Vida e Morte
14. A Mente Domina a Matéria
EU TINHA QUE adm itir que ela dirigia bem , quando m antinha a velocidade razoável. Com o em m uitas coisas, parecia não exigir esforço nenhum . Ela m al olhava a estrada, e, no entanto, a picape sem pre ficava perfeitam ente centralizada na pista. Ela dirigia com um a só m ão, porque eu estava segurando a outra dela entre nós. Às vezes, ela olhava o sol poente, que cintilava na pele dela em brilhos de tom de rubi. Às vezes, olhava para m im , olhava nos m eus olhos ou para nossas m ãos entrelaçadas.
Ela ligara o rádio em um a estação de m úsica antiga e cantava um a canção que eu nunca tinha ouvido. A voz era perfeita, com o tudo nela, indo um oitavo acim a da m elodia. Ela sabia toda a letra.
— Gosta de m úsica dos anos 1950? — perguntei. — A m úsica dos anos 1950 era boa. Muito m elhor do que a dos anos 1960, ou dos 1970, ugh! — Ela estrem eceu. — A dos anos 1980 era suportável. — Vai m e dizer um dia qual é a sua idade?
Eu m e perguntei se m inha pergunta atrapalharia o bom hum or dela, m as ela só sorriu.
— Isso im porta m uito?
— Não, m as quero saber tudo sobre você.
— Eu m e pergunto se vai perturbar você. — Ela refletiu para si m esm o. Ficou olhando diretam ente para o sol; um m inuto se passou. — Experim ente — sugeri, por fim .
Ela olhou nos m eus olhos, parecendo se esquecer com pletam ente da estrada por um tem po. O que quer que tenha visto a encoraj ou. Ela se virou para olhar os últim os raios verm elho-sangue do sol poente e suspirou. — Nasci em Chicago em 1901. — Ela parou e olhou para m im pelo canto do olho. Meu rosto estava cuidadosam ente com posto, sem surpresa, esperando pacientem ente pelo resto. Ela deu um sorrisinho e continuou. — Carine m e encontrou em um hospital no verão de 1918. Eu tinha 17 anos e estava m orrendo de gripe espanhola.
Ela ouviu m eu arfar e olhou nos m eus olhos de novo. — Não lem bro m uito bem . Foi há m uito tem po, e a m em ória hum ana vai acabando. — Ela pareceu perdida em pensam entos por um m inuto, m as, antes que eu pudesse dizer algum a coisa, prosseguiu. — Mas lem bro com o foi quando Carine m e salvou. Não é fácil, não é um a coisa de que se possa esquecer. — E seus pais?
— Eles j á haviam m orrido da doença. Eu estava sozinha. Foi por isso que ela m e escolheu. Em todo o caos da epidem ia, ninguém perceberia que eu tinha desaparecido.
— Com o foi que ela… salvou você?
Alguns segundos se passaram , e, quando ela falou de novo, parecia escolher as palavras com cuidado.
— Foi difícil. Não há m uitos de nós com o controle necessário para conseguir isso. Mas Carine sem pre foi a m ais hum ana, a m ais com passiva de todos nós… Não acredito que se possa encontrar alguém igual a ela em toda a história. — Ela hesitou. — Para m im , foi apenas m uito, m uito doloroso. Ela firm ou o m axilar, e consegui perceber que não falaria m ais nada sobre o assunto. Guardei para depois. Minha curiosidade não era pouca. Havia m uitos ângulos pelos quais eu precisava pensar sobre aquela questão em particular, coisas que só agora com eçavam a m e ocorrer. Sua voz suave interrom peu m eus pensam entos. — Ela agiu por solidão. Este em geral é o m otivo por trás da decisão. Fui a prim eira da fam ília de Carine, em bora ela tenha encontrado Earnest logo depois. Ele havia caído de um penhasco. Levaram -no diretam ente para o necrotério do hospital m as, de algum a form a, seu coração ainda batia. — Então você precisa estar m orrendo…
— Não, Carine que é assim . Ela nunca faria isso com alguém que tivesse alternativas, qualquer alternativa. — O respeito em sua voz era profundo sem pre que falava da m ãe adotiva. — Diz ela que é m ais fácil, porém , se o coração estiver fraco. — Ela olhou a estrada agora escura, e pude sentir que o assunto se encerrava de novo.
— E Eleanor e Roy al?
— Carine trouxe Roy al à nossa fam ília em seguida. Só bem m ais tarde percebi que esperava que ele fosse para m im o que Earnest é para ela. Ela era cautelosa com os pensam entos perto de m im . — Ela revirou os olhos. — Mas ele nunca foi m ais do que um irm ão. Apenas dois anos depois ele encontrou Eleanor. Ele estava caçando, estávam os nos Apalaches naquela época, e encontram os um urso prestes a acabar com a vida dela. Ele a levou para Carine, m ais de 150 quilôm etros de distância, com m edo de não conseguir fazer. Mal consigo im aginar com o a viagem deve ter sido difícil para ele. Ela m e lançou um olhar penetrante e ergueu nossas m ãos, ainda entrelaçadas, para afagar m eu rosto.
— Mas ele conseguiu.
— Conseguiu. Ele viu algum a coisa no rosto dela que lhe deu forças. E eles estão j untos desde então. Às vezes, eles m oram separados de nós, com o um casal. Mas, quanto m ais j ovens fingim os ser, m ais tem po podem os ficar em um determ inado lugar. Forks é perfeita de m uitas form as, então todos nos m atriculam os no colégio. — Ela riu. — Im agino que tenham os que ir ao casam ento deles daqui a alguns anos, de novo. — Archie e Jessam ine?
— Archie e Jessam ine são duas criaturas m uito raras. Os dois desenvolveram um a consciência, com o dizem os, sem nenhum a orientação externa. Jessam ine pertencia a outra… fam ília, um tipo m uito diferente de fam ília. Estava deprim ida e com eçou a vagar sozinha. Archie a encontrou. Com o eu, ele tem certos dons. — É m esm o? — interrom pi, fascinado. — Mas você disse que era a única que podia ouvir os pensam entos das pessoas.
— E é verdade. Ele sabe outras coisas. Ele vê coisas, coisas que podem acontecer, coisas que estão chegando. Mas é m uito subj etivo. O futuro não está gravado em pedra. As coisas m udam .
