A fronteira

Don Winslow · Capítulo 24 de 25

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A fronteira

4: A piscina refletora

4

 

A piscina refletora

 

Pois a morte lembrou-se que deveria ser como um espelho…

— Shakespeare

Péricles

Washington, DC

Abril de 2017

 

A primavera, pensa Keller, é a melhor estação em Washington.

As cerejeiras florescem em abril e ele espera que mais tarde tenha a chance de caminhar pelo passeio público para vê-las.

Crosby está pessimista em relação a isso; ela o alertou que as audiências provavelmente levarão o dia todo, talvez mais de um dia, e que os senadores farão muitas perguntas, discursos disfarçados em forma de perguntas, consumindo muito tempo na tribuna.

Keller, contudo, está otimista.

Afinal, a primavera é a estação da esperança, a estação do renascimento e do otimismo. (Ele se lembra que o mato cresce por entre os ossos dos esqueletos.) Hoje ele quer estar otimista — pode ser um começo ou um fim.

Para o país, a primavera não tem sido uma época de regeneração, mas uma temporada de caos. A demissão do conselho especial, por parte de Dennison, originou a “crise constitucional” que os especialistas temiam. Os democratas clamam por impeachment, os republicanos revidam os gritos, alegando que Scorti extrapolou sua autoridade e mereceu ser demitido. A mídia liberal e a conservadora gritam uma com a outra, como vizinhos zangados e ruins, por cima de uma cerca.

No olho da tempestade está Keller.

Dennison aproveita cada oportunidade para esfolá-lo — Keller é um mentiroso, um criminoso, seu lugar é na cadeia, por que o Departamento de Justiça ainda não o acusou e prendeu?

— Essa é uma possibilidade real — Crosby alertou Keller. — Agora, na

ausência de um conselho especial, a Procuradoria Geral pode entrar com um processo contra você. Deus sabe que o presidente está pressionando para isso.

Também há pressão do outro lado, a mídia e os políticos democratas

exigem saber por que Keller não apresenta as provas que alega possuir.

Crosby foi aos “programas” para responder.

— Que mecanismo existe para que o sr. Keller libere essas

informações? O presidente encerrou a investigação do conselho especial. Keller deve entregar o material a um procurador-geral que, por sinal, já se recusou, por potencial pré-disposição desfavorável? Ou ao substituto desse PG?

— Ele poderia entregar as provas ao procurador-geral de Nova York. — Já tentamos esse caminho — disse Crosby. — Infelizmente, o

procurador-geral Goodwin achou que as provas não estavam corroboradas o suficiente. Achamos que ele tenha se enganado e nosso entendimento é que agora, à luz dos acontecimentos recentes, ele esteja reconsiderando sua posição.

Ela está se referindo a tentativa de assassinato de uma testemunha-

chave, o detetive Bobby Cirello.

E o vazamento da informação de que Cirello estava presente em uma

reunião entre Lerner, Claiborne e banqueiros mexicanos, supostamente representando cartéis de drogas. Que Cirello foi solicitado, pelo traficante preso Darius Darnell, a prover segurança para a reunião, mas, na verdade, estava trabalhando como infiltrado e plantou microfones — fonte das gravações que Keller alega possuir.

— Scorti queria entrevistar Cirello — relatou um correspondente de

televisão — e pouco antes do agendamento dessa entrevista, alguém tentou matá-lo. E nós devemos acreditar que isso foi uma coincidência?

A mídia conservadora revidou:

— Fontes do alto escalão da NYPD me dizem que Bobby Cirello era um

policial corrupto, que estava sob investigação pelo departamento de Assuntos Internos. Ele tem um problema de vício em jogo, deve dinheiro à máfia, e estava deduzindo essas dívidas provendo segurança para negociações de drogas. O tiroteio nada teve a ver com o Towergate. E o que Cirello estava fazendo em Nyack, distante de sua jurisdição, em companhia de uma jovem viciada em heroína?

Mas Goodwin abriu uma investigação do ataque a Cirello e também reabriu o caso sobre a morte de Claiborne, para determinar se sua overdose foi acidental.

Uma caça às bruxas, disse Dennison no Twitter. Isso foi uma tentativa infame de reverter uma decisão democrática da eleição. Goodwin é um fraco, um incauto. Deve ser demitido. Cirello, Keller, todos eles têm que ser trancafiados. E joguem a chave fora!

— Apesar da aparente convicção contrária do sr. Dennison — respondeu o governador de Nova York —, somente o povo de Nova York pode demitir o procurador-geral de Nova York. Aliás, isso seria em uma eleição.

Mas os republicanos na legislatura de Nova York iniciaram um ato de revogação contra Goodwin. Petições circularam pelo estado, apoiadores sentados em mesinhas montadas do lado de fora de supermercados, para solicitar o número exigido de assinaturas.

