Vida e Morte

Stephenie Meyer · Capítulo 12 de 27

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Vida e Morte

10. Interrogações

10. INTERROG AÇÕES

 

FOI DIFERENTE DE m anhã.

Todas as coisas que pareceram possíveis na noite anterior, no escuro, pareciam piadas ruins com o sol no céu, m esm o dentro da m inha cabeça. Aquilo aconteceu m esm o? Eu m e lem brava das palavras direito? Ela tinha m esm o dito aquelas coisas para m im ? Eu fui m esm o coraj oso o bastante para dizer as coisas que achei que tinha dito?

O cachecol dela, roubado do irm ão, estava dobrado em cim a da m inha m ochila, e tive que ir até ali para tocar nele. Aquela parte era real, pelo m enos. Do lado de fora da m inha j anela, havia neblina e estava escuro, absolutam ente perfeito. Ela não tinha m otivos para não ir à escola hoj e. Coloquei cam adas de roupas, lem brando que não estava com o casaco e torcendo para não ficar encharcado até conseguir recuperá-lo.

Quando desci, Charlie j á havia saído; eu estava m ais atrasado do que tinha percebido. Engoli um a barra de cereal em três dentadas, em purrei para dentro com leite bebido direto da caixa e corri porta afora. Com sorte, a chuva daria um tem po até eu poder encontrar Jerem y. Com sorte, m eu casaco ainda estaria no carro dele.

A neblina estava m uito densa; o ar era quase fum arento. A brum a era gelada onde tocava no m eu rosto, e eu m al podia esperar para ligar o aquecim ento da m inha picape. Era um a neblina tão densa que eu estava a pouca distância da entrada de veículos antes de reparar que havia outro carro ali; um carro prata fam iliar. Meu coração deu aquele salto duplo esquisito, e torci para não estar desenvolvendo nenhum problem a na aorta.

A j anela do passageiro estava abaixada, e ela estava inclinada na m inha direção, tentando não rir da m inha cara de posso estar tendo um ataque cardíaco. — Quer um a carona para a escola? — perguntou ela. Apesar de estar sorrindo, havia incerteza na voz dela. Ela não queria que eu fizesse nada por ím peto, queria que eu pensasse no que estava fazendo. Talvez até quisesse que eu dissesse não. Mas isso não ia acontecer. — Quero, obrigado — eu disse, tentando parecer casual. Quando entrei no carro, percebi um a j aqueta caram elo pendurada no banco do carona. — O que é isso?

— A j aqueta de Roy al. Eu não queria que você pegasse um resfriado nem nada. Coloquei a j aqueta com cuidado no banco de trás. Ela não parecia se im portar de pegar as coisas dos irm ãos, m as quem sabia o que eles achavam ? Um a das im agens confusas que eu lem brava do acidente de carro, m esm o tendo sido sem anas antes, era dos rostos dos irm ãos olhando de longe. A palavra que m elhor resum ia a expressão de Roy al era fúria.

Eu podia ter dificuldade de ter m edo de Edy the, m as achava que não teria o m esm o problem a com Roy al.

Peguei o cachecol na m ochila e coloquei em cim a da j aqueta. — Estou bem — falei, e bati com o punho no peito duas vezes. — Meu sistem a im unológico está em ótim a form a.

Ela riu, m as eu não sabia se por m e achar engraçado ou ridículo. Ah, tudo bem . Desde que eu a fizesse rir.

Ela dirigiu pelas ruas envoltas de névoa, sem pre rápido dem ais, m al olhando para a pista. Tam bém não estava de casaco, só com um suéter lilás com as m angas puxadas. O suéter era grudado no corpo, e tentei não ficar olhando. O cabelo estava preso em um nó na base da nuca, desgrenhado, com m echas caídas para todo lado, e a form a com o exibia o pescoço esguio tam bém era um a distração. Senti vontade de passar os dedos por aquele pescoço… Mas eu tinha que tom ar m ais cuidado, com o ela m e avisou na noite anterior. Eu não sabia direito o que ela quis dizer, m as faria o m elhor que pudesse, porque era um a coisa que ela precisava de m im . Eu não faria nada que fosse assustá-la. — E aí, não tem j ogo das vinte perguntas hoj e? — perguntou ela. — Foi incôm odo ontem à noite?

— Não incôm odo, só… confuso.

Fiquei surpreso de ela achar isso. Parecia que a pessoa no escuro era ela. — O que isso quer dizer?

— Suas reações. Eu não entendo.

— Minhas reações?

Ela m e olhou e ergueu um a sobrancelha.

— É, Beau. Quando alguém conta que bebe sangue, você tem que ficar nervoso. Fazer um a cruz com os dedos, j ogar água benta, sair correndo e gritando, esse tipo de coisa.

— Ah. Hã… vou m e esforçar da próxim a vez, que tal? — Por favor, m elhore suas expressões de pavor. — Pavor não está na m inha descrição de ontem à noite. Ela expirou pelo nariz, irritada. Eu não sabia o que dizer. Nada poderia m e fazer vê-la com o algo de que fugir.

— E onde está a sua fam ília?

Eu não queria pensar na fam ília dela. Não queria lidar com a ideia de mais vam piros, vam piros que não eram Edy the. Vam piros que pudessem inspirar pavor de verdade.

Mas o fato era que norm alm ente o carro dela estava cheio, e hoj e não estava. Claro que fiquei grato. Era difícil im aginar um a coisa que m e deixaria fora de um carro se Edy the m e convidasse, m as um bando de vam piros furiosos no banco de trás podiam com plicar as coisas.