Seu queixo travou quando ela disse isso, e os olhos dispararam para m eu rosto e se desviaram tão rapidam ente que não tive certeza se havia só im aginado. — Que tipo de coisas ele vê?
— Ele viu Jessam ine e entendeu que ele a procurava antes de saber de sua existência. Ele viu Carine e nossa fam ília, e eles se uniram para nos encontrar. Ele é m ais sensível a não hum anos. Sem pre vê, por exem plo, quando outro grupo de nossa espécie está se aproxim ando. E qualquer am eaça que possam representar.
— E existem m uitos de… sua espécie? — Fiquei surpreso. Quantos deles podiam estar andando entre nós sem ser detectados?
Minha m ente travou em um a palavra que ela disse. Ameaça. Era a prim eira vez que ela dizia qualquer coisa que indicasse que o m undo dela era perigoso não só para hum anos. Isso m e deixou nervoso, e eu estava prestes a fazer um a nova pergunta, m as ela j á estava respondendo m inha prim eira. — Não, não são m uitos. Mas a m aioria não se acom oda em um lugar. Só os que são com o nós, que desistiram de caçar pessoas — um olhar m alicioso em m inha direção —, podem viver j unto dos hum anos por um determ inado tem po. Só descobrim os um a fam ília com o a nossa em um a pequena aldeia do Alasca. Moram os j untos por um tem po, m as éram os tantos que ficam os visíveis dem ais. Aqueles de nós que vivem … de form a diferente tendem a ficar j untos. — E os outros?
— Nôm ades, em sua m aioria. Todos nós vivem os desse j eito por alguns períodos. Fica tedioso, com o qualquer outra coisa. Mas nos deparam os uns com os outros de vez em quando, porque a m aioria de nós prefere o norte. — Por que isso?
Agora, estávam os estacionados na frente da m inha casa, e ela desligou o m otor. Estava m uito silencioso e escuro; não havia luar. A luz da varanda estava apagada, então eu sabia que m eu pai ainda não chegara. — Você estava de olhos abertos esta tarde? — zom bou ela. — Acha que eu poderia andar pela rua à luz do sol sem provocar acidentes de trânsito? Pensei que ela era capaz de parar o trânsito m esm o sem toda a pirotecnia. — Há um m otivo para que tenham os escolhido a península de Oly m pic, um dos lugares m ais desprovidos de sol do m undo. É bom poder sair à luz do dia. Você não acreditaria em com o pode ser cansativo viver à noite por oitenta anos. — Então é daí que vêm as lendas?
— Provavelm ente.
— E Archie veio de outra fam ília, com o Jessam ine? — Não, e isso é mesmo um m istério. Archie não se lem bra de nada da vida hum ana. E não sabe quem o criou. Ele despertou sozinho. Quem o criou desapareceu, e nenhum de nós entende por quê, ou com o, ele pôde fazer isso. Se Archie não tivesse aquele outro sentido, se não tivesse visto Jessam ine e Carine e soubesse que um dia se tornaria um de nós, provavelm ente teria se transform ado num com pleto selvagem .
Havia tanta coisa em que pensar, tanto que eu ainda queria perguntar. Mas m eu estôm ago roncou. Eu estava tão interessado que nem havia notado que estava com fom e. Percebi então que estava fam into. — Desculpe, estou im pedindo você de j antar.
— Eu estou bem , verdade.
— Nunca passo tanto tem po com alguém que se alim enta de com ida. Eu esqueço.
— Quero ficar com você. — Era m ais fácil dizer isso no escuro, sabendo que m inha voz m e trairia, trairia m eu vício irrem ediável nela. — Não posso entrar? — perguntou ela.
— Gostaria de entrar? — Eu não conseguia im aginar isso, um a deusa sentada na cadeira velha de cozinha do m eu pai.
— Sim , se você não se im portar.
Eu sorri.
— Não m e im porto.
Saí da picape e ela j á estava lá, m as saiu correndo e desapareceu. As luzes se acenderam lá dentro.
Ela m e encontrou na porta. Era tão surreal vê-la dentro da m inha casa, em oldurada pelos detalhes físicos chatos da m inha vida prosaica. Lem brei-m e de um j ogo que m inha m ãe fazia com igo quando eu tinha uns quatro ou cinco anos. Uma dessas coisas não é como as outras.
— Deixei a porta destrancada?
— Não, usei a chave que estava em baixo da calha. Eu achava que não tinha usado aquela chave na frente dela. Lem brei que ela encontrou a chave da m inha picape e dei de om bros. — Você está com fom e, certo?
E foi na frente para a cozinha, com o se tivesse frequentado m inha casa um m ilhão de vezes antes. Acendeu a luz da cozinha e se sentou na m esm a cadeira onde tentei im aginá-la. A cozinha não parecia m ais tão sem graça. Mas talvez fosse porque eu não conseguia olhar para m ais nada além dela. Fiquei ali por um m om ento, tentando absorver a presença dela no m eio do m undo com um . — Com a algum a coisa, Beau.
Eu assenti e fui procurar. Havia sobra de lasanha da noite anterior. Coloquei um quadrado no prato, m udei de ideia e acrescentei o resto que estava na form a, depois coloquei o prato no m icro-ondas. Lavei a travessa enquanto o m icro-ondas girava, enchendo a cozinha com o arom a de tom ate e orégano. Meu estôm ago roncou de novo.
— Hum m m — disse ela.
— O que foi?
— Vou ter que m e sair m elhor no futuro.
Eu ri.
— O que você poderia fazer m elhor do que j á faz? — Lem brar que você é hum ano. Eu devia ter levado algum a coisa para um piquenique hoj e.
O m icro-ondas apitou e eu peguei o prato, depois coloquei rapidam ente na bancada quando queim ou m inha m ão.
— Não se preocupe. — Peguei um garfo e com ecei a com er. Eu estava com muita fom e. A prim eira garfada queim ou m inha boca, m as continuei m astigando. — Está gostoso? — perguntou ela.
Engoli.
— Não tenho certeza. Acho que queim ei m inhas papilas gustativas. Estava gostoso ontem .
Ela não pareceu convencida.
— Você sente falta de com ida? De sorvete? De crem e de am endoim ? Ela balançou a cabeça.
