A fronteira

Don Winslow · Capítulo 20 de 25

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A fronteira

5: Natal branco

5

 

Natal branco

 

“Ouvi os sinos natalinos, no dia de Natal, entoando as antigas canções…”

Henry Wadsworth Longfellow

“Christmas Bells”

Kingston, Nova York

Dezembro de 2016

 

Jacqui assombra as ruas como o zumbi que ela é.

Não é a Noite dos Mortos-Vivos, é a Noite e Dia, e Dia e Noite dos

Mortos-Vivos.

Em seus momentos lúcidos, Jacqui passou a acreditar que a heroína não

foi criada para seres humanos, mas que seres humanos foram criados para a heroína, como meio de perpetuar-se. Isso é um negócio darwiniano, pensa ela, enquanto percorre a calçada, à procura de seu próximo pico. A sobrevivência dos mais preparados, e a heroína é certamente mais preparada do que gente. A prova é incontestável, sendo ela própria apenas a Prova A, de cerca de um milhão de alfabetos inteiros.

A heroína até evolui para ser mais preparada. Primeiro, foi a preta mexicana.

Depois, a cinnamon.

Então, o fogo, conforme a heroína se ramificou ao lado inverso, o

fentanil. Agora estão falando do co-fentanil, um salto evolutivo ainda mais forte. E há também as subespécies relativas — Oxy, Vicodin e o resto dos produtos farmacêuticos.

É, a heroína está dominando o mundo, como o Homo sapiens fez um

dia.

Incontrolável.

Muitos de nós estamos morrendo, pensa Jacqui, mas muitos não estão.

Porque, ao contrário das pessoas, a heroína é esperta demais para destruir seu próprio ambiente. Ela vai manter viva uma quantidade suficiente de viciados para se manter necessária, em circulação, para manter os seres humanos cultivando aquelas papoulas.

E a heroína é paciente.

A heroína espera por você.

Ela esperou por Jacqui até que ela tivesse terminado seu tratamento, estivesse limpa e sóbria, naquela tolice de casa de reabilitação.

Então, abriu os braços para a filha pródiga.

Está tudo esquecido, pode voltar para casa.

Volte meu benzinho, para os meus braços amorosos.

Traga de volta (G7) pra mim (C).

É, Jacqui fez sua reabilitação e passou com honras. Primeiro, foi uma merda, ela estava passando mal pra cacete, mas as enfermeiras a conduziram ao longo da desintoxicação e quando ela saiu daquela fase, os conselheiros e as outras pacientes a conduziram ao longo do restante.

Eles lhe disseram que ela só era doente na proporção de seus segredos, então, um dia, ela contou sobre os molestamentos e chorou muito, e se sentiu muito melhor. Eles lhe disseram que ela tinha que se acertar com sua tristeza, então ela contou sobre a morte de Travis, em seus braços, e chorou mais um pouco. Disseram-lhe que, para ficar bem, ela precisava se livrar da culpa, fazer reparações, então, ela ligou para a mãe e pediu desculpas por todas as coisas terríveis que fez, e a mãe a perdoou, e depois lhe disseram que ela precisava perdoar a si mesma, e ela o fez.

Ela frequentou terapia, foi ao “grupo” e às reuniões e praticou os Passos, até mesmo aquele sobre encontrar um Poder Superior, que foi difícil, porque a última coisa em que Jacqui acreditava era, tipo, Deus.

Não precisa ser Deus, eles lhe disseram, mas precisa ser algo, você tem que encontrar alguma coisa maior que você mesma para acreditar, pois virá o dia em que não haverá nada entre você e a droga, exceto esse Poder Superior. Então, primeiro ela usou o grupo, depois ela se formou em alguma força astral não especificada, então, Jacqui encontrou Jesus.

Ãrrã, Jesus.

De todas as opções, porra, pensou Jacqui à época.

Mas ela ficou em êxtase. Ela tinha encontrado um estado de maior torpor que a droga, mais que a cinnamon, mais que qualquer troço.

Foi lindo pra cacete.

Jacqui deixou a reabilitação entorpecida.

Limpa e sóbria e feliz, com novos amigos e uma nova perspectiva e uma

nova vida, e um novo visual, com mais uns oito quilos, com um novo frescor na pele e no cabelo, e eles lhe disseram que ela ainda não estava pronta para reingressar no mundo, e alertaram-na para evitar “lugares, pessoas e coisas”, que ela não deveria voltar para Staten Island, onde o mesmo ambiente a levaria de volta ao velho comportamento.

Era risco demais, mesmo com Jesus.

Ela rezou a respeito disso, e ela e Jesus decidiram que ela deveria

aceitar o conselho deles e ir para uma casa de reintegração, por seis meses, em algum lugar distante de Staten Island. Havia vagas em uma casa de convivência sóbria, em Kingston, Nova York, então, ela foi.

E era legal, era bom.

Bem diferente do que ela conhecia, uma cidadezinha de 23 mil

habitantes, junto ao Hudson, com casas coloniais antigas, um velho prédio de tijolinho que foi uma fábrica, antigas igrejas com pináculos brancos, e a casa de convivência sóbria era em estilo vitoriano, no bairro de Roundout, e Jacqui ficou sabendo que a edificação fora incluída no Registro Nacional de Locais Históricos.

A casa de reintegração era bacana. Treze mulheres moravam lá, todas

viciadas se recuperando, e a mulher que administrava o local, Martina, era rigorosa, mas gente boa. Havia regras, horário para se recolher, e todas precisavam ajudar na limpeza e na cozinha, algo de que Jacqui até passou a gostar.

Depois de um mês, elas a deixaram arranjar um emprego e ela

conseguiu um, na janela de atendimento do drive-thru do Burger King, e dava para ir a pé de casa. O trabalho era tedioso, mas não era estressante (ela deveria evitar estresse), e ela tinha suas amigas na casa, e suas reuniões (noventa, em noventa dias), e seus amigos no NA, e eles lhe diziam para não ter nenhum relacionamento no primeiro ano, então, ela não teve, e estava bem feliz.

Um dia, ela estava caminhando para casa, voltando do trabalho, e um

cara na esquina da West Chester com a Broadway sussurrou para ela:

— Garota, eu tenho o que você precisa.

Como se ele tivesse, não é?

Como se tivesse olhado através de sua pele e visto do que ela realmente

precisava.

E simples assim, só precisou daquilo, ela foi atrás dele, virou a esquina atrás do posto Valero e comprou um sacolé e os acessórios e se aplicou, e Jesus não ficou com ela, e foi quando ela descobriu que seu verdadeiro Poder Superior — o Poder Mais Alto — era a heroína.

Talvez a heroína seja Deus, pensa ela agora, enquanto procura o próximo pico.

Nós com certeza a louvamos e temos uma porção de pequenos rituais religiosos que acompanham: os cotonetes, o cozimento, a injeção…

Muçulmanos rezam cinco vezes por dia, pensa ela.

Eu chego a quatro.

Ela foi expulsa da casa de reintegração, claro. Até conseguiu se safar, por um tempo, segurou a onda, foi blefando, mentia para Martina, na maior cara de pau, enquanto estava se chapando, mentia para sua colega de quarto, mas não dá para enganar essas cretinas, elas já viram tudo isso, já fizeram tudo isso. As regras do local diziam que Martina tinha o direito de aplicar um exame de urina, e deu positivo, portanto, Jacqui tomou um pé na bunda.

Ela estava na rua.

Ainda manteve o emprego por quase uma semana, depois saiu e não apareceu para um turno e recebeu um alerta, depois dormiu ao longo de um turno inteiro e nem se deu ao trabalho de comparecer para ouvir que tinha sido despedida.

Portanto, agora ela está desempregada, na rua e viciada.

A Santa Trindade, pensa ela.

Na verdade, ela tem dois lares.

A carcaça de uma geladeira, embaixo da ponte da avenida Washington, no cruzamento com a Esopus Creek, ironicamente, não muito longe do Kingston Best Western Place, seu “local de fim de semana”, um ponto embaixo da passarela na Highway 587, perto da antiga linha férrea e da Aaron Court.

Quando a polícia bota todos eles para correr de um lugar, a pequena colônia de sem-teto atravessa a cidade e migra para outra.

É um jogo.

Jacqui gosta mais de seu lar da avenida Washington, porque a pescaria na caçamba de lixo é melhor. Não somente tem o Best Western, mas a Picnic Pizza fica logo adiante, depois da ponte, e se ela atravessar o rio, pode vasculhar a caçamba da Olympic Diner e talvez entrar escondida no banheiro do Larry & Gene, no posto de gasolina do outro lado da rua, para fazer xixi ou cocô.

Às vezes, eles a veem e a enxotam, dizem que não querem saber de

viciada ali, que é para dar o fora.

Grossos.

A localização da Aaron Court é menos conveniente, só dá para ir a pé

até um Domino’s Pizza, e a caçamba não é muito boa, porque, bem, eles fazem entregas. Mas dali ela pode caminhar até a Broadway, onde há uma porção de bares, e um monte de caras solitários que lhe dão dez pratas por uma chupada, no banco do carro deles.

