Vida e Morte

Stephenie Meyer · Capítulo 7 de 27

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Vida e Morte

5. Tipo Sanguíneo

5. TIPO SANG UÍNEO

 

FUI PARA A aula de inglês entorpecido. Nem percebi que, quando entrei na sala, a aula j á havia com eçado.

A voz irritada da Sra. Mason foi m inha prim eira dica. — Obrigada por se j untar a nós, Sr. Swan.

Manchas verm elhas se form aram no m eu rosto, e corri para m e sentar. Foi só quando a aula term inou que percebi que McKay la não estava no lugar de sem pre, ao m eu lado, e lem brei que feri os sentim entos dela. Mas ela e Erica m e esperaram na porta, e torci para isso significar que eu seria perdoado um dia. À m edida que seguíam os, McKay la pareceu voltar a agir com o sem pre agia, seu entusiasm o aum entando enquanto falava da previsão do tem po para o fim de sem ana. A chuva devia dar um a trégua curta, então talvez fosse possível fazer a viagem à praia que ela planej ava. Tentei parecer entusiasm ado com o ela para com pensar a decepção do dia anterior, m as consegui perceber que não estava enganando ninguém . Com ou sem chuva, teríam os sorte se a tem peratura chegasse a dez graus. Não era m eu ideal de um dia na praia. O resto da m anhã passou indistintam ente. Era difícil acreditar que eu não estava im aginando coisas de novo, que Edy the tinha m esm o dito aquelas coisas, e que os olhos dela ficaram daquele j eito quando ela falou. Algum a coisa nela confundia m inha realidade. Prim eiro, achei que a tivesse visto parar um a van com a m ão, e agora, isso. A fantasia original parecia m ais provável do que a segunda, que eu a atraía de algum a form a. Mas aqui estava eu, entrando nisso de olhos bem abertos, sem nem m e im portar com a pegadinha no final. No m om ento, parecia um a troca j usta, a gargalhada dela m ais tarde por aquela expressão dos olhos agora.

Fiquei ansioso e tam bém nervoso quando cheguei no refeitório no alm oço. Ela m e ignoraria, com o sem pre? Haveria algum sinal por parte dela de que a conversa da m anhã tinha m esm o acontecido? Com um a pequena parte do cérebro, ouvi Jerem y. McKay la o convidara para o baile, e eles iam j unto com algum as outras pessoas: Allen e Erica, Logan e Tay lor. Acho que grunhi nas horas certas, porque ele não pareceu perceber a pouca atenção que eu estava dando a ele.

Meus olhos se viraram direto para a m esa dela assim que passei pela porta, m as fui tom ado pela decepção, com o se tivesse levado um soco no estôm ago. Só havia quatro pessoas ali, e Edy the não era um a delas. Ela ia desaparecer toda vez que algum a coisa significativa acontecesse?

Claro que a conversa da m anhã só foi significativa para m im , eu tinha certeza. Perdi o apetite. Peguei um a garrafa de lim onada para ter algum a coisa para segurar e segui Jerem y roboticam ente até a fila, desej ando ser o tipo de pessoa que pode ir cedo para casa, o tipo que não se preocupa com faltas não j ustificadas e detenção e figuras paternas decepcionadas. — Edy the Cullen está olhando para você de novo — disse Jerem y. Passei a prestar cem por cento de atenção quando ele disse o nom e dela. — Por que será que está sentada sozinha hoj e?

Minha cabeça se levantou de repente e segui o olhar dele. Edy the estava sentada a um a m esa vazia do lado oposto de onde costum ava ficar no refeitório. As covinhas surgiram assim que ela soube que a vi. Ela levantou a m ão e gesticulou com o indicador para que eu m e j untasse a ela. Enquanto eu a encarava, sem acreditar totalm ente nos m eus olhos, ela deu um a piscadela. — Ela quer dizer você? — perguntou Jerem y. A surpresa dele era m eio insultante, m as eu não m e im portava.

— Hã, talvez ela precise de aj uda com o dever de biologia — m urm urei. — Acho m elhor ver o que ela quer.

Consegui sentir Jerem y m e olhando conform e eu m e afastava. Tam bém conseguia sentir as m anchas verm elhas horríveis subindo pelo m eu pescoço e tentei m e acalm ar.

Quando cheguei à m esa dela, fiquei de pé atrás da cadeira na frente dela, constrangido.

— Por que você não senta com igo hoj e? — sugeriu ela, dando um sorriso largo. Eu m e sentei autom aticam ente, observando a expressão dela. Era assim que a piada term inava? Ela não tinha parado de sorrir. Concluí que ainda não m e im portava. Eu topava qualquer coisa que m e levasse m ais um a vez para perto dela assim .

Ela ficou m e olhando, ainda sorrindo. Queria que eu dissesse algum a coisa? — Isso é, hã, diferente — consegui falar, por fim . — Bom — disse ela, e parou. Consegui sentir que havia m ais, então esperei. O resto das palavras saiu em avalanche, se em bolando tanto que dem orei um m inuto para decifrar o significado. — Concluí que, j á que vou para o inferno, posso m uito bem fazer o serviço com pleto.

Fiquei esperando, achando que ela explicaria, m as ela não disse nada. O silêncio foi ficando m ais desconfortável conform e os segundos se passaram . — Você sabe que não entendi o que você quer dizer, né? — perguntei. — Estou contando com isso — disse ela, e desviou os olhos para trás de m im . — Acho que seus am igos estão chateados porque roubei você. De repente, consegui sentir os olhos de todos eles nas m inhas costas. Pela prim eira vez, não m e incom odou em nada.

— Eles vão sobreviver.

Ela sorriu.

— Mas é possível que eu não devolva.

Engoli em seco, e ela riu.

— Você parece preocupado.

