Vida e Morte

Stephenie Meyer · Capítulo 15 de 27

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Vida e Morte

13. Confissões

 

DE OLHOS FECHADOS, Edy the andou cegam ente para a luz. Meu coração pulou na garganta e saí correndo na direção dela. — Edythe!

Só quando os olhos dela se abriram e cheguei perto o bastante para com eçar a entender o que estava vendo foi que percebi que ela não estava pegando fogo. Ela levantou a m ão de novo, com a palm a voltada para m im , e eu parei cam baleando, quase caindo de j oelhos.

A luz ardia na pele dela, dançava em arco-íris prism áticos pelo rosto e pescoço, pelos braços. Ela brilhava tanto que precisei apertar os olhos, com o se estivesse tentando olhar para o sol.

Pensei em cair de j oelhos de propósito. Esse era o tipo de beleza que se venerava. O tipo pela qual tem plos eram construídos e sacrifícios eram oferecidos. Desej ei ter algum a coisa nas m ãos vazias para dar para ela, m as o que um a deusa queria de um m ortal m edíocre feito eu? Dem orei um tem po para ver além da incandescência e enxergar a expressão no rosto dela. Ela estava m e observando com olhos arregalados; quase parecia que estava com m edo de algum a coisa. Dei um passo na direção dela, que se encolheu de leve.

— Isso m achuca você? — sussurrei.

— Não — sussurrou ela, em resposta.

Dei outro passo em sua direção; ela era o ím ã de novo, e eu era só um pedaço inerte de m etal. Ela baixou a m ão ao lado do corpo. Enquanto ela se m exia, o brilho cintilou pelo braço. Lentam ente, andei ao redor dela, m antendo certa distância, só precisando absorver isso, vê-la de todos os ângulos. O sol brincava na pele dela, refletia e am pliava cada cor que a luz podia abrigar. Meus olhos estavam se aj ustando e se arregalaram , m aravilhados. Eu sabia que ela tinha escolhido as roupas com cautela, que estava determ inada a m e m ostrar isso, m as a form a com o ela estava agora, com os om bros tensos, as pernas firm es, fez com que eu m e perguntasse se ela não estava em dúvida da decisão agora.

Term inei m eu círculo e atravessei os poucos m etros entre nós. Não conseguia parar de olhar, não conseguia nem piscar.

— Edy the — m urm urei.

— Está com m edo agora? — sussurrou ela.

— Não.

Ela olhou com curiosidade nos m eus olhos, tentando ouvir o que eu estava pensando.

Estiquei a m ão para ela, deliberadam ente devagar, observando o rosto dela em busca de perm issão. Seus olhos se abriram ainda m ais, e ela ficou paralisada. Cuidadosa e lentam ente, rocei os dedos na pele cintilante do braço dela. Fiquei surpreso de ver que continuava fria, com o sem pre. Enquanto m eus dedos tocavam nela, os reflexos brilharam na m inha pele, e, de repente, m inha m ão não era m ais m edíocre. Ela era tão im pressionante que conseguia até m e deixar m enos com um .

— O que você está pensando? — sussurrou ela. Eu m e esforcei para encontrar palavras.

— Estou… Eu não sabia… — Respirei fundo, e as palavras finalm ente saíram . — Nunca vi nada tão bonito, nunca im aginei que um a coisa tão bonita pudesse existir.

Seus olhos ainda estavam cautelosos. Com o se ela achasse que eu estava dizendo o que achava que ela queria ouvir. Mas era a pura verdade, talvez a coisa m ais verdadeira e não censurada que j á disse na vida. Eu estava im pressionado dem ais para filtrar ou fingir.

Ela com eçou a levantar a m ão, m as a baixou. O brilho trem eu. — Mas é m uito estranho — m urm urou ela.

— Incrível — sussurrei.

— Você não sente repulsa por m inha evidente falta de hum anidade? Eu balancei a cabeça.

— Repulsa, não.

Ela apertou os olhos.

— Mas deveria.

— Estou achando que a hum anidade é valorizada dem ais. Ela puxou o braço de debaixo dos m eus dedos e o levou às costas. Em vez de seguir a dica, dei m eio passo para m ais perto dela, consegui sentir o brilho refletido no m eu rosto.

De repente, ela estava a três m etros de m im , com a m ão de alerta levantada de novo e o m axilar trincado.

— Desculpe — falei.

— Preciso de um tem po — disse ela.

— Vou tom ar m ais cuidado.

Ela assentiu, andou para o m eio da cam pina, fazendo um pequeno arco quando passou por m im , m antendo os três m etros entre nós. Sentou-se de costas para m im , com a luz do sol incandescente nas om oplatas, m e fazendo pensar em asas de novo. Cheguei m ais perto lentam ente, depois m e sentei de frente para ela a um m etro e m eio de distância.

— Assim está bom ?

Ela assentiu, m as não pareceu ter certeza.

— Só m e deixe… m e concentrar.

Fiquei em silêncio, e, depois de alguns segundos, ela fechou os olhos de novo. Não m e incom odei com isso. Vê-la assim não era algo de que eu podia m e cansar. Eu a observei, tentando entender o fenôm eno, e ela m e ignorou. Meia hora depois, ela se deitou de repente na gram a com a m ão atrás da cabeça. A gram a estava longa o bastante para obscurecer m inha vista parcialm ente. — Posso…? — perguntei.

Ela bateu no chão ao lado do corpo.

Cheguei um pouco m ais perto, e, com o ela não protestou, cheguei ainda m ais alguns centím etros.

Os olhos dela ainda estavam fechados, as pálpebras cintilando em um lilás pálido sobre os cílios escuros. O peito subia e descia regularm ente, quase com o se ela estivesse dorm indo, só que havia um a certa ideia de esforço e controle no m ovim ento. Ela parecia m uito ciente do processo de inspirar e expirar. Sentei-m e com as pernas cruzadas, os cotovelos nos j oelhos e o queixo nas m ãos. Estava m uito quente, a sensação do sol na m inha pele estava estranha agora que eu estava tão acostum ado com a chuva, e a cam pina continuava linda, m as era só pano de fundo agora. Não se destacava. Eu tinha um a nova definição de beleza.