Não vá entender errado, ela não é prostituta.

Isso não é sexo, é só oral.

É como ir ao dentista — abre bem, bochecha, cospe, enxágua. Está bem, não enxágua, mas cospe.

Seu domicílio na avenida Washington não fica muito distante da Missão

Batista, em um antigo restaurante mexicano, onde eles a deixam entrar e tomar um banho, uma ou duas vezes na semana, e até lavar sua roupa.

Mas ela não pode ficar lá, ou em nenhum outro abrigo para sem-teto,

pois eles têm uma política de tolerância zero para drogas e álcool, e fazem a pessoa soprar em um tubo ou fazem exame de urina, o que parece contraproducente para Jacqui, pois a maioria dos sem-teto são viciados ou bêbados.

Ou psicóticos.

É, tem um monte de sem-teto que é viciado, mas a maioria dos viciados

têm casa.

Jacqui ficou sabendo disso nas quadras e nos parques, e conjuntos

habitacionais, onde ela descola e se aplica. A maioria dos viciados por lá tem emprego — são instaladores de telhado ou carpete, mecânicos de carro, ou trabalham em uma das poucas fábricas que sobreviveram, depois que a IBM foi embora. Há donas de casa se aplicando, porque é mais barato que os comprimidos de Oxy em que elas estão viciadas, há a garotada de Ensino Médio, seus professores, gente que vai para lá de carro, vindo de cidades até menores, da região norte, para descolar.

Há gente sem-teto, como ela, com corpos fedorentos, e há as rainhas dos

subúrbios que têm cheiro de produtos Mary Kay e pagam por seus vícios com os ganhos de vendas para a Amway, e há todas as variações possíveis entre esses dois tipos.

Bem-vindo à Nação da Heroína, 2016.

Uma nação sob os efeitos da droga.

Com liberdade e justiça para todos.

Amém.

Como dizem na TV, o problema é que o inverno está chegando.

Porra nenhuma, o inverno já chegou e agora o perigo não é morrer de overdose, é morrer congelado. Bem, de overdose e congelado.

O que vier primeiro.

Overdose é mais rápido.

Mas clichê, pensa Jacqui. Porra, overdose deve ser a principal causa de morte entre os roqueiros, certo? Tipo, overdoses são um sacolé por doze, mas virar picolé tem sua originalidade. Só que soa como algo que realmente dói.

Jacqui passa por uma casa fechada com tapumes. Lixo sopra pelo mato que já foi um gramado.

Cara, pensa ela, quando a IBM foi embora, arrancou o coração desta cidade.

Ela chega a um estacionamento vazio.

Um jovem negro está em pé ali, com as mãos enfiadas na jaqueta de brim, batendo os pés para se esquentar.

— Garota, eu tenho o que você precisa.

— Você tem fogo? — pergunta Jacqui.

Nem todos os aviõezinhos têm heroína desse tipo. Alguns só têm a cinammon, e isso não vai mais funcionar para Jacqui. Mas o que ela ouviu dizer na comunidade de contatos dos viciados — que é tão confiável como você pode imaginar — é que a fire vem lá da cidade, através só de duas gangues, uma das quais, a Get Money Boys — a GMB —, tem uma casa do outro lado deste estacionamento.

— Garota, se você tiver dinheiro, eu tenho fogo.

— Tenho 20.

— É 25.

— Não tenho 25.

— Então, tenha um bom dia — diz ele.

— Ora, vamos, cara.

— Vai andando, amiga — diz ele. — Você vai chamar atenção indesejável.

— Eu chupo você.

— Garota, isso aqui é um comércio, não um hobby. Se você quer

ajoelhar, vá pra igreja.

— Eu tenho 23.

— Eu tenho cara de Daymond John, isso aqui parece o Shark Tank, pra

gente negociar? — pergunta ele. — Agora, dê o fora daqui, porra, antes que eu lhe dê uns tapas.

— Está certo, 25. — Ela tira do bolso uma nota de 20 e uma de 5 e

coloca na mão dele.

— Você é uma piranha mentirosa.

— É, eu sou uma piranha mentirosa.

— Tentando me enrolar — diz ele. — E me dar uma chupada por cinco

pratas. Por que eu iria querer boquete de uma branca? Você não tem beiço. Vai até a casa e bate na porta dos fundos, sua piranha mentirosa, cinco pratas, beiço de lagarto, deve até dar uma pereba no meu pau.

— “Beiço de lagarto”? Acho bom que essa porra seja boa. Jacqui vai até a porta dos fundos e bate. Abrem uma fresta na porta e

uma mão estica um sacolé para fora. Ela o agarra e enfia no bolso do casaco. Depois, ela caminha de volta até a ponte da rua Washington, entra em seu saco de dormir, cozinha, prepara e injeta.

O bagulho é bom mesmo.

A heroína fogo chapa ainda mais.

É o Poder Superior.

Deus e a evolução não são contraditórios, pensa ela, ao apagar. Eles são iguais.

A cabeça de Cirello gira.

— O que há com você? — pergunta Darnell. — Você parece que viu um

fantasma.

Eu meio que vi, pensa Cirello.

— Nada.

Ele levou Darnell ao norte do estado. Se você vai para o mato, no meio

dos brancos pobres, Darnell lhe disse, é bom ter um branco ao volante. Principalmente um que tenha um distintivo. Eles seguem até Kingston, para Darnell encontrar o chefe da GMB e aquietá-lo. A GMB matou um traficante rival e Darnell precisa colocá-la na linha.

Eles seguem de carro até o Motel 19, na periferia da cidade, onde

Darnell abriga a gangue. Darnell bota todo mundo para fora da sala, menos Mikey, o chefe da equipe.

Então pergunta:

— Qual é a porra do seu problema, garoto?

— Como assim, D?

— Matando um irmão.

— Tem uns irmãos que precisam morrer — diz Mikey, tentando encarar.

— Você conhece o Obama? — Darnell pergunta a ele.

— O presidente?

—É, aquele Obama — diz Darnell. — Ninguém sai por aí matando um árabe sequer, sem a permissão dele. Eu sou seu Obama, Mikey. Se quiser apagar alguém, você me pergunta primeiro se pode. Só que não pode.

— Por que não?

Mikey ainda está enfrentando.

— Pense — responde Darnell. — Seja esperto. Esta cidade é pequena. Uma cidade de branco. Eles vão deixar você vender bagulho pra esse lixo branco, porque eles são lixo. Mas não vão deixar você espalhar um monte de corpos pela rua, mesmo sendo de negros. Isso chama atenção, é sangue de jovem, e atenção é ruim para o negócio. Ruim para o meu negócio, tá sacando?

— Ãrrã.

Agora o Mikey está baixando a bola, pensa Cirello.

— Não me faça substituir você — diz Darnell.

— Não vou fazer.

— Seu primo Kevin mandou um oi.

— Como vai ele? — pergunta Mikey.

— Tá bem.

Darnell ouve as entrelinhas: me fode outra vez e eu não só mato você, mas vou matar seu priminho.

No trajeto de saída da cidade, Darnell fala:

— O problema do negócio não é o produto, é o pessoal. Encontrar gente que faça o que você diz pra fazer, que não faça o que você diz pra não fazer.

— Meu chefe diz a mesma coisa.

— Tá vendo — diz Darnell. — Quem era ela?

— Quem?

— Aquela viciada que a gente passou — responde Darnell. — Você a conhecia.

— Acho que a prendi, uma vez, lá na cidade.

— E pensou que tinha salvado ela — deduz Darnell. — Você não

deveria ser tolo, Bobby Cirello. Não se pode salvar viciados.

— Acho que não.

— Sabe por que não?

— Eu sei que você vai me dizer.

— Porque no fim do dia — completa Darnell —, os viciados não estão

tentando se chapar. Eles estão tentando se acabar.

Imagino que sim, pensa Bobby.

Ele tira a garota Jacqui da cabeça.

Ela teve sua chance; se perdeu, é com ela.

— Preciso que você esteja com a cabeça firme — afirma Darnell. — Por quê?

Porque, Darnell lhe diz, o maior carregamento de todos os tempos está

chegando.

Quarenta quilos.

— Será um Natal branco — diz Darnell.

— Todos eles são.

— Verdade.

Chegou a hora, pensa Keller.

Na verdade, seu tempo está se esgotando. O novo governo virá e vai

encerrar isso, porque tudo leva diretamente a eles.

Como disse Dennison, “Siga o dinheiro”.

Você tem o Eddie totalmente enquadrado por tráfico. Você tem Darius Darnell.

Você tem Jason Lerner.

Ricardo Núñez já está indiciado.

Você pode conseguir indiciamentos contra Tito Ascensión e Rafael

Caro, por lavagem de dinheiro, depois vê se os protetores no governo mexicano os abandonam, caso a coisa esquente demais.

Keller começa a agitar.

