A fronteira
LIVRO 3: Los Retornados
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
LIVRO 3
Los Retornados
“Devo eu, que destruí meus defensores, voltar para casa?”
— Alexandre, o Grande
1
As festividades
“O Natal passou, e negócio é negócio”.
— Franklin Pierce Adams
Washington, DC
Dezembro de 2014
O que não sai da cabeça de Keller é que o Massacre de Tristeza não teria acontecido se Adán Barrera ainda estivesse vivo.
Não que Barrera fosse se abster de matar aqueles garotos graças a algum escrúpulo moral, mas é que ele era inteligente demais para desencadear um bombardeio público dessa natureza. E Sinaloa era dominante, portanto, o que Barrera dissesse seria lei.
Agora não há lei.
Você matou o lobo, pensa Keller, e agora os coiotes estão soltos.
Em novembro, uma equipe de legistas de uma universidade alemã foi até o lixão e identificou os ossos de um corpo carbonizado como um dos estudantes desaparecidos. Portanto, a verdade do Massacre de Tristeza, como agora está sendo chamado, está vindo à luz: 43 garotos foram levados a um lixão, assassinados, e seus corpos foram queimados, em cima de um monte de lixo. Sem dúvida, alguns deles ainda estavam vivos, quando a gasolina foi despejada e os fósforos jogados sobre eles.
Keller caminha pela lama de inverno e adentra a Second Story Books, na rua P, à procura de uma edição com as pinturas de Leonora Carrington, a favorita de Marisol. É um livro difícil de encontrar; ele poderia comprar pela Amazon, mas prefere procurar no comércio local e, às vezes, a Second Story tem livros que outras lojas não têm.
A história de Ariela Palomas é que ela estava tentando impedir estudantes radicais de saírem ao controle, mas isso é obviamente mentira. Os alunos daquela faculdade vêm fazendo protestos há anos e ela nunca se importou. Tampouco foi convincente a história de que ela não queria se sentir constrangida, em sua conferência importante — o local do evento era distante da rodoviária e nenhum dos participantes sequer sabia a respeito dos protestos que, por sinal, estavam sendo realizados a 130 quilômetros, na Cidade do México.
Não, Palomas está acobertando algo ou alguém tão poderoso, a ponto de
aceitar passar o resto da vida na cadeia.
E até agora, o governo mexicano está disposto a comprar sua história. O povo mexicano, não. O povo, a mídia, as famílias, estão todos
gritando que é um “embuste”, e Keller não pode culpá-los.
Uma das pessoas que não aceitaria isso, claro, é Marisol. Em novembro, ela insistiu em ir para a Cidade do México para uma
manifestação.
Eles discutiram por isso.
— Não é seguro, Mari — disse Keller.
— Da última vez que houve uma passeata na capital — respondeu Mari
—, você marchou junto comigo. Talvez você não se lembre.
Keller lembrava.
Foi no começo do relacionamento deles, e as manifestações em massa
irromperam por conta do que os mexicanos viam como uma eleição presidencial arranjada. Keller havia marchado com ela, dormido com ela embrulhado em um saco de dormir, na praça El Zócalo. Ele também tinha marchado com ela em Juárez — talvez ela não se lembrasse disso, mas…
— Eu me lembro, mas isso foi antes…
— De eu ficar aleijada?
— Eu não disse que você é aleijada.
— Então, não me trate como uma.
— Mas seja realista — insistiu Keller. — Sua mobilidade é limitada.
Pode haver violência nesse negócio e…
— Eu saio do caminho manquejando — disse ela. — Mas se estiver
preocupado, você pode vir comigo.
— Você sabe que não posso fazer isso.
As manchetes seriam brutais, a reação diplomática, pior ainda.
Gostando ou não, ele precisa trabalhar com o governo atual, na Cidade do México.
— Seu velho eu iria — disse Marisol.
— Isso não é justo.
— O que não é justo — respondeu ela, começando a se irritar — é que
43 estudantes estão desaparecidos, provavelmente mortos, seis outros foram mortos, e o governo não dá a mínima.
— Eu não sou o inimigo, Mari.
Ela abrandou.
— Não, claro que você não é. E você está certo, eu não estou sendo justa. Desculpe. A minha ida vai lhe causar problemas?
— É provável que sim. — Marisol é uma celebridade no México, as câmeras vão encontrá-la, a mídia americana, principalmente o pessoal forte de direita, vai registrar. — Mas é a sua segurança que me preocupa.
— Eu tenho que estar lá.
Apesar das objeções dele, ela foi.
Milhares de pessoas — famílias de estudantes desaparecidos, ativistas sociais, cidadãos preocupados — marcharam até o prédio do capitólio e, em grande parte, foi pacífico. Então, várias centenas de pessoas se separaram da manifestação principal e marcharam até o Palácio Nacional.
Mari estava com eles.
Assim como Ana Villanueva.
É claro, Keller pensou, quando Marisol ligou para dizer que ele não precisava se preocupar, porque ela tinha uma acompanhante, que a jornalista viera de Valverde para acompanhar o protesto. Diante do Palácio Nacional, alguns dos manifestantes mais radicais puseram máscaras e jogaram garrafas e rojões nos portões. A polícia os fez recuar com canhões de água, e Mari e Ana foram varridas. Assistindo pela televisão, Keller ficou ao mesmo tempo furioso e apavorado. Ao telefone, ele perguntou a Marisol:
— Você está bem?
— Meio molhada, mas, fora isso, bem.
— Não tem graça — disse Keller.
— Era só água, Arturo.
— Você poderia ficar seriamente ferida.
— Mas não fiquei.
Ele suspirou.
— Ficarei feliz quando você estiver em casa.
— Na verdade, eu vou para Tristeza.
— O quê?
— Você não me ouviu — perguntou Marisol —, ou não entendeu?
— Não entendi, porque isso é incompreensível — respondeu Keller. — O que você acha que vai conseguir lá?
— Encontrar os corpos.
Keller simplesmente explodiu. Mas que diabo, como é que ela achava
que um grupo de manifestantes sem treinamento faria o que o governo não conseguiu, a polícia não conseguiu, equipes de peritos internacionais não conseguiram, seu próprio pessoal não conseguiu? E o que ela achava, que um aluno tinha sido levado ao lixão e morto e os outros estavam… onde? Em uma prisão secreta, em algum lugar? No porão do Palácio Nacional? Em marte? Os restos dos estudantes, ele disse a ela, estão no lixão e no rio, viraram cinza e nunca serão encontrados.
