.
Eu forcei um sorriso.
— E você devia. Jerem y é gente boa.
Ela deu de om bros.
— Acho que é. — Em seguida, respirou fundo e m e olhou nos olhos com um sorriso rápido e nervoso. — Esse negócio de “não vou a bailes” não m udaria se eu convidasse você para ir?
Com o canto do olho, vi a cabeça de Edy the se virar de repente na m inha direção. Com o se ela tam bém estivesse prestando atenção à m inha resposta. Dem orei tem po dem ais para responder. Eu ainda m e sentia culpado, m as estava m ais distraído. Por que Edy the estava prestando atenção? — Ah, peço desculpas de novo.
O rosto de McKay la se transform ou.
— Seria diferente se outra pessoa convidasse? Edy the teria visto com o McKay la desviou os olhos na direção dela? — Não. E não adianta, de qualquer j eito. Vou estar em Seattle nesse dia. Eu precisava sair da cidade. Dali a dois sábados era o m om ento perfeito para eu ir.
— Tem que ser naquele fim de sem ana? — perguntou McKay la. — Tem . Mas não se preocupe com igo. Você devia cham ar Jerem y. Ele é bem m ais divertido do que eu.
— É, tem razão — m urm urou ela, e se virou para voltar ao lugar dela. Vi os om bros dela penderem para a frente e m e senti péssim o. Fechei os olhos e apertei os dedos nas têm poras, tentando expulsar a postura derrotada de McKay la da m inha cabeça. A Sra. Banner com eçou a falar. Suspirei e abri os olhos.
Edy the estava m e encarando abertam ente, com aquela expressão fam iliar de frustração ainda m ais evidente nos olhos escuros. Sustentei o olhar, surpreso, esperando que ela desviasse o rosto. Mas ela não desviou. Os olhos continuaram grudados nos m eus, com o se estivesse tentando encontrar algum a coisa im portante ali. Tam bém continuei olhando, incapaz de rom per a ligação, m esm o que quisesse. Minhas m ãos com eçaram a trem er. — Srta. Cullen — cham ou a professora, esperando pela resposta a um a pergunta que eu não ouvira.
— O ciclo de Krebs — respondeu Edy the, parecendo relutante ao se virar para a Sra. Banner.
Baixei a cabeça e fingi ler o livro assim que os olhos dela desgrudaram de m im . Fiquei incom odado com a onda de em oção que pulsou por m im , só porque ela por acaso olhou para m im pela prim eira vez em seis sem anas. Não era norm al. Era bem patético, provavelm ente m ais do que isso. Doentio. Eu m e esforcei m uito para não ficar atento a ela pelo resto da aula ou, com o era im possível, pelo m enos não deixar que ela soubesse que eu estava atento a ela. Quando o sinal finalm ente tocou, dei as costas para ela para guardar os livros, esperando que ela saísse de im ediato, com o sem pre. — Beau.
A voz dela não devia ser tão fam iliar para m im , com o se a ouvisse por toda a vida e não um pouco aqui e um pouco ali havia algum as sem anas.
Eu m e virei devagar na direção dela, sem querer sentir o que sabia que sentiria quando olhasse para aquele rosto perfeito dem ais. Tenho certeza de que m inha expressão era de cautela; a dela estava ilegível. Ela não disse nada. — O quê? — perguntei.
Ela só olhou para m im .
— Então… hã, você… está falando com igo ou não? — Não — disse ela, m as os lábios se curvaram em um sorriso, exibindo as covinhas.
— Tudo bem …
Eu afastei o olhar, para as m ãos e depois para o quadro. Era difícil m e concentrar quando eu olhava para ela, e aquela conversa não estava fazendo m uito sentido.
— Desculpe — disse ela, e não havia hum or em sua voz agora. — Tenho sido m uito rude, eu sei. Mas é m elhor assim , pode acreditar. Olhei para ela de novo. Seu rosto estava m uito sério. — Não sei o que você quer dizer.
— É m elhor não serm os am igos — explicou ela. — Confie em m im . Meus olhos se estreitaram . Eu j á ouvira isso antes. Ela pareceu surpresa com a m inha reação.
