A fronteira

Don Winslow · Capítulo 8 de 25

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A fronteira

2: Ilha da Heroína

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Ilha da Heroína

 

“Arranja-me uma dracma de veneno, mas droga tão violenta que tão veloz se espalhe pelas veias…”

— William Shakespeare

Romeu e Julieta, Ato 5, Cena 1

Staten Island, Nova York

2014

 

Bobby Cirello tem 34 anos.

Jovem, para um detetive.

O chefe Mullen foi quem o fisgou, e ele já trabalha para o homem há

muito tempo. Primeiro foi como infiltrado, no Brooklyn, quando foi chefe da Sete Seis. Cirello levantou uma montanha de casos para ele. Quando Mullen recebeu seu cargo importante na One Police, levou Cirello, e o distintivo dourado foi junto para o outro lado da ponte.

Cirello está contente de ter deixado de trabalhar como infiltrado. Não é

maneira de viver, o tempo todo andando com marginais, viciados e traficantes.

Não dá para ter vida.

Ele gosta do novo emprego, de seu apartamentinho no Brooklyn

Heights, do tamanho ideal para que ele mantenha limpo e arrumado, embora trabalhe muito.

Agora está sentado no escritório de Mullen, no décimo primeiro andar

do One Police Plaza.

Mullen está com o controle remoto na mão e passa os canais da

televisão presa à parede, de um noticiário para outro. Todos os jornais estão mostrando a história da overdose de um ator famoso, e todos se referem à “inundação de heroína” e à “epidemia de heroína” que assola a cidade. E todos dizem que a NYPD parece impotente para deter tudo aquilo.

Cirello sabe que Mullen não é do tipo que aceite sem protestar a descrição de “impotente”. Nem as ligações telefônicas do diretor geral, do comissário, e de Hizzoner, o prefeito. Porra, talvez o único figurão que ainda não tenha feito pressão em Mullen tenha sido o presidente dos Estados Unidos, e isso é provavelmente só porque não tem o telefone dele.

— Então, agora temos uma epidemia de heroína — diz Mullen. — Sabe por que eu sei? O New York Times, o Post, o Daily News, o Voice, a CNN, a Fox, a NBC, a CBS, a ABC e, não nos esqueçamos, o Entertainment Tonight. Isso mesmo, gente, nós estamos sendo ferrados pelo ET. Além de tudo isso, as pessoas estão morrendo por aí. Negros, brancos, jovens, pobres, ricos… essa merda mata sem fazer distinções. Ano passado, tivemos 335 homicídios e 420 overdoses de heroína. Não me importo com a mídia, esse ataque eu posso encarar. O que me importa são essas pessoas morrendo.

Cirello não diz o óbvio. ET não estava nem aí quando eram negros morrendo no Brooklyn. É melhor ficar de boca fechada. Tem muito respeito por Mullen — e, de qualquer jeito, o homem está certo.

Tem, mesmo, gente demais morrendo.

E estamos tentando enxugar um oceano de H.

— O paradigma mudou — diz Mullen — e temos que acompanhar essa mudança. “Comprar e prender” só dá certo até um ponto, mas esse ponto está muito aquém do que precisamos. Tivemos algum êxito estourando os moinhos de heroína, apreendemos muito da horse e muita grana; mas os mexicanos sempre conseguem fazer mais heroína e, portanto, mais grana. Eles calculam essas perdas nos planos de negócios. Estamos num jogo de números que nunca conseguimos ganhar.

Cirello tinha feito alguns dos estouros em moinhos.

Os mexicanos trazem a heroína até Nova York passando pelo Texas, e a armazenam em apartamentos e casas, mais em Upper Manhattan e no Bronx. Nesses “moinhos”, fracionam a H em papelotes e vendem aos revendedores, mais membros de gangues, que a espalham por toda a cidade e a levam até cidades menores no norte do estado e em New England.

A NYPD já fez grandes apreensões em moinhos — estouros de vinte milhões, cinquenta milhões — mas não dá em nada. Mullen está certo, os cartéis mexicanos conseguem substituir qualquer bagulho e qualquer dinheiro que percam.

E também podem substituir pessoas, porque a maioria do pessoal nos

moinhos são mulheres locais que dividem a heroína e gerentes de baixo escalão que trabalham por dinheiro. É raro que os vendedores atacadistas estejam presentes nos moinhos, se é que aparecem por lá, a não ser pelos poucos minutos necessários para entrar com a droga.

E a droga está entrando.

Mullen fala diariamente com seus contatos na Narcóticos, que dizem

que o mesmo tem acontecido pelo país todo: a nova heroína mexicana está entrando através de San Diego, El Paso e Laredo, rumo a Los Angeles, Chicago, Seattle, Washington DC e Nova York, todos os grandes mercados.

E pequenos.

Gangues de rua estão migrando das cidades grandes para as pequenas, se

instalando e fazendo negócios a partir de motéis. Agora, já não são apenas os moradores urbanos que estão viciados nos derivados de ópio — são também donas de casa dos subúrbios e agricultores.

Essas pessoas não são de responsabilidade de Mullen. A cidade de Nova York é.

Mullen vai direto ao ponto.

— Se vamos derrotar os mexicanos em seu próprio jogo, temos que

começar a jogar como eles.

— Não estou entendendo.

— O que os narcos têm no México, que não têm aqui? — pergunta

Mullen.

Tequila de primeira, pensa Cirello, mas não fala. Bobby Cirello

reconhece uma pergunta retórica quando a ouve.

— Policiais — diz Mullen. — Sim, claro que temos alguns policiais

corruptos, que fazem vista grossa por dinheiro, alguns que roubam, raros que chegam a vender bagulho ou trabalhar de guarda-costas para os narcos, mas são a exceção. No México, são a regra.

— Não estou entendendo aonde você quer chegar. — Quero que você volte a trabalhar à paisana, infiltrado. Cirello balança a cabeça. Seus dias de infiltrado acabaram. Mesmo que

quisesse voltar, não dá. Agora é conhecido como policial. Seria descoberto em trinta segundos, seria uma porra de uma piada.

Ele diz isso a Mullen.

— Todos sabem que eu sou policial.

— Certo. Quero que você seja infiltrado como policial — explica Mullen. — Um policial corrupto.

Cirello não diz nada; não sabe o que dizer. Não quer essa tarefa. Missões assim liquidam a carreira — a pessoa ganha fama de corrupto e o fedor fica grudado nela. A desconfiança fica, e, quando sai a lista de promoções, o nome dessa pessoa não está escrito.

— Quero que você espalhe que está à venda — afirma Mullen.

— Sou um homem de trinta anos — responde Cirello. — Quero me aposentar nesse trabalho. Essa é a minha vida, chefe. O que está me pedindo só vai me embolar.

— Eu sei o que estou pedindo.

Cirello está aflito.

— Além disso, tenho um distintivo dourado. Isso já é demais. Os últimos dessa faixa que se corromperam foram nos anos 1980.

— Também é verdade.

— E todos sabem que eu trabalho com você.

— Essa é a questão — diz Mullen. — Quando você encontrar um comprador alto o bastante, vai falar que me representa.

Jesus Cristo, Mullen quer espalhar que toda a Divisão de Narcóticos está à venda?

— É assim que funciona no México — afirma Mullen. — Eles não compram policiais, compram departamentos. Querem lidar com os caras que mandam. É a única maneira de entrarmos na mesma sala que os sinaloas.

A cabeça de Cirello está girando.

O que Mullen está sugerindo é perigoso pra cacete. Tem muita coisa que pode dar errado. Outros policiais podem ficar sabendo que ele é “corrupto” e montar uma operação contra ele. Ou os federais.

— Como é que você vai botar isso no papel? — pergunta. Vão ter que documentar a operação, para que, se der merda, o deles não fique na reta.

— Não vou botar — diz Mullen. — Ninguém saberá disso. Só você e eu.

— E aquele cara, o Keller? — pergunta Cirello.

— Mas você não sabe disso.

— Se a gente rodar, não tem como provar que estamos limpos.

— Isso mesmo.

— Podemos ir parar na cadeia.

— Eu estou confiando na minha reputação. E na sua.

É, pensa Cirello, isso vai ajudar muito, se eu der de cara com outro

policial corrupto que esteja levando dinheiro, roubando. E aí, que diabo eu vou fazer? Não sou uma porra de um dedo-duro.

Mullen lê seus pensamentos.

— Eu só quero os narcos. Qualquer outra coisa com que você se

deparar, finge que não vê.

— Isso é uma transgressão direta de todo o regulam… — Eu sei. — Mullen levanta atrás de sua mesa e olha pela janela. —

Que diabo você quer que eu faça? Que eu fique agindo conforme as regras enquanto garotos morrem que nem moscas? Você é jovem demais, nem deve se lembrar da epidemia de AIDS, mas eu vi esta cidade se tornar um cemitério. Não vou ver isso outra vez.

— Entendi.

— Não tenho mais ninguém a quem recorrer, Bobby. Você tem

inteligência e experiência para isso, e não conheço mais ninguém em quem possa confiar. Você tem a minha palavra, vou fazer tudo que eu puder para proteger a sua carreira.