— Não. — Parei para engolir em seco de novo, por ouvir m inha voz com eçar a falhar. — Mas estou surpreso. Qual é o m otivo disso tudo? Fiz um sinal para ela e para a m esa vazia.

— Eu falei, estou cansada de tentar ficar longe de você. Então, estou desistindo. — O sorriso estava sum indo, e os olhos ficaram sérios no final. — Desistindo? — repeti.

— Sim . Desistindo de tentar ser boa. Agora só vou fazer o que eu quiser e deixar os dados rolarem . — O sorriso desapareceu com pletam ente, e um tom ríspido surgiu na voz sedosa.

— Está m e confundindo de novo.

Pareceu que ela achou isso engraçado.

— Eu sem pre falo dem ais quando converso com você. Esse é um dos problem as. — Não se preocupe. Eu não entendo nada do que você diz. — Com o falei, estou contando com isso.

Ficam os nos olhando por alguns segundos, m as o silêncio não foi constrangedor dessa vez. Foi m ais… carregado. Meu rosto com eçou a ficar quente de novo. — Então — falei, afastando o olhar para recuperar o fôlego. — Num a linguagem clara, agora som os am igos?

— Am igos… — m urm urou ela. Pareceu não ser sua palavra favorita. — Ou não — m urm urei.

— Bom , acho que podem os tentar. Mas estou avisando de novo que não sou um a boa am iga. — O sorriso estava duro agora, o alerta era real. — Você diz isso m uitas vezes.

Era engraçado com o m eu estôm ago estava em brulhado. Seria por eu estar com fom e, afinal? Por ela estar sorrindo para m im ? Ou porque, de repente, eu quase acreditava nela? Percebi que ela acreditava no que estava dizendo. — Sim , porque você não está m e ouvindo. Ainda estou esperando que acredite nisso. Se for inteligente, vai m e evitar.

Eu tive que sorrir, e vi o sorriso dela ficar m aior autom aticam ente em resposta. — Achei que tínham os chegado à conclusão de que sou im becil. Ou idiota, sei lá. — Eu pedi desculpas, ao m enos na segunda vez. Você pode m e perdoar? Eu falei sem pensar.

— Ah, claro. Você não precisa m e pedir desculpas. Ela suspirou.

— Não?

Eu não sabia com o responder; pareceu um a pergunta retórica, de qualquer m odo. Olhei para m inhas m ãos ao redor da garrafa de lim onada, sem saber o que fazer. Era tão estranho estar ali com ela, com o pessoas norm ais. Eu tinha certeza de que só um de nós era norm al.

— No que está pensando? — perguntou ela.

Eu levantei o olhar. Ela estava m e encarando de novo, com os olhos dourados curiosos e, com o na prim eira vez que a vi, frustrados. Mais um a vez, m eus pensam entos se recusaram a passar pelo filtro apropriado. — Estou tentando entender o que você é.

O sorriso ficou tenso, com o se os dentes tivessem ficado grudados de repente, m as ela o sustentou com cautela.

— Está tendo sorte com isso? — A voz dela soou casual, com o se ela não se im portasse com a m inha resposta.

Meu pescoço ficou quente e, eu supus, horrivelm ente m anchado de verm elho. Durante aquele últim o m ês, eu pensei um pouco no assunto, m as as únicas soluções em que consegui pensar eram totalm ente ridículas. O nível de besteira de Clark Kent e Peter Parker.

Ela inclinou a cabeça para o lado e olhou nos m eus olhos com o se tentando ver através deles, direto no m eu cérebro. Ela sorriu, de form a convidativa dessa vez, im possível de resistir.

— Você não vai m e contar?

Mas eu tinha que resistir. Ela j á m e achava um idiota. Balancei a cabeça. — É constrangedor dem ais.

— Isso é muito frustrante — reclam ou ela. — É m esm o? — Eu levantei as sobrancelhas. — Tipo… alguém se recusando a dizer para você o que está pensando, m esm o fazendo o tem po todo com entários enigm áticos sob m edida para deixar você acordado a noite inteira se perguntando o que ela podia querer dizer… Frustrante assim ? Ela franziu a testa e proj etou os lábios de um j eito perturbador. Eu m e esforcei para m anter a concentração.

— Ou é frustrante, digam os, com o se ela tivesse feito um m onte de outras coisas estranhas, com o salvar sua vida em circunstâncias im possíveis um dia, depois tratar você com o um pária no dia seguinte, sem nunca explicar nada disso, m esm o depois de prom eter? Frustrante assim ? A testa se franziu ainda m ais, depois virou um a expressão de m au hum or. — Você ainda não esqueceu isso?

— Ainda não.

— Outro pedido de desculpas aj udaria?

— Um a explicação seria m elhor.

Ela repuxou os lábios, olhou para além do m eu braço esquerdo e riu. — O quê?

— Sua nam orada acha que estou sendo cruel com você. Está decidindo se deve vir interrom per nossa briga ou não.

— Eu não tenho nam orada e você está tentando m udar de assunto. Ela ignorou a segunda parte da m inha frase.

— Você pode não pensar nela assim , m as é assim que ela pensa em você.

— Não tem com o isso ser verdade.

— Mas é. Eu j á disse, é fácil interpretar a m aioria das pessoas. — Menos eu.

— É. Menos você. — Ela voltou o olhar para m im e m e exam inou, parecendo perfurar os m eus olhos. — Fico m e perguntando o porquê disso. Eu precisei desviar os olhos. Concentrei-m e em abrir a tam pa da lim onada. Tom ei um gole e fiquei olhando a m esa sem ver. — Não está com fom e? — perguntou ela.

Vi com alívio que o olhar dela estava m enos penetrante agora. — Não. — Não achei necessário m encionar que m eu estôm ago não estava em boas condições para receber com ida. — E você? — Olhei para a m esa vazia diante dela.

— Não, não estou com fom e. — Ela sorriu com o se eu não tivesse captado um a piada particular.

