Vida e Morte

Stephenie Meyer · Capítulo 3 de 27

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Vida e Morte

1. À Primeira Vista

 

17DE JANEIRO DE2005

 

Minha m ãe m e levou ao aeroporto com as j anelas do carro abertas. Apesar de ser j aneiro em todos os lugares, fazia 24 graus em Phoenix, e o céu era de um azul intenso. Eu estava usando m inha cam iseta preferida — a do Monty Py thon, com as andorinhas e o coco, que m inha m ãe m e deu dois Natais antes. Não cabia m ais direito, m as isso não im portava. Eu não precisaria m ais de cam isetas em pouco tem po.

Na península Oly m pic, no noroeste do estado de Washington, há um a cidadezinha cham ada Forks, quase constantem ente debaixo de um a cobertura de nuvens. Chove m ais nessa cidade insignificante do que em qualquer outro lugar dos Estados Unidos. Foi desse lugar e de suas som bras m elancólicas que m inha m ãe fugiu com igo quando eu tinha apenas alguns m eses de idade. Nessa cidade, eu fui obrigado a passar um m ês a cada verão até ter 14 anos. Foi então que finalm ente dei um ultim ato. Nos últim os três verões, m eu pai, Charlie, passou duas sem anas de férias com igo na Califórnia.

Mas, de algum a form a, acabei exilado em Forks pelo resto dos m eus dias de escola. Um ano e m eio. Dezoito m eses. Parecia um a sentença de prisão. Dezoito m eses, em um presídio de segurança m áxim a. Quando bati a porta do carro ao sair, o barulho foi com o o das grades sendo trancadas. Eu sei, estou sendo m eio m elodram ático. Tenho im aginação hiperativa, com o m inha m ãe gostava de dizer. E, claro, a escolha foi m inha. Exílio autoim posto. O que não tornava as coisas m ais fáceis.

Eu adorava Phoenix. Adorava o sol, o calor seco e a cidade grande e esparram ada. E adorava m orar com m inha m ãe, onde eu era necessário. — Você não precisa fazer isso — disse ela pela centésim a vez antes de eu chegar ao posto de segurança.

Minha m ãe diz que som os tão parecidos que eu poderia usá-la com o espelho para m e barbear. Não é totalm ente verdade, apesar de eu não m e parecer em nada com m eu pai. O queixo dela é pontudo e os lábios são grossos, bem diferente dos m eus, m as tem os exatam ente os m esm os olhos. Nela, são infantis, grandes e azul-claros, o que a faz parecer m inha irm ã, em vez de m ãe. Ouvim os isso o tem po todo e, apesar de fingir não gostar, ela adora. Em m im , o azul-claro fica m enos j uvenil e m ais… indeciso.

Ao olhar para aqueles olhos grandes e preocupados, tão parecidos com os m eus, senti pânico. Eu cuidava da m inha m ãe desde sem pre. Ah, claro que deve ter havido um a época, provavelm ente quando eu ainda usava fralda, em que eu não era responsável pelas contas e nem pela papelada e nem pela cozinha e nem pelo equilíbrio de um m odo geral, m as eu não conseguia m e lem brar desse tem po. Abandonar m inha m ãe cuidando de si m esm a sozinha era m esm o a coisa certa a fazer? Pareceu ser, ao m enos durante os m eses em que lutei para chegar a essa decisão. Mas agora parecia com pletam ente errado. É claro que de uns tem pos para cá ela tem o Phil, então as contas provavelm ente serão pagas na data de vencim ento, haverá com ida na geladeira, gasolina no carro e alguém para quem ela vai poder ligar quando se perder… Ela não precisa m ais tanto de m im .

— Eu quero ir — m enti. Nunca m enti bem , m as vinha contando essa m esm a m entira com tanta frequência ultim am ente que agora parecia quase convincente. — Diga a Charlie que m andei lem branças.

— Vou dizer.

— Verei você em breve — prom eteu ela. — Pode vir para casa quando quiser… Eu volto assim que você precisar de m im .

Mas eu sabia o quanto lhe custaria fazer isso.

— Não se preocupe com igo — insisti. — Vai ser ótim o. Eu te am o, m ãe. Ela m e abraçou com força por um m inuto, depois passei pelos detectores de m etal e ela se foi.

De Phoenix até Seattle são três horas de voo, m ais um a hora em um pequeno avião até Port Angeles, e depois um a hora de carro até Forks. Voar nunca m e incom odou; a hora no carro com Charlie, porém , era m eio preocupante. Charlie foi bem legal com tudo. Parecia realm ente satisfeito que eu, pela prim eira vez, fosse m orar com ele por um período m ais longo. Já tinha feito m inha m atrícula na escola e ia m e aj udar a com prar um carro. Mas ia ser estranho. Não éram os o que se cham aria de extrovertidos — talvez essa sej a um a característica necessária para alguém conviver com m inha m ãe. Além do m ais, o que havia para ser dito? Eu nunca escondi o que achava de Forks.

Quando pousei em Port Angeles, estava chovendo. Não foi um presságio, só era inevitável. Eu j á tinha dado adeus ao sol.

Charlie m e aguardava na radiopatrulha. Eu tam bém esperava por isso. Charlie é o chefe de polícia Swan para o bom povo de Forks. Minha principal m otivação por trás da com pra de um carro, apesar da verba extrem am ente escassa, era que eu odiava andar pela cidade em um carro com luzes verm elhas e azuis no teto. Nada deixa o trânsito m ais lento do que um policial. Saí cam baleando do avião direto para Charlie e um desaj eitado abraço de um braço só.

— É bom ver você, Beau — disse ele, sorrindo enquanto autom aticam ente m e aj udava a m e firm ar. Dem os tapinhas nas costas um do outro, constrangidos, depois dem os um passo para trás. — Você não m udou m uito. Com o está a Renée?

— Mam ãe está ótim a. É bom ver você tam bém , pai. — Eu não podia cham á-lo de Charlie na frente dele.