— Isso é Watergate — o senador Elmore disse, aos microfones. — Um presidente em exercício, no mínimo, participou de uma ocultação da verdade para subverter os trâmites da justiça. Isso é uma vergonha. Ele deve renunciar ou, na falta disso, sofrer um impeachment.

— Não há prova alguma — respondeu O’Brien — de que o presidente Dennison tenha tentado obstruir a justiça. Apenas de que Art Keller alega isso. Da mesma forma que não existem provas de que Jason Lerner ou qualquer pessoa ligada à Terra, e isso inclui o presidente, tivessem alguma ideia de que os bancos com quem eles estavam lidando faziam negócios com cartéis de drogas. Se Keller tivesse provas disso, a esta altura ele já as teria apresentado. Ele não tem prova alguma, pois não existem provas. Caso encerrado.

Esse é, pensou Keller, O’Brien pensando que acusou meu blefe, pensando que eu vou recuar para evitar que Ruiz testemunhe.

Mas o caso não está encerrado.

Durante todo o inverno e começo da primavera, isso permaneceu como uma ferida aberta no corpo político, dividindo ainda mais uma sociedade já polarizada. Manifestantes de ambas as frentes irromperam em conflitos violentos. O Congresso foi “paralisado” e o governo ficou “incapacitado” de prosseguir com seus planos.

Alguma coisa tinha que acontecer.

O Congresso se apresentou.

Um subcomitê do senado, presidido por Ben O’Brien, foi rapidamente

formado para investigar toda a questão do “Towergate”.

Na lista de testemunhas:

Jason Lerner.

John Scorti.

Robert Cirello.

Procurador-geral David Fowler.

Denton Howard.

Art Keller.

E Eddie Ruiz.

A arma está apontada para minha cabeça, pensou Keller. O’Brien o

colocou na lista depois de mim como uma ameaça.

Lerner era o primeiro.

Keller assistiu na televisão, quando Lerner disse: — Minha empresa fez negócios com inúmeras instituições de

empréstimos, do mundo inteiro, incluindo o HBMX. Não temos a menor possibilidade de rastrear todas as fontes de seus recursos. Nós confiamos nos bancos para policiar a si mesmos e aderir às leis e supervisão nacionais e internacionais. Se a supervisão foi negligente nesse caso, eu lhes indico procurar as agências responsáveis.

O’Brien perguntou:

— Então, você não tinha conhecimento de que os recursos que adquiriu

no empréstimo do Park Tower eram provenientes de dinheiro de drogas.

— Primeiramente — disse Lerner —, eu ainda não sei disso, de fato.

Isso não foi provado. Em segundo lugar, eu com certeza não tinha conhecimento disso, à época.

— E se tivesse? — perguntou O’Brien.

— Eu não teria aceitado os recursos — disse Lerner. — Peço-lhe desculpas por perguntar isso — disse O’Brien —, mas o

senhor teve algo a ver com a morte do sr. Claiborne?

— É claro que não — respondeu Lerner. — Eu gostava do Chandler, nós

éramos amigos. Fiquei terrivelmente entristecido pelo que aconteceu.

— E a tentativa de assassinato do detetive Cirello? — Não sei nada a respeito disso.

Em seguida, Elmore assumiu o microfone e expôs a Lerner as condições

financeiras incertas do Park Tower e o endividamento de Lerner, e estabeleceu que, se o Park Tower fosse perdido, a Terra ruiria junto. Então, ele fez Lerner admitir que o presidente Dennison tinha uma participação acionária de quinze pontos na empresa.

— Então, o presidente Dennison possuía interesse financeiro direto no sucesso ou fracasso do Park Tower — afirmou Elmore.

— Creio que pode-se dizer isso.

— E, portanto, ele estaria diretamente ameaçado por qualquer investigação do Park Tower ou da Terra? — perguntou Elmore.

— Não, eu não acho que ele se sentiu ameaçado.

Scorti compareceu, no dia seguinte.

O ex-mariner estava uma rígido como uma pedra.

Em sua afirmação inicial, ele disse:

— É preciso que se entenda que eu não tenho como oferecer quaisquer conclusões definitivas, já que minha investigação foi arbitrariamente interrompida. Conforme uma ordem do senado, eu apresentei, sob protesto, os documentos e provas que haviam sido obtidas até a presente data, mas alerto aos senadores que também não emitam conclusões com base nestas, já que os resultados de uma investigação incompleta podem ser enganosos.

Então, pensou Keller, ele inutilizou, de propósito, quaisquer testemunhos que poderia dar.

Os senadores tentaram, mesmo assim.

— Sua investigação revelou alguma atividade criminosa por parte do sr. Keller? — perguntou O’Brien.

— Minha investigação indicou essa possibilidade.