Liga solicitando todos os favores e obrigações. O procurador-geral em San Diego nem precisa de incentivo — fica mais

que feliz em receber as provas que Keller lhe dá sobre o tráfico e a lavagem de dinheiro de Ruiz, junta com as que ele já tinha e expede o indiciamento lacrado.

San Diego há muito tem indiciamentos contra os Esparza, por tráfico de heroína e cocaína. No fim das contas, o Texas e o Arizona também têm, e ambos possuem indiciamentos lacrados contra Ascensión e seu garoto.

É hora de fazer as invasões, os flagrantes, fechar os caixões.

É hora de frear a heroína.

Ele liga para Mullen.

— Estou pronto para prender Darnell.

— Graças a Deus — diz Mullen. — Pensar em deixar quarenta quilos de fogo na rua vem me matando. Cirello está à beira de um motim.

— Que tal se você fizer o estouro?

— Está brincando comigo? — diz Mullen. — Feliz Natal.

Keller caminha para entrar em casa.

Há uma mulher embaixo da árvore, do lado de fora.

Nora Hayden está mais linda que nunca.

Há pequenas rugas de expressão onde não havia, pensa Keller, mas, de alguma forma, isso a deixa ainda mais adorável.

Seus olhos ainda são vivos e radiantes.

Dominadores.

Faz dezoito anos que ele a viu pela última vez.

Em uma ponte, em San Diego.

Depois, quando ela testemunhou contra Adán.

Até ele conhecer Marisol, Nora Hayden era a mulher mais linda que Keller já vira. A mulher mais linda que muitos homens já tinham visto, porque eles pagavam milhares de dólares para estar com ela.

Um desses homens foi Adán Barrera.

Nora se tornou exclusiva dele, sua amante em tempo integral, sua lendária deusa loura, quando ele era o Chefão dos Céus.

Então, ela o delatou.

Bem, não foi exatamente isso, pensa Keller.

Fui eu que a fiz delatar.

Eles tinham um amigo em comum, um padre, que mais tarde se tornou um cardeal, chamado Juan Parada. Keller o conhecera em Sinaloa, por volta da mesma época em que conheceu Barrera, e o homem tinha sido como um pai para ele.

Nora Hayden era ainda mais próxima do padre. Ela se referia a ele como um amigo e, às vezes, Keller ficava imaginando se eles eram mais que isso, mas nunca perguntou a nenhum dos dois.

Isso não era da conta dele.

Foi da sua conta, quando Barrera montou uma armadilha para matar

padre Juan.

Seu próprio padre, o homem que tinha batizado sua filha. Barrera o traiu.

Keller usou isso para fazer Nora mudar de lado e, por longos meses, ela

assumiu o papel de informante do mais alto nível que alguém já teve dentro de um cartel, literalmente na cama com o jefe da maior organização de tráfico de drogas do mundo.

Ela só se reportava a Keller, e somente Keller sabia sua identidade. Mas o cartel descobriu, como eles fazem mais cedo ou mais tarde. Tío Barrera a pegou.

Daí o motivo da troca por reféns, na ponte, e tudo o que se seguiu.

Keller não a via desde o julgamento de Barrera. Ela simplesmente desaparecera.

Keller torcia para que ela tivesse encontrado paz e felicidade. E amor.

Com Sean Callan.

Nora e Sean Callan foram se dissipando, como lembranças. Agora, como lembranças, ambos estão de volta. Keller sabe por que ela está aqui. Ele diz:

— Callan está desaparecido.

Ela conta a ele o que sabe, o que descobriu de Elena Sánchez, o que viu

no vídeo.

— Eu vi — afirma Keller.

— Você sabia sobre a invasão? — pergunta Nora. Fui eu que fiz tudo, menos mandá-los para lá, pensa Keller. — Foi nas montanhas remotas no sudeste de Sinaloa. É o UPC de

Callan.

Ela o encara, com uma expressão interrogativa. — Último Paradeiro Conhecido — explica Keller. Nora é direta como sempre:

— Você acha que ele está vivo?

— Não sei — diz Keller. — Esparza não ficou se gabando por matá-lo,

algo incomum, e nós não o vimos morrer no clipe.

— Por que ele mataria todos os outros e não mataria Sean?

— Porque ele é Sean Callan — responde Keller. — Talvez Iván ache que ele tem mais valor vivo.

— Sean salvou sua vida, uma vez — diz Nora. — Na ponte, naquela noite. Ele era o atirador. Deveria ter matado você. Em vez disso, matou as outras pessoas.

— Eu sempre me perguntei o porquê — diz Keller.

— Agora, ele precisa de você — afirma Nora. — Eu preciso de você.

— Farei tudo que eu puder, mas…

— Mas…

— Não tenho poder absoluto no México — diz Keller. — Devo conseguir que as FES façam algumas incursões, saiam para procurá-lo, mas isso talvez só os faça matá-lo. E aqui nos EUA, bem, não mando em nada. Não tenho mais a influência que tinha.

Ela assimila isso e depois diz:

— Antes de ficar com Sean, antes de ficar com Adán, eu tinha muitos clientes, nas rodas de poder, em Washington e Nova York. Alguns deles eram jovens que agora estão em posições mais poderosas. Eu farei o que for preciso.

— Eu compreendo.

— Traga-o de volta, Art — pede ela. — Você deve isso a ele.

Devo isso a você também, pensa Keller.

— Onde posso encontrá-la?

— The Palomar.

Fica somente a algumas quadras de distância.

— Eu farei contato — diz Keller.

Quando ele entra, Marisol pergunta:

— Quem era aquela?

— O passado — responde Keller.

Ela deixa por isso mesmo.

Ele recorre a Orduña.

— Acho que seu camarada está morto — diz Orduña. — Ele esculhambou Iván, Iván desligou a câmera e o matou. Provavelmente de alguma forma horrenda, incompatível até para a internet. Você está me pedindo para procurar um cadáver, Arturo.

— Mesmo assim, você poderia procurar?

— O que é esse cara, pra você?

— Um velho amigo.

— Sério? — pergunta Orduña. — Porque nós o temos como um dos

antigos sicários de Adán Barrera. O que o torna improvável que seja seu amigo.

— Você sabe como é.

— Eu sei.

Ele diz a Keller que os irmãos Esparza abandonaram o local onde

ocorreu o ataque e atualmente não se sabe seu paradeiro.

— Você está procurando por eles? — pergunta Keller. — Sem querer

ofender, mas achei que eles fossem meio que intocáveis.

— Sim, porém, menos do que costumavam ser — diz Orduña. — Não

me entenda mal, eles ainda têm muita influência, mas eu estou recebendo indicações da Cidade do México de que certas pessoas não se importariam se eles fossem tocados. Então, você está procurando emprego? Aqui sempre tem um pra você.

— Obrigado — diz Keller. — Tente encontrar Callan, por favor. Ele diz ao seu próprio pessoal — bem, aos que ainda se importam com o

que ele lhes diz — para procurar os irmãos Esparza em todo lugar. É uma solicitação natural, que oculta seu interesse em Callan, mas o fato é que se Callan ainda estiver vivo, ele provavelmente está próximo aos Esparza.

Iván vai manter seu refém por perto.

Até que ele encontre o melhor acordo ou decida matá-lo. Os Esparza se entocaram — em uma toca bem funda. Nenhuma das

fontes habituais tem pistas de onde eles estão — as varreduras feitas por satélites, análises de tráfego dos computadores, interceptações telefônicas, tudo zerado.

As redes sociais também estão se perguntando. Todos os blogs, Twitter,

Snapchat, os suspeitos habituais especulam sobre o local para onde foi a liderança do cartel Sinaloa.

Bem, eles sabem para onde foram Elena e Luis. A “imprensa vermelha”

está repleta de fotos sombrias de seus corpos esparramados na estrada, em poças de sangue. Portanto, aquele mistério está resolvido, mas onde estão os Núñez, pai e filho? E onde estão os irmãos Esparza? Os boatos de uma invasão sangrenta ao esconderijo deles, respaldados pelas postagens de Iván executando os invasores, estão se alastrando, mas, onde estão eles agora?

E as pessoas se perguntam quem é o homem misterioso, com culhões para mandar Iván Esparza se foder. Ele é claramente um yanqui, mas, quem? Está vivo ou morto? Ele já até ganhou o apelido de “El Yanqui Bally”, o Americano Destemido — e uma banda norteña aliada a Tito surge com um narcocorrido sobre El Yanqui Bally, fazendo Iván Esparza parecer um babaca.

Uma música dessas pode fazer Callan ser morto.

Se ele já não foi.

Keller entra em contato com Nora.

Ele precisa lhe dizer que não descobriu nada.

O Natal está chegando.

E com ele, o grande carregamento de heroína que vai determinar tudo.

As calçadas da cidade, calçadas tão movimentadas,

Com as festividades, todas enfeitadas…

Keller pensa nessa antiga canção, ao chegar a Nova York, dois dias antes do Natal. Marisol resolveu não vir. Depois da morte de Ana, ela não está no clima para comemorar as festas, e Keller deu dicas de que sua viagem tinha um lado de trabalho, em que ela talvez pudesse atrapalhar. Agora ele está na 5ª avenida, abrindo caminho por entre a multidão de gente comprando presentes de último minuto.

