Vida e Morte
15. Os Cullen
A LUZ SUFOCADA de outro dia nublado acabou m e acordando. Fiquei deitado com o braço nos olhos, grogue e confuso. Algo, um sonho tentando ser lem brado, lutava para irrom per em m inha consciência. Eu gem i e rolei de lado, esperando que o sono voltasse. Mas o dia anterior inundou m inha consciência. — Ah! — Sentei-m e tão rápido que m inha cabeça girou. — Seu cabelo tem a capacidade de desafiar a gravidade — A voz divertida vinha da cadeira de balanço no canto. — É com o se fosse um superpoder só seu. Autom aticam ente, levantei a m ão para aj eitar o cabelo. Ela estava sentada de pernas cruzadas na cadeira, com o sorriso perfeito no rosto perfeito.
— Você ficou. — Parecia que eu não tinha acordado, afinal. — É claro. Era o que você queria, certo?
Eu assenti. Ela deu um sorriso m aior.
— Era o que eu queria tam bém .
Cam baleei para fora da cam a, sem saber aonde ia, só que precisava chegar m ais perto dela, que m e esperou, e não houve surpresa no rosto dela quando m e aj oelhei à sua frente. Estiquei a m ão lentam ente e coloquei a palm a na lateral do rosto dela. Ela se inclinou na direção da m inha m ão, fechando os olhos. — E Charlie? — perguntei. Nós dois estávam os falando em um volum e norm al. — Ele saiu há um a hora, com um a quantidade absurda de equipam entos. Ele ficaria fora o dia todo. Então só estávam os eu e Edy the, em um a casa vazia, sem necessidade de ir a lugar nenhum . Tanto tem po. Eu m e sentia com o um velho avarento m aluco, vibrando com suas pilhas de m oedas de ouro, só que, em vez de m oedas, eram segundos que eu acum ulava. Só nessa hora, percebi que ela tinha m udado de roupa. Em vez do top de alcinhas, estava com um suéter pêssego.
— Você saiu? — perguntei.
Ela abriu os olhos e sorriu, levantando um a das m ãos para m anter a m inha em seu rosto.
— Não podia sair com as roupas com que eu vim . O que os vizinhos iam pensar? De qualquer m odo, fiquei fora só alguns m inutos, e você estava dorm indo profundam ente na hora, então não perdi nada. Eu grunhi.
— O que eu disse?
Seus olhos ficaram um pouco m ais agitados e seu rosto, m ais vulnerável. — Você disse que m e am ava — sussurrou ela. — Você j á sabia disso.
— Mas ouvir as palavras foi diferente.
Eu olhei nos olhos dela.
— Eu te am o — falei.
Ela se inclinou e apoiou a testa com cuidado na m inha. — Agora, você é a m inha vida.
Ficam os sentados assim por m uito tem po, até que m eu estôm ago roncou. Ela se em pertigou e riu.
— A hum anidade é tão supervalorizada — reclam ei. — Devem os com eçar com o café da m anhã? Coloquei a m ão na j ugular e arregalei os olhos. Ela se encolheu; depois, apertou os olhos e fez cara feia. Eu ri.
— Pare com isso, você sabe que foi engraçado. Ela ainda estava de cara feia.
— Eu discordo. Devo reform ular? É hora do café da m anhã para o hum ano. — Tudo bem . Preciso de outro m inuto hum ano prim eiro, se você não se im porta. — Claro.
— Fique.
Ela sorriu.
Eu escovei os dentes duas vezes de novo, depois tom ei um banho correndo. Passei um pente no cabelo m olhado para tentar fazê-lo ficar no lugar, m as fui solenem ente ignorado. E aí, percebi a besteira. Eu tinha m e esquecido de levar as roupas.
Hesitei por um m inuto, m as estava im paciente dem ais para ficar m uito tem po em pânico. Não tinha j eito. Prendi a toalha na cintura e andei pelo corredor com o rosto verm elho. Melhor ainda, o verm elho no m eu peito tam bém estava exposto. Coloquei a cabeça pelo batente da porta. — Hã…
Ela ainda estava na cadeira de balanço. E riu da m inha cara. — Devem os nos encontrar na cozinha, então?
— Sim , por favor.
Ela passou por m im em um sopro de ar frio e desceu a escada antes de um segundo se passar. Eu m al consegui seguir o m ovim ento; ela foi só um a m ancha de cor clara e depois, nada.
— Obrigado — falei para o nada e corri até a côm oda. Eu sabia que devia pensar no que vestir, m as estava com pressa para descer. Mas m e lem brei de pegar um casaco, para ela não se preocupar de eu sentir frio. Passei os dedos pelo cabelo para aj eitar de novo e desci a escada correndo. Ela estava encostada na bancada, parecendo sentir-se em casa. — O que tem para o café? — perguntei.
