A fronteira

Don Winslow · Capítulo 17 de 25

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A fronteira

2: A morte será a prova

2

 

A morte será a prova

 

“A morte será a prova de que nós vivemos”.

— Castellanos

Sinaloa, México

Dezembro de 2016

 

Seu pai parece velho.

Imagino que levar um tiro faça a pessoa envelhecer, pensa Ric.

Mas seus cabelos fartos agora estão mais grisalhos — prematuramente — e parece haver sempre uma expressão de fadiga em seu rosto (ou será de dor?). As balas não o mataram, mas com certeza o enfraqueceram. Ele é brilhante e analítico como sempre foi, mas sua energia se esgota depressa.

Ric sabe o que falam de seu pai agora: “Se você quer falar com El Abogado, é melhor que o faça antes do almoço, antes de sua siesta diária. Depois disso, ele não é tão perspicaz”. Por garantia, as pessoas o procuram cada vez menos e vão direto a Ric.

A vida de seu pai está claramente atenuada, por conta de sua energia reduzida, sua dieta limitada, sem álcool — às vezes um gole de xerez, aos domingos — e alimentos suaves que não irritem o interior de seu estômago reconstruído. Ricardo Núñez Sênior nunca chegou a ser a alegria da festa, mas sempre foi um anfitrião gracioso — agora, as reuniões na casa são raras, e os poucos convidados sabem que precisam ir embora quando veem as olheiras escuras sob os olhos de Núñez.

No cinema, as pessoas que levam tiros ou morrem ou se recuperam totalmente. Ric descobriu que a realidade é um tanto diferente.

Agora ele está com o pai, no banco traseiro de um carro, a caminho de uma reunião. Ele nem queria que o pai viesse, ou que o encontro fosse na casa deles, mas Núñez Sênior quis dissipar a noção de que é um inválido.

— O patrón tem que ser visto — disse ele. — Do contrário, vão começar a achar que não há nada atrás da cortina.

— Hã?

— O mágico de Oz. Você nunca assistiu? — Acho que não.

— Há um mágico poderoso que governa um reino apenas com sua voz,

de trás de uma cortina — disse Núñez. — Mas quando puxam a cortina, descobrem que ele é apenas um homem.

Mas você é apenas um homem, pensou Ric. A reunião é com os líderes de um grupo chamado La Oficina, um dos

grupos dissidentes da antiga Organização Tapia.

Na última contagem de Ric, 26 grupos separados — às vezes atuando

em colaboração mútua, às vezes guerreando uns com os outros — haviam surgido a partir dos Tapia. Alguns são autônomos, outros declaram aliança a Damien, outros ainda prometem lealdade a Eddie Ruiz. E agora, eles estão espalhados por todo o país — a maioria, como os GU e Los Rojos, em Guerrero e Durango, mas há outros em Sinaloa, Jalisco, Michoacán, Morelos, Acapulco, Tamaulipas, até bem lá abaixo, em Chiapas. Alguns dos grupos existem até na Cidade do México. O fator em comum é que todos eles estão causando problemas.

Misture a esse bolo as autodefensas — milícias voluntárias que alegam

lutar para defender os civis contra os cartéis. Algumas tentam mesmo fazer isso; outras começaram assim e evoluíram para apenas mais exemplos de corrupção e coerção.

É uma zona.

Caos por todo lado.

O maior equívoco que Adán Barrera cometeu foi trair seu velho amigo

Diego Tapia e dar início a uma guerra civil dentro do cartel Sinaloa. Enquanto estava vivo, pensa Ric, ele pôde controlar os resultados; agora, ele deixou meu pai em seu lugar para tentar pôr o vinho derramado de volta na garrafa.

É impossível.

Mas a reunião de hoje é um esforço.

La Oficina fez propostas para voltar à confraria de Sinaloa. Vale a

tentativa, pensa Ric — aliados podem nos ser úteis.

A guerra contra Tito não vai bem.

Para começar, nós estamos perdendo Baja.

A aliança Sánchez-Jalisco tomou Tecate, a menor, porém importante

travessia fronteiriça com San Diego. Isso significa que eles podem despachar sua coca, meta e heroína diretamente para dentro dos EUA, rompendo o que um dia foi o monopólio Sinaloa. E eles estão emprestando a travessia da fronteira em Tecate para Damien e outros grupos dissidentes de Tapia, custeando e fomentando ainda mais a insurgência contra Sinaloa em Guerrero, Durango e Michoacán.

De seu forte, nas profundezas das montanhas de Guerrero, Damien tem pintado o diabo. Após o rapto dos irmãos Esparza, ao invés de recuar, ele se tornou mais agressivo, conduzindo emboscadas nos carregamentos de drogas de Sinaloa e nas patrulhas do exército e da polícia. Ele recentemente matou três policiais estaduais de Guerrero, em um tiroteio que se estendeu por quatro horas, perto de uma fazenda de ópio. Uma semana depois, atocaiou um comboio do exército e matou cinco soldados.

Ele está se transformando na porra do Che Guevara.

E não é só no interior.

Acapulco se tornou um pesadelo.

A cidade de veraneio à beira-mar, um dia tão tranquila, agora é um campo de batalha onde Sinaloa, Novo Jalisco e Damien lutam pelo porto valioso, tão necessário para receber a base química para meta e fentanil.

Eddie Ruiz costumava administrá-lo, e Ric precisa admitir que ele fazia um bom trabalho. Porém, desde a saída de cena de Ruiz, sua organização se fracionou em facções concorrentes que atuam independentemente, ou fazem alianças que não param de mudar, com um ou mais dos grandes participantes.

A conta do açougueiro tem sido alta.

E grotesca — um grupo de ex-funcionários de Ruiz gosta de arrancar o rosto de suas vítimas e deixar nos bancos de seus carros. Outro tem predileção pela prática, agora comum, de pendurar corpos em pontes ou deixar membros espalhados pelas calçadas. GU e Los Rojos estão lutando na cidade, e o único aliado atual de Sinaloa é um grupo conhecido como o Caminhão Varredor, que, de fato, sai varrendo alguns de seus inimigos da rua.

Acapulco é de quem levar.

Assim como Mazatlán.

Nosso porto mais importante, pensa Ric, e nós podemos perdê-lo.

Outro grupo dissidente dos Tapia é Los Mazateclos, que lutaram contra Sinaloa durante a guerra civil, sumiram quando perderam e voltaram agora, depois da morte de Barrera.

Com força total.

Literalmente.

Ali, nós estamos aguentando firme, pensa Ric, mas a Plaza está

decididamente esquentando, e com Tito ajudando a custear antigos grupos Tapia, isso só piora. Baja, Guerrero, Durango, Michoacán, Morelo — em todo lugar os grupinhos estão surgindo como cogumelos depois de um inverno chuvoso.

E antigas plantas, dadas como mortas ou moribundas, estão voltando a

se erguer do velho solo.

Em Juárez, travessia fronteiriça mais movimentada e valiosa, e campo

da batalha mais sangrenta na guerra de Barrera, disputada e vencida por Sinaloa a um preço tremendo, o cartel derrotado de Juárez está voltando.

Em Chihuahua, o quase finado cartel Golfo está voltando dos mortos.

Seu antigo chefe, Osiel Contreras, em breve irá concluir sua pena em uma prisão americana e voltará para casa, um dos Los Retornados. Quem sabe o que Contreras irá querer?

E em Tamaulipas e Veracruz, os zetas — o mais violento, sádico e

psicopata dos cartéis —, o inimigo derrubado por uma aliança perversa entre Sinaloa, o governo federal mexicano e a Divisão de Narcóticos americana, as pessoas que mataram Barrera e Esparza, na Guatemala, estão voltando.

Os índices de assassinato sobem.

Ric estudou os números.

De janeiro a outubro de 2015, o México teve 15.466 assassinatos. Em outubro de 2016, o número subiu para quase 19.000. Um aumento de mais de vinte por cento, nível que não era visto desde

os dias ruins, em 2011, quando Barrera estava guerreando contra os Tapia, o Golfo, Juárez e os zetas.

O governo não consegue deter.

O governo está entrando em pânico.

Recorrendo a nós para frear isso. Se não o fizermos, Ric sabe, eles vão recorrer a outro. Talvez já o tenham feito.

Mais cedo, no começo desse trajeto de carro, seu pai lhe deu notícias

alarmantes.

— Rafael Caro montou um consórcio.

— O que quer dizer? Que tipo de consórcio?

— Um fundo de empréstimo — explicou Núñez. — Ele está trabalhando com banqueiros, gente do governo e alguns negociantes para emprestar 285 milhões a um grupo imobiliário americano de propriedade do genro no novo presidente. O consórcio basicamente comprou o governo americano pela ninharia de trezentos milhões. É a barganha do século.

Ric analisou as ramificações…

As pessoas no consórcio não teriam influência apenas na Cidade do México, mas também em Washington, DC. Elas teriam a possibilidade de impactar a Divisão de Narcóticos — obtendo dados da inteligência, utilizando-os contra inimigos…

… como nós.

O empréstimo dá ao consórcio, voz nas mais altas esferas de negócios nos EUA, principalmente em Nova York, onde Sinaloa está se esforçando para ganhar uma base de operações.

Os benefícios são ilimitados.

Mas, da mesma forma, são as desvantagens, para quem é excluído.

— Como descobriu sobre isso? — perguntou Ric.

— Nós ainda temos amigos na Cidade do México — disse Núñez. — Eles presumiram que nós estávamos dentro. Eu não os desiludi.

— Quem são as pessoas participantes, de nosso ramo de negócio?

Núñez soltou a bomba na cabeça do filho.

— Iván Esparza, entre outros.

— Eles foram a Iván e não vieram a nós — concluiu Ric, com a cabeça girando.

— É o que parece.

— E o Iván não nos contou.

— A questão é — disse Núñez — que nós fomos deixados de fora. Com a cumplicidade de seu bom amigo Iván.

Ric não pegou a isca. Ele não falou ao pai sobre o acordo de sucessão com Iván. Isso não seria aceito. Mas esse é Iván, disparando a arma, pensa Ric. Fazendo uma jogada para comprar esse tipo de influência sem compartilhar conosco. Dá a sensação de uma violação da amizade deles, sem mencionar o relacionamento profissional.

Dá a sensação de traição.

Tem havido tensão entre eles.

Ric vê Iván como responsável pelos problemas em Baja. Eles discutiram sobre isso na mais recente reunião, dessa vez em um bar à beira-mar, em Puesta del Sol.