— Certo.

— “Certo” quer dizer que você vai fazer?

— Sim, senhor.

— Obrigado.

Ao descer de elevador, Cirello fica se perguntando se não está

completamente, profundamente, totalmente fodido.

Libby olha para ele e diz:

— Você é um garoto italiano bacana.

— Na verdade, eu sou um garoto grego bacana — responde Cirello. Eles estão sentados em uma mesa no Joe Allen, mandando para dentro

uns cheeseburgers, perto do teatro onde ela trabalha.

— “Cirello”? — pergunta ela.

— Até que não é ruim ter nome italiano, quando se trabalha na polícia

— diz Cirello. — Se não dá pra ser irlandês, é a segunda melhor coisa. Mas, sim, eu sou grego de Astoria.

Quase um estereótipo. Os avós tinham vindo para os EUA depois da

Segunda Guerra, se mataram de trabalhar e abriram o restaurante na rua 23, que o pai ainda toca. O bairro de Astoria não é mais tão grego, mas muitos deles ainda moram lá, e ainda dá para ouvir a “Ellenika” falada nas ruas.

Cirello não quis ingressar no negócio do restaurante e ainda bem que ele tem um irmão caçula que quis; assim, os pais não ficaram magoados quando Bobby foi primeiro estudar na John Jay, depois entrou para a academia de polícia. Eles foram à sua formatura e ficaram orgulhosos, embora sempre se preocupem e nunca tivessem entendido quando ele trabalhava infiltrado e aparecia com o cabelo e barba desgrenhados, parecendo magro e faminto.

Uma vez sua avó olhou bem nos seus olhos e perguntou:

— Bobby, você está usando drogas?

— Não, ya-ya.

Eu apenas compro, pensa. Era impossível explicar sua vida para eles. Outro motivo que torna o serviço de infiltrado tão duro: ninguém entende o que você faz, exceto outros infiltrados, e você nunca os vê.

— E você é detetive — diz Libby.

— Vamos falar de você.

Libby é linda de morrer. Uma cabeleira ruiva farta que Cirello acha que geralmente descrevem como cabelos “brilhosos”. Um nariz comprido e um corpo que não é brincadeira. Pernas mais compridas que uma estrada rural, embora Cirello não conheça muito de estradas rurais. Ele a viu na Starbucks, no Village, virou e disse:

— Aposto que você é do tipo que gosta café expresso macchiato com leite desnatado.

— Como é que você sabe?

— Sou detetive.

— Não é muito bom — respondera Libby. — Gosto de café forte com leite desnatado.

— Mas o seu celular é 212-555-6708. Acertei?

— Não, errou.

— Prove.

— Mostre o seu distintivo — mandara Libby.

— Ah, você não vai me denunciar por assédio, vai? — perguntara Cirello.

Mas mostrara o distintivo.

Ela dera o número.

Achava que ela era uma maria-batalhão, só que levou dezoito ligações

para conseguir convencê-la a se sentar nessa mesa.

— Não há muito a falar — afirma ela. — Sou de uma cidadezinha de

Ohio, frequentei a Ohio State e estudei dança. Seis anos atrás, vim pra cidade para tentar a sorte.

— E como vai isso?

— Bem — diz ela, dando de ombros. — Eu estou na Broadway. Libby está no coro de Chicago, e Cirello imagina que, para uma

dançarina, isso seja o equivalente a um distintivo dourado. E ela o encara de frente com aqueles olhos verdes, mostrando que está à sua altura.

Legal, pensa Cirello.

Muito legal.

— Você mora na cidade? — pergunta ele.

— Upper West Side. Na 89, entre a Broadway e a Amsterdam. E você? — Brooklyn Heights.

— Acho que não somos geograficamente compatíveis — diz Libby. — Sabe, eu sempre achei que geografia era superestimada. Acho que

nem ensinam mais isso na escola. De qualquer maneira, eu trabalho em Manhattan, na One Police.

— O que é isso?

— A sede da NYPD, Trabalho na Divisão de Narcóticos. — Opa, melhor eu não fumar um perto de você. — Não me importo. Eu até fumaria com você, mas eles nos testam, de

vez em quando temos que fazer testes. Deixe eu fazer uma pergunta, você mora sozinha?

— Bobby, eu não vou dormir com você essa noite. — Eu não pedi isso — responde Cirello. — Francamente, estou

ofendido. O que pareço, um prostituto barato, que você deixa lhe comprar um hambúrguer e acha que pode ser dar bem?

Libby ri.

É uma risada profunda e sonora, e ele gosta muito. — E você, mora com colegas? — pergunta Libby. — Não. Tenho um apartamentinho pequeno, olhando de fora já dá para

ver ele inteiro. Mas eu gosto. Não fico muito lá.

— Muito trabalho.

— Bem isso.

— Em que você está trabalhando agora? Pode me contar?

— Nós íamos falar de você — lembra Cirello. — Por exemplo, eu achava que dançarinas não comiam cheeseburguer.

— Vou ter que fazer uma aula a mais amanhã, mas vale a pena.

— Aula? — pergunta Cirello. — Achei que você já tivesse terminado a faculdade.

— Mas preciso continuar treinando para ficar em forma. Principalmente se eu quiser fazer uma farra da carne, tarde da noite. Nossa, percebi como isso soou nojento no instante em que saiu da minha boca. E você? É saudável?

— Não — diz Cirello. — Eu como que nem policial: o que consigo comprar na rua no momento.

— Gosta de donuts?

— Não me enquadre num estereótipo, Libby.

— E quanto a toda aquela comida grega maravilhosa?

— Não é tão maravilhosa para quem cresceu comendo — diz Cirello. — Não conte à minha ya-ya, mas eu prefiro comida italiana. Ou indiana, caribenha, qualquer coisa que não seja embrulhada numa folha de parreira. Deixe eu fazer outra pergunta: Indians ou Reds?

— Reds. Torço pela Liga Nacional.

— Acha que o Rose deve entrar para o Hall da Fama?

— Com certeza — responde Libby. — Aposto em mim todos os dias. Aposto que você também faz isso.

— Sabe de uma coisa, isso pode dar certo.

— Mets?

— Claro.

Libby pega uma batata frita no prato dele e enfia na boca.

— Bobby, sobre esse negócio de prostituto barato…

Cirello coloca café no briki e liga o fogão no médio. Mexe o café até subir a espuma, despeja em duas canecas e caminha até a cama.

— Libby? Você pediu para ser acordada às sete.

— Ai, merda, tenho que ir pra aula.

Ele entrega o café.

— Que delícia. O que é?

— Café grego.

— Achei que tivesse dito que detesta comida grega.

— Eu estava brincando …

Ela vai até o banheiro, aparentemente sem constrangimento por sua

nudez. É, eu também não teria vergonha com um corpo desses, pensa Cirello. Quando ela sai, o cabelo ruivo está preso em um rabo-de-cavalo, e ela está de moletom e calça legging.

— É hora de encarar os olhares alheios — anuncia. — Eu levo você de carro.

— Vou de metrô.

— Esse é seu jeito de dizer que foi só uma ficada? — pergunta Cirello. — Olhe só você, o detetive figurão, todo inseguro. Ele lhe dá um beijo

nos lábios. — É meu jeito de dizer que o metrô é mais rápido.

Ele manda o café para dentro.

— Vamos, eu vou a pé com você.

— É?

— Como eu disse, sou um garoto grego bacana. No alto da entrada do metrô, ela fala:

— Acho bom você me ligar, hein.

— Eu vou ligar.

Ela lhe dá um beijinho de leve e desce a escada. Cirello para em uma banca de revistas, compra os jornais e caminha até

um restaurante para tomar café da manhã. Ele se senta em um reservado, come uma imensa omelete de queijo com torrada de centeio e dá uma folheada no Times. Tem uma reportagem em destaque sobre um ator que teve uma overdose.

E agora, pensa Cirello, eu tenho que me oferecer, me vendendo às

pessoas que o mataram.

Fácil falar.

Essa gente não é bilionária por ser idiota. Não são donos da polícia do

México porque os policiais mexicanos são fáceis de comprar; são donos porque têm poder sobre eles. A oferta não é do tipo “pegar ou largar”, a oferta é “aceite, ou vamos matar você e sua família”. Dessa forma, sabem que podem confiar no policial que compraram, que ele não vai dedurá-los.

Por ali não funciona assim.

Nenhum mafioso em juízo perfeito mataria um policial da cidade de

Nova York, muito menos ameaçaria sua família, porque sabe que teria 38 mil policiais enfurecidos na sua cola. Mesmo que sobrevivesse à prisão — o que é improvável —, os promotores irlandeses e italianos e os juízes judeus fariam questão de que ele passasse o resto da vida na pior prisão do estado. Pior, isso ferraria com o negócio, portanto, os chefões se asseguram de que seu bando não faça essas merdas.

Negros e latinos membros de gangues não são trouxas de matar um policial, porque isso acaba com o negócio deles.

