Vida e Morte

Stephenie Meyer · Capítulo 8 de 27

Páginas do PDF

Vida e Morte

6. Histórias de Terror

 

ENQUANTO TENTAVA ME concentrar no terceiro ato de Macbeth, eu tentava ouvir m inha picape. Achava que, m esm o com o m artelar da chuva, poderia ouvir o rugido do m otor. Mas, quando olhei pela j anela de novo, de repente ela estava ali.

Eu não estava anim ado para acordar na sexta-feira, e ela m ais do que cum priu m inhas expectativas negativas. É claro que houve com entários sobre o desm aio. Jerem y parecia se divertir com a história. Ele riu até engasgar quando Logan fingiu desm aiar na m esa do alm oço. Por sorte, McKay la m anteve a boca fechada, e ninguém parecia saber do envolvim ento de Edy the. Mas Jerem y tinha m uitas perguntas sobre o alm oço do dia anterior. — O que Edy the Cullen queria? — perguntou ele na aula de trigonom etria. — Não sei. — Era a verdade. — Ela não chegou a dizer. — Ela parecia m eio zangada.

Eu dei de om bros.

— Parecia?

— Nunca a vi se sentar com ninguém a não ser a fam ília. Aquilo foi esquisito. — É, foi esquisito — concordei.

Ele pareceu m eio irritado por eu não ter respostas m elhores. A pior parte da sexta-feira foi que, em bora soubesse que ela não estaria lá, eu ainda esperava. Quando fui para o refeitório com Jerem y e McKay la, não consegui deixar de olhar a m esa dela, onde Roy al, Archie e Jessam ine estavam conversando com as cabeças próxim as. Perguntei-m e se foi Archie que levou m inha picape para casa ontem e o que achou da tarefa. À m inha m esa de sem pre, todos estavam cheios de planos para o dia seguinte. McKay la estava anim ada de novo, confiando m uito m ais no m eteorologista local do que eu achava que ele m erecia. Eu teria que ver o prom etido sol para acreditar. Pelo m enos, estava m ais quente, quase quinze graus. Talvez o passeio não fosse com pletam ente infeliz.

Interceptei alguns olhares não am istosos de Logan durante o alm oço, que não entendi. Assim com o todo m undo, eu ri do desm aio falso dele. Mas fui entender quando todos fom os para a aula j untos. Acho que ele não percebeu com o eu estava perto dele, logo atrás.

Ele passou a m ão pelo cabelo louro platinado penteado para trás com gel. — Não sei por que Beaufort — disse m eu nom e com desprezo — não se senta logo com os Cullen agora — eu o ouvi m urm urar para McKay la. Eu nunca havia percebido que a voz dele era anasalada, e fiquei surpreso pela m alícia im plícita. Eu não o conhecia bem , não o suficiente para que ele não gostasse de m im . Ou assim eu pensei.

— Ele é m eu am igo, ele senta com a gente — respondeu McKay la. Leal, m as possessiva. Parei para deixar que Jerem y e Allen passassem . Não queria ouvir m ais nada.

***

No j antar, Charlie parecia entusiasm ado com m inha viagem a La Push de m anhã. Acho que ele se sentia culpado por m e deixar em casa sozinho nos fins de sem ana, m as passara tem po dem ais form ando seus hábitos para abandoná-los agora. E eu não m e im portava de ficar sozinho. É claro que sabia os nom es de todos os adolescentes que iam , e dos pais deles, e dos bisavós tam bém , provavelm ente. Ele aprovava, claro. Eu m e perguntei se ele aprovaria m eu plano de pegar um a carona para Seattle com Edy the Cullen. Ele parecia gostar m uito dos Cullen. Mas não havia m otivo para contar a ele. — Pai, você conhece um lugar cham ado Goat Rocks ou coisa assim ? Acho que fica ao sul de Mount Rainier.

— Conheço, por quê?

Dei de om bros.

— Um pessoal estava falando de acam par lá.

— Não é um lugar m uito bom para acam par. — Ele pareceu surpreso. — Tem ursos dem ais. A m aioria das pessoas vai lá na tem porada de caça. — Ah. Talvez eu tenha entendido errado.