— Terminou? — ela perguntou, quando ele tomou fôlego. — Por hora.
— Nós vamos para Tristeza — disse ela — para manter o
desaparecimento dos alunos na consciência do público e forçar o governo a conduzir uma investigação de verdade. E…
— Deus. O quê?
Marisol continuou:
— Há informações de que o exército está detendo os estudantes em uma
base fora da cidade.
— Você não pode acreditar nisso.
— Você pode me dizer que não é verdade?
— A lógica e a racionalidade podem lhe dizer que não é verdade —
falou Keller. — Você está apenas mexendo a panela.
— Ela precisa ser mexida — afirmou ela. — O que você está dizendo?
“Deixe que os profissionais cuidem disso?”
— Está bem, sim.
— Mas eles não estão cuidando.
— Nós estamos fazendo tudo que podemos — disse Keller. — Eu quis dizer aqui no México — explicou Marisol. — Por que nós
estamos brigando, Arturo? Achei que estivéssemos do mesmo lado.
— Nós estamos — disse Keller. — Só não quero que você vá para
Tristeza. A Cidade do México é uma coisa. Guerrero é uma zona de guerra.
— Ana vai comigo.
Ela estava com você, quando você foi atingida e despedaçada, na
periferia de Valverde, pensou Keller. Ela será tão inútil para protegê-la agora quanto foi antes.
— Eu vou pedir a Orduña para ir buscar vocês duas e colocar num avião.
— Acho que nem o Departamento de Narcóticos tem permissão para sequestrar pessoas — disse Mari. — E se você vai de repente se tornar algum tipo de paternalista…
— Pare com isso.
—… superprotetor…
— Você está brincando comigo, agora?
— Você não pode me dizer o que fazer ou não — disse ela.
Marisol foi a Tristeza, olhou diretamente para a câmera de uma emissora de televisão e disse:
— Nós estamos fazendo o trabalho que as autoridades se recusaram a fazer.
E saiu para procurar covas coletivas.
Agora, já ia além do Massacre de Tristeza. Ana, mais uma vez escrevendo para a coluna nacional do jornal de Juárez, El Periódico, relatou que talvez houvesse até quinhentos corpos enterrados na área, ao longo do último ano e meio.
Keller viu a declaração de Marisol no website Breitbart, cuja manchete dizia “ESPOSA DO CHEFE DA NARCÓTICOS LIDERA PROTESTO DE ESQUERDA”. Eles não apenas veicularam o clipe da declaração de Mari, em Tristeza, mas também uma foto sua, carregando um cartaz em que se lia YA ME CANSÉ (“Para mim, basta”) e um vídeo dela sendo derrubada pelo jato d’água, na frente do Palácio Nacional, com uma legenda dizendo MARI COMUNISTA ESTÁ TODA MOLHADA.
Uma foto separada de Keller fazia parecer que ele estava olhando a esposa e sorrindo.
O New York Times, o Washington Post e a CNN foram mais contidos, mas também publicaram matérias sobre a esposa do diretor da Narcóticos acompanhando os protestos. O Guardian praticamente a beatificou. A Fox News exibiu uma matéria dos manifestantes encapuzados jogando garrafas e rojões, enquanto Sean Hannity perguntava se Art Keller apoiava as atividades radicais da esposa.
Keller foi forçado a dar uma declaração. “Embora esse seja um assunto interno mexicano, o Departamento de Narcóticos está dando sua completa colaboração ao governo mexicano para descobrir a verdade sobre o que ocorreu em Tristeza. Nossos sentimentos e preces estão com os estudantes desaparecidos, seus familiares e entes queridos.”
Relutante, Keller for ao ar na CNN e assistiu, enquanto Brooke Baldwin
mostrava o vídeo dos protestos. À sobrancelha erguida dela, ele respondeu:
— Minha esposa obviamente toma suas próprias decisões. — Mas você apoia o que ela está fazendo.
— Meu apoio é a ela — disse Keller. — Marisol é uma cidadã mexicana
com todo direito de protestar.
— Violentamente?
— Acho que se olharmos a filmagem inteira — disse Keller —,
veremos que ela não estava participando da violência.
— Mas ela estava lá.
— Ela com certeza estava lá.
John Dennison apressou-se em comentar, postando no Twitter: “Mari
Comunista” constrange o marido. Triste.
Keller recebeu uma ligação de O’Brien.
— Você não consegue controlar sua esposa?
— Eu vou lhe fazer um favor, Ben — respondeu Keller — e nem direi a
ela que você falou isso. Mas, só pra constar, eu não tenho interesse em controlar a minha esposa. Ela é uma mulher, não é um Weimaraner.
— Ei, eu estou do seu lado, lembra? — disse O’Brien. Se você resolver concorrer à presidência, pensou Keller, vai me
dispensar como um namorado ruim.
— Então, você vai fazer o anúncio, Ben?
— Neste momento, estou focado apenas em servir às pessoas do meu
estado — disse O’Brien. — Mas, olha, se a bela doutora puder se abster, sei lá, de ingressar no Estado Islâmico…
— Tenha um bom dia, Ben.
Quando Mari voltou pra casa, ela disse:
— Vi você na CNN. Obrigada.
— Nós não vamos nos tornar um daqueles casais poderosos de
Washington que se comunicam pela TV a cabo, vamos? — perguntou Keller.
— Não.
— O que você descobriu em Tristeza?
— O que você achou que eu descobriria — disse Marisol. — Nada. Não fique exultante.
— Não há com que ficar.
Isso é até sutileza. Foram 49 pessoas mortas — 43 delas “desaparecidas”, 6 mortas no local — dentre as quais, provavelmente, Chuy Barajos. Keller não está exultante.
Marisol tem mais notícias ruins.
— Ana vai assumir a investigação. Ela está convencida de que o governo federal está encobrindo algo, e vai escrever uma matéria. Ela tem Óscar para respaldá-la.
— Óscar não deveria ser bobo.
— Ele jamais poderia dizer não a ela — falou Marisol. — Eu estou preocupada, Arturo. Você pode fazer algo para ajudá-la?
— Posso ligar para o Roberto — disse Keller — e pedir que ele fique de olho.
Não vai adiantar muito, pensa Keller. As forças especiais dos mariners têm mais o que fazer do que ficar de babá de uma jornalista, principalmente alguém tão independente e teimosa quanto Ana. Mas ele vai fazer a ligação.