Policiais são mortos até demais, mas não pelo crime organizado.

Os mexicanos vão ficar cabreiros quanto a comprar um policial da NYPD, porque não terão uma apólice de seguro sobre ele.

Então, será preciso dar alguma garantia.

Ele vai até a garagem, pega o carro, um Mustang GT 2012, e vai até o cassino Resorts World.

Uma semana depois, está em uma Starbucks em Staten Island ouvindo a balconista cantar a canção tema de A ilha dos birutas.

— Você é jovem demais para conhecer esse programa — diz ele.

— Olá — responde ela. — O que posso lhe servir?

Ele olha o nome no crachá.

— Um expresso, por favor, Jacqui.

— Só? Sem os adjetivos irritantes?

— Só um expresso — insiste.

E talvez um pouco de heroína, pensa. A garota está de mangas compridas, e tem olhos vidrados, como se estivesse chapada.

Staten Island é um dos pontos mais movimentados de heroína. Tem três vezes mais do que há três anos. Antes era uma droga vista só no nordeste, na região mais urbana da ilha, aonde chegava de balsa, vinda de Manhattan, ou pela ponte do Brooklyn, e ia parar nos conjuntos habitacionais.

Não mais.

Agora está nos bairros de família, nas áreas central e sudeste da ilha, nos bairros das classes trabalhadoras, sendo usada por um monte de policiais, bombeiros e funcionários públicos.

E, sejamos honestos, pensa Cirello.

Nos bairros brancos.

Bairros de trabalhadores.

Motivo pelo qual está ali agora.

Porque ele é branco.

Lá em Manhattan e no Brooklyn, o tráfico de drogas é mais um negócio de gangues. As gangues de negros e latinos dominam o comércio dentro e nos arredores dos conjuntos habitacionais, e ele não tem como se misturar.

Um policial branco, não.

Nem mesmo um policial branco corrupto.

Mas ali, o tráfico de heroína é diferente — tem um monte de traficantes

independentes, a maioria usuários, vendendo papelotes de dez, até de cinco, adquiridos dos vendedores mafiosos que compram das bocas da cidade.

Há vinte anos, talvez até dez, valeria até a própria vida traficar H para a

garotada branca de Staten Island, onde há tanto policial quanto mafioso. Porra, o próprio Paul Calabrese tinha morado ali, e ainda tem presença da máfia, mas é diferente. Eles não se protegem mutuamente, como antes, e aquele negócio da máfia protegendo os garotos brancos envolvidos com drogas é um mito que há muito já passou.

Cirello ouviu dizer que a porra do neto do John Cozzo está traficando

por ali. O que não chega a ser uma grande surpresa, levando em conta que Cozzo matou Calabrese para limpar o caminho e importar heroína mexicana.

De qualquer maneira, Cirello sabe que não vai encontrar seu contato no

Bronx, no Brooklyn ou em Manhattan. Vai ser ali, na Staten Island branca — a Ilha da Heroína — com usuários como essa Jacqui.

Para levá-lo aos tubarões.

Jogou a isca. Tinha ido até o Resorts World e soltado três, das grandes,

na mesa de vinte-e-um, apostando como um imbecil. Depois fizera apostas no basquete — universitário e profissional —, onde soltara mais cinco. Então, tinha ido de carro até Connecticut — Mohegan Sun e Foxwoods —, soltado mais alguns mil, ficara bêbado e tão arruaceiro que um boato se espalhara pelo nordeste, pela comunidade do crime organizado, de que um detetive de Nova York estaria sem freio, jogando pesado, perdendo pesado, bebendo pesado.

Sangue na água.

Agora toma seu expresso e fica observando Jacqui trabalhar atrás do

balcão. Ela tem um sorriso no rosto e faz seu serviço, mas está ligeiramente agitada, anda meio inquieta, e Cirello sabe que ela talvez tenha umas três horas, até precisar de um pico.

Ela deve ter o quê, dezenove, vinte anos, no máximo? Que mundo.

Jovens caindo como se fosse a Segunda Guerra Mundial. Pais enterrando os filhos. É contra a natureza.

Fora essa missão de entorpecentes, sua nova vida até que vai bem. Tem visto Libby há algumas semanas, e até agora está dando certo. Os horários combinam — ela só fica livre bem tarde da noite ou bem cedo, pela manhã, e no momento, ambos estão contentes com um jantar três vezes por semana e sexo depois. Ela não está fazendo nenhuma exigência, nem ele.

Está tranquilo.

Termina o café e caminha pelo quarteirão até o Zio Toto.

O bar está vazio, e ele puxa uma das banquetas pretas, senta e pede um Seven e uma Coca.

Angie está atrasado, e Cirello sabe que é de sacanagem.

Para fazê-lo esperar.

Cinco minutos depois, ele chega.

Se ele tem frequentado a Academia 24 horas, está escondendo bem, pensa Cirello. Angelo Bucci ainda é o mesmo relaxado rechonchudo do ensino médio, que fizeram juntos na Archbishop Molloy, em Astoria. Ele agora usa o cabelo curto e está com uma jaqueta do Mets, calça jeans e mocassins.

Dá um abraço em Cirello, senta no bar e diz:

— Pra que diabos eu tive que vir lá do Alabama?

— Você não mora em Richmond?

— Ainda é bem longe — diz Angie. — Qual é? Agora que tem distintivo dourado não quer mais ser visto com os velhos amigos? O que está bebendo? O que é isso, Coca?

— E Seven.

— Quero o mesmo que ele — Angie pede ao bartender —, só que substituído por vodca pura. E dê outro refrigerante pra esse mezzo fanook.

Cirello aponta para seu copo vazio, indicando que quer mais um.

— Como está Gina?

— Bem, não parou de encher meu saco, se é isso que está perguntando — diz Angie. — Os garotos estão crescendo que nem capim. Mas você não me pediu pra vir até aqui pra falar da minha vida doméstica, Bobby.

O bartender traz as bebidas. Angelo projeta o queixo, num gesto que mando o sujeito encontrar o que fazer na outra ponta do bar.

— Preciso de um dinheiro emprestado — anuncia Cirello.

— Era o que eu temia. Quanto?

— Vinte mil.

— Que porra é essa, Bobby?

— Culpa de St. John’s.

— De quem você está a fim?

— Ninguém. Estou com o salário em dia, mas estou quebrado. Umas

merdinhas tipo aluguel, pagamento do carro, comida…

— Mais apostas…

— Preciso de grana, Angie, não de um sermão. — Se você está botando dinheiro em St. John’s, talvez precise de um

sermão. Meu Deus, Bobby, eu não quero emprestar dinheiro a você. Eu teria que cobrar juros.

— Eu sei.

— Se você sai atrás disso e perder…

— Eu ganho bem — diz Cirello.

— É por isso que está vindo até mim? — pergunta Angie. — Bem, achei que fôssemos amigos.

— Nós somos. Por isso eu não quero ver você num buraco ainda maior

e…

— E o quê?

— Como eu vou dizer isso, Bobby? Emprestar dinheiro a um detetive da

NYPD… se você não me pagar, como faço para ter meu dinheiro de volta? Quer dizer, não posso forçar você a me pagar, posso?

— Primeiro de tudo, eu vou devolver. Mas, se eu não devolver, você

dedura no Departamento de Assuntos Internos, e eu estou fodido. Isso já te dá bastante poder.

— É, talvez. Eu não tinha pensado nisso.

— Então, que bom que eu estou aqui. — É, nem tanto — diz Angie. — Certo, trinta dias a vinte pontos, com

os juros toda sexta, pontual como um coroinha. Se falhar, acumula no principal.

— Eu sei como funciona, Angie.

— Eu vivo às custas de jogadores. Eles que botam comida na minha

mesa, vestem meus filhos. Não quero viver às suas custas, Bobby. Porra, o que eu diria pra sua ya-ya? Aliás, como vai ela?

— Bem. Impertinente.

— Eu deveria dar uma passada lá, dar um oi. Faz tanto tempo.

— Ela ia gostar de ver você.

Angie levanta, termina a bebida.

— Tenho treino da Liga Mirim, dá pra acreditar nisso? Você estacionou aqui na frente?

— Não, descendo o quarteirão.

— Vamos lá fora.

Eles caminham até o Land Rover preto de Angie. Cirello senta no banco do passageiro. Angie abre o console, tira um pacote de notas de cem dólares e conta vinte mil.

— Vê se não me fode nessa, ok, Bobby?

— Não vou.

— Quer uma carona até seu carro?

— Está logo ali na Starbucks.

— Certo. Vejo você na sexta. Píer 76, um bar subindo a St. George. Conhece?

— Dou um jeito de achar.

— Cinco da tarde. Não se atrase.

— Isso fica entre nós, certo, Angie?

— É claro — diz Angie, com expressão de mágoa. — Está achando o que, porra?

Ao sair do carro, Cirello sabe o que vai acontecer em seguida — Angie vai direto aos seus chefes se gabar por ter um detetive da NYPD na mão. Eles vão perguntar em que esse detetive trabalha, e ele vai contar que é com narcóticos. Os chefes arquivam a informação. Porque é isso que fazem.