Isso a abalou por um m inuto. Ela uniu as sobrancelhas. — Não sei bem … O que você quer?
Eu ri.
— Tudo bem , eu m e viro bem sozinho. Você pode me olhar caçar. Peguei um a tigela e um a caixa de cereal. Ela voltou para a cadeira onde se sentou na noite anterior e ficou m e olhando servir o leite e pegar um a colher. Coloquei a com ida na m esa e parei. O espaço vazio na frente dela na m esa fez com que eu m e sentisse grosseiro.
— Hã, posso… lhe servir algum a coisa?
Ela revirou os olhos.
— Apenas com a, Beau.
Sentei à m esa, observando-a enquanto com eçava a com er. Ela m e fitava, analisando cada m ovim ento. Isso m e deixou constrangido. Engoli para falar, querendo distraí-la.
— Tem algum a program ação para hoj e?
— Talvez — disse ela. — Depende se você vai gostar ou não da m inha ideia. — Eu vou gostar — prom eti ao com er um a segunda colherada. Ela repuxou os lábios.
— O que diria de conhecer m inha fam ília?
Eu engasguei com o cereal.
Ela deu um pulo, com um a das m ãos esticada na m inha direção inutilm ente, provavelm ente pensando que poderia esm agar m eus pulm ões se tentasse fazer a m anobra de Heim lich. Balancei a cabeça e fiz sinal para ela se sentar enquanto eu tossia para desengasgar.
— Estou bem , estou bem — eu disse quando consegui falar. — Por favor, não faça isso com igo de novo, Beau. — Desculpe.
— Talvez sej a m elhor conversarm os depois que você acabar de com er. — Tudo bem . Preciso m esm o de um m inuto.
Ela estava falando sério. E eu j á tinha m esm o conhecido Archie, e nem foi tão ruim . E a Dra. Cullen tam bém . Mas foi antes de eu saber que a Dra. Cullen era um a vam pira, o que m udava as coisas. E, apesar de eu ter conhecido Archie, eu não sabia se ele tinha consciência de que eu sabia, e m e parecia um a diferença im portante. Além do m ais, Archie era o m ais favorável, de acordo com Edy the. Havia outros que não eram tão generosos.
— Eu finalm ente consegui — m urm urou ela quando engoli o restinho do cereal e afastei a tigela.
— Conseguiu o quê?
— Deixar você com m edo.
Pensei nisso por um m om ento, levantei a m ão com os dedos abertos e balancei de um lado para o outro, o sím bolo internacional do mais ou menos. — Eu não deixaria ninguém m achucar você — garantiu ela. Mas isso só m e fez ter m ais m edo de que alguém , Roy al, fosse querer m e m achucar, e que ela fosse ter que entrar no m eio para m e salvar. Eu não m e im portava com o que ela dizia sobre cuidar dos que lhe pertenciam e não lutar de form a j usta, a ideia realm ente m e apavorava. — Ninguém tentaria, Beau. Foi brincadeira.
— Não quero causar problem as. Eles sabem que eu sei? Ela revirou os olhos.
— Ah, eles j á sabem de tudo. Não é m uito fácil guardar segredos na m inha casa considerando nossos truques variados. Archie j á tinha visto que era um a possibilidade você dar um a passada lá.
Consegui sentir um a variedade de expressões surgindo no m eu rosto antes de conseguir m e controlar. O que Archie viu? Ontem … a noite de ontem … Meu rosto ficou quente.
Eu a vi apertar os olhos da form a que fazia quando estava tentando ler m eus pensam entos.
— Só estava pensando no que Archie pode ter visto — expliquei antes que ela pudesse perguntar.
Ela assentiu.
— Pode parecer invasivo. Mas ele não faz de propósito. E vê tantas possibilidades diferentes… que não sabe qual vai acontecer. Por exem plo, ele viu m ais de cem j eitos diferentes para com o o dia de ontem poderia ter sido, e você sobrevivia em setenta e cinco por cento deles. — A voz dela ficou dura na últim a parte, a postura rígida. — Eles apostaram , sabe, se eu m ataria você. — Ah.
A expressão dela continuou rígida.
— Quer saber quem achou que sim e quem achou que não? — Hã, acho que não. Me conte depois que eu conhecer todo m undo. Não quero ir com preconceito.
A surpresa apagou a raiva do olhar dela.
— Ah. Então você vai?
— Parece… a coisa respeitável a se fazer. Não quero que pensem que sou obscuro.
Ela deu um a gargalhada longa com o o tinir de um sino. Não consegui evitar um sorriso.
— Isso quer dizer que posso conhecer Charlie tam bém , então? — perguntou ela com ansiedade. — Ele j á está desconfiado, e prefiro não ser obscura tam bém . — Claro, m as o que vam os dizer para ele? Com o vou explicar…? Ela deu de om bros.