— O que você está pensando? — perguntou ela. — Acho… que é um a pena você não ter chegado a essa conclusão antes. Teria poupado o arrependim ento.
— Arrependim ento? — Minha resposta pareceu pegá-la de surpresa. — Arrependim ento do quê?
— De não ter deixado a van da Tay lor m e esm agar quando houve a oportunidade.
Ela pareceu chocada. Ficou m e olhando por um m inuto, com olhos arregalados, e quando finalm ente falou, parecia quase furiosa. — Você acha que m e arrependo de ter salvado sua vida? — As palavras saíram baixas, sussurradas, m as bem intensas.
Olhei rapidam ente para a frente da sala, onde duas pessoas ainda estavam . Vi um a olhando para nós. Ela afastou o olhar e eu m e virei para Edy the. — Acho — respondi, a voz tão baixa quanto a dela. — O que m ais pode ser? Parece m eio óbvio.
Ela fez um som estranho: expirou pelos dentes e pareceu um sibilar. Continuava com cara de raiva.
— Você é um idiota — disse ela.
Aquele foi m eu lim ite.
Já era bem ruim eu estar tão obcecado por aquela garota, bem ruim eu pensar nela o tem po todo, sonhar com ela todas as noites. Eu não precisava ficar ali com o o cretino que ela achava que eu era, olhando enquanto ela m e insultava. Peguei m eus livros e pulei da cadeira, sabendo o tem po todo que ela estava certa, eu era um idiota, porque queria ficar, m esm o que tivesse que ouvir m ais agressões vindas dela. Eu tinha que sair da sala o m ais rápido possível, então, claro, tropecei na entrada e quase caí pela porta, deixando os livros se espalharem pelo chão. Fiquei parado por um m om ento, de olhos fechados, pensando em deixá-los para trás. Depois, suspirei e m e abaixei para pegá-los. Edy the estava ali; j á em pilhara m eus livros e os entregou a m im . Peguei-os sem olhar para ela.
— Obrigado — m urm urei.
— Não há de quê — retrucou ela. Ainda com raiva, ao que parecia. Eu m e endireitei rapidam ente e corri para o ginásio sem olhar para trás. A aula de educação física não deixou m eu dia m elhor. Agora, estávam os j ogando basquete. No prim eiro dia, apesar de todo m undo ter m e visto j ogando vôlei, m eus colegas ainda pareciam achar que eu devia ser bom . Não dem orou para eles perceberem . Nunca m e passavam a bola agora, o que era bom , m as, com tanta corrida, eu ainda conseguia causar alguns acidentes a cada j ogo. Aquele dia foi pior do que o anterior porque eu não conseguia m e concentrar nos m eus pés. Eu só conseguia pensar em Edy the.
Com o sem pre, foi um alívio poder ir em bora. Eu m al conseguia esperar para voltar para dentro da picape, sozinho. O carro sofrera danos m ínim os com o acidente. Tive que substituir as luzes de ré, m as só isso. Se a tinta j á não estivesse horrível, talvez eu precisasse fazer algum a coisa nos aranhões novos. Os pais de Tay lor tiveram que vender a van para o desm anche. Meu coração quase parou quando virei a esquina. Um a figura pequena e m agra estava encostada na lateral da m inha picape. Parei de repente e respirei fundo. Era só Erica. Com ecei a andar novam ente.
— Oi, Erica — falei.
— Oi, Beau.
— E aí? — perguntei enquanto ia abrir a porta. Olhei para ela e m e enrolei com a chave. Ela parecia pouco à vontade. — Hã, eu queria saber se você gostaria de ir ao baile de prim avera com igo. Enfiei a chave na fechadura com cuidado.
— Me desculpe, Erica, eu não vou ao baile.
Precisei olhar para ela nessa hora. O rosto dela estava virado para baixo e o cabelo preto escondia os olhos.
— Ah, tá.
— Porque vou para Seattle — acrescentei rapidam ente, tentando fazê-la se sentir m elhor. — É o único dia em que posso ir. Então, você sabe, né. Espero que sej a divertido e tudo.