Ela estava entrando no estacionam ento da escola. Já.

— Eles usaram o carro de Roy al. — Ela indicou um conversível verm elho com a capota suspensa ao parar ao lado. — Cham ativo, não é? — Se ele tem isso, por que pega carona com você? — Com o eu disse, é cham ativo. Nós tentamos nos m isturar. Eu ri e abri a porta do carro.

— Sem querer ofender, m as vocês estão fazendo isso m uito errado. Ela revirou os olhos.

Eu não estava m ais atrasado. O j eito lunático dela de dirigir m e levou à escola com tem po de folga.

— Por que Roy al dirigiu hoj e se cham a m ais atenção? — Minha culpa. Com o sem pre, Roy al diria. Você não percebeu, Beau? Estou violando todas as regras agora.

Ela se j untou a m im na frente do carro, ficando bem perto, ao m eu lado, ao andarm os para o cam pus. Eu queria estreitar essa pequena distância, estender a m ão e tocar na dela, passar o braço pelos om bros dela, m as tive m edo de isso não ser cuidadoso o bastante para ela. — Por que vocês têm carros assim , então? — perguntei a m im m esm o em voz alta. — Se procuram ter privacidade, há m uitos Hondas usados disponíveis. — É um prazer — adm itiu ela com um sorrisinho. — Todos gostam os de correr. — Claro — m urm urei.

Sob o abrigo da m arquise do refeitório, Jerem y esperava, os olhos quase saltando da cara de novo. No braço estava m eu casaco. — Oi, Jer — falei quando estávam os a alguns m etros de distância. — Obrigado por trazer isso.

Ele m e passou o casaco sem dizer nada.

— Bom dia, Jerem y — disse Edy the educadam ente. Consegui perceber que ela não estava tentando sufocá-lo, m as m esm o o m enor dos seus sorrisos era difícil de encarar.

— É… oi. — Jerem y desviou os olhos arregalados para m im , tentando organizar os pensam entos confusos. — Acho que vej o você na trigonom etria. — É, a gente se vê lá.

Ele se afastou, parando duas vezes para nos espiar por sobre o om bro. — O que vai dizer a ele? — m urm urou ela.

— Hã? — Olhei para ela e para as costas de Jerem y. — Ah. O que ele está pensando?

Ela repuxou a boca para o lado.

— Não sei se é ético da m inha parte contar isso… — O que não é ético é você usar suas vantagens inj ustas só a seu favor. Ela deu um sorriso m alicioso.

— Ele quer saber se estam os nam orando escondido. E até onde você foi com igo. O sangue subiu ao m eu rosto tão rápido que tive certeza de estar verm elho-beterraba depois de um segundo.

Ela afastou o olhar, de repente com o rosto tão desconfortável quanto o m eu. Deu um pequeno passo para longe de m im e trincou os dentes. Dem orei um m inuto para perceber que a verm elhidão que m e constrangia tanto devia ser um a coisa bem diferente para ela.

Isso m e aj udou a m e acalm ar.

— Hã. O que devo dizer?

Ela com eçou a andar, e fui atrás, sem prestar atenção em para onde ela estava indo.

Depois de um segundo, ela olhou para m im , com o rosto relaxado e sorrindo de novo.

— Boa pergunta. Mal posso esperar para ouvir o que você vai inventar. — Edythe…

Ela sorriu, e a m ãozinha dela voou e afastou um a m echa de cabelo da m inha testa. Com a m esm a rapidez, a m ão voltou para o lado do corpo. Meu coração pulou com o se eu tivesse levado um susto.

— A gente se vê no alm oço — disse ela, m ostrando as covinhas. Fiquei parado ali, com o se tivesse levado um choque, enquanto ela girava e saía andando na outra direção.

Depois de um segundo, m e recuperei o bastante para ver que estava em frente à sala de aula de inglês. Três pessoas tinham parado na porta e ficaram olhando para m im com graus variados de surpresa e assom bro. Baixei a cabeça e passei por elas para entrar na sala.

Jerem y ia m esm o m e perguntar aquilo? Edy the realm ente ficaria prestando atenção a com o eu reagiria?

— Bom dia, Beau.

McKay la j á estava na carteira de sem pre. O cum prim ento não foi tão entusiasm ado quanto costum ava ser. Ela estava sorrindo, m as parecia por educação, não que ela estivesse feliz em m e ver. — Oi, McKay la. Com o está?

— Bem . Com o foi o film e ontem ?

— Ah, sim , é. Eu não vi o film e. Me perdi e… — É, eu soube — disse ela.

Eu pisquei, sem entender.

— Com o?

— Encontrei Jerem y antes da aula.

— Ah.

— Ele disse que você não perdeu m uita coisa. O film e era ruim . — Que bom , eu acho.

De repente, ela ficou interessada nas próprias unhas. Com eçou a descascar o esm alte roxo.

— Você tinha planos antes de ir? Jerem y achou que talvez tivesse, e m e perguntei… pra que fingir tudo, sabe?

— Não, não, eu estava planej ando ver o film e. Eu não esperava que… fosse m e perder e… essas coisas.

McKay la fungou um a vez, com o se não acreditasse em m im , e olhou para o relógio. A Sra. Mason estava fazendo algum a coisa na m esa e não pareceu com pressa para com eçar a aula.

— Foi legal você ter saído com Jerem y na segunda — falei, m udando de assunto. — Ele disse que foi ótim o.

