Vida e Morte
24. Mudança
ACABEI MUDANDO DE ideia.
O fogo no m eu braço não foi tão ruim ; a pior coisa que senti até aquele m om ento, sim . Mas não o m esm o que m eu corpo todo em cham as. Im plorei para que ela fizesse tudo parar. Falei que era só isso que eu queria. Que a queim ação parasse. Mais nada.
Ouvi Archie dizer para ela que todo m undo dizia a m esm a coisa, lem brou que ela im plorou que Carine a m atasse tam bém . Disse que m inha prim eira decisão era a que contava.
Eu m e lem bro de, em determ inado m om ento, gritar para ele calar a boca. Acho que ele pediu desculpas.
Mas, de um m odo geral, era difícil prestar atenção ao que estava acontecendo fora do fogo. Sei que eles m e deslocaram . Parecia que fiquei no chão coberto de sangue e vôm ito por m uito tem po, m as era difícil j ulgar com o os m inutos passaram . Às vezes, Carine dizia algum a coisa e parecia que um ano se passava até que Archie respondesse, m as devia ser só o fogo que transform ava segundos em anos.
E aí, alguém m e carregou. Vi o sol por m ais um segundo de um ano, parecia pálido e frio. Depois, tudo ficou escuro. Ficou escuro por m uito tem po. Eu ainda conseguia ver Edy the. Ela estava m e segurando nos braços, com m eu rosto perto do dela, um a das m ãos na m inha bochecha. Archie tam bém estava perto. Acho que estava segurando m inhas pernas. Quando eu gritava, ela pedia desculpas, repetidas vezes. Tentei não gritar. Não aj udava nada. Não havia alívio nem libertação. O fogo não ligava para o que eu fazia. Só queim ava.
Quando m eus olhos entravam em foco, eu conseguia ver luzes fracas se m ovendo no rosto de Edy the, em bora tudo estivesse preto ao redor da cabeça dela. Fora a voz dela e a m inha, o único som era um zum bido grave e constante. Às vezes, ficava m ais alto, depois ficava baixo. Só percebi que estava de volta no carro preto quando parou. Não ouvi a porta ser aberta, m as o brilho de luz repentino foi cegante. Devo ter m e encolhido, porque Edy the falou no m eu ouvido:
— Estam os só parando para encher o tanque. Vam os chegar logo em casa, Beau. Você está indo m uito bem . Isso vai acabar logo. Me desculpe. Eu não conseguia sentir a m ão dela no m eu rosto; devia estar fria, m as nada estava m ais frio. Tentei pegá-la, m as não conseguia saber o que m eus m em bros estavam fazendo. Acho que eu estava m e debatendo um pouco, m as Edy the e Archie m e seguravam . Edy the adivinhou o que eu queria. Pegou m inha m ão e levou aos lábios. Eu queria poder sentir. Tentei segurar a m ão dela sem saber com o fazer os m úsculos se m overem e nem conseguir senti-los. Talvez eu tenha acertado. Ela não soltou.
Foi ficando m ais escuro. Chegou um a hora em que não consegui m ais enxergar. Estava escuro com o breu dentro do carro, não havia diferença entre ficar com os olhos abertos ou fechados. Com ecei a entrar em pânico. O fogo tornava a noite um a câm ara de privação de sentidos; eu não conseguia sentir nada além de dor. Nem o banco em baixo de m im , nem Archie segurando m inhas pernas, nem Edy the segurando m inha cabeça e m inha m ão. Eu estava sozinho com a queim ação e estava apavorado.
Não sei o que devo ter arfado, m inha voz estava totalm ente falhando agora, rouca de tanto gritar ou queim ada a ponto de não poder ser usada. Não consegui saber qual das duas coisas, m as a voz de Edy the soou no m eu ouvido de novo. — Estou bem aqui, Beau. Você não está sozinho. Não vou abandonar você. Vou ficar aqui. Escute m inha voz. Estou aqui com você… A voz dela m e acalm ou, fez o pânico sum ir, ainda que não a dor. Eu ouvi, m antendo a respiração rasa para conseguir ouvi-la m elhor. Não precisava m ais gritar. A queim ação só aum entava e nunca dim inuía, m as eu estava m e adaptando. Era a única coisa que eu conseguia sentir, m as não a única em que eu conseguia pensar.
— Eu nunca quis isso para você, Beau — continuou Edy the. — Eu daria qualquer coisa para interrom per isso. Com eti tantos erros. Devia ter ficado longe de você desde o prim eiro dia. Nunca devia ter voltado. Eu destruí sua vida, tirei tudo de você… — Pareceu que ela estava chorando de novo. — Não — tentei dizer, m as não sei se cheguei a form ar a palavra com os lábios. — Ele deve estar em um ponto avançado o bastante para que se lem bre disso — disse Archie delicadam ente.
— Espero que sim — disse Edy the, a voz falhando. — Só estou dizendo que você devia usar o tem po de form a m ais produtiva. Tem tanta coisa que ele não sabe.
— Você está certo, você está certo. — Ela suspirou. — Onde com eço? — Você pode explicar sobre sentir sede — sugeriu Archie. — Foi a parte m ais difícil quando acordei. E vam os esperar m uita coisa dele. Quando Edy the respondeu, parecia que estava cuspindo a palavra com os dentes trincados.
— Não vou cobrar isso dele. Ele não escolheu isso. É livre para se tornar o que quiser.
— Rá — disse Archie. — Você j á o conhece bem , Edy the. O outro j eito não vai ser bom o bastante para ele. Está vendo? Ele vai ficar bem . O carro ficou silencioso enquanto ela se concentrava no que Archie estava vendo em pensam ento. Em bora eu entendesse o silêncio, ele ainda m e deixava sozinho no fogo. Com ecei a entrar em pânico de novo.