Os lábios dela se m exeram , e a luz cintilou neles enquanto quase… trem iam . Achei que ela estava falando, m as as palavras estavam baixas e rápidas dem ais. — Você… disse algum a coisa? — sussurrei.

Ficar sentado ao lado dela assim , vendo-a brilhar, m e fez sentir necessidade de silêncio. De reverência até.

— Só estou cantando sozinha — m urm urou ela. — Me acalm a. Não nos m ovem os por m uito tem po, exceto pelos lábios dela, de vez em quando cantando baixo dem ais para que eu ouvisse. Um a hora se passou, talvez m ais. Gradualm ente, a tensão que não percebi totalm ente no com eço foi sum indo, até que tudo ficou tão pacífico que quase senti sono. Cada vez que eu m exia o corpo, acabava um centím etro m ais próxim o dela.

Eu m e inclinei para perto, observei a m ão dela e tentei encontrar as facetas na pele lisa. Sem nem pensar, estiquei um dedo e acariciei as costas da m ão, im pressionado de novo com a textura lisa de cetim , fria com o pedra. Senti os olhos dela em m im e ergui o rosto, o dedo congelado. Os olhos dela estavam pacíficos e ela ainda estava sorrindo. — Continuo não assustando você, não é?

— Não. Desculpe.

Ela abriu o sorriso ainda m aior. Os dentes brilharam no sol. Cheguei m ais perto ainda, estiquei a m ão inteira e acom panhei a form a do antebraço com as pontas dos dedos. Vi que m eus dedos estavam trem endo. Os olhos dela se fecharam de novo.

— Você se im porta? — perguntei.

— Não. Você não pode im aginar qual é a sensação.

Passei a m ão de leve na estrutura delicada do braço dela, seguindo o padrão claro de veias azuladas dentro da dobra do cotovelo. Fui virar a m ão dela, e quando ela percebeu o que eu queria, virou a palm a para cim a em um m ovim ento tão rápido que não existiu. Meus dedos pararam . — Desculpe — m urm urou ela, e sorriu porque a fala era m inha. Suas pálpebras se fecharam de novo. — É fácil dem ais ser eu m esm a com você. Eu levantei a m ão dela, virei de um lado para o outro enquanto olhava o sol cintilar na palm a. Levantei bem perto do rosto, tentando de novo encontrar as facetas.

— Me conte o que está pensando — sussurrou ela. Estava m e olhando de novo, os olhos m ais claros do que eu j á tinha visto. Cor de m el pálido. — Ainda é estranho para m im essa coisa de não saber.

— O resto de nós sente isso o tem po todo, sabe. — Que vida difícil — disse ela, e havia um a nota de desam paro no tom dela. — Mas você não m e contou.

— Eu estava desej ando saber o que você estava pensando… — E?

— E desej ando conseguir acreditar que você é real. Tenho m edo… — Não quero que você tenha m edo. — A voz dela foi um m urm úrio. Nós dois ouvim os o que ela não disse, que eu não precisava ter m edo, que não havia nada a tem er.

— Não é desse tipo de m edo que estou falando. Tão rápido que não vi o m ovim ento, ela se apoiou no braço direito, ainda com a palm a esquerda nas m inhas m ãos. O rosto de anj o estava a poucos centím etros do m eu. Eu devia ter m e inclinado para longe. Era para eu tom ar cuidado. Os olhos de m el ardiam .

— Então de que você tem m edo? — sussurrou ela. Não consegui responder. Senti o hálito doce e frio no rosto, com o só tinha sentido um a vez antes. Sem pensar, m e inclinei para m ais perto e inspirei. E ela sum iu, arrancando a m ão das m inhas tão rápido que ardeu. No tem po que m eus olhos levaram para focalizar, ela estava a seis m etros de distância, na beirada da pequena cam pina, à som bra de um pinheiro. Ficou m e olhando com os olhos escuros nas som bras, a expressão ilegível. Consegui sentir o choque no m eu rosto e m inhas m ãos ardendo. — Edy the. Me… desculpe. — Minha voz saiu só um sussurro, m as eu sabia que ela conseguia m e ouvir.

— Me dê um m om ento — pediu ela, alto o bastante para m eus ouvidos m enos sensíveis.

Fiquei bem parado.

Depois de dez longos segundos, ela voltou, bem devagar para os padrões dela. Parou quando ainda estava a alguns m etros e se sentou graciosam ente no chão, cruzando as pernas. Os olhos não desviaram dos m eus. Ela respirou fundo duas vezes e sorriu em um pedido de desculpas.

— Lam ento m uito. — Ela hesitou. — Você entenderia o que quero dizer se eu dissesse que fui apenas hum ana?

Assenti um a vez, sem conseguir sorrir com a piada dela. A adrenalina pulsava em m inhas veias enquanto eu m e dava conta do que tinha acabado de acontecer. Ela era capaz de sentir o cheiro de onde estava sentada. Seu sorriso ficou debochado.

— Sou o m elhor predador do m undo, não sou? Tudo em m im é convidativo para você… m inha voz, m eu rosto, até m eu cheiro. Com o se eu precisasse de qualquer um a dessas coisas!

De repente, ela não passava de um a m ancha. Eu pisquei e ela sum iu; em seguida, estava debaixo da m esm a árvore de antes, depois de contornar a cam pina toda em um a fração de segundo.

— Com o se pudesse correr m ais rápido do que eu — disse ela, am argam ente. Pulou três m etros e m eio de altura, pegou um galho de sessenta centím etros de espessura e arrancou do tronco sem sinal de esforço. Estava de volta ao chão no m esm o instante, balançando a lança enorm e e retorcida na m ão por um m om ento. Depois, com velocidade cegante, o girou com um a das m ãos, com o um taco, acertando a árvore da qual o tinha arrancado. Com um bum explosivo, o galho e a árvore se partiram ao m eio. Antes m esm o que eu tivesse tem po de m e encolher por causa do barulho, antes m esm o de a árvore cair no chão, ela estava na m inha frente de novo, parada a m eio m etro, im óvel com o um a escultura.