O carregamento está programado para chegar na noite de Natal, uma jogada inteligente, já que todas as instituições da lei estarão com pessoal bem reduzido. Não a Divisão de Narcóticos da NYPD — Mullen estará trabalhando e terá um esquadrão de policiais altamente treinados e fortemente armados de prontidão para a prisão de Darius Darnell, em qualquer um dos laboratórios para onde seja levada a heroína.

Informação essa que Cirello irá passar, assim que a carga estiver a caminho, vindo de Jersey. Se, por algum motivo, a heroína for para outro lugar, Cirello também vai avisar e eles vão improvisar. Hidalgo está em San Diego para prender Eddie Ruiz, assim que acontecer o flagrante de Darnell. Outros irão buscar Eva Barrera, pelas acusações de lavagem de dinheiro.

Se, se, se… tudo correr bem.

Bobby Cirello está cansado de ser uma ferramenta.

Farto de ser um brinquedo no jogo dos outros. Agora, ele tem seu próprio jogo.

Ele encontra uma vaga na avenida Garretson e caminha até a Lee’s

Tavern. Mike Andrea e Johnny Cozzo já estão em um sofá do reservado.

— Já não era sem tempo para que você se lembrasse de quem são seus

amigos — diz Andrea. — Estávamos começando a achar que você tinha virado crioulo.

— Vocês têm planos para a noite de Natal? — pergunta Cirello.

Keller vai jantar com o filho.

Não parece nada demais, mas é muito importante. Essa refeição está

atrasada em cerca de vinte anos, e ele levou um ano inteiro de ligações, cartas e e-mails para fazer Michael encontrá-lo hoje.

Keller está nervoso.

O que você diz a um garoto — agora um homem — a quem você

basicamente abandonou na infância, para perseguir monstros? Como você explica que escolheu isso, acima dele, que ele não era tão importante quanto um castigo merecido?

Não tem como, pensa Keller.

Não se diz uma coisa dessas.

Você apenas janta, é o que Althea aconselhou. Apenas jante com ele,

converse sobre bobagens, pergunte a ele sobre a vida, dê um pequeno passo de cada vez.

Ele fez reservas em um lugar da moda chamado Blue Hill. É um pouco

“foodie” demais para ele, mas ele achou que Michael poderia gostar, e é um local que ele provavelmente não tem como pagar sozinho. Fica no Village, portanto é de fácil acesso para Michael, vindo do Brooklyn. Agora, ele vê Michael descendo a escada, entrando no restaurante e olhando em volta, à sua procura.

Keller levanta e vai até ele.

— Michael.

— Pai.

É meio constrangedor — eles não sabem se apertam as mãos, ou se

abraçam, então ficam no meio termo. A hostess os conduz até a mesa e eles sentam, Keller de costas para a parede.

— Obrigado por vir até Manhattan — diz Keller. — Obrigado por vir lá de DC — diz Michael.

Jesus, como ele se parece com a mãe, pensa Keller. O mesmo cabelo louro, os olhos verdes, lábios prontos para se abrirem em um sorriso zombeteiro.

— Esse lugar está legal? — pergunta Keller.

— Sim, é ótimo.

— Da fazenda para a mesa — diz Keller.

— Certo.

O garçom se aproxima e começa a sequência do serviço. Eles optam pelo cardápio de degustação, com pratos como “murasaki de batata doce” e faisão com calda de amora.

— Como está o trabalho?

— Ah, está legal — responde Michael. — Nós estamos pegando uns industriais. Nada muito empolgante, mas entra algum dinheiro.

— E você está editando?

— Estou — diz Michael. Então, ele faz uma expressão meio brincalhona e pergunta: — E como vai o seu trabalho?

— Imagino que você leia os jornais.

— Online — confirma Michael. — O pessoal da direita certamente não gosta de você.

— A esquerda também não morre de amores por mim — comenta Keller. — Mas quero saber de você. Conte-me sobre você.

— Não há muito para contar — diz Michael. — Quer dizer, eu gosto do trabalho com filmes. Até que sou bom nisso.

— Aposto que é.

— Falou que nem um pai — diz Michael.

— Já era hora, não é?

Mais tarde, Michael observa as opções de sobremesa.

— Certo, acho que tenho que experimentar o mingau triticale de malte com trigo e centeio.

— O que é isso?

— Chocolate branco, maçã e sorvete de cerveja — lê Michael. — Topa?

— Por que não?

O tal do mingau é… bem… interessante. Michael pareceu gostar. O jantar foi mais relaxado do que Keller temera, talvez graças ao vinho e à cerveja que eles consumiram.

— Quais são seus planos para o Natal? — pergunta Keller.

— Vou pra casa da família da minha namorada — diz Michael,

revirando os olhos. — Em Long Island.

— Eu não sabia que havia uma — diz Keller.

— Uma Long Island?

— Uma namorada.

— É, tem.

Então, silêncio.

— Ela tem nome? — pergunta Keller.

— Tem — diz Michael. — Amber.

— Nome bonito.

— É bem dos anos 1990 — comenta Michael. — E você? Pro Natal,

quer dizer.

— Vou trabalhar — responde Keller.

O que pode ter sido um erro, pois ele vê o filho se retesar. — Os traficantes de drogas não folgam no Natal, hein — diz Michael. — Esses traficantes, não — diz Keller, xingando a si mesmo por ter

entrado na cela com a arma.

Depois da sobremesa, ele paga a conta, enquanto Michael mexe no

celular.

— Tem um Uber só a quatro quadras de distância — informa Michael.

— Alguns minutos. Você quer?

— Eu pego um táxi.

— É da velha guarda — diz Michael.

— Sou velho.

Eles sobem até a calçada.

— Vamos fazer isso de novo — diz Keller. — Com mais frequência. — Mais frequência que a cada vinte anos?

Ele é filho de Althea, pensa Keller. E seu. Ele não pode deixar passar a

chance de dar um tiro. Isso está em seu DNA.

— Feliz Natal, Michael.

— Feliz Natal, pai.

Keller está a meio segundo de lhe dizer que o ama, mas não fala. Cedo

demais, e Michael pode se ressentir.

Michael entra no Uber.

Keller vai para seu quarto, toma banho e tenta dormir. Não vai rolar. Ele levanta, prepara um uísque fraco, no frigobar, e liga a televisão.

Pensa em conversar com Mari, mas está muito tarde.

Ele terá que esperar até de manhã.

Amanhã será um dia interminável, na expectativa do flagrante.

Um sinal dos tempos é que ele não pode se instalar no escritório de Nova York da Divisão de Narcóticos, porque não sabe em quem pode confiar. Ele poderia sentar com Mullen, mas também não pode ser visto na One Police, porque isso complicaria a vida de Mullen.

Então, ele fica no quarto, trabalhando pelo celular.

Mas a verdade é que não há muito que ele possa fazer, exceto monitorar a situação e torcer. Agora, todas as partes ativas estão nas mãos de outras pessoas.

Muita coisa pode dar errado.

Darnell pode ficar cabreiro.

Cirello, sabendo que vai enfim poder estourar esse troço todo, pode inconscientemente dar na vista — uma mudança de comportamento, de postura, porra, uma simples expressão de seu rosto. O mesmo com Hidalgo. Ele é inteligente, um infiltrado experiente, mas Ruiz também é esperto, com um instinto de sobrevivência que Keller nunca viu igual.

E se Denton Howard tiver descoberto? Ele é próximo de Lerner, mas quão próximo qualquer um deles é de Caro, Ruiz ou Darnell? Próximos o bastante para alertá-los?

Tudo precisa dar certo e basta uma coisa dar errado.

Seu celular toca. É Marisol.

— Não consegui dormir. Eu estava pensando em você.

Ele lhe conta sobre seu jantar com Michael e ela acha maravilhoso, fica muito feliz pelos dois.

— Te amo, Arturo.

— Te amo también, Mari.

A avó de Darius Darnell o ama.

Cirello vê isso.

A mulher é velhíssima — “93 e bem forte, meu bem” — e miúda, cabelinhos brancos e finos como uma neve recente, e as mãos tremem quando ela põe mais batata doce no prato de Darnell.

— Meu bebê não come direito.

Cirello sente que vai explodir — frango assado, costeletas de porco, vagem, batata doce, e a vovó o está ameaçando com uma torta de noz-pecã.

Ele tinha acabado de sair de sua reunião em Staten Island, quando

Darnell ligou.

— Tá fazendo o quê?

— Nada, por quê?

— A gente tá ocupado amanhã à noite, você sabe — disse Darnell —,

então, minha avó tá fazendo um jantar de Natal pra mim hoje. Quer que eu leve um amigo, achei que poderia ser você.

— Eu?

— Não quero levar bandidos, nem piranhas na casa da minha avó —

explicou Darnell. — Você é minimamente respeitável, sabe usar um guardanapo. E a gente precisa combinar uns bagulhos, sabe?