— Estou aqui, Beau. Estou aqui. Não tenha m edo. — Ela respirou fundo. — Vou continuar falando. Tenho m uitas coisas para contar. A prim eira é que, quando isso passar, quando você estiver… novo, você não vai ser exatam ente o m esm o que eu, não bem no com eço. Ser um vam piro j ovem quer dizer certas coisas, e a m ais difícil de ignorar é a sede. Você vai sentir sede o tem po todo. Não vai conseguir pensar em m uito m ais por um tem po. Talvez um ano, talvez dois. É difícil para todo m undo. Assim que isso acabar, vou levar você para caçar. Você queria ver isso, não queria? Vam os levar Eleanor, para você ver a im itação de urso que ela faz… — Ela riu um a vez, um som desaj ustado. — Se você decidir, se quiser viver com o nós, vai ser difícil. Principalm ente no com eço. Pode ser difícil dem ais, e entendo isso. Todos nós entendem os. Se você quiser tentar do m eu j eito, vou com você. Posso dizer quem são os m onstros hum anos. Há opções. O que você quiser. Se… se você não m e quiser com você, vou entender tam bém , Beau. Juro que não vou seguir você se você m e pedir para não… — Não — respondi, arfando. Dessa vez, eu m e ouvi, então soube que fiz certo. — Você não precisa tom ar nenhum a decisão agora. Há tem po para isso. Só saiba que vou respeitar qualquer decisão que você tom ar. — Ela respirou fundo de novo. — Devo avisar sobre seus olhos. Eles não vão m ais ser azuis. — Outro choro leve. — Mas não deixe que isso assuste você. Eles não vão ficar tão intensos por m uito tem po.
“Mas acho que isso é um a coisa m uito pequena… Eu devia m e concentrar nas m ais im portantes. Nas difíceis, nas piores. Ah, lam ento tanto, Beau. Você não pode m ais ver sua m ãe e nem seu pai. Não é seguro. Você os m achucaria, não conseguiria se controlar. E… há regras. Regras que, com o sua criadora, tenho que seguir. Nós dois seríam os responsabilizados se você perdesse o controle. Ah… — Ela ficou sem ar. — Tem tanta coisa que ele não sabe, Archie.” — Tem os tem po, Edy the. Relaxe. Vá devagar. Eu a ouvi inspirar de novo.
— As regras — disse ela. — Um a regra com m il perm utações diferentes: a realidade dos vam piros tem que ser m antida em segredo. Isso quer dizer que vam piros recém -nascidos têm que ser controlados. Vou ensinar você, vou m antê-lo em segurança, prom eto. — Outro suspiro. — E você não pode contar para ninguém o que é. Violei essa regra. Achei que não poderia fazer m al a você, achei que ninguém descobriria. Eu devia ter percebido que só de estar perto de você acabaria fazendo com que fosse destruído. Eu devia ter percebido que estragaria sua vida, que estava m entindo para m im m esm a sobre qualquer outro cam inho ser possível. Fiz tudo errado…
— Você está deixando que a autopunição atrapalhe a inform ação de novo, Edy the.
— Certo, certo. — Um suspiro profundo. — Beau. Você se lem bra do quadro no escritório de Carine, dos patronos noturnos das artes de quem falei? Eles se cham am Volturi, e são… por falta de um a palavra m elhor, a polícia do nosso m undo. Vou contar m ais sobre eles daqui a pouco, você só precisa saber que eles existem , para que eu possa explicar por que você não pode contar a Charlie e nem à sua m ãe onde está. Você não pode m ais falar com eles, Beau. — A voz dela estava ficando m ais aguda, com o se estivesse prestes a se quebrar. — É m elhor… não tem os m uita escolha além de deixar que pensem que você m orreu. Lam ento m uito. Você nem pôde se despedir. Não é j usto! Houve um a longa pausa, durante a qual ouvi a respiração dela falhar. — Por que você não volta para os Volturi? — sugeriu Archie. — Para deixar as em oções de fora.
— Você está certo — repetiu ela, em um sussurro. — Está pronto para aprender um a nova história do m undo, Beau?
Ela falou a noite inteira sem parar, até o sol nascer e eu conseguir ver o rosto dela de novo. Contou histórias que pareciam contos de fadas som brios. Eu estava com eçando a vislum brar o quão grande esse m undo era, m as sabia que dem oraria para com preender totalm ente o tam anho. Ela m e contou sobre as pessoas que vi no quadro com Carine, os Volturi. Que eles j untaram forças durante a civilização m icênica e com eçaram um a cam panha de um m ilênio para criar paz e ordem no m undo dos vam piros. Que havia seis no com eço. Que traição e assassinato dim inuiu o núm ero para a m etade. Alguém cham ado Aro m atou a irm ã, a m ulher do seu m elhor am igo. O m elhor am igo era Marcus, o hom em que vi de pé com Carine. A m ulher de Aro, Sulpicia, a que tinha o cabelo escuro e denso no quadro, foi a única testem unha. Ela o entregou para Marcus e seus soldados. Houve certa dúvida sobre o que fazer, pois Aro tinha um dom adicional m uito poderoso, com o o que Edy the tinha, porém mais, disse ela. E os Volturi não sabiam se conseguiriam se sair bem sem ele. Mas Sulpicia procurou um a j ovem , Mele, a que Edy the cham ou de serva e ladra, que tinha um dom próprio. Ela conseguia absorver o dom de outro vam piro. Não podia usar o dom roubado, m as podia dar para outra pessoa em quem tocasse. Sulpicia fez Mele pegar o dom de Aro, e Marcus o executou. Quando conseguiu ter o dom do m arido, Sulpicia descobriu que o terceiro hom em do grupo estava envolvido no plano. Ele tam bém foi executado, e sua esposa, Athenodora, se j untou a Sulpicia e Marcus para liderar os soldados. Eles derrubaram os vam piros que aterrorizavam a Europa e os que escravizavam o Egito. Quando estavam no com ando, criaram regulações que m antiveram o m undo vam piro escondido e em segurança.