Iván não queria acreditar que agora Tito e Elena possuíam Tecate. — Não apenas Tecate — disse Ric. — La Presa, El Florido, Cañadas,

Terrazas, Villa del Campo…

Um a um, os territórios em Baja se tornam domínio de Tito e Elena. Os

únicos lugares onde Sinaloa ainda tem força eram os locais que Ric e Belinda possuíam — Cabo e La Paz. Belinda é ativa em Tijuana, mas o lugar é um campo de batalha, com muita coisa acontecendo, muitas mortes.

— O que mais o está preocupando, jovem Ric? — questionou Iván. — Seu irmão.

— Oviedo? — perguntou Iván, irritado. — O que tem ele? — Ele está ferrando tudo — disse Ric. — Desde que você o tornou

chefe na Plaza Baja… quer dizer, ele não está fazendo o trabalho. Não se consegue falar com ele ao telefone, metade do tempo ele está chapado, ele fica tentando foder com as mulheres dos outros…

— Ele vai se acomodar.

— Quando? — perguntou Ric. — Nós estamos sob fogo cruzado, Iván.

E Oviedo está trepando por aí. Não dá pra tomar uma decisão, é de quem falar com ele por último.

— Com todo o respeito — disse Iván —, você toca alguns bairros em La

Paz e Cabo, mas o restante de Baja é negócio meu, não seu.

Então, cuide do seu negócio, pensou Ric.

— O que acontece em Baja afeta a nós todos. Tito e Elena tomando a

plaza Tecate fere a nós todos. Se eles pegarem a travessia de Tijuana…

— Não vão pegar.

— Eles acabaram de matar Benny Vallejos.

Benny Vallejos era um dos principais atiradores de Iván, em Tijuana.

Encontraram seu corpo cravejado de balas, em um trecho vazio da estrada, com uma placa no dorso que dizia Saudações de seus pais, no cartel Novo Jalisco.

— Nós vamos dar o troco — afirmou Iván.

— Não é uma questão de dar o troco — respondeu Ric. — É uma

questão de controlar o território.

— Olha só você — disse Iván. — Agora é o sr. Todo Sério. Eu me

lembro que você costumava ser um cara de farra.

— Talvez eu tenha crescido — disse Ric, começando a ficar nervoso. — Talvez Oviedo também deva crescer.

— Cale a boca sobre meu irmão, Ric.

— Iván…

— Eu disse cala a porra da boca.

Ric calou a porra da boca. Mas essa indisposição de Iván para ouvir o incomodou. E agora ele está realmente incomodado que Iván tenha feito uma manobra séria pelas costas dele.

— Precisamos sentar com os irmãos Esparza — disse Núñez. — Eu quero uma explicação. Eles têm que nos deixar entrar no consórcio.

— Eu concordo.

— Marque uma reunião — diz Núñez. — O mais rápido possível.

Ele recosta e fecha os olhos.

Ric olha pela janela, para o campo flanqueando a Rota 30, enquanto o pequeno comboio segue seu caminho rumo a El Vergel. A reunião está marcada em uma fazenda ao sul da cidade, em meio às planícies com plantações de pimentões.

Ele ouve o pai roncar.

Olha o relógio e confirma que é hora de sua siesta.

O comboio — guardas uniformizados estão nas caminhonetes na frente e atrás deles — segue por El Verge e depois vira ao sul, em uma estrada de duas faixas que atravessa Colonia Paradiso e depois sai da cidade até um arvoredo margeando o rio.

A fazenda, tipicamente de estuco e telhado vermelho, com ampla varanda, fica situada em meio às árvores.

Ric contorna o carro, abre a porta do passageiro e ajuda o pai a descer. Núñez levanta devagar e está hesitante ao pôr os pés no chão. Eles caminham para dentro da casa. Alguns guardas vão na frente, outros ficam posicionados do lado de fora.

O pessoal de Oficina — um cara chamado Callarto e outro chamado García — já está sentado à mesa da cozinha. O lugar é rústico, a mesa é de madeira pintada de branco, há pratos antigos em uma estante na parede, o piso é de tábuas largas.

Eles se levantam quando Núñez entra, um bom sinal.

Núñez gesticula para que voltem a sentar.

Ric se acomoda em uma cadeira ao lado do pai.

— É bom vê-los de novo — diz Núñez. — Faz bastante tempo.

Clássico, pensa Ric — seu pai, com seu jeitinho de advogado, os faz

lembrar que eles foram desleais, enquanto também sugere que isso são águas passadas. Ao mesmo tempo, todos na sala sabem que La Oficina é um grupo de pequenos participantes, e que um ano antes — merda, seis meses antes — Ricardo Núñez nem teria se dado ao trabalho de sentar com eles pessoalmente.

Ric espera que eles não tenham vindo com uma visão aumentada da

própria importância.

Eles continuam sendo pequenos participantes. Mas a realidade de 2016 é que os grandes participantes terão que montar

coligações com muitos dos pequenos. La Oficina opera em Aguascalientes, no Distrito Federal. Como Tito criou uma presença na Cidade do México, seria bom ter um aliado posicionado em seu flanco para preocupá-lo. Bom, porém não essencial, pensa Ric, e ele espera que o pai não abra mão de muita coisa pelo que talvez seja uma ligeira vantagem.

Mas, também, a aliança é tão preventiva quanto agressiva. Tito quer

consolidar seu poder no Distrito, assegurando seu flanco, e um acordo ali, com La Oficina, evitaria isso.

— Eu estou dolorosamente ciente — diz Núñez — das longas tensões

entre nós e a ala Tapia da organização. A amargura e a falta de confiança permanecem. Mas nós nos desculpamos pelo que agora reconhecemos como equívocos… injustiças, na verdade… em nosso tratamento passado aos irmãos Tapia. Vocês sofreram algumas dessas injustiças. Mas o passado é passado e o que todos podemos fazer agora é sentar juntos e investigar de que maneira podemos seguir adiante.

— Pule a baboseira — diz Callarto. — Nós precisamos de um

escoamento para nosso produto. Vocês podem nos ajudar, ou não?

— O Tito os recusou?

— Nós não fomos até ele. Ainda.

García diz:

— Pensamos em recorrer primeiro aos velhos amigos. — O que temos como retorno?

— Lealdade — responde Callarto.

— Lealdade é um conceito — diz Núñez. — Eu esperava algo mais

concreto.

— O que você quer?

Núñez sorri.

— Eu não faço ofertas contra mim.

— Se precisa de ação contra Jalisco, no Distrito — diz Callarto —, nós pulamos pra dentro.

— Com os dois pés? — pergunta Ric. — Do lado fundo?

— Dentro do que for sensato — diz Callarto.

Dentro do que for sensato, pensa Ric. Isso se traduz em “enquanto nós estivermos ganhando”. Eles acham que meu pai é fraco, acham que podem tirar vantagem disso. Ele diz:

— Nós não precisamos de amigos interesseiros.

Núñez ergue a mão.

— Ric…

— Não, esses caras estão brincando com a gente — diz Ric. — Eles vão pegar nossas rotas e nos deixar na mão, quando precisarmos deles.

Ele vê isso nos olhos de Callarto.

— Não estou pedindo a sua lealdade — declara Ric. — Eu estou exigindo. Vocês voltam ao nosso barco, ou nós vamos esmagá-los como os insetos que vocês são.

— Você é bem confiante, garoto — diz Callarto.

— Eu não sou um garoto — responde Ric.

— Talvez Tito possa nos oferecer um acordo melhor.

— Ele vai — diz Ric. — Mas não pode cumprir.

— Ele pode nos dar a travessia de Tecate — fala Callarto.

— Nós vamos reavê-la — diz Ric. — Estamos ganhando em Baja. Estamos ganhando em Acapulco, em Guerrero inteira. Mazatlán está feita. Se vocês escolherem o lado errado, nós vamos enterrá-los.

— Deixe eu lhe perguntar uma coisa. Que porra você acha que é, pra falar com a gente desse jeito?

— Eu sou o Afilhado — responde Ric. — Agora, deixe que eu lhe pergunte uma coisa: quantos homens vocês têm lá fora?

Callarto o encara fulminante. Depois diz:

— Ouvi falar que você tinha crescido. Acho que ouvi certo. Está bem, nós vamos…

Sangue espirra no rosto de Ric.

A boca de Callarto se foi, virou um buraco aberto.

Ele desliza de sua cadeira.

Ric salta sobre o pai e o puxa para o chão. As balam zunem acima deles,

atingem a parede, estilhaçam a louça. García serpenteia pelo chão, na direção da porta dos fundos. O sangue vai empoçando sob a cabeça de Callarto, seus olhos mortos encaram o teto.

Ric engatinha até a janela, arrisca uma olhada lá para fora. Quatro utilitários e uma picape formam um arco em frente à casa. Todos

os veículos têm marcadas as letras “CNJ”, com sicários atirando por trás das portas. Até seus homens buscam cobertura — alguns reagem atirando por trás das árvores, outros, dos carros, outros estão deitados no chão, mortos ou feridos.

Ric puxa sua Sig 9, estilhaça uma janela com o cabo e dispara lá para

fora.

Ele dá cinco tiros e um trava no cano. Ele recosta na parede e tenta

destravar. Belinda lhe mostrou como fazer isso uma dúzia de vezes, mas ele não consegue e as balas entram pela janela.

Porra, porra, porra, porra.

Ele precisa sair dali.

Tem que tirar seu pai dali.

Ric olha de novo pela janela. Três de seus veículos estão ali, mas um

sumiu. Ou eles foram embora, ou estão contornando até os fundos da casa. Alguns de seus homens estão de pé de mãos erguidas. Eles estão sendo puxados pelos sicários do CNJ, que lhes dão safanões na direção do caminhão e os jogam para dentro.

Rastejando de volta até a mesa, ele agarra o pai pelo cotovelo. — Fique abaixado.

Eles rastejam para fora da cozinha, passam pela salinha, pelo velho

sofá, uma mesa de centro, uma televisão antiquíssima.

Ric vê a porta dos fundos.

Aberta, por onde García passou.

Ele leva o pai até a porta e olha para fora.

Tem um sicário lá fora.

Ric se obriga a respirar.

Acalma-se, destrava a pistola emperrada e enfia nela outro pente. Ele tem que fazer um bom disparo. Alinhando o alvo bem no meio, Ric

segura a pistola com as duas mãos e aperta o gatilho.