— Você está bem m esm o com a ideia de deixá-la? Nós dois entendíam os que essa pergunta não era sobre m inha felicidade pessoal. Era para saber se eu estava desviando da responsabilidade de cuidar dela. Foi por esse m otivo que Charlie nunca brigou com m inha m ãe pela m inha guarda; ele sabia que ela precisava de m im .

— Estou. Eu não estaria aqui se não tivesse certeza. — Tudo bem .

Eu tinha só duas bolsas esportivas. A m aior parte das m inhas roupas do Arizona era leve dem ais para o clim a de Washington. Minha m ãe e eu havíam os j untado nossos recursos para com plem entar m eu guarda-roupa de inverno, m as ainda não era m uita coisa. Eu podia carregar as duas bolsas, m as Charlie insistiu em levar um a.

Isso tirou um pouco m eu equilíbrio; não que eu tivesse m uito, principalm ente depois do pico de crescim ento. Meu pé se prendeu na beirada da porta de saída, e a bolsa acertou o cara que estava tentando entrar. — Ah, desculpe.

O cara não era m uito m ais velho do que eu e era bem m ais baixo, m as veio para cim a de m im com o queixo erguido. Consegui ver tatuagens nos dois lados do pescoço. Um a m ulher pequena com o cabelo tingido de preto olhou para m im de form a am eaçadora ao lado dele.

— Desculpe? — repetiu ela, com o se m eu pedido de desculpas tivesse sido ofensivo.

— Hã, é.

E então, a m ulher reparou em Charlie, que estava de uniform e. Charlie não precisou nem dizer nada. Ele só olhou para o suj eito, que deu m eio passo para trás e de repente pareceu bem m ais j ovem , e depois para a garota, cuj os lábios verm elhos grudentos faziam beicinho. Sem dizer um a palavra, eles desviaram de m im e entraram no pequeno term inal.

Charlie e eu dem os de om bros ao m esm o tem po. Era engraçado com o tínham os alguns m aneirism os iguais m esm o não passando m uito tem po j untos. Talvez fosse genético.

— Achei um bom carro para você, baratinho — anunciou Charlie quando j á estávam os de cinto e a cam inho de casa.

— Que tipo de carro? — perguntei, desconfiado do m odo com o ele disse “um bom carro para você” em vez de sim plesm ente “um bom carro”. — Bom , na verdade é um a picape, um Chevy. — Onde o achou?

— Se lem bra da Bonnie Black, de La Push? — La Push é a pequena reserva indígena no litoral próxim o.

— Não.

— Ela e o m arido costum avam pescar com a gente no verão — incentivou Charlie.

Isso explicava por que eu não m e lem brava dela. Eu era bastante com petente em bloquear da m inha m em ória coisas dolorosas. — Ela agora está num a cadeira de rodas — continuou Charlie quando eu não respondi —, não pode m ais dirigir, e ofereceu a picape por um preço baixo. — De que ano é? — Pude ver, pela m udança na expressão dele, que era a pergunta que ele esperava que eu não fizesse.

— Bom , a Bonnie m andou fazer m uita coisa no m otor… Na realidade, só tem alguns anos.

Ele achava que eu desistiria com tanta facilidade? — Quando foi que ela com prou?

— Com prou em 1984, eu acho.

— Ela a com prou nova?

— Bom , não. Acho que era nova no início dos anos 60… Ou final dos anos 50, no m áxim o — adm itiu ele tim idam ente.

— Cha… Pai, eu não entendo nada de carros. Não conseguiria consertar nada que quebrasse, e não posso pagar um m ecânico… — Falando sério, Beau, o troço funciona m uito bem . Não fazem m ais carros assim .

O troço, pensei com igo m esm o… A palavra vinha carregada de possibilidades, com o apelido, na m elhor das hipóteses.

— É barata, barata m esm o? — Afinal, essa era a parte determ inante. — Bom , filho, j á está m eio que com prado para você. Com o um presente de boas-vindas. — Charlie m e olhou de lado com um a expressão esperançosa. Caram ba. De graça.

— Não precisava fazer isso, pai. Eu m esm o ia com prar um carro. — Tudo bem . Quero que você sej a feliz aqui.

Ele estava olhando para a estrada à frente ao dizer isso. Charlie nunca ficava à vontade quando se tratava de externar as em oções em voz alta. Mais um a coisa que tínham os em com um . Então fiquei olhando para a frente quando respondi. — Isso é dem ais, pai. Eu agradeço m uito. — Não era necessário acrescentar que ele estava falando sobre im possibilidades. Não aj udaria em nada fazê-lo sofrer j unto com igo. E a picape dada não se olham os dentes, nem o m otor. — Não foi nada — m urm urou ele, constrangido com m inha gratidão. Trocam os m ais alguns com entários sobre o clim a, que estava úm ido, e a m aior parte da conversa não passou disso. Ficam os olhando pela j anela. Acho que o lugar devia ser lindo. Tudo era verde: as árvores cobertas de m usgo, tanto os troncos quanto os galhos, a terra coberta de sam am baias. Até o ar ficava verde ao ser filtrado pelas folhas.

Era verde dem ais — um planeta alienígena.

Por fim chegam os à casa de Charlie. Ele ainda m orava na casinha de dois quartos que com prara com m inha m ãe nos prim eiros tem pos de seu casam ento. Aqueles foram os únicos tem pos que o casam ento teve — os prim eiros. Ali, estacionada na rua na frente da casa que nunca m udava, estava m inha nova — bom , nova para m im — picape. Era de um verm elho desbotado, com para-lam as grandes e arredondados e um a cabine bulbosa. E eu adorei. Eu não era o tipo de cara que curtia carros, então fiquei m eio surpreso com m inha própria reação. Eu nem sabia se ia funcionar, m as podia m e ver nela. Além disso, era um daqueles m onstros sólidos que não quebram nunca — do tipo que se vê na cena de um acidente, a pintura sem um arranhão, cercado pelas peças do carro im portado que foi destruído. — Caram ba, pai, é incrível! Obrigado! — Entusiasm o de verdade agora. Além de a picape ser estranham ente legal, eu agora não teria que andar três quilôm etros na chuva até a escola de m anhã. Nem teria que aceitar um a carona na radiopatrulha, que era a pior perspectiva de todas. — Que bom que você gostou — disse Charlie rudem ente, de novo sem graça. Apenas um a viagem foi necessária para levar m inhas coisas para cim a. Fiquei com o quarto do lado oeste, que dava para o j ardim da frente. O quarto era fam iliar; m e pertencia desde que nasci. O piso de m adeira, as paredes azul-claras, o teto pontiagudo, as cortinas surradas quadriculadas azuis e brancas na j anela — tudo isso fazia parte da m inha infância. As únicas m udanças que Charlie fizera foram trocar o berço por um a cam a e acrescentar um a escrivaninha, à m edida que eu crescia. A m esa agora tinha um com putador de segunda m ão, com a linha telefônica para o m odem gram peada pelo chão até a tom ada de telefone m ais próxim a. Isso foi um a das exigências da m inha m ãe, assim poderíam os m anter contato facilm ente. A cadeira de balanço de m eus tem pos de bebê ainda estava no canto.

