Vida e Morte
11. Complicações
TODO MUNDO NOS viu andando j untos para nosso lugar no laboratório. Percebi que ela não virou a cadeira para se sentar o m ais distante possível de m im . Em vez disso, sentou-se bem ao m eu lado, nossos braços quase se tocando. O cabelo dela roçava na m inha pele.
A Sra. Banner entrou na sala naquele m om ento, puxando um a TV e um videocassete ultrapassados, apoiados em um carrinho. Pareceu que todo m undo na sala relaxou ao m esm o tem po. Tam bém fiquei aliviado. Eu sabia que não conseguia prestar atenção à aula hoj e. Eu j á tinha m uito em que pensar. A Sra. Banner enfiou a fita velha no videocassete e foi até a parede para apagar a luz. E então, assim que a sala escureceu, as coisas ficaram estranhas. Eu j á estava hiperconsciente de que Edy the estava bem ali, a m enos de três centím etros de m im . Eu não achava que podia ficar m ais consciente disso. Mas, no escuro, de algum a form a… Parecia que um a corrente elétrica fluía do corpo dela para o m eu, com o se os relâm pagos em m iniatura que pulam entre circuitos estivessem dançando pela distância curta entre nossos corpos. Quando o braço dela tocava no m eu braço, eu sentia quase dor. Um im pulso forte e louco de esticar a m ão e tocar nela, de acariciar o rosto perfeito um a vez na escuridão, quase m e sufocou. Qual era o m eu problem a? Não se podia sair por aí tocando nas pessoas porque as luzes estavam apagadas. Cruzei os braços com força sobre as costelas e apertei bem as m ãos. Com eçaram os créditos de abertura, ilum inando a sala um pouquinho. Não consegui m e im pedir de dar um a espiada nela. Ela estava sentada exatam ente com o eu, com os braços cruzados, as m ãos fechadas, olhando para m im . Quando m e viu olhando tam bém , ela sorriu quase com constrangim ento. Mesm o no escuro, os olhos dela ainda ardiam . Precisei afastar o olhar antes de fazer algum a besteira, um a coisa que não se conform aria à ideia dela de cuidado.
A hora pareceu m uito longa. Não consegui m e concentrar no film e. Eu nem fazia ideia de qual era o tem a. Tentei agir norm alm ente, fazer m eus m úsculos relaxarem , m as a corrente elétrica não se atenuou. De vez em quando, eu m e perm itia um a olhada rápida na direção dela, que tam bém não parecia relaxar. A sensação de que eu tinha que tocar no rosto dela tam bém se recusava a dim inuir. Mantive os punhos apertados nas costelas até que m eus dedos doeram do esforço. Soltei um suspiro de alívio quando a Sra. Banner acendeu a luz no fundo da sala e estiquei os braços nas laterais do corpo e flexionei os dedos enrij ecidos. Edy the deu um a gargalhada.
— Bom , isso foi… interessante — m urm urou ela. Sua voz estava baixa e os olhos, cautelosos.
— Hm m m — foi só o que consegui responder. — Vam os? — perguntou ela, levantando-se facilm ente. Ela pegou a bolsa com um dedo.
Eu m e levantei com cuidado, com m edo de não conseguir andar direito depois disso tudo.
Ela m e acom panhou em silêncio até a aula de educação física e parou na porta. Olhei para baixo para m e despedir, m as engasguei com as palavras. Seu rosto… estava abalado, quase de dor, e tão terrivelm ente lindo que a dor para tocá-la voltou m ais intensam ente do que antes. Tive que m e controlar para não ficar encarando.
Ela ergueu a m ão, hesitante, o conflito evidente no olhar, e afagou rapidam ente m eu m axilar com a ponta dos dedos. A pele estava gelada, com o sem pre, m as o rastro que deixou na m inha foi quase com o um a queim adura que ainda não estava doendo.
Ela se virou sem dizer nada e se afastou depressa de m im . Entrei no ginásio, tonto e instável, e troquei de roupa em transe, quase sem perceber as pessoas em volta de m im . Só caí na realidade quando m e deram um a raquete.
Não era pesada, m as eu sabia que não im portava. Nas m inhas m ãos, era perigosa. Consegui ver alguns alunos olhando para m im e para a raquete. E então, a treinadora Clapp nos m andou form ar duplas, e concluí que seria o últim o cara a ser escolhido.