O sicário cai de costas e solta a arma.

Três do pessoal de Ric vêm a toda com a caminhonete. A porta do passageiro é escancarada. Ric empurra o pai na frente, empurra-lhe no banco do passageiro e depois entra também.

O carro arranca.

Se não houver alguma estrada secundária, eles estão mortos.

O carro estoura uma cerca e adentra o campo de pimentões.

Eles seguem com a tração das rodas acionada, pela terra funda e seca, descendo um leve declive, depois chegam ao rio. Não há escolha, a não ser tentar atravessá-lo. O motorista entra na água e vai seguindo devagar, até o outro lado. Mais acima, até outro campo, até que eles chegam a uma estradinha de terra. Encontram o caminho até a rodovia de volta a Culiacán.

Ric sente o sangue escorrendo em seu rosto.

Fica imaginando se foi atingido, depois passa a mão perto dos cabelos e percebe que estão cheios de cacos de vidro. Ele abaixa o quebra-sol e olha no espelho, para removê-los.

— Você está bem? — ele pergunta ao seu pai.

Núñez assente.

— Quem foi?

— Tito.

— Agora ele tem a ousadia de nos atacar em Sinaloa — diz Núñez.

É, isso não é nada bom, pensa Ric.

Nada bom.

Ele pisca para limpar o sangue de seus olhos.

— Que porra é essa, cara? — Iván pergunta, ao telefone. — Em El Verge! Tito tem muita petulância. Seu velho está bem?

— Ele está um pouquinho abalado — responde Ric —, mas vai ficar bem. Dois dos nossos morreram e quatro foram levados. Não sei o que aconteceu com eles.

— Bem, ou eles mudaram de uniforme — diz Iván —, ou vocês vão encontrá-los no acostamento da estrada, em algum lugar.

— Acho que sim — diz Ric. — Iván, nós precisamos sentar pra conversar.

— Que tom sério.

— E é.

Ele conta a Iván sobre seu pai querer encontrar com todos os irmãos,

para esclarecer tudo.

— Esclarecer tudo sobre o quê?

— Não me faça de bobo agora.

— Eu não sei…

— Seu investimento? — diz Ric. — Com Rafael Caro? Você fodeu a

gente, Iván.

— Ei, nem todo mundo é convidado pra todas as festas. — Pra essa, nós temos que ser convidados — diz Ric. — Eu e você

tínhamos um acordo: meu pai toca o cartel até se aposentar ou falecer, depois você assume o trono. Você não pode sair por aí, por conta própria. Nós ainda somos uma coisa só.

Longo suspiro.

— Quando você quer conversar?

— Assim que possível. Amanhã, depois de amanhã. — Mas tem que ser em território neutro — diz Iván. — Não posso

parecer ter sido chamado à sala do diretor.

— Sim, tanto faz.

— E eu quero alguma garantia da minha segurança. — Você agora não confia em mim?

— Eu não confio no seu velho — retruca Iván. — Ele vai arranjar um

jeito de botar a culpa disso em mim.

— Isso é bem paranoico.

— Eu estou sendo paranoico? — diz Iván. — Ele que é paranoico. Eu

quero Caro. Se ele arranjar a reunião, nós estaremos lá.

Ric diz que vai retornar a ele e sobe até o quarto do pai. Núñez está na

cama, mas acordado, sentado. Ric senta no pé da cama.

— Como você está?

— Estou bem — responde Núñez. — Sem você, não estaria. Foi você

que nos tirou de lá.

Ric não responde.

— O que eu estou dizendo é que sou grato.

— Está bem.

— Você falou com Iván?

— Falei.

— E?

— Ele foi evasivo — diz Ric. — Ficou na defensiva. Ele sabe que está errado.

— Ele tem que fazer o certo — afirma Núñez. — Nós precisamos estar naquele consórcio, agora, mais que nunca. Precisamos da influência que isso teria acima de Tito. Sem isso… Todos os três irmãos virão, não é?

— Sim, mas por que você…

— Todos eles precisam ouvir — diz Núñez. — Eles têm que entender que, embora nós tenhamos dado Baja, eles ainda fazem parte do cartel e eu sou o cabeça do cartel.

— Iván quer que a reunião seja em território neutro — conta Ric. — E quer que Caro garanta a segurança dele.

— Você contou a ele sobre a reunião em Oficina? — pergunta Núñez. — Você disse a ele?

— Talvez eu tenha dito alguma coisa.

— Se eu e você morrermos — diz Núñez —, o cartel vai para Iván.

— Eu não acredito que ele faria isso.

— Ele nos deixou de fora do consórcio — lembra Núñez.

— Foi Caro quem deixou.

— E Iván concordou — diz Núñez. — Você sabe que ele quer ser o chefe, sabe que ele sempre se ressentiu de nós.

— Ele é meu amigo. — Mas Ric se sente mal. Porque percebe que tem dúvidas. Você fez o acordo com Iván, ele diz a si mesmo. Você deu a ele motivo para nos matar e não esperar. Iván Esparza não é conhecido exatamente por sua paciência. — Ele não faria isso.

— Se você está dizendo… — fala Núñez. — Mas eu saberei na reunião. Saberei quando olhar nos olhos dele. O pai dele sabia mascarar os pensamentos; os filhos, nem tanto. Também quero falar com você sobre Belinda Vatos.

— O que tem ela?

— Meu velho chefe da segurança, Manuel Aleja, está saindo da prisão — diz Núñez. — Quero que ele reassuma seu lugar. Tenho certeza de que Belinda vai entender.

Ric tem bastante certeza de que ela não vai entender. Toda a identidade dela está ligada ao fato de ser chefe da segurança.

— Isso não é justo.

— Nem é justo que Aleja passe cinco anos na cadeia por nós — responde Núñez. — Ele merece seu antigo posto. Ele o conquistou.

— Ela também.

— Ela é jovem — diz Núñez. — Ela terá oportunidades de sobra. Por

favor, agradeça por seus serviços. Dê-lhe algum tipo de bônus, um pouco mais de território em La Paz, para a venda de drogas, ou algo assim.

É, ela não vai ficar contente com uma gorjeta, pensa Ric. Isso só vai

deixá-la ainda mais zangada.

— Ela já tem isso.

— Então, dê mais.

— Isso é um erro — diz Ric. — Nós estamos no meio de uma guerra, e

ela é uma de nossas melhores guerreiras.

— Ela é extravagante demais — diz Núñez. — Francamente, acho que

ela é meio maluquinha, talvez até psicótica. Suas matanças são… grotescas… macabras. Nós não queremos ser associados com esse tipo de coisa.

— Nós queremos o quê? Mortes limpas?

— Ela é bobagem — diz Núñez. — Você precisa ficar focado no

panorama geral. Neste momento, o que importa é o consórcio do Park Tower. E Nova York. No fim das contas, nós vamos derrotar Tito ao ganhar influência em Washington e ganhando Nova York e o mercado da Costa Leste.

Ric sabe que seu pai está certo quanto a Nova York. Seus representantes

estão arrebentando lá, com a heroína batizada com fentanil. Isso é uma página da antiga cartilha de Barrera: incrementar a produção, elevar a qualidade, cortar preços e tirar a concorrência do mercado.

E os lucros vindos de Nova York são realmente fenomenais, pensa Ric. Mas seu pai está errado quanto a Belinda.

— Antes de mais nada — diz Núñez —, vamos marcar a reunião com os

Esparza.

Ana Villanueva olha para o idoso.

Ele parece inofensivo e suave. Uma camisa azul xadrez, de mangas

compridas, abotoada até o pescoço, jeans passados, um boné azul de beisebol. Um relógio barato com pulseira plástica, uma medalha da Virgem de San Juan de Lagos no pescoço.

Rafael Caro poderia ser o avô de qualquer um, pensa ela. — Pode me perguntar qualquer coisa — diz ele. — Não tenho nada a

esconder.

— O senhor passou vinte anos numa prisão americana — diz Ana —, pela tortura e assassinato de um agente americano.

— Há 31 anos, eu cultivava maconha — afirma Caro. — Mas não matei Hidalgo. Não tive nada a ver com isso.

— Então, os governos do México e dos EUA estavam mal informados.

— Muito mal informados — diz Caro. — Eu passei vinte anos na prisão porque cultivava maconha. Agora isso é legal em muitos lugares.

Ele sacode os ombros com ar fatalista.

— O senhor conheceu Adán Barrera.

— Nós fomos amigos, um dia — diz Caro. — Depois nos tornamos inimigos. Isso foi há muito tempo. Por que você está me fazendo perguntas sobre o que aconteceu em outra vida?

— Está bem, vamos falar de agora — responde Ana. — Há boatos de que o senhor está apoiando o antigo pessoal de Tapia, em sua guerra contra o cartel Sinaloa. Há verdade nisso?

Caro ri.

— Nenhuma. Por que, depois de vinte anos na prisão, eu iria querer mais problemas? Eu não quero guerra, só paz. Paz. Além disso, guerras custam dinheiro. Olhe à sua volta, eu pareço ter dinheiro? Não tenho nada.

— Algumas pessoas dizem que o senhor quer poder.

Caro insiste:

— Eu só quero paz. E peço desculpas à família de Hidalgo, à Divisão de Narcóticos e ao povo mexicano, por quaisquer erros que eu tenha cometido.

— As pessoas estiveram aqui para vê-lo? — pergunta Ana. — Buscando seu apoio?

— Que pessoas?

— Ricardo Núñez — sugere Ana. — Iván Esparza… Tito Ascensión…

— Todos eles vieram me visitar — responde Caro. — Por respeito. Eu disse a eles o mesmo que estou dizendo a você. Eu sou um velho. Parei com os negócios. Não quero fazer parte de nada disso.

— E por eles, tudo bem?

— Sim — diz Caro. — Eles vivem a vida deles, eu vivo a minha.

Ana fica em silêncio, por um momento.

Caro fica totalmente imóvel.

Sereno como um Buda.

Então, Ana diz:

— Tristeza.

Caro sacode a cabeça.

— Uma pena, o que aconteceu com aqueles jovens. Uma tragédia. — Sabe algo a respeito?

— Somente o que li nos jornais — responde Caro. — O que vocês

escrevem.

Ana arrisca:

— Gostaria de saber o que eu ouvi?

— Se quiser me contar.

— Eu ouvi — diz ela — que havia heroína naquele ônibus. Heroína que

Damien Tapia roubou de Ricardo Núñez.

— Ah.