Ela ergueu o rosto.
— Tudo bem — disse ela, m as a voz estava um pouco m ais alegre agora. — Quem sabe no próxim o.
— Claro — concordei, m as m e arrependi na m esm a hora. Eu esperava que ela não entendesse isso tão literalm ente.
— Tchau — disse ela por cim a do om bro. Ela j á estava fugindo. Eu acenei, m as ela não viu.
Ouvi um risinho baixo.
Edy the estava passando pela m inha picape, olhando para a frente, e a boca não dava nem sinal de sorriso.
Parei por um segundo. Eu não estava preparado para ficar tão perto dela. Estava acostum ado a m e preparar antes da aula de biologia, m as aquilo foi inesperado. Ela continuou andando. Abri o carro num rom pante e pulei para dentro, batendo a porta ruidosam ente. Acelerei o m otor ensurdecedor duas vezes e dei a ré para a rua. Edy the j á estava no carro dela, a duas vagas de distância, passando suavem ente por m im , m e dando um a fechada. Ela parou ali — para esperar pela fam ília, eu supus. Pude ver os quatro se aproxim ando, m as ainda perto do refeitório. Olhei pelo retrovisor. Vi que com eçava a se form ar um a fila. Bem atrás de m im , Tay lor Crowley estava no Sentra usado recém -adquirido, acenando. Eu baixei a cabeça e fingi não a ver. Enquanto eu estava sentado ali, concentrando todos os m eus esforços em não olhar para a m otorista na m inha frente, ouvi um a batida na j anela do carona. Era Tay lor. Olhei novam ente pelo retrovisor, confuso. O carro dela ainda estava ligado, a porta, aberta. Inclinei-m e na cabine para abrir a j anela. Estava dura. Consegui abrir pela m etade, depois desisti.
— Desculpe, Tay lor, não posso andar. Estou preso. — Eu indiquei o Volvo. Era óbvio que não havia nada que eu pudesse fazer. — Ah, eu sei. Eu só queria perguntar um a coisa enquanto estam os atolados aqui. — Ela sorriu.
Qual era o problem a daquela escola? Era algum tipo de pegadinha? Confundir o cara novo?
— Quer ir ao baile de prim avera com igo? — continuou ela. — Eu não estarei na cidade, Tay lor. — Percebi que fui m eio ríspido. Tive que m e lem brar de que não era culpa de Tay lor que McKay la e Erica j á tivessem gasto m inha quota de paciência.
— É, McKay la m e contou — adm itiu ela.
— Então por quê…?
Ela deu de om bros.
— Eu esperava que você só estivesse se livrando dela do j eito m ais fácil. Tudo bem , a culpa era toda dela.
— Desculpe, Tay lor — pedi, não m e sentindo tão m al quanto fiquei quando recusei McKay la e Erica. — Eu não vou ao baile. — Tudo bem — disse ela, sem se deixar afetar. — Ainda tem os o baile dos estudantes.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela estava voltando para o carro. Pude sentir os pontos verm elhos surgindo na m inha cara. À frente, Archie, Roy al, Eleanor e Jessam ine estavam entrando no Volvo. Pelo retrovisor, vi os olhos de Edy the m e encarando. Estavam enrugados nos cantos, e os om bros dela trem iam de tanto rir. Era com o se ela tivesse ouvido tudo que Tay lor disse e achasse m inhas reações hilárias. Apertei m ais o acelerador, pensando no tam anho do dano que o Volvo e o carro preto ao lado dele sofreriam se eu abrisse cam inho para fugir dali. Eu tinha certeza de que m inha picape podia vencer aquela briga. Mas todos estavam dentro do carro, e Edy the saiu em disparada com o m otor quase silencioso.
Tentei m e concentrar em algum a coisa, qualquer coisa, enquanto dirigia. McKay la convidaria Jerem y para o baile? Ele m e culparia se ela não convidasse? Tay lor estava falando sério sobre o baile dos estudantes? Qual seria m inha desculpa quando o dia dele chegasse? Talvez eu pudesse planej ar um a visita à m inha m ãe, ou talvez ela pudesse vir. O que eu faria de j antar? Não com íam os frango j á tinha um tem po.