— Pode m e fazer um favor? — perguntei, com palavras que fugiram antes de eu dar perm issão para que saíssem .

Ela ficou séria com rapidez.

— Depende do que você quer.

— Não é grande coisa — garanti.

Ela esperou, alerta, m as claram ente curiosa.

— Você pode m e avisar com antecedência? Na próxim a vez que decidir m e ignorar? Para o m eu próprio bem , eu acho. Para que eu fique preparado. — Olhei a garrafa de lim onada enquanto falava, desenhando o anel da abertura com um dedo.

— Parece j usto.

Ela parecia estar tentando não rir quando eu olhei. — Obrigado.

— Posso pedir um favor em troca? — perguntou ela. — Claro. — Foi m inha vez de ficar curioso. O que ela quereria de m im ? — Me conte um a de suas teorias.

Ops.

— De j eito nenhum .

— Você m e prom eteu um favor.

— E você j á quebrou prom essas — lem brei-lhe. — Só um a teoria… Eu não vou rir.

— Vai, sim . — Eu não tinha dúvida disso.

Ela olhou para baixo, depois para m im através dos cílios longos, os olhos dourados abrasadores.

— Por favor? — sussurrou ela, inclinando-se para m im . Sem perm issão, m eu corpo se inclinou para perto dela, com o se ela fosse um ím ã e eu fosse um clipe de papel, até o rosto dela estar a m enos de trinta centím etros do m eu. Minha m ente ficou totalm ente vazia. Balancei a cabeça para tentar pensar com clareza e m e obriguei a endireitar o corpo.

— Hã… o quê?

— Só um a teoriazinha. — ronronou ela. — Por favor. — Bom , hã, você foi picada por um a aranha radioativa? — Ela tam bém sabia hipnotizar? Ou eu é que era um fraco irrem ediável? Ela revirou os olhos.

— Isso não é m uito criativo.

— Desculpe, é só o que eu tenho.

— Nem chegou perto.

— Nada de aranhas?

— Nada de aranhas.

— Nada de radioatividade?

— Nadinha.

— Ah — m urm urei.

Ela riu.

— A criptonita tam bém não m e incom oda.

— Você não podia rir, lem bra?

Ela apertou os lábios, m as os om bros trem eram do esforço para segurar a gargalhada.

— Um dia eu vou descobrir — m urm urei.

O senso de hum or dela sum iu com o se alguém tivesse desligado um interruptor. — Eu gostaria que você não tentasse.

— Com o posso não questionar? Quer dizer… você é im possível. Eu não falei com o crítica, só com o afirm ação. Você não é possível. É mais do que é possível.

Ela entendeu.

— Mas e se eu não for um a super-heroína? E se eu for a vilã? — Ela sorriu ao falar isso, com expressão brincalhona, m as os olhos estavam pesados com algum fardo que eu não conseguia im aginar.

— Ah — eu disse, surpreso. As m uitas dicas que ela deu com eçaram a surgir até fazerem sentido. — Ah, tudo bem .

Ela esperou, rígida de estresse de repente. Naquele segundo, todos os m uros dela pareceram desaparecer.

— O que exatam ente tudo bem quer dizer? — perguntou ela, tão baixo que foi quase um sussurro.

Tentei organizar os pensam entos, m as a ansiedade dela m e obrigou a responder m ais rápido. Eu falei as palavras sem prepará-las prim eiro. — Você é perigosa?

Saiu com o um a pergunta, e havia dúvida na m inha voz. Ela era m enor do que eu, da m esm a idade e com corpo delicado. Em circunstâncias norm ais, eu teria rido por usar a palavra perigosa para m e referir a alguém com o ela. Mas ela não era norm al, e não havia ninguém com o ela. Eu m e lem brei da prim eira vez que ela m e olhou com ódio nos olhos, quando senti um m edo genuíno, apesar de não entender a reação dela no m om ento e achar que foi tolice segundos depois. Agora eu entendia. Por baixo da dúvida, fora da incongruência da palavra perigosa aplicada ao corpo m agro e perfeito, eu conseguia sentir a verdade. O perigo era real, em bora m inha m ente lógica não conseguisse absorver. E ela estava tentando m e dizer isso o tem po todo.

— Perigosa — m urm urei de novo, tentando fazer a palavra se encaixar na pessoa à m inha frente. O rosto de porcelana ainda estava vulnerável sem m uros e sem segredos. Os olhos estavam arregalados agora, na expectativa da m inha reação. Ela parecia estar se preparando para algum tipo de im pacto. — Mas não a vilã — sussurrei. — Não, eu não acredito nisso. — Você está enganado. — A voz dela era quase inaudível. Ela olhou para baixo, roubando m inha tam pa de garrafa e girando-a de lado entre os dedos. Tirei vantagem da falta de atenção dela para olhar m ais. Ela foi sincera no que disse, isso era óbvio. Queria que eu sentisse m edo dela. O que eu m ais sentia era… fascinação. Havia um certo nervosism o, claro, por estar tão perto dela. Por m edo de fazer papel de bobo. Mas eu só queria ficar sentado aqui para sem pre, ouvir a voz dela e ver as expressões surgirem no rosto dela, bem m ais rápido do que eu era capaz de perceber. Então, é claro que foi nessa hora que percebi que o refeitório estava quase vazio. Afastei m inha cadeira da m esa, e ela levantou o rosto. Ela parecia… triste. Mas resignada. Com o se essa fosse a reação que estava esperando. — Vam os chegar atrasados — disse para ela, m e levantando. Ela ficou surpresa por um segundo, m as a expressão divertida j á fam iliar estava de volta em seguida.

— Eu não vou à aula hoj e. — Os dedos dela giravam a tam pa com tanta rapidez que se tornou apenas só um a m ancha.

— Por que não?

Ela sorriu para m im , m as os olhos não estavam totalm ente disfarçados. Eu ainda conseguia ver o estresse por trás da fachada.