Eu queria dorm ir um pouco m ais, m as a claridade m e acordou. Em vez da m eia-luz som bria que m e acordou todos os dias nos últim os dois m eses, havia um a luz am arela intensa j orrando pela m inha j anela. Eu nem acreditei, m as ali estava, finalm ente, o sol. Estava no lugar errado, baixo dem ais e não tão perto quanto deveria, m as definitivam ente era o sol. Nuvens ainda tingiam o horizonte, m as um grande trecho de azul ocupava boa parte do céu. Coloquei as roupas rapidam ente, com m edo de o azul sum ir assim que eu desse as costas. A loj a Oly m pic Outfitters, dos Newton, ficava no norte da cidade. Eu j á tinha visto a loj a, m as nunca parei ali, pois não tinha m uita vontade de com prar os equipam entos necessários para ficar ao ar livre intencionalm ente por um longo período de tem po. No estacionam ento, vi o Suburban de McKay la e o Sentra de Tay lor. Quando estacionei perto dos carros delas, vi o grupo parado na frente do Suburban. Erica estava lá, j unto com outras duas m eninas que reconheci da m inha turm a. Eu tinha quase certeza de que os nom es eram Becca e Colleen. Jerem y estava ali, ladeado por Allen e Logan. Outros três caras estavam j unto deles, inclusive um que eu m e lem brava de ter derrubado na educação física na sexta-feira. Esse m e lançou um olhar de raiva quando eu saí do m eu carro e disse algum a coisa para Logan. Eles riram alto, e Logan fingiu estar desm aiando. O outro cara o segurou prim eiro, depois deixou cair. Os dois caíram na gargalhada de novo, com Logan ainda deitado no chão com as m ãos atrás da cabeça.

Então seria assim .

Pelo m enos McKay la ficou feliz em m e ver.

— Você veio! — gritou ela, parecendo anim ada. — E prom eti que hoj e ia fazer sol, não foi?

— Eu falei que viria.

— Só estam os esperando Leann e Sean… a não ser que você tenha convidado alguém — acrescentou ela.

— Não, sou só eu — m enti de leve, esperando não ser pego. Mas valeria a pena ser pego se quisesse dizer passar o dia com Edy the. McKay la sorriu.

— Quer ir no m eu carro? É nele ou na m inivan da m ãe de Leah. — Claro.

O sorriso dela foi enorm e. Era tão fácil deixar McKay la feliz. — Pode sentar na frente — prom eteu ela, e vi Jerem y olhar para nós e fazer cara feia. Não era tão sim ples assim fazer McKay la e Jerem y felizes ao m esm o tem po.

Mas os núm eros deram certo. Leah trouxe m ais duas pessoas, e cada espaço no carro era necessário. Fiz Jerem y entrar antes de m im , então ele ficou entre m im e McKay la no banco da frente do Suburban. McKay la podia ter disfarçado m elhor, m as pelo m enos Jerem y parecia satisfeito. Eram só 24 quilôm etros de Forks a La Push, com florestas verdes, densas e lindas m argeando a estrada na m aior parte do cam inho, e o am plo rio Quillay ute serpenteando em baixo. Fiquei feliz por m e sentar j unto à j anela. Baixam os os vidros — o Suburban era m eio claustrofóbico com nove pessoas lá dentro — e tentei absorver o m áxim o de sol que pude.

Eu j á tinha ido m uitas vezes às praias de La Push durante m eus verões em Forks com Charlie e j á conhecia a curva de oitocentos m etros da prim eira praia. Mas ainda era de tirar o fôlego. A água era cinza-escura, m esm o ao sol, com cristas brancas, e quebrava na praia rochosa. As ilhas surgiam das águas em escarpas em pinadas, coroadas por abetos austeros e elevados. A praia só tinha um a lasca de areia na beira da água; depois disso, se alargava em m ilhões de pedras grandes e lisas que pareciam uniform em ente cinzentas à distância, m as, de perto, tinham todos os tons que um a pedra podia ter. A linha da m aré era tom ada de enorm es troncos trazidos pelo m ar, em branquecidos pelas ondas salgadas, alguns em pilhas na beira da floresta, outros deitados solitários, fora do alcance das ondas.