Mas, cada vez que eu term inava de responder às m inhas próprias perguntas, m inha m ente voltava a Edy the.
Quando cheguei em casa, eu j á não tinha m ais perguntas, então desisti de tentar pensar em outra coisa. Decidi fazer enchiladas de frango, porque isso m e deixaria ocupado por um tem po, e eu não tinha tanto dever assim . Eu tinha que m e concentrar em tudo que precisava cortar, o frango, a cebola e a pim enta. Mas, o tem po todo, eu ficava repensando a aula de biologia, tentando analisar todas as palavras que ela disse para m im . O que ela quis dizer com era m elhor se não fôssem os am igos?
Meu estôm ago se revirou quando entendi o que ela devia estar querendo dizer. Ela devia ter percebido com o eu estava obcecado por ela; eu não devia estar disfarçando m uito bem . Ela não queria dar a entender que eu tinha chance… então não podíam os nem ser am igos… porque ela não queria ferir m eus sentim entos do j eito que feri os de McKay la e Erica hoj e. (Tay lor pareceu bem .) Edy the não queria ter que sentir essa culpa. Porque não estava interessada em m im .
E isso fazia sentido, obviam ente, porque eu não era interessante. Meus olhos estavam com eçando a arder e lacrim ej ar por causa da cebola. Peguei um pano de prato, botei em baixo da torneira e esfreguei nos olhos. Não aj udou m uito.
Eu era sem graça e sabia que era assim . E Edy the era o oposto de sem graça. Isso não tinha nada a ver com o segredo dela, fosse qual fosse, se é que eu m e lem brava daquele m om ento insano com clareza. A essa altura, eu j á estava quase acreditando na história que contei para todo m undo. Fazia bem m ais sentido do que o que pensei ter visto.
Mas ela não precisava de um segredo para ser areia dem ais para o m eu cam inhãozinho. Ela tam bém era brilhante e m isteriosa e linda e com pletam ente perfeita. Se era m esm o capaz de levantar um a van com a m ão, não im portava. De qualquer form a, ela era um a fantasia e eu era o tipo m ais m undano de realidade.
E não tinha problem a nisso. Eu podia deixá-la em paz. Eu a deixaria em paz. Passaria por m inha sentença autoim posta aqui no purgatório e depois, com sorte, um a universidade no sudoeste, ou possivelm ente no Havaí, m e ofereceria um a bolsa de estudos.
Tentei pensar em palm eiras e no sol enquanto term inava o j antar. Charlie pareceu preocupado quando chegou em casa e sentiu o cheiro de pim então, m as relaxou depois da prim eira dentada. Foi um a sensação estranha, m as tam bém foi bom vê-lo com eçar a confiar em m im na cozinha. — Pai — falei quando ele quase havia acabado. — O quê, Beau?
— Hã, eu só queria avisar que vou a Seattle no sábado que vem . Para passar o dia. — Eu não queria pedir perm issão, isso estabeleceria um precedente ruim , m as pareci grosseiro, então acrescentei: — Tudo bem ? — Por quê? — Ele pareceu surpreso, com o se fosse incapaz de im aginar qualquer m otivo que fosse fazer alguém querer sair de Forks. — Bom , eu queria com prar alguns livros, a biblioteca daqui é m uito lim itada. E talvez algum as roupas m ais quentes. — Eu tinha um dinheiro guardado, um a vez que, graças a Charlie, não tive que pagar pelo carro, apesar de a picape exigir um gasto m aior de gasolina do que eu esperava, e as roupas de frio que com prei em Phoenix pareciam feitas por pessoas que nunca passaram por tem peraturas m enores que vinte graus e só ouviram um a descrição de com o devia ser. — Essa picape não deve ter um consum o de gasolina m uito bom — disse ele, ecoando m eus pensam entos.
— Eu sei, vou parar em Montessano e em Oly m pia. E em Tacom a, se for preciso.
— Você vai sozinho?
— Vou.