— Com o se pudesse lutar com igo — disse ela delicadam ente. Atrás dela, o som da árvore caindo no chão ecoou pela floresta.

Eu nunca a tinha visto tão com pletam ente livre da cuidadosa fachada hum ana. Ela nunca esteve m enos hum ana… nem m ais linda. Não consegui m e m exer, com o um a ave presa pelos olhos de um a serpente. Seus olhos pareciam brilhar de em polgação. Depois, com o passar dos segundos, o brilho dim inuiu. Sua expressão aos poucos se transform ou em um a m áscara de tristeza. Ela parecia prestes a chorar, e m e esforcei para ficar de j oelhos e esticar um a das m ãos para ela.

Ela esticou a m ão em sinal de alerta.

— Espere.

Eu parei de novo.

Ela deu um passo na m inha direção.

— Não tenha m edo — m urm urou, a voz de veludo involuntariam ente sedutora. — Eu prom eto… — Ela hesitou. — Eu juro que não vou m achucar você. Ela parecia m ais preocupada em convencer a si m esm a do que a m im . — Não precisa ter m edo — sussurrou ela novam ente enquanto se aproxim ava, com um a lentidão exagerada.

Ela parou a trinta centím etros e tocou delicadam ente a m inha m ão que ainda estava esticada. Envolvi a dela, com firm eza.

— Perdoe-m e, por favor — pediu, form alm ente. — Eu consigo m e controlar. Você m e pegou desprevenida. Mas agora estou m e com portando m elhor. Ela esperou que eu respondesse, m as só fiquei aj oelhado na frente dela, olhando, com o cérebro totalm ente confuso.

— Hoj e não estou com sede, é sério. — Ela piscou. Com essa, eu tive que rir, em bora o som saísse m eio ofegante. — Você está bem ? — perguntou ela, estendendo o braço lenta e cuidadosam ente para colocar a outra m ão em cim a da m inha.

Olhei a m ão m acia de m árm ore e depois os olhos dela. Estavam suaves e arrependidos, m as ainda consegui ver tristeza neles. Abri um sorriso tão largo que m inhas bochechas doeram . Seu sorriso em resposta foi estonteante.

Com um m ovim ento deliberadam ente lento e sinuoso, ela se sentou no chão e cruzou as pernas. Desaj eitado, eu a im itei, até estarm os de frente um para o outro, os j oelhos se tocando e as m ãos ainda unidas entre nós. — Então onde estávam os m esm o, antes de eu m e com portar de form a tão rude? — Sinceram ente, não faço ideia.

Ela sorriu, m as sua expressão era de vergonha. — Acho que estávam os falando sobre por que você tinha m edo, além do m otivo óbvio.

— Ah, sim .

— E então?

Olhei para nossas m ãos e virei a m inha para que a luz brilhasse pela dela. — Com o m e frustro com facilidade. — Ela suspirou. Olhei em seus olhos, de repente entendendo que tudo isso era tão novo para ela com o era para m im . Mesm o com os m uitos anos de experiência que ela teve antes de nos conhecerm os, tam bém era difícil para ela. Isso m e deu coragem . — Eu estava com m edo… porque, bom , por m otivos óbvios, não posso ficar com você, posso? E é o que quero, m uito m ais do que deveria. — Sim — concordou ela lentam ente. — Ficar com igo não é vantaj oso para você. Franzi a testa.

— Eu devia ter ido em bora naquele prim eiro dia e não ter voltado. Devia ir em bora agora. — Ela balançou a cabeça. — Eu talvez conseguisse naquele m om ento. Não sei com o conseguir agora.

— Não vá. Por favor.

O rosto dela se crispou.

— Não se preocupe. Sou essencialm ente um a criatura egoísta. Desej o dem ais sua com panhia para fazer o que deveria.

— Que bom !

Ela fez um a expressão irritada, soltou m inhas m ãos com cuidado e cruzou os braços. A voz soou m ais áspera quando ela voltou a falar. — Nunca esqueça que não é só sua com panhia que eu desej o. Jam ais esqueça que sou m ais perigosa para você do que para qualquer outra pessoa. — Ela ficou com um olhar perdido voltado para a floresta. Pensei por um m om ento.

— Acho que não entendo exatam ente o que você quer dizer com essa últim a parte.

Ela olhou para m im e sorriu, seu hum or im previsível m udando novam ente. — Com o posso explicar? E sem horrorizar você? Sem parecer pensar, ela pegou m inha m ão novam ente. Eu a segurei com força. Ela olhou nossas m ãos.

— É incrivelm ente agradável, o calor.

Passou-se um m inuto enquanto ela parecia estar organizando os pensam entos. — Todo m undo gosta de sabores diferentes, certo? — com eçou ela. — Algum as pessoas adoram sorvete de chocolate, outras preferem m orango. Eu assenti.

— Desculpe pela analogia com com ida. Não consegui pensar em outra form a de explicar.

Eu sorri. Ela tam bém sorriu, m as com tristeza. — Vej a bem , cada pessoa tem um cheiro próprio, tem um a essência própria… Se você trancar um a alcoólatra em um a sala cheia de cervej a choca, ela beberia. Mas poderia resistir, se quisesse, se fosse um a alcoólatra em recuperação. Agora digam os que você colocasse naquela sala um a taça de conhaque de cem anos, o conhaque m ais raro e m ais refinado, e enchido a sala com seu arom a quente. Com o pensa que nossa alcoólatra se com portaria? Ficam os sentados em silêncio por um m inuto, nos encarando, tentando ler os pensam entos um do outro.

Ela foi a prim eira a rom per o silêncio.