Havia um vento fresco vindo das ondas, frio e salgado. Pelicanos flutuavam nas ondas enquanto gaivotas e um a águia solitária rodavam acim a deles. As nuvens ainda circundavam o céu, am eaçando invadir a qualquer m om ento, m as por enquanto o sol brilhava coraj osam ente em seu halo de céu azul. Pegam os o cam inho pela areia densa para a praia, McKay la na frente, até um anel de troncos que obviam ente tinham sido usados para festas com o a nossa. Já havia um círculo de fogueira m ontado, cheio de cinzas escuras. Erica e a garota que eu achava que se cham ava Becca j untaram galhos quebrados das pilhas m ais secas j unto à floresta, e logo havia um a construção no form ato de um a tenda indígena no alto das cinzas antigas.

— Já viu um a fogueira de m adeira de praia? — perguntou McKay la. Eu estava sentado em um dos bancos desbotados; Jerem y e Allen estavam sentados dos m eus dois lados, m as a m aior parte do resto do pessoal estava sentada do outro lado do círculo. McKay la se aj oelhou j unto à fogueira, acendendo um dos gravetos m enores com um isqueiro. — Não — eu disse enquanto ela colocava o graveto aceso cuidadosam ente na tenda.

— Então vai gostar dessa. Olhe só as cores. — Ela acendeu outro galho e o colocou j unto do prim eiro. As cham as com eçaram a lam ber rapidam ente a m adeira seca.

— É azul — falei, surpreso.

— É por causa do sal. Legal, né?

Ela acendeu m ais um galho, colocou onde a fogueira ainda não tinha pegado, e depois veio se sentar do m eu lado. Felizm ente, Jerem y estava do outro lado dela. Ela se virou para McKay la e com eçou a fazer perguntas sobre o planej am ento do dia. Fiquei olhando as estranhas cham as azuis e verdes estalarem para o céu. Depois de m eia hora de bate-papo, algum as m eninas queriam andar até as piscinas da m aré baixa próxim as, m as a m aioria dos garotos queria ir até a única loj a do vilarej o para com prar com ida.

Eu não sabia a quem m e j untar. Não estava com fom e e adorava as piscinas de m aré baixa, e isso desde que eu era criança; era um a das poucas coisas que queria ver quando tinha que vir a Forks. Por outro lado, tam bém j á caí m uito nelas. Não é grande coisa quando se tem sete anos e está com seu pai. Isso m e lem brou de repente de Edy the (não que ela não estivesse sem pre em algum lugar dos m eus pensam entos) e do pedido dela para que eu não caísse no m ar. Foi Logan quem decidiu por m im . Ele tinha a voz m ais alta na discussão e queria com er. O grupo se dividiu em três partes, os que iam com er, os que iam cam inhar e os que iam ficar ali, sendo que a m aioria foi com Logan. Esperei até que Tay lor e Erica decidissem ir com ele para m e levantar em silêncio e m e j untar ao grupo da cam inhada. McKay la sorriu quando viu que eu ia com eles. A cam inhada era curta, m as detestei perder o sol nas árvores. A luz verde da floresta era um am biente estranho para o riso adolescente, obscura e agourenta dem ais para se harm onizar com as brincadeiras ao m eu redor. Tive que m e concentrar nos pés e na cabeça, evitando raízes em baixo e galhos em cim a, e logo fiquei para trás. Quando atravessei o lim ite escuro da floresta e reencontrei a praia rochosa, fui o últim o. A m aré estava baixa, e um rio passava por nós a cam inho do m ar. Junto a suas m argens seixosas, piscinas rasas que nunca eram com pletam ente drenadas fervilhavam de vida m arinha. Tive o m áxim o cuidado para não m e inclinar dem ais na beira das piscinas. Os outros não tinham m edo, pulavam nas pedras, em poleiravam -se precariam ente na beira. Achei um a pedra que parecia m uito estável na m argem de um a das m aiores piscinas e m e sentei ali com cautela, fascinado com o aquário natural abaixo de m im . Os buquês de anêm onas ondulavam na correnteza invisível, caranguej os erem itas corriam pelas m argens dentro das conchas espiraladas, estrelas-do-m ar prendiam -se im óveis nas rochas e em outras estrelas, enquanto um a pequena enguia preta de listras brancas ondulava pelas algas verde-claras, esperando o retorno do m ar. Fiquei com pletam ente absorto, a não ser por um a pequena parte da m inha m ente que im aginava o que Edy the estaria fazendo agora e tentando adivinhar o que ela diria se estivesse aqui com igo. De repente, todo m undo ficou com fom e, e eu m e levantei, rígido, para segui-los de volta. Dessa vez, tentei acom panhar o ritm o pela floresta, então, naturalm ente, caí algum as vezes. Fiquei com alguns arranhões leves nas palm as das m ãos, m as não saiu m uito sangue.