— E eu ouvi que Damien Tapia veio visitar o senhor — diz Ana. Um ligeiro movimento. Uma ligeira expressão no olhar. — Eu não conheço o Jovem Lobo.

— Mas Eddie Ruiz conhece — diz Ana. — E o senhor conhece Eddie

Ruiz.

— Não, acho que não.

— A cela dele era bem em cima da sua, em Florence. — É mesmo?

— Preciso que me ajude, señor Caro — pede Ana. — Acho que Palomas

não poderia ter tomado sozinha a decisão de mandar matar aqueles garotos. Certamente, os irmãos Rentería não tinha essa autoridade. Então, quem o senhor acha que deu a ordem?

— Como eu lhe disse, não sei nada a respeito disso. Ele ergue o braço e olha o relógio.

— O senhor tem um compromisso? — pergunta Ana. — Meu urologista — responde Caro. — Não fique velha, é um erro. Ele se levanta devagar. A entrevista acabou.

— Obrigada por me receber — diz Ana.

— Obrigado — diz Caro. — Eu só quero que as pessoas saibam a

verdade. Por favor, escreva a verdade, jovem.

— Farei isso.

Caro não tem dúvidas.

O telefone toca.

É Ricardo Núñez.

A reunião fica marcada bem distante entre montanhas, ao norte de Culiacán, em um antigo campo ao longo de uma curva do rio Humaya.

A cautela de Caro é apropriada, pensa Ric — toda a liderança do cartel Sinaloa estará reunida no mesmo lugar, ao mesmo tempo. Um único ataque de Tito, Elena ou Damien poderia destruí-los. Mas a viagem é árdua, um trajeto difícil, aos solavancos, em uma estrada acidentada de faixa única. Ric nota o pai se encolher quando o carro balança.

Ric sabe que a reunião precisa transcorrer bem.

Muita coisa depende disso.

Eles têm que restabelecer a união com os Esparza. Tito é forte demais para enfrentar, se todos eles estiverem divididos, se houver desconfiança entre eles. Além disso, Ric sente falta de sua amizade com Iván, detesta a tensão que paira sobre eles ultimamente.

Mas a ala Núñez precisa ser incluída no consórcio. Sem isso, eles se tornam membros de segunda categoria, e seu pai deixou claro que isso é inaceitável para os herdeiros legítimos de Adán Barrera.

Então, Ric torce para que Iván esteja em um clima conciliador e que Caro seja razoável.

E que seu pai esteja envolvido no jogo.

Na reunião com o pessoal de Oficina, ele não estava, pensa Ric, e nem Iván, nem Caro irão tolerar que eu interfira na posição de liderança do meu pai.

O comboio entra em uma estradinha menor, mais esburacada, passando por um punhado de mata cerrada, depois a uma ponte baixa atravessando o rio até a margem leste. A trilha de terra corre paralela ao rio, por algumas milhas de floresta, depois entra na clareira onde o outro lado é composto de arbustos cerrados e árvores e, mais além, montanhas florestais.

A Sierra Madre Occidental — zona rural de ópio de primeira.

Caro estabeleceu as regras: três veículos por grupo, um total de dez guardas armados para cada grupo. Ric vê que eles chegaram primeiro.

Núñez olha o relógio.

O pai de Ric reverencia a pontualidade.

E eles estão sentados ao ar livre. Uma emboscada das árvores poderia aniquilá-los em um instante.

Ric é um garoto urbano e o silêncio o deixa inquieto.

Então, ele ouve os motores, o som de veículos vindo pela estrada, em direção a eles. Debruçado para fora da janela, ele vê o primeiro carro e reconhece um dos caras de Iván ao volante. Os Esparza devem estar no segundo carro, com mais um veículo atrás.

Há um intervalo e então mais três caminhonetes. Deve ser Caro, pensa Ric.

O primeiro carro dos Esparza chega à clareira. Agora Ric vê Iván no segundo carro, seus irmãos no banco traseiro,

atrás dele. É estranho esse encontro assim, pensa Ric. Nós deveríamos sentar e tomar uma cerveja. Os guarda-costas de Iván saem do primeiro carro.

Tiros de fuzil começam a ser disparados das árvores, derrubando os

guarda-costas.

Então, os disparos mudam para o carro de Iván. O carro chacoalha como em uma convulsão.

Iván tenta sacar sua arma, mas é atingido e gira no banco. A cabeça de Oviedo dá um tranco para trás.

Alfredo cai.

O carro deles volta loucamente de ré, bate no carro de trás. Sicários

saem do carro disparando em direção às árvores, mas são logo derrubados.

Os carros de Caro voltam de ré, em velocidade, retornando à estrada. O carro de Iván dá um tranco à frente, mal engatado, depois vira e sai

com velocidade. Ric vê sangue escorrendo do braço do motorista, como uma flâmula vermelha. Iván está caído à frente, junto ao painel, a cabeça balançando de um lado para o outro, como um boneco quebrado.

Os tiros cessam.

Ric gira para o pai.

— O que você fez?! O que você fez?!

— O que você não faria — diz Núñez.

Foi Iván, o tempo todo, explica Núñez, durante o trajeto interminável até uma casa no campo, ao sul de Culiacán. Iván armou o atentado contra sua vida, em Candlemas, Iván disse a Tito sobre a reunião em Oficina.

— Eu não acredito nisso — diz Ric.

— Motivo pelo qual eu tive que agir sem lhe contar — diz Núñez. — Caro vai ficar maluco — diz Ric. — Ele vai nos manter fora do

consórcio, vai nos isolar, talvez até se voltar contra nós.

— Ele fará isso, inicialmente — concorda Núñez. — Mas Caro é um

homem prático. Com os Esparza mortos, ele tem que vir até nós. Ele não tem mais a quem recorrer.

— Elena. Tito.

— No fim, Caro será um sinaloa — diz Núñez. — Ele não vai aderir a um forasteiro, acima de seu próprio povo. Quando eu explicar a ele que Iván tentou nos matar, ele voltará atrás. Eu lamento, sei que você achou que Iván fosse seu amigo.

— Ele era.

— Ele estava usando você — afirma Núñez. — Ric, você jamais se tornaria el patrón, com Iván vivo. Ele jamais permitiria.

— Eu não ligo pra isso. Nunca quis.

— É seu legado. Seu padrinho queria isso pra você.

— Você matou meu amigo!

— E você sabe a verdade — diz Núñez. — Quando estiver pronto para admiti-la, irá me agradecer.

Agradecer?, pensa Ric.

Você nos destruiu.

Você nos matou.

Iván não morreu.

Nem Oviedo, ou Alfredo.

Eles ficaram feridos, levaram tiros, mas estão vivos. O motorista deles conseguiu chegar até uma estrada interna, foi até um vilarejo, onde as pessoas são leais aos Esparza e os acolheram. Mandaram vir um médico que costurou todo mundo.

Essa foi a história que chegou até Caro.

Que Ricardo Núñez mirou, mas errou.

Exatamente como Caro achou que ele faria.

Há uma velha piada de cadeia:

Um criminoso de colarinho branco — exatamente o que Núñez é, no fundo ainda um advogado, não um verdadeiro narco — é confrontado por um mayate enorme, que diz: “Temos um jogo aqui. Brincamos de casinha. Você quer ser o marido ou a esposa?”

O criminoso de colarinho branco pensa em suas opções, ambas ruins, mas uma é pior, e responde: “Eu serei o marido.”

O mayate assente e diz: “Está bem, marido, agora fique de joelhos e chupe o pau da sua esposa.”

Essa é a posição em que Caro colocou Núñez. Qualquer que fosse sua

escolha, ele perderia. Se ele deixasse Iván Esparza cortá-lo do consórcio, ele perderia. Se assumisse uma ação violenta contra Iván, ele perderia. Agora, Caro pode ir até os amigos políticos de Núñez e dizer “Olhem, ele está descontrolado. Eu garantia a segurança de todos e ele violou isso. Não podemos confiar nele.”

Era um cenário sem perda para Caro — se os Esparza prevalecessem,

ele seria aliado deles. Se Núñez ganhasse, ele se viraria com o advogado. De qualquer jeito, metade dos potenciais rivais do cartel Sinaloa seria eliminada.

E Núñez conseguiu granjear o pior desfecho possível — ele violou o

acordo de segurança, mas não matou os Esparza. Agora, seus inimigos continuam no mesmo lugar e detêm um patamar moral elevado.

Núñez cavou sua própria cova.

Agora, tudo que resta é jogar umas pás de terra em cima dele. Há somente um fio solto pendurado.

Tristeza.

Aquela piranha da repórter sabe de alguma coisa. Mesmo que ela não

saiba, mesmo que só esteja pescando, jogando a linha na água para ver se ele morde, não se pode permitir que ela cuspa suas mentiras nos jornais.

E, principalmente, não se pode permitir que ela diga a verdade. Caro expede a ordem.

A acusação era confidencial, mas vazou para Núñez.

Ric lê.

NA CORTE DOS ESTADOS UNIDOS PARA O DISTRITO LESTE DE VIRGINIA — Divisão de Alexandria — ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA

Versus

RICARDO NÚÑEZ

Também conhecido como “El Abogado”

Acusação 1: 21 U.S.C. 959,960, 963

(formação de quadrilha e tráfico de cinco quilos ou mais de cocaína para

importação aos Estados Unidos)

Acusação 2: U.S.C. Código 952

(formação de quadrilha e tráfico de cinco quilos ou mais de heroína para a

importação aos Estados Unidos)

Acusação 3: 18 U.S.C. 1956 (h) 3238

(formação de quadrilha e lavagem de dinheiro)

— Agora, a Divisão de Narcóticos virá atrás de mim — diz Núñez.

— O governo vai nos proteger — afirma Ric.

— Talvez nós tenhamos perdido nossos amigos no governo — diz Núñez. — De qualquer maneira, não podemos correr o risco. Eu vou sumir. Sugiro que você pegue a sua família e faça o mesmo.

— Eu estou sendo acusado?

— Não sei — diz Núñez. — Não vi uma acusação, mas isso não significa que ela não exista. Vá. Vá agora. Se perdemos nossos amigos no governo, isso pode significar que a polícia, o exército talvez até os mariners estejam a caminho. Se você for capturado e extraditado, será o fim. Agora, o negócio é sobreviver até que possamos endireitar isso.

Endireitar isso? Ric pergunta a si mesmo. Porra, de que jeito nós vamos “endireitar isso”? Faz dez dias desde a emboscada em Humaya, e o mundo parece estar se voltando contra eles.