— Talvez essa não sej a a com paração correta. Talvez sej a fácil dem ais rej eitar o conhaque. Talvez eu deva fazer de nossa alcoólatra um a viciada em heroína. — Então o que está dizendo é que sou seu tipo preferido de heroína? — questionei num tom de brincadeira, tentando deixar o clim a m ais leve. Ela sorriu rapidam ente, parecendo gostar do m eu esforço. — Sim , você é exatamente m eu tipo preferido de heroína. — Isso acontece com frequência? — perguntei. Ela olhou para a copa das árvores, pensando na resposta. — Falei com m inhas irm ãs sobre isso. — Ele ainda olhava fixam ente a distância. — Para Jessam ine, todos vocês são a m esm a coisa. Ela é a m ais nova em nossa fam ília. É um a luta para ela se privar de tudo isso. Não teve tem po para desenvolver a sensibilidade às diferenças de cheiro, de sabor. — Ela olhou rapidam ente para m im . — Desculpe.

— Tudo bem . Olhe, não tenha m edo de m e ofender, nem de m e horrorizar, o que for. É assim que você pensa. Consigo entender, ou pelo m enos posso tentar. Só explique da form a que faz sentido para você. Ela respirou fundo e olhou para trás de m im .

— Então Jessam ine não tem certeza se j á se deparou com alguém que fosse tão… — Ela hesitou, procurando a palavra certa — Atraente com o você é para m im . O que m e faz pensar que não. — Ela olhou para m im . — Ela se lem braria disso.

Ela afastou o olhar de novo.

— Eleanor está na estrada há m ais tem po, por assim dizer, e entendeu o que eu quis dizer. Disse que foram duas vezes com ela, um a m ais forte do que a outra. — E com você?

— Nunca até agora.

Ficam os nos olhando de novo. Dessa vez, eu quebrei o silêncio. — O que Eleanor fez?

Foi a pergunta errada. Ela se encolheu, e seu rosto pareceu torturado de repente. Esperei, m as ela não acrescentou nada.

— Tudo bem , acho que foi um a pergunta idiota. Ela ficou m e olhando de um j eito que suplicava por com preensão. — Até o m ais forte de nós fraquej a, não é?

— Você… está pedindo m inha perm issão? — sussurrei. Um arrepio percorreu m inha espinha, e não teve nada a ver com m inhas m ãos geladas. Ela arregalou os olhos em choque.

— Não!

— Mas você está dizendo que não há esperança, certo? Eu sabia que não era norm al encarar a m orte assim sem nenhum sentim ento de m edo. Não que eu fosse supercoraj oso, eu sabia que não era. Mas m inha escolha não seria diferente, m esm o sabendo que term inaria assim . Ela fez cara de raiva de novo, m as eu achava que não era com igo. — Claro que há esperança. Claro que não vou… — Ela deixou a frase no ar. Os olhos pareciam estar queim ando os m eus fisicam ente. — É diferente para nós. Eleanor… foram estranhos que ela encontrou por acaso. Foi há m uito tem po. Ela não tinha tanta prática, tanto cuidado, com o tem agora. E ela nunca foi tão boa nisso quanto eu sou.

Ela fez silêncio e m e observou intensam ente enquanto eu pensava. — Então, se tivéssem os nos encontrado… hã, em um beco escuro ou coisa parecida…

— Precisei de tudo que eu tinha, de todos os anos de prática e sacrifício e esforço, para não pular no m eio daquela sala cheia de j ovens e… — Ela parou de falar, desviando os olhos. — Quando você passou por m im , eu podia ter estragado tudo o que Carine construiu para nós naquele exato m om ento. Se não tivesse renegado m inha sede pelos últim os… m uitos anos, eu não teria sido capaz de m e refrear.

Ela olhou para m im m elancolicam ente, nós dois nos lem brando. — Você deve ter pensado que eu estava possuída. — Eu não entendi o m otivo. Com o você podia m e odiar, do nada… — Para m im , foi com o se você fosse um a espécie de dem ônio, conj urado de m eu inferno pessoal para m e arruinar. A fragrância que vinha de sua pele… Pensei que m e enlouqueceria naquele prim eiro dia. Naquela hora, pensei em cem m aneiras diferentes de atrair você para fora da sala com igo, para ficar sozinha com você. E com bati cada um a delas, pensando em m inha fam ília, no que eu estaria fazendo a eles. Tive que fugir, sair dali antes que pudesse pronunciar as palavras que o fariam m e seguir… Ela olhou para m im , seus olhos dourados ardendo sob os cílios, hipnótica e m ortal.

— Você teria ido — garantiu ela.

Tentei falar calm am ente.

— Sem dúvida nenhum a.

Ela olhou com a testa franzida para as nossas m ãos. — E depois, enquanto eu tentava reorganizar m eu horário num a tentativa insensata de evitá-lo, você apareceu ali. Naquela sala quente e apertada, o cheiro foi enlouquecedor. Foi por m uito pouco que não o peguei ali m esm o. Só havia outro ser hum ano frágil na sala. Teria sido tão fácil. Foi tão estranho ver m inhas lem branças novam ente, m as dessa vez com legendas. Com preendendo pela prim eira vez o que tudo queria dizer, com preendendo o perigo. Coitado do Sr. Cope. Trem i novam ente ao pensar em com o estive perto de ser inadvertidam ente responsável por sua m orte. — Mas resisti. Não sei com o. E m e obriguei a não esperar você, não o seguir na saída da escola. Era m ais fácil do lado de fora, quando não conseguia m ais sentir seu cheiro, pensar com clareza, tom ar a decisão certa. Deixei os outros perto de casa. Senti vergonha dem ais para dizer a eles com o eu era fraca, eles só souberam que algum a coisa estava errada. E fui direto procurar Carine no hospital, para lhe dizer que iria em bora.

Eu a encarei, surpreso.