Ou eu tinha certeza que teria dito se eu tivesse perguntado. Ela olhou para as unhas de novo, m as as orelhas com eçaram a ficar cor-de-rosa. — É m esm o? — perguntou ela, em um tom totalm ente diferente. — Com certeza. — Baixei a voz a um sussurro. — Lem bre-se, eu não disse nada. Tipo, não contei que ele acha você a garota m ais legal que ele conhece. As orelhas dela ficaram m ais cor-de-rosa ainda. — Código m asculino. Certo.

— Eu não falei nada.

Ela finalm ente deu um sorriso de verdade.

A Sra. Mason se levantou e pediu que abríssem os nossos livros. Achei que estava bem com McKay la agora, m as, quando a aula acabou, eu a vi trocar um olhar com Erica, e McKay la com eçou a futucar as unhas de novo quando saím os da sala.

— Então — disse ela.

— O quê?

— Eu só fiquei curiosa para saber se, você sabe, vam os ver você no baile, afinal. Você pode ficar com nosso grupo se quiser.

— No baile? — Olhei para ela sem entender. — Não. Não, ainda vou a Seattle. Ela pareceu surpresa, m as relaxou.

— Tudo bem . Então tá. Talvez a gente possa se j untar para o baile. Dividir um a lim usine.

Eu parei de andar.

— Eu não estava m esm o planej ando ir ao baile… — É m esm o? Que chocante! — McKay la riu. — Mas acho que você devia contar para Tay lor. Ela disse que você vai levá-la. Senti m eu queixo cair. McKay la m orreu de rir. — Foi o que pensei — disse ela.

— Você está falando sério? — perguntei quando recuperei o controle do rosto. — Ela devia estar brincando.

— Logan e Jerem y estavam conversando sobre se arrum arem cedo e fazer algum a coisa legal pro baile, e Tay lor disse que estava fora porque j á tinha planos. Com você. É por isso que Logan está sento tão… você sabe… com você. Ele tem um a queda pela Tay lor. Acho que você m erecia saber. Afinal, violou o código m asculino por m im .

— O que devo fazer?

— Diga que não vai levá-la.

— Não posso… O que eu diria?

Ela sorriu com o se estivesse se divertindo.

— Sej a hom em , Beau. Ou alugue um sm oking. A escolha é sua. Não prestei m uita atenção à aula depois disso. Era m esm o m inha responsabilidade desconvidar Tay lor para o baile? Tentei m e lem brar do que disse para ela no estacionam ento quando ela m e convidou. Eu tinha quase certeza de que não tinha concordado com nada.

O céu parecia chum bo quando fui para a aula de trigonom etria, tão cinza e pesado. Na sem ana anterior, eu teria achado deprim ente. Hoj e, sorri. Havia algum a coisa m elhor do que o sol.

Quando vi Jerem y sentado ao lado de um a cadeira vazia na fileira de trás, observando a porta e m e esperando, lem brei que Tay lor não era o único problem a que eu tinha no m om ento. Meu pescoço com eçou a ficar quente, e desej ei ter ficado com o cachecol.

Havia outra cadeira vazia duas fileiras na frente… m as devia ser m elhor acabar logo com aquilo e pronto.

A Sra. Varner ainda não estava na sala. Por que tantos professores estavam atrasados hoj e? Parecia que ninguém ligava se aprendíam os algum a coisa ou não.

Eu m e sentei ao lado de Jerem y. Ele nem m e deixou esperar. — Caramba, filho — disse ele. — Quem im aginaria que você j ogava tão alto. Eu revirei os olhos.

— Eu não j ogo.

— Por favor. — Ele deu um soco no m eu braço. — Edythe Cullen. Caram ba. Com o você conseguiu isso?

— Eu não fiz nada.

— Há quanto tem po está rolando? É segredo? Ela não quer que a fam ília saiba? Foi por isso que você fingiu que ia ao cinem a com a gente? — Eu não fingi nada. Eu não fazia ideia de que ela estava em Port Angeles ontem à noite. Ela era a última pessoa que eu esperava ver. Ele pareceu m urchar com m inha sinceridade óbvia. — Você tinha saído com ela antes da noite de ontem ? — Nunca.

— Hã. Foi pura coincidência?

— Foi.

Era óbvio quando eu estava falando a verdade. E óbvio quando estava tentando desviar dela. O olhar desconfiado e esperto voltou ao rosto dele.

— Porque, você sabe, não é segredo que você anda obcecado por ela desde que chegou aqui.

Eu fiz um a careta.

— Não é?

— Eu tive que questionar com o você virou o j ogo. Você tem um gênio da lâm pada? Encontrou algum a coisa pra fazer chantagem com ela? Ou vendeu a alm a para o diabo?

— Sei lá, cara.

— O que você ganhou na troca? Aposto que foi um a noite m uito louca, hein? Eu estava com eçando a ficar aborrecido, m as sabia que ele distorceria qualquer reação que eu tivesse para fazer parecer outra coisa. Eu respondi calm am ente:

— Encerram os cedo. Voltei às oito.

— É sério?

— Foi só um j antar e um a carona para casa, Jerem y. — Mas e hoj e de m anhã? Você ainda estava com ela. — Ainda? Não! O que… você achou que ela ficou com igo a noite toda? — Não ficou?

— Não.

— Mas você estava no carro dela…

— Ela m e pegou antes da escola hoj e cedo.

— Por quê?

— Não faço ideia. Me ofereceu carona. Eu não ia dizer não. — E só isso?

Eu dei de om bros.

— É sério? Me diga que você ao m enos deu uns am assos nela. Qualquer coisa. Olhei de cara feia.

— Não é assim .

Ele fez cara de noj o.