— É saudável m atar aula de vez em quando — disse ela. — Ah. Bom , então… estou indo? — Havia outra opção? Eu não era de m atar aula, m as se ela m e pedisse…

Ela voltou a atenção para a tam pa.

— A gente se vê depois, então.

Aquilo parecia um a dispensa, e eu não era totalm ente contra ser dispensado. Havia m uito em que pensar, e eu não pensava m uito bem com ela perto. O prim eiro sinal tocou, e eu saí correndo pela porta. Olhei para trás um a vez e vi que ela não tinha saído do lugar e a tam pinha da garrafa continuava girando em círculo, com o se nunca fosse parar.

Enquanto eu quase corria para a aula, m inha cabeça girava m ais rápido do que a tam pinha da garrafa. Tão poucas perguntas foram respondidas, nenhum a, na verdade, pensando m elhor, m as m uitas perguntas novas surgiram . Tive sorte; a professora ainda não estava na sala quando cheguei atrasado, com o rosto quente. Allen e McKay la estavam m e olhando: Allen com surpresa, quase assom bro, e McKay la com ressentim ento.

A Sra. Banner entrou na sala nessa hora, m andando a turm a fazer silêncio enquanto equilibrava caixas de papelão nos braços. Deixou as caixas caírem na m esa de McKay la e pediu que ela com eçasse a passá-las pela turm a. — Muito bem , pessoal, quero que todos tirem um obj eto de cada caixa — disse ela enquanto pegava um par de luvas de látex do bolso do casaco e as vestia. O som áspero das luvas sendo puxadas nos pulsos m e pareceu agourento. — O prim eiro deve ser um cartão indicador — prosseguiu ela, pegando um cartão branco do tam anho de um a ficha e exibindo-o. Tinha quatro quadrados em vez de linhas. — O segundo é um aplicador de quatro dentes… — Ela ergueu um a coisa que parecia um prendedor de cabelos sem dentes. — E o terceiro é um a m icroagulha estéril. — Ela levantou um pedacinho de plástico azul e o abriu em dois. A ponta era invisível dessa distância, m as m eu estôm ago revirou. — Vou andar pela sala com um conta-gotas com água para preparar seus cartões, então só com ecem quando eu chegar até vocês. De novo, ela com eçou pela m esa de McKay la, colocando cuidadosam ente um a gota de água em cada um dos quatro quadrados do cartão dela. — Depois, quero que furem o dedo com a agulha, cuidadosam ente… — Ela pegou a m ão de McKay la e deu um a estocada com a agulha na ponta do dedo m édio dela.

— Ai — reclam ou McKay la.

Um suor grudento surgiu na m inha testa, e m eus ouvidos com eçaram a apitar de leve.

— Coloquem um a gotinha de sangue em cada um dos dentes. Ela dem onstrou, esprem endo o dedo de McKay la até que o sangue fluiu. Engoli em seco convulsivam ente, m eu estôm ago palpitando. — E depois, apliquem no cartão — concluiu ela, segurando o cartão com as gotas verm elhas para que víssem os.

Fechei os olhos, tentando ouvir através do zum bido nos m eus ouvidos. — A Cruz Verm elha vai fazer coleta de doação de sangue em Port Angeles no fim de sem ana que vem , então pensei que todos vocês deviam conhecer seu tipo sanguíneo. — Ela parecia orgulhosa de si m esm a. — Os alunos que ainda não têm dezoito anos vão precisar de perm issão dos pais. Tenho form ulários na m inha m esa.

Ela continuou pela sala com as gotas de água. Encostei o rosto no tam po de m esa frio e preto e tentei m e m anter consciente enquanto tudo parecia ficar distante, sum indo em um túnel com prido. Os gritinhos, queixas e risinhos que m eus colegas de turm a faziam enquanto espetavam os dedos pareciam distantes. Respirei lentam ente pela boca.

— Beau, está tudo bem ? — perguntou a Sra. Banner. A voz dela estava perto da m inha cabeça, m as ainda soava distante, e parecia alarm ada. — Eu j á sei m eu tipo sanguíneo, Sra. Banner. Sou O negativo. Eu não conseguia abrir os olhos.

— Acha que vai desm aiar?

— Sim , senhora — m urm urei, xingando-m e por dentro por não m atar a aula quando tive a chance.

— Alguém pode levar Beau à enferm aria, por favor? — pediu ela. — Eu levo.

Apesar de distante, reconheci a voz de McKay la. — Consegue andar? — perguntou a Sra. Banner. — Consigo — sussurrei. Só me deixe sair daqui, pensei. Nem que seja engatinhando.

Senti McKay la segurar m inha m ão (eu tinha certeza de que estava suada e noj enta, m as não m e im portei com isso) e m e esforcei para abrir os olhos enquanto ela m e puxava. Eu tinha que sair daquela sala antes que tudo ficasse preto. Cam baleei na direção da porta enquanto McKay la passava o braço pela m inha cintura, tentando m e firm ar. Passei o braço pelos om bros dela, m as ela era baixa dem ais para aj udar no m eu equilíbrio. Tentei carregar o m áxim o possível do m eu próprio peso.

McKay la e eu seguim os pelo cam pus. Quando estávam os perto do refeitório, fora de vista do prédio quatro, para o caso da Sra. Banner estar olhando, eu parei de lutar.

— Posso m e sentar um m inuto, por favor? — pedi. McKay la deu um suspiro de alívio enquanto eu m e sentava desaj eitadam ente na beirada da calçada.

— E, o que quer que você faça, não tire a m ão do bolso — pedi. Tudo parecia estar girando, m esm o com m eus olhos fechados. Tom bei para o lado, colocando o rosto no cim ento enregelante e m olhado da calçada. Isso aj udou.

