Vida e Morte

Stephenie Meyer · Capítulo 22 de 27

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Vida e Morte

20. Impaciência

 

QUANDO ACORDEI, ESTAVA confuso. Dem orei m ais tem po do que devia para lem brar onde estava.

O quarto era neutro dem ais para pertencer a um lugar que não fosse um hotel. Os abaj ures estavam presos às m esas de cabeceira e as cortinas eram feitas do m esm o tecido da colcha.

Tentei m e lem brar de com o tinha chegado ali, m as de início nada m e ocorreu. Lem brei-m e do carro preto, o vidro das j anelas m ais escuro do que os de um a lim usine. O m otor era quase silencioso, em bora disparássem os pelas estradas negras com o dobro da velocidade perm itida.

E m e lem brei de Archie sentado com igo em vez de na frente com Jessam ine. Lem brei-m e de perceber de repente que ele estava ali com o m eu guarda-costas, que o banco da frente não era perto o suficiente, ao que parecia. Devia ter feito o perigo parecer m ais real, m as tudo parecia a um m ilhão de quilôm etros. O perigo que eu corria não era o perigo com o qual m e preocupava. Fiz Archie m ontar um a vigília estranha de fluxo de consciência futura durante toda a noite. Não havia detalhes pequenos dem ais para m im . Ele m e contou passo a passo com o Edy the, Carine e Eleanor se deslocariam pela floresta, e apesar de eu não conhecer nenhum dos locais que ele m encionou, fiquei hipnotizado pelas palavras. Depois, ele voltava e descrevia a m esm a sequência de outro j eito, conform e algum as decisões alteravam o futuro. Isso aconteceu várias vezes, e era im possível acom panhar, m as não m e im portei. Enquanto o futuro não colocasse Edy the e Joss no m esm o lugar, eu conseguiria continuar respirando.

Às vezes, ele m udava para Earnest para m im . Earnest e Roy al estavam na m inha picape, seguindo para o leste. O que queria dizer que o hom em ruivo ainda estava atrás deles.

Archie teve m ais dificuldade para ver Charlie. — Os hum anos são m ais difíceis do que os vam piros — disse ele. E lem brei que Edy the tinha m e falado algum a coisa sobre isso um a vez. Parecia anos antes, m as foram apenas alguns dias. Eu m e lem brava de ficar desorientado por não conseguir entender o tem po.

Eu m e lem brava do sol surgindo acim a de um pico baixo em algum lugar da Califórnia. A luz m achucou m eus olhos, m as tentei não fechá-los. Quando eu os fechava as im agens que piscavam por trás das m inhas pálpebras com o fotografias eram dem ais. Eu preferia que m eus olhos queim assem a vê-las de novo. A expressão arrasada de Charlie… os dentes à m ostra de Edy the… o olhar furioso de Roy al… os olhos verm elhos da rastreadora m e encarando… o olhar m ortal no rosto de Edy the quando ela deu as costas para m im …

Mantive os olhos abertos, e o sol se m oveu pelo céu. Eu m e lem brei da cabeça ter ficado pesada e leve ao m esm o tem po conform e passávam os por um a m ontanha, e o sol, atrás de nós agora, se refletia nos telhados da m inha cidade. Não m e sobravam em oções para que eu sentisse surpresa de term os feito a viagem de três dias em um . Olhei sem expressão para a cidade que se espalhava à nossa frente, percebendo lentam ente que era para significar algum a coisa para m im . O raquítico chaparral, as palm eiras, os cam pos de golfe, as m anchas turquesa que eram as piscinas, tudo isso era para parecer fam iliar. Eu devia sentir que estava voltando para casa. As som bras dos postes de luz form avam na estrada m arcas m ais agudas do que eu m e lem brava. Tão pouca escuridão. Não havia lugar para se esconder naquelas som bras.

— Qual é o cam inho para o aeroporto? — perguntou Jessam ine, na prim eira vez que falou desde que entram os no carro.

— Fique na I-10 — respondi, autom aticam ente. — Vam os passar j á por lá. Dem orei m ais alguns segundos para absorver as im plicações da pergunta dela. Meu cérebro estava enevoado de exaustão.

— Vam os pegar algum avião? — perguntei a Archie. Eu não conseguia pensar no plano. Mas aquilo não parecia certo.

— Não, m as é m elhor ficar perto, só por garantia. Lem brei-m e de com eçar o retorno para o Aeroporto Internacional Sky Harbor… m as não de term iná-lo. Acho que deve ter sido nessa hora que m eu cérebro falhou.