Cirello sabe.

Ele senta ali, se enchendo de comida, pensando em amanhã à noite. Traição, em cima de traição, em cima de traição. Pensa no que ele vai fazer com o “bebê” dessa mulher bondosa. Darnell comprou essa casa para ela, no leste de Nova York, porque ela

não queria deixar a antiga vizinhança. É um bairro carente e violento, mas ela fica tão segura quanto um bebê no berço, porque ninguém encostaria nela, nem diria uma palavra rude à avó de Darius Darnell. Ela poderia passar no meio da bandidagem com notas de cinquenta dólares penduradas para fora do bolso, e ninguém tocaria nela, porque seria uma sentença de morte lenta.

Em um raio de cinco quadras, Darnell tem todo mundo na mão. Seus

traficantes de esquina olham por ela, seus garotos nas calçadas levam-na aonde ela quiser, alguns policiais uniformizados, tanto da Sete-cinco como da Sete-três, recebem envelopes gordos no Natal, para ficarem de olho.

A mercearia entrega na casa da avó de Darnell. A torta de noz-pecã é uma loucura.

Cirello ajuda a tirar a mesa e encher a lavadora de louça, e depois a

vovó abre seu presente, um micro-ondas novo.

— Benzinho, eu não preciso disso.

— É para a sua comida congelada — diz Darnell. — Bem, eu adoro mesmo a minha comida congelada. — Os garotos vão passar aqui amanhã, pra instalar. A vovó olha para Cirello.

— Meu bebê é bom demais pra mim.

— Impossível — diz Cirello.

Ela fica admirando o forno por cinco minutos, depois senta em sua poltrona, bebendo seu xerez. Dois minutos depois, ela cai no sono.

— Essa mulher me criou — diz Darnell, olhando para ela. — Quando eu estava em V-Ville, ela era a única pessoa que me escrevia.

Eles começam a repassar os planos para amanhã. O carregamento chega a Jersey às oito horas. Cirello diz que eles devem dividir a carga em duas vans, vinte quilos em cada uma. Dessa forma, que Deus os livre, se uma van for pega, Darnell pode pagar o prejuízo com a outra. Uma vai para o moinho em Castle Village, a outra, para um lugar novo, montado no último andar de um prédio, a oeste da rua 21 e da Vermilyea, em Inwood. Na esquina, na 10, fica um restaurante chamado Made in Mexico, o que Darnell acha meio cômico.

— Você fica com a van de Castle Village — diz Darnell — e eu vou com a de Inwood. Até dez horas tá tudo feito e todos vão pra casa a tempo de abrir os presentes.

— Você vai ver seu filho?

— Na manhã de Natal — diz Darnell. — E você?

— Vou dar um pulo na minha família, em Astoria — responde Cirello. — Também tenho uma ya-ya.

— Uma ya-ya?

— Uma avó grega.

— Você é bom pra ela?

— Não tão bom quanto eu deveria — diz Cirello.

Darnell fica quieto por um bom tempo, como se estivesse pensando em algo, tentando decidir se conta a Cirello ou não. Finalmente, ele diz:

— Esse é meu último.

— Natal? — pergunta Cirello. — Está doente, algo assim?

— Último carregamento — explica Darnell. — Vou sair desse negócio.

— Está falando sério?

— Seríssimo — diz Darnell.

Quanto arroz um chinês consegue comer?, ele pergunta a Cirello. Ele está cheio de dinheiro e investimentos legítimos — pode viver só do lucro daquela torre —, por que continuar arriscando? Esse carregamento é sua aposentadoria.

— Achei bom avisá-lo — diz Darnell —, pra você se preparar para perder essa fonte de renda.

— Eu estou de boa — afirma Cirello. — Já ganhei o suficiente. — Espero que você guarde um pouco — aconselha Darnell. — Não

perca tudo no basquete, o negão perde um arremesso livre e você fica pobre de novo.

— Parei de jogar — diz Cirello.

— Que bom.

— É mais que isso, não é? — diz Cirello. — É mais que o risco. — Cansei da vida de bandido — conta Darnell. — A confusão, a

violência, a paranoia. Saber que tem sempre alguém querendo seu lugar, não dá pra confiar em ninguém. Não tenho nenhum amigo de verdade… você é meu melhor amigo, Bobby Cirello, e eu mal o conheço. Não é triste?

— Bem triste.

— Não, eu só quero sentar e relaxar — diz Darnell. — Ver meu filho

jogando lacrosse… lacrosse, que loucura… talvez voltar com minha ex, talvez não, não sei. Só sei que parei com isso. Amanhã termina.

E não é que é a pura verdade, pensa Cirello.

A terrível verdade.

Ele olha para a avó de Darnell, dormindo na poltrona. No jogo das drogas, não há nenhum inocente.

Keller encontra Mullen e Cirello perto da árvore de Natal, no Rockefeller Center, para repassarem os planos da noite.

Cirello confirma a hora e o local — a heroína virá de Jersey, pouco

depois das oito da noite, e será levada a um endereço na rua 211, oeste. O pessoal de Mullen vai cercar o local, mas vai ficar quieto, até que Cirello mande qualquer coisa por mensagem de texto.

Então, eles vão entrar com tudo.

— Darnell estará lá? — pergunta Mullen.

— Sim — diz Cirello. — Esse trabalho é grande demais para delegar.

De qualquer forma, eu o terei em câmera, recebendo a droga em Jersey.

Assim que Darnell estiver algemado, Keller vai acionar a prisão de

Eddie Ruiz.

Ruiz vai entrar em contato com Lerner.

E também vai me dedurar, pensa Keller.

Não faz mal.

Não com o que está em jogo.

— Tudo certo, então? — pergunta Keller.

Cirello assente, tudo certo.

Eles se separam.

Keller mata o dia fazendo coisas de turista; assim, se Howard o estiver vigiando, os olheiros vão ver um cara que veio a Nova York encontrar o filho, fazer umas compras de Natal, aproveitar a cidade.

Ele circula pelo Rockefeller Center, visita a Catedral de St. Patrick, entra na Bergorf e compra uma pulseira para Mari. Depois, caminha pelo Central Park até Columbus Circle e sobe a Broadway, come um hambúrguer e toma uma cerveja, no P.J. Clarke’s, depois assiste a um filme nos cinemas do Lincoln Plaza.

— Não vá ferrar tudo — diz Cirello.

— Eu já fazia sequestros, quando você estava aprendendo a fazer cocô na privada — afirma Andrea.

Mas Cirello percebe que ele está inquieto, nervoso. E deve estar, pensa Cirello, já que há dois milhões em jogo.

— Se Darnell descobrir vocês nesse esquema, eu não vou ajudar. Vocês estão por conta própria.

— Mas você ainda vai querer sua parte.

— Porra, é claro — responde Cirello. — Você sabe qual é o risco que eu estou correndo aqui?

— Vocês policiais comem com as duas mãos — diz Andrea. — Não se preocupe, a gente vai passar isso lá em Providence, Darnell nunca vai nos ligar a isso.

Cirello sabe que ele está mentindo, que de jeito nenhum eles conseguiriam passar vinte quilos de fogo em uma cidadezinha como Providence. Eles talvez levem um pouco para lá, mas vão vender o restante em Nova York e acham que Darnell é imbecil demais para descobrir.

Ele só espera que os italianos não façam merda. Com Andrea, deve estar tudo bem, ele é um cara das antigas. Mas, Cozzo? Quem sabe se ele conquistou mesmo seu posto, ou só se fia no nome da família. E Stevie DeStefano não pareceu exatamente durão, quando Cirello o confrontou.

O outro cara, Cirello não conhece. Um dos caras da equipe de Cozzo, de Bensonhurst.

Cirello espera que ele seja bom.

Porque o pessoal de Darnell é.

Ele repassa tudo outra vez com Andrea: o estacionamento de Castle

Village é onde o pessoal de Darnell ficará mais vulnerável, com a vantagem de ser um lugar onde ninguém vê, nem ouve nada.

Mas eles terão que ser rápidos, duros e precisos, pensa Cirello. — E fiquem com a porra da boca fechada — diz ele. Os italianos serão reconhecidos na mesma hora, se disserem mais que

uma ou duas palavras, e Cirello espera que a culpa desse roubo caia para cima dos dominicanos ou dos rivais mexicanos. O pessoal de Darnell será interrogado com perguntas duras, sobre o que viram e ouviram.

— Eles não podem contar merda nenhuma, se estiverem mortos — diz

Andrea. — Essa é a forma correta de fazer, se quiser minha opinião.

— Não estou lhe perguntando nada — diz Cirello. — O roubo vai botar

o pessoal de Darnell na nossa cola, mas eles não podem ir à polícia. Um bando de corpos espalhados no estacionamento vai atrair o pessoal da Homicídios, da NYPD, pra cima da gente.

— Eles nem ligam pra crioulo morto.