Escutei o m áxim o que consegui. Não era distração da dor, pois não havia fuga. Mas era m elhor do que pensar no fogo.
Edy the disse que foram os Volturi que criaram todas as histórias sobre cruzes e água benta e espelhos. Ao longo dos séculos, transform aram todos os relatos sobre vam piros em m ito. E agora, faziam as coisas continuarem assim . Os vam piros tinham que ficar nas som bras, senão haveria consequências. Portanto, eu não podia ir até a casa do m eu pai e deixar que ele visse os olhos que Edy the disse que seriam intensos. Eu não podia dirigir até a Flórida para abraçar m inha m ãe e dizer que eu não estava m orto. Não podia nem ligar para ela e explicar a m ensagem confusa que deixei na secretária eletrônica. Se houvesse algum a coisa no noticiário, se qualquer boato se espalhasse dizendo que um a coisa não natural estava envolvida, os soldados Volturi podiam com eçar a investigar.
Eu tinha que desaparecer silenciosamente. O fogo doía m ais do que ouvir essas coisas. Mas eu sabia que nem sem pre seria com o estava. Em pouco tem po, isso doeria m ais. Edy the seguiu em frente rapidam ente e m e contou sobre os am igos no Canadá que viviam da m esm a form a. Os irm ãos russos louros e dois vam piros espanhóis que eram a fam ília m ais próxim a dos Cullen. Ela m e disse que dois deles tinham poderes adicionais: Kirill conseguia fazer algum a coisa elétrica e Elena sabia qual era o talento de cada vam piro que conhecia. Ela m e contou sobre outros am igos por todo o m undo. Na Irlanda e no Brasil e no Egito. Tantos nom es. Archie acabou se m etendo de novo para m andar que ela priorizasse.
Edy the m e contou que eu j am ais envelheceria. Que sem pre teria dezessete anos, feito ela. Que o m undo m udaria ao m eu redor, e eu m e lem braria de tudo e não esqueceria um segundo.
Ela m e contou com o os Cullen viviam , que se m udavam de lugar nublado para lugar nublado. Earnest reform ava um a casa para eles. Archie investia os bens com retorno incrivelm ente bom . Eles escolhiam um a história que explicasse o relacionam ento deles, e Jessam ine criava novos nom es e passados docum entados para cada um . Carine assum ia um em prego em um hospital usando as novas credenciais, ou voltava para a universidade para estudar um cam po novo. Se o local parecesse prom issor, os Cullen m ais novos fingiam serem ainda m ais novos para ficarem m ais tem po.
Quando m eu tem po sendo vam piro novo acabasse, eu poderia voltar à escola. Mas m inha educação não teria que esperar. Eu tinha m uito tem po à frente e m e lem braria de tudo que lesse ou ouvisse.
Eu j am ais voltaria a dorm ir.
Com ida passaria a ser repugnante para m im . Eu j am ais voltaria a sentir fom e, só sede.
Eu j am ais ficaria doente. Jam ais sentiria cansaço. Conseguiria correr m ais rápido do que um carro de corrida. Seria m ais forte do que qualquer outra espécie viva do planeta.
Não precisaria respirar.
Conseguiria ver m ais claram ente, ouvir ainda que os m enores sons.
Meu coração pararia de bater no dia seguinte ou dois dias depois e j am ais voltaria.
Eu seria um vam piro.
Um a coisa boa na queim ação: perm itiu que eu ouvisse tudo com um certo distanciam ento. Deixou que eu processasse o que ela estava m e contando sem em oção. Eu sabia que as em oções viriam depois. Quando estava com eçando a escurecer de novo, nossa viagem acabou. Edy the m e carregou para dentro de casa com o se eu fosse um a criança e se sentou com igo na sala grande. O fundo por trás do rosto dela foi de preto a branco. Eu conseguia vê-la com bem m ais clareza agora e achava que não era só por causa da luz.
Nos olhos dela, m eu rosto se refletiu, e fiquei surpreso de ver que parecia um rosto e não um bloco de carvão, ainda que um rosto em sofrim ento. Mesm o assim , talvez eu não fosse a pilha de cinzas que m e sentia. Ela m e contou histórias para ocupar o tem po, e os outros se revezaram para aj udá-la. Carine se sentou no chão ao m eu lado e m e contou um a história incrível sobre a fam ília de Jules: que a bisavó dela foi um a lobisomem. Todas as coisas de que Jules debochou eram verdade. Carine m e contou que prom eteu a eles que j am ais m orderia um hum ano. Era parte do acordo entre eles, o tratado que queria dizer que os Cullen não podiam ir a oeste do oceano. Jessam ine m e contou a história dela. Acho que decidiu que eu estava pronto agora. Fiquei feliz, quando ela contou, de m inhas em oções estarem enterradas debaixo do fogo. Ela tam bém perdeu a fam ília quando o hom em que a criou roubou-a sem aviso. Ela m e contou sobre o exército ao qual pertenceu, um a vida de carnificina e m orte, e que depois se libertou. Contou-m e sobre o dia que Archie deixou que ela o encontrasse.
Earnest m e contou que a vida term inou antes de ele se m atar, sobre a esposa instável e alcoólatra e a filha que ele am ava m ais do que à sua própria alm a. Contou-m e sobre a noite em que a esposa, em um surto alcoolizado, pulou de um penhasco com a filhinha nos braços e que ele não pôde fazer nada além de ir atrás. Depois, m e contou que, após a dor, houve a m ulher m ais bonita do m undo de uniform e, um a enferm eira que ele reconheceu de tem pos m ais felizes em outra época, quando não passava de um j ovem . A enferm eira não tinha envelhecido nem um dia.
Eleanor m e contou que foi atacada por um urso e que viu o anj o que a levou para Carine em vez de para o céu. Contou-m e que achou prim eiro que tinha sido m andada para o inferno, e de form a j usta, ela adm itia, m as que era o paraíso, afinal.