— Essa é de longe a história m ais decepcionante que j á ouvi na m inha vida toda. Retiro tudo que disse sobre com o você j oga. Obviam ente, ela só deve sentir pena. — É, deve ser.

— Acho que vou tentar parecer m ais patético. Se é disso que Edy the gosta. — Manda ver.

— Não vai dem orar para ela cansar de você, aposto. Minha fachada desm oronou por um segundo. Ele percebeu a m udança e sorriu com certa arrogância.

— É — falei. — Acho que você deve estar m esm o certo. A Sra. Varner chegou nessa hora, e a falação geral com eçou a m orrer quando ela com eçou a escrever equações no quadro.

— Mas quer saber? — disse Jerem y baixinho. — Acho que prefiro ficar com um a garota norm al.

Eu j á estava irritado. Não gostei do j eito com o ele falava de Edy the em geral, e a form a com o ele disse normal m e aborreceu. Não, Edy the não era norm al, m as isso não era porque, com o o tom dele parecia insinuar, ela era algum a coisa… de errado. Ela era acim a do norm al, além . Passava tanto disso que norm al e Edy the não estavam nem na m esm a esfera de existência. — Acho m elhor assim — m urm urei com a voz dura. — Mantenha suas expectativas baixas.

Ele m e lançou um olhar de susto, m as m e virei para olhar para a professora. Eu conseguia senti-lo m e olhando novam ente com desconfiança, até a Sra. Varner reparar e cham á-lo para dar um a resposta. Ele com eçou a folhear o livro com desespero para tentar descobrir o que ela tinha perguntado. Jerem y foi andando na m inha frente a cam inho da aula de espanhol, m as não m e im portei. Eu ainda estava irritado. Ele só falou com igo no final da aula, quando com ecei a guardar os livros na m ochila com um pouco de entusiasm o dem ais.

— Você não vai se sentar com a gente no alm oço, vai? O rosto dele estava desconfiado de novo e m ais defensivo agora. Obviam ente, ele achou que eu estaria ansioso para m e exibir, para contar tudo sobre Edy the e bancar o descolado. Afinal, Jerem y e eu éram os am igos havia um tem po. Os hom ens contavam essas coisas uns para os outros. Devia ser parte do tal código m asculino que inventei. Ele supôs que m inha lealdade seria com ele… m as agora, sabia que estava enganado.

— Hã, não sei — falei.

Não havia sentido em ser confiante dem ais. Eu lem brava claram ente com o era quando ela desaparecia. Eu não queria atrair m au agouro. Ele saiu andando sem m e esperar, m as deu um a paradinha na porta da sala. — Falando sério, que ridículo — disse Jerem y, alto o bastante para que eu pudesse ouvi-lo, além de todo m undo em um raio de três m etros. Ele olhou para m im , balançou a cabeça e saiu andando. Eu estava com pressa para sair pela porta, para ver do que ele estava falando, m as todo m undo tam bém . Um a um , todos pararam para olhar para m im antes de sair. Quando saí, eu não sabia o que esperar. Irracionalm ente, eu estava esperando ver Tay lor de vestido cintilante de baile e tiara na cabeça. Mas, do lado de fora de nossa sala de espanhol, encostada na parede, m il vezes m ais linda do que qualquer um teria direito, Edy the m e esperava. Os olhos grandes e dourados pareciam achar graça, e os cantos dos lábios estavam a ponto de sorrir. O cabelo ainda estava preso naquele coque desgrenhado, e tive um a estranha vontade de esticar a m ão e soltar o que o prendia. — Oi, Beau.

— Oi.

Parte de m im estava ciente de que tínham os plateia, m as eu não estava m e im portando.

— Com fom e? — perguntou ela.

— Claro.

Na verdade, eu não fazia ideia se estava com fom e. Meu corpo todo parecia estar sendo eletrocutado de um j eito m uito estranho e prazeroso. Meus nervos não conseguiam absorver m ais do que aquilo.

Ela se virou na direção do refeitório, colocando a bolsa no lugar. — Me deixe levar isso para você — ofereci.

Ela m e olhou com olhos de gazela.

— Parece pesada dem ais para m im ?

— Bem , quer dizer…

— Claro — disse ela.

Deslizou a bolsa pelo braço e entregou para m im , usando deliberadam ente apenas o dedo m indinho.

— Er, obrigado — falei, e ela deixou a tira cair na m inha m ão. Acho que eu devia saber que estaria pesando o dobro da m inha. Peguei-a antes que pudesse bater na calçada, depois coloquei no m eu om bro livre. — Você sem pre traz seus blocos de concreto para a escola? Ela riu.

— Archie m e pediu para trazer um as coisas para ele hoj e de m anhã. — Archie é seu irm ão favorito?

Ela olhou para m im .

— Não é legal ter favoritos.

— Filho único — falei. — Sou o favorito de todo m undo. — Dá para ver. Mas por que você acha isso?

— Parece que você fala dele com m ais facilidade. Ela pensou sobre isso por um m om ento, m as não com entou. Quando chegam os no refeitório, eu a segui até a fila da com ida. Não consegui deixar de olhar para o canto do refeitório, com o fazia todos os dias. A fam ília dela estava toda presente, prestando atenção só uns nos outros. Ou eles não repararam em Edy the com igo ou não ligavam . Pensei na ideia que Jerem y teve, que Edy the e eu estávam os nam orando em segredo para que a fam ília não soubesse. Não parecia que ela estava escondendo nada deles, m as não consegui deixar de im aginar o que eles pensavam de m im . Eu m e perguntei o que eu pensava deles.