— Duvido que ele tenha muita dificuldade com a ideia de você ter um a nam orada. Em bora sej a um a interpretação livre da palavra. — Namorada — m urm urei. — Não parece… suficiente. Basicam ente, soava transitório. Um a coisa que não duraria.
Ela passou um dedo pela lateral do m eu rosto. — Bem , não sei se precisam os dar a ele todos os detalhes sórdidos, m as ele vai precisar de algum a explicação para o m otivo de eu vir tanto aqui. Não quero o chefe Swan faça um m andado de segurança contra m im . — Você vai m esm o estar aqui? — perguntei, ansioso de repente. Parecia bom dem ais para ser verdade, um a coisa com a qual só um tolo contaria. — Enquanto você m e quiser.
— Eu sem pre vou querer você — avisei. — Estou falando de para sem pre. Ela colocou os dedos nos m eus lábios e fechou os olhos. Quase parecia desej ar que eu não tivesse dito aquilo.
— Isso a deixa… triste? — perguntei, tentando dar um nom e à expressão no rosto dela. Triste pareceu perto.
Ela abriu os olhos devagar. Não respondeu, só olhou nos m eus olhos por um tem po. Finalm ente, suspirou.
— Vam os?
Olhei autom aticam ente para o relógio do m icro-ondas. — Não está m eio ced… espere, esqueça que perguntei isso. — Já esqueci.
— Isso está bom ? — perguntei, m ostrando m inhas roupas. Eu devia m e arrum ar m ais?
— Você está… — De repente, seu rosto exibiu as covinhas. — Delicioso. — Então você está dizendo que devo m udar?
Ela riu e balançou a cabeça.
— Não m ude nunca, Beau.
Ela se levantou e deu um passo na m inha direção, até ficar com os j oelhos encostando nos m eus. Colocou as m ãos dos dois lados do m eu rosto e se inclinou até estar a dois centím etros de m im .
— Com cuidado — ela m e lem brou.
Ela inclinou a cabeça para o lado e dim inuiu a distância entre nós. Com a m ais leve das pressões, tocou m eus lábios com os dela. Com cuidado!, eu gritei em pensam ento. Não se mexa. Minhas m ãos se fecharam . Eu sabia que ela conseguia sentir o sangue pulsando no m eu rosto. E então, do nada, um apito vertiginoso e seco surgiu nos m eus ouvidos. Prim eiro, não consegui m e concentrar em nada além dos lábios dela, m as aí com ecei a cair pelo túnel, e os lábios dela foram ficando m ais e m ais distantes. — Beau! Beau!
— Ei — tentei dizer.
— O que aconteceu? Você está bem ? — O som da ansiedade dela aj udou a m e trazer de volta. Não desm aiei com pletam ente, então foi relativam ente fácil. Respirei fundo duas vezes e abri os olhos.
— Estou bem — respondi. Ela estava inclinada para longe, m as os braços estavam esticados para m im ; um a das m ãos estava na m inha testa, fria, e a outra, atrás do m eu pescoço. O rosto dela estava m ais pálido do que o habitual. — Só… m eio que m e esqueci de respirar por um m inuto. Me desculpe. — Eu respirei fundo de novo.
Ela m e olhou com dúvida.
— Você se esqueceu de respirar?
— Eu estava tentando ser cuidadoso.
De repente, ela ficou com raiva.
— O que devo fazer com você, Beau? Ontem , eu beij o você e você m e ataca! Hoj e, você desm aia!
— Desculpe.
Ela suspirou profundam ente, depois deu um pulo para beij ar m inha testa. — Que bom que é fisicam ente im possível eu ter um ataque cardíaco — resm ungou ela.
— Isso é bom — concordei.
— Não posso levar você em lugar nenhum assim . — Não, estou bem , de verdade. Já voltei ao norm al. Além do m ais, sua fam ília vai m e achar m aluco m esm o, qual vai ser a diferença se eu estiver m eio abalado?
Ela franziu a testa.
— Você quer dizer m ais abalado do que o habitual? — Claro. Olhe só, estou tentando não pensar no que vam os fazer agora, então aj udaria se pudéssem os ir logo.