— Nem m e lem bro direito de com ida. Não saberia nem dizer quais eram as m inhas favoritas. Não tem cheiro… com estível agora. — Isso é m eio triste.
— Não é um sacrifício tão grande — falou, com tristeza, com o se houvesse outras coisas na m ente, sacrifícios que eram enormes. Usei o pano de prato para levar o prato até a m esa e m e sentar ao lado dela. — Você sente falta de outras coisas da vida de hum ana? Ela pensou por um segundo.
— Não sinto falta de nada, porque eu teria que m e lem brar para sentir falta, e, com o falei, é difícil m e lem brar da m inha vida hum ana. Mas há coisas de que acho que gostaria. Acho que você poderia dizer que há coisas das quais sinto invej a.
— Com o o quê?
— Dorm ir é um a delas. A consciência infinita fica tediosa. Acho que eu gostaria de um apagam ento tem porário. Parece interessante. Com i um pouco e pensei no que ela disse.
— Parece difícil. O que você faz a noite toda? Ela hesitou e repuxou os lábios.
— Você quer dizer em geral?
Eu m e perguntei por que ela pareceu não querer responder. Era um a pergunta vaga dem ais?
— Não, não precisa falar de um m odo geral. Tipo, o que você vai fazer hoj e depois que for em bora?
Foi a pergunta errada. Consegui sentir m eu ânim o com eçar a m urchar. Ela teria que ir em bora. Não im portava o quanto a separação seria breve, eu a tem ia. Ela tam bém pareceu não gostar da pergunta, e prim eiro achei que fosse pelo m esm o m otivo. Mas ela virou os olhos para o m eu rosto e depois para longe, com o se estivesse pouco à vontade.
— O quê?
Ela fez um a careta.
— Você quer um a m entira agradável ou um a verdade possivelm ente perturbadora?
— A verdade — respondi, rapidam ente, em bora não tivesse certeza absoluta. Ela suspirou.
— Vou voltar para cá depois que você e seu pai dorm irem . Faz parte da m inha rotina ultim am ente.
Eu pisquei. E pisquei de novo.
— Você vem pra cá?
— Quase todas as noites.
— Por quê?
— Você é interessante quando dorm e — disse ela casualm ente. — Você fala. Meu queixo caiu. Calor subiu pelo m eu pescoço até m eu rosto. Eu sabia que falava dorm indo, claro; m inha m ãe pegava no m eu pé por isso. Eu não achei que fosse um a coisa com a qual eu precisasse m e preocupar ali. Ela observou m inha reação com apreensão debaixo dos cílios. — Está com m uita raiva de m im ?
Estava? Eu não sabia. O potencial de hum ilhação era alto. E eu não entendia; ela ficava m e ouvindo falar dorm indo de onde? Da j anela? Eu não conseguia entender.
— Com o você… Onde você… O que eu…? — Eu não conseguia concluir nenhum dos m eus pensam entos.
Coloquei a m ão dela na m inha bochecha. O sangue nos dedos dela pareceu ferver em com paração à m ão fria.
— Não fique chateado. Eu não tive m á intenção. Juro que fiquei m uito controlada. Se eu achasse que havia perigo, teria ido em bora na m esm a hora. Eu só… queria estar onde você estava.
— Eu… Não é com isso que estou preocupado.
— Com o que você está preocupado?
— O que eu disse?
Ela sorriu.
— Você sente falta da sua m ãe. Quando chove, o barulho o deixa inquieto. Você costum ava falar m uito da sua cidade, m as agora é m enos frequente. Um a vez, você disse: “É verde dem ais.” — Ela riu baixinho para não m e ofender ainda m ais.
— Mais algum a coisa? — perguntei.
Ela sabia aonde eu queria chegar.
— Você disse m eu nom e — adm itiu ela.
Suspirei, derrotado.
— Muito?
— Defina “m uito”.
— Ah, não — resm unguei.
Com o se fosse fácil, natural, ela passou os braços ao redor dos m eus om bros e apoiou a cabeça no m eu peito. Autom aticam ente, m eus braços subiram e a envolveram . Para segurá-la ali.
— Não fique constrangido — sussurrou ela. — Você j á tinha m e dito que sonha com igo, lem bra?
— É diferente. Eu sabia o que estava dizendo.
— Se eu pudesse sonhar, seria com você. E não tenho vergonha disso. Acariciei o cabelo dela. Acho que, no fundo, eu não m e im portava. Eu não esperava que ela seguisse as regras hum anas norm ais m esm o. As regras que ela criou para si m esm a j á pareciam bastar.
— Não tenho vergonha — sussurrei.
Ela fez um zum bido, quase um ronronar, a bochecha no m eu coração. Nessa hora, nós dois ouvim os o som de pneus na entrada de carros e vim os os faróis lam pej arem nas j anelas da frente, descendo pelo corredor até nós. Dei um pulo e baixei os braços enquanto ela se afastava. — Você quer que seu pai saiba que estou aqui? — perguntou ela. Tentei pensar rapidam ente.
— Hã…
— Em outra ocasião, então…
E eu estava só.
— Edythe? — sibilei.
Ouvi um a risada espectral, depois m ais nada.
A chave do m eu pai girou na porta.
— Beau? — cham ou ele. Eu achava isso engraçado antes; quem m ais poderia ser? De repente, não parecia tão despropositado. — Aqui.
Minha voz estaria agitada dem ais? Com i outra garfada de lasanha para estar m astigando quando ele entrasse. Os passos soaram barulhentos dem ais depois de eu passar o dia com Edy the.
— Você pegou toda a lasanha? — perguntou ele, olhando para o m eu prato. — Ah, desculpe. Aqui, tom e um pouco.
— Não tem problem a, Beau. Faço um sanduíche. — Desculpe — m urm urei de novo.
Charlie fez um a barulheira na cozinha para pegar as coisas de que precisava. Continuei com endo m eu prato gigantesco de com ida com a m aior rapidez hum anam ente possível sem m orrer engasgado. Estava pensando no que Edy the tinha acabado de dizer: Você quer que seu pai saiba que estou aqui? Que não era a m esm a coisa que Você quer que seu pai saiba que estive aqui?, no passado. Isso queria dizer que ela não foi em bora? Eu esperava que sim . Com o sanduíche na m ão, Charlie se sentou na cadeira à m inha frente. Era difícil im aginar Edy the sentada no m esm o lugar m inutos antes. Charlie com binava. A lem brança dela era com o um sonho que não podia ter sido real. — Com o foi seu dia? Fez tudo que queria?