Quando voltam os para a prim eira praia, o grupo que deixam os tinha se m ultiplicado. À m edida que nos aproxim ávam os, pude ver o cabelo preto, liso e reluzente e a pele acobreada dos adolescentes recém -chegados da reserva que apareceram para fazer um a social. A com ida j á estava sendo distribuída, e todo m undo que estava na cam inhada correu para reivindicar um a parte. Erica nos apresentava à m edida que cada um de nós entrava na roda da fogueira. Allen e eu fom os os últim os a chegar, e, quando Erica disse nossos nom es, vi um a m enina m ais nova sentada nas pedras perto da fogueira olhar para m im com interesse. Sentei ao lado de Allen, e McKay la nos trouxe sanduíches e refrigerantes. A garota que parecia ser a m ais velha dos visitantes falou o nom e dos sete que estavam com ela. Só o que captei foi que um dos m eninos tam bém se cham ava Jerem y, e a m enina que notou m inha presença se cham ava Julie. Foi relaxante ficar sentado ali com Allen; ele era o tipo de pessoa sossegada, que não sentia a necessidade de preencher cada silêncio com tagarelice e m e deixava livre para pensar enquanto com íam os. E eu estava pensando em com o o tem po parecia fluir de form a estranha em Forks, às vezes passando indistintam ente, com algum as im agens se destacando de form a m ais clara do que outras. Mas, em outras ocasiões, cada segundo era significativo, grudado em m inha m ente. Eu sabia exatam ente o que provocava a diferença e isso m e perturbava.

Durante o alm oço, as nuvens com eçaram a avançar, disparando por um m om ento na frente do sol, lançando som bras com pridas pela praia e escurecendo as ondas. Enquanto term inavam de com er, as pessoas com eçaram a se afastar em grupos de dois ou três. Algum as desceram para a beira da praia, tentando j ogar pedras pela superfície agitada. Outras se reuniram num a segunda expedição às piscinas da m aré baixa. McKay la, com Jerem y com o um a som bra, seguiu para a loj inha. Alguns garotos do lugar foram com eles; outros acom panharam a cam inhada. Depois que todos se espalharam , fiquei sentado sozinho em m eu tronco na praia, com Logan e Tay lor conversando ao lado do CD play er que alguém pensara em trazer, e três adolescentes da reserva, inclusive a m enina cham ada Julie e a garota m ais velha, que tinha agido com o porta-voz.

Alguns m inutos depois de Allen sair com os andarilhos, Julie veio sentar-se ao m eu lado. Parecia ter 14 anos, talvez 15, e tinha cabelos pretos brilhantes e com pridos, presos com elástico num rabo de cavalo na nuca. Sua pele era linda, com seda acobreada, os olhos eram escuros e am plos sobre as m açãs altas do rosto e os lábios se curvavam com o um arco. Era um rosto m uito bonito. Mas m inha opinião foi prej udicada pelas prim eiras palavras que saíram de sua boca. — Você é Beaufort Swan, não é?

Foi com o se o prim eiro dia de aula estivesse se repetindo. — Beau. — Eu suspirei.

— Certo — disse ela, com o se j á soubesse. — Meu nom e é Julie Black. — Ela estendeu a m ão. — Você com prou a picape da m inha m ãe. — Ah — eu disse, aliviado, apertando sua m ão quente. — Você é filha da Bonnie. Eu devia m e lem brar de você.

— Não, eu sou a m ais nova da fam ília. Você deve se lem brar dos m eus irm ãos m ais velhos.

De repente, m e lem brei.

— Adam e Aaron.

Charlie e Bonnie e o m arido dela — George, eu lem brava agora; ele tinha m orrido alguns anos antes, de acidente de carro ou algum a coisa assim , e Charlie ficou m uito triste — nos reuniam m uitas vezes durante m inhas visitas, para nos m anter ocupados enquanto eles pescavam . Nunca fizem os m uito progresso na am izade. É claro que eu tive acessos de raiva suficientes para dar um fim às viagens de pescaria quando tinha 11 anos.