— Troquei de carro com ela. Ela estava com o tanque cheio de gasolina e eu estava com m edo de parar. Não ousei ir para casa e enfrentar Earnest. Ele não m e deixaria ir sem brigar. Tentaria m e convencer de que não era necessário… “Na m anhã seguinte, eu estava no Alasca.”

Ela pareceu envergonhada, com o se estivesse adm itindo um a grande covardia. — Passei dois dias lá, com alguns velhos conhecidos… m as fiquei com saudade de casa. Odiava saber que tinha aborrecido Earnest, e o resto deles, m inha fam ília adotiva. No ar puro das m ontanhas era difícil acreditar que você fosse tão irresistível. Convenci a m im m esm a de que era fraqueza fugir. Eu havia lidado com tentações antes, não dessa m agnitude, nem perto disso, m as eu era forte. Quem era você, um garoto hum ano insignificante — ela sorriu de repente —, para m e tirar do lugar em que eu queria estar? Ah, o pecado m ortal do orgulho. — Ela balançou a cabeça. — Então, eu voltei… Eu não consegui falar.

— Tom ei precauções, caçando, m e alim entando m ais do que de costum e antes de ver você de novo. Tinha certeza de que era forte o bastante para tratá-lo com o trataria qualquer outro ser hum ano. Fui arrogante com relação a isso. “Foi um a com plicação inquestionável eu não conseguir sim plesm ente ler seus pensam entos para saber qual era sua reação a m im . Não estava acostum ada a ter que chegar a m edidas tão tortuosas, ouvir suas palavras na m ente de Jerem y … A m ente dele não é m uito original, e era irritante ter que condescender com isso. E eu não tinha com o saber se você realm ente queria dizer o que dizia ou se estava dizendo o que achava que a plateia queria ouvir. Era tudo extrem am ente irritante.”

Ela franziu o cenho ao se lem brar disso.

— Eu queria que você esquecesse m eu com portam ento naquele prim eiro dia, se possível, então tentei falar com você com o falaria com qualquer pessoa. Estava ansiosa, na verdade, esperando decifrar parte de seus pensam entos. Mas você era interessante dem ais. Eu m e vi vítim a de suas expressões… e, de vez em quando, você se m exia, e o ar se agitava ao seu redor… O arom a m e atordoava de novo…

“É claro que depois você quase m orreu esm agado diante de m eus olhos. Mais tarde, pensei em um a desculpa perfeita para eu ter agido naquele m om ento; porque, se eu não tivesse salvado você, se seu sangue fosse derram ado na m inha frente, acho que eu não conseguiria m e im pedir de expor o que nós som os. Mas só pensei nessa desculpa depois. Na hora, só no que eu pensava era: Ele não.” Ela fechou os olhos, com expressão angustiada. Por bastante tem po, ficou em silêncio. Esperei com ansiedade, o que não devia ser a reação m ais inteligente. Mas foi um alívio finalm ente entender a outra m etade da história. — No hospital? — perguntei.

Seus olhos lam pej aram para os m eus.

— Eu fiquei atordoada. Não conseguia acreditar que afinal havia nos colocado em risco, havia colocado a m im m esm a em seu poder… Justo você. Com o se eu precisasse de outro m otivo para m atá-lo. — Nós dois nos encolhem os à m enção da palavra, e ela continuou rapidam ente. — Mas o desastre teve o efeito contrário. Eu briguei com Roy al, Eleanor e Jessam ine quando eles sugeriram que estava na hora… a pior briga que tivem os. Carine ficou do m eu lado, e Archie tam bém . — Ela franziu a testa quando disse o nom e dele. Não consegui entender por quê. — Earnest m e disse para fazer o que fosse preciso para ficar. Ela sacudiu a cabeça com condescendência.

— Por todo o dia seguinte, ouvi a m ente de todos que falaram com você, chocada por você ter cum prido sua palavra. Eu não o entendia. Mas sabia que não podia m e envolver m ais com você. Fiz o m áxim o que pude para ficar o m ais longe possível. E, todo dia, o perfum e de sua pele, de seu hálito… m e atingia com a m esm a intensidade do prim eiro dia.

Ela encontrou m eus olhos de novo, e os dela estavam surpreendentem ente ternos. — E, por tudo isso — continuou ela —, eu teria feito m elhor se tivesse m esm o exposto a nós todos naquele prim eiro m om ento, do que se agora, aqui, sem testem unhas nem nada que m e im peça, eu viesse a m achucar você. — Por quê?

— Ah, Beau. — Ela tocou na m inha bochecha de leve com as pontas dos dedos. Um choque percorreu m eu corpo com esse toque despreocupado. — Beau, eu não sobreviveria se o ferisse. Você não sabe com o isso m e tortura. — Ela baixou os olhos, novam ente envergonhada. — Pensar em você, im óvel, lívido, frio… nunca m ais vê-lo corar de novo, nunca m ais ver esse lam pej o de intuição em seus olhos quando você enxerga através de m eus fingim entos… Seria insuportável. — Ela ergueu os gloriosos olhos angustiados para os m eus. — Você é, agora, a coisa m ais im portante do m undo para m im . A m ais im portante de toda a m inha vida.

Minha cabeça girava com a m udança rápida de direção. Minutos antes, eu achava que estávam os falando sobre m inha m orte im inente. Agora, de repente, estávam os nos declarando.

Segurei a m ão dela com m ais força e olhei nos olhos dourados. — Você j á sabe o que eu sinto. Estou aqui porque prefiro m orrer com você a viver sem você. — Percebi o quanto isso soava m elodram ático. — Me desculpe, sou um idiota.

— Você é m esm o um idiota — concordou ela com um a risada, e ri j unto. A situação toda era idiotice. E im possibilidade e m agia. — E então, o leão se apaixonou pelo cordeiro — m urm urou ela. A palavra foi com o outro choque elétrico no m eu corpo.

Tentei disfarçar m inha reação.

— Que cordeiro im becil.

Ela suspirou.

— Que leão m asoquista e doentio.

Ela olhou a floresta por um longo m om ento e eu m e perguntei o que estava pensando.