Mas, agora que recuperara as lem branças, eu tinha um a vaga im pressão de ter saído do carro, o sol atrás do horizonte, m eu braço em torno do om bro de Archie, o dele m e arrastando enquanto eu cam baleava pelas som bras quentes e secas. Eu não tinha lem brança deste quarto.

Olhei o relógio digital na m esa de cabeceira. Os núm eros verm elhos afirm avam que eram três horas, m as eu não tinha com o saber se era noite ou dia. Nenhum fiapo de luz escapava ao redor das grossas cortinas, m as o quarto estava ilum inado pela luz dos abaj ures.

Levantei-m e com o corpo rígido e cam baleei até a j anela, puxando as cortinas. Estava escuro lá fora. Três da m anhã, então. Meu quarto dava para um a parte deserta da rodovia e para o novo estacionam ento de m ensalistas do aeroporto. Senti-m e um pouquinho m elhor ao conseguir situar tem po e lugar. Olhei para baixo. Eu ainda estava com a cam isa e a calça curta dem ais de Earnest. Olhei o quarto e fiquei feliz por encontrar m inha bolsa de viagem em cim a da côm oda baixa.

Um a leve batida na porta m e fez pular.

— Posso entrar? — perguntou Archie.

Respirei fundo.

— Claro.

Ele entrou e m e olhou.

— Você parece precisar dorm ir m ais.

Eu balancei a cabeça.

Ele foi em silêncio até a j anela e fechou as cortinas. — Vam os precisar ficar aqui dentro — disse ele. — Tudo bem . — Minha voz rouca falhou.

— Com sede? — perguntou ele.

Dei de om bros.

— Estou bem . E você?

Ele sorriu.

— Nada que não possa adm inistrar. Pedi com ida para você, está na sala da frente. Edy the m e lem brou de que você precisa com er com m uito m ais frequência do que nós.

Im ediatam ente, fiquei m ais alerta.

— Ela ligou?

— Não. — Ele observou m inha expressão desm oronar. — Foi antes de partirm os. Ela m e deu m uitas instruções. Venha com er algum a coisa. Ele saiu do quarto antes que eu pudesse protestar que não estava com fom e. Pude ouvir um zum bido baixo de vozes vindo da TV. Jessam ine estava sentada à m esa no canto, os olhos na TV, m as sem o m enor sinal de interesse. Archie foi até ela e passou a m ão pelo cabelo cor de m el dela.

— Qual é a notícia m ais recente? — perguntei. — Earnest e Roy al estão de volta a Forks. O ruivo parou de caçá-los. Abri a boca, m as Archie foi m ais rápido.

— Eles estão vigiando seu pai. O ruivo não vai passar por eles. — O que o ruivo está fazendo?

— Andando pela cidade, procurando você, pelo que consigo perceber. Ele passou um tem po na escola.

Meus olhos se esbugalharam .

— Ele m achucou alguém ?

Archie fez que não.

— Eles parecem bem com prom etidos à caçada que com eçaram . — E Edy the?

— Frustrada, ao que parece. Elas se viraram na direção da rastreadora, m as ela j á estava fugindo. Está indo para o norte. Elas estão atrás dela. Fiquei ali parado, sem saber o que fazer.

Edy the estava caçando Joss. É claro que ela estava com Carine e Eleanor, m as Edy the era a m ais rápida…

— Com a algum a coisa, Beau. Edy the fica m uito difícil quando acha que suas instruções não são seguidas ao pé da letra.

Havia um a bandej a na m esa de centro, com algum as tam pas de aço inoxidável em cim a dos pratos nela. Não consegui pensar em nada além de seguir a ordem de Archie. Sentei no chão ao lado da m esa e tirei a tam pa do prim eiro prato. Não olhei para a com ida, só peguei e com ecei a com er. Eu devia estar com fom e. Não param os para com er durante o percurso. Eles ficaram em silêncio e im óveis enquanto eu com ia. Olhei para a TV, m as não consegui entender o que estava acontecendo. Era um noticiário? Era um com ercial? Eu não sabia. Com i até os pratos ficarem vazios. Não senti o gosto de nada.

Quando não havia m ais nada para com er, olhei para a parede. Só conseguia ver Edy the na floresta, m ais rápida do que um guepardo, m ais rápida do que um a bala. Era óbvio que ela alcançaria a rastreadora prim eiro. As palavras de Lauren ecoavam na m inha cabeça. Não podem derrotá-la. Ela é absolutamente letal.