Só havia um banheiro pequeno no segundo andar, que eu teria que dividir com Charlie, m as eu j á dividia com m inha m ãe antes, e sem dúvida era pior. Ela tinha bem m ais coisas, e resistia bravam ente às m inhas tentativas de organizar tudo. Um a das m elhores coisas em Charlie é que ele não fica rondando a gente. Deixou-m e sozinho para desfazer as m alas e m e acom odar, o que teria sido im possível para m inha m ãe. Era legal ficar sozinho, sem ter que sorrir e parecer à vontade; um alívio olhar pela j anela para a chuva forte e deixar os pensam entos ficarem som brios.

A Forks High School tinha apenas 357 — agora 358 — alunos; em Phoenix, havia m ais de setecentas pessoas só do m eu ano. Todos os j ovens daqui foram criados j untos — seus avós engatinharam j untos. Eu seria o garoto novo da cidade grande, para quem todos olhariam fixam ente e sobre quem cochichariam .

Talvez, se fosse um garoto descolado, eu pudesse fazer com que isso funcionasse a m eu favor. Se chegasse com j eitão popular, de rei do baile. Mas não dava para esconder o fato de que eu não era esse cara, nem o astro do futebol am ericano, nem o presidente da turm a, nem o bad boy de m oto. Eu era o garoto com cara de que devia ser bom no basquete, m as só até eu com eçar a andar. O garoto que era em purrado em arm ários até crescer vinte centím etros de repente no prim eiro ano. O garoto que era quieto dem ais e branco dem ais, que não sabia nada sobre videogam es e sobre carros e nem estatísticas de beisebol e nem nada que deveria conhecer.

Diferentem ente dos outros caras, eu não tinha um m onte de tem po livre para hobbies. Eu tinha um orçam ento para controlar, um ralo entupido para desbloquear e com pras da sem ana para fazer. Ou costum ava ter.

Por isso, não m e relacionava bem com as pessoas da m inha idade. Talvez a verdade fosse que eu não m e relacionava bem com as pessoas, ponto final. Até a m inha m ãe, de quem eu era m ais próxim o do que de qualquer outra pessoa do planeta, nunca m e entendeu de verdade. Às vezes eu m e perguntava se via as m esm as coisas que o resto do m undo. Se o que eu via com o verde era o que todo m undo via com o verm elho. Talvez eu sentisse cheiro de vinagre quando as pessoas estivessem sentindo cheiro de coco. Talvez houvesse um problem a no m eu cérebro.

Mas não im portava a causa. Só o que im portava era o efeito. E am anhã seria só o com eço.

***

Não dorm i bem naquela noite, m esm o depois de conseguir fazer a cabeça parar de trabalhar. Ao fundo o ruído constante da chuva e do vento no telhado não desaparecia. Puxei o velho cobertor sobre a cabeça e m ais tarde coloquei tam bém o travesseiro. Mas só consegui dorm ir depois da m eia-noite, quando a chuva finalm ente se aquietou num chuvisco m ais silencioso. Só o que eu conseguia ver pela m inha j anela de m anhã era um a neblina densa, e sentia a claustrofobia rastej ando em m inha direção. Nunca dava para ver o céu aqui; era com o a cela de prisão que im aginei.

O café da m anhã com Charlie foi silencioso. Ele m e desej ou boa sorte na escola. Agradeci, sabendo que as esperanças dele eram perda de tem po. A boa sorte geralm ente m e evitava. Charlie saiu prim eiro para a delegacia, que era sua esposa e sua fam ília. Depois que ele partiu, fiquei sentado à velha m esa quadrada de carvalho, em um a das três cadeiras que não com binavam , e observei a pequena cozinha, com as paredes escuras revestidas de m adeira, arm ários de um am arelo vivo e piso de linóleo branco. Nada havia m udado. Minha m ãe tinha pintado os arm ários dezoito anos antes num a tentativa de colocar algum raio de sol na casa. Acim a da pequena lareira na m icroscópica sala adj acente, havia um a fileira de fotos. Prim eiro, um a foto do casam ento de Charlie e m inha m ãe em Las Vegas; depois, um a de nós três no hospital em que nasci, tirada por um a enferm eira prestativa, seguida pela procissão das m inhas fotos de escola até aquele ano. Era constrangedor olhar aquilo: os cortes feios de cabelo, os anos de aparelho, a acne que finalm ente sum iu. Eu teria de pensar no que poderia fazer para que Charlie as colocasse em outro lugar, pelo m enos enquanto eu m orasse aqui.

Ao observar a casa, era im possível não perceber que Charlie j am ais superou a perda da m inha m ãe. Isso m e deixou pouco à vontade. Eu não queria chegar cedo dem ais na escola, m as não conseguia m ais ficar ali. Vesti m eu casaco — de plástico grosso e não respirável, com o um traj e de biossegurança — e saí para a chuva.