— Hã, não exatam ente. Estava… um dia bonito dem ais para ficar dentro de casa. Os peixes m orderam a isca?
— Morderam . Eles tam bém gostam do tem po bom . Raspei o resto da lasanha em um a garfada enorm e e com ecei a m astigar. — Tem planos para esta noite? — perguntou ele de repente. Eu balancei a cabeça, talvez enfaticam ente dem ais. — Você parece m eio agitado — com entou ele. Claro que ele prestaria atenção logo esta noite. Eu engoli.
— É m esm o?
— É sábado — refletiu ele.
Não respondi.
— Acho que vai perder o baile de hoj e…
— Com o eu pretendia.
Ele assentiu.
— Claro, dançar, eu entendo. Mas talvez sem ana que vem … você pudesse levar a garota Newton para j antar, quem sabe. Para sair de casa. Socializar. — Já falei, ela está nam orando m eu am igo.
Ele franziu a testa.
— Ah, tem m uitos outros peixes no m ar.
— Não nesse ritm o que você anda pescando.
Ele riu.
— Eu m e esforço… Então você não vai sair hoj e? — perguntou ele de novo. — Não tenho para onde ir — respondi. — Além do m ais, estou cansado. Vou dorm ir cedo de novo.
Eu m e levantei e levei o prato para a pia.
— Aham — disse ele, m astigando e pensando. — Nenhum a das garotas da cidade faz seu tipo, é?
Eu dei de om bros enquanto lavava o prato.
Consegui senti-lo olhando para m im e m e esforcei para im pedir que o sangue subisse ao pescoço. Eu não sabia se estava conseguindo. — Não sej a tão duro com um a cidade pequena — disse ele. — Sei que não tem os a variedade de um a cidade grande…
— Tem bastante variedade, pai. Não se preocupe com igo. — Tudo bem , tudo bem . Não é da m inha conta m esm o. — Ele pareceu m eio rej eitado.
Eu suspirei.
— Bom , acabei aqui. Vej o você de m anhã.
— Boa noite, Beau.
Tentei fazer com que m eus passos parecessem lentos e cansados ao subir para o quarto, com o se eu estivesse exausto. Perguntei-m e se ele tinha caído na m inha atuação ruim . Eu não m enti para ele nem nada. Não estava m esm o planej ando sair naquela noite.
Fechei a porta com um barulho alto o bastante para que ele ouvisse, depois corri na ponta dos pés até a j anela. Eu a abri e m e inclinei para a noite. Não consegui ver nada, só as som bras das copas das árvores. — Edy the? — sussurrei, sentindo-m e um com pleto idiota. A resposta baixa e risonha veio de trás de m im . — Sim ?
Eu girei tão rápido que derrubei um livro da m esa. Caiu com um baque no chão. Ela estava deitada em m inha cam a, as m ãos na nuca, os tornozelos cruzados, um sorriso enorm e cheio de covinhas no rosto. Tinha a cor de gelo na escuridão. — Ah! — sussurrei, esticando a m ão para m e apoiar na m esa. — Desculpe — disse ela.
— Me dê um segundo para reiniciar m eu coração. Ela se sentou devagar, com o fazia quando estava tentando agir com o hum ana ou não m e assustar, e passou as pernas pela beirada da cam a. E bateu no espaço ao lado dela.
Andei oscilante até a cam a e m e sentei. Ela colocou a m ão na m inha. — Com o está seu coração?
— Me diga você, sei que o ouve m elhor do que eu. Ela riu baixinho.
Ficam os sentados ali por um m om ento em silêncio, os dois ouvindo m eus batim entos desacelerarem . Pensei em Edy the no m eu quarto… e nas perguntas desconfiadas do m eu pai… e no m eu bafo de lasanha. — Posso ter um m inuto com o ser hum ano?
— Certam ente.
Eu m e levantei e olhei para ela, sentada toda perfeita na beirada da cam a, e pensei que talvez estivesse tendo um a alucinação. — Você vai estar aqui quando eu voltar, não vai? — Não vou m exer um m úsculo — prom eteu ela. E ficou com pletam ente im óvel, um a estátua de novo, em poleirada na beirada da cam a.
Peguei m eu pij am a na gaveta e corri para o banheiro, batendo a porta para Charlie saber que estava ocupado.
***
Escovei os dentes duas vezes. Depois, lavei o rosto e troquei de roupa. Eu sem pre usava um a calça de m oletom furada e um a cam iseta velha para dorm ir; era de um a churrascaria de que m inha m ãe gostava e tinha um porco sorrindo entre dois pedaços de pão. Eu queria ter um a coisa que fosse m enos… a m inha cara. Mas não esperava convidados, e devia ser besteira m e preocupar. Se ela vinha para cá à noite, j á sabia o que eu usava para dorm ir. Escovei os dentes m ais um a vez.
Quando abri a porta, tive outro pequeno ataque cardíaco. Charlie estava no alto da escada. Quase esbarrei nele.
— Ah! — falei.
— Ah, desculpe, Beau. Não queria dar um susto em você. Eu respirei fundo.
— Estou bem .
Ele olhou para o m eu pij am a e pigarreou, com o se estivesse surpreso. — Tam bém vai dorm ir?
— É, acho que vou. Vou sair cedo am anhã de novo. — Tudo bem . Boa noite.
— Boa noite.
Entrei no m eu quarto, feliz de a cam a não ser visível de onde Charlie estava, depois fechei a porta com firm eza.
Edy the não havia se m exido nem um m ilím etro. Sorri, e seus lábios trem eram ; ela relaxou e voltou a ser hum ana. Ou quase. Fui m e sentar ao lado dela de novo. Ela se virou para m e olhar, puxou as pernas e as cruzou. — Não sei bem o que acho dessa cam iseta — disse ela. A voz soou tão baixa que não precisei ter m edo de Charlie nos ouvir.
— Posso trocar.
Ela revirou os olhos.
— Não de você estar usando. Da existência toda dela. — Ela esticou a m ão e passou os dedos pelo porco sorridente. Minha pulsação disparou, m as ela ignorou educadam ente. — Ele deveria ficar tão feliz de ser com ida? Eu tive que sorrir.