Foi ela que m e contou que o ruivo escapou. Ele não chegou perto de Charlie depois da vez que revistou a casa. Quando todos voltam os a Forks, Roy al e Jessam ine seguiram o rastro do hom em o m ais longe que conseguiram ; desaparecia no m ar de Salish e eles não conseguiram encontrar o local onde saiu. Até onde eles sabiam , o hom em podia ter nadado direto até o Pacífico até outro continente. Ele devia ter suposto que Joss havia perdido a luta e percebeu que era m ais inteligente desaparecer.
Até Roy al falou. Ele m e contou sobre um a vida consum ida pela vaidade, por coisas m ateriais, am bição. Contou-m e sobre a única filha de um hom em poderoso (m as não entendi que tipo de poder o hom em tinha) e que planej ou se casar com ela e se tornar herdeiro da dinastia. Que a bela filha fingiu am á-lo para agradar o pai e que ela viu quando seu am ante de um a m áfia crim inosa rival espancou Roy al quase até a m orte, que ela riu em voz alta o tem po todo. Ele m e contou sobre a vingança que executou. Roy al era o m enos cuidadoso com as palavras. Ele m e contou com o foi perder a fam ília e que nada valia o que ele perdeu.
Edy the sussurrou o nom e de Eleanor; ele grunhiu um a vez e foi em bora. Acho que deve ter sido quando Roy al ou Eleanor estavam falando que Archie viu o vídeo de Joss feito no estúdio de dança. Quando Roy al foi em bora, Archie tom ou o lugar dele. Prim eiro, eu não sabia de que eles estavam falando, porque só Edy the estava falando em voz alta, m as acabei entendendo. Archie estava procurando no laptop, tentando dim inuir as opções de onde ele ficou quando era hum ano. Fiquei feliz de ele não parecer m encionar m ais nada sobre a fita, o foco foi só no passado dele. Fiquei tentando lem brar com o usar a voz para im pedi-lo se ele tentasse dizer qualquer coisa sobre o resto. Eu esperava que Archie fosse inteligente o bastante para ter destruído a fita antes que Edy the pudesse assistir. As histórias m e aj udaram a pensar em outras coisas, a m e preparar, enquanto o fogo queim ava, m as só consegui prestar atenção parcialm ente. Minha m ente estava catalogando o fogo, vivenciando-o de novas form as. Era incrível com o cada centím etro da m inha pele, cada m ilím etro, era tão distinto. Parecia que eu conseguia sentir todas as m inhas células queim ando individualm ente. Eu conseguia sentir a diferença entre a dor nas paredes dos pulm ões e a sensação nas solas dos m eus pés, dentro dos globos oculares e pela m inha coluna. Todas as dores diferentes claram ente separadas.
Consegui ouvir m eu coração disparado; parecia tão alto. Com o se estivesse ligado em um am plificador. Tam bém consegui ouvir outras coisas. Principalm ente a voz de Edy the, às vezes os outros falando, em bora não pudesse vê-los. Ouvi m úsica um a vez, m as não sabia de onde vinha.
Parecia que fiquei no sofá, com a cabeça no colo de Edy the, por vários anos. As luzes ficaram acesas, então eu não sabia se era noite ou dia. Mas os olhos de Edy the estavam sem pre dourados, então eu achava que o fogo estava m entindo sobre o tem po de novo.
Eu estava tão ciente de cada term inação nervosa do m eu corpo que soube im ediatam ente quando algo m udou.
Com eçou com m eus dedos dos pés. Não consegui senti-los. Parecia que o fogo tinha finalm ente vencido, que tinha com eçado a queim ar partes de m im . Edy the dissera que eu estava m e transform ando, não m orrendo, m as nesse m om ento de pânico achei que ela tivesse se enganado. Talvez essa coisa de vam piros não fosse dar certo com igo. Talvez a queim ação toda tivesse sido só um j eito lento de m orrer. O pior j eito.
Edy the sentiu que eu estava surtando de novo e com eçou a cantarolar no m eu ouvido. Tentei olhar o lado positivo. Se estava m e m atando, pelo m enos acabaria. E, se ia acabar, pelo m enos eu passei o resto da m inha vida nos braços de Edy the.
E, então, percebi que m eus dedos dos pés ainda estavam lá, só não estavam m ais pegando fogo. Na verdade, o fogo estava passando nas solas dos pés tam bém . Fiquei feliz de entender o que estava acontecendo, porque as pontas dos m eus dedos vieram em seguida. Não havia m ais necessidade de pânico, talvez fosse m otivo para ter esperanças. O fogo estava indo em bora. Só que parecia estar fazendo m ais do que ir em bora; estava… se m ovendo. Todo o fogo que se afastava das m inhas extrem idades parecia estar indo para o centro do m eu corpo, abastecendo a brasa lá, que estava m ais quente do que antes. Eu não conseguia acreditar que existia um a opção mais quente. Meu coração, j á tão alto, com eçou a bater m ais rápido. O núcleo do fogo parecia estar lá. Estava sugando as cham as das m inhas m ãos e dos m eus tornozelos, deixando-os sem dor, m as m ultiplicando o calor e a dor no m eu coração. — Carine — cham ou Edy the.
Carine entrou na sala, e o incrível nisso foi que eu a ouvi. Edy the e a fam ília nunca faziam barulho quando se m oviam . Mas agora, se eu prestasse atenção, conseguia ouvir o som baixo dos lábios de Carine roçando um no outro quando ela falou.
— Ah. Está quase no fim .
Eu queria sentir alívio, m as a agonia crescente no m eu peito tornava im possível que eu sentisse qualquer outra coisa. Olhei no rosto de Edy the. Ela estava m ais linda do que em qualquer outra ocasião, porque eu conseguia vê-la m elhor do que j á tinha visto em qualquer outra ocasião. Mas não conseguia adm irá-la. Tanta dor.