Mas subestim ei a lealdade de McKay la. Ela veio se postar ao m eu lado na m esm a hora.
— Você não precisa fazer isso, sabe — falei.
Ela sorriu.
— Não se preocupe, vou m e m anter fora de seu alcance. Às vezes era tão fácil gostar de McKay la.
Não foi assim tão tranquilo. Não sei com o, m as consegui bater a raquete na m inha própria cabeça e golpear o om bro de McKay la num m esm o m ovim ento. Passei o resto do tem po no fundo da quadra, a raquete colocada com segurança às m inhas costas. Apesar de levar desvantagem por m inha causa, McKay la era m uito boa; venceu três j ogos de quatro j ogando sozinha, depois deu um tapa na m inha m ão quando a treinadora finalm ente tocou o apito, encerrando a aula. — E aí — disse ela enquanto saíam os da quadra. — E aí o quê?
— Você e Edy the Cullen, hein? — O tom dela foi ligeiram ente hostil. — É, eu e Edy the Cullen — respondi. Tive certeza de que ela ouviu bem o tom im pressionado na m inha voz.
— Não gosto disso — m urm urou ela.
— Ah, você não precisa gostar.
— Então ela estala os dedos e você vai correndo atrás? — Acho que é.
Ela fez cara feia para m im . Dei as costas para ela e saí andando. Eu sabia que seria o único a sobrar am anhã, m as não m e im portei. Quando estava vestido, j á tinha esquecido McKay la. Edy the estaria esperando lá fora ou eu devia esperá-la no carro? E se a fam ília dela estivesse lá? Ela tinha estacionado ao lado do carro de Roy al. Só de pensar no rosto de Roy al no refeitório, m e perguntei se devia ir andando para casa. Ela teria contado que eu sabia? Eu devia saber que eles sabiam que eu sabia? Qual era a etiqueta para cum prim entos vam piros? Um aceno funcionaria?
Mas, quando saí do ginásio, Edy the estava lá. Estava nas som bras do prédio, apesar de as nuvens ainda estarem pretas, com as m ãos entrelaçadas na frente do corpo. O rosto estava pacífico agora, com um pequeno sorriso erguendo os cantos dos lábios. O suéter fino não parecia suficiente, e apesar de eu saber que era burrice, senti vontade de tirar o casaco e envolvê-la com ele. Quando andei para perto dela, senti um a harm onia estranha, com o se tudo estivesse certo no m undo enquanto eu estivesse perto dela.
— Oi. — Consegui sentir o sorriso enorm e e bobo na m inha cara. — Olá. — Seu sorriso de resposta foi reluzente. — Com o foi na educação física? Fiquei desconfiado de repente.
— Bem .
— É m esm o? — Ela levantou as sobrancelhas. — Com o está sua cabeça. — Você não fez isso.
Ela saiu andando devagar na direção do estacionam ento. Acom panhei o passo dela autom aticam ente.
— Foi você que disse que eu nunca o vi na educação física. Fiquei curiosa. — Que ótim o — falei. — Fantástico. Bem , lam ento por isso. Não m e im porto de ir andando para casa se você não quiser ser vista com igo. Ela deu um a risada m usical.
— Foi divertido. Mas eu não teria m e im portado se você tivesse batido com m ais força naquela garota.
— O quê?
Quando ela olhou para trás, a boca form ou um a linha fina. Eu m e virei para ver o que ela estava olhando: era o cabelo louro de McKay la balançando conform e ela se afastava.
— Faz um tem po que alguém além da m inha fam ília não pensa palavras desse tipo sobre m im . Acho que não gostei.
Senti um a pontada de ansiedade por McKay la. Edy the leu m inha expressão e riu de novo.
— Não se preocupe, eu não m achucaria sua am iga. Se m achucasse, quem aceitaria ser sua parceira de badm inton?
Foi difícil raciocinar. Edy the era tão… delicada. Mas, quando disse isso, ficou claro que confiava e m uito nas próprias habilidades. Se ela quisesse McKay la ou qualquer outra pessoa ferida, a coisa ficaria feia para essa pessoa. Ela era perigosa, eu sabia, m as ficava dando de cara em um m uro cada vez que tentava acreditar. Mudei de assunto.