Para policiais e criminosos, informação é moeda.

Cirello volta ao carro e fica sentado.

Porque isso é o que eu faço, pensa. Fico sentado. Boa parte do trabalho de policial é ficar sentado esperando algo acontecer. Às vezes acontece, que é o mesmo que dizer que às vezes não.

Mas ele tem uma intuição sobre Jacqui.

Ela vai sair para descolar, e será em breve.

O que não costuma ter muita importância — alguns milhares de viciados vão descolar em breve, e isso é mesmo uma questão para os policiais uniformizados, talvez os civis à paisana, apenas se precisarem cumprir cotas de apreensões que supostamente não existem.

Mas Cirello precisa de uma apreensão “Cachinhos Dourados”.

Nem tão grande, nem tão pequena.

Pegar o fornecedor de Jacqui é pouco, mas pode levá-lo a uma

apreensão de médio porte, que é seu objetivo.

Então, fica sentado esperando.

De tocaia.

Como o predador que se tornou.

Um policial caçando seu pagamento.

Jacqui mandou cerca de 57 mensagens para Travis, e seu gerente está ficando meio puto.

Em que buraco ele se meteu?

Por que não responde? Se não descolou, poderia ao menos dizer, para

ela tentar encontrar Marco ou alguém. Sinaliza para o gerente que vai ao banheiro e ele a encara como quem pergunta: O que, de novo? Entra no banheiro e está prestes a ligar para Marco quando finalmente chega uma mensagem do Travis. ESTOU ENCOSTANDO O CARRO. VEM.

Quando ela sai, o gerente a interrompe.

— Você está passando mal?

— Não, por quê?

— Parece doente.

— Eu estou bem — diz Jacqui.

— Não, por que você não vai embora? — sugere ele. — O movimento

está devagar.

— Eu preciso das horas.

— Vá pra casa, Jacqui.

Ela sai no estacionamento. Travis está esperando na van, estacionada à

margem do estacionamento. Ela entra na traseira, e Travis sai do banco do motorista e vai até ela.

— Você descolou? — pergunta Jacqui.

— Aham.

Está cozinhando quando uma batida forte na porta a interrompe. — É a porra do gerente — diz Jacqui. — Eu falo com ele. Ela desliza só uma fresta da porta.

Não é o gerente. É o cara do expresso sem adjetivos. Segurando um distintivo.

— Olá, garotos — diz ele. — O que estamos fazendo aqui?

Cirello faz sua jogada.

— Posso prender vocês dois agora — diz ele. — É porte simples, então provavelmente serão julgados apenas por isso, mas vão passar umas semanas na Rikers, a menos que paguem fiança, o que eu imagino que não possam. Ou…

Ele faz uma pausa para dar efeito.

Dá um pouquinho de esperança.

— Vocês me entregam o traficante.

O cara sacode a cabeça. Cirello mandou checar sua placa, portanto, já sabe que seu nome é Travis Meehan, sem antecedentes.

Ele se sente mal pelo garoto.

— Não podemos fazer isso — diz Travis.

— É uma pena — responde Cirello —, porque vão passar muito mal na prisão. Você ama essa garota?

Travis assente.

— Se ama — diz Cirello, sentindo-se um merda —, não vai querer ver o que vai acontecer com ela na antessala, na Rose Singer.

— Não podemos virar delatores — diz Jacqui.

— Eu entendo. Realmente entendo. A questão é que eu nem quero o seu traficante, na verdade. Aposto que é amigo de vocês, também usuário, certo? Vamos, eu estou certo?

Os dois assentem, contrariados.

— Não quero prejudicar seu amigo. Não quero prejudicar vocês. Eu estou atrás de pessoas que vocês nem conhecem, as pessoas que venderam essa merda para o seu amigo, e aposto que essas pessoas não são amigos dele.

— A gente não pode, a gente vai continuar morando aqui.

— Isso se vocês voltarem da Rikers — lembra Cirello. — Vocês nunca estiveram no sistema, então não sabem como funciona. É tudo incerto. Se pegarem o juiz errado, se ele estiver num dia ruim… mas, olhe, eu entendo vocês. Nós podemos fazer isso de modo que ninguém saiba que foram vocês. Mas, se quiserem, eu posso prendê-los e espalhar pela rua que vocês deduraram. Nada bom.

— Você é um escroto — diz Jacqui.

— Aham.

Ela está em crise de abstinência. Ambos estão.

E ele tem a ferramenta mais persuasiva que existe para lidar com um

viciado.

— Não estou pedindo que armem uma arapuca pra ele. Só que me deem

um nome, uma descrição, um carro, o lugar onde ele fica, e eu deixo vocês usarem.

Ponto.

Ele pega Marco naquela noite.

Molezinha, o babaca está traficando no estacionamento do Mickey D.

(Gostaria de batatas fritas para acompanhar, senhor? Não, só uma dose de heroína.)

Cirello observa uma venda rolando no Ford Taurus de Marco, caminha

até ele e entra no banco do passageiro.

— NYPD, Marco — anuncia Cirello, mostrando o distintivo. — Não me

faça puxar minha arma, apenas ponha as mãos no volante.

Marco tenta bancar o durão.

— Você tem um mandado?

— Não preciso — diz Cirello. — Eu tenho causa provável. Acabei de

ver você passar um papel. Nem preciso perguntar se posso revistar seu carro, posso simplesmente revistar. Mas, primeiro, eu vou perguntar: você está com alguma arma, ainda mais se for arma de fogo?

— Não.

— Que bom, Marco — diz Cirello —, isso vai lhe poupar anos de cana.

Agora, vamos ver o que temos aqui.

Ele abre o console e vê uma pilha de papelotes. — Xi. Porte com intenção de distribuir. Delito grave. Aquelas merdas da

lei Rockefeller. De quinze a trinta anos compulsórios.

Marco começa a chorar. Ele é um viciado magrinho, assustado e

patético, e Cirello mais uma vez se sente um merda.

— Eu também choraria. Você tem antecedentes, Marco? — Um.

— De quê?

— Porte — diz Marco.

— Qual foi sua pena?

— Estou em condicional. Tenho uma ordem para frequentar o programa

de terapia assistencial.

— E aposto que nem foi, né? Bem, agora você está duplamente fodido, Marco. O juiz vai sapatear em cima de você. Hoje em dia, eles são muito sérios em relação aos traficantes de heroína, e você, meu jovem amigo imbecil, está traficando num bairro branco que tem tido um bocado de mortes por overdose. Sabe quantos oficiais prisionais moram aqui em Staten Island? Bem, todos estarão esperando por você lá dentro.

Cirello está só inventando essa merda, mas até que soa bem. E o cara está apavorado, as mãos tremendo no volante.

— Eu quero meu advogado.

— O que um advogado vai conseguir é o mínimo de quinze anos, talvez — diz Cirello, vendo a coisa já escapando de suas mãos. — Isso significa que você terá o que, uns quarenta, quando sair? Essa é a melhor das hipóteses. Na pior, você sai com sessenta? Mas, sim, vamos ligar pra ele. Só tem uma coisa: depois que você ligar, eu não vou mais poder te ajudar.

— E o que você pode fazer pra me ajudar?

— Bem, isso depende de você — diz Cirello.

— Eu sei o que você quer.

— O que eu quero, Marco?

— Você quer que eu entregue os caras que me venderam isso.

— Até que você não é tão imbecil como parece. Que bom. Agora, antes que você diga algo que prove que é sim imbecil, deixe-me perguntar uma coisa: se esses caras estivessem no seu lugar, iriam cumprir de quinze a trinta anos pra salvar você? Pense antes de responder.

— Eles vão me matar.

— Não se fizermos o negócio direito. Olhe pra mim, Marco, olhe pra mim.

Marco olha pra ele.

— Filho — diz Cirello, com uma expressão paternal. — Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Sou sua única chance de você ainda ter algum futuro, mas não posso fazer isso sozinho. Preciso de sua ajuda. Trabalhe comigo. Dê o que eu preciso, e você vai embora.

Marco hesita.

O acordo está por um triz.

Cirello diz:

— Os caras que venderam essa merda sabem que você não vai conseguir cumprir pena. Sabem que você vai entrar em abstinência. Acha que vão ficar de bobeira, preocupados com você delatando?

Marco está pensando.

A última coisa que Cirello quer é Marco pensando. Se você deixa um

vagabundo pensar, ele vem com todo tipo de coisa para complicar a sua vida.

— Não, sabe de uma coisa? Eu estou de sacanagem. Vamos logo

registrar a ocorrência, aí você liga para o seu advogado.

— Não.

— Não?

— Não — diz Marco. — Por favor, me ajude. É para isso que estamos aqui, pensa Cirello. Minha profissão é ajudar.

Cirello segue o carro de Marco a oeste, pela avenida Arden, atravessando a ponta sudeste de Staten Island.