— Puxa, você está verde, Beau — disse McKay la, nervosa. — Me dá… um m inuto…

— Beau? — Um a voz diferente cham ou à distância. Ah, não! Isso não. Que eu estej a im aginando essa voz horrivelm ente fam iliar. — Qual é o problem a? Ele se m achucou? — A voz estava m ais perto agora, e parecia estranham ente perturbada. Fechei os olhos com força, torcendo para m orrer. Ou, no m ínim o, para não vom itar.

McKay la pareceu estressada.

— Acho que está desm aiando. Não sei o que aconteceu, ele nem furou o dedo. — Beau, está m e ouvindo? — A voz de Edy the estava bem do m eu lado, agora aliviada.

— Não — gem i.

Ela riu.

— Eu estava tentando aj udar, levando-o à enferm aria — explicou McKay la, num tom defensivo — Mas ele parou aqui.

— Eu cuido dele — disse Edy the, com o sorriso ainda na voz. — Pode voltar para a aula.

— O quê? Não, eu tenho que…

De repente, um braço fino e forte estava em baixo dos m eus, e eu estava de pé sem nem perceber com o cheguei lá. O braço forte, frio com o a calçada, m e segurou com força contra um corpo m agro, quase com o um a m uleta. Meus olhos se abriram de surpresa, m as só consegui ver o cabelo bronze no m eu peito. Ela com eçou a andar, e m eus pés se em bolaram tentando acom panhar. Eu esperava cair, m as ela de algum a form a m e sustentou. Ela nem cam baleou quando m eu peso puxou nós dois para a frente. Pensando bem , eu não pesava tanto quanto um a van. — Estou bem , eu j uro — m urm urei. Por favor, por favor, que eu não vom ite nela.

— Ei! — gritou McKay la, j á dez passos atrás. Edy the a ignorou.

— Você está horrível — disse ela. Consegui ouvir o sorriso na voz. — Me coloque na calçada de novo — gem i. — Vou ficar bem em poucos m inutos.

Ela nos levou rapidam ente em frente enquanto eu tentava fazer m eus pés se m overem do j eito certo para acom panhar a velocidade dela. Algum as vezes, pude j urar que m eus pés foram arrastados pelo chão, m as eu não conseguia senti-los m uito bem , então não tinha com o ter certeza. — Então você desm aia quando vê sangue? — perguntou ela. Isso parecia diverti-la.

Não respondi. Fechei os olhos de novo e reprim i a náusea, cerrando os lábios. O m ais im portante era não vom itar nela. Eu seria capaz de sobreviver a qualquer outra coisa.

— E não era nem seu próprio sangue! — Ela riu. Parecia o som de um sino tocando.

— Tenho sistem a vasovagal fraco — m urm urei. — É só um a síncope neurom ediada.

Ela riu de novo. Aparentem ente, as palavras grandes que aprendi para explicar essas situações não a im pressionaram com o deveriam . Não sei com o ela abriu a porta enquanto m e carregava, m as de repente ficou quente; tudo, exceto o corpo dela encostado no m eu. Desej ei m e sentir norm al para aproveitar m ais isso, a sensação do corpo dela tocando no m eu. E sabia que, em circunstâncias norm ais, eu estaria apreciando o m om ento. — Ah, m eu Deus — ouvi um a voz de hom em arfar. — É só um desm aio — m urm urei.

Um hom em com aparência de avô, o enferm eiro da escola, ergueu o rosto de um livro, chocado, enquanto Edy the m e levava para dentro do aposento. Ele reparou que, quando ela foi m e botar na m aca, m eio que m e levantou? O papel estalou e reclam ou quando ela m e em purrou com um a das m ãos no peito, depois se virou e colocou m eus pés no colchão de vinil. Isso m e lem brou de quando ela puxou m eus pés para fora do cam inho da van, e a lem brança m e deixou tonto.

— Estão fazendo tipagem sanguínea na aula de biologia — explicou Edy the para o enferm eiro.

Vi o senhor idoso assentir com conhecim ento.

— Sem pre acontece com alguém .

Edy the cobriu a boca e fingiu que a gargalhada era um a tosse. Ela foi para o outro lado da sala. Os olhos estavam acesos, em polgados. — Só fique deitado um m inuto, filho — disse o enferm eiro. — Vai passar. — Eu sei — m urm urei. Na verdade, a tontura estava com eçando a passar. Em pouco tem po, o túnel sum iria e o m undo ficaria norm al de novo. — Isso acontece m uito? — perguntou ele.

Eu suspirei.

— Tenho sistem a vasovagal fraco.

O enferm eiro pareceu confuso.

— Às vezes — acrescentei.

Edy the riu de novo, sem se dar o trabalho de disfarçar. — Pode voltar para a aula agora — disse o enferm eiro para ela. — Eu tenho que ficar com ele — respondeu Edy the. Ela falou com tanta confiança que, apesar de repuxar os lábios, o enferm eiro não discutiu. — Vou pegar um pouco de gelo para colocar na sua testa — disse ele, e depois irrom peu porta afora.

Fechei as pálpebras de novo.

— Você tinha razão.

— Em geral, eu tenho. Mas sobre o que especificam ente desta vez? — Matar aula é m esm o saudável. — Tentei respirar de um j eito uniform e. — Por um m om ento, você m e assustou lá fora — adm itiu ela, depois de um a pausa. Seu tom de voz dava a im pressão de que ela confessava um a fraqueza, algo de que sentia vergonha. — Pensei que aquela garota Newton tivesse envenenado você.

— Hilário. — Eu ainda estava de olhos fechados, m as m e sentia m ais norm al a cada m inuto.

— Sinceram ente — disse ela —, j á vi cadáveres com um a cor m elhor. Fiquei preocupada se teria que vingar seu assassinato. — Aposto que McKay la ficou irritada.