Ainda estava chuviscando, não o suficiente para m e ensopar, enquanto peguei a chave da casa, sem pre escondida debaixo do beiral, e tranquei a porta. O chapinhar das m inhas novas botas im perm eáveis era estranho. Senti falta do habitual esm agar de cascalho enquanto andava. Dentro da picape estava agradável e seco. Bonnie, ou Charlie, obviam ente tinha feito um a lim peza, m as os bancos com estofado caram elo ainda cheiravam levem ente a tabaco, gasolina e hortelã. Para m eu alívio o m otor pegou rapidam ente, m as era barulhento, rugindo para a vida e depois rodando em um volum e alto. Bom , um a picape daquela idade teria suas falhas. O rádio antigo funcionava, um bônus que eu não esperava. Não foi difícil encontrar a escola; com o a m aioria dos lugares, ficava perto da rodovia. De cara, não pareceu que era um a escola; o que m e deu a dica foi a placa, que dizia Forks High School. Era um conj unto de casas iguais, construídas com tij olos m arrons. Havia tantas árvores e arbustos que no início não consegui calcular seu tam anho. Onde estava o espírito da instituição?, eu pensei. Onde estavam as cercas de tela, os detectores de m etal? Estacionei perto do prim eiro prédio, que tinha um a plaquinha acim a da porta dizendo SECRETARIA. Ninguém m ais havia estacionado ali, então eu certam ente estava em local proibido, m as decidi m e inform ar lá dentro em vez de ficar dando voltas na chuva feito um idiota. Lá dentro, o am biente era bem ilum inado e m ais quente do que eu im aginava. O escritório era pequeno; com um a salinha de espera com cadeiras dobráveis acolchoadas, carpete laranj a m anchado, recados e prêm ios atravancando as paredes, um relógio grande tiquetaqueando alto. Havia plantas por toda parte em vasos grandes de plástico, com o se não houvesse verde suficiente do lado de fora. A sala era dividida ao m eio por um balcão com prido, abarrotado de cestos de aram e cheios de papéis e folhetos de cores vivas colados na frente. Havia três m esas atrás do balcão; um hom em redondo e careca de óculos estava sentado atrás de um a. Ele vestia um a cam iseta, o que de im ediato fez com que eu m e sentisse vestido dem ais para aquele tem po.

O hom em careca olhou para m im .

— Posso aj udá-lo?

— Sou Beau Swan — inform ei-lhe, e vi o reconhecim ento im ediato nos olhos dele. Eu era esperado, j á assunto de fofoca. O filho do chefe de polícia, que tinha um a m ãe desequilibrada, finalm ente voltava para casa. — É claro — disse ele. E cavucou um a pilha instável de docum entos na m esa até encontrar o que procurava. — Seu horário está bem aqui, Beaufort, e há um m apa da escola. — Ele trouxe várias folhas ao balcão para m e m ostrar. — Hã, só Beau, por favor.

— Ah, claro. Beau.

Ele indicou m inhas salas de aula, destacando no m apa a m elhor rota para cada um a delas, e m e deu um a caderneta que cada professor teria que assinar e que eu teria que levar de volta no final do dia. Sorriu para m im e disse, com o Charlie, que desej ava que eu gostasse de Forks. Sorri tam bém , da m aneira m ais convincente que pude.

Quando voltei à picape, outros alunos com eçavam a chegar. Dirigi pela escola, seguindo o trânsito. A m aioria dos carros eram m ais velhos que o m eu, nada cham ativos. Em Phoenix, eu m orava em um dos poucos bairros de baixa renda incluídos no distrito de Paradise Valley. Era com um ver um Mercedes ou um Porsche novo no estacionam ento dos alunos. O carro m ais legal aqui era um Volvo prateado novinho, que se destacava. Ainda assim , desliguei o m otor logo que cheguei a um a vaga, para que o barulho estrondoso não cham asse a atenção para m im .

Olhei o m apa na picape, tentando agora m em orizá-lo; esperava não ter que andar com ele diante do nariz o dia todo. Enfiei tudo na m ochila, passei a alça no om bro e respirei bem fundo. Não vai ser tão ruim, m enti para m im m esm o. Mas, falando sério, nem era um a situação de vida ou m orte, era só a escola. Ninguém ia m e m order. Por fim , soltei o ar e saí da picape. Puxei o capuz por cim a do rosto ao andar para a calçada, apinhada de adolescentes. Meu casaco preto e sim ples não cham ava a atenção, com o percebi com alívio, em bora não houvesse m uito que eu pudesse fazer em relação à m inha altura. Encolhi os om bros e m antive a cabeça baixa. Depois de chegar ao refeitório, foi fácil localizar o prédio três. Um grande “3” estava pintado em preto num quadrado branco no canto leste. Segui duas capas de chuva unissex pela porta.

A sala de aula era pequena. As pessoas na m inha frente pararam j unto à porta para pendurar os casacos em um a longa fileira de ganchos. Im itei-as. Havia duas m eninas, um a loura com a pele cor de porcelana, a outra igualm ente pálida, com cabelo castanho-claro. Pelo m enos m inha pele não se destacaria aqui. Entreguei a caderneta à professora, um a m ulher m agra com pouco cabelo cuj a m esa tinha um a placa identificando-a pelo nom e, “Sra. Mason”. Ela m e encarou com surpresa quando viu m eu nom e — não foi um a reação que m e encoraj asse —, e consegui sentir o fluxo sanguíneo subir todo para o rosto, sem dúvida form ando m anchas horríveis nas m inhas bochechas e no m eu pescoço. Mas pelo m enos ela m e m andou sentar num a carteira vazia no fundo da sala, sem m e apresentar à turm a. Tentei m e encolher atrás da m esinha da form a m ais discreta possível.

Era m ais difícil m eus novos colegas ficarem m e encarando lá atrás, m as de algum j eito eles conseguiram . Mantive os olhos baixos na bibliografia que a professora m e dera. Era bem básica: Brontë, Shakespeare, Chaucer, Faulkner. Eu j á tinha lido tudo. Isso era reconfortante… e entediante. Im aginei se m inha m ãe m e m andaria m inha pasta com os trabalhos antigos, ou se ela pensaria que isso era cola. Tive várias discussões com ela em m inha cabeça enquanto a professora falava m onotonam ente.

Quando tocou o sinal, um a garota m agricela com problem as de pele e cabelo preto feito um a m ancha de óleo se inclinou para falar com igo. — Você é Beaufort Swan, não é? — Ela parecia direitinho o tipo prestativo de clube de xadrez.