Para Cirello, que fez a maior parte de seus trabalhos com narcóticos nos

guetos do Brooklyn, é surreal passar de carro por shoppings e quadras residenciais de um lado e o verde de Arden Heights, do outro. Parece que ele está nos subúrbios — alguns nova-iorquinos mais fervorosos poderiam dizer que parece “o interior” — conforme eles passam por baixo do monumento de Veteranos da Guerra da Coreia, pelo arborizado Edgegrove, depois viram ao norte, entrando pela Amboy Road, na esquina nordeste do Blue Horn Park. Pelas próximas dez quadras ou mais, a Amboy é predominantemente residencial, depois surge uma região comercial, em Eltingville — a agência dos correios, alguns bancos e o Eltingville Shopping Center, à esquerda, e outro shopping à direita, onde Marco entra em um estacionamento.

Cirello passa por ele, encosta na ponta dos fundos do estacionamento,

perto de um Smashburger, e pega o celular.

— Onde você vai encontrá-los?

— Na frente da Carvel.

— A sorveteria? — pergunta Cirello.

— É.

— Que vende tortas?

— É, a Carvel.

Jesus Cristo, pensa Cirello. Tortas de sorvete e heroína. O Professor e

Mary Ann…

Ele fica observando Marco entrar em uma vaga. Alguns minutos depois, um Ford Explorer vermelho para ao lado dele. Marco entrega um dinheiro e recebe um pacote.

Marco, conforme combinado, vai embora.

Cirello segue a Ford Explorer, acompanha quando o carro entra à direita na Amboy, depois segue ao norte, até Great Kills e passa pelo Cemitério Vista Oceânica, embora ele não possa entender por que a vista seria importante para um cemitério, depois passa pelo Frederick Douglass Park (que é estranho, porque o lugar tem o nome de um abolicionista, mas Cirello não viu um único negro, o dia todo) e entra em Bay Terrace.

Habitualmente, ele faria um telefonema para checar a placa, mas não quer que essa ação fique registrada, e ele já pegou a identificação do motorista com Marco — o carro deve pertencer a um Steven DeStefano.

Então, ele vira à direita na avenida Guyon — leste, em direção à praia — à esquerda na Mill Road, depois à direita, na avenida Kissam, onde as casas vão escasseando, até chegar a um pântano, que margeia ambos os lados da estrada. A Explorer entra em uma garagem, do lado norte da estrada, ao lado de uma casa linear, isolada de qualquer outra casa, por dois lotes, em ambos os lados.

Privacidade, pensa Cirello.

Bom.

Cirello passa dirigindo pela casa e pega a Kissam até o fim, onde dá na Oakwood Beach, em Lower Bay. Não tem nada aqui, pensa ele, nada além da praia, à esquerda, até onde a vista alcança.

Ele tira a Glock do coldre e põe no banco a seu lado, prende o distintivo na lapela da jaqueta, faz o retorno e dirige de volta até a casa. Respirando fundo, ele desce do carro e caminha até a porta da frente.

Não há nada nisso que esteja minimamente dentro do regulamento.

O procedimento apropriado seria ter checado o endereço, voltado à Divisão, relatado, obtido um mandado e voltado com reforço — vários detetives, alguns policiais uniformizados — talvez a SWAT, talvez até a Agência de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos, em coordenação com a Narcóticos.

Certamente não é uma ação para um detetive com uma Glock e nenhum papel, e uma causa provável que não se sustentaria nem por cinco minutos, em uma audiência de provas. Isso é uma estupidez, do tipo que pode levá-lo à demissão, talvez a ser indiciado, talvez morto.

Mas ele não sabe de nenhuma outra maneira de fazer. Cirello bate coma arma na porta de madeira.

— NYPD!

Ele ouve o movimento lá dentro, o tipo de caos que já ouviu uma dúzia

de vezes, quando a vagabundagem do tráfico entra em pânico e tenta decidir o que fazer. Joga tudo na privada? Corre? Briga?

— Estou mandando abrir a porra da porta, Steve! — grita ele, depois dá

um passo ao lado, caso Steve resolva atirar na porra da porta.

Ele não atira.

Cirello estica a mão e pega a maçaneta.

A porra da porta está destrancada.

Esses babacas são confiantes.

Respirando fundo outra vez, Cirello desacelera os batimentos cardíacos,

dá um chute para abrir a porta e entra, empunhando a Glock à sua frente.

Os dois caras estão ali parados, olhando para ele. Duas corças no facho dos faróis.

Uma tira da madeira da parede de lambri está aberta e Cirello vê o

cafofo da heroína do lado de dentro. Os idiotas estavam resolvendo se saíam pelos fundos com a droga, mas não decidiram a tempo. Parece haver cerca de um quilo dividida em sacos.

— Se mexerem as porras das mãos, eu vou estourar os miolos pela sala

— grita Cirello grita, ouvindo a adrenalina elevando sua voz.

— Calma, calma! — diz o mais gorducho. Parece ter trinta e poucos

anos, parece malhar na academia, o corte de cabelo clássico de Staten Island, curto nas laterais. Pela descrição de Marco, esse é DeStefano.

O outro tem mais ou menos a mesma idade, o mesmo corte de cabelo,

mas não é tão ativo no supino. Ambos estão com bonés dos Yankees virados ao contrário, roupas de corrida, correntes de ouro.

Onde é que acham esses caras?, pensa Cirello. Nenhum dos dois parece usuário de heroína.

Anadrol, talvez.

— Sentem — diz Cirello. — Cruzem as pernas à frente. Eles obedecem.

— Agora estendam as pernas, virem de bruços e ponham as mãos atrás

das costas — manda Cirello.

— Ora, vamos — diz DeStefano. — Precisa disso? — Depende de vocês — responde Cirello.

Ele vê a risadinha maliciosa de espertalhão surgindo no rosto de DeStefano. Os caras da máfia acham que todos são como eles — todos têm um esquema, todo mundo está à venda — e Cirello acaba de confirmar sua profunda crença.

O sorriso malicioso aumenta. DeStefano projeta o queixo em direção à parede.

— Tem 27 mil em um saco de depósito bancário, aí dentro. Pegue o dinheiro, vá embora, tome uma Coca e sorria.

Com a arma apontada para DeStefano, Cirello vai até a tábua solta, apalpa do lado de dentro e tira um saco.

— E a heroína?

— Se quiser, pode ficar — diz DeStefano. — Mas onde você vai passar?

Cirello enfia o saco no cós da calça, às suas costas, por baixo da jaqueta.

— Eu não vou passar, vocês é que vão. Os negócios seguem normalmente, só que agora vocês têm um parceiro.

— Ah, é? Qual é o porte do parceiro que nós temos?

— Dez mil semanais.

— Cinco.

— Sete.

— Feito — diz DeStefano. — Mas eu gosto de saber o nome dos meus parceiros.

— Bobby Cirello. Divisão de Narcóticos.

— Que distrito? — questiona DeStefano. — Porque eu nunca vi você por aí.

— One Police.

DeStefano se permite uma expressão impressionada, por um segundo.

— Então, se eu tiver problema com um dos policiais locais, posso ir até você.

— Eu ajeito as coisas.

— Sai da sua parte.

— Eu falei que cuido disso — insiste Cirello.

— Está certo, Bobby — diz DeStefano. — Eu posso chamá-lo assim, certo? Dou 27 mil a um cara, posso chamá-lo pelo primeiro nome, certo? Então, Bobby, como chegou a nós?

— Está brincando? — pergunta Cirello. — Vocês estão traficando no estacionamento há semanas. Precisam variar um pouquinho.

— Eu te falei — diz o magrinho.

— Cala a porra da boca.

— Então, Steve — continua Cirello. — Eu quero vê-lo toda sexta. No

seu estacionamento do Mickey D’s. Se não aparecer, eu vou achar e enquadrar você. Estamos entendidos?

— Mas esses 27 mil me dão três semanas e pouco, certo? — Não — diz Cirello. — Os 27 mil são uma multa por ser tão imbecil e

preguiçoso. Vê se varia de local, de agora em diante. Vejo você na sexta.

Ele sai pela porta.

Agora não tem volta, pensa Cirello.

Agora eu sou um policial corrupto.

Ele volta dirigindo para Tottenville e encontra Marco no

estacionamento, perto do Mickey D’s. Cirello entra no Taurus e entrega ao garoto dois mil em grana.

— Não bote isso no braço. Saia dirigindo. Você tem alguém fora de

Nova York?

— Minha irmã, em Cleveland.

— Vá perturbá-la — diz Cirello. — Faça o que fizer, não volte aqui,

está bem?

Ele sai do carro e Marco vai embora.

Cirello duvida que ele consiga ir além de Jersey, mas sempre se pode ter

esperança. Só que ele conhece os viciados e, se há alguém capaz de fazer algo idiota, contraproducente e autodestrutivo, é um viciado.

É isso que eles fazem.

O agiota está surpreso.

Talvez até decepcionado. Ele não ganha dinheiro com gente que quita o

montante principal em uma tacada.

Mas é isso que Cirello faz. Encontra Angie, no meio do pessoal da

happy hour do bar Píer 76, e lhe passa um envelope gordo.

— Está tudo aí. O principal e os juros.