Nesse m om ento, Archie ergueu o olhar e sorriu para m im . Autom aticam ente, sorri para ele, depois olhei para baixo para ver se o sorriso era dirigido a Edy the. Ela estava ciente dele, m as não respondeu do m esm o j eito. Parecia m eio zangada. Fiquei olhando de um para o outro enquanto eles tinham um tipo de conversa silenciosa. Prim eiro, Archie abriu um grande sorriso, m ostrando dentes tão brancos que brilhavam m esm o do outro lado do salão. Edy the ergueu as sobrancelhas em um a espécie de desafio, o lábio superior se curvando só um pouco. Ele revirou os olhos para o teto e levantou as m ãos com o se dissesse eu me rendo. Edy the deu as costas para ele e andou na fila. Ela pegou um a bandej a e com eçou a encher de com ida.

— Sou bem próxim a de toda a m inha fam ília, m as Archie e eu tem os m ais coisas em com um — disse ela, finalm ente respondendo em voz baixa. Precisei baixar a cabeça para ouvir. — Mas às vezes ele é m uito irritante. Olhei para ele; ele estava rindo agora. Apesar de não estar olhando para nós, achei que podia estar rindo dela.

Eu estava prestando tanta atenção a essa interação que só reparei no que ela tinha colocado na bandej a quando nossa som a estava sendo feita. — São vinte e quatro dólares e trinta e três centavos — disse a funcionária. — O quê? — Olhei para a bandej a e levei um susto. Edy the j á estava pagando, depois saiu andando na direção da m esa onde nos sentam os j untos na sem ana anterior.

— Ei — falei, correndo alguns passos para alcançá-la. — Não consigo com er tudo isso.

— Metade é para m im , claro.

Ela se sentou e em purrou a bandej a lotada para o centro da m esa. Eu levantei as sobrancelhas.

— Sério.

— Pegue o que quiser.

Eu m e sentei na cadeira em frente à dela, deixando que o peso m orto da bolsa deslizasse até o chão com a m inha m ochila.

— Estou curioso. O que você faria se alguém a desafiasse a com er com ida? — Você está sem pre curioso.

Ela fez um a careta pegou com ousadia um pedacinho de fatia de pizza, colocou na boca e com eçou a m astigar com expressão m artirizada. Depois de um segundo, engoliu e m e olhou com superioridade. — Se alguém desafiasse você a com er terra, você com eria, não é? — perguntou ela.

Eu sorri para ela.

— Eu com i um a vez… num desafio. Não foi tão ruim . — Por acaso, não estou surpresa. Aqui. — Ela em purrou o resto da pizza na m inha direção.

Dei um a m ordida. Perguntei-m e se tinha m esm o gosto de terra para ela. Não era a m elhor pizza que j á com i, m as era boa. Enquanto eu m astigava, ela olhou por cim a do m eu om bro e riu.

Eu engoli rápido.

— O quê?

— Você deixou Jerem y tão confuso. — É difícil.

— Ele im aginou m il coisas quando viu você sair do m eu carro. Eu dei de om bros e dei outra m ordida.

Ela inclinou a cabeça para o lado.

— Você concorda com ele?

Precisei engolir rápido de novo e quase engasguei. Ela com eçou a se levantar, m as ergui a m ão e m e recuperei.

— Estou bem . Concordo sobre o quê?

— Sobre o m otivo de eu estar aqui com você.

Dem orei um m inuto para repensar a conversa. Eu m e lem brava de coisas que torcia para que ela não tivesse prestado atenção, com o o fato de que, aparentem ente, todo m undo sabia que eu estava obcecado por ela desde o prim eiro dia.

— Não sei o que você quer dizer.

Ela franziu a testa.

— Obviamente, ela só deve sentir pena? — citou ela. Fiquei surpreso por ela parecer irritada.

— É um a explicação tão boa quanto qualquer outra. — E vou m e cansar de você logo, é?

Isso m agoou um pouco, pois era m eu m aior m edo e parecia provável dem ais, m as tentei esconder com outro m ovim ento de om bros. — Beau, você está sendo idiota de novo.

— Estou?

Ela deu um m eio sorriso de testa franzida que foi engraçado. — Tem várias coisas com que estou preocupada. O tédio não é um a delas. — Ela inclinou a cabeça para o lado e olhou bem nos m eus olhos. — Você não acredita em m im ?

— Hã, claro, eu acho. Se você diz isso.

Ela apertou os olhos.

— Nossa, que afirm ativa sufocante.

Dei outra m ordida na pizza e m astiguei lenta e deliberadam ente dessa vez. Ela esperou e ficou m e olhando com aquela expressão intensa que eu sabia que queria dizer que estava tentando entrar na m inha m ente. Quando dei um a segunda m ordida sem falar, ela bufou com irritação. — Odeio quando você faz isso.

Dem orei um segundo para engolir.

— O quê? Não conto cada pensam ento idiota que passa pela m inha cabeça? Consegui perceber que ela ficou com vontade de sorrir, m as não cedeu. — Precisam ente.

— Não sei o que dizer. Se eu acho que você vai ficar entediada com igo? Acho. Sinceram ente, não sei por que você ainda está aqui. Mas estava tentando não dizer isso em voz alta, porque não queria cham ar atenção para um a coisa na qual você podia não ter pensado.

O sorriso se alargou.

— É m uito verdade. Eu j am ais teria percebido sozinha, m as, agora que você m encionou, acho que devo m esm o seguir em frente. Aquele Jerem y de repente parece atraentem ente patético… — Ela parou de falar e o sorriso sum iu. — Beau, você sabe que estou brincando.