— Por quê…? — com ecei, m as parei, sem ter certeza de com o continuar. Ela olhou para m im e sorriu; o sol reluzia em seu rosto, em seus dentes.

— Sim ?

— Diga por que fugiu de m im antes.

O sorriso dela desapareceu.

— Você sabe por quê.

— Não, quer dizer, exatamente o que eu fiz de errado? Preciso aprender a tornar isso m ais fácil para você, tenho que saber o que devo e o que não devo fazer. Isto, por exem plo — eu afaguei o pulso dela com o polegar — parece não fazer m al nenhum .

— Você não fez nada de errado, Beau. A culpa foi m inha. — Mas eu quero aj udar.

— Bom … — Ela pensou por um m om ento. — Foi a proxim idade. A m aioria dos hum anos se afasta por instinto, se sente repelida por nossa estranheza… Eu não esperava que você chegasse tão perto. E o cheiro de seu pescoço… — Ela parou de repente, olhando para verificar se tinha m e perturbado. — Tudo bem . — Eu baixei o queixo. — Nada de exposição de pescoço. Ela sorriu.

— Não, é sério, foi m ais a surpresa do que qualquer outra coisa. Ela ergueu a m ão livre e a colocou delicadam ente em m eu pescoço. Fiquei im óvel, reconhecendo que o arrepio de seu toque era para ser um alerta natural e m e perguntando por que não conseguia sentir isso. O que eu sentia era bem diferente.

— Está vendo? — disse ela. — Tudo está perfeitam ente bem . Meu sangue estava disparado, e eu queria poder reduzir a velocidade. Devia tornar tudo m uito m ais difícil para ela, o m artelar de m inha pulsação nas veias. — Adoro isso — m urm urou ela.

Ela soltou gentilm ente a outra m ão. Minhas m ãos caíram inertes no colo. Suavem ente, ela passou a m ão no ponto quente na m inha bochecha, depois segurou m eu rosto entre as m ãos pequenas e frias. — Fique com pletam ente parado — sussurrou ela. Fiquei paralisado quando ela se inclinou para cim a de m im de repente, encostou a bochecha no m eu peito e ouviu m eu coração. Consegui sentir o gelo da pele dela pela cam iseta fina. Com lentidão deliberada, as m ãos dela foram até m eus om bros e seus braços envolveram m eu pescoço, m e segurando com firm eza. Escutei o som da respiração cuidadosa e regular, que parecia estar acom panhando m eus batim entos. Um a inspiração para cada três batidas, um a expiração para cada outras três.

— Ah — disse ela.

Não sei quanto tem po ficam os sentados sem nos m exer. Podiam ter sido horas. Por fim , o latej ar da m inha pulsação se aquietou. Eu sabia que a qualquer m om ento isso podia ser dem ais e m inha vida chegaria ao fim , tão rapidam ente que eu talvez nem sequer percebesse. Mas ainda não sentia m edo. Não conseguia pensar em nada, a não ser que ela estava m e tocando. E então, cedo dem ais, ela soltou os braços do m eu pescoço e se afastou. Seus olhos estavam tranquilos de novo.

— Não vai ser m ais tão difícil — disse ela com satisfação. — Foi m uito difícil para você?

— Não tanto quanto eu im aginei. E para você? — Não, não foi… ruim para m im .

Nós sorrim os um para o outro.

— Aqui. — Ela pegou m inha m ão, com facilidade, com o se não precisasse nem pensar, e a colocou em seu rosto. — Sente com o m e deixou quente? E estava quase quente, sua pele norm alm ente gélida. Mas m al percebi, porque tocava seu rosto, algo com que sonhava e fantasiava constantem ente desde o prim eiro dia que a vi.

— Não se m exa — sussurrei.

Ninguém ficava parado com o um vam piro. Ela fechou os olhos e virou um a estátua.

Eu m e m exi ainda m ais lentam ente do que ela, com o cuidado de não fazer nenhum m ovim ento inesperado. Acariciei sua bochecha, passei com as pontas dos dedos pelas pálpebras lilás, nas som bras na cavidade debaixo dos olhos. Acom panhei o form ato do nariz perfeito e depois, com m uito cuidado, seus lábios perfeitos. Os lábios se separaram e pude sentir o hálito frio na ponta dos dedos. Eu queria m e inclinar, inspirar o cheiro dela, m as sabia que talvez fosse dem ais. Se ela podia se controlar, eu tam bém podia, ainda que num a escala bem m enor. Tentei m e m over em câm era lenta para que ela pudesse adivinhar tudo que eu ia fazer antes que eu fizesse. Passei a palm a da m ão pelas laterais do pescoço fino, apoiei-a nos om bros enquanto m eus polegares seguiam a curva im possivelm ente frágil das clavículas.

Ela era tão m ais forte do que eu, de tantas form as. Eu pareci perder o controle das m ãos enquanto passavam pelas pontas dos om bros e pelas om oplatas afiadas. Não consegui m e segurar quando a envolvi com os braços e a puxei contra o peito de novo. Cruzei as m ãos atrás dela e envolvi a cintura dela pelos dois lados. Ela se inclinou para m im , m as foi o único m ovim ento. Não estava respirando. Isso m e dava um lim ite de tem po.

Eu m e inclinei para encostar o rosto no cabelo dela por um longo segundo, inspirando profundam ente o arom a dela. Em seguida, m e obriguei a tirar as m ãos dela e m e afastar. Um a das m inhas m ãos não quis obedecer com pletam ente; desceu pelo braço dela e pousou no pulso. — Desculpe — m urm urei.

Ela abriu os olhos, e estavam fam intos. Não de um a form a que m e desse m edo, m as de m odo a estreitar os m úsculos na boca do estôm ago e fazer m inha pulsação m artelar nas veias de novo.

— Eu queria… — sussurrou ela —, queria que você pudesse sentir a… com plexidade… a confusão… que eu sinto. Que você pudesse entender. Ela levantou a m ão até m eu rosto, depois passou os dedos rapidam ente pelo m eu cabelo.