De repente, Jessam ine estava de pé ao m eu lado, m ais perto do que de costum e. — Beau — disse ela num a voz tranquilizadora. — Você não tem m otivos para se preocupar. Está com pletam ente seguro aqui.

— Sei disso.

— Então por que está com m edo? — Ela pareceu confusa. Podia sentir m inhas em oções, m as não conseguia entender os m otivos por trás delas. — Você ouviu o que Lauren disse. Joss é letal. E se algum a coisa der errado e elas foram separadas? Se algum a coisa acontecer, se Carine ou Eleanor… ou Edy the… — Minha voz falhou. — Se aquele ruivo m aluco m achucar Earnest… Com o vou viver sabendo que a culpa é m inha? Nenhum de vocês devia estar arriscando a vida por…

— Pare, Beau, pare — interrom peu ela, as palavras j orrando tão rapidam ente que era difícil entendê-las. — Você está se preocupando com as coisas erradas, Beau. Confie em m im , nenhum de nós está em risco. Você está sob um a tensão m uito grande; não a aum ente com preocupações im aginárias. Ouça o que eu digo! — ordenou ela, porque eu desviei os olhos. — Nossa fam ília é forte. Nosso único m edo é perder você.

— Mas por que vocês…

Archie se aproxim ou e passou o braço pela cintura de Jessam ine. — Faz quase um século que Edy the está sozinha. Agora, ela encontrou você. Você não consegue ver as m udanças que nós, que estam os com ela há tanto tem po, vem os. Acha que algum de nós vai querer olhar nos olhos dela pelos próxim os cem anos se ela perder você?

Minha culpa com eçou a ceder. Mas, apesar de a calm a que se espalhava por m im parecer totalm ente natural, com o se viesse de dentro, eu sabia que não era assim .

— Você sabe que eu faria isso de qualquer m odo — acrescentou Archie. — Mesm o que Edy the não tivesse pedido.

— Por quê?

Ele sorriu.

— É difícil explicar sem parecer m eio esquizofrênico… O tem po não significa para m im a m esm a coisa que para você. Nem para Jess e nem para m ais ninguém . — Jessam ine riu e beliscou a orelha dele. — Então, isso não vai fazer sentido para você. Mas, para m im , é com o se j á fôssem os am igos há bastante tem po, Beau. No segundo que você se tornou parte da vida de Edy the, foi com o se j á tivéssem os passado centenas de horas j untos. Nós rim os das reações exageradas de Edy the j untos, irritam os Roy al até ele sair de casa j untos, ficam os acordados a noite toda conversando com Carine j untos… Fiquei olhando fixam ente, e ele deu de om bros. — É assim que eu vivencio o m undo.

— Nós som os am igos? — perguntei com a voz im pressionada. — Melhores am igos — disse ele. — Um dia. Foi legal m inha irm ã favorita se apaixonar por m eu m elhor am igo, você não acha? Acho que devo um a a ela. — Hã — foi tudo que consegui dizer.

Archie riu.

Jessam ine revirou os olhos.

— Muito obrigada, Archie. Eu tinha acabado de fazê-lo ficar calm o. — Não, estou bem — j urei.

Archie podia estar m entindo para fazer com que eu m e sentisse m elhor, m as, fosse com o fosse, funcionou. Não era ruim Archie tam bém querer m e aj udar. Se ele não estivesse fazendo só por Edy the.

— E o que fazem os agora? — perguntei.

— Esperam os que algum a coisa m ude.

Foi um dia m uito longo.

Ficam os no quarto. Archie ligou para a recepção e pediu que não m andassem m ais a cam areira. As j anelas continuaram fechadas, a TV, ligada, em bora ninguém estivesse assistindo. A intervalos regulares, a com ida era entregue a m im .

Era engraçado com o passei a m e sentir à vontade com Archie de repente. Parecia que a visão dele da nossa am izade, depois de dita em voz alta, tornou tudo real. Ele ficava sentado na cadeira ao lado do sofá em que eu m e deitava e respondia todas as perguntas que antes eu estava nervoso dem ais para fazer. Às vezes, respondia antes de eu perguntar. Era m eio estranho, m as concluí que devia ser com o as pessoas se sentiam com Edy the o tem po todo. — Sim — disse ele quando pensei em perguntar isso. — É exatam ente a m esm a coisa. Ela se esforça para não ser chata por causa disso. Ele m e contou sobre quando acordou.