— Adam e Aaron e… Jules, não era?

Ela sorriu.

— Você lem bra. Ninguém m e cham a assim desde que m eus irm ãos saíram de casa.

— Eles não estão aqui? — Exam inei os garotos na beira do m ar, perguntando-m e se os reconheceria agora.

— Não. Adam conseguiu um a bolsa de estudos na Washington State University, e Aaron se casou com um a surfista sam oana. Agora m ora no Havaí.

— Casou. Caram ba. — Eu estava pasm o. Os gêm eos só eram um pouco m ais de um ano m ais velhos do que eu.

— E aí, gostou da picape? — perguntou ela.

— Adorei. Funciona m aravilhosam ente.

— É, m as é bem lenta. — Ela riu. — Fiquei tão aliviada quando Charlie a com prou. Minha m ãe não queria m e deixar trabalhar na m ontagem de outro carro quando tínham os um veículo em perfeito funcionam ento ali. — Não é tão lenta assim — obj etei.

— Já tentou passar de noventa por hora?

— Não — adm iti.

— Ainda bem . Não tente. — Ela sorriu.

Não consegui deixar de sorrir tam bém .

— Ela é ótim a em batidas — propus, em defesa de m inha picape. — Acho que nem um tanque poderia derrubar aquele m onstro velho — concordou ela com outra risada.

— Então você m onta carros? — perguntei, im pressionado. — Quando tenho tem po e peças. Por acaso você sabe onde posso conseguir um cilindro m estre de um Volkswagen Rabbit 1986? — perguntou ela, de brincadeira. Tinha um a voz interessante, calorosa e m eio rouca. — Não, desculpe. — Eu ri. — Não vi nenhum ultim am ente, m as vou ficar de olho para você. — Com o se eu soubesse o que era aquilo. Era m uito fácil conversar com ela.

Ela abriu um sorriso brilhante e olhou para m im de um j eito que eu estava aprendendo a reconhecer. E eu não fui o único a perceber. — Você conhece o Beaufort, Julie? — perguntou Logan. Eu devia saber que alguém com o Logan repararia no quanto não gosto do m eu nom e. — Beau e eu nos conhecem os praticam ente desde que eu nasci — disse Jules, sorrindo para m im de novo.

— Que legal — retrucou Logan. Eu não tinha reparado antes em com o os olhos verde-claros dele eram frios.

Jules ergueu as sobrancelhas ao perceber o tom dele. — Não é m aravilhoso?

O sarcasm o dela pareceu abalar Logan, m as ele ainda não tinha acabado de im plicar com igo.

— Beau, Tay lor e eu estávam os falando que foi um a pena nenhum dos Cullen ter podido vir aqui hoj e. Ninguém pensou em convidá-los? Ele olhou para m im com o se soubesse que eu tinha cham ado Edy the e achasse hilário ela ter recusado. Só que não pareceu rej eição no m om ento, pareceu que ela queria ter vindo com igo, m as não podia. Eu interpretei errado? Minhas preocupações foram interrom pidas por um a voz forte e clara. — Quer dizer a fam ília da Dra. Carine Cullen?

Era a garota m ais velha que antes apresentou o pessoal da reserva. Ela era m ais velha do que eu pensava, agora que estava olhando m elhor. Não m ais um a garota, m as um a m ulher. Diferentem ente de Julie, o cabelo dela estava cortado curto, com o o de um garoto. Ela estava de pé agora, e vi que era quase tão alta quanto eu.

Logan olhou para ela, olhou para cima, porque ela era m ais alta do que ele, irritado por ela ter falado antes de eu poder responder. — É, você conhece? — perguntou ele de um j eito condescendente, virando- se um pouco para ela.

— Os Cullen não vêm aqui — disse ela, e, no tom de voz claro e forçado, pareceu m enos um a observação e m ais um a… ordem . Ela ignorou a pergunta dele, m as a conversa estava encerrada.

Tay lor, tentando recuperar a atenção de Logan, pediu a opinião dele sobre um CD que estava segurando. Ele estava distraído. Olhei para a m ulher, que estava de pé com postura confiante e ereta, olhando na direção da floresta escura. Ela disse que os Cullen não iam ali, m as o tom im plicava m ais algum a coisa; que eles não tinham perm issão para isso, eram proibidos de ir. Suas m aneiras deixaram um a estranha im pressão em m im e tentei ignorá-las, sem sucesso.