Ela balançou a cabeça, m as segurou m inha m ão e m e puxou da cadeira. Dessa vez, ela nem perguntou, foi direto para o lado do m otorista da picape. Achei que não fazia sentido discutir depois do m eu últim o episódio constrangedor, e, de qualquer m odo, eu não fazia ideia de onde ela m orava. Ela dirigiu respeitosam ente, sem reclam ar sobre o que m inha picape aguentaria. Levou-nos para o norte da cidade, passando pela ponte sobre o rio Calawah, e prosseguindo até term os passado por todas as casas e cercados de árvores densas. Eu estava com eçando a m e perguntar até onde iríam os quando ela entrou abruptam ente em um a estrada sem pavim entação. Não tinha placa, m al era visível em m eio às sam am baias. As árvores se inclinavam dos dois lados, e só dava para ver poucos m etros à frente antes de cada curva da estrada. Seguim os assim por alguns quilôm etros, quase sem pre para o leste. Eu estava tentando encaixar o cam inho ao m apa vago que tinha na cabeça, m as sem conseguir, quando a floresta com eçou de repente a ficar m enos densa. Ela entrou em um a cam pina… ou seria um gram ado? Mas não ficou m uito m ais claro. Havia seis cedros enorm es, talvez as m aiores árvores que j á vi, cuj os galhos encobriam m eio hectare. Inclinavam -se na direção da casa no m eio do gram ado, escondendo-a.
Não sei o que eu esperava, m as definitivam ente não era isso. A casa devia ter uns cem anos, tinha três andares e era m eio… graciosa, se essa palavra pode ser usada para se referir a um a casa. Estava pintada de um branco delicado e desbotado, e todas as j anelas e portas pareciam originais, m as estavam em condições boas dem ais para que isso fosse verdade. Minha picape era o único carro à vista. Quando Edy the desligou o m otor, consegui ouvir o som de um rio ali perto.
— Caram ba.
— Gostou?
— É… im pressionante.
De repente, ela estava do lado de fora, na m inha porta. Eu a abri devagar, com eçando a sentir o nervosism o que vinha tentando sufocar. — Pronto?
— Não. Vam os nessa.
Ela riu, e tentei rir com ela, m as o som pareceu preso na m inha garganta. Eu aj eitei o cabelo.
— Você está lindo — disse ela, e pegou m inha m ão casualm ente, com o se nem precisasse m ais pensar. Não era um a coisa grande, m as m e distraiu, m e deixou sentindo um pouco m enos de pânico.
Andam os pelas som bras densas até a varanda. Eu sabia que ela podia sentir m inha tensão. Ela esticou a m ão livre até m eu antebraço por um segundo. Depois, em seguida, abriu a porta da frente e entrou, m e puxando j unto. O interior era ainda m enos parecido com o que eu esperava do que o exterior. Era m uito ilum inado, m uito aberto e m uito grande. Originalm ente, devia ter tido m uitos côm odos, m as a m aioria das paredes do prim eiro andar fora derrubada, criando um único espaço am plo. A parede de trás, voltada para o sul, fora inteiram ente substituída por vidro, Para além dos cedros, o gram ado era aberto e se estendia até o rio largo. Um a enorm e escada em curva dom inava o lado oeste da sala. As paredes, o teto alto, o piso de m adeira e os tapetes grossos eram de tons variados de branco.
Os pais de Edy the estavam nos esperando. Estavam um pouco à esquerda da porta em um a pequena plataform a em frente a um piano de cauda enorm e. Tam bém era branco.
É claro que eu j á tinha visto a Dra. Cullen, m as m e im pressionei de novo com o quanto era j ovem e o quanto era absurdam ente linda. Estava de m ãos dadas com Earnest, im aginei; Ele era o único da fam ília que eu nunca vira. Parecia ter a m esm a idade da Dra. Cullen, talvez alguns anos m ais, e as m esm as feições pálidas e perfeitas do resto deles. Tinha cabelo ondulado da cor de caram elo, um pouco m ais com prido do que o m eu. Havia algo m uito… gentil no rosto dele, m as não consegui identificar o que m e fez pensar isso. Am bos estavam com roupas inform ais de cores claras que com binavam com o interior da casa.
Eles sorriram , m as não se aproxim aram de nós. Achei que estavam tentando não m e assustar.
— Carine, Earnest, este é Beau — disse Edy the. — É m uito bem -vindo aqui, Beau.
Carine deu um passo à frente, lenta e cuidadosa. Ergueu a m ão com hesitação. Dei um passo à frente para cum prim entá-la, e fiquei m eio surpreso com o quanto foi tranquilo fazer aquilo. Talvez fosse por ela m e lem brar Edy the de m uitas form as.
— É bom vê-la novam ente, Dra. Cullen.
— Por favor, cham e-m e de Carine.
Eu sorri para ela, surpreso com m inha súbita confiança. — Carine — repeti. Edy the apertou m inha m ão de leve. Earnest tam bém se aproxim ou e estendeu a m ão para m im . Seu aperto frio e pétreo era exatam ente o que eu esperava.
— É m uito bom conhecer você — disse ele com sinceridade. — Obrigado. Fico feliz por conhecê-lo tam bém . — E estava m esm o. A sensação era de coisa certa. Aquela era a casa de Edy the, a fam ília dela. Era bom fazer parte daquilo.