— Só m e lem brei de um a coisa, m as nem tenho certeza de que era um a lem brança. Eu achei que m e lem brava de alguém dizendo m eu nom e, m e cham ando de Archie. Mas talvez estivesse lem brando um a coisa que ainda não tinha acontecido, vendo que um dia alguém m e chamaria de Archie. — Ele sorriu por causa da m inha expressão. — Eu sei, é um dilem a circular, não é? Ele passou a m ão pela cabeça num gesto inconsciente. — O cabelo? — Estava tão curto que só dava para ver que o cabelo seria castanho-escuro, quase preto, com o suas sobrancelhas. — Era um visual m eio extrem o para os anos 1920. Meio cedo para eu ser um skinhead, graças aos céus. Meu m elhor palpite é doença ou m au com portam ento. — Mau com portam ento? — perguntei.

Ele deu de om bros.

— Eu talvez estivesse na prisão.

— Você não podia ser m uito m ais velho do que eu — protestei. Ele uniu os dedos, pensando.

— Gosto de acreditar que, se eu era crim inoso, era ao m esm o tem po gênio do crim e e um prodígio.

Jessam ine, sentada à m esa e em silêncio, riu com igo. — Não foi confuso do j eito que provavelm ente devia ter sido — disse Archie quando perguntei com o foram as prim eiras visões. — Parecia norm al, eu sabia que o que estava vendo não tinha acontecido. Acho que talvez j á visse coisas antes de ser transform ado. Ou talvez só m e adapte com rapidez. — Ele sorriu, j á sabendo a pergunta que eu estava esperando para fazer. — Foi Jess. Ela foi a prim eira coisa que vi. — E então: — Não, eu só a conheci pessoalm ente bem depois.

Algum a coisa no tom dele m e deixou curioso. — Quanto tem po?

— Vinte e oito anos.

— Vinte e oito… Você teve que esperar vinte e oito anos? Mas você não podia…? Ele assentiu.

— Eu poderia tê-la encontrado antes. Sabia onde ela estava. Mas ela ainda não estava pronta para m im . Se eu tivesse chegado cedo dem ais, ela teria m e m atado.

Eu fiz um ruído de surpresa e olhei para ela, que ergueu um a sobrancelha para m im , e então olhei para Archie. Ele riu.

— Mas Edy the disse que você era o único capaz de enfrentá-la…? Jessam ine sibilou, não com o se estivesse com raiva, m as sim irritada. Olhei para ela de novo, e ela estava revirando os olhos.

— Nunca vam os saber — disse Archie. — Se Jess estava m esm o tentando m atar Edy the, e não brincando…? Bem , Jess tem m uita experiência. Ver o futuro não é o único m otivo de eu conseguir acom panhar Edy the, tam bém é porque Jess m e ensinou a lutar. O grupo de Lauren estava todo olhando para Eleanor, ela é espetacular, eu concordo. Mas, se aquilo virasse um a luta, Eleanor não teria sido o problem a deles. Se eles tivessem olhado a m inha querida m elhor — ele j ogou um beij o para ela —, eles teriam esquecido a garota forte. Eu m e lem brei da prim eira vez que vi Jessam ine, no refeitório com a fam ília. Linda, com o os outros, m as com um j eito ousado. Antes m esm o de eu form ular em palavras ou em pensam ento, senti que havia algum a coisa nela que batia com o que Archie estava dizendo agora.

Olhei para Archie.

— Pode perguntar para ela — disse ele. — Mas não vai rolar. — Ele quer saber m inha história? — conj ecturou Jessam ine. Ela riu um a vez, fazendo um som som brio. — Você não está pronto para isso, Beau. Pode acreditar.

E, apesar de ainda estar curioso, eu acreditei nela. — Você disse que os hum anos eram m ais difíceis… m as parece m e ver com facilidade — observei.

— Estou prestando atenção, e você está bem aqui — disse Archie. — Além do m ais, dois segundos de vantagem são m ais sim ples. É o prazo m ais longo que não fica parado. Até m esm o um a hora com plica as coisas. Archie m e m anteve atualizado sobre o que estava acontecendo com os outros, o que era praticam ente nada. Joss era boa em fugir. Havia truques, Archie disse. Cheiros não podiam ser farej ados pela água, por exem plo. Joss parecia conhecer os truques. Um as seis vezes, o rastro os levou de volta a Forks, para depois sair em um a direção diferente de novo. Duas vezes, Archie ligou para Carine para dar instruções. Um a vez foi por causa da direção na qual Joss tinha pulado de um penhasco, a outra vez foi onde eles encontrariam o cheiro dela do outro lado de um rio. Pela form a com o descreveu, ele não estava vendo a caçadora, estava vendo Edy the e Carine. Achei que ele devia ver a fam ília de form a m ais clara. Eu quis pedir o telefone, m as sabia que não era hora de ouvir a voz de Edy the. Elas estavam caçando.

