Vida e Morte

Stephenie Meyer · Capítulo 5 de 27

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Vida e Morte

3. Fenômeno

 

QUANDO ABRI OS olhos de m anhã, havia algo diferente. Era a luz. Ainda era a luz som bria de um dia nublado na floresta, m as de certa form a estava m ais claro. Percebi que não havia neblina obscurecendo a m inha j anela.

Pulei da cam a para olhar para fora e gem i.

Um a fina cam ada de neve cobria o j ardim , acum ulava-se no alto de m inha picape e deixava a rua branca. Mas essa não era a pior parte. Toda a chuva da véspera havia se solidificado — cobrindo as agulhas das árvores de form as m alucas e fazendo da entrada de carros um a pista de gelo liso e m ortal. Para m im , j á era difícil não cair quando o chão estava seco; devia ser m ais seguro voltar para a cam a im ediatam ente.

Charlie saíra para o trabalho antes que eu descesse ao prim eiro andar. De m uitas m aneiras, m orar com ele era com o ter m inha própria casa, e percebi que estava gostando do espaço em vez de m e sentir solitário. Engoli rápido um a tigela de cereal e um pouco de suco de laranj a direto da caixa. Eu estava em polgado para ir para a escola, e isso m e preocupava. Eu sabia que não era pelo am biente estim ulante de aprendizado, nem por m eu novo grupo de am igos. Para ser sincero com igo m esm o, eu sabia que estava ansioso para ir para a escola porque veria Edy the Cullen. E isso era um a grande estupidez.

Talvez algum as garotas estivessem curiosas com o fato de eu ser o cara novo, m as Edy the não era um a McKay la nem um a Erica. Eu estava ciente de que m eu m undo e o dela eram esferas que não se tocavam . Eu j á estava com m edo de que olhar para o rosto dela estivesse m e dando expectativas irreais que m e perseguiriam pelo resto da vida. Passar m ais tem po olhando para ela, observando os lábios se m overem , adm irando a pele dela, ouvindo a voz, não aj udaria em nada. Eu não confiava nela… por que m entir sobre a cor dos olhos? E, claro, havia a história de ela ter desej ado m e ver m orto em algum m om ento. Então, eu não devia ficar em polgado em vê-la de novo.

Precisei de toda a m inha concentração para descer vivo a entrada de carros de tij olos congelados. Quase perdi o equilíbrio quando finalm ente cheguei à picape, m as consegui segurar no retrovisor e m e salvar. Os deslocam entos na escola seriam com plicados hoj e… com grande potencial para hum ilhação. Minha picape não parecia ter problem as com o gelo escuro que cobria as ruas. Mas dirigi bem devagar, sem querer traçar um a rota de destruição pela rua principal.

Quando saí do carro na escola, vi por que tive tão poucos problem as. Um a coisa prateada atraiu m eus olhos, e andei até a traseira da picape — apoiando-m e com cuidado na lateral — para exam inar os pneus. Havia neles correntes finas form ando losangos. Charlie se levantara cedo, sabe-se lá a que horas, para colocar correntes de neve no m eu carro.

Franzi a testa, surpreso de ficar com a garganta apertada de repente. Não era para ser assim . Devia ter sido eu a pensar em botar correntes nos pneus dele, se eu soubesse fazer isso. Ou, pelo m enos, eu devia tê-lo aj udado. Não era trabalho dele…

Só que, na verdade, era sim . Ele era o pai. Estava cuidando de m im , do filho dele. Era assim que funcionava nos livros e nos program as de TV, m as m e fez sentir m eio errado de algum a form a.

Eu estava parado j unto ao canto traseiro da picape, lutando para reprim ir a onda de em oção repentina que as correntes de neve m e provocaram , quando ouvi um som estranho.