— Que tipos de palavras sua fam ília anda pensando sobre você? Ela balançou a cabeça.
— Não é j usto j ulgar as pessoas pelos pensam entos que têm . Eles foram feitos para serem particulares. São as ações que contam . — Não sei… Se você sabe que alguém está ouvindo, não é a m esm a coisa que falar em voz alta?
— É fácil para você dizer. — Ela sorriu. — Controlar os pensam entos é m uito difícil. Quando Roy al e eu brigam os, penso coisas bem piores sobre ele, e digo essas palavras em voz alta.
Ela deu a gargalhada ressonante de novo.
Eu não estava olhando para onde estávam os indo, então levei um susto quando tivem os que ir m ais devagar por estarm os bloqueados do carro de Edy the por alguns alunos. Havia um círculo em volta do conversível verm elho de Roy al, um a fila dupla e quase toda de m eninos. Alguns pareciam quase estar babando. Ninguém da fam ília dela estava ali, e m e perguntei se ela tinha pedido para eles darem espaço.
Nenhum dos adm iradores do carro olhou quando passei por eles para chegar à porta do carro de Edy the.
— Cham ativo — m urm urou ela ao passar por m im . Dei a volta correndo até o lado do passageiro e entrei. — Que carro é esse?
— Um M3 — disse ela enquanto tentava sair da vaga sem acertar ninguém . — Eu não falo a língua dos carros.
Ela fez um a m anobra cuidadosa para sair.
— É um BMW.
— Tudo bem , isso eu conheço.
Saím os da escola e ficam os só nós dois. A privacidade tinha gosto de liberdade. Não havia ninguém olhando e nem ouvindo.
— Já é depois? — perguntei.
Ela não deixou de perceber m eu tom . E franziu a testa. — Acho que é.
Fiquei com expressão neutra enquanto esperava que ela explicasse. Ela olhou para a estrada, fingindo que precisava, e eu observei o rosto dela. Algum as expressões diferentes surgiram ali, m as m udaram tão rápido que não consegui interpretar. Eu estava com eçando a m e perguntar se ela ia ignorar m inha pergunta quando ela parou o carro. Olhei para a frente, surpreso. Já estávam os na casa de Charlie, parados atrás da m inha picape. Concluí que era m ais fácil andar com ela quando eu só olhava no final.
Ela estava m e olhando quando olhei para ela, parecendo m e m edir com os olhos. — E você quer saber por que não pode m e ver caçar? — perguntou ela. A voz estava séria, m as a expressão era m eio divertida. Nem um pouco com o ficou no refeitório antes.
— Quero. E por que você pareceu tão… zangada quando perguntei. Ela levantou as sobrancelhas.
— Assustei você? — A pergunta pareceu cheia de esperanças. — Você queria?
Ela inclinou a cabeça para o lado.
— Talvez.
— Tudo bem , então é claro que fiquei apavorado. Ela sorriu, balançou a cabeça e ficou séria de novo. — Peço desculpas por ter reagido daquele j eito. Foi a ideia de que você estivesse lá… enquanto nós caçávam os. — Seu m axilar se contraiu. — Seria ruim ?
Ela falou entredentes.
— Extrem am ente.
— Por quê…?
Ela respirou fundo e olhou pela j anela para as nuvens carregadas que rolavam e pareciam pesar, quase ao alcance da m ão.
— Quando caçam os — disse ela lentam ente, sem nenhum a vontade —, nós nos entregam os aos nossos sentidos… funcionam os m enos com a m ente. Em especial o olfato. Se você estivesse perto de m im quando eu perdesse o controle desse j eito… — Ela balançou a cabeça, ainda encarando som briam ente as nuvens pesadas.
Mantive a expressão vazia, esperando pelo rápido lam pej o em seus olhos que avaliaria m inha reação e que veio logo em seguida. Mas sustentam os o olhar e o silêncio se aprofundou, m udou. As ondas de eletricidade que senti naquela tarde com eçaram a carregar a atm osfera enquanto ela fitava insistentem ente m eus olhos. Foi só quando m inha cabeça com eçou a girar que percebi que eu não estava respirando. Quando puxei o ar num a respiração entrecortada, quebrando o silêncio, ela fechou os olhos.