— Onde estão Archie e Jess? — perguntou Edy the. Ninguém respondeu, pois eles tinham acabado de aparecer no alto da escada. — Ei, Edy está em casa! — gritou Archie, e correu escada abaixo, um a m ancha de pele branca, vindo parar subitam ente diante de nós. Vi Carine e Earnest lançaram olhares de alerta para ele, m as até que gostei. Era natural para ele, era com o eles se m oviam quando não tinham que se preocupar com estranhos olhando.
— Beau! — disse ele, m e cum prim entando, com o se fôssem os velhos am igos. Ele esticou a m ão e, quando fui apertar, m e puxou para um daqueles abraços de um braço só e bateu de leve nas m inhas costas. — Oi, Archie — falei. Minha voz saiu sem fôlego. Fiquei chocado e tam bém um pouco satisfeito de ele realm ente parecer favorável. Mais do que isso, j á gostava de m im .
Quando deu um passo para trás, vi que eu não era o único chocado. Carine e Earnest estavam olhando m eu rosto com olhos arregalados, com o se estivessem esperando que eu saísse correndo. O m axilar de Edy the estava travado, m as não consegui perceber se era preocupação ou raiva. — Seu cheiro é m esm o bom , eu nunca tinha reparado — com entou Archie. Meu rosto ficou quente, e m ais quente ainda quando pensei em com o isso devia ser para eles, e ninguém pareceu saber o que dizer. E então, Jessam ine apareceu. Edy the tinha se com parado a um leão caçando, o que tive dificuldade de visualizar, m as consegui im aginar com facilidade Jessam ine dessa form a. Havia algum a coisa de leoa nela agora, só parada ali. Mas, apesar disso, fiquei totalm ente à vontade de repente. Parecia que eu estava em um lugar fam iliar e cercado de gente que conhecia bem . Era tranquilo, com o quando Jules estava por perto. Era estranho sentir isso ali, m as m e lem brei do que Edy the m e contou sobre o que Jessam ine podia fazer. Foi estranho pensar. Não parecia que alguém estava usando m agia em m im . — Olá, Beau — disse Jessam ine. Ela não se aproxim ou nem ofereceu um aperto de m ãos, m as não foi constrangedor.
— Oi, Jessam ine. — Sorri para ela e depois para os outros. — É ótim o conhecer vocês todos. Vocês têm um a bela casa — acrescentei, convencionalm ente. — Obrigado — disse Earnest. — Ficam os felizes por você ter vindo. — Ele falava com sentim ento, e percebi que m e considerava coraj oso. Tam bém percebi que Roy al e Eleanor não estavam em lugar nenhum à vista e, apesar de estar aliviado, tam bém fiquei decepcionado. Teria sido bom fazer logo isso com Jessam ine ali, m e deixando calm o.
Reparei em Carine encarando Edy the com intensidade. Pelo canto do olho, vi que Edy the assentiu de leve.
Senti que estava xeretando e afastei o olhar. Meus olhos vagaram novam ente para o belo piano no tablado. De repente, m e lem brei de um a fantasia de infância na qual, quando fosse m ais velho e m ilionário, com praria um piano de cauda para m inha m ãe. Ela não era m uito boa, só tocava para si m esm a em nosso piano de arm ário de segunda m ão, m as eu adorava vê-la tocar. Ela ficava tão feliz e absorta, parecia um ser novo e m isterioso para m im . Ela m e pagou algum as aulas, m as, com o a m aioria das crianças, eu choram inguei até que ela m e deixou largar.
Earnest percebeu m eu olhar.
— Você toca? — perguntou ele.
Eu balancei a cabeça.
— Nem um pouco. Mas é lindo. É seu?
— Não. — Ele riu. — Edy the não contou que gostava de m úsica? — Hã, ela não disse nada. Mas acho que eu devia ter percebido, não é? Earnest ergueu as sobrancelhas, confuso.
— Tem algum a coisa que ela não faz bem ? — perguntei retoricam ente. Jessam ine deu um a gargalhada, Archie revirou os olhos e Earnest olhou para Edy the com expressão paternal, o que foi im pressionante considerando o quanto parecia j ovem .
— Espero que não tenha se exibido — disse ele. — É grosseria. — Ah, só um pouco. — Edy the riu, e o som foi contagioso. Todo m undo sorriu, inclusive eu. Earnest deu um sorriso m aior, e ele e Edy the trocaram um olhar rápido.
— Edy the, você devia tocar para ele — disse Earnest. — Você acabou de dizer que m e exibir era grosseria.
— Abra um a exceção. — Ele sorriu para m im . — Estou sendo egoísta. Ela não toca m uito, e adoro ouvi-la.
— Gostaria de ouvir você tocar — falei.