Aliados não atendem ligações. Policiais, promotores, políticos e repórteres que já pegaram nosso dinheiro, frequentaram nossas festas, zelosamente compareceram aos casamentos, batismos e funerais, fingem não nos conhecer mais.

Líderes de celas em Sinaloa, sicarios em Baja, plantadores em Durango e Guerrero anunciaram abertamente sua aliança aos Esparza. Outros não foram tão ousados, mas estão hesitantes, sob intensa pressão.

Apenas dois dias atrás, um comboio com trinta caminhões cheios de pistoleiros de Esparza adentrou em uma cidade controlada por Núñez, raptou quatro membros de nosso pessoal e incendiou prédios e veículos. Anunciaram que esse era um aviso para todas as cidades e vilarejos que apoiavam a “facção criminosa Núñez”.

Mas nós não reagimos, pensa Ric, não retaliamos, não demonstramos a força capaz de tranquilizar nosso povo. Parte do motivo é que Núñez tem estado em pânico, quase em depressão, recluso em seu quarto. O outro motivo é que os pistoleiros que usaríamos para empreender uma retaliação não estão atendendo os celulares.

E o Iván tem escancarado o assunto nas redes sociais — Twitter, Snapchat, tudo — denunciando a “emboscada traiçoeira de merda”. Ele atacou Ric pessoalmente: “Meu cuate, meu bom amigo, meu velho camarada Mini-Ric tentou me matar. Enquanto ele falava de paz e irmandade, com um lado da boca, o putinho estava ordenando meu assassinato, pelo outro. Ele é igualzinho ao pai — o fruto não cai longe do pé.”

Ele acrescentou um áudio de Tupac:

Vocês me alvejaram? Mas vocês, seus cretinos, não me liquidaram Agora vão enfrentar a fúria…

Damien também se manifestou: “Acho que o afilhado de Barrera leva

seu legado bem a sério. Ele traiu seus melhores amigos, exatamente seu padrinho como fez.”

Foram milhares de postagens respondendo, quase todas elas apoiando os

Esparza e detonando os Núñez.

Iván agora é a vítima virtuosa.

Nós que somos os vira-casacas, os covardes fracos, pensa Ric. Iván é legal, eu sou um filho da puta.

Seu pai não entende, mas Ric leva isso muito a sério, sabe que perder a

guerra nas redes sociais pode significar perder a guerra de verdade.

E agora nós estamos em guerra com Iván.

Não apenas tensão, uma guerra de tiroteios.

Estamos em guerra com Iván, estamos em guerra com Elena, estamos

em guerra com Damien, estamos em guerra com Tito. Não podemos recorrer a Caro para intermediar a paz. Quanto a ingressar no consórcio, bem, pode esquecer.

E agora, os americanos estão vindo atrás da gente. — Nós ainda temos recursos — Núñez está dizendo. — Ainda temos

amigos e aliados. É uma questão de mantermos a cabeça baixa, por um tempo, até que possamos consolidar apoio.

Certo, pensa Ric.

Pegue sua família e vá.

É, só que sua família não quer ir.

— Eu não estou sendo acusada — responde Karin, quando Ric chega em

casa e lhe diz para arrumar as malas. — Não há nenhuma acusação contra mim. Eu não tentei matar Iván, por que deveria fugir?

— Para ficar com seu marido?

— Como vai conseguir se esconder com uma esposa e uma criança na

garupa? — pergunta Karin. — Não vai poder se deslocar depressa, não dá pra ser veloz. Você ficaria preocupado em nos proteger.

— Você simplesmente ficaria mais confortável em casa.

— É claro que eu ficaria — diz ela. — Assim como sua filha.

— Así es.

— Não jogue isso pra cima de mim — diz Karin. — Você fez suas escolhas.

— Você não se incomodou com o dinheiro, não é? — pergunta Ric. — Aceitou as casas, os carros, as joias, as refeições, as suítes, o prestígio…

— Terminou?

— Ah, sim — responde Ric. — Eu terminei.

Ele joga algumas coisas em uma mochila e vai embora.

O Jovem Lobo não será um velho lobo.

Acorrentado a uma cadeira no chão de cimento de um porão, ele já viveu essa vida por tempo suficiente para saber que isso só pode terminar de um jeito.

Ele se sente um imbecil.

Primeiro, por ter vindo para Baja, achando que poderia lançar um ataque ousado no território do inimigo. Depois, por encontrar essa garota sensual, ir para casa com ela, aceitar um drinque. De repente, ele acordou nessa cadeira.

Não, eu não deveria ter vindo aqui, pensa ele.

Porque eu nunca mais vou sair.

Agora, a garota sensual entra e sorri para ele.

— Você é muito bonitinho, Damien, sabia? — diz ela. — É uma pena que eu tenha que eliminar você. Estou com Sinaloa e eles disseram que eu devo machucar você, muito, por bastante tempo.

Agora ele sabe quem ela é.

Ele já ouviu falar de La Fósfora.

Ela é psicopata.

— Você ainda está grogue — diz ela —, então, precisamos esperar passar o efeito da droga. Quer dizer, o objetivo é fazer doer, certo? Desculpe, isso é apenas, sabe, meu trabalho.

Ric foge para La Paz.

Belinda não lhe conta quem está com ela no porão.

Ele seria contra.

— Eu vou sair de circulação por um tempo — diz Ric.

Ele conta sobre a acusação, sobre a pressão em cima deles, desde a

tocaia contra os Esparza.

— Eu vou montar a segurança pra você — diz Belinda. — Quando a isso…

— O quê?

— Meu pai quer o antigo cara de volta, o Aleja. — Você está de sacanagem comigo, porra? — pergunta ela. — Nós podemos lhe dar mais território.

— Você vai me dar o que eu posso simplesmente pegar? — pergunta

ela. — La Paz é minha porque é minha.

— Não seja assim.

— Vá se foder.

— Olhe, eu tenho que ir embora.

— Vá.

Damien vê a garota descer novamente a escada.

Tenta segurar a onda, porque ele sabe que vai começar agora. Ele já

ouviu histórias sobre ela — banhos de ácido, decepamento dos braços das pessoas… ele quer morrer como homem, sem desgraçar seu nome, mas está com medo, com muito medo.

Ele só quer sua mãe.

La Fósfora sorri de novo para ele.

— É seu dia de sorte, Jovem Lobo — diz ela. — Acabei de falar no

telefone com Tito Ascensión.

— Achei que você estivesse com Sinaloa.

— Eu também — diz ela. — Acho que nós dois estávamos errados. De

qualquer maneira, você será liberado, Damien. Pode agradecer seu tio Tito.

Ela retira as algemas.

Ele dá o fora de La Paz.

Assim como Ric.

Ele foge.

A Coruja pisca.

O lendário editor Óscar Herrera, diretor de jornais mexicanos, está

sentado com a perna apoiada na mesa, no escritório do El Periódico. Os Barrera tentaram matá-lo, anos antes, mas não terminaram o serviço. Três balas na perna e no quadril o deixaram manco, com uma bengala.

Agora, ele olha para Ana e pisca.

Ana não pisca. Ela já trabalha para Óscar há quase vinte anos e sabe que o segredo de apresentar uma história é não demonstrar qualquer sinal de hesitação. Óscar ganhou seu apelido porque enxerga tudo, na luz ou na escuridão.

Por isso, ela não recua, quando ele fala:

— Sua matéria é pura conjectura.

— Nada é puro — diz Ana. — E ainda não é uma matéria. Por isso eu quero tempo para desenvolvê-la.

— Você deveria somente entrevistar Caro.

— Eu entrevistei — afirma ela. — Publique.

— Você foi pescar sobre Tristeza — diz Óscar — e voltou com o anzol vazio.

— Ele estava mentindo — responde Ana. — Eu vi, nos olhos dele.

— Você certamente não espera que eu publique uma matéria baseada em suas habilidades mediúnicas.

— Não, eu espero que você me deixe ir atrás das provas — diz ela. — A história de Tristeza é mentira.

A prefeita de uma cidadezinha ordena que os narcos matem 49 estudantes, por conta de uma manifestação?, pensa ela. Isso não passa pelo teste do fedor. Nem a teoria da “gangue rival”. Guerreros Unidos são narcos frios, mas não são os zetas. Eles não arrancariam os 43 alunos desaparecidos — garotos e garotas — de dentro de um ônibus e matariam, por acharem que alguns deles talvez estivessem associados com Los Rojos.

Isso é um caso clássico de acobertamento do governo — divulgando explicações contraditórias para ofuscar a história real.

A qual, Ana está convencida, tem a ver com heroína.

Ela sondou todas as suas fontes a respeito disso, entrevistou sobreviventes, outros estudantes, professores. Falou com policiais municipais, policiais estaduais, federales e soldados, se encontrou secretamente com narcos dos GU, Los Rojos e Sinaloa, e até do antigo grupo Tapia.

Ninguém tem a história toda, mas quando ela junta as peças, um panorama começa a surgir:

Damien Tapia roubou heroína de Ricardo Núñez. GU e os irmãos Rentería puseram a heroína nos ônibus que vinham

utilizando para transportar as drogas para fora de Guerrero.

Por azar, os estudantes sequestraram um dos ônibus abastecidos de

heroína.

Palomas estava de conchavo com os GU.

Ela deu a ordem – peguem a droga de volta e matem os estudantes. É aí

que a coisa desmorona, pensa Ana. Se a recuperação da heroína foi o motivo para parar os ônibus, por que simplesmente não reaver a droga? Por que matar todos aqueles garotos? Por que levá-los para longe, matá-los e queimar seus corpos? Por que a polícia levou os garotos a três delegacias, antes de entregá-los aos GU?

Porque era uma situação em evolução, pensa Ana. Porque os policiais

estavam recebendo ordens diferentes, conforme o desenrolar dos acontecimentos. E ela acha que os garotos foram mortos, não para reaver a heroína, mas para proteger o sistema de transporte. Os Rentería, Palomas e os GU não queriam que Núñez descobrisse que eles estavam transportando sua heroína roubada por Damien Tapia.

Talvez, pensa ela.

Isso era parte do motivo.

Ou talvez fosse para proteger as pessoas por trás do sistema de

transporte.

Não surgiu mais nada sobre o assassinato em massa. Damien Tapia tem

poder relativamente pequeno, apenas um degrau acima dos irmãos Rentería. Ele não tem influência política expressiva.