Angie enfia o pacote na jaqueta.

— Deu sorte?

— Pode-se dizer que sim — responde Cirello. — Você pode botar dez

apostando no North Carolina, Louisville? Quero os Heels e os pontos.

— Meu Deus, Bobby, você acabou de sair do buraco, por que quer pular

pra dentro outra vez? — pergunta Angie.

— Quer botar pra jogo, ou não?

Angie sacode os ombros.

— Tudo bem, eu boto pra você.

— Você é o cara.

— Não, você é o cara.

Cirello recusa a oferta para um drinque.

Durante as semanas seguintes ele fica atrás do dinheiro como um patético homem de meia-idade atrás de uma garota novinha que ele nunca vai pegar.

Ele aposta em basquete, universitário e profissional.

Ele vai ao cassino, joga vinte-e-um.

Ele aposta em beisebol, pelo amor de Deus, e ninguém em juízo perfeito aposta em beisebol, além de um jogador inveterado.

O que ele é.

Angelo lhe diz isso, quando ele volta, pela terceira semana seguida, usando exatamente estas palavras.

— Você é um jogador inveterado.

— Você é agenciador de apostas e agiota.

Eles estão de volta às banquetas habituais, no Píer 76.

— Sou um agenciador de apostas e agiota que paga suas contas — responde Angelo. — Você já me deve 32 mil e não consegue nem cobrir os juros.

— O jogo dos Georgia Tech-Wake Forest…

— Georgia Tech-Wake Forest meus culhões — diz Angelo. — Nós estamos exatamente onde eu falei que não queria estar. Eu deveria lhe dar um sacode, mas como posso fazer isso com um amigo, e uma porra de um detetive da NYPD, pra completar?

— Eu vou conseguir seu dinheiro.

— Com ou sem distintivo dourado — diz Angelo —, nós não podemos deixá-lo ir, Bobby.

— Quem são “nós”?

— Não tenho condições de te segurar com 32 mil — afirma Angelo. — Passei sua dívida adiante. Lamento, mas você não me deu outra escolha.

O que significa que Angelo vendeu a dívida de Cirello para alguém mais alto, na organização.

— Então, é assim — diz Cirello.

Angelo gira a vodca no fundo do copo. Então, ele diz:

— O Play Sports Bar. Na Sneden. Vá até lá.

— Do que você está falando?

— Apenas vá lá, Bobby.

Angelo toma o resto de seu drinque, levanta e vai embora.

Cirello estaciona o carro na Sneden e caminha até o Play Sports Bar.

Há um cara em um reservado, comendo. Quarenta e poucos anos,

magro, cabelo preto já ficando grisalho. Ele ergue o olhar e diz:

— Você é Cirello?

— Quem quer saber?

— Mike Andrea. — Ele gesticula para o banco de frente pra ele, mas

Cirello não senta. — Quer um panini? Os daqui são muito bons. Eu gosto do Trio — prosciutto, sopressatta, capocollo… você deveria comer alguma coisa, está magro.

— Que porra é você, minha mãe?

— Neste momento, eu sou seu melhor amigo, Bobbyzinho — diz

Andrea. Ele dá outra mordida no panini e limpa a boca com as costas da mão. — Posso lhe jogar uma corda, tirá-lo da merda em que você está.

— Em que merda eu estou?

— Angie Bucci me vendeu o seu papel — diz Andrea. — O Angie é um

cara legal, eu adoro. Eu não sou um cara legal, não estudei com você, não conheço a sua vó, não tenho problema em machucá-lo.

— Isso pode ser um problema, bem mais do que você pensa. — É, tô sabendo… distintivo dourado, cara durão — diz Andrea. — Não

precisamos ir por aí. Sente-se e coma uma coisinha, aja como um ser humano, me ouça.

Cirello senta.

Andrea sinaliza para chamar a garçonete.

— Lisa, meu amigo bonitão, aqui, vai querer um Trio e uma cerveja. — Já olhou nosso cardápio de cervejas? — pergunta ela. — Cardápios de cerveja — diz Andrea. — Foi nisso que o nosso mundo

se transformou.

— Vou querer uma Sixpoint — pede Cirello.

— Ale ou pilsen?

— A pilsen, obrigado — diz Cirello.

A garçonete sorri pra ele e sai.

— Aposto que você poderia pegar, você é bom de jogo — diz Andrea. — Não, eu me esqueci, você não é bom de jogo. Anda jogando que nem bobo e sabe por quê?

— Não.

— Você quer perder — diz Andrea. — O que todos os jogadores inveterados realmente querem é perder. Tem algo que os força, eu não sei.

— O que você quer?

Andrea diz:

— Talvez você possa fazer um favor para algumas pessoas.

— Que favor e que pessoas?

— Gente disposta a parar o processo de coleta do seu empréstimo — responde Andrea —, você não precisa saber quem, exatamente. E é só alguma informação. Essa gente está pensando em ingressar num negócio com alguém, em algum momento, eles querem saber se ele é limpo, não querem entrar em roubada.

— Obter esse tipo de informação é arriscado.

— Não tão arriscado quanto dever 32 mil que você não tem — diz Andrea.

Ele empurra um pedaço de papel ao outro lado da mesa.

É uma ameaça vazia, pensa Cirello. O problema em dever para um agiota não é dever demais, é não dever o suficiente. Se você deve cinco mil a um sabichão desses, você está enrascado. Se deve dez, ou mais, ele não pode te apagar. Terá que mandar um guarda-costas para mantê-lo em segurança, porque precisa que você pague esse dinheiro. Quer viver pra sempre? Entre em uma dívida de cem mil. O agiota lhe doaria um rim se você precisasse.

Cirello dá uma olhada no papel, vê três nomes escritos.

— Eu não vou entregar informantes criminais.

— Não precisa ficar todo nervosinho — diz Andrea. — Ninguém está lhe pedindo pra ajudar na morte de alguém. Essas pessoas ainda nem estão fazendo negócio. Pense nisso como um trabalho de triagem. Diligência prévia. Só.

— Como é que eu sei que você não está usando um grampo?

Andrea diz:

— É, você me pegou, Cirello. Lisa, a garçonete, é uma agente à paisana. Aquelas tetas são microfones. Você quer ficar legal, ou não?

— Você vai suspender os juros.

— Ainda haverá juros — diz Andrea —, mas eles param de aumentar. E

ninguém vem cobrar, nós combinamos algum tipo de plano de pagamento.

— Esse é o plano de pagamento. — Cirello pega o papel. — E o jantar é

por sua conta.

— Cada centavo conta, certo? — diz Andrea. — Policiais fodidos,

muquiranas.

Lisa traz a comida.

Andrea estava certo, pensa Cirello. Isso está bom — prosciutto,

sopressatta, capocollo.

Ele toma café na casa de Mullen, em Long Island City.

Judy Mullen fez rabanadas e eles estão sentados na mesa da cozinha, e

escutam lá na sala o som dos dois meninos do chefe jogando Halo.

— Mike Andrea é um capo da família Cimino — diz Mullen. — Opera

de Bensonhurst. Se ele pegou sua conta do Bucci, a coisa é séria. O crime organizado gosta dele por pelo menos uma dúzia de assassinatos.

— Os Cimino estão fora do negócio das drogas — diz Cirello. — Já faz

anos.

— Talvez o Andrea esteja no negócio sozinho. — Então, quem são essas “pessoas” que ele representa? — Isso é o que nós vamos descobrir — diz Mullen. Ele olha a lista que

Andrea lhe deu. — Aposto que eles já sabem desses caras. Estão testando você.

— É o que eu também acho.

Mullen olha novamente o papel.

— Markesian e Dinestri são limpos. Diga a ele que nós estamos de olho

em Gutiérrez.

— Estamos? — pergunta Cirello.

Mullen sorri.

— Estaremos.

Cirello pergunta:

— Você quer que eu force o Andrea pra encontrar com essa gente? — É cedo demais — diz Mullen. — Você vai afugentá-los. Apenas

continue o que está fazendo.

Mullen sabe que está pedindo bastante. Ele já está recebendo reações a

Cirello. Apenas dois dias antes, seu tenente veio conversar, fechou a porta. — Como, assim? — perguntou Cirello, quando ela tocou no assunto. Eles estavam comendo o brunch (desde que ficou com Libby, ele come

— O crime organizado está ouvindo umas merdas sobre um dos nossos. Cirello foi visto com um agiota chamado Angelo Bucci.

Ele pôs fotos na mesa, de Cirello sentado em um bar com Bucci.

— Talvez ele esteja trabalhando em algum caso — disse Mullen.

— Eu espero que sim — respondeu o tenente. — Tomara que seja só isso, mas estão dizendo que o Cirello anda jogando. E perdendo. Bebendo demais, chegando com uma aparência horrível…

— Certo, vamos ficar de olho.

— Olhe, sei que ele é seu parceiro.

— Eu disse vamos ficar de olho. Mantenha-me informado.