Então, Ana ligou para ele.
— O que você pode me dizer sobre os Palomas?
— Ana…
— Ora, vamos — disse Ana —, você sabe que essa história é mamadas. Minhas fontes me dizem que a família Palomas é enturmada com Sinaloa.
As fontes dela estão certas, pensou Keller. Os Palomas são envolvidos com Sinaloa através da facção dos Tapia, há gerações. Quando os Tapia entraram em guerra com os Barrera, os Palomas se mantiveram leais, mas quando eles perderam a guerra, eles se curvaram a Adán, que deu absolvição e lhes concedeu licença para operar em Guerrero.
— Ana, você está em Guerrero? — perguntou Keller.
— Onde mais eu estaria?
— Não sei. Em casa, segura?
— Já passei tempo demais segura, em casa — disse Ana. — Quero sua ajuda nisso, Arturo. Os boatos que correm por aqui é que os Guerreros Unidos estavam envolvidos. Você pode confirmar isso? Em sigilo, claro. Fonte anônima.
— Nós temos fontes que dizem o mesmo.
— Por que o governo mexicano acobertaria os Guerreros Unidos? —
perguntou Ana. — Eles são um grupo sem muita influência.
Você já sabe, pensou ele.
Na manhã seguinte ao massacre, Keller havia instruído seu
Departamento de Inteligência a lhe passar um resumo completo sobre Guerrero. O que ele descobriu foi que o cartel Sinaloa estava investindo pesadamente em Guerrero como nova fonte de ópio, e que Los Guerreros Unidos e Los Rojos — ambos fragmentos do jarro partido de Tapia — estavam competindo para suprir o cartel. Onde quer que Sinaloa estivesse envolvido, elementos do governo estariam presentes tentando acobertar as coisas.
— As pessoas aqui estão falando que a polícia de Tristeza entregou os
estudantes aos narcos — disse Ana. — Você pode confirmar isso?
— Posso confirmar que estão dizendo isso.
Ele sabia que era verdade. Blair tinha obtido transcrições dos
interrogatórios aos policiais de Tristeza, e vários deles haviam admitido que entregaram os garotos ao pessoal ligado aos Guerreros Unidos.
Porque Palomas lhes dissera para fazê-lo.
Mas quem deu a ordem a ela? É o que Keller se pergunta agora. Uma
prefeita de cidadezinha não ordena, sozinha, o assassinato de 49 garotos.
Chefes de cartel é que fazem isso.
Mas qual?
Quem?
Ninguém nem sabe quem manda nos GU agora. Talvez os irmãos Rentería, talvez não.
Ou será que eles subiram de patamar?
Para Sinaloa.
Ricardo Núñez está no controle do cartel Sinaloa, ao menos
nominalmente. Ele parece estar preparando o filho, afilhado de Adán, para assumir. Mini-Ric tem fama de ser um playboy inútil, um clássico “hijo”, mas, ultimamente, tem havido indicações de que ele está começando a se envolver no negócio, de forma séria.
Núñez Sênior não é conhecido como um homem violento ou áspero em
especial. Ele é até mais conservador do que foi. Para ele, ordenar ou até sancionar um massacre como esse seria algo incomum. Talvez seu filho seja mais sedento de sangue, mas ele não teria poder para ordenar isso.
Duas outras facções de Sinaloa estão tirando heroína de Guerrero.
Segundo relatos, Elena Sánchez está em luto profundo, contudo, travando uma guerra sangrenta contra Iván Esparza, usando os traficantes de rua como fantoches. Seu único filho sobrevivente, Luis, é o cabeça titular da ala Sánchez, mas ele é engenheiro, não é um matador.
Iván Esparza, por outro lado, é um matador.
Imbecil, esquentado e cruel o suficiente para ordenar ou autorizar algo como o Massacre de Tristeza.
Mas, até agora, não há nenhum elo que leve a ele.
Na verdade, nenhum elo que leve a nenhum deles.
Talvez, pensa Keller, não tenha tido nada a ver com Sinaloa.
Os relatórios da inteligência também indicam que o cartel Novo Jalisco está avançando rumo a Guerrero.
Tito Ascención cresceu pobre, nas plantações de avocado de Michoacán. Ele cumpriu uma pena dura, no violento caldeirão de San Quentin. Já matou inocentes antes — 35, em uma ocasião, em Veracruz, quando os confundiu com zetas. Ele nem piscaria para matar aqueles estudantes, se eles o atrapalhassem.
Mas, como?
Como alguns universitários farreando poderiam atrapalhar?
E por que o governo iria querer encobrir?
Isso era o que Keller e Ana tentavam desvendar.
Então, Ana lhe fez uma pergunta muito interessante.
— Os GU são do pessoal antigo dos Tapia. Será que algum deles ainda sentiria algum resquício de lealdade a Damien Tapia?
Isso seria estranho, pensou Keller.
O que Ana teria ouvido, do que ela sabia?
— Por que você está perguntando isso?
— Só estou jogando conversa fora, Arturo.
Até parece, pensou Keller. Ana é uma jornalista veterana que um dia foi temida por todos, desde os narcos até os oficiais de gabinetes, até mesmo presidentes. Ela nunca desperdiçava algo valioso como uma pergunta.
— O que a faz pensar que Damien Tapia teve algo a ver com isso?
— Eu não acho isso, necessariamente — disse Ana. — É apenas que Damien foi visto lá em Tristeza.
— Por quem?
— Quando você começar a me contar as suas fontes — disse Ana —, eu vou lhe contar as minhas.
— Não vai, não.
— Não vou, não. — Ana riu. — Mas o que você sabe sobre Damien? É provável que você saiba o mesmo que eu, Keller disse a ela. O filho
de Diego guarda um ressentimento contra Sinaloa pela morte do pai e a ruína da família. Ele jurou vingança, mas até agora não fez nada além de postar alguns vídeos no YouTube e escrever algumas canções ruins.
Sinaloa provavelmente já o teria matado, exceto pelo fato de que ele foi
um bom amigo de infância dos irmãos Esparza e de Ric Núñez. Ele também foi próximo de Rubén, filho de Tito. Mais jovem de Los Hijos, ele era como um mascote, portanto, foi tolerado. E, se fossem honestos, os poderes em Sinaloa admitiriam se sentir culpados pelo que fizeram com os Tapias.
— Ana, tome cuidado — disse Keller, depois desligou. Então, ele providenciou que Eddie Ruiz fosse tirado de sua cela e levado
até um telefone especial.