— Beau — corrigi. Todo m undo num raio de três carteiras se virou para m e olhar.

— Qual é a sua próxim a aula? — perguntou ela. Tive que olhar na m ochila.

— Hm m m , educação cívica, com Jefferson, no prédio seis. Para onde quer que eu m e virasse, encontrava olhos curiosos. — Vou para o prédio quatro, posso m ostrar o cam inho. — Sem dúvida, superprestativa. — Meu nom e é Erica — acrescentou ela. Eu forcei um sorriso.

— Obrigado.

Pegam os nossos casacos e fom os para a chuva, que tinha aum entado. Eu podia j urar que várias pessoas atrás de nós se aproxim avam o bastante para ouvir o que dizíam os. Esperava não estar ficando paranoico. — E aí, aqui é bem diferente de Phoenix, não é? — perguntou ela. — Muito.

— Não chove m uito lá, não é?

— Três ou quatro vezes por ano.

— Puxa, com o deve ser isso? — com entou ela, m aravilhada. — Ensolarado — retruquei.

— Você não é m uito bronzeado.

— Minha m ãe é m eio albina.

Apreensiva, ela exam inou m eu rosto, e eu sufoquei um grunhido. Parecia que nuvens e senso de hum or não se m isturavam . Alguns m eses disso e eu esqueceria com o usar o sarcasm o.

Voltam os pelo refeitório até os prédios do sul, perto do ginásio. Erica m e levou à porta, em bora tivesse um a placa bem evidente. — Então, boa sorte — disse ela enquanto eu pegava a m açaneta. — Talvez a gente tenha m ais algum a aula j untos. — Ela parecia esperançosa. Sorri para ela de um j eito que torci para que não parecesse encoraj ador e entrei. O resto da m anhã se passou do m esm o j eito. Minha professora de trigonom etria, a Sra. Varner, que de qualquer form a eu teria odiado por causa da m atéria que ensinava, foi a única que m e fez parar diante da turm a para m e apresentar. Eu gaguej ei, fiquei cheio de m anchas verm elhas e tropecei em m inhas próprias botas ao seguir para a carteira.

Depois de duas aulas, com ecei a reconhecer alguns rostos em cada turm a. Sem pre havia alguém m ais coraj oso do que os outros, que se apresentava e m e perguntava se eu estava gostando de Forks. Tentei ser diplom ático, m as na m aioria das vezes apenas m enti. Pelo m enos não precisei do m apa. Em todas as aulas, os professores com eçavam m e cham ando de Beaufort, e apesar de eu corrigi-los na m esm a hora, era deprim ente. Dem orei anos para superar Beaufort; m uito obrigado, vovô, por m orrer m eses antes de eu nascer e fazer m inha m ãe se sentir obrigada a hom enageá-lo. Ninguém em casa lem brava m ais que Beau era apelido. Agora, eu tinha que com eçar tudo de novo. Um garoto se sentou ao m eu lado nas aulas de trigonom etria e espanhol e m e acom panhou até o refeitório na hora do alm oço. Era baixinho, não chegava nem ao m eu om bro, m as o cabelo escuro, rebelde e cacheado com pensava um pouco a diferença de altura entre nós. Não conseguia m e lem brar do nom e dele, então eu sorria e assentia enquanto ele tagarelava sobre professores e aulas. Não tentei acom panhar a falação.

Sentam os à ponta de um a m esa cheia de vários de seus am igos, que ele m e apresentou; eu não podia reclam ar da educação ali. Esqueci o nom e de todos assim que ele os enunciou. Eles pareceram achar legal ele ter m e convidado. A m enina da aula de inglês, Erica, acenou para m im do outro lado do salão, e todo m undo riu. Eu j á era m otivo de piada. Devia ser um novo recorde para m im . Mas ninguém pareceu estar rindo com crueldade. Foi ali, tentando conversar com sete estranhos curiosos, que eu os vi pela prim eira vez.

Estavam sentados no canto do refeitório, à m aior distância possível de onde eu m e encontrava no salão com prido. Eram cinco. Não estavam conversando e nem com endo, em bora cada um deles tivesse um a bandej a de com ida diante de si. Não m e encaravam , ao contrário da m aioria dos outros alunos, por isso era seguro observá-los. Mas não foi nada disso que atraiu m inha atenção.

Eles não eram nada parecidos.

Havia três garotas; dava para ver que um a era superalta, até m esm o sentada, talvez da m inha altura, com pernas que não acabavam nunca. Ela provavelm ente poderia ser capitã do tim e de vôlei, e eu tinha certeza de que ninguém gostaria de ficar no cam inho de um a cortada dela. Tinha cabelo escuro e ondulado, preso em um rabo de cavalo descuidado.

Outra tinha cabelo cor de m el na altura dos om bros; não era tão alta quanto a m orena, m as devia ser m ais alta do que a m aioria dos outros garotos da m inha m esa. Havia algo de intenso nela, de ousado. Era m eio estranho, m as, por algum m otivo, ela m e fez pensar em um a atriz que vi em um film e de ação algum as sem anas antes, que m atou m ais de dez caras com um a m achete. Eu m e lem brava de ter pensado que não acreditava, que não havia com o a atriz encarar tantos caras m aus e vencer. Mas agora estava com eçando a achar que talvez tivesse acreditado, se a personagem tivesse sido interpretada por aquela garota. A últim a garota era m enor, o cabelo um m eio term o entre ruivo e castanho, m as diferente dessas duas cores, m eio m etálico, tipo cor de bronze. Ela parecia m ais nova do que as outras duas, que podiam facilm ente estar na faculdade. Os dois garotos eram opostos. O m ais alto, que era m ais alto do que eu, eu diria que com um m etro e noventa e cinco ou até m ais, era o atleta da escola. E rei do baile. E o cara que tinha prioridade no aparelho que quisesse na sala de m usculação. O cabelo louro e liso estava preso em um coque na nuca, m as não havia nada de fem inino no penteado; de algum a form a, fazia com que parecesse m ais hom em . Ele era descolado dem ais para aquela escola e qualquer outra que eu pudesse im aginar.