Eu m e perguntei o que m eu rosto estava dem onstrando. E assenti. A testa dela se enrugou. Depois de um segundo, ela esticou o braço com hesitação na m inha direção, deixando a m ão ao m eu alcance. Eu a cobri com a m inha.

Ela sorriu, m as fez um a careta.

— Desculpe — falei, afastando o braço.

— Não — protestou ela. — Não foi você. Aqui. Com o cuidado que teria se m inha m ão fosse feita do cristal m ais fino, ela colocou os dedos na m inha palm a. Im itando a cautela dela, dobrei a m ão delicadam ente ao redor.

— O que acabou de acontecer? — Eu m eio que sussurrei. — Muitas reações diferentes. — A testa dela se franziu de novo. — Roy al tem um a voz m ental m uito estridente.

Não consegui evitar; olhei autom aticam ente para o outro lado do salão, m as lam entei ter feito isso.

Roy al estava disparando facas com o olhar para as costas desprotegidas de Edy the, e Eleanor, na frente dele, estava virada para olhar de cara feia para ela. Quando o encarei, Roy al desviou o olhar furioso para m im . Olhei para Edy the, com os pelos dos braços eriçados, m as ela estava olhando com raiva para Roy al agora, o lábio superior repuxado sobre os dentes em um a expressão am eaçadora. Para m inha surpresa, Eleanor se virou na m esm a hora, e Roy al abandonou a expressão am eaçadora. Ele olhou para a m esa com um a expressão em burrada de repente.

Archie parecia estar se divertindo com tudo. Jessam ine nem se m exeu. — Eu acabei de irritar… — Engoli antes que pudesse term inar. Um bando de vampiros?

— Não — disse ela com intensidade, e suspirou. — Mas eu, sim . Olhei para Roy al de novo por um a fração de segundo. Ele não tinha se m exido. — Olha, você está encrencada por m inha causa? O que eu posso fazer? A lem brança dos olhos lívidos dele apontados para o corpo pequeno dela fez um a onda de pânico m e percorrer.

Ela balançou a cabeça e sorriu.

— Não precisa se preocupar com igo — garantiu ela com certa arrogância. — Não estou dizendo que Roy al não poderia m e vencer em um a luta j usta, m as estou dizendo que eu nunca lutei de form a j usta e não pretendo com eçar agora. Ele sabe que não deve se m eter com igo.

— Edy the…

Ela riu.

— É piada. Não é nada, Beau. Coisa norm al entre irm ãos. Um filho único não teria com o entender.

— Se você diz.

— Digo.

Olhei para nossas m ãos, ainda unidas. Foi a prim eira vez que segurei a m ão dela de verdade, m as j unto com a m aravilha disso estava a lem brança de por que ela m e ofereceu a m ão.

— Voltando ao que você estava pensando — disse ela, com o se pudesse ler m eus pensam entos.

Eu suspirei.

— Aj udaria se você soubesse que não foi o único acusado de obsessão? Eu grunhi.

— Você ouviu isso tam bém . Que ótim o.

Ela riu.

— Fiquei hipnotizada do com eço ao fim .

— Me desculpe.

— Por que você está pedindo desculpas? Me sinto m elhor de saber que não sou a única.

Fiquei olhando para ela com ceticism o.

— Me deixe elaborar assim . — Ela repuxou os lábios, pensativa. — Apesar de você ser a única pessoa sobre quem não posso ter certeza, eu ainda estaria disposta a apostar alto que passo m ais tem po pensando em você do que você em m im .

— Hã. — Eu ri, assustado. — Você perderia essa aposta. Ela ergueu um a sobrancelha e falou tão baixo que precisei m e inclinar para ouvir.

— Ah, m as você só fica consciente um as dezesseis horas a cada período de vinte e quatro. Isso m e dá um a boa vantagem , você não acha? — Mas você não está contando sonhos.

Ela suspirou.

— Pesadelos contam com o sonhos?

Meu pescoço com eçou a ficar verm elho.

— Quando sonho com você… não é pesadelo. Ela abriu a boca um pouco surpresa, e seu rosto ficou vulnerável de repente. — É m esm o? — perguntou ela.

Ficou claro que ela estava satisfeita, então falei:

— Todas as noites

Ela fechou os olhos por um m inuto, m as, quando voltou a abri-los, o sorriso estava provocador de novo.

— Os ciclos REM são os m ais curtos do sono profundo. Ainda estou horas à frente.

Eu franzi a testa. Aquilo era difícil de absorver. — Você pensa m esm o em mim?

— Por que é tão difícil de acreditar?

— Ah, olhe para m im — falei desnecessariam ente, pois ela j á estava olhando. — Sou totalm ente com um … bem , exceto pelas coisas ruins, com o todas as experiências de quase m orte e por eu ser tão descoordenado que m al consigo andar. E olhe para você. — Eu apontei a m ão livre para ela e para a perfeição perturbadora dela.

Ela deu um sorriso lento. Com eçou pequeno, m as term inou com um a série com pleta de covinhas, com o o grand finale em um show de fogos do Quatro de Julho.

— Não posso discutir com você sobre as coisas ruins. — Está vendo.

— Mas você é a pessoa m enos com um que j á conheci. Nossos olhares se sustentaram por um longo m om ento. O m eu exam inava o dela enquanto eu tentava acreditar que ela podia ver algum a coisa im portante o bastante para ficar com igo. Sem pre pareceu que ela estava prestes a sum ir, desaparecer, com o se fosse apenas um m ito.