Foi um guincho agudo, e, quase na m esm a hora que percebi, o som j á estava dolorosam ente alto. Olhei para cim a, sobressaltado. Vi várias coisas ao m esm o tem po. Nada estava se m ovendo em câm era lenta, com o acontece nos film es. Em vez disso, o j ato de adrenalina parecia fazer com que m eu cérebro trabalhasse m uito m ais rápido, e pude absorver sim ultaneam ente várias coisas em detalhes nítidos. Edy the Cullen estava parada a quatro carros de m im , com a boca aberta horrorizada. O rosto dela se destacava em um m ar de rostos, todos paralisados na m esm a m áscara de choque. Mais adiante, um a van azul-escura estava derrapando, com os pneus travados e guinchado com os freios, rodando com o louca pelo gelo do estacionam ento. Ia bater na traseira da m inha picape, e eu estava parado entre os dois carros. Não tive tem po nem de fechar os olhos. Pouco antes de ouvir o esm agar da van sendo am assada na caçam ba da picape, algum a coisa m e atingiu com força, m as não da direção que eu esperava. Minha cabeça bateu no asfalto gelado, e senti um a coisa sólida e fria m e prendendo no chão. Percebi que estava deitado atrás do carro caram elo estacionado ao lado do m eu. Mas não pude perceber m ais nada, porque a van ainda vinha. Raspara com um rangido na traseira da picape e, ainda girando e derrapando, estava prestes a bater em m im de novo.

— Caram ba!

Ela disse a palavra com tanta rapidez que quase não ouvi, m as era im possível não reconhecer a voz.

Duas m ãos longas e brancas se estenderam na m inha frente, e a van estrem eceu até parar a trinta centím etros do m eu rosto, as m ãos pálidas dela criando um am assado profundo na lateral da van.

Depois as m ãos m exeram -se com tal rapidez que pareciam um vulto. Um a segurou de repente em baixo da van, e algum a coisa m e arrastava, balançando m inhas pernas com o as de um a boneca de trapos, até que elas atingiram o pneu do carro caram elo. Houve um baque m etálico tão alto que feriu m eus ouvidos, e a van parou, estourando o vidro, no asfalto — exatam ente onde, um segundo antes, m inhas pernas estiveram .

Por um segundo, o silêncio foi absoluto. E então, a gritaria com eçou. No caos repentino, eu conseguia ouvir m ais de um a pessoa gritando m eu nom e. Mas, com m ais clareza ainda, podia ouvir a voz baixa e frenética de Edy the Cullen no m eu ouvido.

— Beau! Está tudo bem ?

— Estou bem . — Minha voz parecia estranha. Tentei m e sentar e percebi que ela m e segurava j unto à lateral do corpo. Eu devia estar m ais traum atizado do que percebia, porque não conseguia nem m e m exer no aperto do braço dela. Estaria fraco de choque?

— Cuidado — alertou ela enquanto eu tentava m e soltar. — Acho que você bateu a cabeça com força.

Percebi um a dor latej ante acim a da orelha esquerda. — Ai — exclam ei, surpreso.

— Foi o que eu pensei. — Não era engraçado, m as, pela voz dela, parecia que ela estava tentando não rir.

— Com o foi que… — Eu parei de falar e tentei clarear a m ente, procurando m e orientar. — Com o você chegou aqui tão rápido? — Eu estava bem do seu lado, Beau — disse ela, o tom sério novam ente. Eu m e virei para m e sentar, e, dessa vez, ela m e aj udou, m as logo deslizou para o m ais longe possível no espaço lim itado. Olhei para a expressão preocupada e inocente dela e de novo fiquei desorientado pelos olhos cor de ouro. O que foi m esm o que perguntei a ela?

E depois eles nos acharam , um a m ultidão de gente com lágrim as descendo pelo rosto, gritando um as com as outras, gritando para nós. — Não se m exa — instruiu alguém .

— Tirem a Tay lor da van! — gritou outra pessoa. Houve um alvoroço com a atividade em nossa volta. Tentei m e levantar, m as a m ão de Edy the em purrou m eu om bro para baixo.

— Fique quieto por enquanto.

— Mas está frio — reclam ei.

Fiquei surpreso quando ela riu baixinho. Havia um a aspereza naquele som . — Você estava lá — falei, lem brando de repente, e o riso dela parou num instante. — Você estava perto do seu carro.

A expressão dela ficou séria.

— Não estava, não.

— Eu vi você.

Tudo à nossa volta era um caos. Eu podia ouvir as vozes m ais graves de adultos que chegavam na cena. Mas, obstinadam ente, m e prendi a nossa discussão; eu estava certo e ela tinha que adm itir isso.