Ela deu um olhar longo e exasperado para Earnest, depois para m im . Em seguida, soltou m inha m ão e foi até o banquinho. Bateu no lugar ao lado e olhou para m im .
— Ah — m urm urei, e fui m e sentar com ela.
Assim que m e sentei, os dedos dela com eçaram a fluir pelas teclas, enchendo a sala com um a com posição tão com plexa e intensa que era im possível acreditar que só um a pessoa a tocava. Senti m eu queixo cair e ouvi risinhos baixos atrás de m im .
Edy the olhou para m im casualm ente, a m úsica ainda em volta de nós sem pausa. — Gostou?
Percebi na m esm a hora. Claro.
— Você com pôs.
Ela assentiu.
— É a preferida de Earnest.
Eu suspirei.
— Qual é o problem a?
— Só estou… m e sentindo m eio insignificante. Ela pensou sobre isso por um m inuto, e a m úsica m udou lentam ente para algo m ais suave… fam iliar. Era a cantiga de ninar que ela cantarolava para m im , só que m il vezes m ais com plexa.
— Pensei nesta — disse ela baixinho — enquanto via você dorm ir. É a sua m úsica.
A m úsica ficou ainda m ais suave e doce. Não consegui falar. A voz dela voltou ao norm al.
— Eles gostaram bastante de você, sabia? Especialm ente Earnest. Olhei para trás, m as agora a sala im ensa estava vazia. — Aonde eles foram ?
— Nos deram privacidade. Sutis, não?
Eu ri, m as franzi a testa.
— É legal eles gostarem de m im . Eu gostei deles. Mas Roy al e Eleanor… A expressão dela ficou tensa.
— Não se preocupe com Roy al. Ele é sem pre o últim o a chegar. — E Eleanor?
Ela riu.
— Ela acha que sou louca, é verdade, m as não tem problem as com você. Está tentando ponderar com Roy al agora.
— O que eu fiz? — Eu tive que perguntar. — Quer dizer, nunca falei com … — Você não fez nada, Beau, sinceram ente. Roy al é o que m ais tem dificuldade com o que som os. É difícil para ele que alguém de fora saiba a verdade. E ele tem um pouco de invej a.
— Rá!
Ela deu de om bros.
— Você é hum ano. Ele tam bém queria ser.
Isso m e fez pensar.
— Ah.
Prestei atenção à m úsica, a m inha m úsica. Ficava m udando e evoluindo, m as a base perm anecia igual. Eu não sabia bem com o ela fazia. Ela não parecia estar prestando m uita atenção às m ãos.
— Aquela coisa que Jessam ine faz é bem … não, estranha, eu acho. Foi bem incrível.
Ela riu.
— Palavras não fazem j ustiça ao que ela faz, não é? — Não m esm o. Mas… ela gosta de m im ? Ela pareceu… — A culpa é m inha. Eu lhe falei que ela era a m ais recente a tentar nosso j eito de viver. Alertei-a para ficar longe.
— Ah.
— Pois é.
Esforcei-m e para não trem er.
— Carine e Earnest acham você m aravilhoso — disse ela. — Ah. Eu não fiz nada de em polgante. Só apertei algum as m ãos. — Eles ficam felizes por m e verem feliz. Earnest provavelm ente não se im portaria se você tivesse três olhos e pés de pato. Em todo esse tem po, ele se preocupou com igo, com m edo de que eu fosse j ovem dem ais quando Carine m e transform ou, de haver algum a coisa faltando na m inha constituição básica. Ele está aliviado. Cada vez que toco você, ele praticam ente bate palm as. — Archie está entusiasm ado.
Ela fez um a careta.
— Archie tem um a perspectiva própria da vida. Olhei para ela por um m om ento, avaliando sua expressão. — O quê? — perguntou ela.
— Você não vai m e explicar o que quer dizer com isso, não é? Ela apertou os olhos enquanto m e olhava, e um m om ento de com unicação sem palavras se passou entre nós, quase com o vi entre ela e Carine antes, só que sem a vantagem da leitura de pensam entos. Eu sabia que ela não estava m e contando algum a coisa sobre Archie, um a coisa que a atitude dela em relação a ele indicava havia m uito tem po. E ela sabia que eu sabia, m as não ia soltar nada. Não agora.
— Tudo bem — falei, com o se tivéssem os dito tudo isso em voz alta. — Hum m — disse ela.
E com o eu tinha acabado de pensar no assunto… — Então, o que Carine estava dizendo a você antes? Ela estava olhando para as chaves agora.
— Você percebeu, não foi?
Dei de om bros.
— Claro que sim .
Ela m e olhou pensativam ente por um m om ento antes de responder. — Ela queria m e contar algum as novidades. Não sabia se era algo que eu quisesse partilhar com você.
— E você quer?