Jules interrom peu m inhas reflexões.

— E aí, Forks j á está te deixando louco?

Eu franzi a testa. Possivelm ente, eu j á estava louco naquele m om ento. — Ah, eu diria que este é um j eito suave de dizer a verdade. Ela sorriu com solidariedade.

Eu ainda estava repensando o breve com entário da m ulher sobre os Cullen e com parando com o que interpretei da reação de Edy the no outro dia. Olhei para Jules com especulação.

— O quê? — perguntou ela.

— Quer ir até a praia com igo?

Ela olhou para Logan, depois para m im e deu um sorriso rápido. — Quero. Vam os sair daqui.

Enquanto seguíam os para o norte até o quebra-m ar de troncos, as nuvens finalm ente venceram . O sol desapareceu, o m ar ficou negro e a tem peratura com eçou a cair. Enfiei as m ãos nos bolsos do casaco. Enquanto andávam os, pensei no j eito com o Edy the sem pre m e fazia falar, quando ela m e olhava por baixo dos cílios com pridos e o dourado dos olhos ardia, e eu esquecia tudo: m eu nom e, com o respirar, tudo, m enos ela. Olhei para a garota andando ao m eu lado agora. Jules só estava usando um a blusa de m anga com prida, m as balançava os braços enquanto andava, sem se incom odar com o frio. O vento soprava o cabelo preto e sedoso em curvas e nós nas costas dela. Havia algo m uito natural e aberto no rosto dela. Mesm o que eu soubesse fazer aquela coisa ardente que Edy the fazia, aquela garota provavelm ente só riria de m im . Mas não com crueldade, eu achava. Com Jules, você sem pre estaria por dentro da piada.

— Am igos legais — com entou ela quando estávam os longe o bastante da fogueira para o barulho das pedras debaixo dos nossos pés ser o suficiente para afogar nossas vozes.

— Não são m eus am igos.

Ela riu.

— Deu para perceber.

— Aquelas outras pessoas eram seus am igos? Aquela que estava falando parecia m eio que… m ais velha.

— É a Sam antha. Sam . Ela tem 19 anos, eu acho. Não ando m uito com ela. Um a das m inhas am igas estava lá antes, a Quil. Acho que ela foi até a loj a. — Não lem bro quem ela era.

Ela deu de om bros.

— Eu tam bém não guardei m uitos nom es. Só m e lem brei do seu porque você puxava m eu cabelo.

— Puxava? Desculpa!

Ela riu.

— Olha só a sua cara. Não, só os m eus irm ãos puxavam . Mas eu podia ter convencido você de que era culpado.

Era fácil rir com ela.

— Acho que podia. Ei, posso perguntar um a coisa? — Manda.

— O que aquela garota, Sam , o que ela quis dizer sobre a fam ília da m édica? Jules fez um a careta e afastou o olhar, na direção do oceano. Ela não disse nada. Isso tinha que querer dizer que eu estava certo. Havia m ais algum a coisa por trás do que Sam disse. E Julie sabia o que era.

— Olha, eu não queria ser grosseiro nem nada. Julie se virou com outro sorriso, m eio que pedindo desculpas. — Não se preocupe. É que… não posso falar sobre isso. — É segredo?

Ela repuxou os lábios curvos.

— Mais ou m enos.

Eu levantei as m ãos.

— Esqueça que perguntei.

— Mas j á estraguei tudo, não foi?

— Eu não diria que foi você. Aquela garota, Sam , foi m eio… intensa. Ela riu.

— Legal. A culpa é de Sam então.

Eu tam bém ri.

— Não de verdade. Estou m uito confuso.

Ela olhou para m im e sorriu com o se j á tivéssem os um segredo só nosso. — Posso confiar em você?

— Claro.

— Você não vai sair correndo para contar para o seu am igo louro? — Logan? Ah, claro, não consigo esconder nada daquele cara. Som os com o irm ãos.

Ela gostou disso. Quando riu, m e fez parecer que eu fui m ais engraçado do que realm ente fui.

A voz rouca ficou um pouco m ais baixa.

— Gosta de histórias de terror, Beau?