— Edy the — cham ei, arfando.
— Você está bem , Beau. Está acabando. Me desculpe, eu sei. Eu m e lem bro. O fogo se espalhou ainda m ais quente pelo m eu coração, puxando as cham as dos m eus cotovelos e j oelhos. Pensei em Edy the passando por isso, sofrendo assim , e tive um a perspectiva diferente da m inha dor. Ela nem conhecia Carine na época. Não sabia o que estava lhe acontecendo. Não foi abraçada durante o tem po todo pelos braços de alguém que ela am ava.
A dor tinha sum ido de quase todas as partes, m enos do m eu peito. A única parte que sobrava era m inha garganta, m as era um tipo de queim ação diferente agora… m ais seca… irritante…
Ouvi m ais passos, e tive quase certeza de que conseguia perceber a diferença entre eles. O passo decisivo e confiante era de Eleanor, eu tinha certeza. O de Archie era um m ovim ento m ais rápido e m ais ritm ado. O de Earnest era m ais lento, pensativo. Jessam ine foi quem parou na porta. Pensei ter ouvido Roy al respirando atrás dela.
E então…
— Aaah!
Meu coração decolou, batendo com o hélices de helicóptero, o som quase um a única nota suspensa. Parecia que arrebentaria m inhas costelas. O fogo subiu pelo centro do m eu peito, sugando todas as cham as do resto do m eu corpo para alim entar a queim ação m ais dolorosa de todas. Era suficiente para m e deixar atordoado. Meu corpo se dobrou, com o se o fogo estivesse m e arrastando pelo coração.
Parecia que estava havendo um a guerra dentro de m im : m eu coração disparado contra o fogo ardente. Os dois estavam perdendo. O fogo apertou com m ais força e se concentrou em um a bola do tam anho de um punho form ada de dor, com um a força final e insuportável. A força foi recebida por um baque grave com som vazio. Meu coração pulou duas vezes, depois bateu silenciosam ente m ais um a vez.
Não havia som . Nem respiração. Nem a m inha. Por um segundo, só consegui processar a ausência de dor. A queim ação seca na m inha garganta era fácil de ignorar, porque todas as outras partes de m im estavam com um a sensação incrível. A libertação era incrivelm ente eufórica. Olhei para Edy the, m aravilhado. Parecia que havia tirado um a venda que usei toda a vida. Que visão.
— Beau? — perguntou ela. Agora que eu conseguia m e concentrar, a beleza da voz dela era irreal.
— É desorientador, eu sei. Você se acostum a.
Eu poderia m e acostum ar a ouvir um a voz assim ? A ver um rosto assim ? — Edy the — falei, e o som da m inha voz m e assustou. Era eu? Não parecia com igo. Não parecia… hum ano.
Nervoso, estiquei a m ão para tocar na bochecha dela. No m esm o m om ento que o desej o de tocar nela entrou na m inha m ente, m inha m ão aninhou a lateral do rosto dela. Não havia m eio-term o, não havia o processo de levantar a m ão, vê-la se m over até o destino. Ela apenas apareceu lá. — Hã.
Ela se inclinou para o m eu toque, colocou a m ão na m inha e a segurou contra o rosto. Foi estranho porque foi fam iliar. Eu sem pre adorava quando ela fazia isso, adorava ver que ela gostava de form a tão óbvia quando eu a tocava assim , que era im portante para ela. Mas tam bém não era nada parecido. O rosto dela não estava m ais frio. A m ão dava a sensação certa na m inha. Não havia diferença entre nós agora.
Fiquei olhando nos olhos dela e depois olhei m elhor para a im agem refletida neles.
— Ahh… — Um pequeno arfar escapou da m inha garganta por acidente, e senti m eu corpo travar de surpresa. Foi estranho, parecia a coisa natural a fazer, virar um a estátua porque eu estava chocado.
— O que foi, Beau? — Ela se inclinou m ais para perto, preocupada, m as isso só trouxe o reflexo para m ais perto.
— Os olhos? — sussurrei.
Ela suspirou e franziu o nariz.
— Depois m uda — prom eteu ela. — Eu m e apavorei cada vez que m e olhei no espelho durante seis m eses.
— Seis m eses — m urm urei. — Depois vão ficar dourados, com o os seus? Ela afastou o olhar, por cim a das costas do sofá, para alguém de pé atrás de nós, onde eu não conseguia enxergar. Eu queria m e sentar e olhar ao redor, m as estava com um certo m edo de m e m exer. Meu corpo estava tão estranho. — Depende da sua dieta, Beau — disse Carine calm am ente. — Se você caçar com o nós, seus olhos vão acabar ficando dessa cor. Se não, seus olhos vão ficar com o os de Lauren.
Decidi tentar m e sentar.
E, com o antes, pensar foi fazer. Sem qualquer m ovim ento, eu estava ereto. Edy the segurou m inha m ão quando a afastei do rosto dela. Atrás do sofá, todos estavam reunidos, olhando. Acertei m eus palpites em cem por cento: Carine estava m ais perto, depois Eleanor, Archie e Earnest. Jessam ine na porta que levava a outra sala com Roy al olhando por cim a do om bro dela. Olhei nos rostos deles, chocado de novo. Se m eu cérebro não estivesse… com tão m ais espaço do que antes, eu teria esquecido o que ia dizer. Mas, com o estava, m e recuperei bem rápido.
— Não, quero fazer do seu j eito — falei para Carine. — É a coisa certa a fazer. Carine sorriu. Teria tirado m eu fôlego se eu precisasse respirar. — Se fosse fácil assim . Mas é um a escolha nobre. Vam os aj udar o m áxim o que puderm os.
Edy the tocou no m eu braço.