Esse é o tipo de comentário que você quer circulando, em uma operação como essa; ao mesmo tempo, Mullen sente-se mal porque está comprometendo, sim, a carreira de Cirello. É difícil botar um fedor desses de volta na garrafa. Em termos práticos, se o pessoal de Assuntos Internos for para cima de Cirello, isso pode comprometer toda a operação.

Cirello está à frente dele.

— O que eu preciso de você é a garantia de que o Comando Operacional não esteja armando pro Andrea, que eu não esteja entrando num estúdio de gravações, que eu não vá pra casa e encontre o pessoal de Assuntos Internos me esperando na porta.

— Se eu fizer perguntas ao CO — diz Mullen —, eu terei que explicar a eles o motivo. Ainda não estou pronto para incluí-los.

— Tá, tudo bem.

— Lamento — diz Mullen. — Se você for confrontado pelo CO, pelo pessoal de AI, ou qualquer outro, diga a eles que precisa falar com seu representante e venha diretamente até mim. A essa altura, prometo que vou esclarecer tudo, com todos.

— Certo.

— Esse é um excelente trabalho, Bobby — diz Mullen. — E nos leva a outro patamar. Vamos mandar ver.

“Nos” leva, pensa Cirello. Sou “eu” que estou com o meu na reta. Tendo que bancar o escroto.

Isso está tendo um preço pra ele.

Ficar pelos cassinos, a bebedeira… ele não é nada disso.

E Libby não gosta. O relacionamento deles está indo bem, se tornando alguma coisa. Só que ultimamente ela diz que ele está “diferente”, que ele está “mudando”.

“brunch”, pois deve ser o que acontece, quando se namora uma dançarina), no Heights Café, lá na rua Hicks, e ela disse:

— Sei lá. Você parece meio distante.

— Estou bem aqui, Libby.

— Tipo, pra onde você vai, quando eu estou trabalhando? — perguntou

ela. — O que você faz?

— Sei lá — respondeu Bobby. — Assisto TV, trabalho… não estou

traindo você, se é isso que está perguntando.

— Não é o que estou perguntando — disse Libby. — Você apenas

parece, sei lá, estressado. E está bebendo mais que…

— Mais que o quê?

— Mais que quando eu o conheci.

— É o trabalho.

— Me conta.

— Não posso — disse ele. — Olhe, Libby, nenhum de nós dois tem

empregos tradicionais, das 9 às 17 horas, como-foi-seu-dia-querido, sabe?

— O meu é bem claro.

— Bem, o meu não é — disse ele. Então, percebeu que soou mais áspero

do que pretendia. — Eu vou ficar atento à bebida, você está certa, estou pegando meio pesado.

— Não quero ser a namorada ranzinza.

— Você não é — garantiu Cirello. — Só que… — O quê?

— Aonde eu vou é aonde eu vou — disse Cirello. — É o meu trabalho. — Está bem.

Mas ela não gosta, e isso está causando estresse no relacionamento

deles. Cirello não quer perder essa mulher. Agora ele diz a Mullen:

— Não, olhe, nós estamos começando a chegar a algum lugar. Claro que

eu quero ver o negócio resolvido.

— Certo, que bom. Eu agradeço, Bobby.

— Claro. — Ele levanta da mesa. — Diga à sra. Mullen que agradeço

pelo café da manhã. Estava muito bom.

— Eu direi — diz Mullen. — Venha jantar, uma hora dessas, traga a… — Libby.

— Nós gostaríamos de conhecê-la — afirma Mullen. — E, Bobby, tome cuidado, está bem?

— Pode deixar.

Ele encontra com Andrea novamente, dá seu relatório, pega seu envelope. Na semana seguinte, Andrea diz:

— Seu negócio bateu.

— É, seu sei.

— Foi útil.

Andrea lhe passa outro pedaço de papel.

Mais dois nomes.

— Vocês estão tendo um surto de contratações? — pergunta Cirello.

Ele não pega o papel.

— O quê? — pergunta Andrea. — Eles não vão liberar a sua conta, se é o que você está pensando.

— Eu quero perdão dos juros.

— Se quer perdão, procure um padre — diz Andrea. — Ele lhe vai passar dez Ave Marias. Se você não rezar, ele manda mais dez. Até a igreja católica cobra juros.

— Sou grego ortodoxo.

— Você não está exatamente em posição forte de barganha, aqui — retruca Andrea.

Ah, eu estou, sim, pensa Cirello. Porque seu pessoal preferiria ter um distintivo dourado do lado deles, em lugar do dinheiro, pensa Cirello.

Ele empurra o papel de volta.

— Procura esses no Google.

Eles perdoam os juros.

Cirello checa os nomes.

Depois outro conjunto, depois checa uma localização, e verifica algumas placas de carros, para ver se são de policiais.

O tempo todo, ele continua jogando até perder, a dívida sobe e desce como um ioiô, mas acaba aumentando, com ou sem juros. Ele continua bebendo, parecendo cada vez mais com o que tem que parecer: um policial descontrolado ladeira abaixo.

Mullen continua recebendo reclamações sobre ele — Cirello chegou novamente de ressaca, Cirello nem apareceu pra trabalhar, Cirello está com um comportamento arredio, Cirello foi mais uma vez visto com o agenciador de apostas, Cirello perdeu as estribeiras.

O tenente quer obrigá-lo a fazer um exame de urina, colocá-lo no

polígrafo, no mínimo enviá-lo ao psicólogo do departamento.

Mullen diz não.

O tenente fica se perguntando por que o chefe da Narcóticos está agindo

em favor de um policial que parece estar saindo dos trilhos.

Libby se pergunta o que aconteceu com o cara meigo que ela conheceu. Só melhora um pouquinho quando eles vão jantar na casa de Mullen.

Mullen e a esposa são maravilhosos, as crianças são ótimas, mas Bobby está tenso e preocupado durante a refeição, quase a ponto de ser grosseiro.

Eles brigam a respeito, no caminho de casa.

— Gosto do seu chefe — diz ela.

— É?

— Você não?

— Sim, claro — responde Bobby. — Quer dizer, ele é um chefe. — O que quer dizer?

— O que é, você agora está do lado dele?

— Eu não sabia que havia lados — diz Libby. — Só estou falando que

gosto dele.

— Bom pra você.

— Vá se foder, Bobby.

— É, eu vou.

— Autopiedade é tão atraente — comenta Libby. — Só quero levar você

pra casa e pular em cima.

Cirello sabe o que ele está fazendo, sabe como ele está. Sabe da verdade

brutal do trabalho de infiltrado — a pessoa passa tanto tempo fingindo ser algo, que acaba não fingindo mais, apenas se torna aquilo.

Por isso, ele fica tão contente quando Andrea diz: — Meu pessoal quer conhecê-lo.

— Onde é a reunião? — pergunta Mullen.

— Prospect Park — diz Cirello. — Um lugar chamado Erv’s, Flatbush

and Beekman.

— Um daqueles locais superbadalados — comenta Mullen. —

Coquetéis artesanais, essas merdas.

Cirello não imagina como Mullen conhece esses troços, mas ele parece saber de tudo.

— A reunião não será lá — diz Mullen. — Andrea vai encontrar você lá e levá-lo pra outro lugar. Eu vou mandar reforço.

— Eles vão farejar.

— Olhe, nós não sabemos do que se trata.

— Eles não vão matar um policial de Nova York — diz Cirello.

— Nós vamos grampear você — decide Mullen — e deixar correr meio solto. Então, se você tiver problemas, podemos chegar lá.

— Eu não vim até aqui pra botar tudo a perder agora.

— Não vou deixá-lo isolado, Bobby — diz Mullen.

Em que porra de situação você acha que eu estou agora?, pensa Cirello.

Ele encontra o Andrea no Erv’s.

Mullen cantou a pedra: um bar da moda com uma galera fazendo uns coquetéis bacaninhas e drinques de café.

— Não imaginei que você frequentasse um lugar desses — diz Cirello.

— Nós não vamos ficar.

Então, Mullen cantou certo outra vez. Cirello segue Andrea até seu Lincoln Navigator e entra.

— Tenho que revistá-lo.

— Poupe o trabalho — diz Cirello. — Estou com a minha arma de serviço, uma pistola Glock 19, e não vou entregar.

— Estou falando de um grampo.

— Ah, não fode com essa coisa de grampo.

— Vamos, Cirello.

— Se puser as mãos em mim, eu vou estourar a sua cara no para-brisa — diz Cirello.

— Por que tem problema com isso?

Porque eu estou com uma porra de um grampo, pensa Cirello. Mas é um microfone pequeno, como Mullen prometeu, de última geração, colado entre o calcanhar e a sola da botina Chelsea que Libby o fez comprar. Então, ele recua.

— Certo, pode revistar, mas se demorar mais de um segundo no meu pau, eu vou contar.

Andrea o revista.

— Feliz agora? — pergunta Cirello.

— E excitado — diz Andrea.

Ele liga o motor e sai em direção a Flatbush.

— Pra onde nós vamos? — pergunta Cirello.

— Isso iria inutilizar a finalidade de todo esse aparato esperto — diz

Andrea. — Você verá.