Então, quem tem?

Quem está encobrindo isso?

Não é Núñez — ele tem peso político, mas nenhum motivo para

encobrir Tristeza. Pelo mesmo motivo, não é Iván Esparza, ou Elena Sánchez. E Tito Ascensión não tem nada a ver com isso.

Os boatos em meio ao antigo pessoal de Tapia é que Damien estava

transportando sua heroína para Eddie Ruiz. Mesmo que seja verdade, isso dá em um beco sem saída, pois Ruiz não tem qualquer influência política no México, nenhum prestígio com gente importante daqui.

Exceto pelo fato de que Eddie esteve na prisão com Rafael Caro. A única reação que ela percebeu em Caro, durante a entrevista inteira,

foi quando ela mencionou Eddie. E o idoso, que se lembra de tudo, fingiu nem saber que Eddie estava na cela acima da sua.

Será que era isso que eles pretendiam proteger, ao matar aqueles estudantes? A ligação com Caro?

Ela apresenta sua teoria para Óscar.

— Um homem que esteve em confinamento na solitária por vinte anos? — pergunta Óscar.

— Ele é um ícone.

— Eu sou um ícone — diz Óscar — e não tenho poder algum. Caro é história antiga, ele não tem nenhuma organização por trás de si.

— Talvez, essa seja a questão — insiste Ana. — Ele é neutro, pode prover bons préstimos. Correm boatos de que ele negociou a libertação dos irmãos Esparza.

— Ser um éminence grise não equivale a ter influência política.

Não, pensa Ana, mas o dinheiro, sim.

Dinheiro e política são arroz e feijão.

E ontem ela recebeu uma ligação de Victoria Mora, viúva de Pablo, agora repórter financeira para o El Nacional. Victoria é conservadora, uma analista de negócios sem rodeios, e repassou uma história que ela própria não queria investigar. Ela disse que há um boato, nos círculos bancários, sobre o HBMX estar formando um consórcio para emprestar 300 milhões a uma empreiteira americana.

— Por que você está ligando pra mim? — perguntou Ana.

Victoria nunca gostou de Ana. Não somente por ela ser uma esquerdista fervorosa, mas também porque ela dormiu com seu falecido marido, embora tenha sido depois que eles se divorciaram.

— Você sabe — disse Victoria, rija e fria como sempre.

— Não, não sei.

— Esse banco é notório por lavar dinheiro de drogas — disse Victoria. — León Echeverría circula em meio aos narcos.

— Há algum motivo para que você própria não faça a reportagem? — perguntou Ana, já com a antena a postos.

— Há centenas de motivos — respondeu Victoria. — Eu dependo desses banqueiros e de alguns funcionários do governo para desempenhar meu trabalho. Se eu fosse publicar algo assim, ou sequer sondar…

— Eles iriam cortá-la.

— Eu ficaria isolada.

— Então, por que você…

— Ana — disse Victoria —, o negócio é ruim. Na verdade, eu estou,

bem, estou saindo com um homem do HBMX e ele está muito aborrecido. Ele ouviu o nome de uma pessoa que está envolvida…

— Que nome? — pergunta Ana, com um aperto na barriga. — Rafael Caro — disse Victoria. — O que meu amigo ouviu é que

Echeverría foi até Caro para solicitar sua ajuda e reunir investidores narcos, pois ele têm trânsito livre com todos eles. Meu amigo receia que isso possa expor o HBMX a uma investigação da Divisão de Narcóticos, da Interpol… Se houver uma reportagem, o HBMX talvez recue, antes que seja tarde demais.

— Bem, obrigada por vir até mim, Victoria.

— O Pablo sempre falou que você era a melhor. — Sinto falta dele — disse Ana. — Como está Mateo? O menininho de Pablo, devia estar com quantos anos, agora? Doze? Mateo estava com Ana, quando Pablo foi assassinado. — Ele está bem, obrigada por perguntar — respondeu Victoria. —

Crescendo que nem capim.

— Eu adoraria vê-lo.

— Com certeza — disse Victoria. — Nós não vamos a Juárez com muita

frequência, mas quando formos, eu certamente irei procurá-la.

Ana sabe que isso nunca vai acontecer.

E agora ela não conta a Óscar sobre a revelação de Victoria. É cedo. Ele

só ficaria interrogando sobre suas fontes e lhe diria para trabalhar em uma história de cada vez. Mas talvez seja, sim, somente uma história, pensa Ana.

Pode ser tudo a mesma história.

Se os estudantes de Tristeza foram mortos para resguardar a ligação de

Caro, essa ligação talvez não esteja muitos degraus acima.

Se Caro está usando heroína para investir em grandes bancos… E grandes bancos e o governo são a mesma coisa… Isso explicaria por que o governo está encobrindo a verdadeira história

de Tristeza.

— Deixe-me ver se Palomas fala comigo — diz ela. — E deixe-me ver

se consigo uma entrevista com Damien Tapia.

— Ana…

— O quê?

— É perigoso demais — diz Óscar.

Ela vê a melancolia nos olhos dele. Ele já perdeu dois repórteres: Pablo e o fotógrafo Giorgio. Com toda a sua rabugice aparente, El Búho tem o coração mole e ainda sente aquelas perdas. E o perigo é real — mais de 150 jornalistas mexicanos foram assassinados cobrindo guerras de drogas. No auge da violência, Óscar chegou a proibi-los de cobrir o assunto.

Ana respondera à proibição criando um blog anônimo para relatar as notícias dos narcos.

Os zetas deram ordem para que o blog fosse tirado do ar.

Pobre Pablo, doce Pablo, tinha descoberto que fora ela e assumiu a responsabilidade. Mandou que ela atravessasse a fronteira com Mateo e escreveu uma última postagem, antes que eles o encontrassem, torturassem e o picassem em pedaços, que espalharam ao redor da Plaza del Periodista.

Perto da estátua de um menino jornaleiro.

Foi culpa minha, pensa Ana.

Pablo pagou por minha arrogância.

Depois disso, ela pediu demissão. Sempre uma bebedora social, ela passou a ser uma bebedora antissocial, despejando álcool na culpa e na tristeza, se escondendo de todos, principalmente de si. Mas Marisol não deixou que ela sumisse, atormentou-a até que ela voltasse a morar com ela, na cidadezinha, e a fez ir trabalhar na clínica.

Aos pouquinhos, sua vida voltou.

Mas foi o acontecimento em Tristeza que a despertou de seu sono, acendeu um fogo de indignação que Ana achava que há muito já se transformara em cinzas. Ela havia sido uma jornalista respeitada, temida até; isso era o que ela sabia fazer.

Agora ela vai fazer outra vez.

Se Óscar deixar.

Logo que Ana voltou, ele lhe designou reportagens “seguras”, matérias “de mulher”: eventos beneficentes, coberturas de arte, ângulos de interesse humano distantes do crime, do narcotráfico e da movimentação política onde ela antes habitara. Ela era uma jornalista investigativa, mas ele não a deixava investigar nada mais profundo que afrontas sociais (como se houvesse tal coisa, em um lugar atrasado como Juárez), ou um encanamento vazando.

Ela investigou sobre Tristeza em seu tempo pessoal e com o próprio dinheiro.

E ainda vai investigar, mesmo se Óscar não autorizar. Quarenta e nove garotos mortos.

Quarenta e nove famílias enlutadas.

E todos os outros parecem ter se esquecido.

Apenas mais uma tragédia no México.

— Nós somos jornalistas — diz Ana. — Se não vamos cobrir as

histórias importantes, para que nós sequer existimos?

— Eu sempre me orgulhei da ideia — responde Óscar — de que meus

repórteres viriam ao meu enterro e diriam coisas constrangedoras em minha homenagem. Não o contrário.

A homenagem póstuma que Óscar fez a Pablo foi linda. Ana leu no jornal. Ela própria não conseguiu ir ao funeral. Ela ficou em

casa, bebeu e chorou.

Ana diz:

— Óscar, você sabe que nós devemos fazer isso. Óscar fecha os olhos, como se estivesse consultando algo no passado.

Então, ele os abre, pisca e diz:

— Tome cuidado.

Ana liga para o Departamento de Prisões e arranja a papelada para uma

entrevista com Palomas.

Depois, liga para Art Keller.

— Vamos jogar um jogo — diz ela. — Eu lhe conto a primeira parte de

uma história e você termina pra mim.

Ana conta sua teoria e depois diz a ele sobre o negócio do HBMX e sua

possível ligação com Rafael Caro. Ela imagina que Keller já deva saber a respeito disso, então fala:

— É aqui que você começa a jogar. Para quem vai o empréstimo do

HBMX? Quem é a empreiteira?

— Mesmo que eu soubesse disso — responde Keller —, não poderia lhe

dizer.

— Não poderia, ou não diria?

— É a mesma coisa — diz Keller.

— Mas você sabe.

— Não posso confirmar, nem negar…

— Ah, pare, Arturo — pede Ana. — Isso é totalmente confidencial.

Você sabe que eu jamais revelaria a identidade de uma fonte.

— A questão não é essa — diz ele. — Eu gostaria que você largasse isso, Ana.

— Em sua condição de oficial do governo — diz Ana —, ou como amigo?

— Como amigo.

— Se você é meu amigo, me ajude.

— Estou tentando — afirma Keller. — Olhe, por que você não vem aos EUA e trabalha em sua reportagem? Se você acha que isso tem um elemento americano…

— Eu vou — diz Ana. — Mas, primeiro, tenho algumas linhas de investigação por aqui.

— Quem lhe deu o nome de Caro? — pergunta Keller.

— Ah, você faz perguntas, mas não responde? Acabei de lhe dizer que não revelo minhas fontes. — Mas agora ela sabe que tem algo. Perguntas geralmente revelam tanto quanto respostas, e Keller acabou de revelar que Caro é um suspeito. Ela resolve forçar. — Você acha que Caro está ligado a Tapia, Art? Você acha que ele está envolvido com o HBMX?

— Venha pra cá — diz Keller.

Isso é um sim, pensa Ana.

— Como está Mari?

— Ocupada, sendo Mari — diz Keller. — Ana, tome cuidado, está bem?

— Vou tomar.

O oficial da cadeia recebe o pedido de Ana e liga para Tito.

Tito liga para Caro.

Caro lhe diz o que precisa acontecer e lhe faz seu próprio pedido.

Tito recorre a seu pessoal.

Ana vai para casa.