— Seattle é um a cidade grande. Você pode se perder — avisou ele. — Pai, Phoenix é cinco vezes m aior do que Seattle. E sei usar um m apa, não se preocupe.
— Quer que eu vá com você?
Eu m e perguntei se ele estava m esm o tão preocupado com igo ou se só achava que todos os sábados que tinha m e deixado sozinho eram atos de negligência. Mas devia ser preocupação. Eu tinha certeza de que, na cabeça dele, ele ainda m e via com o um garotinho de cinco anos na m aior parte do tem po.
— Está tudo bem . Não vai ser um dia m uito interessante. — Você vai voltar a tem po para o baile?
Só fiquei olhando para ele até ele entender.
Não dem orou m uito.
— Ah, certo.
— É — eu disse. Não herdei m eus problem as de equilíbrio da m inha m ãe. Na m anhã seguinte, na escola, estacionei o m ais distante possível do Volvo prata. Eu ficaria longe. Não prestaria m ais atenção nela. Ela não teria reclam ação nenhum a de m im de agora em diante.
Quando bati a porta da picape, soltei a chave, e ela caiu num a poça a m eus pés. Enquanto m e abaixava para pegar, um a pequena m ão branca apareceu de repente e pegou a chave antes de m im . Endireitei o corpo rapidam ente e quase bati a cabeça na dela. Edy the Cullen estava bem ali, encostada casualm ente no m eu carro.
— Com o é que você faz isso? — perguntei com surpresa. — Faço o quê? — Ela esticou a m ão com a m inha chave ao falar. Quando fiz m enção de pegá-la, ela a largou na palm a da m inha m ão. — Aparecer do nada desse j eito.
— Beau, não é culpa m inha se você é excepcionalm ente distraído. — A voz dela era só um m urm úrio aveludado, e os lábios seguravam um sorriso. Com o se ela m e achasse hilário.
Com o eu poderia ignorá-la se ela não m e ignorava? Era o que ela queria, não era? Eu, longe do cabelo com prido de bronze dela? Não foi o que ela disse ontem ? Nós não podíam os ser am igos. Então por que ela estava falando com igo? Era sádica? Era essa a ideia dela de diversão, torturar o garoto idiota com o qual ela não tinha com o se im portar?
Fiquei olhando para ela, frustrado. Os olhos estavam claros de novo hoj e, um a cor de m el dourada. Meus pensam entos ficaram confusos e tive que olhar para baixo. Os pés dela estavam a quinze centím etros dos m eus, virados para m im , im óveis. Com o se estivesse esperando um a resposta. Olhei para trás dela, para a escola, e disse a prim eira coisa idiota que m e passou pela cabeça.
— Por que o engarrafam ento de ontem ? Pensei que você estivesse fingindo que eu não existo.
— Ah. Foi por causa da Tay lor. Ela estava m eio que m orrendo para ter um a chance com você.
Eu fiquei olhando para ela.
— O quê? — A irritação pela lem brança do dia anterior apareceu na m inha voz. Eu não achava que Edy the e Tay lor eram am igas. Tay lor tinha pedido…? Não parecia provável.
— E não estou fingindo que você não existe — continuou ela, com o se eu não tivesse falado.
Olhei nos olhos dela de novo, m e esforçando para m anter a concentração, independente do quanto pareciam dourados, do quanto os cílios eram longos nas pálpebras violeta.
— Não sei o que você quer de m im — eu disse para ela. Era irritante com o m eus pensam entos pareciam explodir pelos lábios quando eu estava perto dela, com o se eu não tivesse filtro nenhum . Eu j am ais teria falado assim com qualquer outra garota.
O m eio sorriso divertido desapareceu, e o rosto dela ficou na defensiva de repente.
— Nada — disse ela, rápido dem ais, quase com o se estivesse m entindo. — Então você devia ter deixado a van acabar com igo. Teria sido m ais fácil assim .
Ela ficou m e olhando por um segundo, e, quando respondeu, a voz saiu fria. — Beau, você só fala besteira.
Eu devia estar certo sobre a ideia de tortura. Eu era um j eito de ela passar o tem po naquela cidade chata. Um alvo fácil.