Por um segundo, consegui ouvir a voz de Edy the com clareza na m ente. Você acha que eu posso ser assustadora?

— De que tipo de terror estam os falando?

— Você nunca m ais vai dorm ir — prom eteu ela. — Ah, agora eu tenho que ouvir.

Ela riu e olhou para baixo, com um sorriso brincando nos cantos dos lábios. Consegui perceber que ela tentaria fazer a história ser boa. Estávam os perto de um dos troncos na praia, um esqueleto branco enorm e com raízes viradas e todas em aranhadas, com o cem pernas de aranha. Jules foi se sentar em um a das raízes m ais grossas enquanto eu m e sentava abaixo dela, no tronco da árvore. Tentei parecer apenas interessado enquanto olhava para ela, e não com o se estivesse levando aquilo a sério.

— Estou pronto para ficar apavorado.

— Conhece algum a das nossas histórias antigas, sobre de onde viem os… quer dizer, dos quileutes? — com eçou ela.

— Na verdade não — adm iti.

— Há m uitas lendas, e dizem que algum as datam da grande inundação. Ao que parece, os antigos quileutes am arraram as canoas no topo das árvores m ais altas da m ontanha para sobreviver, com o Noé e a arca. — Ela sorriu, para m e m ostrar que tam bém não estava levando a sério. — Outra lenda diz que descendem os de lobos, e que as lobas ainda são nossas irm ãs. É contra a lei da tribo m atá-los. E há histórias sobre os frios. — A voz dela ficou um pouco m ais baixa.

— Os frios? — perguntei. Eu parecia interessado dem ais agora? Ela conseguia adivinhar que a palavra frio teria algum significado para m im ? — É. Há histórias dos frios tão antigas quanto as lendas dos lobos, e algum as são m ais recentes. De acordo com a lenda, m inha bisavó conheceu alguns. Foi ela quem fez o acordo que os m anteve longe de nossas terras. — Ela revirou os olhos.

— Sua bisavó? — Eu a estim ulei.

— Ela era um a anciã da tribo, feito m inha m ãe. Olhe só, os frios são os inim igos naturais do lobo. Bom , não do lobo, m as dos lobos que se transform am em m ulheres, com o nossas ancestrais. Você pode cham ar de lobisom ens. — As lobisom ens têm inim igos?

— Só um .

Fiquei olhando para ela com ansiedade, tentando disfarçar m inha im paciência com o se fosse interesse.

— Então, vej a você — continuou Jules —, por tradição, os frios são nossos inim igos. Mas aquele bando que veio para o nosso território na época da m inha bisavó era diferente. Eles não caçavam com o os outros da espécie deles. Não deviam ser perigosos para a tribo. Então, m inha bisavó fez um a trégua com eles. Se prom etessem ficar longe de nossas terras, nós não os revelaríam os aos caras-pálidas. — Ela deu um a piscadela para m im .

— Se eles não eram perigosos, então por quê…? — Sem pre há um risco para os seres hum anos que ficam perto dos frios, m esm o que eles sej am civilizados, com o este clã alegava que era. Nunca se sabe quando podem ficar fam intos dem ais para resistir. — Ela deliberadam ente assum iu um tom de am eaça.

— Com o assim , “civilizados”?

— Eles diziam que não caçavam seres hum anos. Supostam ente, de algum m odo, conseguiam caçar só anim ais.

Tentei m anter m inha voz casual, m as tenho certeza de que falhei. — E o que é que isso tem a ver com os Cullen? Eles são iguais aos frios que sua bisavó conheceu?

— Não… — Ela fez um a pausa dram ática. — Eles são os mesmos. Ela deve ter pensado que a expressão no m eu rosto significava que eu estava absorto com a história. Ela sorriu, satisfeita, e continuou. — Agora há m ais deles, têm um a fêm ea nova e um m acho novo, m as os outros são os m esm os. Na época da m inha bisavó, j á conheciam a líder, Carine. Ela esteve aqui e se foi antes que o seu povo tivesse chegado. — Ela reprim ia outro sorriso e tentava m anter o tom sério.

— E o que eles são? — perguntei, por fim . — O que são os frios? — Bebedores de sangue — respondeu ela num a voz de dar calafrios. — O seu povo os cham a de vam piros.