— Beau, eu estava parada do seu lado e tirei você do cam inho. Ela ficou m e olhando, e um a coisa estranha aconteceu. O dourado dos olhos pareceu aum entar, com o se os olhos dela estivessem m e drogando, m e hipnotizando. Foi arrasador, só que de um j eito esquisito e incrível. Mas a expressão dela estava ansiosa. Achei que ela estava tentando m e passar algum a inform ação crucial.

— Mas não foi isso que aconteceu — falei, com voz fraca. O ouro em seus olhos se inflam ou de novo.

— Por favor, Beau.

— Por quê? — perguntei.

— Confie em m im — suplicou ela.

Consegui ouvir as sirenes agora.

— Prom ete que vai m e explicar tudo depois?

— Tudo bem — rebateu ela, repentinam ente exasperada. — Tudo bem — m urm urei, sem conseguir entender as variações de hum or dela j unto com todo o resto que estava tentando absorver. O que eu devia pensar quando o que lem brava era im possível?

Foram necessários seis param édicos e duas professoras — a Sra. Varner e a treinadora Clapp — para afastar a van de nós o bastante para que as m acas entrassem . Edy the insistiu que nada a havia atingido, e tentei fazer o m esm o, m as ela logo m e contradisse. Ela contou que eu bati a cabeça e fez parecer pior do que era, usando palavras com o concussão e hemorragia. Eu quis m orrer quando m e colocaram o protetor de pescoço. Parecia que toda a escola estava ali, olhando sobriam ente enquanto m e levavam para a traseira da am bulância. Edy the foi na frente. Foi m il vezes m ais hum ilhante do que im aginei que o dia seria, e eu não tinha nem chegado à calçada.

Para piorar as coisas, o chefe Swan chegou antes que pudessem m e tirar dali em segurança.

— Beau! — gritou ele, em pânico, quando m e reconheceu na m aca. — Eu estou bem , Char… pai. — Eu suspirei. — Não há nada de errado com igo. Ele se virou para o param édico m ais próxim o, pedindo um a segunda opinião. Enquanto o param édico tentava acalm á-lo, desliguei-m e dele para refletir sobre a confusão de im agens inexplicáveis que se agitavam caoticam ente em m inha cabeça, im agens que não eram possíveis. Quando m e levantaram do carro, eu vi o am assado fundo no para-choque do carro caram elo — um am assado m uito distinto, que com binava com os contornos dos om bros estreitos de Edy the… Com o se ela tivesse se j ogado no carro com força suficiente para am assar a estrutura de m etal…

E depois, apareceu a fam ília dela, olhando a distância, com expressões que iam de reprovação (Eleanor) a fúria (Roy al), m as sem a m enor sugestão de preocupação pela segurança da irm ãzinha.

Lem brei-m e da sensação de quase sair voando… daquele peso rígido que m e prendeu ao chão… da m ão de Edy the debaixo da van, com o se a estivesse levantando…

Tentei pensar num a explicação lógica para o que eu acabara de ver. Eu só conseguia pensar que estava tendo um episódio psicótico. Eu não m e sentia louco, m as talvez as pessoas loucas sem pre se sentissem sãs. Naturalm ente, a am bulância teve escolta policial até o hospital do condado. Eu m e senti ridículo quando foram m e tirar da am bulância. O que piorava tudo era que Edy the sim plesm ente passou pelas portas do hospital andando com os próprios pés.

Eles m e colocaram na em ergência, um a sala com prida com um a fila de leitos separados por cortinas em tom pastel. Um a enferm eira pôs um aparelho de pressão no m eu braço e um term ôm etro debaixo da m inha língua. Com o ninguém se incom odou em puxar a cortina para m e dar um pouco de privacidade, decidi que não era m ais obrigado a usar o protetor de pescoço ridículo. Quando a enferm eira se afastou, abri o velcro rapidam ente e o atirei debaixo da cam a.

Houve outra agitação dos funcionários do hospital, outra m aca trazida para o leito ao lado do m eu. Reconheci Tay lor Crowley, da m inha turm a de educação cívica, atrás das ataduras suj as de sangue que envolviam firm em ente sua cabeça. Tay lor parecia cem vezes pior do que eu. Mas olhava angustiada para m im . — Beau, m e desculpe!