Passei por ela com um a passada larga.
— Espere — disse ela, m as eu m e obriguei a seguir em frente, a não olhar para trás.
— Desculpe, foi grosseria m inha — disse ela ao m eu lado, acom panhando m eus passos apesar de m inhas pernas terem provavelm ente o dobro do tam anho das dela. — Não estou dizendo que não é verdade, m as foi um a grosseria dizer aquilo.
— Por que não m e deixa em paz?
— Eu queria perguntar um a coisa, m as você está m e evitando. Suspirei e andei m ais devagar, apesar de ela não parecer estar com dificuldade para acom panhar.
— Tudo bem . — Eu era um im becil. — O que você quer? — Eu queria saber se, no outro sábado… Sabe, o dia do baile de prim avera… Eu parei e m e virei para ela.
— Você acha isso engraçado?
Ela ficou m e olhando, parecendo indiferente ao chuvisco que caía. Parecia não estar usando m aquiagem nenhum a, nada estava escorrendo e nem m anchado. Claro, o rosto dela era perfeito daquele j eito, naturalm ente. Por um segundo, senti raiva, raiva de ela ter que ser tão linda. Raiva porque a beleza dela a tornou tão cruel. Raiva de ser obj eto da crueldade dela, e apesar de saber disso, não consegui sair andando para longe dela.
A expressão divertida voltou, com a sugestão de covinhas am eaçando surgir nas bochechas.
— Quer por favor m e deixar term inar? — pediu ela.
Vá embora, eu disse para m im m esm o. Mas não m e m exi.
— Eu soube que você vai a Seattle nesse dia e estava pensando se queria um a carona.
Por essa eu não esperava.
— Hã?
— Quer um a carona para Seattle?
Eu não sabia qual seria o final da piada dela.
— Com quem ?
— Com igo, é claro. — Ela enunciou cada sílaba, com o se achasse que eu não falava a m esm a língua que ela.
— Por quê?
Qual era a pegadinha?
— Bom , eu pretendia ir a Seattle nas próxim as sem anas e, para ser sincera, não tenho certeza se sua picape vai aguentar.
Eu finalm ente consegui voltar a andar, m otivado pelo insulto à m inha picape. — Pode rir de m im o quanto quiser, m as deixe m inha picape fora disso — falei. Mais um a vez, ela m e acom panhou com facilidade. — Por que você acharia que estou rindo de você? — perguntou ela. — O convite é genuíno.
— Minha picape é ótim a, obrigado.
— Sua picape consegue chegar a Seattle com um tanque de gasolina? Antes da picape, eu não ligava para nenhum carro, m as conseguia sentir um preconceito contra Volvos se form ando.
— Não entendo com o isso pode ser problem a seu. — O desperdício de recursos não renováveis é problem a de todo m undo — disse ela com afetação.
— Francam ente, Edy the. — Senti um arrepio subir pelo corpo ao dizer o nom e dela em voz alta, e odiei isso. — Eu não consigo entender você. Pensei que não quisesse ser m inha am iga.
— Eu disse que seria m elhor se não fôssem os am igos, e não que eu não queria ser.
— Ah, uau, que legal, agora está tudo m uito claro. — Sarcasm o pesado. Percebi que tinha parado de andar de novo. Olhei para o rosto dela, m olhado de chuva, lim po e perfeito, e m eus pensam entos trem eram e sum iram . — Seria m ais… prudente para você não ser m eu am igo — explicou ela. — Mas estou cansada de tentar ficar longe de você, Beau. Não havia hum or na voz dela agora. Os olhos estavam intensos, apertados, com as longas linhas dos cílios negras sobre a pele. A voz tinha um calor estranho. Eu não conseguia m e lem brar de com o se respirava. — Você vai aceitar m inha carona para Seattle? — perguntou ela, a voz ainda ardente.
Eu não consegui falar, então só balancei a cabeça. Um breve sorriso m odificou o rosto dela, m as logo ela ficou séria de novo. — Você devia mesmo ficar longe de m im — alertou ela. — Vej o você na aula. Ela se virou abruptam ente e voltou pelo cam inho de onde viem os.