— Beau, acho que devia entrar agora. — Sua voz baixa não estava m ais suave, parecia seda áspera agora, e os olhos estavam nas nuvens de novo. Abri a porta, e a lufada ártica que irrom peu para dentro do carro aj udou a clarear m inha m ente. Com m edo de tropeçar com m inha vertigem , saí do carro com cuidado e fechei a porta, sem olhar para trás. O zum bido do vidro elétrico baixando fez com que eu m e virasse.
— Ah, Beau — cham ou ela. Estava inclinada para a j anela aberta com um sorrisinho nos lábios.
— O quê?
— Am anhã é a m inha vez.
— Sua vez de quê?
Ela abriu um sorriso largo, os dentes reluzentes faiscando. — De fazer as perguntas.
E foi em bora, o carro veloz pela rua, desaparecendo na esquina antes que eu pudesse organizar os pensam entos. Eu sorri ao andar até em casa. Estava claro que ela pretendia m e ver am anhã, no m ínim o. Naquela noite, Edy the apareceu em m eus sonhos, com o sem pre. Mas o clim a da m inha inconsciência m udara. Fiquei arrepiado com a m esm a eletricidade que senti naquela tarde e m e virei na cam a sem parar, acordando com frequência. Eram as prim eiras horas da m anhã quando finalm ente afundei em um sono exausto e sem sonhos.
Quando m eu despertador tocou, eu ainda estava cansado, m as tam bém anim ado. Depois do banho, m e olhei no espelho do banheiro enquanto penteava o cabelo m olhado. Eu estava com a m esm a aparência de sem pre, m as havia algum a coisa diferente. Meu cabelo estava escuro e grosso dem ais, m inha pele, pálida dem ais, e m eus ossos estavam com a m esm a form a dentro do corpo, sem terem m udado nada. Meus olhos continuavam azul-claros olhando para m im … m as percebi que eram os culpados. Eu sem pre achei que era a cor que os faziam , e, por extensão, todo o m eu rosto, parecerem tão inseguros, m as apesar de a cor não ter m udado, a falta de segurança, sim . O garoto que estava m e olhando agora estava determ inado, seguro de suas ações. Eu m e perguntei o que tinha acontecido. Eu achava que tinha um palpite.
O café da m anhã foi o de sem pre, silencioso, com o eu esperava. Charlie fritou ovos para si m esm o; eu com i um a tigela de cereal. Perguntei-m e se ele tinha se esquecido do sábado.
— Sobre este sábado… — com eçou ele, com o se pudesse ler m eus pensam entos. Eu estava ficando paranoico sobre esse assunto. — Sim , pai?
Ele atravessou a cozinha e abriu a torneira.
— Ainda está determ inado a ir a Seattle?
— O plano era esse. — Fiz um a careta, querendo que ele não tivesse levantado o assunto para eu não ter que com por cuidadosas m eias verdades. Ele esprem eu um pouco de detergente no prato e o esfregou com um a esponj a. — E tem certeza de que não pode voltar a tem po para o baile? — Eu não vou ao baile, pai.
— Ninguém convidou você? — perguntou ele, com os olhos concentrados no prato.
— Não é o tipo de coisa de que eu gosto — lem brei a ele.
— Ah. — Ele franziu a testa enquanto secava o prato. Eu m e perguntei se ele estava com m edo de eu ser um pária social. Talvez eu devesse ter contado sobre os convites. Mas isso sairia pela culatra. Ele não ficaria m uito feliz se soubesse que recusei todos. Aí, eu teria que contar para ele que havia um a garota… que não m e convidou… e eu não queria ter que falar disso. Isso m e fez pensar no baile e em Tay lor e no vestido que ela j á tinha e na atitude de Logan com igo e toda aquela confusão. Eu não sabia o que devia fazer. Em qualquer universo, eu não ia ao baile. Em um universo em que Edy the Cullen existia, eu não m e interessaria por nenhum a outra garota. Não era j usto seguir de acordo com os planos de Tay lor se m eu coração não queria isso. O problem a era decidir com o…
Charlie então saiu, com um aceno de despedida, e eu subi para escovar os dentes e pegar m eus livros. Quando ouvi a radiopatrulha arrancar, só precisei esperar alguns segundos para olhar por m inha j anela. O carro prata j á estava ali, esperando na vaga de Charlie, na entrada de carros. Desci a escada três degraus de cada vez e saí pela porta da frente, perguntando-m e quanto tem po m ais duraria essa rotina estranha. Eu não queria que tivesse um fim . Ela estava esperando no carro e não pareceu ver quando fechei a porta sem m e incom odar em passar a chave. Andei até o carro e hesitei por um segundo, antes de abrir a porta e entrar. Ela estava sorrindo, relaxada — e, com o sem pre, tão perfeita que chegava a doer.