— É m elhor caçarm os agora, Beau. Vai fazer sua garganta doer m enos. Quando ela m encionou m inha garganta, a queim ação seca foi de repente para a frente da m inha m ente. Eu engoli em seco. Mas… — Caçar? — perguntei com m inha nova voz. — Eu, hã, bem , nunca cacei antes. Nem m esm o do j eito norm al com rifles, então acho que eu não poderia… quer dizer, não tenho ideia de com o…
Eleanor riu baixinho.
Edy the sorriu.
— Vou m ostrar a você. É m uito fácil, m uito natural. Você não queria m e ver caçar?
— Só nós? — perguntei, para confirm ar.
Ela pareceu confusa por um a fração de segundo, depois o rosto relaxou. — Claro. O que você quiser. Venha com igo, Beau. E ela estava de pé, ainda segurando m inha m ão. Eu tam bém m e levantei, e foi tão sim ples m e m exer que m e perguntei por que tive m edo de tentar. Qualquer coisa que eu quisesse que aquele corpo fizesse, ele faria. Ela correu até a parede de trás da sala grande, a parede de vidro que tinha virado um espelho agora porque era noite lá fora. Vi as duas figuras pálidas surgindo e parei. O estranho foi que, quando parei, o m ovim ento foi tão repentino que Edy the seguiu em frente, ainda segurando m inha m ão, e apesar de ela ainda estar puxando, eu não m e m ovi. Meu aperto na m ão dela a puxou para trás. Com o se não fosse nada.
Mas eu só estava reparando nisso com parte do m eu cérebro. Eu estava m esm o era olhando para o m eu reflexo.
Eu tinha visto m eu rosto curvado no form ato convexo dos olhos dela, só o centro, sem beiradas. Só tinha m esm o visto m eus olhos, brilhantes, quase cintilando em vermelho, e isso foi o bastante para m e dar foco. Agora, eu vi m eu rosto todo, m eu pescoço, m eus braços.
Se alguém tivesse cortado um contorno do m eu eu hum ano, essa versão ainda caberia no espaço. Mas, apesar de eu ocupar o m esm o volum e, todos os ângulos estavam diferentes. Mais duros, m ais pronunciados. Com o se alguém tivesse feito um a escultura de gelo de m im e deixado as beiradas afiadas. Meus olhos… Era difícil olhar ao redor da cor, m as a form a deles tam bém parecia diferente. Vagam ente, com o se eu estivesse m e lem brando de um a coisa que só vi por água enlam eada, eu m e lem brei de com o m eus olhos eram . Indecisos. Com o se eu nunca tivesse certeza de quem eu era. E então, depois de Edy the (ainda tão difícil de ver na lem brança, desconfortável de tentar), eles ficaram m ais decididos de repente.
Esses olhos deram um passo além da decisão; eles eram selvagens. Se eu encontrasse esse eu em um beco escuro, ficaria m orrendo de m edo de m im . Esse era o obj etivo, eu acho. As pessoas deviam sentir m edo de m im agora. Eu ainda estava com a calça j eans suj a de sangue, m as estava com um a cam isa azul-clara desconhecida. Não m e lem brei disso ter acontecido, m as eu conseguia entender; vam piro ou hum ano, ninguém queria andar por aí com um a pessoa encharcada de vôm ito.
— Opa — falei. Grudei o olhar no de Edy the pelo reflexo. Isso tam bém era estranho. Porque o Beau no espelho parecia… certo ao lado de Edy the. Com o se ali fosse o lugar dele. Não com o antes, quando as pessoas só podiam ficar im aginando que ela estava com pena de m im . — É m uita coisa — disse ela.
Eu respirei fundo e assenti.
— Tudo bem .
Ela puxou m inha m ão de novo, e fui atrás. Antes de um quarto de segundo ter passado, atravessam os as portas de vidro atrás da escada e fom os para o gram ado dos fundos.
Não havia luar nem estrelas, as nuvens estavam densas dem ais. Devia estar preto com o breu fora do retângulo de luz que passava pela parede de vidro, m as não estava. Eu conseguia ver tudo.
— Opa — repeti. — Isso é tão legal. Edy the olhou para m im com o se estivesse surpresa pela m inha reação. Ela tinha esquecido com o era a prim eira vez que se via o m undo por olhos de vam piro? Eu achava que ela tinha dito que eu não esqueceria m ais nada. — Vam os ter que dar a volta pelo bosque — disse ela. — Só por garantia. Eu m e lem brei do essencial que ela m e contou sobre caçar. — Certo. Para que não haj a pessoas perto. Entendi. Mais um a vez, aquela expressão surpresa surgiu no rosto dela e sum iu. — Me siga — disse ela.
Ela desceu pelo gram ado com tanta rapidez que eu soube que ela seria invisível aos m eus antigos olhos. Depois, na beira do rio, ela se lançou em um arco alto que a lançou por cim a do rio até as árvores além . — É sério? — gritei.
Eu a ouvi rir.
— Juro que é fácil.
Ótim o.
Eu suspirei e saí correndo.
Correr nunca foi m eu forte. Eu ia bem em um a pista plana, se estivesse prestando atenção e m antivesse os olhos nos pés. Tudo bem , para falar a verdade, m esm o assim eu ainda conseguia em bolar os pés e cair. Isso foi diferente. Eu estava voando, voando pelo gram ado, m ais rápido do que j á m e m ovi, m as era sim ples dem ais colocar os pés exatam ente onde deviam estar. Eu conseguia sentir todos os m eus m úsculos, quase ver as ligações conform e eles trabalhavam j untos, m andá-los fazer exatam ente o que eu precisava. Quando cheguei à beirada do rio, nem parei. Dei im pulso na m esm a pedra que ela usou, e aí voei de verdade. O rio passou por baixo de m im quando disparei pelo ar. Passei por onde ela caiu e desci no bosque.
Senti um instante de pânico quando m e dei conta de quem nem considerei o pouso, m as m inha m ão j á parecia saber com o se apoiar em um galho grosso e virar o corpo para que m eus pés batessem no chão quase sem som .