Olhei a arrebentação agitada depois que ela respondeu, sem ter certeza do que m inha expressão dem onstrava. Você acha que posso ser assustadora?, a voz de Edy the ficava repetindo na m inha cabeça.

— Você está arrepiado. — Jules riu, satisfeita. — Você sabe contar um a história — com entei, ainda olhando as ondas. — Obrigada, m as você só está é com frio. É m uito louco, né? Não surpreende que m inha m ãe não queira que a gente fale sobre isso com ninguém .

Não consegui controlar m inha expressão o suficiente para olhar para ela. — Não se preocupe, não vou falar nada.

— Acho que acabo de violar o trato. — Ela virou a cabeça para trás e deu um a gargalhada.

— Vou levar isso para o túm ulo — prom eti, e depois estrem eci. — Mas, sério, não conte nada ao Charlie. Ele ficou m uito chateado com m inha m ãe quando soube que alguns de nós deixaram de ir ao hospital desde que a Dra. Cullen com eçou a trabalhar lá.

— Não vou dizer nada para Charlie, claro que não. — Então, você acha que som os um bando de nativos supersticiosos ou o quê? — perguntou ela, num tom de brincadeira, m as com um toque de preocupação. Eu ainda não havia tirado os olhos do m ar.

Eu m e virei e sorri para ela com a m aior naturalidade que pude. — Não. Mas acho que você conta histórias de terror m uito bem . Ainda estou arrepiado, está vendo? — Ergui o braço.

— Legal. — Ela sorriu.

E depois, ouvim os o som de pedras se chocando na praia. Nossas cabeças se viraram ao m esm o tem po e vim os McKay la e Jerem y a uns cinquenta m etros de distância, andando na nossa direção.

— Aí está você, Beau — gritou McKay la, aliviada, acenando o braço acim a da cabeça.

— Essa é sua nam orada? — perguntou Jules, alertada pela pontada de ciúm e na voz de McKay la. Fiquei surpreso por ficar tão óbvio. — Não. Por que todo m undo acha isso? Jules riu com deboche.

— Talvez por ela querer que todo m undo pense. Eu suspirei.

— Se precisar de um tem po desses seus am igos, m e avise. — Ótim a ideia — eu disse, e estava falando sério. Eu não sabia se era por nos conhecerm os havia m ais tem po, ainda que não m uito bem , ou se porque Jules era tão sim pática, m as eu j á estava m ais à vontade com ela do que com qualquer outra pessoa com quem voltaria para casa. McKay la nos alcançou, e Jerem y ainda estava alguns passos atrás, se esforçando para acom panhar. McKay la olhou Julie de cim a a baixo um a vez, depois se virou para m im com um j eito que pareceu estranham ente alheio à presença dela. Jules deu outra gargalhada debochada e baixa.

— Onde você estava? — perguntou McKay la, em bora a resposta estivesse bem diante dela.

— A Jules estava m e m ostrando a praia. — Eu sorri para Jules, e ela sorriu para m im . Mais um a vez, foi com o se a gente com partilhasse um segredo. Claro que agora era verdade.

— Bom — disse McKay la, olhando para Jules de novo. — Estam os indo em bora. Parece que vai chover.

Todos olham os para o céu. As nuvens estavam pesadas e pretas e com aparência m uito úm ida.

— Tudo bem — falei. — Estou indo.

— Foi bom ver você de novo — disse Julie, com ênfase no final, e eu sabia que ela estava provocando McKay la.

— Foi m esm o. Da próxim a vez que Charlie vier ver Bonnie, eu tam bém venho. Ela sorriu de orelha a orelha e m ostrou os dentes brancos e retos. — Isso seria legal.

— E obrigado — acrescentei com voz baixa, de form a não m uito casual. Ela piscou para m im .

Puxei o capuz enquanto andávam os sobre as pedras para o estacionam ento. Algum as gotas com eçavam a cair, criando m anchas escuras nas pedras em que pousavam . Quando chegam os ao Suburban, os outros j á estavam guardando tudo nos carros. Entrei no banco traseiro ao lado de Allen e Tay lor, anunciando que j á havia tido m inha oportunidade de sentar na frente. Allen ficou olhando pela j anela a tem pestade que se form ava, e Logan se contorcia no m eio do banco para ocupar a atenção de Tay lor, então fiquei livre para recostar a cabeça, fechar os olhos e m e esforçar m uito para não pensar.