— Me conte — sussurrei.

— Não sei se consigo. Sabe, por um lado, tem a fom e, a sede que, sendo o que sou, eu sinto por você. E penso que você pode entender isso, até certo ponto. Mas — ela deu um m eio sorriso —, com o você não é viciado em nenhum a substância ilícita, provavelm ente não pode ter um a em patia com pleta. Mas… — Seus dedos tocaram m eus lábios de leve, e m eu coração disparou. — Existem outras coisas que quero, outras fom es. Fom es que eu não entendo. — Posso entender isso m elhor do que você pensa. — Não estou acostum ada a m e sentir tão hum ana. É sem pre assim ? — Para m im ? — Hesitei. — Não, nunca. Pelo m enos, até agora. Ela colocou as m ãos dos dois lados do m eu rosto. — Não sei com o ficar perto de você. Não sei se consigo. Coloquei as m ãos sobre as dela e m e inclinei lentam ente para a frente, até nossas testas se tocarem .

— Isso basta. — Eu suspirei, fechando os olhos. Ficam os sentados assim por um m om ento, e ela colocou os dedos no m eu cabelo. Virou o rosto e encostou os lábios na m inha testa. O ritm o da m inha pulsação explodiu, ficando disparado e irregular.

— Você é m uito m elhor nisso do que acha — eu disse quando consegui falar de novo.

Ela se inclinou para longe e segurou m inhas m ãos de novo. — Nasci com instintos hum anos. Podem estar enterrados lá no fundo, m as existem .

Ficam os nos olhando por m ais um m om ento im ensurável; eu m e perguntei se ela estava tão sem vontade de se m exer quanto eu. Mas a luz desaparecia, as som bras da floresta estavam quase nos tocando. — Você tem que ir.

— Achei que não pudesse ler m inha m ente.

Ela sorriu.

— Está ficando m ais clara.

Um a em polgação repentina surgiu nos olhos dela. — Posso lhe m ostrar um a coisa?

— O que quiser.

Ela sorriu.

— Que tal voltarm os m ais rápido até a picape? Olhei para ela com cautela.

— Você não quer ver com o eu ando pela floresta? — insistiu ela. — Juro que é seguro.

— Você vai… se transform ar em m orcego?

Ela caiu na gargalhada.

— Com o se eu não tivesse ouvido essa antes! — Tudo bem , tenho certeza de que ouve o tem po todo. Ela se levantou em outro m ovim ento veloz invisível. Estendeu a m ão para m im , e pulei ao lado dela. Ela se virou e olhou para m im por cim a do om bro. — Suba nas m inhas costas.

Eu fiquei olhando para ela.

— Hã?

— Não sej a covarde, Beau. Prom eto que não vai m achucar. Ela ficou ali, esperando, de costas para m im , totalm ente séria. — Edy the, eu não… quer dizer, como? Ela se virou para m im com um a sobrancelha levantada. — Você deve conhecer o conceito de m ontar nas costas. Eu dei de om bros.

— Claro, m as…

— Qual é o problem a, então?

— Bem … você é tão pequena.

Ela expirou com exasperação e sum iu. Dessa vez, senti o vento da passagem dela. Um segundo depois, ela estava de volta com um a rocha na m ão. Um a rocha de verdade. Que deve ter arrancado do chão, porque a parte de baixo estava coberta de terra e raízes. Seria da altura da cintura dela se ela a colocasse no chão. Ela inclinou a cabeça para um lado.

— Não foi isso o que eu quis dizer. Não estou dizendo que você não é forte o bastante…

Ela j ogou a rocha com leveza por cim a do om bro, que voou para além da beirada da floresta e caiu na terra com o som de m adeira e pedra se estilhaçando.

— Obviam ente — prossegui. — Mas eu… Com o eu caberia? — Olhei para m inhas pernas longas dem ais e para o corpo delicado. Ela se virou de costas para m im de novo.

— Confie em m im .

Sentindo-se a pessoa m ais idiota e m ais desaj eitada da história, passei os braços com hesitação pelo pescoço dela.

— Ande — disse ela com im paciência.

Ela esticou um a das m ãos para trás e segurou m inha perna, puxando m eu j oelho para cim a do quadril dela.

— Opa!

Mas ela j á estava com m inha outra perna, e em vez de cair para trás, aguentou m eu peso com facilidade. Aj eitou m inhas pernas ao redor da cintura. Meu rosto estava quente, e eu sabia que devia parecer um gorila m ontado em um galgo. — Estou m achucando você?

— Por favor, Beau.

Ainda que constrangido, eu estava bem ciente de que m eus braços e pernas estavam bem apertados no corpo m agro dela. De repente, ela segurou m inha m ão e apertou a palm a no rosto. E inspirou profundam ente.

— Fica cada vez m ais fácil — m urm urou ela. E então, saiu correndo.

Pela prim eira vez, senti m edo pela m inha vida. Pavor. Ela disparou pela floresta com o um a bala, com o um fantasm a. Não havia nenhum som , nenhum a prova de que seus pés tocavam o chão. Sua respiração não m udou, não indicou esforço nenhum . Mas as árvores voavam a um a velocidade m ortal, passando a centím etros de nós. Fiquei chocado dem ais para fechar os olhos, em bora o ar frio batesse no m eu rosto e os fizesse arder. Senti com o se estivesse colocando a cabeça para fora da j anela de um avião em pleno voo.

De repente, acabou. Tínham os andado por horas esta m anhã até a cam pina de Edy the, e agora, em questão de m inutos (nem m esm o m inutos, segundos), estávam os de volta ao carro.

— Extasiante, não? — Sua voz estava alta e anim ada. Ela ficou im óvel, esperando que eu soltasse as pernas e m e afastasse dela. Eu tentei, m as não consegui fazer m eus m úsculos descongelarem . Meus braços e pernas ficaram travados enquanto a cabeça girava de um j eito desagradável. — Beau? — cham ou ela, agora ansiosa.