— Ela m e odeia — disse Edy the, de um j eito anim ado. — Você não tem com o saber — argum entei, m as depois m e questionei… — Você devia ter visto a cara dela. Ficou óbvio. — Com o foi que você nos viu? Pensei que estivesse m atando aula. Agora eu estava quase bem , em bora o m al-estar provavelm ente tivesse passado m ais rápido se eu tivesse com ido algum a coisa no alm oço. Por outro lado, talvez fosse um a sorte que m eu estôm ago estivesse vazio. — Eu estava no carro, ouvindo um CD. — Um a resposta tão norm al. Isso m e surpreendeu.

Ouvi a porta, abri os olhos e vi o enferm eiro com um a com pressa fria na m ão. — Aqui está, filho. — Ele a colocou na m inha testa. — Parece m elhor — acrescentou.

— Acho que estou bem — eu disse, sentando-m e. Só com um pequeno zum bido nos ouvidos, m as nada girava. As paredes verde-m enta ficaram onde deveriam estar.

Pude ver que ele estava prestes a m e fazer deitar de novo, m as a porta se abriu exatam ente naquele m om ento e o Sr. Cope colocou a cabeça para dentro. — Tem os m ais um — alertou ele.

Desci da m aca para liberá-la para a próxim a vítim a e devolvi a com pressa ao enferm eiro.

— Aqui, não preciso disso.

Nesse m om ento, McKay la cam baleou pela porta, agora apoiando Leann Stephens, outra garota da aula de biologia. Ela estava verde. Edy the e eu nos encostam os na parede para deixar que passassem . — Ah, não — m urm urou Edy the. — Saia da enferm aria, Beau. Olhei para ela, confuso.

— Acredite em m im . Vá.

Girei o corpo e segurei a porta antes que se fechasse, disparando para fora da enferm aria. Pude sentir Edy the bem atrás de m im . — Desta vez você m e deu ouvidos — disse ela, surpresa. — Senti o cheiro de sangue.

Leann não estava enj oada só de ver outras pessoas. Bem m enos constrangedor, pensei.

— As pessoas não conseguem sentir cheiro de sangue — contestou ela. — Eu consigo. É isso que m e deixa enj oado. Tem cheiro de ferrugem … e sal.

Ela m e olhou com um a expressão cautelosa.

— Que foi? — perguntei.

— Nada.

McKay la saiu pela porta, olhou para Edy the, para m im e depois para ela de novo.

— Muito obrigada pela aj uda, Edy the — disse ela, com o tom doce dem ais, um a boa indicação de que Edy the estava certa sobre aquela história de ser odiada. — Não sei o que o Beau teria feito sem você.

— Não foi nada — respondeu Edy the, com um sorriso divertido. — Você parece m elhor — disse McKay la para m im com o m esm o tom . — Fico feliz.

— Não tire a m ão do bolso — alertei novam ente. — Não está m ais sangrando — disse ela, com a voz voltando ao norm al. — Você vai voltar à aula?

— Não, obrigado. Eu teria que dar m eia-volta e voltar para cá. — É, acho que sim … Então, você vai nesse fim de sem ana? À praia? — Enquanto falava, ela disparou um olhar som brio para Edy the, que estava encostada no balcão atravancado, im óvel com o um a escultura, fitando o vazio. Eu não queria chateá-la ainda m ais.

— Claro, eu disse que iria.

— Vam os nos reunir na loj a dos m eus pais, às dez. — Os olhos dela dispararam para Edy the de novo, e consegui perceber que ela estava com m edo de estar deixando escapar m uita inform ação. Sua linguagem corporal deixava claro que não era um convite aberto.

— Estarei lá — prom eti.

— A gente se vê no ginásio, então — disse ela, andando insegura para a porta. — A gente se vê — respondi.

Ela olhou para m im m ais um a vez, o rosto redondo fazendo beicinho, e, ao passar pela porta, seus om bros arriaram . A culpa tom ou conta de m im de novo. Eu não queria ferir os sentim entos dela, m as parecia acontecer sem parar. Pensei que teria que ficar olhando a expressão decepcionada por toda a aula de educação física.

— Ugh, educação física — m urm urei.

— Posso cuidar disso. — Eu não tinha ouvido Edy the se aproxim ar, m as agora ela falava bem do m eu lado, o que m e fez pular. — Sente-se e pareça pálido — instruiu ela, em um sussurro.

Não era nenhum desafio; eu era sem pre pálido, e m inha recente vertigem deixara um leve brilho de suor no m eu rosto. Sentei em um a das cadeiras dobráveis que rangiam e encostei a cabeça na parede, com os olhos fechados. Desm aiar era exaustivo.

Ouvi Edy the falar baixinho no balcão.

— Sr. Cope.

Eu não tinha ouvido o suj eito voltar para a m esa, m as ele respondeu: — Sim ?

— Beau tem educação física no próxim o tem po, m as acho que ele não está se sentindo m uito bem . Na verdade, eu estava pensando que devia levá-lo para casa. Você pode dispensá-lo da aula? — A voz dela era derretida com o m el. Eu podia im aginar com o os olhos deviam estar intensos. — Vai precisar de um a dispensa tam bém , Edy the? — A voz do Sr. Cope falhou. Por que eu não conseguia fazer isso com as pessoas? — Não, tenho o Sr. Goff — disse Edy the. — Ele não vai se im portar. — Muito bem , está tudo resolvido. Melhoras, Beau — disse o Sr. Cope para m im . Assenti levem ente, exagerando um pouco na cena. — Consegue andar ou quer que eu aj ude você novam ente? — De costas para o recepcionista, a expressão dela tornou-se sarcástica. — Vou andando.

Levantei-m e com cuidado, e ainda estava bem . Ela abriu a porta para m im , seu sorriso educado, m as os olhos debochados. Senti-m e idiota ao passar pela porta, para o chuvisco frio e fino que com eçara a cair. Mas era bom , a prim eira vez que eu gostava da um idade constante que caía do céu. Lavava o suor do m eu rosto.