O cara m ais baixo era m agro, com cabelo escuro cortado tão curto que não passava de um a som bra no couro cabeludo.

Eram totalm ente diferentes, m as, ao m esm o tem po, eram todos tão parecidos. Cada um deles era pálido com o giz, os alunos m ais brancos que viviam nesta cidade sem sol. Mais brancos do que eu, o albino. Todos tinham olhos m uito escuros (de onde eu estava, pareciam pretos), apesar da variação de cor dos cabelos. Tam bém tinham olheiras — arroxeadas, em tons de hem atom a. Talvez os cinco estivessem chegando de um a noitada. Ou estivessem se recuperando de um nariz quebrado. Mas os narizes, todos os seus traços, eram retos, angulosos. Só que não era por isso que eu não conseguia desgrudar os olhos. Fiquei olhando porque seus rostos, tão diferentes, tão parecidos, eram com pleta, arrasadora e inum anam ente lindos. As garotas e os garotos, lindos. Eram rostos que não se via na vida real, só em páginas de revista ou outdoors. Ou em um m useu, pintados por um antigo m estre com o a face de um anj o. Era difícil acreditar que eles eram de verdade.

Concluí que a m ais bonita de todas era a garota m enor com o cabelo cor de bronze, em bora eu presum isse que a m etade fem inina do corpo estudantil votaria no suj eito louro com cara de ator de cinem a. Mas elas estariam enganadas. Todos eram lindos, m as a garota era m ais do que bonita. Ela era sim plesm ente perfeita. Era um tipo de perfeição perturbadora e incôm oda. Deixou m eu estôm ago em brulhado.

Todos estavam olhando para longe; para longe uns dos outros, para longe do resto dos alunos, para longe de qualquer coisa em particular, pelo que eu podia notar. Pensei em m odelos posando de form a m uito artística para propagandas, em tédio estético. Enquanto eu observava, o garoto m agro e quase careca se levantou com a bandej a — o refrigerante fechado, a m açã sem nenhum a dentada — e se afastou com passos longos, rápidos e graciosos apropriados para um a passarela. Fiquei olhando, m e perguntando se havia um a com panhia de dança na cidade, até que ele largou a bandej a no lixo e seguiu para a porta dos fundos, m ais rápido do que eu teria considerado possível. Meus olhos dispararam de volta aos outros, que não tinham se m exido.

— Quem são eles? — perguntei ao cara da m inha turm a de espanhol, cuj o nom e eu esquecera.

Enquanto ele olhava para verificar de quem eu estava falando — em bora j á soubesse, provavelm ente, pelo m eu tom de voz —, de repente ela olhou para nós, a garota perfeita. Ela olhou para o m eu vizinho só por um a fração de segundo, e depois seus olhos escuros fulguraram para m im . Eram olhos longos, curvados nos cantos, com cílios grossos.

Ela desviou os olhos rapidam ente, m ais rápido do que eu, que baixei o olhar assim que ela se virou para nós. Consegui sentir as m anchas verm elhas surgindo no m eu rosto. Naquele breve instante, seu rosto não transm itiu nenhum interesse — era com o se ele tivesse cham ado o nom e dela, e ela olhasse num a reação involuntária, j á tendo decidido não responder.

Meu vizinho riu um a vez, sem graça, olhando a m esa com o eu. Ele m urm urou a resposta bem baixinho.

— São os Cullen e os Hale. Edith e Eleanor Cullen, Jessam ine e Roy al Hale. O que saiu é Archie Cullen. Todos m oram com a Dra. Cullen e o m arido. Olhei de lado para a garota perfeita, que agora fitava a própria bandej a, desfazendo um pãozinho em pedaços com os dedos pálidos e finos. Sua boca se m ovia m uito rapidam ente, os lábios carnudos m al se abrindo. Os outros três continuavam olhando para longe, m as eu ainda achava que ela estava falando em voz baixa com eles.

Nom es estranhos. Antigos. O tipo de nom e que têm os avós, com o o m eu nom e. Mas talvez fosse m oda por aqui? Nom es de cidade pequena? Finalm ente m e lem brei de que m eu vizinho se cham ava Jerem y. Era um nom e perfeitam ente com um . Havia dois m eninos que se cham avam Jerem y na m inha turm a de história, na m inha cidade.

— Eles são todos… m uito bonitos. — Que m inim ização da verdade.

— É — concordou Jerem y com outra risada. — Mas todos estão juntos… Roy al e Eleanor, Archie e Jessam ine. Tipo nam orando, sabe? E eles moram j untos. — Ele deu um a risadinha e balançou as sobrancelhas de form a sugestiva. Eu não sabia por quê, m as essa reação m e deu vontade de defendê-los. Talvez só por ele ter falado com um tom tão crítico. Mas o que eu podia dizer? Eu não sabia nada sobre eles.

— Quem são os Cullen? — perguntei, querendo m udar o tom , m as não o assunto. — Eles não parecem parentes… quer dizer, m ais ou m enos… — Ah, eles não são. A Dra. Cullen é m uito nova. Tem trinta e poucos anos. Os filhos Cullen são todos adotados. Os Hale, os louros, são m esm o irm ãos, gêm eos, eu acho, e são filhos de criação.

— Parecem m eio velhos para filhos de criação. — Agora, são. Roy al e Jessam ine têm 18 anos, m as estão com o Sr. Cullen desde que eram pequenos. Ele é tio dos dois, eu acho. — Isso é bem legal… eles cuidarem de todas essas crianças, quando eram tão novos e tudo isso.

— Acho que sim — disse Jerem y, apesar de parecer que ele preferia não dizer nada positivo. Com o se não gostasse da m édica e do m arido por algum m otivo… e, pelo j eito com o olhava para os filhos adotivos, eu im aginava que podia haver certa invej a. — Mas acho que a Dra. Cullen não pode ter filhos — acrescentou ele, com o se isso tornasse m enos adm irável o que eles faziam . Durante toda essa conversa, não consegui afastar os olhos da estranha fam ília por m ais de poucos segundos. Eles continuavam a olhar para as paredes e não com iam .