— Bom dia. Com o está hoj e? — Seus olhos vagaram por m eu rosto, com o se a pergunta fosse algo m ais do que m era cortesia. — Bem , obrigado. — Eu estava sem pre bem , m uito m ais do que bem , quando estava perto dela.
Seu olhar se dem orou nas m inhas olheiras.
— Parece cansado.
— Não consegui dorm ir — adm iti.
Ela riu.
— Nem eu.
O m otor ganhou vida. Eu estava m e acostum ando com o som . O rugido de m inha picape provavelm ente m e assustaria quando eu voltasse a dirigi-la. — Acho que tem razão — falei. — Devo ter dorm ido m ais do que você. — Posso apostar que dorm iu.
— E o que você fez na noite passada?
Ela riu.
— Sem chances. É m eu dia de fazer perguntas. — Ah, é verdade. — Eu franzi a testa. Não conseguia im aginar nada sobre m im que pudesse ser de algum interesse para ela. — O que quer saber? — Qual é a sua cor preferida? — perguntou ela, a cara séria. Eu dei de om bros.
— Vive m udando.
— Qual é a de hoj e?
— Hã, acho que… dourado.
— Tem algum a coisa m aterial por trás da sua escolha ou é aleatória? Lim pei a garganta, sem j eito.
— É a cor dos seus olhos hoj e. Se você m e perguntasse em um a sem ana, eu provavelm ente diria preto.
Ela m e olhou de um j eito que não entendi, m as, antes que eu pudesse perguntar, ela seguiu para a próxim a pergunta.
— Que m úsica está em seu CD play er agora? Precisei pensar por um segundo, m as lem brei que a últim a coisa que ouvi foi o CD que Phil m e dera. Quando disse o nom e da banda, ela deu um sorriso e abriu um com partim ento sob o CD play er do carro. Tirou um das dezenas de CDs enfiados no pequeno espaço e passou a m im . Era o m esm o CD. — De Debussy a isto? — perguntou ela, erguendo um a sobrancelha. Continuou assim pelo resto do dia. Enquanto cam inhávam os de um a aula para a outra e durante a hora do alm oço, ela m e fez perguntas sem parar. Queria saber cada detalhe insignificante da m inha existência. Os film es de que gostei e os que odiei, os poucos lugares em que estive e os m uitos lugares aonde queria ir, e livros — m uitas perguntas sobre livros.
Não conseguia m e lem brar da últim a vez que falei tanto. Fiquei sem graça o tem po todo, certo de que só podia estar sendo entediante. Mas ela sem pre parecia ansiosa enquanto esperava m inhas respostas, sem pre tinha um a pergunta seguinte e sem pre queria m ais. Portanto, deixei a psicanálise seguir em frente, pois parecia im portante para ela.
Quando o prim eiro sinal tocou, dei um suspiro profundo. Estava na hora. — Tem um a pergunta que você ainda não fez. — Mais do que um a, na verdade, m as de que pergunta específica você está falando?
— A coisa m ais constrangedora que j á fiz.
Ela sorriu.
— É um a história espetacular?
— Ainda não sei. Conto em cinco m inutos.
Eu m e afastei da m esa. Os olhos dela cintilavam de curiosidade. Na m inha m esa de sem pre, m eus am igos estavam se levantando. Eu andei até eles.
Pontos verm elhos surgiram nas m inhas bochechas, m as não tinha problem a. Eu tinha que parecer envolvido. Ao m enos, o cara bonitão da novela m elodram ática que m inha m ãe via religiosam ente sem pre parecia agitado quando fazia essa cena. Graças a ele, eu ao m enos tinha um contorno geral para o m eu roteiro, increm entado por um a coisa que pensei um a vez sobre Edy the; eu queria que tudo fosse lisonj eiro.