Ele pega a Eastern Parkway até a Van Wyck e vira ao sul. — Vamos pro Kennedy? — pergunta Cirello, mais por Mullen do que

por si.

— Meu Deus, você é pior que os meus filhos — responde Andrea. —

Falta muito? Falta muito? Você não precisa fazer xixi, precisa?

— Eu não me importaria.

— Segura — diz Andrea. Ele fica olhando pelo espelho retrovisor. — Não tem ninguém nos seguindo — afirma Cirello. — A menos que

você tenha mandado alguém nos seguir. E se você fizer isso, Mike, eu vou estourar seus miolos.

— Relaxa.

Eles chegam ao Kennedy e Andrea entra na fila da locadora Dollar

Rent-A-Car.

— Dollar? — questiona Cirello, para que Mullen saiba onde ele está. —

Nem a Hertz, nem sequer a Avis? As coisas estão assim, tão ruins pra vocês?

— Venha.

Cirello desce do carro e vai atrás dele, até uma vaga, no estacionamento,

onde outro Lincoln aguarda.

— No banco do passageiro — diz Andrea.

Ele entra no lado do motorista.

Cirello entra.

O Aeroporto Kennedy é uma escolha inteligente, pensa Cirello. Desde o

11 de setembro só a segurança nacional pode fazer fiscalização em áudio, na região dos arredores do aeroporto, e eles não dão a mínima para a máfia. E com os aviões decolando e pousando, o microfone em sua bota é inútil. Mullen não vai conseguir ouvir nada. Ele deve estar tendo um troço.

Não, se alguma coisa der errado aqui, você está por conta própria. A menos que o chefe tenha um ataque e venha com tudo, o que Cirello

espera que ele não faça.

Trabalho demais pelo ralo.

Ainda assim, Cirello não gosta de ficar no banco dianteiro de passageiro, a “cadeira elétrica” italiana. Dois pipocos atrás da cabeça, eles entram em outro carro alugado e ele já era. Ele até consegue ouvir o interrogatório de Andrea: Um policial corrupto, ele me pediu para levá-lo ao aeroporto. Depois disso, o que posso dizer?

Então, agora, Cirello pergunta:

— Tudo bem se eu virar?

O cara atrás dele diz:

— Bem, é pra ser uma conversa cara a cara.

Cirello vira.

É uma porra de um garoto — digno de pedir os documentos, se aparecesse em uma loja para comprar bebida.

Cabelos e barba castanhos. Rosto largo com maçãs do rosto saltadas. A jaqueta de couro está apertada no peito e nos ombros parrudos.

Parece com seu avô, Johnny Boy.

Johnny Boy Cozzo foi o último dos gângsteres da velha guarda — não pediu pra sair, levou seu caso ao júri (dois jurados o absolveram), não dedurou ninguém, quando finalmente foi sentenciado à prisão perpétua, sem direito a condicional.

Morreu de câncer de garganta, em uma prisão federal.

Fazem filmes sobre o cara.

Cirello conhece sua história na máfia — sabe que foi Johnny Boy que rompeu o comando da família Cimino, de “você trafica, você morre”, e trouxe cocaína do México. Matou seu chefe para fazê-lo, e a família Cimino fez milhões com cocaína.

Até que Giuliani e eles derrubassem os Cimino e o resto das Cinco Famílias, e agora eles são, conforme diz o ditado, sombras do que eram. E a ordem de “nada de drogas” voltou a reinar, dada pelo filho de Johnny Boy, Junior, porque os caras estavam dedurando, quando pegavam penas muito pesadas.

Só que agora há outro John Cozzo sentado ao lado de Steve DeStefano, no banco traseiro do carro.

— Você sabe quem eu sou?

— Você não sabe quem você é? — pergunta Cirello. — Temos um surto de amnésia, neste momento?

— Ei, estamos tendo uma noite de microfone aberto — diz Cozzo. — Faça um favor a você mesmo, não deixe seu emprego diurno. Eu sou John Cozzo (sim, ele era o meu avô); me chamam de Jay.

— O que vamos fazer, Jay?

— Você andou dando um sacode no meu amigo Steve, aqui. Cirello ainda está com a arma, mas, do jeito que está apertado no banco,

não tem chance de conseguir pegá-la antes que um deles o acerte primeiro. De canto de olho, ele vê Andrea se remexer, levando a mão até a cintura.

Se eles quiserem mesmo me apagar, pensa Cirello, eu estou morto. — Seu tio sabe que você está aqui?

— O que o meu tio tem a ver com isso?

— O Junior não tem uma regra pra traficar?

— Agora só há uma regra — diz Cozzo. — Ganhar dinheiro. Quem

ganhar bastante dinheiro faz as próprias regras. Meu avô me ensinou isso. Eu pareço mais com ele do que meu tio, sem desrespeito.

— Claro.

É, claro. O desrespeito pelo Junior é generalizado. Seu próprio pessoal o

chama de “Príncipe Palhaço” e de “Urkel”, daquele seriado Family Matters. Ele botou abaixo praticamente tudo que restou da família. E agora um de seus capangas saiu dos trilhos, interferindo em favor do acordo de drogas do sobrinho.

— Você é difícil, hein — comenta Cozzo. — Dá uma dura no meu

pessoal, toma sete mil por semana e não paga o dinheiro que deve.

— Você vem recebendo em permuta.

— Por isso que eu quis conhecê-lo pessoalmente — diz Cozzo. — Olhar

no olho, ver o que eu comprei.

— Está mais para ”alugou”.

— O que quer que facilite seu dia, detetive — responde Cozzo. — E

assumi o controle no negócio do Steve. Dado o novo acordo, acho que não precisamos mais lhe pagar por proteção. A questão é: nós o matamos agora, ou podemos fazer negócio?

— Nós temos feito negócio — diz Cirello, tentando manter a voz isenta

de medo.

— Sabe, quando eu falei que o comprei, foi o que eu quis dizer —

afirma Cozzo. — Bucci vendeu o seu papel para Mike e Mike vendeu pra mim. Todas as vendas são definitivas.

Ele quer alguma coisa, pensa Cirello, e quer muito. Do contrário, já

teria parado de falar e Andrea já teria apertado o gatilho.

— E se eu rasgar o papel? — pergunta Cozzo. — O que isso me dá?

— O principal e os juros?

— O principal e os juros.

— O que você quer? — pergunta Cirello.

Tudo o que fez foi para chegar até aqui, esse é o motivo de todos os jogos até agora.

— Estou contemplando um grande negócio, com uma pessoa — diz Cozzo. — Preciso saber que é seguro. Escute, Cirello: eu vou trazer minha família de volta ao seu lugar apropriado. Esse negócio é bem grande e eu não posso deixar ninguém ferrar com ele.

— Está falando de heroína?

— Você não precisa saber disso — retruca Cozzo.

— Precisa, sim, Jay — diz Andrea. — Talvez faça diferença no lugar onde ele vai olhar.

— É isso? — pergunta Cozzo.

— É isso — responde Cirello. — Há unidades distintas na Narcóticos. Existe uma Força Tarefa para a Heroína, por exemplo. Depois, há os distritos…

— É heroína — confirma Cozzo. — Preciso disso liberado. Preciso de informação local, estadual, federal…

— Eu posso lhe dar informação da NYPD — diz Cirello. — Estadual e Federal, eu não tenho acesso.

— Arrume acesso.

— Se eu conseguir — diz Cirello —, isso vai lhe custar mais.

— Filho da puta ganancioso.

— Não posso ficar de mãos abanando — diz Cirello. — Estadual é uma coisa, as porras dos federais…

— Quanto?

— Cinquenta, talvez. Em espécie.

— Mas que porra?

— Esse é o preço de fazer negócios, Jay — diz Andrea.

— E você vai levar quanto? — pergunta Cozzo. — Quinze, de honorários de intermediário?

— Estou pensando mais pra vinte — responde Cirello. — Também tenho que viver.

— Você quer dizer que tem que jogar.

— Mesma coisa.

Cozzo pensa, por alguns segundos, depois diz:

— Vou arranjar seus cinquenta. Você me consegue a informação. Mas

vem com uma garantia: a porra da sua vida, Cirello. Policial ou não, se isso der errado, eu vou matar você.

— Quem é o cara?

— Mike vai lhe passar isso — responde Cozzo, abrindo a porta. —

Tenha um trajeto de volta em segurança. E, Cirello, lembre-se do que eu lhe disse.

Ele e DeStefano saem do carro.

Cirello fica olhando, enquanto eles entram em outro carro e vão embora. No caminho de volta, Cirello pergunta a Andrea: — Isso não vai complicar você com o Junior? — O Junior reduziu tanto o fluxo de renda que mais parece um velhinho

mijando — diz Andrea. Eu tenho filhos na faculdade, você sabe quanto custa isso? Não quero que saiam, eles já são meio confusos.

— Você confia nesse garoto Cozzo?

— Confiar — diz Andrea. — Você é mesmo um comediante. — Quem eu tenho que verificar?

Um cara negro, de East New York, Andrea diz a ele. O nome é Darius Darnell.