— Mas por que… — Eu não sabia com o form ular. Ela inclinou a cabeça para o lado, esperando.

— Ontem à noite… — Eu parei e balancei a cabeça. Ela franziu a testa.

— Você faz isso de propósito? O pensam ento não term inado é um a form a de m e enlouquecer?

— Não sei se consigo explicar direito.

— Tente, por favor.

Eu respirei fundo.

— Tudo bem . Você está alegando que não entendo você e que não pensa em partir para cim a de Jerem y tão cedo.

Ela assentiu enquanto lutava contra um sorriso. — Mas ontem à noite… foi com o… — Ela estava ansiosa agora. O resto saiu de um a vez. — Com o se você j á estivesse procurando um j eito de dizer adeus. — Perceptivo — sussurrou ela. E lá estava a angústia de novo, vindo à tona com a confirm ação dela do m eu m aior m edo.

Os dedos dela apertaram o m eu delicadam ente. — Mas as duas coisas não estão relacionadas.

— Que duas coisas?

— A profundeza dos m eus sentim entos por você e a necessidade de m e afastar. Bem , estão relacionadas, m as inversam ente. A necessidade de me afastar. Meu estôm ago despencou. — Não entendi.

Ela olhou nos m eus olhos de novo, com os dela ardendo, hipnotizantes. A voz estava quase inaudível.

— Quanto m ais eu gosto de você, m ais crucial é encontrar um j eito de… m anter você em segurança. De m im . Me afastar seria a coisa certa a fazer. Eu balancei a cabeça.

— Não.

Ela respirou fundo, e os olhos pareceram escurecer de um j eito estranho. — Bem , não fui m uito boa em deixar você sozinho quando tentei. Não sei como fazer isso.

— Quer m e fazer um favor? Pare de tentar descobrir com o fazer isso. Ela deu um m eio sorriso.

— Acho que, considerando a frequência das suas experiências de quase m orte, acaba sendo m ais seguro eu ficar por perto.

— Verdade. Nunca se sabe quando outra van desgovernada pode atacar. Ela franziu a testa.

— Você ainda vai a Seattle com igo, né? Tem m uitas vans em Seattle. Esperando em em boscada a cada esquina.

— Na verdade, tenho um a pergunta para você sobre isso. Você precisava m esm o ir a Seattle neste sábado ou era só um a desculpa para não ter que dizer não a todas as suas adm iradoras?

— Ah.

— Foi o que pensei.

— Sabe, você m e deixou em posição difícil com Tay lor com aquela história toda do estacionam ento.

— Você está falando porque vai ter que levá-la ao baile agora? Meu queixo caiu, m as depois eu trinquei os dentes. Ela estava tentando não rir.

— Ah, Beau.

Consegui ver que havia m ais.

— O quê?

— Ela j á tem vestido.

Eu não tive palavras para isso.

Ela deve ter lido o pânico nos m eus olhos.

— Podia ser pior. Ela o com prou antes de convidá-lo para ir com ela. Era usado e não foi caro. Ela não podia perder a oportunidade. Continuei sem conseguir falar. Ela apertou m inha m ão de novo.

— Você vai resolver.

— Eu não vou a bailes — falei, com tristeza.

— Se eu tivesse convidado você para ir ao baile de prim avera, você teria dito não?

Olhei para os olhos dourados e tentei m e im aginar recusando qualquer coisa que ela quisesse.

— Provavelm ente não, m as encontraria um m otivo para cancelar depois. Eu quebraria a perna se precisasse.

Ela pareceu intrigada.

— Por que você faria isso?

Sacudi a cabeça com tristeza.

— Pelo visto, você nunca m e viu na educação física, m as eu achava que entenderia.

— Está se referindo ao fato de que você não consegue andar num a superfície plana e estável sem encontrar algum a coisa em que tropeçar? — É óbvio.

— Sou ótim a professora, Beau.

— Acho que coordenação não é um a habilidade que se aprende. Ela balançou a cabeça.

— Voltando à pergunta. Você tem que ir a Seattle ou se im portaria se fizéssem os algum a coisa diferente?

Enquanto a parte do nós ainda estivesse ali, eu não m e im portava com m ais nada. — Estou aberto a alternativas — cedi. — Mas tenho outro favor a pedir. Ela m e olhou cautelosa, com o sem pre acontecia quando eu fazia um a pergunta aberta.

— O que é?

— Posso dirigir?

Ela franziu a testa.

— E por quê?

— Bom , principalm ente porque você é um a m otorista apavorante. Mas tam bém porque eu disse a Charlie que ia sozinho, e não quero que ele fique curioso. Ela revirou os olhos.

— De todas as coisas sobre m im que podem assustá-lo, você se preocupa com m eu j eito de dirigir. — Ela balançou a cabeça de desgosto, m as depois seus olhos estavam sérios de novo. — Não quer contar a seu pai que vai passar o dia com igo? — Havia algum a coisa por trás da pergunta dela que eu não entendi. — Com Charlie, m enos é sem pre m ais. — Eu sabia m uito bem disso. — Aonde vam os, aliás?

— Archie diz que o tem po estará bom , então vou ficar longe dos olhares públicos… e você pode ficar com igo, se quiser. — Novam ente, ela estava deixando a decisão nas m inhas m ãos.

— E você vai m e m ostrar o que quis dizer sobre o sol? — perguntei, anim ado com a ideia de descobrir outro de seus aspectos desconhecidos. — Vou. — Ela sorriu, depois hesitou. — Mas, se você não quiser ficar… sozinho com igo, ainda prefiro que não vá a Seattle sem com panhia. Eu trem o só de pensar em todas aquelas vans.