— Eu estou bem , Tay lor… Você parece péssim a, está tudo bem ? Enquanto falávam os, enferm eiras com eçaram a desfazer sua atadura encharcada, expondo um a m iríade de cortes superficiais em toda a testa e na bochecha esquerda.

Ela m e ignorou.

— Achei que fosse m atar você! Eu estava indo rápido dem ais e derrapei no gelo… — Ela fez um a careta quando um a das enferm eiras com eçou a lim par seu rosto.

— Não se preocupe com isso; você não m e acertou. — Com o foi que saiu do cam inho tão rápido? Você estava lá e de repente sum iu…

— Hm m m … Edy the m e puxou de lá.

Ela pareceu confusa.

— Quem ?

— Edy the Cullen. Ela estava do m eu lado. — Com o sem pre, não pareci nada convincente.

— Edy the? Não a vi… Caram ba, acho que foi tudo tão rápido. Ela está bem ? — Acho que sim . Está em algum lugar por aqui, m as ninguém a obrigou a vir de m aca.

Eu sabia que não era louco. O que tinha acontecido? Não havia com o explicar o que eu vi.

Eles m e levaram de novo na m aca, para um a radiografia da cabeça. Eu disse que não havia nada de errado e tinha razão. Nem m esm o um a concussão. Perguntei se podia ir em bora, m as a enferm eira disse que prim eiro eu teria que falar com um m édico. Então, fiquei preso na em ergência, esperando, incom odado pelas desculpas constantes de Tay lor e suas prom essas de que iria m e com pensar. Não im portava quantas vezes eu tentasse convencê-la de que estava bem , ela continuava a im plorar por perdão. Por fim , fechei os olhos e tentei ignorá-la.

— Ele está dorm indo? — perguntou um a voz m usical. Meus olhos se abriram . Edy the estava parada ao pé do m eu leito, com um a expressão que parecia m ais de deboche do que um sorriso. Fiquei olhando para ela, tentando j untar as peças na m inha cabeça. Ela não parecia um a pessoa capaz de atacar veículos com as próprias m ãos. Mas, por outro lado, ela tam bém não era parecida com ninguém que eu j á tivesse visto.

— Oi, hã, Edy the, m e desculpe… — Tay lor com eçou a dizer. Edy the ergueu a m ão para detê-la.

— Sem sangue, sem crim e — disse ela, m ostrando os dentes brilhantes. Ela foi se sentar na beira do leito de Tay lor, virada para m im . Deu aquele sorrisinho debochado de novo.

— E então, qual é o veredito? — perguntou-m e. — Não há nada de errado com igo, m as não m e deixam ir em bora — respondi. — Por que você não foi am arrada a um a m aca com o nós? — Tem a ver com quem você conhece — respondeu ela. — Mas não se preocupe, eu vim libertá-lo.

Um a m édica apareceu, e m inha boca se abriu. Ela era j ovem , era loura… e era m ais linda do que qualquer estrela de cinem a que eu j á tivesse visto. Com o se alguém tivesse esquartej ado Audrey Hepburn, Grace Kelly e Marily n Monroe, depois pegou as m elhores partes e colou tudo para form ar um a deusa. Mas era pálida e parecia cansada, com olheiras debaixo dos olhos escuros. Pela descrição de Charlie, tinha que ser a m ãe de Edy the.

— Então, Sr. Swan — disse a Dra. Cullen num a voz gentil —, com o está se sentindo?

— Estou bem — respondi. Esperava que pela últim a vez. Ela foi até o quadro de luz na parede acim a da m inha cabeça e o ligou. — Sua radiografia parece boa — disse ela. — Está com dor de cabeça? Edy the disse que você bateu com m uita força.

— Eu estou bem — repeti com um suspiro, lançando um breve olhar zangado para Edy the. Ela evitou m eu olhar.

Os dedos frios da m édica sondaram de leve m eu crânio. Ela percebeu quando estrem eci.

— Dolorido? — perguntou.

— Na verdade, não. — Já senti coisas piores.