— Obrigado por aquilo — falei enquanto ela m e seguia para fora. — Quase vale a pena passar m al para faltar à educação física. — Disponha — respondeu ela. E olhou para além de m im , para a chuva. — Então você vai? No sábado, para a praia? — Eu torcia para que ela fosse, m as parecia im provável. Não conseguia im aginá-la pegando carona com o resto do pessoal da escola; ela não pertencia ao m esm o m undo. Mas só o desej o de que ela fosse provocou a prim eira onda de entusiasm o que senti pelo passeio. — Aonde vocês vão? — Ela ainda olhava para a frente, sem expressão, m as a pergunta m e deu esperança de ela estar pensando no assunto. — La Push, à prim eira praia.

Analisei seu rosto, tentando interpretá-lo. Seus olhos pareceram se estreitar m inim am ente.

Ela olhou para m im e sorriu.

— Acho que não fui convidada.

— Eu acabei de convidar.

— Não vam os, você e eu, antagonizar m ais a coitada da McKay la esta sem ana. Não querem os que ela surte.

Os olhos dela dançavam , com o se estivesse gostando da ideia m ais do que devia. — Tá, tudo bem — m urm urei, preocupado com o m odo com o ela disse “você e eu”. Gostei m ais do que eu devia.

Agora, estávam os no estacionam ento, então virei para m inha picape. Algo pegou m eu casaco, puxando-m e para trás.

— Aonde você vai? — perguntou ela, surpresa. A m ão segurava m eu casaco. Ela não parecia nem ter firm ado os pés. Por um segundo, não consegui responder. Ela negava ser um a super-heroína, m as m inha m ente não conseguia processar de outra form a. Era com o se a Supergirl tivesse deixado a capa em casa.

Eu m e perguntei se devia ficar incom odado por ela ser tão m ais forte do que eu, m as eu não ficava inseguro por coisas assim havia m uito tem po. Desde que fiquei m aior do que os garotos que m e intim idavam , eu andava bem satisfeito. Claro, gostaria de ter um pouco m ais de coordenação, m as não m e incom odava não ser bom em esportes. Eu não tinha tem po m esm o para isso, e sem pre m e pareceu um a coisa infantil. Por que ficar tão agitado com um bando de gente correndo atrás de um a bola? Eu era forte o bastante para que as pessoas m e deixassem em paz, e isso era tudo que eu queria. E então, aquela garota pequena era m ais forte do que eu. Muito. Mas eu estava disposto a apostar que ela era m ais forte do que todo m undo que eu conhecia, adolescentes e adultos. Ela acabaria com Schwarzenegger nos dias de ouro. Eu não podia com petir com isso, e nem precisava. Ela era especial. — Beau — cham ou ela, e percebi que não tinha respondido a pergunta. — Hã, o quê?

— Eu perguntei aonde você vai.

— Para casa. Não vou? — A expressão dela m e confundiu. Ela sorriu.

— Não m e ouviu prom eter que levaria você para casa em segurança? Você acha que vou deixar você dirigir nas suas condições? — Que condições?

— Odeio ser a portadora de m ás notícias, m as você tem sistem a vasovagal fraco. — Acho que vou sobreviver.

Tentei dar outro passo na direção da m inha picape, m as a m ão dela não soltou m eu casaco.

Eu parei e olhei para ela de novo.

— Tudo bem , então por que você não m e diz o que quer que eu faça? O sorriso dela se alargou.

— Muito sensato. Você vai entrar no m eu carro e eu vou levar você para casa. — Tenho dois problem as com isso. Um , não é necessário, e dois, e a m inha picape?

— Um , necessário é um a palavra subj etiva, e dois, vou pedir a Archie para levar depois da aula.

Fui distraído pelo lem brete casual que ela tinha irm ãos, estranhos, pálidos e lindos. Irm ãos especiais? Especiais com o ela?

— Você vai criar caso? — perguntou ela, porque não falei nada.

— Adianta resistir?

Tentei decifrar todas as cam adas do sorriso dela, m as não fui m uito longe. — Meu coração gelado se aquece de ver que você está aprendendo tão rápido. Por aqui.

Ela soltou m eu casaco e se virou. Fui atrás dela com boa vontade. O m ovim ento suave dos quadris dela era tão hipnótico quando os olhos. E não havia lado ruim em poder passar m ais tem po com ela.

O interior do Volvo era tão im aculado quanto a parte de fora. Em vez do cheiro de gasolina e tabaco, havia só um perfum e suave. Era quase fam iliar, m as não consegui identificar. O que quer que fosse, tinha um cheiro delicioso. Quando o m otor ganhou vida, ela m exeu em alguns botões, aum entou o aquecim ento e baixou a m úsica.

— É “Clair de Lune”? — perguntei.

Ela olhou para m im , surpresa.

— Você é fã de Debussy ?

Eu dei de om bros.

— Minha m ãe ouve m uita m úsica clássica em casa. Só conheço m inhas favoritas.

— Tam bém é um a das m inhas favoritas.

— Olha só — eu disse. — Tem os algum a coisa em com um . Eu esperava que ela risse, m as ela só ficou olhando para a chuva. Relaxei no banco cinza-claro, reagindo na m esm a hora à m elodia fam iliar. Com o eu só a via pelo canto do olho, a chuva borrava tudo fora da m inha j anela em m anchas cinza e verdes. Dem orei um m inuto para perceber que estávam os indo m uito rápido; m as o carro se m ovia tão suavem ente, que não senti a velocidade. Só a cidade passando rápido foi que deixou evidente. — Com o é a sua m ãe? — perguntou ela de repente. Os olhos cor de caram elo m e observaram com curiosidade quando respondi. — Ela é m eio parecida com igo, com os m esm os olhos e a m esm a cor de cabelo, m as é baixa. É extrovertida e bem coraj osa. Tam bém é m eio excêntrica, m eio irresponsável e um a cozinheira im previsível. Ela era m inha m elhor am iga. — Eu parei. Era deprim ente falar dela no passado.