— O que você sabe sobre Tristeza? — perguntou Keller. — Nada — respondeu Ruiz.
— Estão dizendo que os Guerreros Unidos estavam envolvidos. — E daí?
— Eles são seus antigos meninos — falou Keller. — E Damien Tapia
era seu amigo.
— “Amigo”, não sei disso não — disse Eddie. — Eu meio que ficava de
babá dele, quando o velho dele estava cheirado demais pra isso.
— Você tem tido contato com ele, ultimamente? — Ãrrã, Keller — disse Eddie. — Ele vem toda quinta e nós jogamos
Pokémon. O que você acha?
— O que pode me contar sobre Tristeza? — perguntou Keller. — Mesmo que eu soubesse de algo, o que não sei — disse Ruiz —, você
acha que eu lhe daria informação, me comprometendo? Estou perto da porta, Keller. Não vou fazer nada pra ferrar isso.
— Talvez uma pequena terapia de ônibus possa reavivar sua memória
— disse Keller.
Eddie estava à vontade em Victorville, seguro. Sua família estava
próxima, onde eles podiam visitá-lo. Ser transferido a uma nova instituição seria uma grande dificuldade, talvez até um perigo. Ele teria que conquistar a confiança de um outro mandachuva da Eme, formar novas alianças. Até que Keller mandasse transferi-lo de novo e de novo…
— Mas que porra, Keller — diz Eddie. — Você só vem de chicote, nada de docinho? O que é isso?
— O que você quer?
— Olhe, cara — falou Eddie. — Já faz três anos que eu me entreguei. Dois anos, desde que fizemos aquele pequeno passeio ao sul…
— Você não pode ficar usando essa carta.
— Meu conhecimento tem um preço — disse Eddie. — Talvez, alguns meses reduzidos, no fim?
— Isso cabe aos promotores federais e a um juiz.
— Como se nenhum deles lhe devesse favores — disse Eddie.
Ele está certo, pensa Keller. Bastaria um telefonema, no máximo dois, para antecipar a libertação de Ruiz.
— O que eu ganho por isso?
— Procure os irmãos Rentería — disse Eddie.
— Os Rentería têm influência mediana — afirmou Keller. — Quem deu a ordem?
— Eu lhe falei o que posso — disse Eddie.
Então, seja quem for, é alguém tão poderoso que nem Eddie deduraria. Mas Ruiz sabe que pode jogar os Rentería embaixo do ônibus.
— Se essa informação bater, eu vou lhe arranjar uma AS.
Antecipação de Saída.
— Vai bater — garantiu Eddie.
— Se não — continua Keller — eu vou mandar você pra tudo quanto é presídio por aí.
— Você nunca se cansa de ser um nojento? — perguntou Ruiz.
— Não.
— Foi o que eu pensei.
Keller ligou para Orduña e as Fuerzas Especiales começaram a virar o inferno do avesso em busca dos Rentería. Eles invadiram casas, galpões, reviraram o interior procurando por fazendas de ópio, se tornaram um grande transtorno no comércio de heroína em Guerrero.
Mas não encontraram os irmãos.
Keller ponderava sobre o possível relacionamento entre os Guerreros Unidos e Damien Tapia. De que tipo era, e quem detinha o poder para ordenar os assassinatos de Tristeza? Ele ordenou que sua agência pusesse pressão máxima em todas as fontes, réus e prisioneiros federais para produzir inteligência sobre Tristeza. Acordos foram oferecidos, ameaças foram feitas, prisões, buscas e apreensões, com pressão no limite da legalidade. Todos os informantes criminais foram interrogados sobre Tristeza e pressionados a obter informação.
O pessoal de todos os escritórios de campo rapidamente recebeu o
recado: o chefe está em uma cruzada. Pegue o estandarte e marche com ele, ou espere sua carreira empacar como um carro de quatrocentos dólares.
Keller recorreu ao Serviço de Imigração e Aduana e ao Patrulhamento
de Fronteiras — se vocês pararem um carro que tenha um grama de maconha, por favor, interroguem sobre Tristeza. Ele usou sua influência nos departamentos de polícia municipal e estadual, para fazer a mesma solicitação — perguntem a todos sobre Tristeza, e ao se depararem com algo sequer possivelmente “positivo”, informem de imediato.
Mas, até agora, nenhum resultado.
Keller encontra o livro que está procurando: Leonora Carrington: Paintings, Drawings and Sculpture, 1940-1949. Marisol vai ficar contente. Ele vai até o caixa, paga, depois sai de volta à rua.
Alguém matou aqueles estudantes.
Keller vai descobrir quem foi e vai derrubá-lo. Porque isso está na minha conta.
Você destruiu um monstro, Keller diz a si mesmo. Agora precisa destruir o próximo.
Sempre houve especulação filosófica sobre a pergunta E se não
houvesse Deus?, pensa Keller, enquanto caminha pela neve derretida. Mas ninguém nunca perguntou, muito menos respondeu à questão E se não houvesse Satã?.
A resposta para a primeira pergunta é que haveria caos no céu e na terra.
Mas a resposta à segunda é que haveria caos no inferno — todos os demônios inferiores estariam à solta, em um esforço amoral para se tornar o novo Príncipe das Trevas.
A luta pelo céu é uma coisa.
A luta pelo inferno…
Se Deus está morto, e Satã também, bem…
Feliz Natal.
Hugo Hidalgo tem um presente para Keller.
Ele entra no escritório com um sorriso de gato que pegou o rato, e diz:
— Claiborne talvez finalmente comece a pagar o aluguel. Você já ouviu falar no Park Tower?
— Parece nome de programa da PBS.
Hidalgo explica que Park Tower é um arranha-céu de escritórios comerciais, lojas e apartamentos, na parte baixa de Manhattan. Alguma empresa chamada Terra Company o comprou, nos idos de 2007, durante um boom do mercado imobiliário, dando cinquenta milhões de dólares de sinal, de um total de quase dois bilhões.
— Esse sinal é somente 2,5 por cento — diz Keller.
Hidalgo diz:
— O restante foi em empréstimos com juros altos, a vencerem após dezoito meses, com quitação já acrescida dos juros.
O problema, explica Hidalgo, é que o prédio foi uma furada. A Terra não conseguiu encontrar arrendatários para sequer cobrir os juros, que dirá o principal. E o prédio precisa de uma grande reforma, para voltar ao mercado.
Entra a Berkeley, o fundo de cobertura para o qual Claiborne trabalha.