Ouvi um a risadinha, olhei e vi Edy the sorrindo. — Bem , seu pai está na sala de espera. Pode ir para casa com ele agora. Mas volte se sentir vertigem ou tiver qualquer problem a de visão. — Não posso voltar para a escola? — perguntei, im aginando Charlie tentando bancar o enferm eiro.

— Talvez fosse m elhor você descansar hoj e.

Olhei para Edy the.

— Ela vai para a escola?

— Alguém tem que espalhar a boa notícia de que sobrevivem os — disse Edy the, presunçosa.

— Na verdade — corrigiu a Dra. Cullen —, a m aior parte da escola parece estar na sala de espera.

— Ugh — gem i.

A Dra. Cullen ergueu as sobrancelhas.

— Quer ficar aqui?

— Não, não! — insisti, atirando as pernas pelo lado do leito e pulando para o chão rapidam ente.

Foi rápido dem ais. Eu cam baleei, e a Dra. Cullen m e segurou. Ela era m ais forte do que parecia.

— Estou bem — garanti de novo. Não havia necessidade de dizer a ela que m eus problem as de equilíbrio não tinham nada a ver com a pancada na cabeça. — Tom e um Ty lenol para a dor — sugeriu ela enquanto m e equilibrava. — Não está doendo tanto assim — insisti.

— Parece que vocês tiveram m uita sorte — disse a Dra. Cullen, sorrindo ao assinar m eu prontuário com um floreio.

— A sorte foi Edy the por acaso estar parada do m eu lado — corrigi com um olhar duro para o obj eto de m inha declaração. — Ah, bem , sim — concordou a Dra. Cullen, repentinam ente ocupada com a papelada diante dela. Depois, desviou os olhos para Tay lor e foi até o leito seguinte. Tive certeza de que a m édica sabia de tudo. — Mas acho que você terá que ficar conosco por m ais um tem pinho — disse ela a Tay lor, e com eçou a exam inar os cortes.

Assim que a m édica se virou, fui para o lado de Edy the. — Posso conversar com você um m inuto? — sibilei. Ela recuou um passo, o queixo de repente trincado.

— Seu pai está esperando você — disse ela, entredentes. Eu olhei para a Dra. Cullen e para Tay lor.

— Preciso falar com você a sós — pressionei. Ela fez cara feia, m as não foi com o no prim eiro dia, nem um pouco hom icida, então esperei. Depois de um segundo, ela deu as costas e andou rapidam ente pela sala com prida. Mesm o com m inhas pernas longas, quase tive que correr para acom panhá-la. Assim que viram os para um corredor pequeno, ela girou o corpo e m e encarou.

— O que você quer? — perguntou, parecendo irritada. Seus olhos estavam frios. A anim osidade dela m e intim idou. Minhas palavras saíram com m enos segurança do que eu pretendia.

— Você m e deve um a explicação — lem brei a ela. — Eu salvei a sua vida. Não lhe devo nada.

Eu m e encolhi ao ouvir o ressentim ento na voz dela. — Por que você está agindo assim ?

— Beau, você bateu a cabeça, não sabe do que está falando. — O tom de voz era cortante.

Mas a raiva dela só m e deu m ais certeza de que eu estava certo. — Não há nada de errado com a m inha cabeça. Ela m e olhou com m ais irritação ainda.

— O que você quer de m im , Beau?

— Quero saber a verdade — respondi. — Quero saber por que estou m entindo por você.

— O que você acha que aconteceu? — rebateu ela. Foi m ais difícil dizer as palavras em voz alta, pois dava para ouvir a loucura. Abalou m inha convicção, m as tentei m anter a voz firm e e calm a. — Sei é que você não estava em nenhum lugar perto de m im . Tay lor tam bém não a viu, então não venha m e dizer que bati a cabeça com força. Aquela van ia esm agar nós dois… E não esm agou. Pareceu que suas m ãos deixaram um am assado na lateral dela, e seu om bro deixou um am assado no outro carro, m as você não está nada m achucada. A van devia ter esm agado m inhas pernas, m as você a levantou… — Foi ficando cada vez pior. Não consegui continuar. Ela estava m e encarando, os olhos arregalados e incrédulos. Mas não conseguia esconder totalm ente a tensão, a postura defensiva. — Você acha que eu levantei a van de cim a de você? — O tom de voz questionava m inha sanidade, m as havia algo de estranho. Era com o um a fala dita com perfeição por um a atriz habilidosa, tão difícil de se duvidar, m as, ao m esm o tem po, a tela do cinem a fazia você perceber que nada era real. Eu apenas concordei um a vez.