— Eles ligam para manchetes — responde Cirello. Ele sabe como

funciona: o prefeito vai em cima do comissário, que vai em cima do chefe da delegacia, que vai em cima dos caras da Homicídios, que têm que esclarecer o caso, ou ver sua carreira descer pelo ralo. — Nós vamos fazer isso do meu jeito, ou não faremos.

— A jogada é sua — diz Cozzo.

Cirello diz a Andrea que não quer ninguém morto, a menos que seja

uma necessidade de vida ou morte, e se eles fizerem tudo certo, não será necessário.

Cirello não quer que ninguém morra.

Nem mesmo os traficantes.

Em Jersey sai tudo redondo.

Mesmos transportadores, mesma sequência.

Cirello e Darnell pegam as malas de bagulho, saem do hotel em vans

separadas, com suas equipes, e partem para Manhattan.

Tudo certo.

As vans se separam quando a de Cirello entra na 9, rumo a Castle

Village, e a de Darnell continua em frente, seguindo ao norte, até Dyckman.

O carro de Cirello, uma caminhonete preta Lincoln, entra no estacionamento.

Os italianos já estão lá dentro esperando, com máscaras para gás lacrimogêneo no rosto. De Stefano acelera uma picape Ford F-150 roubada, limpa, saindo de uma vaga e bate na porta do lado do motorista do Lincoln, que atinge uma pilastra.

A batida atinge Cirello de lado, lançando-o na direção do banco do passageiro. Ele não consegue abrir a outra porta, porque está preso junto à pilastra.

Os caras de Darnell saem pelas outras portas.

Andrea saca uma granada CS, arranca o pino e arremessa. Ele saca sua MAC-10 e vem para cima, gritando:

— ¡Abajo! ¡Abajo!

Que idiota do caralho, tentando falar espanhol, pensa Cirello.

O motorista tenta engatar a ré do Lincoln, mas outro carro, um Caddy, vem devagar e bloqueia o caminho. Cozzo sai do Caddy empunhando um AR-15 pendurado no ombro, dando cobertura. O camarada dele pula para fora do Ford e faz o mesmo. Andrea passa para o lado do motorista, dá um tranco na porta e arranca o motorista. Então, ele joga outra granada.

Cirello abaixa, engasgando, asfixiado, com os olhos ardendo.

Andrea se debruça para dentro, agarra a mala, a joga no banco traseiro do Caddy e entra no veículo. Seus dois camaradas pulam para o banco de trás.

— ¡Ándale! — ouve Cirello.

Então, ele escuta o carro sair acelerando.

Um dos caras de Darnell levanta e tenta atirar, mas não vai acertar nada.

Cirello aperta os botões de seu celular.

Darnell está no último andar do prédio, na rua 211, oeste.

Pousa na mesa a mala cheia de fogo.

Agora acabou, pensa ele.

Seu pessoal vai passar isso às gangues e outros vendedores, ele vai receber seu dinheiro e sumir. Algum lugar ao norte do estado, talvez, lá no alto do Hudson, algum canto que fique perto para ver seu filho e sua avó, mas bem distante dessa merda.

Talvez compre um barco.

Ele pega o celular para ligar para Cirello, mas o policial não atende. Cai

direto na porra da caixa postal. Tenta de novo, mesma merda.

Darnell sente uma ponta de pavor que percorre sua espinha. Então, ele ouve pés batendo e os gritos.

— NYPD!

Uma pequena explosão abafada e a porta se escancara, como se

estivesse morta.

Policiais de capuzes pretos e coletes à prova de bala, distintivos por

cima, fuzis nos ombros.

— No chão! Abaixa! Abaixa! Abaixa! As vozes estão pilhadas. Matariam um preto em um piscar de olhos. Darnell deita de bruços, estica os braços acima, bem distante de sua

arma, que está no quadril. Um segundo depois, alguém agarra suas mãos, dá um tranco para trás e o algema. Mãos o revistam e tiram sua arma.

Então, ele ouve alguém dizer:

— Darius Darnell? Brian Mullen, NYPD. Você está preso, por posse de

heroína com intenção de venda.

Mullen começa a ler seus direitos.

Darnell não escuta.

Eu não tenho direito nenhum, pensa ele.

Nunca tive.

Cirello cambaleia para fora do estacionamento, até a rua.

Seus olhos estão vermelhos e inchados, a garganta está seca. Ele liga para Andrea.

O mafioso está a mil.

— Conseguimos! Conseguimos! Sem sacrificar nenhum único crioulo! — Onde está você? — pergunta Cirello. — Quero a minha parte.

Keller atende ao telefone.

— Darnell está algemado — diz Mullen.

— Parabéns.

— Tem um problema — continua Mullen. — Nós só pegamos vinte

quilos.

— Onde estão os outros vinte? — pergunta Keller. — Não sei.

— O que o Cirello disse?

— Ele não está aqui — responde Mullen.

— Onde está ele?

— Não sei — diz Mullen. — Estou com um medo do caralho. Ele sumiu.

Então Keller liga para a Califórnia.

Prendam Eddie Ruiz.

Pela experiência de Eddie, as mulheres mais gatas são as piores na cama.

Talvez, pensa ele, elas achem que, por terem ganhado beleza, já seja uma dádiva suficiente e não precisem mais fazer esforço além de se maquiar e arrumar o cabelo.

Eva Barrera não é exceção.

Ela está linda.

Uma verdadeira californiana nota dez no visual, mas talvez um três, no quesito habilidade. Ela dá a Eddie uma chupada obrigatória para começar os trabalhos, mas faz isso como se estivesse chupando um limão, entortando a cara, com a língua parada o tempo todo, simplesmente sem botar para jogo.

Eddie finalmente se cansa, vira a mulher de costas, diz “Não dá mais pra esperar, eu tô quase morrendo” (de tédio) e manda ver. Ele já teve reações mais animadas até de sua mão direita. Eva faz aquela gata em V-Ville parecer a Stormy Daniels; fica deitada ali, com a pinta de “que cara sortudo você é”, como uma virgem maia prestes a ser jogada dentro de um vulcão. O que Eddie estaria disposto a fazer, se houvesse algum vulcão à mão, em Solana Beach.

Ele está indignado.

Ele se orgulha de sua habilidade de dar prazer a uma mulher — seu trabalho já recebeu críticas fervorosas de um imenso leque de amadoras e profissionais — e Eva, ali, está agindo como se estivesse em uma pedicure.

Ele tira e resolve mostrar a ela como se chupa.

— O que está fazendo? — pergunta Eva.

— O que você acha?

— Não, eu não gosto disso, é sujo.

É por isso que eu gosto, pensa Eddie. Ele sobe nela, com a intenção de terminar o mais rápido possível, e está trabalhando arduamente com esse objetivo, quando a porta do quarto é derrubada.

Eva arregala os olhos e grita.

Claro, tinha que ser agora, pensa Eddie. — Divisão de Narcóticos! Polícia! Abaixa! Abaixa! Eddie rola saindo de cima dela, para o chão.

Eva puxa o lençol e se cobre.

Eddie ergue os olhos e vê o agente Fuentes.

Filho da puta, pensa Eddie.

Fuentes pergunta a ela:

— Quem é você?

— Eva Barrera.

— Dois coelhos — diz Fuentes.

Que porra isso quer dizer?, pensa Eddie. Então, Fuentes anuncia: — Edward Ruiz, você está preso por tráfico de drogas ilegais. Coloque

as mãos para trás.

— Ora, vamos, cara, me deixa vestir uma roupa — pede Eddie. Eles

ficam apontando as armas para ele, mas deixam que ele vista uma camisa e o jeans. — Meu Deus, vocês não poderiam ter esperado cinco minutos?

— Cinco minutos? — questiona Fuentes. — Isso não diz muito de você. Não diz muito dela, pensa Eddie.

Eles o arrastam para fora, até a sala.

— Que vista — comenta Fuentes.

— Ligue para seu chefe — diz Eddie. — Fale que você acabou de

prender Eddie Ruiz, veja o que ele diz.

— Quem você acha que nos mandou, porra?

Keller os mandou?, pensa Eddie.

Ele só pode estar maluco.

Cirello vai para casa, lava o rosto e liga para um camarada, Bill Garrity, da polícia também.

— Eu sei que está tarde.

— Isso não é o começo de alguma música ruim? — pergunta Garrity. — Talvez você queira encontrar algum motivo para dar uma batida em

uma casa, no 638 da Hunter.

— O que tem lá?

— A sua carreira — diz Cirello. — Uma porrada de primeira classe,

mole, mole. Mas chega pegando pesado. Leva gente.

— Isso vem da Narcóticos?

— É onde eu trabalho.

— Se é tão bom — diz Garrity —, por que você não pega?

Policiais, pensa Cirello. Eles não apenas olham os dentes do cavalo dado, eles entram na boca.

— Tenho meus motivos. Preciso de distância disso.

— Você pode me arranjar um mandado?

— Eu tenho que limpar sua bunda também? — pergunta Cirello. — Talvez você tenha ouvido um disparo por lá. Você vai encontrar armas.

— Seis-três-oito, na Hunter.

— Isso mesmo.