— Bom , a gente não sabe o lado dele da história, né? Pode ser que ele tenha um m otivo para sorrir.
Ela olhou para m im com o se duvidando da m inha sanidade. Estiquei a m ão para segurar a dela. Parecia m uito natural, m as, ao m esm o tem po, não consegui acreditar que tive tanta sorte. O que fiz para m erecer aquilo?
— Charlie acha que você talvez vá sair escondido — disse ela. — Eu sei. Aparentem ente, pareço agitado. — E está?
— Um pouco m ais do que isso, eu acho. Obrigado. Por ficar. — Era o que eu queria tam bém .
Meu coração com eçou a bater… não exatam ente m ais rápido, porém m ais forte. Por algum m otivo que eu j am ais entenderia, ela queria ficar com igo. Movendo-se em velocidade hum ana, ela descruzou as pernas e as colocou ao redor da m inha. Em seguida, se encolheu contra o m eu peito de novo, da form a que parecia preferir, com o ouvido no m eu coração, que estava reagindo provavelm ente m ais do que o necessário. Passei os braços em volta dela e apertei os lábios no seu cabelo.
— Hum m — m urm urou ela.
— Isso… — m urm urei no cabelo dela — … é m uito m ais fácil do que eu achei que seria.
— Parece fácil para você?
Pareceu que ela estava sorrindo. Ela virou o rosto para cim a, e senti seu nariz traçar um a linha fria pela lateral do m eu pescoço. — Bem — falei, sem fôlego. Os lábios dela estavam roçando m eu m axilar. — Parece m ais fácil do que esta m anhã, pelo m enos. — Hum m — disse ela.
Os braços deslizaram pelos m eus om bros e envolveram m eu pescoço. Ela se levantou até os lábios estarem roçando m eu ouvido. — E por que — m inha voz trem eu, m e deixando constrangido — você acha que é assim ?
— A m ente dom ina a m atéria — sussurrou ela, no m eu ouvido. Um trem or percorreu m eu corpo. Ela congelou, depois se afastou cuidadosam ente. Um a das m ãos roçou na pele debaixo da m anga da m inha cam isa.
— Você está com frio — disse ela. Consegui sentir os arrepios surgirem debaixo das pontas dos dedos dela.
— Estou bem .
Ela franziu a testa e voltou à posição original. Meus braços não estavam dispostos a soltá-la. Quando ela deslizou para longe deles, m inhas m ãos ficaram em seus quadris.
— Seu corpo todo está trem endo.
— Acho que não é de frio — falei.
Nós nos olham os por um segundo na escuridão. — Não sei o que posso fazer — adm iti. — O quanto preciso tom ar cuidado? Ela hesitou.
— Não está m ais fácil — disse ela por fim , respondendo m inha pergunta anterior. A m ão passou pelo m eu antebraço, e senti arrepios de novo. — Mas, hoj e à tarde… eu ainda estava indecisa. Lam ento, foi im perdoável m e com portar com o m e com portei.
— Eu perdoo você — m urm urei.
— Obrigada. — Ela sorriu, m as ficou séria quando olhou para m eu braço arrepiado. — Sabe… eu não tinha certeza de que era forte o bastante… — Ela levantou m inha m ão e encostou na bochecha, ainda olhando para baixo. — E, enquanto ainda havia a possibilidade de eu poder ser… derrotada — ela inspirou o arom a no m eu pulso —, eu estava… suscetível. Até eu tom ar a decisão de que era forte o bastante, de que não havia possibilidade de eu… de que eu… Nunca a vi lutar tanto com as palavras. Era tão humano. — E não existe essa possibilidade agora?
Ela olhou para m im e sorriu.
— A m ente dom ina a m atéria.
— Parece fácil — falei, sorrindo para que ela soubesse que era provocação. — Em vez de fácil, eu diria… hercúleo, mas possível. E assim … em resposta à sua outra pergunta…
— Me desculpe — falei.
Ela riu baixinho.
— Por que você pede desculpas? — Era um a pergunta retórica, e ela prosseguiu rapidam ente, levando o dedo aos m eus lábios para o caso de eu sentir a necessidade de explicar. — Não é fácil, e assim , se for aceitável para você, eu preferiria que você… seguisse m inha deixa? — Ela baixou o dedo. — É j usto? — Claro — falei, rapidam ente. — O que você quiser. Com o sem pre, eu quis dizer literalm ente.
— Se passar dos… lim ites, tenho certeza de que vou conseguir ir em bora. Eu franzi a testa.
— Vou cuidar para que não passe.
— Será m ais difícil am anhã — disse ela. — Fiquei com seu cheiro na cabeça o dia todo e acabei ficando incrivelm ente dessensibilizada. Se ficar longe de você por qualquer período de tem po, terei que com eçar de novo. Mas não do zero, im agino.
— Não vá em bora nunca — sugeri.
O rosto dela relaxou em um sorriso.
— Está bom para m im . Pegue os grilhões. Sou sua prisioneira. — Enquanto falava, ela entrelaçou os dedos frios no m eu pulso com o um a algem a. — E agora, se você não se im porta, posso pegar um cobertor em prestado? Dem orei um segundo.
— Ah, hã, claro. Aqui.
Estiquei a m ão para trás dela, peguei a colcha velha que estava dobrada no pé da m inha cam a e ofereci para ela. Ela soltou m eu pulso, pegou o cobertor e o abriu, depois entregou para m im .
— Eu ficaria m ais feliz se soubesse que você está confortável. — Estou muito confortável.
— Por favor.
Rapidam ente, j oguei a colcha nas costas, com o um a capa. Ela riu baixinho.
— Não era bem o que eu estava pensando.
Ela j á estava de pé, arrum ando a colcha sobre as m inhas pernas e puxando até os m eus om bros. Mas, antes que eu pudesse entender o que ela estava fazendo, ela tinha subido no m eu colo e se aninhado contra m eu peito. A colcha era um a barreira para qualquer ponto no qual nossa pele pudesse se encostar. — Melhor? — perguntou ela.
— Não tenho certeza disso.
— Bom o bastante?
— Melhor do que isso.