— Quantos anos você tem , Beau? — A voz dela parecia frustrada por algum m otivo que não consegui im aginar.

O carro parou, e percebi que j á estávam os na casa de Charlie. A chuva estava tão forte que eu m al conseguia ver a casa. Era com o se o carro estivesse subm erso em um rio.

— Tenho 17 anos — respondi, m eio confuso pelo tom dela. — Você não parece ter 17 — disse ela. Com o se fosse um a acusação. Eu ri.

— Que foi? — perguntou ela.

— Minha m ãe sem pre diz que eu nasci com 35 anos e que entro m ais na m eia-idade a cada ano que passa. — Eu ri de novo, depois suspirei. — Bom , alguém tem que ser o adulto. — Parei por um segundo. — Você m esm a não parece aluna do segundo ano — observei.

Ela fez um a careta e m udou de assunto.

— Por que sua m ãe se casou com Phil?

Fiquei surpreso de ela se lem brar do nom e; eu só falei nele um a vez, quase dois m eses atrás. Precisei de um m om ento para responder. — Minha m ãe… é m uito j ovem para a idade dela. Acho que Phil a faz se sentir ainda m ais nova. De qualquer form a, ela é louca por ele. — Eu não entendia, m as alguém por acaso acha que algum cara é bom o bastante para sua m ãe? — Você aprova? — perguntou ela

Dei de om bros.

— Quero que ela sej a feliz, e é ele quem ela quer. — Isso é m uito generoso… Eu m e pergunto… — O quê?

— Acha que ela teria a m esm a consideração com você? Independentem ente de quem você escolhesse? — Os olhos dela ficaram atentos de repente, observando os m eus.

— A-acho que sim — gaguej ei. — Mas ela é a adulta, ao m enos no papel. É m eio diferente.

O rosto dela relaxou.

— Ninguém assustador dem ais, então — zom bou ela. Dei um sorriso para ela.

— O que quer dizer com assustador? Com tatuagens e piercings na cara toda? — Acho que essa é um a definição.

— Qual é a sua definição?

Ela m e ignorou e fez outra pergunta.

— Você acha que eu posso ser assustadora? — Ela ergueu um a sobrancelha. Fingi exam inar o rosto dela por um m inuto, só com o desculpa para ficar olhando para ela, m eu passatem po favorito.

As feições dela eram tão delicadas, tão sim étricas. O rosto faria qualquer pessoa parar, m as não sair correndo na direção oposta. O contrário, até. — É m eio difícil im aginar isso — adm iti.

Ela franziu a testa.

— Mas tenho certeza de que poderia ser se quisesse. Ela inclinou a cabeça e m e deu um sorriso exasperado, m as não disse m ais nada. — E você, vai m e contar da sua fam ília? — perguntei. — Deve ser um a história m uito m ais interessante do que a m inha.

Ela ficou cautelosa im ediatam ente.

— O que você quer saber?

— Os Cullen adotaram você?

— Sim .

Hesitei por um m om ento.

— O que aconteceu com os seus pais?

— Eles m orreram há m uitos anos. — Seu tom era categórico. — Eu sinto m uito.

— Eu não m e lem bro deles com m uita clareza. Carine e Earnest são m eus pais há bastante tem po.

— E você os am a. — Não foi um a pergunta. Ficou óbvio pelo m odo com o ela falou os nom es deles.

— Sim . — Ela sorriu. — Não consigo pensar em duas pessoas m elhores. — Então você tem m uita sorte.

— Eu sei.

— E seu irm ão e sua irm ã?

Ela olhou o relógio do painel.

— Meu irm ão e m inha irm ã, e Jessam ine e Roy al tam bém , vão se irritar m uito se tiverem que ficar na chuva m e esperando.

— Ah, desculpe, acho que você tem que ir.

Era idiotice, m as eu não queria sair do carro.

— E você deve querer sua picape de volta antes que o chefe Swan chegue em casa, assim não precisa contar a ele sobre a síncope vasovagal. — Ela era boa com o j argão m édico, m as a m ãe dela era m édica. — Tenho certeza de que ele j á sabe. Não há segredos em Forks — resm unguei. Aparentem ente, falei algum a coisa engraçada, m as não consegui saber o quê, e nem por que havia um a intensidade na gargalhada dela. — Divirta-se na praia — disse ela quando parou de rir. — O clim a está bom para pegar sol. — Ela indicou a chuva torrencial.

— Não vou ver você am anhã?

— Não. Eleanor e eu vam os sair cedo para o fim de sem ana. — O que vão fazer? — Um am igo pode perguntar essas coisas, não? Eu esperava que ela não conseguisse ouvir a decepção na m inha voz. — Vam os subir a Goat Rocks Wilderness, ao sul de Rainier. — Ah, parece divertido.

Ela sorriu.

— Você pode fazer um a coisa por m im nesse fim de sem ana? — Ela se virou para m e olhar nos olhos, com os dela ardendo daquele j eito hipnótico. Concordei, im potente. Qualquer coisa, eu poderia ter dito, e seria verdade. — Não se ofenda, m as você parece ser um a daquelas pessoas que atrai acidentes feito um ím ã. Procure não cair no m ar e nem ser atropelado por nada, tá? Ela m ostrou as covinhas para m im , o que tirou um pouco da m ágoa de ser cham ado de incom petente.

— Verei o que posso fazer — prom eti.

Saí no rio vertical e corri até a varanda. Quando m e virei, o Volvo j á tinha sum ido.

— Ah!

Botei a m ão no bolso do casaco, lem brando que esqueci de dar a ela a chave do m eu carro

O bolso estava vazio.