Jerem y reparou em m im prim eiro, e seus olhos estavam especulativos. Avaliou m eu rosto verm elho, depois Edy the. E olhou para m im de novo. — Tay lor, posso falar com você? — pedi enquanto andava até ela. Eu não falei baixo.
Ela estava no m eio de todo m undo. Logan se virou para olhar para m im de cara feia com os olhos verdes e frios.
— Claro, Beau — disse Tay lor, parecendo confusa. — Olhe — falei —, não posso m ais fazer isso. Todo m undo ficou em silêncio. Jerem y olhou ao redor. Allen pareceu constrangida. McKay la m e lançou um olhar crítico, com o se não conseguisse acreditar que eu estava fazendo daquele j eito. Mas ela não sabia exatam ente o que eu estava fazendo, nem por que precisava daquela plateia. Tay lor estava chocada.
— O quê?
Eu fiz cara feia. Era fácil; eu estava com raiva no m om ento por não ter m e convencido de não fazer aquilo ou por não ter pensado em um j eito m elhor. Mas era tarde dem ais para im provisar agora.
— Estou cansado de ser peão do seu j ogo, Tay lor. Sabia que tenho sentim entos? E a única coisa que posso fazer é olhar enquanto você m e usa para deixar outra pessoa com ciúm es. — Meus olhos se viraram rapidam ente para Logan, cuj a boca estava boquiaberta, e para Tay lor de novo. — Você não liga se parte m eu coração. Foi a beleza que tornou você tão cruel? Tay lor estava com os olhos arregalados e a boca aberta em um pequeno O. — Não vou m ais brincar. Sabe a palhaçada toda do baile? Estou fora. Vá com a pessoa com quem quer realm ente ir.
Lancei um olhar m ais longo para Logan agora. Saí andando e bati a porta do refeitório de um j eito que esperava ter sido dram ático.
Isso j am ais seria esquecido.
Mas, pelo m enos, eu estava livre. Provavelm ente valeria a pena. De repente, Edy the estava ao m eu lado, acom panhando o passo com o se estivéssem os andando j untos o tem po todo.
— Aquilo foi espetacular — disse ela.
Eu respirei fundo.
— Talvez um pouco exagerado. Deu certo?
— Perfeitam ente. Tay lor está se sentindo a femme fatale e nem sabe por quê. Se Logan não a convidar para o baile até segunda, vou ficar surpresa. — Que bom — grunhi.
— Agora, voltando a você…
Edy the continuou com o interrogatório até estarm os na aula de biologia e a Sra. Banner entrar na sala, arrastando de novo o rack audiovisual. Quando term inou a preparação e se virou para o interruptor de luz, percebi que Edy the deslizou a cadeira um pouco para longe de m im . Isso não aj udou. Assim que a sala ficou escura, houve a m esm a tensão elétrica, o m esm o desej o im paciente de estender a m ão pelo curto espaço e tocar sua pele fria e m acia. Parecia um a coceira que ia ficando m ais e m ais intensa. Eu não conseguia prestar atenção a m ais nada. Eu torcia para o film e exibido não estar nas provas finais.
Depois de um tem po, talvez quinze m inutos (ou talvez fossem só dois, m as a sensação era de m ais tem po por causa da eletricidade), eu m exi a cadeira e m e inclinei lentam ente para o lado até m eu braço estar tocando no om bro dela. Ela não se afastou.
Achei que o pequeno contato aj udaria, que acabaria com a vontade irritante, m as deu errado. O pequeno frisson de eletricidade ficou m ais forte, virou raios m aiores. De repente, fiquei doido para botar o braço ao redor dela, puxá-la para o m eu lado e abraçá-la. Eu queria passar os dedos pelo cabelo dela, enfiar o rosto ali. Queria acom panhar o contorno dos lábios, a linha do m axilar, o pescoço… Nada apropriado para um a sala cheia de gente. Inclinei-m e para a frente, cruzei os braços sobre a m esa e m e segurei na beirada com os dedos escondidos, tentando m e segurar no lugar. Não olhei para ela, com m edo de que, se ela estivesse olhando para m im , fosse m uito m ais difícil m anter o autocontrole. Tentei ver o film e, m as as m anchas coloridas não se definiam em form a de im agens coerentes.