— Acho que seria um a boa ideia. Meu com portam ento pode ficar… m eio esquisito nos próxim os dias. Ou sem anas. Meio obcecado. Então é m elhor eu m e explicar logo.
— Qual é o problem a?
— Não há nenhum problem a, exatam ente. Archie só vê alguns visitantes chegando logo. Eles sabem que estam os aqui e estão curiosos. — Visitantes?
— Sim … com o nós, m as ao m esm o tem po não. Seus hábitos de caça não são com o os nossos. Não devem entrar na cidade, m as não vou perder você de vista até irem em bora.
— Uau. Não devíam os… quer dizer, existe algum j eito de avisar as pessoas? O rosto dela estava sério e triste.
— Carine vai pedir que não cacem por aqui, com o cortesia, e eles provavelm ente não vão criar caso por isso. Mas não podem os fazer m ais, por vários m otivos. — Ela suspirou. — Eles não vão caçar aqui, m as vão caçar em algum lugar. É assim que as coisas são quando se vive em um m undo com m onstros.
Eu trem i.
— Enfim , um a reação racional — m urm urou ela. — Estava com eçando a pensar que você não tinha nenhum senso de autopreservação. Deixei essa passar, virando a cara, m eus olhos vagando novam ente pela sala espaçosa.
Ela seguiu m eu olhar.
— Não era o que esperava, não é? — perguntou ela, a voz divertida de novo. — Não — adm iti.
— Não tem caixões, nem crânios em pilhados nos cantos; acho que nem tem os teias de aranha… Que decepção deve estar sendo para você. Ignorei o escárnio.
— Eu não esperava que fosse tão claro e tão… aberto. Ela estava m ais séria quando respondeu.
— É o único lugar em que nunca precisam os nos esconder.
Minha m úsica chegou ao fim , os últim os acordes passando para um tom m ais m elancólico. A últim a nota pairou por um longo m om ento, e algum a coisa no som daquela única nota foi tão triste que um nó se form ou na m inha garganta. Eu m e recom pus e disse:
— Obrigado.
Parecia que a m úsica tam bém a tinha afetado. Ela m e olhou com atenção por um tem po, depois balançou a cabeça e suspirou. — Quer ver o resto da casa? — perguntou ela. — Vai haver crânios em pilhados em algum canto? — Lam ento decepcionar.
— Ah, tudo bem , m as m inhas expectativas estão bem baixas agora. Subim os a enorm e escada de m ãos dadas. Minha m ão livre acom panhou o corrim ão, m acio com o cetim . O corredor no alto da escada era revestido de m adeira da m esm a cor clara do piso de tábua corrida. Ela foi indicando conform e passávam os por portas. — O quarto de Roy al e Eleanor… O escritório de Carine… O quarto de Archie… Ela teria continuado, m as estaquei no final do corredor, olhando com sobrancelhas erguidas o ornam ento pendurado no alto da parede. Edy the riu ao ver m inha expressão.
— Irônico, eu sei — disse ela.
— Deve ser m uito antiga — conj ecturei. Senti vontade de tocar, de ver se a pátina escura era tão m acia quando parecia, m as consegui perceber que era bem valiosa.
Ela deu de om bros.
— Mais ou m enos do início dos anos 1630.
Desviei os olhos da cruz para encará-la.
— Por que vocês têm isso aqui?
— Nostalgia. Pertenceu ao pai de Carine.
— Ele colecionava antiguidades?
— Não. Ele m esm o entalhou. Ficava pendurada na parede acim a do púlpito da paróquia em que ele pregava.
Virei-m e para olhar a cruz enquanto fazia um a conta de cabeça. A cruz tinha m ais de 370 anos. O silêncio se prolongou enquanto eu lutava para apreender o conceito de tantos anos.
— Você está bem ? — perguntou ela.
— Que idade tem Carine? — perguntei, baixinho, ainda olhando para cim a. — Ela acabou de com em orar o aniversário de 362 anos — disse Edy the. Ela observou m inha expressão com atenção enquanto continuava, e tentei absorver a inform ação. — Carine nasceu em Londres por volta de 1640, segundo ela acredita. O tem po não era m arcado com precisão na época, pelo m enos pelas pessoas com uns. Mas foi pouco antes do governo de Crom well.
O nom e despertou alguns fatos desconexos na m inha m ente, de um a aula de história do m undo que tive no ano anterior. Eu devia ter prestado m ais atenção. — Ela era filha única de um pastor anglicano. A m ãe m orreu dando à luz. Seu pai era… um hom em difícil. Acreditava fortem ente na realidade do m al. Ele liderou perseguições a bruxas, lobisom ens… e vam piros. Era estranho com o a palavra m udava as coisas, deixava a história m enos com cara de aula de história.