— Obrigado, eu acho.

— De nada, eu acho.

Ele desliga.

Foda-se Mullen.

Foda-se Keller.

Eles conseguiram o que queriam, agora eu tenho o que eu quero.

Eu quero a droga fora da rua.

Quero todos os traficantes e mafiosos na cadeia.

Eu sou policial da cidade de Nova York.

— Que diabo você fez?! — grita Mullen. — O que você fez?! Você deu uma dica ao Cozzo para que ele fizesse um roubo? Isso é uma porra de um crime, Cirello!

É a manhã seguinte e ele está acenando uma edição do Daily News, enquanto interroga Cirello. A manchete grita MEGA APREENSÃO DE HEROÍNA PRENDE FILHO DE MAFIOSO .

Johnny Jay Cozzo.

E Mike Andrea.

Cirello abre as mãos para o alto, com inocência. Olha a foto de Garrity posando com pilhas de heroína.

— Acho que o Bill deu sorte — comenta Cirello.

— Bill Garrity não conseguiria encontrar uma puta num puteiro — diz Mullen. — Você está querendo me dizer que ele atendeu a um chamado de disparos e deu de cara com a carga perdida da heroína de Darnell?

— Eu não estou querendo lhe dizer nada.

— Foi você que cantou a pedra pra ele? — pergunta Mullen.

Cirello não responde.

— Foi você?

— Que porra você quer de mim?

— A verdade!

— Desde quando?! — questiona Cirello. — Eu estou vivendo uma

mentira há quase dois anos, e agora você quer a verdade? Nem tenho certeza se ainda sei o que é verdade!

— Então é bom você saber, porra!

— Você quer a verdade? Então, aí vai — diz Cirello. — Eu armei uma

cilada para os italianos fazerem aquele roubo, porque não quero mais que eles fiquem passando bagulho na rua!

— E esse é o seu jeito de fazer isso? — diz Mullen. — E se alguém

morresse?!

— Ninguém morreu.

— O que eu faço com você?! — pergunta Mullen. — Metade do

departamento já acha que você é corrupto.

— Você está brincando comigo agora, porra?! — Você não acha que Andrea e Cozzo não vão entregar seu nome, no

IAB?!

— Então, diga ao IAB que eu estava infiltrado — diz Cirello. — Nada em sua missão lhe dizia para armar um roubo — afirma

Mullen. — Se o IAB não cair em cima de você, o departamento fará isso. E Keller quer você enforcado, na árvore mais alta.

— Isso complica sua vida com ele?

— Foda-se Keller, ele não é meu chefe — responde Mullen. — Onde

está Libby?

— St. Louis, Kansas City…

— Vá vê-la — diz Mullen. — Passe um tempo por lá. — Libby acha que já passou tempo suficiente comigo. — Talvez você consiga consertar isso.

— Talvez.

Ele duvida.

— Vá pra casa, Bobby — diz Mullen. — Não fique lá por muito tempo.

Só arrume umas coisas e vá pra algum lugar. Tire uma licença, vá pra longe, deixe a poeira baixar. Eu verei o que consigo fazer.

— Primeiro eu quero ver Darnell.

— Você não tem que fazer isso, Bobby.

— Eu quero.

— Eu não aconselho — diz Mullen. — Qual é o sentido? Culpa? Masoquismo?

Cirello responde:

— Eu me sentiria um covarde, se não for.

— Você acabou de fechar o maior caso de heroína da história do departamento — afirma Mullen. — Ninguém o acha covarde, só um babaca. Você tem cinco minutos, e se Darnell disser a palavra “advogado”, você sai de lá.

Darnell está sentado em uma sala de interrogatório, com as mãos algemadas a uma mesa metálica.

Ele ergue os olhos quando Cirello entra. Cirello não desvia de seu olhar, imagina que deve isso ao homem: olhá-lo nos olhos.

— Você comeu na casa da minha avó — diz Darnell. — Você sentou e comeu na casa da minha avó.

— Sempre fui um infiltrado — conta Cirello. — Eu não traí você.

— Você é só mais um homem branco.

Cirello senta do outro lado da mesa, de frente para ele.

— Você pode se ajudar. Pode reduzir dez, quinze anos da sua pena. Talvez não possa ser pai para seu filho, mas ser avô do filho dele.

Darnell não responde.

— Uma vez, você me disse que esses babacas brancos ricos o tirariam da cadeia — lembra Cirello. — Onde estão eles? Você está vendo seus advogados caros por aqui? Quem é que está aqui? Eu.

— Não vai querer que eu confie em você agora.

— Quem mais você tem? — pergunta Cirello.

Ele deixa o silêncio pairar por um minuto.

— Vão lhe fazer perguntas — diz Cirello. — A resposta que você der será a diferença entre você sair novamente da prisão, ou morrer nela. Então, quando lhe perguntarem “Quem mandou você botar um segurança naquelas reuniões, no hotel?”, você vai querer mandar todo mundo se foder. Mas essa seria a resposta errada. A resposta certa é “Eddie Ruiz”.

— A gente estava junto em V-Ville — diz Darnell. — Ele salvou minha vida.

— Ele precisava de um cara negro pra vender droga na quebrada — diz Cirello. — Lerner e Claiborne e aqueles outros babacas precisavam de um cara negro pra vender bagulho e pagar pelo prédio bonito, onde eles nunca o deixariam entrar, a não ser pra lavar as privadas. Você acha que Lerner vai convidar você pra ir à Casa Branca? Ou lhe arranjar um perdão presidencial? Sabe o que você é pra essa gente? Só mais um preto.

— Some da minha frente.

— Não me arrependo pelo que fiz com você — diz Cirello. — Você

envenena as pessoas, mata as pessoas. Cadeia é o que você merece. Tampouco lamento pela sua avó, ela sabe de onde vêm as compras do mercadinho.

— Onde está Libby? — pergunta Darnell. — Onde ela estiver, eu posso

mandar encontrar.

— Agora sim, esse é o verdadeiro Darius Darnell. Olha ele aí. Obrigado

por fazer eu me sentir melhor. — Cirello se aproxima. — Agora, ouça bem, seu filho da puta. Eu não sou a porra do Mikey. Sou um policial da cidade de Nova York, escudo de ouro. Se eu ouvir falar que um de seus bandidos sequer disse oi pra Libby, vou no buraco em que você estiver jogado, e vou matar você na porrada. Sacou, mano?

Darnell fica olhando para ele.

— Eu vim aqui porque achei que lhe devia isso, olhar nos seus olhos —

diz Cirello. — Mas não lhe devo nada. Faça o que quiser. Tomara que você aja com inteligência. Faça a coisa certa. Mas se quiser ser só mais um preto, é problema seu. Já terminei com você.

Ele sai pela porta.

Ele terminou com Darnell.

O trabalho de infiltrado acabou.

Eddie está na cadeia federal de San Diego.

Antiga residência de Adán Barrera.

Eddie não vê isso como promoção, vê isso como o possível fim de sua

vida, como ele a conhece. Ele sabe que, se ainda quer vestir algo que não seja um macacão, ele tem que ser muito esperto, precisa andar por entre os pingos de chuva.

Sabe que não pode jogar o jogo deles; se fizer isso, ele perde, pois, pelos

padrões estritamente legais, ele está fodido. Quarenta quilos de H, no cenário atual? De volta para Florence, desta vez para sempre.

Então, ele não pode deixar que isso vá a julgamento, não pode chegar

nem perto do tribunal.

Um acordo precisa ser fechado, muito antes disso. E o acordo é claro: ou ele faz negócio com Keller, ou com Lerner. Qualquer um dos dois tem que lhe arranjar o passe-para-fora-da-cadeia, e se qualquer um deles acha que Eddie vai cair sozinho, é bom tirarem o cavalinho da chuva.

Enquanto isso, tudo o que Eddie diz são as quatro palavras mágicas:

Eu quero meu advogado.

Keller recebe uma ligação de Ben Tompkins.

— Eu represento Eddie Ruiz — anuncia Tompkins. — O sr. Ruiz sugere, e eu concordo, que eu tenha uma conversa com seu advogado.

— Não tenho advogado.

— Vai precisar do melhor que houver — diz Tompkins. — Eu não posso defendê-lo, por conflito de interesse, mas posso fazer uma recomendação.

— Não, obrigado — recusa Keller. — E você pode dizer o que tiver a dizer diretamente para mim.

— Isso é imprudente.

— Ande logo com isso.

— Está bem — diz Tompkins. — O sr. Ruiz diz que pode falar com o governo sobre Jason Lerner ou pode falar com o governo sobre você.

— Se Eddie está promovendo um leilão — diz Keller —, eu não vou dar lance.

— É uma pena, porque Eddie preferiria que você desse o lance mais alto — comenta Tompkins. — Não posso imaginar o motivo, eu mesmo não entendo, mas ele parece gostar de você.

— Diga a ele que suas afeições estão equivocadas — fala Keller. — Eu o vejo como um traficante de merda, um informante vagabundo, que eu tive há muito tempo. Diga a ele que, para mim, ele é uma puta.