— Caram ba — sussurrei, sem acreditar.
Ouvi Edy the correndo pelas árvores, e o gingado dela j á era tão fam iliar para m im quanto o som da m inha própria respiração. Eu sabia que conseguiria perceber a diferença entre o som dos passos dela e os de qualquer outra pessoa. — Tem os que fazer isso de novo! — falei assim que a vi. Ela parou a poucos m etros de m im , e um a expressão frustrada que eu conhecia bem surgiu no rosto dela.
Eu ri.
— O que você quer saber? Eu conto o que estou pensando. Ela franziu a testa.
— Não entendo. Você está… de ótim o hum or. — Ah. Isso é errado?
— Você não está m orrendo de sede?
Engoli m esm o com a queim ação. Era ruim , m as não tão ruim quanto o resto do fogo que eu tinha acabado de deixar para trás. A queim ação-sede estava sem pre presente e ficava pior quando eu m e concentrava nela, m as havia tantas outras coisas em que m e concentrar.
— Sim , quando eu penso nisso.
Edy the em pertigou os om bros.
— Se você quiser fazer isso prim eiro, tudo bem tam bém . Eu olhei para ela. Obviam ente, eu não estava percebendo algum a coisa. — Fazer isso? O quê?
Ela olhou para m im por um segundo, os olhos cheios de dúvida. De repente, levantou as m ãos.
— Sabe, eu achava m esm o que quando sua m ente estivesse m ais parecida com a m inha, eu conseguiria ouvi-la. Acho que isso nunca vai acontecer. — Desculpe.
Ela riu, m as havia um a nota infeliz no som da risada. — Sinceram ente, Beau.
— Você pode m e dar um a dica sobre o que estam os falando? — Você queria que ficássem os sozinhos — disse ela, com o se isso fosse um a explicação.
— Hã, é.
— Porque você tinha coisas que queria dizer para m im ? — Ela firm ou os om bros de novo, ficando tensa, com o se esperasse um a coisa ruim . — Ah. Bom , acho que há coisas a dizer. Ou m elhor, tem um a coisa im portante, m as eu não estava pensando nisso. — Ao ver o quanto ela estava frustrada pela confusão que estava acontecendo, fui totalm ente sincero. — Eu queria ficar sozinho com você porque… Bom , eu não queria ser rude, m as tam bém não queria fazer essa coisa de caçar na frente de Eleanor — confessei. — Achei que havia um a boa chance de eu fazer algum a coisa errada, e não conheço Eleanor tão bem ainda, m as tenho a sensação de que ela acharia bem engraçado. Ela arregalou os olhos.
— Você estava com m edo de Eleanor rir de você? Sério, é só isso? — Sério. Sua vez, Edy the. O que achou que estivesse acontecendo? Ela hesitou.
— Achei que você estivesse sendo um cavalheiro. Achei que preferisse gritar com igo sozinho e não na frente da m inha fam ília. Eu congelei de novo. Perguntei-m e se isso ia acontecer cada vez que eu ficasse surpreso. Dem orei um segundo para descongelar. — Gritar com você? — repeti. — Edy the… ah! Você está falando sobre todas aquelas coisas que veio falando no carro, certo? Me desculpe por aquilo, eu… — Me desculpe? Por que motivo você está pedindo desculpas agora, Beau Swan? Ela pareceu estar com raiva. Com raiva e tão linda. Não consegui im aginar por que estava tão tensa. Dei de om bros.
— Eu queria contar para você na hora, m as não consegui. Quer dizer, não conseguia nem m e concentrar…
— É claro que você não conseguiu se concentrar… — Edy the! — Atravessei o espaço entre nós em um a passada larga invisível e coloquei as m ãos nos om bros dela. — Você nunca vai saber o que estou pensando se ficar m e interrom pendo.
A raiva no rosto dela sum iu enquanto ela se acalm ava. E então, ela assentiu. — Tudo bem — falei. — No carro… eu queria dizer naquela hora que você não precisava pedir desculpas, eu m e senti péssim o por você estar tão triste. Isso não é sua culpa…
Ela com eçou a dizer algum a coisa, m as coloquei o dedo nos lábios dela. — E nem é tão ruim — prossegui. — Estou… bom , m inha cabeça ainda está girando e sei que há m ilhões de coisas em que pensar e estou triste, claro, m as tam bém estou bem , Edy the. Estou sem pre bem quando estou com você. Ela ficou m e olhando por um longo m inuto. Lentam ente, levantou a m ão para afastar m eu dedo da sua boca. Eu não a im pedi. — Você não está com raiva de m im pelo que fiz com você? — perguntou ela baixinho.
— Edy the, você salvou m inha vida! De novo. Por que eu sentiria raiva? Por causa do jeito com o a salvou? O que m ais poderia ter feito? Ela expirou, quase com o se estivesse com raiva de novo. — Com o você…? Beau, você tem que ver que é tudo m inha culpa. Eu não salvei sua vida, eu a tirei de você. Charlie… Renée… Coloquei o dedo sobre os lábios dela de novo e respirei fundo. — Sim . É difícil e vai ser difícil por bastante tem po. Talvez para sem pre, certo? Mas por que eu colocaria a culpa disso nas suas costas? Foi Joss que… Bem , que m e m atou. Você m e trouxe de volta à vida.
Ela em purrou m inha m ão.
— Se eu não tivesse envolvido você no m eu m undo… Eu ri, e ela olhou para m im com o se eu tivesse perdido a sanidade. — Edy the, se você não tivesse m e envolvido no seu m undo, Charlie e Renée teriam m e perdido três m eses antes.
Ela ficou m e olhando com a testa franzida. Era óbvio que ela não estava aceitando nada daquilo.