Eu tam bém sabia que devia estar torcendo para que Edy the e o resto do grupo tivesse sucesso, m as só consegui sentir alívio conform e a distância entre ela e Joss foi ficando m aior, apesar da aj uda de Archie. Se significasse que eu ficaria preso ali naquele quarto de hotel para sem pre, eu não reclam aria. O que a deixasse em segurança.

Havia um a pergunta que eu queria fazer m ais do que as outras, m as hesitei. Acho que, se Jessam ine não estivesse presente, eu talvez tivesse falado antes. Não m e sentia tão à vontade na presença dela quanto na de Archie agora. E isso devia ser só porque ela não estava tentando fazer com que eu m e sentisse assim . Quando eu estava com endo… era o j antar? Talvez, eu não conseguia identificar qual era a refeição. Nessa hora, com ecei a pensar em form as diferentes de perguntar. Então, vi um a expressão no rosto de Archie e soube que ele j á sabia o que eu queria perguntar, e, diferentem ente das m inhas dezenas de outras perguntas, estava escolhendo não responder àquela. Eu apertei os olhos.

— Estava na lista de instruções de Edy the? — perguntei com voz azeda. Pensei ouvir um leve suspiro vindo do canto de Jessam ine. Devia ser irritante ouvir m eia conversa. Mas ela devia estar acostum ada. Eu apostaria que Edy the e Archie não precisavam falar em voz alta quando conversavam . — Ficou subentendido — respondeu Archie.

Pensei na briga deles no Jeep. Teria sido por isso? — E nossa futura am izade não basta para você m udar sua lealdade? Ele franziu a testa.

— Edy the é m inha irm ã.

— Mesm o você discordando dela quanto a isso? Ficam os nos olhando por um m inuto.

— Foi isso que você viu — percebi. Senti m eus olhos se arregalando. — E ela ficou chateada. Você j á viu, não foi?

— Foi só um futuro dentre m uitos. Tam bém vi você m orrer — lem brou ele. — Mas você viu. É um a possibilidade.

Ele deu de om bros.

— Você não acha que m ereço saber? Mesm o só havendo um a pequena chance? Ele ficou m e olhando enquanto decidia.

— Merece — disse, por fim . — Você tem o direito de saber. Eu esperei.

— Você não conhece fúria com o a de Edy the quando é contrariada — avisou ele.

— Não é da conta dela. Isso é entre m im e você. Com o seu am igo, eu im ploro. Ele hesitou e decidiu.

— Posso contar a m ecânica, m as eu m esm o não m e lem bro, e nunca fiz nem vi ninguém fazer, então tenha em m ente que só posso lhe contar a teoria. — Com o alguém vira vam piro?

— Ah, é só isso? — m urm urou Jessam ine atrás de m im . Eu tinha esquecido que ela estava ouvindo.

Eu esperei.

— Com o predadores — com eçou Archie —, tem os um a profusão de arm as em nosso arsenal físico… m uito, m uito m ais do que o realm ente necessário. A força, a velocidade, os sentidos aguçados, para não falar daqueles de nós com o Edy the, Jessam ine e eu, que tam bém têm sentidos a m ais. E então, com o um a planta carnívora, som os fisicam ente atraentes para nossa presa. Eu estava m uito quieto, lem brando-m e da clareza com que Edy the dem onstrou o m esm o conceito para m im na cam pina.

Ela deu um sorriso largo e seus dentes brilharam .

— Tem os outra arm a bastante supérflua. Tam bém som os venenosos. O veneno não m ata, é apenas incapacitante. Age lentam ente, espalhando-se pela corrente sanguínea de m odo que, depois de m ordida, nossa presa sente um a dor física forte dem ais para escapar de nós. Mas é supérfluo, com o eu disse. Se chegam os tão perto, a presa não escapa. A não ser que a gente queira. — Carine — falei, baixinho. Os buracos na história que Edy the m e contou estavam se preenchendo. — Então… se o veneno vai se espalhando…? — Leva alguns dias para que a transform ação sej a com pleta, dependendo da quantidade de veneno na corrente sanguínea e da proxim idade entre o veneno e o coração. O criador de Carine a m ordeu na m ão de propósito, para tornar tudo pior. Desde que o coração continue batendo, o veneno se espalha, curando, transform ando o corpo ao se m ovim entar por ele. Por fim o coração para e a conversão é concluída. Mas em todo esse tem po, em cada m inuto dele, a vítim a desej aria estar m orta, gritaria pedindo isso.