— Eles queim aram m uita gente inocente. É claro que não era tão fácil pegar as criaturas reais que procuravam .
“Carine fez o que pôde para proteger esses inocentes. Ela sem pre acreditou no m étodo científico e tentou convencer o pai a olhar além da superstição e procurar evidências reais. Ele desencoraj ou o envolvim ento dela. Ele a am ava, e quem defendia os m onstros costum avam ser tratadas com o eles. “O pai dela era persistente… e obsessivo. Apesar de tudo, conseguiu encontrar provas de m onstros de verdade. Carine im plorou para que ele tom asse cuidado, e ele ouviu, até certo ponto. Em vez de atacar cegam ente, ele esperou e observou por um longo tem po. Espionou um esconderij o de vam piros de verdade que viviam nos esgotos da cidade, e alguns saíam à noite para caçar. Naquela época, quando os m onstros não eram só m itos e lendas, era assim que m uitos viviam . “As pessoas reuniram seus forcados e archotes, é claro — Edy the riu de form a som bria —, e esperaram no local onde o pastor tinha visto os m onstros saírem para a rua. Havia dois pontos de acesso. O pastor e alguns de seus hom ens j ogaram um barril de piche em cham as em um enquanto os outros esperavam que os m onstros em ergissem pelo segundo.”
Percebi que estava prendendo a respiração de novo e m e obriguei a expirar. — Não aconteceu nada. Eles esperaram m uito tem po e foram em bora, decepcionados. O pastor ficou m uito zangado. Devia haver outras saídas, e os vam piros tinham fugido de m edo. É claro que os hom ens com suas lanças e m achados rudim entares não ofereciam perigo para um vam piro, m as ele não sabia disso. Agora que eles tinham sido avisados, com o ele encontraria os m onstros de novo?
A voz dela ficou m ais baixa.
— Não foi difícil. Ele devia tê-los irritado. Os vam piros não podem se dar ao luxo da notoriedade, senão aqueles provavelm ente teriam m assacrado o grupo todo. Mas o que aconteceu foi que um deles o seguiu até em casa. “Carine se lem bra da noite com clareza, considerando que é um a lem brança hum ana. Era o tipo de noite que ficaria na m em ória. O pai voltou para casa bem tarde, ou m elhor, bem cedo. Carine esperou acordada, preocupada. Ele estava furioso, reclam ando e resm ungando pelo que perdera. Carine tentou acalm á-lo, m as ele a ignorou. E apareceu um hom em no m eio da pequena sala deles. “Carine diz que estava m altrapilho, vestido com o um m endigo, m as o rosto era lindo e ele falava latim . Por causa da vocação do pai e de sua própria curiosidade, Carine tinha m uita inform ação e estudo para um a m ulher daquela época; ela entendeu o que o hom em disse. Ele falou para o pai dela que ele era um tolo e que pagaria pelo m al que fez. O pastor se j ogou na frente da filha na tentativa de protegê-la…
“Eu sem pre penso nesse m om ento. Se ele não tivesse revelado o que m ais am ava, será que nossa história teria sido diferente?” Ela ficou pensativa por alguns segundos, m as prosseguiu. — O vam piro sorriu. Ele disse para o pastor: “Vá para o seu inferno sabendo do seguinte: o que você am a vai se tornar tudo que você odeia.”
“Ele j ogou o pastor para o lado e pegou Carine…” Edy the parecera perdida na história, m as então, parou. Seus olhos voltaram para o presente, e ela olhou para m im com o se tivesse dito algum a coisa errada. Ou talvez tenha achado que m e chateou.
— O que aconteceu? — sussurrei.
Quando ela falou, parecia que estava escolhendo cada palavra cuidadosam ente. — Ele quis que o pastor soubesse o que aconteceria com Carine, depois m atou o pastor m uito devagar com Carine olhando, se contorcendo de dor e horror. Eu m e encolhi. Ela assentiu em solidariedade. — O vam piro foi em bora. Carine sabia qual seria seu destino se alguém a encontrasse naquelas condições. Qualquer coisa infectada pelo m onstro teria que ser destruída. Ela agiu por instinto, para salvar a própria vida. Apesar da dor que estava sentindo, rastej ou até o porão e se enterrou em um a pilha de batatas podres por três dias. É um m ilagre ela ter conseguido ficar em silêncio e não ser descoberta.
“Depois de três dias, o processo acabou, e ela se deu conta do que tinha se tornado.”
Eu não sabia com o estava m eu rosto, m as de repente ela parou de falar de novo. — Com o está se sentindo? — perguntou ela.
— Estou bem . O que aconteceu depois?
Ela deu um m eio sorriso por causa da m inha intensidade, depois deu m eia-volta no corredor e m e puxou j unto.
— Venha — disse ela. — Eu vou lhe m ostrar.