— Acho que preciso m e deitar — revelei, arfando. — Ah, m e desculpe.

Dem orei alguns segundos para lem brar com o abria os dedos. E então, tudo pareceu se soltar ao m esm o tem po, e m eio que caí dela e cam baleei para trás, até perder o equilíbrio e term inar a queda.

Ela esticou a m ão e tentou não rir, m as recusei a aj uda. Fiquei no chão e coloquei a cabeça entre os j oelhos. Meus ouvidos estavam apitando e m inha cabeça girava em círculos irregulares.

Senti um toque frio na nuca. Aj udou.

— Acho que não foi a m elhor ideia — refletiu ela. Tentei ser positivo, m as m inha voz saiu vazia.

— Não, foi m uito interessante.

— Rá! Você está branco feito um fantasm a. Não, pior, está branco feito eu! — Acho que devia ter fechado os olhos.

— Lem bre-se disso da próxim a vez.

Olhei para ela, assustado.

— Próxim a vez?

Ela riu, o hum or ainda radiante.

— Exibida — m urm urei e baixei a cabeça de novo. Depois de m eio m inuto, m inha cabeça quase havia parado de girar. — Olhe para m im , Beau.

Levantei a cabeça, e ela estava bem ali, o rosto a centím etros do m eu. Sua beleza foi com o um soco que m e deixou atordoado. Eu não conseguia m e acostum ar. — Fiquei pensando, enquanto estava correndo… — Em não bater nas árvores, espero — interrom pi, sem fôlego. — Beau bobinho. Correr faz parte da m inha natureza. Não é um a coisa na qual tenha que pensar.

— Exibida — m urm urei de novo.

Ela sorriu.

— Não, eu estava pensando que há um a coisa que quero experim entar. — Ela colocou as m ãos no m eu rosto de novo.

Eu não consegui respirar.

Ela hesitou. Parecia um teste, para ter certeza de que era seguro, de que ela ainda estava sob controle.

E então seus lábios frios e perfeitos se encostaram bem levem ente nos m eus. Nenhum de nós estava preparado para m inha reação. O sangue ferveu sob m inha pele, ardendo em m eus lábios. Minha respiração assum iu um ofegar louco. Meus dedos se em aranharam em seu cabelo, puxando-a para m im . Meus lábios se separaram enquanto eu respirava seu cheiro inebriante.

Im ediatam ente, ela se transform ou num a pedra inanim ada sob m eus lábios. Suas m ãos em purraram m eu rosto para trás delicadam ente, m as com firm eza. Abri os olhos e vi a expressão de cautela.

— Ops — falei.

— Ops é pouco.

Seus olhos estavam arredios, o queixo trincado. Meu rosto estava a centím etros do dela, os dedos entrelaçados no cabelo.

— Devo…? — Tentei m e soltar, dar algum espaço. Suas m ãos não m e soltaram .

— Não, é tolerável. Espere um m om ento, por favor. — A voz saiu educada e controlada.

Mantive os olhos nela, assistindo neles à excitação que dim inuía e se suavizava. Ela deu um sorriso, satisfeita consigo m esm a.

— Pronto.

— Tolerável? — perguntei.

Ela riu.

— Sou m ais forte do que eu pensava. É bom saber disso.

— E eu, não. Desculpe.

— Você é apenas hum ano, afinal de contas. Eu suspirei.

— É.

Ela soltou o cabelo dos m eus dedos e se levantou em um dos m ovim entos leves e quase invisíveis. Ela estendeu a m ão de novo, e dessa vez a peguei para m e levantar. Eu precisava da aj uda; m eu equilíbrio ainda não tinha voltado. Oscilei de leve ao dar um passo para longe dela.

— Ainda está tonto por causa da corrida ou foi m inha perícia no beij o? — Ela pareceu m uito hum ana enquanto ria agora, relaxada e tranquila. Era um a nova Edy the, diferente daquela que conheci, e fiquei ainda m ais inebriado por ela. Eu sentiria dor física de ter que m e separar dela.

— Os dois.

— Talvez deva m e deixar dirigir.

— Hã, acho que j á vivenciei sua necessidade de velocidade além da conta hoj e…

— Posso dirigir m elhor do que você em seu m elhor dia — disse ela. — Você tem reflexos m uito m ais lentos.

— Acredito em você, m as não acho que m inha picape possa aguentar você na direção.

— Um pouco de confiança, por favor, Beau.

Minha m ão se fechou ao redor da chave no bolso. Repuxei os lábios, com o se estivesse pensando, depois balancei a cabeça com um sorriso apertado. — Nada disso. Nem pensar.

Ela ergueu as sobrancelhas, segurou m inha cam iseta e puxou. Eu quase tropecei nela, m as m e apoiei com a m ão no om bro dela. — Beau, j á gastei m uito esforço pessoal a essa altura para m anter você vivo. Não vou deixar você se sentar ao volante de um carro quando nem consegue andar direito. Am igos não deixam am igos dirigirem bêbados. — Bêbado? — obj etei.

Ela ficou nas pontas dos pés para que o rosto ficasse perto do m eu. Consegui sentir a fragrância insuportavelm ente doce do hálito dela. — Está em briagado com m inha presença.

— Não posso contestar isso. — Suspirei. Não havia com o escapar; não podia resistir a ela em nada. Ergui a chave e a larguei, para ver sua m ão voar com o um raio para pegá-la sem fazer nenhum som . — Vá com calm a. Meu carro é um cidadão idoso.

— Muito prudente.

Ela soltou m inha cam isa e tirou m inha m ão de seu om bro. — E você não está nada afetada? Com m inha presença? Ela se virou e esticou a m ão para pegar a m inha, levando-a ao rosto de novo. Apoiou-se na palm a e fechou os olhos. Inspirou lenta e profundam ente. — Não im porta… — m urm urou ela. Seus olhos se abriram e ela deu um sorriso. — Tenho reflexos m elhores.