— Eles sem pre m oraram em Forks? — perguntei. Com o eu podia não os ter notado em um dos m eus verões aqui?

— Não. Só se m udaram há dois anos, vieram de algum lugar do Alasca. Senti um a onda estranha de pena e tam bém alívio. Pena porque, apesar de lindos, eles ainda eram de fora, não eram aceitos. Alívio por eu não ser o único recém -chegado por aqui, e certam ente não o m ais interessante, por qualquer padrão. Enquanto eu os exam inava, a garota perfeita, um a dos Cullen, virou-se e encontrou m eu olhar, dessa vez com um a expressão de evidente curiosidade. Quando desviei os olhos rapidam ente, m e pareceu que o olhar dela trazia um a espécie de expectativa frustrada.

— Quem é a garota de cabelo averm elhado? — perguntei. Tentei olhar casualm ente na direção dela, com o se estivesse dando um a avaliada no refeitório; ela ainda estava m e encarando, m as não com cara espantada, com o os outros alunos hoj e. Ela tinha um a expressão m eio frustrada, que não entendi. Olhei para baixo novam ente.

— É Edith. Ela é gata, é claro, m as não perca seu tem po. Ela não sai com ninguém . Ao que parece, nenhum dos caras daqui é bom o bastante para ela. — Jerem y falou com am argura, depois grunhiu. Eu m e perguntei quantas vezes ela o tinha rej eitado.

Apertei os lábios para esconder um sorriso. Depois, olhei para ela de novo. Edith. Seu rosto estava virado para o outro lado, m as achei, pelo form ato do pescoço, que ela tam bém podia estar sorrindo.

Depois de m ais alguns m inutos, os quatro saíram da m esa j untos. Todos eram m uito elegantes — até o rei do baile dourado. Era estranho vê-los j untos em m ovim ento. Edith não voltou a olhar para m im . Fiquei sentado à m esa com Jerem y e os am igos dele por m ais tem po do que teria ficado se eu estivesse sozinho. Eu não queria m e atrasar para as aulas no m eu prim eiro dia. Um de m eus novos conhecidos, que m e lem brou educadam ente de que seu nom e era Allen, tinha biologia II com igo no próxim o tem po. Seguim os j untos em silêncio para a sala. Ele devia ser tím ido com o eu. Quando entram os na sala, Allen foi se sentar em um a carteira de tam po preto de laboratório exatam ente com o as que eu costum ava usar. Ele j á tinha parceiro. Na verdade, todas as cadeiras estavam ocupadas, exceto um a. Ao lado do corredor central, reconheci Edith Cullen, por seu cabelo m etálico incom um , sentada ao lado daquele único lugar vago.

Meu coração com eçou a bater um pouco m ais rápido do que o norm al. Enquanto eu andava pelo corredor para m e apresentar ao professor e conseguir que assinasse m inha caderneta, eu a observava, tentando disfarçar. Assim que passei, ela de repente ficou rígida em seu lugar. Ela m e olhou tão rápido que fui pego de surpresa, encontrando m eus olhos com a expressão m ais estranha do m undo — era m ais do que zangada, era furiosa, hostil. Desviei o olhar, chocado, ruborizando de novo. Tropecei em um livro no cam inho e tive que m e apoiar na beira de um a m esa. A m enina sentada ali riu.

Eu estava certo sobre os olhos. Eram pretos — pretos com o carvão. A Sra. Banner assinou m inha caderneta e m e passou um livro, sem nenhum dos absurdos das apresentações e sem m encionar m eu nom e com pleto. Consegui perceber que íam os nos dar bem . É claro que ela não teve alternativa a não ser m e m andar para o lugar vago no m eio da sala. Mantive os olhos baixos enquanto fui m e sentar ao lado dela, querendo saber o que podia ter feito para ganhar o olhar hostil que ela m e lançara.

Não olhei para cim a ao colocar os livros na carteira e tom ar m eu lugar, m as, pelo canto do olho, vi sua postura m udar. Ela estava inclinada para longe de m im , sentada na ponta da cadeira, e desviava o rosto com o se sentisse algum fedor. Discretam ente, dei um a fungada. Minha cam isa estava com cheiro de sabão em pó. Com o isso podia ser ofensivo? Puxei a cadeira para a direita, dando o m áxim o de espaço possível a ela, e tentei prestar atenção à professora. A aula era sobre anatom ia celular, um a coisa que eu j á estudara. De qualquer m odo, tom ei notas cuidadosam ente, sem pre olhando para baixo.

Eu não conseguia deixar de espiar a garota estranha ao m eu lado de vez em quando. Durante toda a aula, ela não relaxou um m inuto da postura rígida na ponta da cadeira, sentando-se o m ais distante possível de m im . A m ão estava fechada em punho em cim a da coxa esquerda, os tendões sobressaindo por baixo da pele clara. Isso tam bém ela não relaxou. Estava com as m angas com pridas da blusa branca puxadas até os cotovelos, e os antebraços eram surpreendentem ente rij os e m usculosos sob a pele clara. Não consegui deixar de reparar no quanto a pele era perfeita. Não havia nenhum a sarda, nenhum a cicatriz. A aula parecia se arrastar m ais do que as outras. Seria porque o dia finalm ente estava chegando ao fim , ou porque eu esperava que o punho dela relaxasse? Não aconteceu: ela continuou sentada tão im óvel que nem parecia respirar. Qual era o problem a dela? Será que era seu com portam ento norm al? Questionei a avaliação que fiz da am argura de Jerem y no alm oço. Talvez não fosse só ressentim ento. Isso não podia ter nada a ver com igo. Ela nunca tinha m e visto na vida. A Sra. Banner devolveu alguns testes quando a aula estava quase acabando. Entregou um para m im , para eu passar para a garota. Olhei para o alto autom aticam ente, cem por cento… e eu estava soletrando o nom e dela errado em pensam ento. Era Edy the, não Edith. Eu nunca tinha visto aquele nom e escrito daquele j eito, m as com binava m ais com ela.