Estrem eci.

— Não é agradável, não.

— Edy the disse que era m uito difícil fazer… m as isso parece bem sim ples. — De certa form a, tam bém som os com o tubarões. Depois que sentim os o gosto de sangue, ou o cheiro dele, fica m uito difícil evitar o alim ento. Às vezes é im possível. Então entenda, m order alguém , sentir o gosto de sangue é o com eço do frenesi. É difícil para am bas as partes. A sede de sangue de um lado, a dor m edonha do outro.

— Parece um a coisa da qual você se lem braria — observei. — Para todos os outros, a dor da transform ação é a lem brança m ais forte que têm da vida hum ana. Não sei por que sou diferente. Archie ficou olhando para trás de m im , em silêncio. Eu m e perguntei com o seria não saber quem você era. Olhar no espelho e não reconhecer a pessoa olhando para você.

Mas eu tinha dificuldade de acreditar que Archie podia ter sido um crim inoso; havia algum a coisa intrinsecam ente boa no rosto dele. Roy al era o exibido, para quem as garotas da escola olhavam , m as havia algum a coisa m elhor do que perfeição no rosto de Archie. Era totalm ente puro. — Há aspectos positivos em ser diferente — disse Archie de repente. — Não m e lem bro de ninguém que deixei para trás. Tam bém pude não ter essa dor. — Ele olhou para m im e apertou um pouco os olhos. — Carine, Edy the e Earnest perderam gente que era im portante para eles antes de deixarem a hum anidade para trás. Portanto, houve dor, m as não arrependim ento. Foi diferente para os outros. A dor física é um a coisa rápida em com paração, Beau. Há j eitos m ais lentos de sofrer…

“Roy al tinha pais que o am avam e contavam com ele, duas irm ãzinhas que adorava. Jam ais pôde vê-los depois que foi transform ado. E viveu m ais do que todos. Esse tipo de dor é m uito, m uito lenta.”

Eu m e perguntei se ele estava tentando fazer com que eu m e sentisse m al por Roy al, dar um desconto para o suj eito m esm o ele m e odiando. Bem … estava dando certo.

Ele balançou a cabeça, com o se soubesse que eu não estava entendendo. — Faz parte do processo, Beau. Eu não vivenciei isso. Não posso dizer com o é. Mas é parte do processo.

E então, eu entendi o que ele estava m e dizendo. Ele estava totalm ente im óvel de novo. Coloquei o braço atrás da cabeça e fiquei olhando para o teto.

Se… se, um dia, Edy the m e quisesse assim … o que significaria para m am ãe? O que significaria para Charlie?

Havia tantas coisas em que pensar. Coisas que eu nem sabia que não devia pensar.

Mas algum as coisas pareceram óbvias. Por algum m otivo, Edy the não m e queria pensando nessas coisas. Por quê? Eu sentia um a dor no estôm ago quando tentava pensar em algum a resposta a essa pergunta.

De repente, Archie ficou de pé.

Eu olhei para ele, assustado pelo m ovim ento repentino, m as fiquei alarm ado ao ver o rosto dele.

Estava totalm ente branco, vazio, com a boca entreaberta. Jessam ine foi para o lado dele e o em purrou delicadam ente para a cadeira. — O que você está vendo? — perguntou ela, a voz baixa e tranquilizadora. — Algum a coisa m udou — disse Archie, a voz ainda m ais baixa. Eu m e inclinei para perto.

— O que foi?

— Um quarto. É com prido, há espelhos em toda parte. O chão é de m adeira. A rastreadora está na sala, esperando. Há um a listra verm elha nos espelhos. — Onde fica a sala?

— Não sei. Falta algum a coisa… Um a decisão que ainda não foi tom ada. — Quanto tem po?

— Logo. Ela estará na sala de espelhos hoj e, ou talvez am anhã. Depende. Ela está esperando algum a coisa. — O rosto dele ficou vazio de novo. — E agora, está no escuro.

A voz de Jessam ine era calm a e m etódica.

— O que ela está fazendo?

— Está vendo televisão… não, está passando um vídeo, no escuro, em outro lugar.

— Pode ver onde ela está?

— Não, está escuro dem ais.

— E a sala de espelhos, o que m ais há nela?

— Só os espelhos e o ouro. É um a faixa, em volta da sala. E há um a m esa preta com um aparelho de som grande e um a tv. Ela está tocando o vídeo ali, m as não assiste com o faz na sala escura. Esta é a sala onde ela espera. — Seus olhos vagaram , depois focalizaram o rosto de Jessam ine. — Não há m ais nada?