Ela deu um sorriso frio e debochado.

— Ninguém vai acreditar nisso, você sabe.

— Não vou contar a ninguém .

A surpresa passou rapidam ente pelo rosto dela, e o sorriso sum iu.

— Então por que im porta?

— Im porta para m im — falei. — Não gosto de m entir. Então, é m elhor haver um a boa razão para que eu faça isso.

— Não dá só pra m e agradecer e acabar com isso? — Obrigado — eu disse, e cruzei os braços. Esperando. — Você não vai deixar pra lá, não é?

— Não.

— Neste caso… Espero que goste de se decepcionar. Ela m e olhou com irritação, e eu olhei para ela, com os pensam entos abalados pelo quanto ela ficava linda com raiva. Fui o prim eiro a falar, tentando m e m anter concentrado. Corria o risco de m e distrair com pletam ente. Era com o tentar encarar um anj o exterm inador.

— Se era para agir assim , por que você se deu o trabalho? — perguntei. Ela parou, e, por um breve m om ento, seu rosto perfeito ficou inesperadam ente vulnerável.

— Não sei — sussurrou ela.

E deu as costas para m im e se afastou.

Dem orei alguns m inutos para conseguir m e m exer. Quando consegui andar, segui lentam ente para a saída no final do corredor. A sala de espera foi desagradável, com o eu tem ia. Parecia que cada rosto que eu conhecia em Forks estava lá, m e encarando. Charlie correu para m im ; eu levantei as m ãos.

— Não há nada de errado com igo — garanti a ele, exasperado de repente pela situação louca.

— O que o m édico disse?

— A Dra. Cullen m e exam inou e disse que eu estava bem e que podia ir para casa. — McKay la, Jerem y e Erica estavam ali, com eçando a convergir para nós. — Vam os — pedi.

Charlie esticou o braço para m im , com o se achasse que eu precisava m e apoiar. Segui depressa para a porta da saída, acenando tim idam ente para m eus am igos. Eu torcia para eles j á terem se esquecido de tudo no dia seguinte. Era im provável.

Foi um grande alívio (a prim eira vez que senti isso) entrar na radiopatrulha. Seguim os no carro em silêncio. Eu estava tão im erso em m eus pensam entos que m al percebia a presença de Charlie. Tinha certeza absoluta de que o com portam ento defensivo de Edy the no corredor fora um a confirm ação das coisas estranhas que eu ainda não conseguia acreditar ter testem unhado. Quando chegam os em casa, Charlie finalm ente falou. — Hm m m … Você vai precisar ligar para Renée. — Ele inclinou a cabeça com culpa.

Fiquei estupefato.

— Você contou à mamãe?

— Desculpe.

Bati a porta da viatura com um a força um pouco m aior do que a necessária ao sair do carro.

É claro que a m inha m ãe estava histérica. Tive que dizer a ela que eu m e sentia bem pelo m enos um as trinta vezes, até ela se acalm ar. Ela m e im plorou para ir para casa — esquecendo-se do fato de que a casa naquele m om ento estava vazia —, m as foi m ais fácil resistir às súplicas do que eu teria im aginado. Eu estava consum ido pelo m istério representado por Edy the. E um pouco m ais do que obcecado pela própria Edy the. Idiota, idiota, idiota. Eu não estava tão ansioso para escapar de Forks com o deveria, com o qualquer pessoa norm al e sã teria feito.

Decidi que podia m uito bem ir para a cam a m ais cedo naquela noite. Charlie continuou a m e observar ansiosam ente, e aquilo estava m e dando nos nervos. Parei a cam inho do quarto para pegar três com prim idos de Ty lenol no banheiro. Eles aj udaram e, à m edida que a dor cedia, caí no sono. Essa foi a prim eira noite em que sonhei com Edy the Cullen.