Ela riu. Eu acariciei o cabelo dela. Pareceu um gesto cuidadoso. — É tão estranho — disse ela. — Você lê sobre um a coisa… ouve sobre isso nas m entes das outras pessoas, vê acontecer com elas… e isso não prepara você nem um pouco para a experiência em si. A glória do prim eiro am or. É m ais do que eu esperava.
— Bem m ais — concordei com fervor.
— E as outras em oções tam bém . O ciúm e, por exem plo. Eu achava que entendia claram ente. Já li sobre isso um as cem m il vezes, vi atores o retratarem em m il peças e film es, ouvi nas m entes ao m eu redor diariam ente. Até senti de form a superficial, desej ando ter o que não tinha… Mas fiquei chocada. — Ela fez expressão de irritação. — Lem bra o dia em que McKay la o convidou para o baile?
Assenti, em bora m e lem brasse do dia por um m otivo diferente. — Quando você com eçou a falar com igo de novo. — Fiquei surpresa com o surto de ressentim ento, quase de fúria, que senti. Inicialm ente, não reconheci o que era. Eu não sabia que o ciúm e podia ser tão poderoso… tão doloroso. E aí, você recusou, e eu não sabia por quê. Foi pior do que de costum e não conseguir ouvir o que você estava pensando. Haveria outra pessoa? Foi por causa de Jerem y ? Eu sabia que não tinha o direito de m e im portar nem com um a coisa, nem com outra. Tentei não m e im portar. “E depois a fila com eçou a se form ar.”
Eu grunhi, e ela riu.
— Eu esperei — prosseguiu ela —, m ais ansiosa do que deveria para ouvir o que você diria a elas, para tentar decifrar sua expressão. Não pude negar o alívio que senti ao ver a irritação em seu rosto. Mas não podia ter certeza. Eu não sabia qual seria sua resposta se eu tivesse convidado…
Ela olhou para m im .
— Foi a prim eira noite em que vim aqui. Eu lutei a noite toda, vendo você dorm ir, com o abism o entre o que eu sabia que era certo, m oral, ético, honrado, e o que eu queria. Sabia que, se continuasse a ignorá-lo, com o deveria, ou se m e afastasse por alguns anos, até que você fosse em bora, um dia você encontraria alguém que quereria, alguém hum ano com o McKay la. Isso m e deixou triste. A voz dela baixou a um sussurro ainda m ais baixo. — E então, enquanto você estava dorm indo, disse m eu nom e. Falou com tanta clareza que no com eço pensei que estivesse acordado. Mas você se virou inquieto e m urm urou m eu nom e m ais um a vez, e suspirou. A em oção que m e tom ou depois foi enervante… perturbadora. E eu sabia que não podia m ais ignorar você. Ela ficou em silêncio por um m inuto, provavelm ente ouvindo o m artelar irregular do m eu coração.
— Mas o ciúm e… é tão irracional. Agora há pouco, quando Charlie perguntou sobre aquela garota irritante…
— Aquilo deixou você com raiva. Sério? — Sou nova nisso. Você está ressuscitando a hum ana em m im , e tudo parece m ais forte porque é novidade.
— Mas, sinceram ente, isso incom odar você, depois de eu ter que ouvir que Roy al… Roy al, o m odelo do ano, o Sr. Perfeito, Roy al era para ser seu. Com ou sem Eleanor, com o posso com petir com isso?
Os dentes dela brilharam e os braços envolveram m eu pescoço de novo. — Não existe com petição.
— É disso que tenho m edo. — Com hesitação, passei os braços ao redor dela. — Está bom assim ? — Verifiquei.
— Muito. — Ela suspirou. — É claro que Roy al é m esm o lindo à m aneira dele, m as m esm o que não fosse com o um irm ão para m im , m esm o que o lugar dele não fosse ao lado de Eleanor, ele não exerceria nem um décim o, não, nem um centésim o da atração que você exerce sobre m im . — Ela agora estava séria e pensativa. — Por quase noventa anos, andei entre os m eus, e entre os seus… o tem po todo pensando que eu era com pleta com igo m esm a, sem perceber o que procurava. E sem encontrar nada, porque você ainda não estava vivo. — Não parece j usto — sussurrei no cabelo dela. — Não tive que esperar nada. Por que as coisas foram tão m ais fáceis para m im ? — Tem razão — concordou ela. — Eu devia dificultar as coisas para você, sem dúvida. — Sua m ão acariciou m inha bochecha. — Você só tem que arriscar a vida a cada segundo que passa com igo, claro que não é m uito. Tem que dar as costas para sua natureza, sua hum anidade… que valor tem isso? — Não m e sinto privado de nada.
Ela virou o rosto para o m eu peito e sussurrou: — Ainda não.
— O quê…? — com ecei a dizer, m as o corpo dela ficou im óvel de repente. Fiquei paralisado, m as ela sum iu, e m eus braços ficaram abraçando o nada. — Deite-se — sibilou ela, m as não consegui saber onde ela estava no escuro. Deitei na cam a de novo, abri a colcha e rolei para o lado, com o costum ava dorm ir. Ouvi a porta se abrir um pouco. Charlie estava dando um a espiada em m im . Respirei tranquilam ente, exagerando o m ovim ento. Passou-se um longo m inuto. Prestei atenção no barulho da porta se fechando. De repente, Edy the estava ao m eu lado. Ela levantou m eu braço e o colocou em cim a dos om bros enquanto se aninhava em m im . — Você é péssim o ator. Eu diria que é um a carreira vetada para você. — Lá se vão m eus planos — m urm urei.
Meu coração estava sendo irritante. Ela devia conseguir sentir além de ouvir, pulando dentro das m inhas costelas com o se pudesse escapar dali. Ela cantarolou um a m elodia que não reconheci. Parecia um a cantiga de ninar. Mas parou.
— Quer que eu cante para você dorm ir?
— Certo. — Eu ri. — Com o se eu pudesse dorm ir com você aqui! — Você faz isso o tem po todo — lem brou-m e ela. — Não com você aqui — discordei, apertando o braço ao redor dela. — Faz sentido. Então, se não quer dorm ir, o que quer fazer? — Sinceram ente? Muitas coisas. Nenhum a delas é cuidadosa. Ela não disse nada; não parecia que estava respirando. Prossegui rapidam ente. — Mas, com o prom eti ser cuidadoso, eu gostaria de… saber m ais sobre você. — Me pergunte qualquer coisa. — Consegui ouvir que ela estava sorrindo agora. Procurei a m ais im portante entre m inhas perguntas. — Por que você faz isso? — perguntei. — Ainda não entendo por que se esforça tanto para resistir ao que você… é. Não m e entenda m al, é claro que fico feliz que resista. Nunca estive tão feliz de estar vivo. Só não vej o por que você se daria a esse trabalho.