Ele balançou a cabeça. Eles se olharam , im óveis. — O que isso significa? — perguntei.

Nenhum dos dois respondeu por um m om ento, depois Jessam ine olhou para m im .

— Significa que os planos da rastreadora m udaram . Ela tom ou um a decisão que a levará à sala de espelhos e à sala escura.

— Mas não sabem os onde ficam essas salas?

— Não.

— Mas sabem os que ela não vai estar nas m ontanhas ao norte de Washington sendo caçada. Ela vai enganá-los. — A voz de Archie era inexpressiva. Ele atendeu o telefone na hora que vibrou.

— Carine — disse. E olhou para m im . — Sim . — Ele ouviu por um longo m om ento e disse: — Acabo de vê-la. — Ele descreveu a visão com o tinha feito para Jessam ine. — O que quer que a tenha feito pegar esse avião… está levando a essas salas. — Ele parou. — Sim .

Ele esticou o celular para m im .

— Beau.

Eu arranquei o aparelho da m ão dele.

— Alô.

— Beau — sussurrou Edy the.

— Ah, Edy the — falei. — Onde você está?

— Perto de Vancouver. Me desculpe, Beau, nós a perdem os. Ela parece suspeitar de nós, fica longe o bastante para eu não poder ouvi-la. Ela sum iu agora, parece que roubou um pequeno avião. Acham os que está voltando a Forks para recom eçar.

Pude ouvir Archie inform ando Jessam ine atrás de m im . — Eu sei. Archie viu que ela fugiu.

— Mas não precisa se preocupar. Você não deixou rastro. Só precisa ficar com Archie e esperar até que a encontrem os novam ente. Archie vai ter algum a inform ação sobre ela em breve.

— Eu vou ficar bem . Earnest está com Charlie? — Está. O hom em estava na cidade. Foi até a casa, m as enquanto Charlie estava no trabalho. Não chegou perto do seu pai. Não se preocupe, Charlie está seguro com Earnest e Roy al vigiando-o.

De certa form a, a presença de Roy al não m e consolou m uito. — O que você acha que Victor está fazendo?

— Tentando pegar o rastro. Ele andou por toda a cidade durante a noite. Roy al o seguiu até o aeroporto de Port Angeles, por todas as ruas da cidade, pela escola… Ele está cavando, Beau, m as não há nada para ser encontrado. — E tem certeza de que Charlie está seguro?

— Sim , Earnest não vai perdê-lo de vista. E chegarem os lá em breve. Se a rastreadora chegar perto de Forks, eu a pego.

Eu engoli em seco.

— Tom e cuidado. Fique com Carine e Eleanor. — Eu sei o que estou fazendo.

— Estou com saudade — falei.

— Eu sei, acredite. Parece que você levou m etade de m im com você. — Venha pegar, então.

— Assim que for possível. Prim eiro vou consertar a situação. — A voz dela ficou seca.

— Eu te am o — lem brei.

— Você acreditaria que, apesar de tudo o que fiz você passar, eu tam bém te am o?

— Sim , acredito.

— Vou buscá-lo em breve.

— Vou ficar esperando.

O telefone ficou m udo, e um a onda repentina de depressão desabou sobre m im . Jessam ine ergueu o rosto com rapidez, e o sentim ento se dissipou. Jessam ine voltou a observar Archie. Ele estava no sofá, inclinado sobre a m esa com a caneta do hotel na m ão. Andei até lá para ver o que ele estava fazendo. Ele estava desenhando em um papel de carta do hotel. Eu m e inclinei nas costas do sofá e olhei por cim a do om bro dele.

Ele desenhou um a sala: com prida, retangular, com um a parte m ais fina e quadrada ao fundo. Fez linhas para m ostrar as tábuas de m adeira que com punham o piso e se estendiam pelo am biente. Pelas paredes havia linhas denotando as interrupções nos espelhos. Eu não os estava visualizando dessa form a, cobrindo a parede toda daquele j eito. E depois, envolvendo as paredes, na altura da cintura, um a faixa com prida. A faixa que Archie disse ser dourada. — É um estúdio de balé — falei, reconhecendo de repente as form as fam iliares. Eles olharam para m im , surpresos.

— Conhece essa sala? — A voz de Jessam ine parecia calm a, m as havia algum a coisa disfarçada nela. Archie chegou m ais perto do papel, a m ão agora voando pela superfície. Um a saída de em ergência ganhou form a na parede dos fundos, onde eu sabia que estaria; o aparelho de som e a TV ocupavam o canto direito na frente da sala.