— Você se lem bra do que eu disse quando você salvou m inha vida em Port Angeles? Na segunda vez, ou terceira. — Eu quase não m e lem brava. As palavras eram m ais fáceis de lem brar do que as im agens. Eu sabia que tinha sido m ais ou m enos assim . — Que você estava alterando m eu destino porque m inha hora tinha chegado? Bem … se eu tinha que m orrer, Edy the… esse não é o j eito m ais incrível de fazer isso?
Um longo m inuto se passou enquanto ela m e olhava, e depois balançou a cabeça. — Beau, você é incrível.
— Acho que agora, sou.
— Sem pre foi.
Eu não falei nada, e m eu rosto m e traiu. Ou ela era boa assim . Ela conhecia m eu rosto tão bem , passou tanto tem po tentando m e entender, que soube na m esm a hora quando havia um a coisa que eu não estava dizendo. — O que foi, Beau?
— Só… um a coisa que Joss disse.
Eu fiz um a careta. Apesar de ser difícil ver as coisas na m inha m em ória antiga, o estúdio de dança era a m ais recente, m ais vívida. O m axilar de Edy the se enrij eceu.
— Ela disse m uitas coisas — sibilou ela.
— Ah. — De repente, senti vontade de socar algum a coisa. Mas tam bém não queria m e afastar de Edy the para fazer isso. — Você viu a fita. O rosto dela ficou totalm ente branco. Furioso e agonizante ao m esm o tem po. — Sim , eu vi a fita.
— Quando? Eu não ouvi…
— Fones de ouvido.
— Eu queria que você não tivesse…
Ela balançou a cabeça.
— Eu tinha que ver. Mas esqueça isso agora. Em que m entira você estava pensando? — Ela cuspiu as palavras entredentes. Dem orei um m inuto.
— Você não queria que eu fosse vam piro.
— Não. Não queria de j eito nenhum .
— Então essa parte não era m entira. E você anda tão chateada… Sei que se sente m al por causa de Charlie e da m inha m ãe, m as acho que estou com m edo de parte disso ser porque, bem , você não esperava que eu ficasse por perto por m uito tem po, não estava planej ando isso… — Ela abriu a boca tão rápido que coloquei a m ão toda em cim a agora. — Porque, se for isso, não se preocupe. Se quiser que eu vá em bora depois de um tem po, eu posso ir. Você pode m e m ostrar o que fazer para que eu não coloque nenhum de nós dois em situação problem ática. Não espero que você m e aguente para sem pre. Você não escolheu isso, tanto quanto eu. Quero que você saiba que estou ciente disso. Ela esperou que eu afastasse a m ão. Fiz isso lentam ente. Eu não sabia se queria ouvir o que viria em seguida.
Ela rosnou baixinho e m ostrou os dentes para m im , m as não em um sorriso. — Você tem sorte de eu não ter m ordido você — disse ela. — Na próxim a vez que você colocar a m ão na m inha boca para dizer um a coisa tão idiota e insultante, eu vou m order.
— Desculpe.
Ela fechou os olhos. Os braços envolveram m inha cintura e ela apoiou a cabeça no m eu peito. Meus braços envolveram o corpo dela autom aticam ente. Ela inclinou o rosto para cim a para olhar para m im . — Quero que você m e escute com m uita atenção, Beau. Isto, ter você com igo, ficar com você aqui, é com o se todos os m eus desej os egoístas tivessem sido realizados. Mas o preço para tudo que quero era tirar exatam ente a m esm a coisa de você. Toda a sua vida. Estou com raiva de m im m esm a, estou decepcionada com igo m esm a. E queria tanto poder trazer a rastreadora de volta à vida para poder m atá-la eu m esm a, repetidas vezes, sem parar… “O m otivo para eu não querer que você fosse vam piro não era por você não ser especial o bastante, era por você ser tão especial que m erecia m ais. Eu queria que você tivesse o que todos nós sentim os falta, um a vida hum ana. Mas você tem que saber, se fosse só por m inha causa, se não houvesse preço para você pagar, esta noite seria a m elhor da m inha vida. Venho olhando a cara da eternidade há um século, e esta noite é a prim eira vez em que m e pareceu bonita. Por sua causa.
“Nunca m ais pense que não quero você. Eu vou sem pre querer você. Não m ereço você, m as sem pre vou am á-lo. Está claro?” Era óbvio que ela estava sendo sincera. A verdade ecoava em cada palavra. Um sorriso enorm e se abriu no m eu rosto novo. — Então está tudo bem .
Ela tam bém sorriu.
— Eu diria que sim .
— Essa era a coisa im portante que eu queria dizer, só que eu am o você. Sem pre vou am ar. Soube disso desde o com eço. Então, sendo assim que as coisas estão, acho que conseguim os resolver o resto.
Segurei o rosto dela nas m ãos e m e inclinei para beij á-la. Com o todo o resto, isso era fácil agora. Nada com que m e preocupar, nenhum a hesitação. Mas foi estranho m eu coração não sair batendo loucam ente, o sangue não estar disparando nas m inhas veias. Mas alguma coisa estava zum bindo por m im com o eletricidade, cada nervo do m eu corpo vivo. Mais do que vivo, com o se todas as m inhas células estivessem com em orando. Eu só queria segurá-la assim e não precisaria de m ais nada pelos cem anos seguintes. Mas ela se soltou, e estava rindo. Dessa vez, a gargalhada estava cheia de alegria. Parecia um canto.
— Com o você está fazendo isso? — Ela riu. — Você devia ser um vam piro recém -nascido, m as aqui está, discutindo o futuro com igo calm am ente, sorrindo para m im , m e beijando! Você devia estar com sede e m ais nada. — Estou com um m onte de outras coisas — falei. — Mas estou com bastante sede, agora que você tocou no assunto.
Ela se ergueu nas pontas dos pés e m e beij ou um a vez, intensam ente. — Eu te am o. Vam os caçar.
Correm os j untos na escuridão que não era escura, e não senti m edo. Isso seria fácil, eu sabia, com o todo o resto.