Ela respondeu lentam ente.
— É um a boa pergunta, e você não é o prim eiro a fazê-la. Os outros, a m aioria dos da nossa espécie que se satisfazem com o que são, eles tam bém se perguntam com o vivem os. Mas, vej a bem , não é porque recebem os… um golpe do destino… que não podem os nos erguer acim a disso, conquistar as fronteiras de um destino que nenhum de nós quis. Tentar reter a hum anidade essencial que puderm os.
Fiquei deitado sem m e m exer, m eio im pressionado. Ela era um a pessoa m elhor do que eu seria na vida.
— Dorm iu? — sussurrou ela, baixinho depois de alguns m inutos. — Não.
— Estava curioso só sobre isso?
Revirei os olhos.
— Não.
— O que m ais quer saber?
— Por que você consegue ler m entes, e só você? E Archie, que vê o futuro… Por que é assim ?
Senti que ela dava de om bros debaixo do m eu braço. — Não sabem os realm ente. Carine tem um a teoria… Ela acredita que todos trazem os para esta vida algum as de nossas características hum anas m ais fortes, e que elas se intensificam , com o nossa m ente e nossos sentidos. Ela acha que eu j á devia ser m uito sensível aos pensam entos dos que m e cercavam . E que Archie j á tinha algum as prem onições, onde quer que estivesse. — O que ela trouxe para a nova vida, e os outros? — Carine trouxe sua com paixão. Earnest trouxe sua capacidade de am ar apaixonadam ente. Eleanor trouxe sua força, Roy al, sua… tenacidade. Ou você pode cham ar de teim osia. — Ele riu. — Jessam ine é m uito interessante. Ela foi m uito carism ática em sua prim eira vida, capaz de influenciar quem estivesse por perto a ver as coisas da m aneira dela. Agora, ela é capaz de m anipular as em oções dos que a cercam , acalm ar um a sala cheia de pessoas irritadas, por exem plo, ou excitar um a turba letárgica. É um dom m uito sutil. Pensei nas im possibilidades que ela descreveu, tentando apreendê-las. Ela esperou pacientem ente enquanto eu pensava.
— Então, onde tudo com eçou? Quer dizer, Carine transform ou você e antes alguém deve tê-la transform ado, e assim por diante… — Bom , de onde você veio? Da evolução? Da criação? Não podem os ter evoluído da m esm a m aneira que as outras espécies, predador e presa? Ou, se não acredita que tudo neste m undo sim plesm ente aconteceu sozinho, o que eu m esm a tenho dificuldade de aceitar, é tão difícil acreditar que a m esm a força que criou o delicado peixe-anj o e o tubarão, o bebê foca e a baleia assassina, possa ter criado nossas espécies j untas?
— Me deixe ver se entendi… Eu sou o bebê foca, não é? — É. — Ela riu, e seus dedos tocaram m eus lábios. — Você não está cansado? Foi um longo dia.
— Só tenho m ais um m ilhão de perguntas.
— Tem os am anhã, e depois de am anhã, e o dia seguinte… Um a sensação de euforia, de alegria pura, encheu m eu peito, até eu achar que poderia explodir. Não conseguia im aginar que houvesse um viciado em drogas no m undo que não trocaria a droga favorita por aquela sensação. Dem orei um m inuto para conseguir falar de novo. — Tem certeza de que não vai desaparecer de m anhã? Afinal de contas, você é m ítica.
— Não vou deixá-lo — prom eteu ela, solenem ente, e aquela m esm a sensação, ainda m ais forte do que antes, tom ou conta de m im . Quando consegui falar, eu disse:
— Mais um a, então, esta noite… — E o sangue subiu pelo m eu pescoço. A escuridão não aj udou. Eu tinha certeza de que ela conseguia sentir o calor. — O que é?
— Não, deixa pra lá. Mudei de ideia.
— Beau, pode m e perguntar qualquer coisa.
Não respondi e ela gem eu.
— Fico achando que vai passar a ser m enos frustrante não ouvir seus pensam entos. Mas está ficando cada vez pior. — Já é bem ruim que você m e ouça falar dorm indo — m urm urei. — Por favor, m e fale — m urm urou ela, com a voz aveludada assum indo aquela intensidade hipnotizante à qual nunca consegui resistir. Eu tentei. Balancei a cabeça.
— Se não m e disser, vou supor que é algo m uito pior do que é na realidade — am eaçou ela.
— Eu não devia ter tocado no assunto — falei, e travei os dentes. — Por favor. — Mais um a vez, a voz hipnótica. Eu suspirei.
— Você não vai… se ofender?
— Claro que não.
Respirei fundo.
— Bem … obviam ente, não sei m uito o que é verdade sobre vam piros. — A palavra saiu acidentalm ente. Eu estava tão concentrado em com o fazer a pergunta, m as percebi o que disse e parei.
— Sim ?
Ela parecia norm al, com o se a palavra não significasse nada. Eu expirei de alívio.
— Tudo bem , quer dizer, só sei as coisas que você m e contou, e parece que som os bastante… diferentes. Fisicam ente. Você parece hum ana, só que m elhor, m as não com e nem dorm e, sabe. Não precisa das m esm as coisas. — É discutível em alguns níveis, m as há verdades no que você está dizendo. Qual é sua pergunta?
Eu respirei fundo.
— Me desculpe.
— Pergunte.
Eu falei de repente.
— Eu sou só um cara hum ano com um , e você é a garota m ais bonita que j á vi, e fico… inebriado por você, e parte disso, naturalm ente, vem do fato de eu estar loucamente atraído por você, o que tenho certeza de que j á reparou, considerando que você é superciente do m eu sistem a circulatório, m as o que não sei é se é assim com você tam bém . Ou se é com o dorm ir e com er, coisas de que você não precisa e eu, sim , apesar de eu não querer essas coisas tanto quando quero você. Você disse que Eleanor e Roy al se afastam e vivem com o casados, m as isso quer dizer a m esm a coisa para os vam piros? E essa pergunta é totalm ente im própria, inadequada para um prim eiro encontro, e peço desculpas, não precisa responder.