Suspirei de alívio de novo quando a Sra. Banner acendeu as luzes e eu finalm ente olhei para Edy the; ela estava m e olhando com olhos am bivalentes. Com o ontem , fom os para o ginásio em silêncio. E, tam bém com o ontem , ela tocou m eu rosto sem dizer nada, dessa vez com as costas da m ão fria, da têm pora até o queixo, antes de se virar e se afastar. A aula de educação física passou rapidam ente. Para poupar tem po, a treinadora Clapp nos m andou ficar com os m esm os parceiros, então McKay la foi obrigada a ser m inha com panheira de tim e de novo. Assisti ao show de badm inton solitário dela sem participar, para a segurança de nós dois. Ela não falou com igo, m as eu não sabia se foi por causa da cena no refeitório, da nossa confusão de ontem ou porque m inha expressão estava tão vazia. Em algum lugar, em um canto da m inha m ente, eu m e senti m al por isso. Mas não consegui m e concentrar nela tanto quanto não consegui entender o film e de biologia. Tive a m esm a sensação de harm onia quando passei pela porta do ginásio e vi Edy the na som bra. Tudo estava certo no m eu m undo. Um sorriso largo se espalhou autom aticam ente por m eu rosto. Ela reagiu com um sorriso antes de se atirar a outro interrogatório.
Mas agora suas perguntas foram diferentes, não eram de resposta tão fácil. Ela queria saber do que eu sentia falta em m inha cidade, insistindo nas descrições de qualquer coisa que não conhecesse. Ficam os sentados em frente à casa de Charlie por horas, à m edida que o céu escurecia e a chuva descia em volta de nós num dilúvio repentino.
Tentei descrever coisas im possíveis, com o o cheiro de creosoto — am argo, m eio resinoso, m as ainda agradável —, o som alto e agudo das cigarras em j ulho, as árvores m urchas e secas, o céu enorm e, estendendo-se azul-esbranquiçado de um canto a outro do horizonte. A coisa m ais difícil de explicar era por que aquilo era tão bonito para m im — j ustificar a beleza que não dependia da vegetação esparsa e espinhosa que sem pre parecia m eio m orta, um a beleza que tinha m ais a ver com o form ato exposto da terra, com as bacias rasas de vales entre as colinas escarpadas e o m odo com o resistiam ao sol. Eu m e vi usando as m ãos ao tentar descrever isso para ela.
Suas perguntas em voz baixa m e m antiveram falando livrem ente, esquecendo-m e de ficar constrangido por m onopolizar a conversa. Por fim , quando tinha term inado de detalhar m eu quarto abarrotado em casa, ela parou em vez de responder com outra pergunta.
— Term inou? — perguntei com alívio.
— Nem cheguei perto… m as seu pai vai chegar logo. — Que horas são? — perguntei em voz alta ao olhar o relógio. Fiquei surpreso ao ver a hora.
— É a hora do crepúsculo — m urm urou Edy the, olhando o horizonte a oeste, obscurecido pelas nuvens. Sua voz estava pensativa, com o se sua m ente estivesse em um lugar distante. Olhei para ela enquanto ela fitava sem ver pelo para-brisa. Eu ainda a estava encarando quando seus olhos de repente se voltaram para os m eus.
— É a hora do dia m ais segura para nós — disse ela, respondendo à pergunta em m eus olhos. — A hora m ais fácil. Mas tam bém a m ais triste, de certa form a… O fim de outro dia, a volta da noite. A escuridão é tão previsível, não acha? — Ela deu um sorriso tristonho.
— Eu gosto da noite. Sem o escuro, nunca veríam os as estrelas. — Franzi a testa. — Não que a gente vej a m uitas por aqui.
Ela riu, e o clim a ficou m ais leve de repente.
— Charlie chegará daqui a alguns m inutos. Então, a não ser que queira dizer a ele que vai sair com igo no sábado… — Ela m e olhou com esperança. — Ah, não, obrigado. — Peguei m eus livros, percebendo que estava duro de ficar sentado por tanto tem po. — Então am anhã é a m inha vez? — Claro que não! — Ela fingiu estar ultraj ada. — Não falei que não tinha acabado?