A Berkeley criou um grupo de investidores para refinanciar o Park Tower e quitar o empréstimo. Em troca, eles receberiam vinte por cento do valor em cotas do prédio novo. Claiborne reuniu dezessete financiadores de bancos dos EUA e do exterior — Alemanha, China, Emirados Árabes.
— Então, qual é o problema? — pergunta Keller.
— O Deutsche Bank acabou de sair — diz Hidalgo. — Agora, Claiborne está correndo contra o relógio para levantar o restante, e faltam 285 milhões de dólares. É dureza, porque o crédito da Terra não vale nada. Então, Claiborne está procurando o que ele chama de “emprestador de último recurso”.
— Isso é um eufemismo e tanto — diz Keller.
— Claiborne só me trouxe isso porque eu ameacei cortar a onda dele — conta Hidalgo. — Mas quando tiveram problemas semelhantes, eles recorreram ao HBMX.
Keller reconhece o nome. O HBMX é um banco privado de investimentos que funciona como um grande centro de lavagem de dinheiro para o cartel Sinaloa.
Todas as grandes organizações de tráfico de drogas enfrentam o mesmo problema, que é o contrário do enfrentado pela maioria dos negócios. Cartéis não têm dinheiro faltando, eles têm dinheiro demais. E a maior parte desse dinheiro é em espécie.
Cartéis são negócios de crédito em espécie; eles passam a droga aos
intermediários, que pagam quando repassam a droga ao varejista. Não é incomum que um cartel antecipe milhões de dólares em drogas, na boa-fé, algo que é bem garantido com a vida de seus devedores e respectivas famílias.
Não é muito arriscado para nenhum dos lados, porque é praticamente
certo que as drogas se vendem. A única coisa ruim que pode acontecer é a droga ser apreendida pela lei, antes de ser vendida; nesse caso, o intermediário apresenta uma prova ao cartel, que costuma ser um boletim policial relatando a apreensão feita por um órgão governamental. Então, eles podem elaborar uma extensão da dívida, ou até o perdão, no caso de um cliente habitual.
A quantidade de dinheiro que circula é brutal. Mas esse é o problema: o negócio gera quantias exorbitantes de dinheiro
em espécie que precisa ser lavado — passado através de negócios legítimos, para que possa ser usado e gasto.
Há uma década e pouco, os cartéis lavavam o dinheiro de forma
eletrônica, enviando mundo afora, através de transferências de múltiplos dígitos, até voltar limpo. Porém, a Interpol e outras agências se aprimoraram muito na vigilância eletrônica, portanto, os cartéis passaram a atuar à moda antiga — começaram a mandar o dinheiro fisicamente de volta ao México, onde era depositado em bancos domésticos.
Foi bom enquanto durou, mas os bancos mexicanos não conseguiam
lidar com todo aquele dinheiro e as grandes oportunidades de investimento estavam nos EUA. Dessa forma, eles passaram a transferir o dinheiro dos bancos mexicanos aos americanos. O problema era que os bancos americanos tinham regras discriminatórias bem mais severas: eles não podem aceitar depósitos em espécie acima de dez mil dólares, sem o preenchimento de um RAS — Relatório de Atividade Suspeita — e devem preencher um relatório sobre qualquer depósito vultoso, independentemente do valor, com uma origem que seja, bem, suspeita.
Alguns bancos dos EUA e do Reino Unido foram flagrados fazendo
movimentações financeiras de dinheiro do tráfico sem o preenchimento desses relatórios e foram multados em alguns bilhões, o que parece muito dinheiro, só que fala-se de cerca de 670 bilhões em transferências eletrônicas, e o lucro dos bancos, naquele ano, foi de mais de 22 bilhões.
O jogo compensa.
Mas o dinheiro não pode trazer benefícios, ou gerar retorno do investimento, se ficar parado nos bancos; portanto, uma das melhores coisas que se pode fazer é investir no mercado imobiliário.
Imóveis são caros.
A construção é cara.
A mão de obra é cara.
E todo o dinheiro pode ser lavado por meio de empréstimos, passado no material, pagando mão de obra que não houve… e por aí vai.
Com um projeto como o Park Tower, as possibilidades são infinitas.
E quando uma empresa como a Terra fica sem dinheiro, em um rio de correnteza veloz, como o projeto Park Tower, sem conseguir mais crédito, ela vai aceitar qualquer auxílio que aparecer, para chegar à outra margem.
O dinheiro das drogas é a única corda salva-vidas, e eles vão agarrá-la.
— Eles recorreram ao HBMX? — pergunta Keller.
— Eles não farão isso — diz Hidalgo —, até que tenham esgotado todas as possibilidades.
Ênfase ao termo “emprestador de último recurso”, pensa Keller.
Hidalgo está com uma expressão esquisita no rosto.
— O que foi? — pergunta Keller.
— Sabe quem é o principal sócio da Terra?
— Não.
— Jason Lerner — informa Hidalgo.
— Quem é esse?
— O genro do John Dennison — diz Hidalgo. — Você tem certeza de que quer continuar esse assunto?
Porque é preocupante, pensa Keller.
Dennison vem me atacando, de modo que isso pode ser visto como uma retaliação, ou um ato político, ou ambos. Se Dennison se candidatar a presidente, isso pode abrir uma terrível lata de vermes.
Nós precisamos ser cautelosos.
Imaculados.
— De modo algum — diz Keller — você pode afirmar, ou sequer sugerir a Claiborne que ele aborde o HBMX, ou qualquer outra instituição. Você só pode solicitar que ele forneça informações sobre reuniões que já aconteceriam de qualquer forma.
Keller sabe que é uma distinção muitíssimo tênue, que tende a se
romper, mas eles precisam mantê-la.
— Peça ao pessoal da Inteligência para levantar tudo o que tivermos
sobre a HMBX, a Terra e a Berkeley — diz ele. — Mas na surdina. Misture isso com outras instituições. Acesso estritamente limitado. Você traz isso a mim e somente a mim.
Se Howard farejar isso, ele vai sair correndo direto até Dennison, e vai
tudo por água a baixo, antes de sequer começar.
— E quanto a Mullen? — pergunta Hidalgo.
— Eu o manterei informado — garante Keller. — Nós devemos isso a
ele. E a mais ninguém.