— Por acaso, não m e im porto de ficar sozinho com você. — Eu sei — disse ela, suspirando. — Mas você devia contar ao Charlie. Eu balancei a cabeça perante a ideia de explicar m inha vida pessoal para Charlie.

— Por que diabos eu faria isso?

Seus olhos ficaram de repente am eaçadores.

— Para m e dar um pequeno incentivo para trazê-lo de volta. Esperei que ela relaxasse. Com o ela não relaxou, eu disse: — Vou correr o risco.

Ela expirou com raiva e desviou os olhos.

— Então está resolvido. Novo assunto?

Minha tentativa de m udar de assunto não aj udou m uito. — Sobre o que você quer falar? — perguntou ela, entredentes, ainda irritada. Olhei em volta de nós, certificando-m e de que estávam os fora do alcance de ouvidos alheios. No canto, Archie estava inclinado para a frente, falando com Jessam ine. Eleanor estava ao lado dela, m as Roy al tinha sum ido. — Por que você foi àquele tal de Goat Rocks no fim de sem ana passado… para caçar? Charlie disse que não era um bom lugar para cam inhadas por causa dos ursos.

Ela m e encarou com o se eu tivesse deixado escapar algum a coisa m uito óbvia. — Ursos? — arfei

Ela sorriu com m alícia.

— Sabe de um a coisa, não é tem porada de ursos — acrescentei, com austeridade, para esconder m eu choque.

— Se ler com cuidado, vai ver que a lei só diz respeito a caça com arm as — inform ou ela.

Ela observou m eu rosto com prazer enquanto a ficha caía. — Ursos? — repeti com dificuldade.

— Os pardos são os preferidos de Eleanor. — Sua voz ainda era descuidada, m as os olhos analisavam m inha reação. Tentei m e recom por. — Hm m m — falei, dando outra dentada na pizza com o desculpa para olhar para baixo. Mastiguei devagar e engoli. — E aí — continuei, depois de um m om ento. — Qual é o seu preferido?

Ela ergueu um a sobrancelha e os cantos da boca se viraram para baixo em desaprovação.

— O leão da m ontanha.

— Claro, faz sentido. — Eu assenti com o se ela tivesse dito um a coisa totalm ente norm al.

— É claro — o tom dela espelhava o m eu, nada fora do com um — que precisam os ter o cuidado de não causar im pacto am biental com um a caçada im prudente. Tentam os nos concentrar em áreas com um a superpopulação de predadores, na m aior extensão que precisarm os. Sem pre há m uitos cervos e veados por aqui, e eles servem , m as que diversão há nisso? Ela sorriu.

— Então não é divertido — m urm urei com outra dentada na pizza. — O início da prim avera é a tem porada de ursos preferida de El, eles estão saindo da hibernação, então são m ais irritadiços. — Ela sorriu de algum a piada que lem brou.

— Não há nada m elhor do que um urso pardo irritado — concordei, assentindo. Ela riu baixinho, sacudindo a cabeça.

— Me diga o que realm ente está pensando, por favor. — Estou tentando im aginar, m as não consigo — adm iti. — Com o vocês caçam um urso sem arm as?

— Ah, nós tem os arm as. — Ela faiscou os dentes brilhantes em um sorriso largo que não era realm ente sorriso. — Mas não do tipo que consideram quando redigem as leis de caça. Se j á viu um ataque de urso pela televisão, deve poder visualizar Eleanor caçando.

Espiei pelo refeitório na direção de Eleanor, grato por ela não estar olhando para m im . As faixas largas de m úsculos que envolviam seus braços e pernas ficaram bem m ais intim idantes. Im aginei-a segurando a base de um a m ontanha e levantando…

Edy the acom panhou m eu olhar e riu. Eu olhei para ela, tem eroso. — É perigoso? — perguntei em voz baixa. — Vocês se m achucam ? A gargalhada dela soou com o um sino.

— Ah, Beau. Tão perigoso quanto sua pizza.

Olhei para a casca da pizza e disse:

— Eca. Então… você é… com o um ataque de urso? — Mais com o o leão, é o que m e dizem — disse ela levem ente. — Talvez nossas preferências sej am indicativas.

— Talvez — repeti. Tentei sorrir, m as m inha m ente estava lutando para j untar as im agens paradoxais e falhando. — É um a coisa que eu poderia ver? — Nunca! — sussurrou ela. Seu rosto ficou ainda m ais branco do que o de costum e, e seus olhos de repente estavam horrorizados. Ela afastou a m ão da m inha e abraçou o corpo.

Minha m ão ficou sozinha na m esa, dorm ente por causa do frio. — O que eu disse? — perguntei.

Ela fechou os olhos por um m om ento e recuperou o controle. Quando olhou nos m eus olhos, parecia zangada.

— Eu quase queria que fosse possível. Você parece não com preender as realidades do m om ento. Poderia ser benéfico você ver exatam ente o quanto sou perigosa.

— Tudo bem , então, por que não? — insisti, tentando ignorar a expressão rígida dela.

Ela m e olhou por um bom tem po.

— Depois — disse ela, por fim . Ela ficou de pé em um m ovim ento leve. — Vam os nos atrasar.

Olhei em volta, sobressaltada ao ver que ela tinha razão e o refeitório estava quase vazio. Quando eu estava com ela, o tem po e o lugar eram detalhes tão pequenos que eu perdia a noção dos dois. Pulei de pé e peguei m inha m ochila e a bolsa no chão.

— Depois, então — concordei. Eu não ia m e esquecer.