— O que m ais pode haver?
Ela m ostrou as covinhas.
— Você vai descobrir am anhã.
Fiquei olhando para ela, m eio atordoado, com o sem pre. Eu sem pre achei que não tinha um tipo m eu; o pessoal de Phoenix todo tinha preferências: um gostava de louras e outro só ligava para pernas, e um exigia garotas de olhos azuis. Eu achava que era m enos seletivo; um a garota bonita era um a garota bonita. Mas percebi agora que eu devia ser o m ais difícil de agradar. Aparentem ente, m eu tipo era extrem am ente específico, eu só não sabia. Eu não sabia que m inha cor favorita de cabelo era aquele tom m etálico de bronze porque nunca o tinha visto antes. Não sabia que estava procurando olhos da cor de m el, porque tam bém nunca tinha visto. Eu não sabia que os lábios de um a garota tinham que fazer um a curva assim e que as m açãs do rosto tinham que ser altas sob um a fileira longa de cílios pretos. O tem po todo, só havia um a form a, um rosto que m exia com igo.
Com o um idiota, esquecendo os avisos, estiquei a m ão para o rosto dela e m e inclinei.
Ela se encolheu.
— Descul… — com ecei a dizer quando baixei a m ão. Mas ela virou a cabeça para a frente e olhou para a chuva de novo. — Ah, não — disse ela.
— Que foi?
O m axilar estava contraído, as sobrancelhas baixadas em um a linha sobre os olhos. Ela olhou para m im por um breve segundo. — Outra com plicação — disse, m al-hum orada. Ela se inclinou na m inha frente e abriu a porta num m ovim ento rápido (a proxim idade deixou m eu coração disparado em um galope irregular) e depois se afastou de m im , quase encolhida.
Faróis brilharam na chuva. Ergui o rosto esperando ver Charlie e ter que dar um m onte de explicações, m as era um sedã escuro que não reconheci. — Vá logo — disse ela.
Ela estava olhando pelo tem poral para o outro veículo. Saltei para fora rapidam ente, apesar de não entender. A chuva bateu no m eu rosto e eu puxei o capuz.
Tentei identificar as form as no banco da frente do outro carro, m as estava escuro dem ais. Pude ver Edy the ilum inada pelo brilho dos faróis do novo carro; ainda olhava à frente, seu olhar preso em algum a coisa ou alguém que eu não conseguia ver. Sua expressão era um a m istura estranha de frustração e desafio. Ela acelerou o m otor, e os pneus cantaram no asfalto m olhado. O Volvo sum iu de vista em segundos.
— Ei, Beau — gritou um a voz conhecida e rouca do lado do m otorista no carro preto.
— Jules? — perguntei, sem icerrando os olhos com a chuva. Nesse exato m om ento, a radiopatrulha de Charlie virou a esquina, os faróis ilum inando os ocupantes do carro diante de m im .
Jules j á estava saindo, o sorriso largo visível apesar da escuridão. No banco do carona havia um a m ulher m uito m ais velha, um a figura im ponente com um rosto incom um , severo e estoico, com rugas que percorriam a pele curtida com o um a j aqueta velha de couro. E os olhos eram surpreendentem ente fam iliares, fundos sob sobrancelhas pesadas, olhos pretos que pareciam ao m esm o tem po j ovens e antigos dem ais para com binar com o rosto. A m ãe de Jules, Bonnie Black. Eu a reconheci de im ediato, em bora, nos m ais de cinco anos em que não a via, tivesse esquecido seu nom e quando Charlie falou dela em m eu prim eiro dia aqui. Ela m e encarava, analisando m eu rosto, então eu sorri, inseguro. Percebi m ais um pouco, seus olhos estavam arregalados, com o se de choque ou m edo e as narinas se dilataram . Meu sorriso esm aeceu. Outra com plicação, dissera Edy the.
Bonnie ainda m e fitava com olhos intensos e angustiados. Teria Bonnie reconhecido Edy the com tanta facilidade? Ela realm ente podia acreditar nas lendas im possíveis que a filha ridicularizava?
A resposta estava clara nos olhos de Bonnie. Sim. Sim, ela acreditava.