Eu inspirei fundo.
— Hum m … eu diria que é nosso segundo encontro. — Você está certa.
Ela riu.
— Você está m e perguntando sobre sexo, Beau? Meu rosto ficou quente de novo.
— Estou. E não deveria ter perguntado.
Ela riu de novo.
— Eu subi na sua cam a, Beau. Acho que torna sua linha de questionam ento bem com preensível.
— Mas continua não precisando responder.
— Eu falei que você podia perguntar qualquer coisa. — Ela fez um a pausa, e sua voz ficou diferente. Meio form al, com o um a professora dando aula. — Então… no sentido geral, Sexo e Vam piros nível básico. Todos nós com eçam os com o hum anos, Beau, e a m aioria dos desej os hum anos ainda está presente, só oculta por trás de desej os poderosos. Mas não sentim os sede o tem po todo e costum am os form ar… laços m uito fortes. Físicos e em ocionais. Roy al e Eleanor são com o qualquer casal hum ano atraído um pelo outro, e com isso quero dizer que é m uito, m uito irritante para os que precisam m orar com eles e ainda m ais para quem consegue ouvir o que pensam .
Eu ri baixinho, e ela tam bém .
— Constrangedor — m urm urei.
— Você não faz ideia — disse ela de form a sóbria, e suspirou. — E agora, no sentido específico… Sexo e Vam piros, nível interm ediário, Beau e Edy the. — Ela suspirou de novo, m ais devagar dessa vez. — Acho… que não vai ser possível para nós.
— Porque eu teria que chegar… perto dem ais? — deduzi.
— Isso seria um problem a, m as não o principal. Beau, você não sabe o quanto… você é frágil. Não falo com o insulto à sua m asculinidade, qualquer pessoa hum ana é frágil para m im . Tenho que calcular m eus atos a cada m om ento em que estam os j untos para não m achucá-lo. Eu poderia m atá-lo com facilidade, sim plesm ente por acidente.
Pensei nas prim eiras vezes que ela m e tocou, no quanto se m oveu com cautela, com o pareceu assustá-la. Que ela m e pedia para m over a m ão em vez de puxar a dela…
Agora, ela colocou a palm a da m ão na m inha bochecha. — Se eu m e precipitasse dem ais… se estivesse distraída, poderia estender a m ão querendo tocar seu rosto e esm agar seu crânio por engano. Você não percebe com o é incrivelm ente quebradiço. Não posso m e dar ao luxo de perder o m ínim o controle quando estou com você.
Se a vida dela estivesse nas m inhas m ãos assim , eu j á a teria m atado? Encolhi-m e com a ideia.
— Acho que eu poderia perder a concentração com facilidade com você — m urm urou ela.
— Eu nunca não perco a concentração com você. — Posso perguntar um a coisa agora, um a coisa potencialm ente ofensiva? — É sua vez.
— Você tem algum a experiência com sexo e hum anos? Fiquei um pouco surpreso do m eu rosto não ficar quente de novo. Parecia natural contar tudo para ela.
— Nem um pouco. Tudo isso é prim eira vez para m im . Já falei, nunca senti isso por ninguém antes, nem perto disso.
— Eu sei. É que fico ouvindo o que outras pessoas pensam . Sei que o am or e o desej o nem sem pre andam de m ãos dadas.
— Para m im , andam .
— Que bom . Tem os isso em com um , pelo m enos. — Ah.
Quando ela estava falando antes que costumamos formar laços muito fortes, físicos e emocionais, não consegui deixar de m e perguntar se estava falando por experiência. Percebi que fiquei surpreendentem ente aliviado de saber que não era esse o caso.
— Então você perde a concentração com igo? — Sem dúvida. — Ela estava sorrindo de novo. — Você quer que eu diga o que m e faz perder a concentração?
— Não precisa.
— Foram seus olhos prim eiro. Você tem olhos lindos, Beau, com o um céu sem nuvens. Passei a vida toda em clim as chuvosos e costum o sentir falta do céu, m as não quando estou com você.
— Hã. Obrigado?
Ela riu.
— Não estou sozinha. Seis das suas dez adm iradoras com eçaram com seus olhos tam bém .
— Dez?
— Nem todas são tão desinibidas quanto Tay lor e McKay la. Quer um a lista? Você tem opções.
— Acho que você está tirando sarro com a m inha cara. E, de qualquer m odo, não há opções. — E j am ais haveria.
— Depois, foram seus braços. Eu gosto muito dos seus braços, Beau. Isso inclui seus om bros e suas m ãos. — Ela passou a m ão pelo m eu braço, depois até o om bro e de volta até a m ão. — Ou talvez tenha sido o seu queixo a segunda coisa… — Ela levou os dedos ao m eu rosto, com o se achasse que eu podia não saber o que ela queria dizer. — Não tenho certeza absoluta. Isso tudo m e pegou de surpresa quando percebi que, além de achar você delicioso, tam bém acho você lindo.
Meu rosto e m eu pescoço ficaram quentes. Eu sabia que não podia ser verdade, m as, no m om ento, ela foi bem convincente.
— Ah, e eu nem falei do seu cabelo. — Ela passou os dedos pela m inha cabeça. — Tudo bem , agora eu sei que você está debochando. — Não estou m esm o. Você sabia que seu cabelo é do m esm o tom de um teto coberto de teca em um m onastério no qual fiquei um a vez? Acho que fica no que agora é o Cam boj a.
— Hã, não, não sabia. — Bocej ei involuntariam ente. Ela riu.
— Respondi a sua pergunta satisfatoriam ente? — Er, sim .
— Então você devia dorm ir.
— Não sei se consigo.
— Quer que eu vá em bora?
— Não! — falei, um pouco alto dem ais.
Ela riu, depois com eçou a cantarolar a m esm a cantiga desconhecida. A voz dela era com o a de um anj o, suave em m eu ouvido. Mais cansado do que tinha percebido, exausto de um dia de estresse m ental e em ocional que nunca sentira antes, resvalei para o sono com o corpo frio dela nos braços.