Um apartamento de um quarto, em Bosques Amazonas, Las Misiones.

Um lugar tranquilo, em um bairro tranquilo.

Há noites em que Ana nem pensa em beber, em outras, parece não haver outra opção. Ela acha que isso é o que chamam de “alcoólatra funcional”, embora ela esteja funcionando bem melhor agora, do que há um ano e pouco.

Mas, em algumas noites, os fantasmas a visitam e chegam exigindo libação.

Hoje é uma dessas noites.

Ana tem uma garrafa de vodca no armário da cozinha, para as noites de

fantasmas, que ela agora pega, senta à mesa e despeja um pouco, em um copinho. Ela não tem intenção de se embebedar, só de ficar meio alta, meio anestesiada, se livrar do nervosismo.

Algumas pessoas acham as lembranças reconfortantes. Elas se lembram

dos bons momentos com o ente amado falecido, e isso faz com que se sintam melhor. As lembranças boas fazem Ana se sentir pior. Ela acha que é o contraste, o fato de sentir tanta falta das noites de bebedeira feliz, das risadas, das canções, das discussões, do trabalho. As boas lembranças são dolorosas, lembretes agudos de coisas que ela nunca mais terá.

O meigo e peludo Pablo, com sua barba por fazer, seu sobrepeso. Altinho, indisciplinado e maravilhoso Pablo, tonto de amor pelo filho,

pela ex-esposa (inutilmente), por sua adorada e estilhaçada cidade. Pablo não era tão mexicano quando era juarense; seu mundo começava e terminava dentro dos limites da cidade fronteiriça, no limite do México com os EUA, sua localização simultaneamente a razão de ser e a razão de sua destruição. Pablo adorava a cidade suja, espalhafatosa, e detestava cada modernização, do jeito que uma antiga namorada se ressente por uma namorada nova, mais jovem e bonita.

Ele adorava Juárez por suas falhas, não apesar delas, assim como Ana o

adorava por suas deficiências — os casacos esportivos manchados e amarrotados, sua barba por fazer, a eterna ressaca, sua carreira autodestrutiva e a predileção pelas histórias esquisitas, pouco convencionais, e peculiares que o relegavam às páginas traseiras do jornal e à faixa salarial mais baixa.

Pablo estava sempre duro, sempre mendigando dinheiro e drinques,

sempre se esforçando para pagar a pensão do filho; ele comia fast-food no carro, o chão do veículo velho todo forrado de embalagens de papel e copos de papelão. Agora Ana está chorando.

Pateticamente chorando em cima da minha birita, pensa ela. O primeiro drinque acalma.

O segundo anestesia.

O terceiro faz você se questionar.

Por que é mesmo que estou fazendo isso?, pensa ela. Porque eu acredito

que a verdade é importante ou porque algum bem resultará disso? Porque acredito que aqueles garotos devem ter justiça, a justiça que Pablo, Giorgio, Jimena e milhares de outros não tiveram? Por que eu acho que alguma coisa vai acontecer, mesmo se eu descobrir a verdade?

Que diferença faz a verdade?

De qualquer forma, todos nós sabemos.

A verdade do massacre de Tristeza se resume a apenas mais detalhes, em uma longa história. Que diferença eles fazem?

Mesma história, outros fatos.

Ana sabe que deve comer, pegar uma comida congelada — frango e arroz — no freezer e enfiar no micro-ondas. Ela está comendo, sem paladar ou apetite, quando o celular toca. Ela não atenderia, mas vê que é Marisol.

— Alô?

— Só estou ligando pra dar um oi, saber das coisas.

— Arturo lhe falou que estava preocupado.

Quando Marisol não responde, Ana diz:

— E, sim, eu estou ligeiramente bêbada. É uma daquelas noites.

— Ana, por que você não vem para uma visita?

— Não me trate com paternalismo — diz Ana. — Ou seria “maternalismo”?

— Você é muito sagaz quando toma uns copos.

— Sou famosa por isso — responde Ana. — Pablo costumava dizer que eu era mais legal quando estava meio bêbada.

— Então, você vem?

Implacável Marisol, pensa Ana. Também tão convicta de que sabe o que é certo e tão implacável para fazer com que o correto aconteça. Marisol, autoconfiante e virtuosa — mártir e santa secular, esposa perfeita, anfitriã perfeita, perfeitamente um pé no saco.

— Quando terminar meu trabalho, eu vou. Agora estou muito ocupada, Mari.

— Sim, o Art me contou que você está trabalhando numa história.

— Acho que nós estamos trabalhando na mesma história — diz Ana. — Somos concorrentes. Seu marido está tentando me passar a perna.

— Duvido. Ana…

— Ana, tome cuidado. Ana, não beba demais. Ana, tome suas vitaminas.

— Que tal se eu ligar amanhã? — pergunta Marisol.

— Quando eu estiver sóbria, você quer dizer.

— Sim, isso mesmo.

Ana pergunta:

— Você se lembra de quando nós éramos felizes, Mari? — Eu sou feliz agora.

— Bom pra você.

— Desculpe, isso foi cruel — diz Marisol. — Sim, eu me lembro…

antes de começar toda essa matança. Nós gritávamos poesia na noite…

— “Nós temos que rir” — Ana recita. — “Porque o riso, nós já

sabemos, é a primeira prova de liberdade.”

— Castellanos — diz Marisol. — “Eu sou filha de mim mesma. Meu

sonho nasceu. Meu sonho me sustenta.”

— “A morte será a prova de que nós vivemos.” — Venha me visitar — diz Marisol. — Não tenho ninguém com quem

recitar poesia.

— Em breve.

Ana desliga e volta ao jantar, do jeito que está. Fica pensando se deve

ou não tomar outro drinque, mas já sabe quem é o vencedor da discussão. Ela leva sua outra vodca para o banheiro e entra no chuveiro, saindo do jato para tomar um gole.

Ela se enxuga e cai na cama.

Quando Ana acorda, a garrafa está ao lado da cama. Sua cabeça está estourando e ela se sente uma merda. Escova os dentes,

enxágua a boca com Listerine e pinga Visine em seus olhos vermelhos. Um banho parece um esforço grande demais; ela joga uma roupa no corpo — uma blusa, suéter, jeans — põe os sapatos e sai para trabalhar.

Eles a pegam na saída da garagem.

Ela vê dois homens a sua frente, mas não os dois que estão atrás, que a

tiram do chão e erguem, enquanto os outros dois seguram-na pelos ombros. Um deles põe a mão em sua boca e eles a enfiam na traseira de uma van, antes que ela realmente entenda o que aconteceu.

Um serviço de rapto muito bem feito.

Um trapo é enfiado em sua boca, um capuz colocado sobre a cabeça, amarras plásticas prendem seus punhos atrás das costas.

Mãos empurram-na ao chão da van, pés a seguram ali. Ana está aterrorizada.

Ela procura manter a cabeça fria, tenta estimar há quantos minutos está

na van, antes que ela pare, tenta ouvir os sons que talvez sirvam como pista de onde ela está. Ela já escreveu sobre sequestros, raptos, entrevistou policiais, sabe o que deve fazer.

Não consegue.

Ela só consegue respirar.

A van para.

Ela ouve a porta abrindo. Mãos a agarram, a erguem.

Mãos em seus cotovelos a conduzem para dentro.

Jogam-na apressadamente em uma cadeira. Algemas prendem suas pernas à cadeira.

— Diga o que sabe — ordena uma voz masculina.

— Sobre o quê?

O tabefe gira sua cabeça para o lado, machuca o seu pescoço, seus ouvidos ficam zunindo. Ela nunca tinha apanhado antes, e é uma dor chocante.

— Tristeza — diz o homem. — Conte a história em que você acredita.

Ela conta a ele.

Conta sua teoria toda…

Heroína de Núñez.

Roubo de Damien.

Heroína no ônibus.

Estudantes mortos para proteger a informação.

Mortos para proteger…

— Quem? — pergunta o homem.

— Não sei.

Desta vez é um punho fechado. Ela é uma mulher pequena, magra. A cadeira vira junto com ela. Ela bate a cabeça no chão de cimento. Chutes acertam seus tornozelos, suas pernas, seus quadris, sua barriga. Dói. Seu rosto está queimando, o osso da face está quebrado.

O homem manda:

— Adivinhe. Quem você acha?

— Damien Tapia — diz Ana, chorando. — Eddie Ruiz.

— Quem mais?

— Rafael Caro?

A maioria das pessoas pensa que resistiria. Que, sob tortura, conseguiria suportar.

A maioria está errada.

O corpo não permite. O corpo governa a mente, a alma.

Ana diz a ele.

Dá cada um dos nomes.

Sobreviventes, outros estudantes, professores. Policiais municipais,

policiais estaduais, federales, soldados, narcos dos GU, Los Rojos, Sinaloa, do antigo grupo Tapia, Jalisco. Dá a eles tudo e todos, para que não recomecem.

Orwell estava certo.

“Faça isso com a Julia”.

Não adianta nada.

— HBMX — diz o homem. — O que você sabe sobre isso? O que você

ia escrever?

— Caro. Coletando dinheiro para um empréstimo. Empreiteira.

Americana.

— Que americana?

Ela está aos prantos.

— Eu não sei.

— Responda e isso pode acabar.

— Eu não sei. Juro.

— Quem lhe contou sobre o empréstimo?

Ela dá o nome de Victoria.

— Quem mais?

— Só ela.

— Pra quem você contou isso?

— Pra ninguém. Ninguém. Eu juro, juro, por favor… — Acredito em você. Você é religiosa? Acredita em Deus? — Não.

— Então, você não quer rezar.

— Não.

— Vire para a parede. Não vai doer.

Ana gira o corpo para a parede.

“Meu sonho nasceu. Meu sonho me sustenta”. O homem atira em sua nuca.

A morte será a prova de que ela viveu.

Keller ouve Marisol gritar.

Ele sobe correndo.

Ela está segurando o telefone. Seus olhos estão arregalados. Ela parece prestes a cair. Ele a segura de pé, ela passa os braços ao redor dele.

— Eles a mataram — diz Marisol. — Mataram Ana.

Seu corpo foi encontrado em uma vala, ao lado da estrada, em Anapra, logo depois da fronteira.

Ela foi torturada.

Há lições a ser dadas.

Para servir de exemplo.

Dedos — informantes — que falam com a polícia, com os militares, com a imprensa têm que ser silenciados, porém, punidos antes.