— E quanto ao Distrito Sudeste? — pergunta Hidalgo. — É cedo — diz Keller. Um caso de lavagem de dinheiro envolvendo a
Terra e a Berkeley estaria na jurisdição da Promotoria Geral dos EUA e do Distrito de Nova York, e eles devem ser incluídos, mas ainda não há provas reais, apenas a possibilidade de um crime que pode ou não acontecer.
E eles também podem deixar o caso vazar, o que colocaria em perigo
não apenas a operação, mas o próprio Claiborne, talvez até a garota de programa, pivô da acusação que o tornou um delator.
— Por onde anda a garota de programa? — pergunta Keller. Hidalgo sacode os ombros.
— Vou pedir a Mullen para ir buscá-la e tirá-la da cidade — diz Keller. Ele acha que Claiborne não seria capaz de matar a garota, mas sabe que
os cartéis são.
Marisol está perambulando pela seção Latino-Americana de Política e Prosa, quando ouve:
— Com licença, dra. Cisneros?
Ela vira e vê uma bela mulher de meia-idade, de cabelos louros
acinzentados.
— Sim, sou eu.
— Althea Richardson — diz a mulher. — Antes eu fui Althea Keller. — Ah. Encantada.
Ambas riem do momento constrangedor, quando a ex-esposa de um homem encontra sua esposa atual.
— Eu a reconheci das fotografias das revistas — diz Althea —, mas elas não lhe fazem justiça.
— Você é muito gentil — diz Marisol — e até mais bonita do que Arturo descreveu.
— Tenho certeza de que Art nunca falou nada do tipo — diz Althea, sorrindo. — Ele pode ser sem noção, mas não tão sem noção a ponto de falar uma coisa dessas à esposa.
— Talvez nós ainda não fôssemos casados.
— Ouça, isso é meio constrangedor — diz Althea —, mas você gostaria de tomar um café, ou algo assim?
— Está bem, por que não?
Marisol descobre que gosta muito da ex-esposa de Arturo. Isso na verdade não chega a ser surpresa; ele sempre falou muito bem dela e assumiu toda a culpa pelo divórcio. O que surpreende Marisol é como Althea é engraçada. Engraçada e perspicaz, e brincalhona, e como ela faz piadas de si própria.
As duas logo estão rindo das histórias de Art Keller e descobrindo que têm muito em comum.
Não apenas em relação a Art.
Suas visões políticas são bem próximas, as ideias em relação ao papel das mulheres são parecidas, e depois de apenas alguns minutos, Marisol acha que pode ter encontrado uma verdadeira amiga nessa cidade.
— Os ataques contra você têm sido horrendos — diz Althea.
Marisol dá de ombros.
— A direita é a mesma em todos os países, não? Eles não gostam de mulheres que sejam, como se diz, altivas.
— O que você vai fazer se…
Althea para.
— Se Arturo for demitido?
— Desculpe — pede Althea. — Isso foi muito grosseiro.
— Não, é a realidade — diz Marisol.
— Vocês ficariam em Washington?
— Acho que sim — diz Marisol. — Mas me conte sobre você.
— Não há muito que contar. Eu leciono ciências políticas na American.
Recentemente enviuvei…
— Eu lamento muito.
— Bob e eu tínhamos o perfil do casal acadêmico — diz Althea. — Era
bacana, ficávamos sentados na sala juntos, ouvindo a Rádio Pública Nacional, fazíamos caminhadas com nossos trajes L.L. Bean. Finais de semana com degustações de vinho, férias de verão no Martha’s Vineyard ou na costa de Maryland. Depois ele adoeceu; o último ano não foi tão bom.
— Eu lamento.
— Eu até que estou indo bem — diz Althea. — Só é estranho, sabe,
acordar de manhã e virar e ver aquele lado da cama vazio. E não consigo me acostumar a cozinhar só pra mim. Muitas vezes, nem me dou ao trabalho, compro algo pra viagem. Sou uma péssima cozinheira, mesmo, talvez o Art tenha lhe falado.
— Não.
— O pobrezinho cozinhava para se defender.
— Tenho certeza de que não é verdade.
— É triste — diz Althea. — No Mr. Chen, já me conhecem pelo
primeiro nome. Fora isso, passo meu tempo caçando em livrarias, abordando as esposas de ex-maridos.
— Fico contente que você o tenha feito.
— Eu também.
Naquela noite, quando Keller chega em casa, Marisol diz:
— Adivinhe com quem eu trombei, hoje à tarde? Althea. — Ela acha
divertida a expressão totalmente desconcertada dele. — Ela veio até mim e se apresentou. Nós tomamos café juntas.
— Falaram de mim?
— Mas que ego — diz Marisol. — No começo, é claro. Depois, acredite
ou não, nós encontramos outros assuntos para conversar.
— Aposto que sim — diz Keller.
Marisol fala:
— Dá pra ver por que você a ama.
— Amava.
— Bobagem — diz Marisol. — Não tem como ser casado com alguém
como ela, por tanto tempo, ter filhos juntos e não amá-la. Não estou com ciúme, Arturo. O que foi, eu deveria desgostar de Althea só porque você foi casado com ela? Desculpe se eu não sou um clichê.
— Estereótipo.
— O quê?
— Um clichê — explica Keller — é uma expressão banal. Estereotipo é um…
Ela o petrifica com o olhar.
— É mesmo? Você agora vai corrigir meu inglês?
— Não. Não vou.
— Boa escolha — diz Marisol.
— Bem, se você encontrar de novo com ela…
— Ah, mas eu vou — interrompe Marisol. — E você também, na verdade. Ela vem aqui para o Nochebuena. Ah, Arturo, vamos fazer um Natal mexicano, este ano. Nós tivemos tanta morte. Seria bom pra nós se tivéssemos um pouco de vida.
— Claro, isso, sim, mas…
— O quê?
O rosto dela é o retrato da inocência fingida.
— Althea. Você poderia ter me consultado primeiro.
— Mas você teria dito não.
— Isso mesmo.
— Então, por que eu perguntaria? — questionou Marisol. — Ela ficaria sozinha e isso não é certo. E eu realmente gosto dela, muito, mesmo. Ana também vem. Você ficara em uma ilha de estrogênio.
— Que ótimo.
— O que Hugo vai fazer?
— Não sei.
— Pergunte a ele.