— Parece um lugar onde m inha m ãe dava aulas de dança. Ela não ficou m uito tem po lá. Tinha o m esm o form ato. — Eu toquei o papel onde se destacava a parte quadrada, estreitando os fundos da sala. — Ali ficavam os banheiros, as portas davam para outra sala de dança. Mas o aparelho de som ficava aqui — apontei o canto esquerdo —, era m ais antigo e não tinha um a TV. Havia um a j anela na sala de espera, dava para ver a sala desta perspectiva se olhasse por ela.

Archie e Jessam ine m e encaravam .

— Tem certeza de que é a m esm a sala? — perguntou Jessam ine, com a m esm a calm a nada natural.

— Não, não tenho certeza. Acho que a m aioria dos estúdios de dança deve ser parecida, os espelhos, a barra. — Inclinei-m e no sofá e passei o dedo pela barra de balé j unto aos espelhos. — É só o form ato que m e pareceu fam iliar. — Você teria algum m otivo para ir lá agora? — perguntou Archie. — Não. Não vou lá desde que m inha m ãe parou de dar aulas. Deve ter uns dez anos.

— Então não há com o relacionar este lugar a você? — perguntou Archie com atenção.

Eu balancei a cabeça.

— Acho que nem pertence m ais ao m esm o dono. Tenho certeza de que é outro estúdio de dança, em algum outro lugar.

— Onde ficava o estúdio em que sua m ãe dava aulas? — perguntou Jessam ine, num a voz bem m ais casual do que a de Archie. — Bem na esquina da nossa casa. Foi por isso que ela aceitou o em prego, para eu m e encontrar com ela lá quando voltasse a pé da escola… — Minha voz sum iu quando vi o olhar que eles trocaram .

— Aqui em Phoenix, então? — perguntou ela, ainda casual. — É — sussurrei. — Rua Cinquenta e Oito com Cactus. Todos olham os o desenho em silêncio.

— Archie, este telefone é seguro? — perguntei. — O núm ero é identificado com o de Washington — disse ele. — Então posso usar para ligar para m inha m ãe. — Ela está na Flórida, não está? Vai ficar em segurança lá. — Está… Mas volta para casa logo, e não pode voltar para aquela casa enquanto… — Um trem or percorreu m inha voz. Eu estava pensando em Victor procurando na casa de Charlie, na escola de Forks onde ficavam m eus registros. — Qual é o núm ero dela? — perguntou Archie. Ele estava com o celular na m ão. — Eles não têm núm ero perm anente, a não ser o de casa. Ela deve verificar os recados regularm ente.

— Jess? — perguntou Archie.

Ela pensou no assunto.

— Não acho que isso possa fazer algum m al, m as não diga onde está, é claro. Eu assenti e peguei o telefone. Liguei para o núm ero fam iliar e esperei tocar quatro vezes até a voz leve da m inha m ãe com eçar a dizer para deixar um recado.

— Mãe — falei, depois do sinal —, sou eu. Escute, preciso que você faça um a coisa. É im portante. Assim que receber este recado, m e ligue neste núm ero — Archie apontou para o núm ero, j á escrito em baixo de seu desenho. Eu li com cuidado, duas vezes. — Por favor, não vá a lugar nenhum antes de falar com igo. Não se preocupe, eu estou bem , m as tenho que conversar com você im ediatam ente, não im porta a hora que você receber esta m ensagem , está bem ? Eu te am o, m ãe. Tchau. — Fechei os olhos e rezei com todas as forças para que nenhum a m udança de planos im prevista levasse m inha m ãe para casa antes de ela receber m eu recado.

E assim , voltam os a esperar.

Pensei em ligar para Charlie, m as não sabia direito o que podia dizer. Vi o noticiário, concentrado agora, procurando m atérias sobre a Flórida ou sobre a tem porada de treinos, greves ou furacões ou ataques terroristas, qualquer coisa que pudesse m andar os dois para casa antes da hora. Parecia que a im ortalidade concedia tam bém um a paciência interm inável. Nem Jessam ine nem Archie pareciam sentir necessidade de fazer qualquer coisa. Por algum tem po, Archie desenhou o contorno vago da sala escura de sua visão, o m áxim o que podia enxergar à luz da TV. Mas, quando term inou, ele sim plesm ente se sentou e olhou as paredes vazias. Jessam ine tam bém parecia não ter o im pulso de andar, nem olhar pelas cortinas, nem de abrir buracos na parede aos socos, com o eu tinha.

Devo ter dorm ido no sofá, esperando que o telefone tocasse.