De modo que isso ensine uma lição, imponha um exemplo para que o restante não fique tentado a falar.

Manuel Ceresco está sentado, amarrado à cadeira, na área rural de Guadalajara. Há bananas de dinamite amarradas a seu peito. A trinta metros, seu filho de doze anos, também Manuel, está igualmente amarrado a uma cadeira, sobre uma pilha de explosivos.

Tito sabe que matar Manuel Sênior — chefe de uma pequena célula, que falou com a repórter — vai amedrontar as pessoas, mas não aterrorizá-las.

Já esta história vai se espalhar e deixar as pessoas aterrorizadas.

Ele grita para Manuel:

— Está vendo o que você fez com sua boca grande?! Vê o que você fez com seu filho?!

— Não! Por favor!

Manuel Sênior implora a Tito que poupe seu filho.

— Faça o que quiser comigo, mas não machuque meu menino. Ele é inocente, não fez nada.

Quando percebe que é inútil, ele implora para que eles o matem primeiro. Mas um dos homens de Tito vai atrás de Manuel Sênior e, com os polegares e indicadores, segura seus olhos abertos.

— Assista.

O menino grita:

— Papi!

Tito dá o sinal.

Outro de seus homens aperta o detonador.

O menino explode.

Os caras de Tito riem. É engraçado. Que nem desenho animado.

Manuel Sênior berra sem parar. Os homens de Tito se distanciam dele.

Quando estão a uma boa distância, Tito dá o sinal mais uma vez.

Manuel Sênior explode.

Mais gargalhadas.

Quando garotos, eles explodiam sapos, com M-80s. Agora, explodem pessoas.

O vídeo está nas redes sociais depois de uma hora. E viraliza.

Victoria Mora sai de casa, no bairro de Roma, na Cidade do México. Ela entra em sua BMW e põe a mala no banco do passageiro. Ela está estendendo a mão para prender o cinto de segurança, quando o caminhão surge rugindo atrás dela, bloqueando sua saída da garagem.

Um homem desce do caminhão, caminha até a lateral da BMW, no lado

do motorista, e a metralha com um AR-15.

As balas despedaçam Victoria.

O homem volta ao caminhão e vai embora.

Uma mulher que está passeando com o cachorro berra.

A menina tem dez anos.

Seu pai, um contador que falou com Ana, está algemado a um cano

exaustor, dentro do galpão. Um homem segura sua cabeça e o faz assistir, enquanto sete dos homens de Tito se revezam estuprando a garotinha.

Quando terminam, eles cortam seu pescoço.

Eles deixam que o pai absorva isso por vinte minutos, depois pegam

tacos de beisebol e o espancam até a morte.

Óscar Herrera é o último a sair da redação do El Periódico.

Ele mandou todos para casa.

Agora ele está escrevendo o último artigo, anunciando que o jornal

cessará suas publicações, depois desta edição. Ele não pode permitir que mais jornalistas sejam assassinados. Óscar conclui a coluna, levanta, pega sua bengala e apaga as luzes.

Keller sabe que foi Caro.

Quem ordenou o assassinato de Ana.

Keller e Marisol pegaram um voo para El Paso e depois seguiram de

carro até Juárez — oficiais americanos e mexicanos estavam malucos, porque o chefe da Divisão de Narcóticos estava chegando sem os devidos preparativos de segurança.

— Eu vou — disse Keller.

Em um tom expressando que é melhor não discutir com ele.

Federales, a polícia estadual de Chihuahua e policiais da cidade de Juárez os encontraram na fronteira e insistiram para que eles deixassem o carro alugado e seguissem com os batedores. Keller concordou e Marisol nem ligou.

Ela estava arrasada.

Com o pensamento fixo na justiça.

— Quem fez isso? —perguntara ela a Keller, depois de ligeiramente abrandado o choque.

— Não sabemos — respondera Keller. — Ela estava vasculhando a o que aconteceu em Tristeza. Entrevistou Rafael Caro.

— Existe ligação?

— Olhe, Mari…

Ele contou sobre o consórcio e o empréstimo à Terra, e que depois Ana lhe contara sobre uma fonte anônima que ligava tudo a Caro.

Mari não era imbecil. Ela logo percebeu.

— Victoria Mora.

Morta apenas algumas horas depois de Ana. E agora, Mateo está órfão de pai e mãe, ambos assassinados pelos cartéis.

— Provavelmente — disse Keller.

Ele não acrescentou o óbvio, que Ana dera o nome de Victoria a seus torturadores.

O enterro de Ana foi brutal.

Patético, no verdadeiro sentido da palavra.

O vento norte de outono erguia e fazia rodopiar a poeira e o lixo em volta dos tornozelos das pessoas, no cemitério Panteón del Tepeyac. Era um pequeno grupo, alguns repórteres, poucas pessoas tinham vindo de Valverde, e ocorreu a Keller que muitas das pessoas que poderiam estar ali — jornalistas e ativistas — já estavam nos túmulos.

Giorgio estaria ali, mas Giorgio tinha morrido.

Jimena estaria ali, mas Jimena tinha morrido.

Pablo estaria ali, mas Pablo tinha morrido.

Óscar Herrera estava ali.

Apoiando-se na bengala, parecendo velho e frágil, como se o vento

norteño fosse soprá-lo para longe. Ele falou pouco, cumprimentou os outros brevemente e recusou-se afalar, apenas sacudindo a cabeça, quando surgiu a oportunidade de homenagear Ana.

Marisol recitou um dos poetas preferidos de Ana, Pita Amor: “Eu sou vão, um tirano, profano, orgulhoso, insolente, ingrato,

desdenhoso, mas guardo a complexidade de uma rosa.”

Marisol desabou, mas se recuperou.

— E eu digo, nas palavras de Susana Chávez Castillo, também filha de

Juárez, também assassinada nesta cidade, por seu ativismo social, pela causa de mulheres assassinadas: “Não é só mais uma”.

Um padre disse algumas palavras.

Um violeiro cantou “Guantanamera”.

O caixão desceu ao chão.

Só.

Houve alguma conversa sobre uma reunião posterior, em algum lugar,

para compartilhar lembranças, mas a ideia não se concretizou. A polícia acompanhou Keller e Marisol de volta até a fronteira, e eles foram de carro para o aeroporto.

Agora, Keller assiste ao presidente eleito, na televisão. “Nós temos que acabar com o fluxo ilegal de drogas, dinheiro e pessoas

que atravessa a fronteira, alimentando a crise, temos que acabar com as cidades de refúgio que proveem abrigo para traficantes de drogas, e acabar com o negócio dos cartéis, de uma vez por todas.”

Só que você faz negócios com eles, pensa Keller.

— Vou transferir você — diz Keller a Hidalgo, de volta ao escritório. — Qualquer lugar que você queira, exceto o México, porém, o mais distante possível de mim. Quando me estourarem, você não vai querer ser atingido pelos estilhaços.

— Tarde demais — diz Hidalgo. — Estou ligado a você. O novo

governo vai me mandar pra Bucareste. Howard me mandaria pra lua, se nós tivéssemos escritório lá.

— Então, aceite a nova missão, enquanto tem chance. — Quero ver esse caso concluído.

— Não.

— Por quê? — pergunta Hidalgo. — Porque está levando ao Caro? Porque você acha que eu não sei me controlar? Eu sei.

— Há outros motivos, e eu não quero colocá-lo mais perto do Caro — diz Keller.

Caro foi uma das pessoas que matou o pai de Hugo, e Keller morre de medo de colocar o garoto na mesma situação.

— Não me puna por causa da sua culpa — diz Hidalgo. — Eu sei que meu pai estava a duas semanas de ser transferido de Guadalajara, quando ele foi morto. Mas isso não foi culpa sua.

— Foi, sim.

— Está bem, então foi, tanto faz — retruca Hidalgo. — Carregue sua maldita cruz por aí, mas não jogue nada em cima de mim. Eu quero concluir o que meu pai começou.

— Você está me colocando numa situação difícil aqui, Hugo.

— Buá, porra — diz Hidalgo. Ele olha para o chão por um segundo, depois ergue mais uma vez os olhos e pergunta: — Quer dizer, você vai prosseguir com isso, não vai?

— Como assim?

Hidalgo olha diretamente para ele. Faz Keller se lembrar de seu pai.

— Você e Ruiz.

Keller o encara.

— O quê? O que tem o Ruiz e eu?

— Ora, vamos, chefe.

— Foi você que levantou esse assunto, não eu.

— Ruiz era uma fonte sua, no México — diz Hidalgo. — E há histórias de que vocês dois estiveram juntos, numa missão secreta, na Guatemala.

Keller não reage.

Hidalgo diz:

— Depois, você mandou apagar a ficha pré-sentencial de Ruiz.

— Você andou fuçando? — pergunta Keller. — Agora você está na minha cola?

— Eu estou do seu lado — diz Hugo. — Só quero saber que lado é esse.

— O que você quer me perguntar, Hugo?

— Ruiz tem algum trunfo sobre você?

— Se você estiver com um grampo — diz Keller —, isso vai partir meu coração.

— Como pode me perguntar isso?

— São os tempos em que vivemos.

— Eu não estou com escuta — diz Hidalgo. — Jesus, eu mentiria para

proteger você.

— É isso que eu não quero — responde Keller. — Nós vamos prender

Eddie Ruiz quando ele nos levar ao topo da pirâmide, e quando fizermos, ele vai me ameaçar com algo que ele sabe. E eu não vou ceder a essa ameaça.

— E vai levar Caro com você.

— Se eu puder.

— Quero estar junto — afirma Hidalgo.

— Você vai destruir sua carreira.

— Eu posso trabalhar de detetive particular, em algum lugar — diz

Hidalgo. — Você me deve isso.

— Por quê?

— Pelo meu pai.

— Isso é golpe baixo, Hugo.

— É uma luta suja — diz Hidalgo.

— Está bem — diz Keller. — Vou mantê-lo. Ruiz e Caro agora estão

comendo o que nós dermos. Então, nós envenenamos a comida, damos informações erradas. Faremos isso através de você.

Hidalgo levanta.

— Não estou dizendo que você matou Adán Barrera. Mas, se matou…

obrigado.

Ele sai.

De nada, pensa Keller.

Agora chegou a hora de derrubar Caro, Ruiz, Darnell e Lerner, e sim,

Dennison, se chegar a isso.

Todos esses filhos da puta que mataram 49 garotos… que mataram Ana…

para encobrir o seu negócio de dinheiro sujo.