Keller sabe o que ela está fazendo, mesmo que ela não saiba. Ele é um solitário, fica à vontade estando só, mas Mari é uma criatura social; seus dias mais felizes eram entre um círculo de amigos próximos, para quem um poema novo era ocasião suficiente para uma festa. Ele esteve presente em algumas dessas reuniões — a bebida, os debates fervorosos, a cantoria, o riso. Muitos desses amigos já se foram — assassinados na guerra das drogas — e ela está, talvez sem perceber, tentando recriar o calor daquele abraço, dos braços ao redor dela, de seus braços em volta deles. Ele sabe que ela é solitária neste país, então, diz a si mesmo para não ser um babaca e não criar objeções aos planos natalinos dela.
Hugo Hidalgo ri na cara de Keller.
— Eu quero ter certeza de que não entendi errado: você quer que eu vá à
sua casa para jantar com você, sua esposa e sua ex-esposa? Não. Deixe-me dizer de novo. Cruzes, não.
— O que você vai fazer no Natal?
— Não vai ser isso.
— Você é mais inteligente do que parece — diz Keller. — Não força, chefe.
Keller usa seu trunfo:
— Mari adoraria que você fosse.
— Mas que droga.
— Você deveria ter se programado — diz Keller. — O fracasso na
programação é a programação para o fracasso.
Ana chega na noite de Natal.
É impressionante, pensa Keller, como ela se parece cada vez mais com
um passarinho, com seu narizinho bicudo e seu porte frágil, como se tivesse só ossos ocos. Seus cabelos com corte pajem agora estão brancos.
Ana está no degrau da porta, vestindo um sobretudo, segurando a mala
como uma órfã de meia-idade. Keller abre a porta e ela o beija no rosto.
Ela está com cheiro de álcool.
— Seu quarto já está todo arrumado — diz Keller. — Ah, pensei que ia dormir na manjedoura.
— Posso jogar um pouco de palha, se você quiser — diz Marisol. Ela talvez até tenha um pouco, pensa Keller. Mari esteve em um frenesi
com os preparativos, decorando a casa com tradicionais poinsétias vermelhas, montando o nacimiento, uma cena natalina, e comprando comida especial como o peixe especial, o bacalao. Agora ela passa da cozinha para a sala, arrumando os pratos e copos, mexendo a comida, sempre bebericando o vinho e papeando com Ana.
Então, ela e Ana saem para a missa da meia-noite. — Althea vai nos encontrar lá — Marisol diz a Keller. — Tem certeza
de que não quer vir?
— Eu vou passar.
— Nada de trapacear e cair no ponche antes de nós voltarmos — diz ela.
— Pode deixar.
Embora o cheiro esteja ótimo — polpa de fruta, canela e rum em fogo baixo no fogão. Isso, o peru e o presunto no forno. Marisol fez tudo a que tinha direito. Eles vão comer sobras até o Dia da Marmota.
— Você não vai se esquecer de regar o peru, vai? — pergunta ela. — Nós diremos oi ao menino Jesus, por você.
Dois segundos depois que ela sai pela porta, ele dá um tapa no ponche.
O ponche dá um tapinha também, está tão bom quanto o cheiro.
Keller está só sentado, assistindo A felicidade não se compra, quando a campainha toca e é Hidalgo.
— Droga — diz Hidalgo.
— O que foi?
— Esqueci meu colete à prova de balas.
— Não faz mal — diz Keller —, as mulheres só miram a cabeça. Quer um pouco de ponche?
— Eu quero muito ponche — diz Hidalgo. — Jesus, que cheiro bom que está aqui.
— Mari passou a semana fazendo tamales.
— Não passou da sua hora de deitar, chefe?
Keller é conhecido por acordar cedo e igualmente conhecido por ser um dos primeiros a chegar ao escritório, todas as manhãs.
— Pois é.
— Ei, se quiser tirar um cochilo, eu fico de guarda.
Espertinho.
— O que está passando na TV? — pergunta Hidalgo. Ele pega um copo de ponche e senta. — Ah, sim. Eu gosto desse. Então, onde estão as esposas irmãs?
— Na missa. Pode fazer todas as piadas agora, Hugo.
— Temos tanto tempo assim? — pergunta Hidalgo.
— Outra coisa — diz Keller. — Nada de falar de trabalho hoje à noite.
— Pode deixar — diz Hidalgo. — Mas antes do banimento entrar em vigor: temos feito um levantamento de dados de Damien Tapia.
— E?
— A repórter está certa. Tapia foi visto nos arredores de Tristeza. Ele foi visto lá, naquela noite, com os irmãos Rentería. Estão dizendo que os Guerreros Unidos estavam transportando heroína tanto para Sinaloa como para Damien.
— Você acha que eles tiveram culhão pra ferrar Sinaloa? — Existem rancores antigos, não? — pergunta Hidalgo. — Você não
estava lá, quando o pai de Damien foi morto?
— Andou puxando minha ficha, Hugo?
— Compilação de trabalho, chefe — responde Hidalgo. — Então, talvez
os Rentería tenham redescoberto suas antigas raízes Tapia e estejam trabalhando com o garoto.
— Pode ser — diz Keller. — Mas não creio nele como causa da morte
dos estudantes. Damien Tapia não tem peso pra fazer aquilo sozinho. Outra pessoa deu a ordem.
— Quem? — pergunta Hidalgo. — Até onde sabemos, o “Jovem Lobo”
não é associado a ninguém.
— Não sei — diz Keller. — Continue trabalhando nisso. Mas não hoje.
E não diga nada a essa repórter.
— Achei que ela fosse sua amiga.
— Ela é. E eu queria muito que ela ficasse fora disso. Ele já perdeu amigos demais.
As mulheres voltam cantando.
Elas ficam nos degraus da porta como carolas e cantam villancicos. Ou
pelo menos tentam, por entre risadas.
Althea está linda.
Ela envelheceu com graciosidade, como dizem. Seus cabelos louros
acinzentados estão curtos, os olhos azuis brilham por trás dos óculos baixos, no nariz comprido e curvo. Keller havia se esquecido como ela é linda, e só agora, enquanto a observa cantando, ele lembra que ela era determinada a se tornar fluente em espanhol, quando eles moraram no México.
Ela ergue os olhos pra ele e sorri.
A canção termina e as três mulheres começam a versão espanhola de
“Noite Feliz”.
Noche de paz, noche de amor,
Todo duerme en derredor…
É uma canção suave e linda e leva Keller de volta a um Natal, Deus, há trinta anos, a última noite de Natal que ele passou com a família, na época em que as coisas estavam bem, pouco antes de Ernie ser morto, e foi naquela noite de Natal que Althea pegou as crianças e o deixou em Guadalajara, porque estava com medo por eles e por si.