Olhei para ela quando fui entregar o teste e m e arrependi na m esm a hora. Ela estava m e olhando de cara feia, os olhos pretos e longos cheios de repugnância. Enquanto eu m e encolhia para longe do ódio que irradiava dela, a expressão se um olhar matasse passou pela m inha cabeça. Naquele m om ento, o sinal tocou alto, fazendo-m e pular, e Edy the Cullen saiu da carteira. Ela se m ovia com o um a dançarina, com cada linha perfeita do corpo m agro em harm onia com o resto, de costas para m im , e saiu pela porta antes que qualquer outro tivesse saído da carteira.

Fiquei paralisado no m eu lugar, com um olhar vazio voltado para o local por onde ela saiu. Ela era tão grosseira. Com ecei a pegar m inhas coisas devagar, tentando bloquear a confusão e a culpa que se espalhavam em m im . Por que eu devia sentir culpa? Não fiz nada de errado. Com o poderia? Eu nem fui apresentado a ela.

— Você não é Beaufort Swan? — perguntou um a voz de m ulher. Olhei para cim a e vi um a garota bonitinha com cara de bebê, o cabelo cuidadosam ente alisado em um a cortina louro-clara, sorrindo para m im de m aneira sim pática. Ela obviam ente não achava que eu cheirava m al. — Beau — corrigi com um sorriso.

— Meu nom e é McKay la.

— Oi, McKay la.

— Precisa de aj uda para encontrar sua próxim a aula? — Vou para a educação física. Acho que consigo encontrar o cam inho.

— É m inha próxim a aula tam bém . — Ela pareceu anim ada, m as não era um a coincidência assim tão grande num a escola tão pequena. Fom os para a aula j untos; ela era m uito falante, alim entou a m aior parte da conversa, o que facilitou m inha vida. Tinha m orado na Califórnia até os 10 anos, então sabia com o eu m e sentia com relação ao sol. Por acaso, tam bém era m inha colega na aula de inglês. Foi a pessoa m ais legal que conheci nesse dia. Mas, quando estávam os entrando no ginásio, ela perguntou: — E aí, você furou a Edy the Cullen com um lápis ou o quê? Nunca a vi agir daquele j eito.

Eu m e encolhi. Então não fui o único a perceber. E, ao que parecia, aquele não era o com portam ento habitual de Edy the Cullen. Decidi m e fazer de burro. — Era a garota do m eu lado na aula de biologia? — Era — disse ela. — Parecia que estava sentindo algum a dor, sei lá. — Não sei — respondi. — Nunca falei com ela. — Ela é estranha. — McKay la se dem orou ao m eu lado em vez de ir para o vestiário. — Se eu tivesse a sorte de m e sentar do seu lado, conversaria com você.

Eu sorri para ela antes de ir para a porta do vestiário m asculino. Ela era sim pática e parecia gostar de m im . Mas não foi suficiente para m e fazer esquecer aquela hora estranha.

A professora de educação física, treinadora Clapp, encontrou um uniform e para m im , m as não m e fez vesti-lo para aquela aula. Em Phoenix, só exigiam dois anos de educação física. Aqui, a m atéria era obrigatória nos quatro anos. Minha versão particular do inferno.

Fiquei assistindo a quatro partidas de vôlei que aconteciam sim ultaneam ente. Lem brando quantas lesões eu sofri — e infligi — j ogando vôlei, e m e senti m eio nauseado.

O últim o sinal finalm ente tocou. Andei devagar para a secretaria para entregar m inha caderneta. A chuva tinha ido em bora, m as o vento estava forte e m ais frio. Fechei o casaco e enfiei a m ão livre em um bolso. Quando entrei no escritório aquecido, quase m e virei e saí. Edy the Cullen estava parada j unto à m esa na m inha frente. Era im possível não reconhecer o cabelo bronze revolto. Ela não pareceu reparar no som da m inha entrada. Fiquei encostado na parede de trás, torcendo para que o recepcionista ficasse livre.

Ela estava discutindo com ele num a voz baixa e aveludada. Logo peguei a essência da discussão. Ela tentava trocar a aula de biologia para qualquer outro horário – qualquer outro.

Não podia ser por m inha causa. Tinha de ser outra coisa, algo que acontecera antes de eu entrar na sala. A expressão dela devia ter sido por outro problem a. Era im possível que um a estranha pudesse ter um a repulsa tão súbita e intensa por m im . Eu não era interessante o bastante para provocar um a reação tão forte. A porta se abriu de novo, e o vento frio soprou pela sala, balançando os papéis na m esa, balançando m eu cabelo. A m enina que entrou lim itou-se a ir até a m esa, colocou um bilhete na cesta de aram e e saiu novam ente. Mas Edy the Cullen enrij eceu as costas e se virou lentam ente para olhar para m im — o rosto era ridiculam ente perfeito, sem nenhum a m arca que a fizesse parecer hum ana — com olhos penetrantes e cheios de ódio. Por um m om ento, senti um arrepio de m edo genuíno, que eriçou os pelos dos m eus braços. Com o se ela fosse puxar um a arm a e atirar em m im . O olhar só durou um segundo, m as foi m ais gelado do que o vento frio. Ela se virou para o recepcionista. — Então deixa pra lá — disse, rapidam ente, num a voz de seda. — Estou vendo que é im possível. Muito obrigada pela aj uda. — Então, virou-se sem olhar para m im , e desapareceu porta afora.

Fui roboticam ente até a m esa, m inha cara pela prim eira vez branca no lugar de verm elha, e entreguei a caderneta assinada.

— Com o foi seu prim eiro dia, filho? — perguntou o recepcionista. — Bom — m enti, a voz falhando. Consegui ver que não o convenci. Quando fui para a picape, era quase o últim o carro no estacionam ento. Parecia um abrigo, a coisa m ais próxim a de um a casa que eu tinha nesse buraco verde e úm ido. Fiquei sentado lá dentro por um tem po, olhando sem enxergar pelo para-brisa. Mas logo fiquei com bastante frio, a ponto de precisar do aquecedor, então virei a chave e o m otor rugiu. Voltei para a casa de Charlie, tentando não pensar em nada.