— Ao menos, deixe-me lhe contar qual informação Eddie pode…

— Eu sei o que Eddie sabe sobre mim — interrompe Keller. — E não me importo.

— Deveria.

— Provavelmente — diz Keller. — Se quer ajudar seu cliente, a ligação que você deve fazer é para o procurador-geral de Nova York. Quer que eu transfira a ligação?

— Ainda não.

— Então, não temos nada a falar — diz Keller.

— O sr. Ruiz tem muito a falar.

— Então, vá falar com ele.

Keller desliga.

Eddie está sentado com Ben Tompkins.

— Darnell traiu você — diz Tompkins. — Ele vai testemunhar sobre o

tráfico com você e sobre as reuniões de empréstimos da Berkeley.

— Você falou com Keller? — pergunta Eddie. — Ele basicamente mandou você ir se foder — diz Tompkins. — Ele está blefando.

— Acho que não — diz Tompkins. — Eu venho lidando com esse cara

há vinte anos e nunca o vi blefar.

— Eu posso colocá-lo atrás das grades.

— Ele não parece se importar.

— Que filho da puta doido — diz Eddie.

Ele está mesmo indignado. Por que Keller está agindo assim? Poderia

ser tudo fácil, mas ele tem que dificultar.

Mas tudo bem.

— Ligue para Lerner — diz Eddie.

Como nos velhos tempos.

Eles se encontram no andar de cima do Martin’s. — Ruiz está ameaçando botar a boca no trombone sobre a Guatemala —

diz O’Brien.

— Não me importo.

— Eu me importo — diz O’Brien. — Ele vai me estourar junto com

você.

Keller diz:

— Ruiz não sabe nada sobre seu envolvimento. Eu não quero derrubar

você, Ben.

— Não, só o presidente dos EUA — diz O’Brien. — Se ele for culpado.

— Se você fizer isso — diz O’Brien —, vai ultrapassar um limite… — Eu que vou ultrapassar um limite?! — Eu lhe pedi que não fizesse isso — lembra O’Brien. — Agora eu

estou lhe dizendo para deixar isso de lado. Entregue as gravações a Howard, largue isso, pegue Mari e vá viver sua vida.

— Está falando por você? — pergunta Keller. — Ou por Dennison?

— Isso vem do mais alto nível.

— E pensar que nós criticamos o México — comenta Keller.

— Uma vez na vida, tome uma decisão inteligente — diz O’Brien. — Tome uma decisão pelas pessoas que você ama. Ou…

— Ou o quê, Ben?

— Você vai me obrigar a dizer? — pergunta O’Brien.

O senador levanta e vai embora.

Arthur Jackson risca o último quadrado em seu calendário.

Marcando o último dia de Barack Obama no governo.

E sua última esperança.

Agora ele sabe que vai cumprir suas três penas de prisão perpétua aqui em Victorville. Vai passar o resto da vida aqui, morrer aqui, ser enterrado aqui. Cumprir as outras duas penas no túmulo.

Jackson desaba e chora.

Cai em prantos.

Pela primeira vez, sabe o verdadeiro significado de desespero.

A perda total ou ausência de esperança.

Ele tenta rezar, se volta para sua bíblia — Então, eu estou pronto para desistir; estou em desespero profundo. Eu me lembro dos dias que se passaram; penso em tudo que fizestes, lembro de todas as suas dádivas. Ergo minhas mãos em prece; como o solo seco, minha alma está sedenta por ti.

Jackson sabe que desistir da esperança é pecado, mas ele é um pecador e agora não consegue deixar de acreditar que Deus o abandonou neste lugar, que Jesus vai deixá-lo nesse inferno.

É um guarda que lhe traz a notícia.

— Arthur, uma ligação pra você.

E o acompanha até a ala onde estão os telefones.

É sua advogada voluntária, uma moça.

Arthur se prepara.

— Aqui é Arthur Jackson.

— Arthur! Foi concedido!

— O quê?

— Sua clemência! — grita ela. — Obama perdoou dezessete infratores, em seu último dia! Você está na lista!

Jackson solta o telefone e cai de joelhos.

E cai em prantos de novo.

E declama um salmo:

— Esperei com paciência no Senhor, e Ele se inclinou para mim e ouviu

o meu clamor. Tirou-me dum lago horrível, dum charco de lodo, pôs meus pés sobre uma rocha, firmou meus passos.

Deus seja louvado.

— Você não tem — diz Goodwin.

— Não tenho o quê? — pergunta Keller. — Darnell lhe disse que Eddie

Ruiz montou a segurança para as reuniões da Terra com o HBMX.

— E Ruiz não está falando nada.

— Ainda — diz Keller. — Ele pode lhe entregar Rafael Caro, e Caro é

associado conhecido de Echeverría.

— E ainda não há nada que ligue Lerner a esse conhecimento. — Você ouviu a gravação!

— E eu não tenho corroboração!

— Hidalgo pode testemunhar que ele grampeou Claiborne. — E nós não podemos provar que Claiborne estava falando com Lerner

— diz Goodwin. — Keller, eu lamento. Mas você tirou quarenta quilos de fogo da rua. Grandes traficantes. A maior apreensão da história. Saia com isso e fique feliz.

— Então, você vai instaurar o processo contra Darnell — deduz Keller.

— E contra Cozzo e Andrea, mas não vai processar o pessoal do dinheiro. Os suspeitos habituais vão pra cadeia e os ricos se safam.

— Não posso apresentar um caso que acho que não vou ganhar. — Bem, aí está.

Keller põe Hidalgo sentado em seu escritório.

— Nós não vamos pegar Lerner — diz Keller. — Vamos pegar Darnell,

Ruiz e os caras da máfia, mas não vamos pegar Lerner.

— É uma pena.

— Também não vamos pegar Caro.

— Por que não? — pergunta Hidalgo.

— O México não vai instaurar o processo.

— Porque os promotores estão na lista de suborno de Caro — entende

Hidalgo.

— Em parte — diz Keller. — A outra parte é que o governo acha que precisa dele para restabelecer a paz.

Porque o cartel Sinaloa está praticamente morto, e o novo rei é Tito Ascensión.

E Tito é um bandido brutal.

O governo mexicano está torcendo para que Rafael Caro seja uma influência limitadora.

Hidalgo ouve e assimila.

— Você me prometeu que nós iríamos atrás dele.

— Nós fomos — diz Keller. — Só não o pegamos. Eu lamento.

— Isso não basta.

— Vai ter que bastar, Hugo.

— Eu não aceito isso — insiste Hidalgo. — Nós podemos continuar atrás dele.

— Eu saio daqui amanhã — diz Keller. — O pessoal novo não vai dar prosseguimento, e nós dois sabemos o motivo. Mas seja paciente, jogue o jogo em longo prazo. O governo pode cair. Ou mudar, em quatro anos.

— Nada muda. — Hidalgo levanta. — Você mentiu pra mim.

— Não tive a intenção.

— Teve, sim.

— Pra onde você vai? — pergunta Keller.

— Eu me demito.

Keller fica olhando, enquanto ele vai embora.

Ele não pode culpar Hildago, pois sabe exatamente como ele se sente. Lembra-se de quando disseram a ele próprio que não poderia ir atrás de Adán Barrera.

Chega o dia da posse, frio e nublado.

Keller não participa da cerimônia, ele passa a manhã arrumando o restante de seus poucos pertences no escritório. O novo presidente já anunciou que uma das primeiras coisas que vai fazer, após seu juramento, é demitir Art Keller e colocar Denton Howard em seu lugar.

Ele vai indicar Jason Lerner como consultor sênior da Casa Branca.

Keller está arrasado.

Arrasado porque seu país acabou de ser hipotecado a um cartel de drogas.

E as drogas continuam chegando.

Arrasado porque seus melhores esforços foram em vão, a heroína

continua matando americanos em números cada vez maiores; arrasado não apenas por ter fracassado em conter a epidemia, mas porque o sistema que fornece as drogas agora tem vínculos não somente em Guadalajara, mas em Nova York e, a partir desta manhã, em Washington, DC.

Ele dá uma olhada para o discurso, na televisão: Juntos, nós faremos a América voltar a ser forte. Faremos a América

voltar a ser rica. Nós faremos a América voltar a se orgulhar. Faremos a América segura novamente. E, sim, juntos nós vamos fazer a América voltar a ser grande.

Do outro lado do país, os portões se abrem.

Arthur Jackson sai no ar fresco da tarde.

Art Keller sai de seu escritório.

Acabou, pensa ele.

Eles o derrotaram, você perdeu.

Esqueça isso, é hora de sumir. Pegue Mari e viva o resto de sua vida em

paz.

Sua guerra acabou.

Ele caminha até o cemitério de Arlington.

Olha as fileiras e fileiras de lápides.

As cruzes.

As estrelas de Davi.

As crescentes.

Não, pensa Keller, eles não morreram para isso. Para isso, não.

É uma longa caminhada, em um dia frio, mas Keller vai a pé até o

Washington Post.