Entre sus astros que esparcen su luz,
Bella anunciado al niñito Jesús…
Naquela noite, havia crianças cantando villancicos na rua, do lado de fora da casa deles, quando ele beijou Althea e a pôs em um táxi, com as crianças, rumo ao aeroporto, achando que eles logo estariam juntos de novo, ou no México ou nos EUA. E ele havia passado o dia de Natal com os Hidalgo, vendo o pequeno Hugo abrir seus presentes, e apenas alguns dias depois Ernie foi raptado, torturado e morto, e o mundo ficou sombrio, e Keller nunca mais voltou com Althea, nunca mais voltou para sua família.
Brilla la estrella de paz,
Brilla la estrella de paz.
A canção termina e vem um momento de silêncio perfeito.
Uma calma perfeita.
Eterna.
Então, Keller diz:
— Entrem.
Outros convidados chegam.
No fim das contas, Marisol convidou todos que ela conhece e qualquer pessoa que viu, ao longo das últimas semanas; portanto, há pessoas de seus eventos beneficentes e quadros diretores, gente da embaixada mexicana, garçons de seus restaurantes preferidos, balconistas da livraria, o pessoal da lavanderia, vizinhos…
Keller reconhece a maioria dos convidados em sua casa, mas não todos.
Essencialmente solitário, ele está surpreso em descobrir que não odeia esse momento e que até está se divertindo.
A comida está fantástica.
Quando a maioria dos americanos pensa em comida mexicana, eles
pensam em burritos e tacos recheados com frango, carne ou porco, cheios de queijo e feijão frito duas vezes, mas Keller sabe que a comida mexicana é muito mais variada, sofisticada e sutil.
O peru com molho cremoso está delicioso, mas Keller cai dentro dos
romeritos en revoltijo — camarões, batatas e nopales, com alecrim, cozidos em molho de ancho, mulato e pasillachiles, amêndoas, cebola e alho.
O bacalao é um prato tradicional do Natal. Marisol deixou o bacalhau
salgado de molho por um dia inteiro, depois tirou a pele e as espinhas, tirou as sementes e descascou os ancho chiles, depois bateu com tomates frescos. Depois ela encheu a casa com um aroma tentador, enquanto fervia o molho com folhas de louro, canela, pimentão vermelho, azeitona e alcaparras. Então acrescentou as batatas e cobriu com os chiles güeros.
Mas Natal não é Natal sem tamales. Marisol tinha recheado as cascas de milho com porco, carne e frango
(“somente a carne escura, por favor, Arturo, o peito fica seco demais”), mas ela também fez um pouco ao estilo oaxaquenho, envolvendo as folhas de banana-da-terra com frango e cebola, pimentões poblano e chocolate.
Se não fosse o bastante, um panelão de pozole está cozinhando em fogo
baixo e tem um pote enorme de ensalada de noche buena — alface, beterraba, maçãs, cenoura, fatias de laranja, pedaços de abacaxi, jicama, noz-pecã, amendoim e sementes de romã.
Para sobremesa, Marisol fez pilhas de buñuelos salpicados de açúcar,
mas, como a maioria dos convidados é mexicana, e nenhum mexicano bate à porta de alguém de mãos vazias, também há roscas de reyes, pudim de arroz, tres leches, bolos, polvorones de canele e flan.
Com certeza, ninguém vai ficar com fome, nem sede. Para os que não bebem, há cidra quente de maçã e chocolate quente, e,
para os que bebem, há rompope — gemada com rum — e o ponche navideño. Marisol teve um bocado de trabalho para encontrar atole champurrado (“cai tão bem com tamales”), e a cerveja Noche Buena, mas só da marca feita pela Cuauhtémoc Moctezuma (Keller não teve coragem de dizer a ela que a empresa foi adquirida pela Heineken).
Mantendo-se um pouco à parte, forçando-se a sair de seu eu teimoso,
Keller vê que Marisol está em sua glória. Seu lar está cheio de gente, comida, bebida, conversa, riso. Um convidado trouxe um bajo sexto e encontrou um cantinho sossegado para prover um som de fundo de norteño a doze cordas. Keller percebe que a esposa está inconscientemente balançando ao som da música mesmo enquanto faz questão de apresentar Hugo a uma moça muito bonita que Keller acha reconhecer da Busboys and Poets.
— Casamenteira? — ele pergunta à Marisol, quando ela completou sua missão.
— Eles são perfeitos um para o outro — diz ela. — E seria bacana que ele tivesse alguém. Você conversou com Althea?
— Bem, isso foi direto. Ainda não.
— Mas vai conversar.
— Sim, Mari, vou.
Alguns minutos depois, ele trombou com Althea, no corredor, quando ela estava saindo do banheiro.
— Como nos velhos tempos, Art — diz ela. — É bom vê-lo.
— Você também. Lamento sobre Bob.
— Obrigada. Ele era um cara bom.
Eles ficam ali, em um constrangimento esperado, até que Keller pergunta:
— O que você tem ouvido das crianças?
As crianças não são crianças, Keller lembra a si mesmo — Cassie está com 35; Michael, com 33 — e ele perdeu grande parte do crescimento deles.
Perseguindo Adán Barrera.
— Bem — diz Althea —, Cassie está com um cara. Finalmente. Acho que esse é sério, ela até tira algumas folguinhas do trabalho.
Cassie é uma professora fanática de educação especial no primário, em Bay Area. Keller acha que tanto sua preocupação social como o fanatismo são genuínos.
— Não quero me antecipar — diz Althea —, mas pode ser que você logo receba um convite.
— Acha que ela gostaria de me ver lá? — pergunta Keller.
Keller tinha permanecido o melhor pai que ele pôde ser — ele sustentava os filhos, colocou os dois na faculdade, os via quando podia e quando eles queriam, mas foram se distanciando e agora são literalmente estranhos. Um telefonema de vez em quando, um e-mail, e só. Se eles estiveram interessados em vê-lo, não expressaram isso.
— É claro — diz Althea. — Ela vai querer o pai conduzindo-a até o
altar. E nós talvez devamos nos oferecer para ajudar com as despesas.
— Fico feliz em fazer isso. E Michael?
— Ele está sendo Michael — responde Althea. — Agora está em Nova
York, talvez você saiba.
— Não.
— Desta vez é filme — diz Althea. — Ele está tentando ingressar em
um programa da NYU; enquanto isso, está trabalhando como assistente particular freelancer, seja o que for isso.