— Mas não chegou a uma conclusão?

— Não me foi dada a oportunidade.

Elmore soltou uma paulada:

— Sua investigação o levou a alguma opinião quanto a um comportamento criminoso por parte da Terra?

— Minha investigação indicou essa possibilidade.

— Sua investigação — questionou Elmore — o levou a alguma opinião quanto a um comportamento criminoso por parte do presidente, no que diz respeito a obstrução de justiça?

— Minha investigação indicou essa possibilidade. Novamente…

— Como se sente em relação a sua demissão? — perguntou Elmore.

Scorti o encarou como se ele fosse um idiota.

— Como eu me sinto?

— Sim.

— Eu não gostei.

— Acha que sua demissão, em si, é uma obstrução à justiça? —

perguntou Elmore.

— Acredito que essa determinação já não compete a mim — disse

Scorti.

E assim foi, com Scorti obstinadamente se recusando a dar quaisquer

respostas substanciais, baseado no fato de que ele não havia concluído sua investigação.

O procurador-geral Fowler testemunhou no mesmo dia. — O senhor ofereceu ao sr. Keller a manutenção de seu cargo, caso ele

encerrasse a investigação do Towergate? — perguntou O’Brien.

— Não, não ofereci.

— Instruiu alguém que fizesse essa oferta?

— Não, não fiz isso.

Elmore assumiu.

— Por que motivo recusou-se a prosseguir?

— Pelo aparente conflito de interesses — disse Fowler. — Aparente ou substancial?

Denton Howard sentou na cadeira, no dia seguinte.

O’Brien fez as mesmas perguntas e Howard negou que tivesse feito

qualquer oferta a Keller.

Keller assistiu ao testemunho do escritório de Crosby, enquanto se

preparava para o seu.

— Ele está mentindo? — perguntou Crosby.

— Sim.

— Mas você não tem gravações disso.

— Não sou Richard Nixon.

O’Brien perguntou:

— O presidente o instruiu a fazer uma oferta ao sr. Keller? — Não.

Keller assistia, enquanto Elmore perguntava:

— Por que se recusou a prosseguir a investigação Towergate? — Porque não há nada a investigar — disse Howard. — Não há nada

nisso.

A essa altura, os depoimentos haviam se transformado em uma obsessão nacional, com os maiores índices de audiência desde Watergate. O público assistia como se fosse o julgamento do assassinato de uma celebridade, ou uma minissérie de sucesso. As pessoas escolhiam seus heróis e vilões, debatiam em seus escritórios sobre o que aconteceria a seguir, esperavam avidamente pelo capítulo seguinte.

Bobby Cirello foi um astro.

Ele testemunhou que sim, de fato, Darnell lhe havia pedido para prover segurança nas reuniões no hotel, e que ele havia, antes da segunda reunião, plantado microfones e que possuía um mandado para fazê-lo.

— O que fez com essas gravações? — perguntou O’Brien.

— Eu as entreguei ao meu chefe.

— O que ele fez com elas?

— Não sei a resposta para essa pergunta.

— Nós precisamos obter uma intimação para ele? — perguntou O’Brien.

— Não sei a resposta para essa pergunta.

Cirello já estivera no púlpito de testemunha muitas vezes, pensou Keller.

— Saberia o motivo — perguntou Elmore — para que Darnell o instruísse a prover segurança nessas reuniões?

— Ele queria ter certeza de que eles estavam seguros e de que não havia nenhum dispositivo de gravação — respondeu Cirello.

— Acho que o que estou perguntando — disse Elmore — se o senhor tem conhecimento do motivo para que um traficante de drogas tenha lhe pedido para executar aquele serviço.

— Porque outro traficante pediu a ele.

— Seria Eddie Ruiz?

— Está correto.

— O senhor conhece o sr. Ruiz?

— Sim, conheço.

— Sob quais circunstâncias? — perguntou Elmore.

— Eu servi de mula para transportar milhões de dólares para ele — afirmou Cirello —, a pedido do sr. Darnell.

— Isso foi dinheiro de drogas?

— Foi pagamento por heroína.

O’Brien assumiu.

— Sabe se o sr. Lerner tinha alguma ligação com o sr. Ruiz? — Não sei a resposta para essa pergunta.

— Bem, sabe, sim, a resposta para essa pergunta — disse O’Brien. — A

resposta é que não sabe se havia qualquer ligação, não é? Sabe de alguma ligação entre o sr. Ruiz e o sr. Claiborne?

— Não.

— Alguma ligação entre o sr. Darnell e o sr. Lerner, ou o sr. Claiborne? — Não sei.

— Quem tentou matá-lo? — perguntou O’Brien. — Eu não sei.

— O morto ainda não foi identificado?

— Não que eu saiba.

— Talvez o senhor não tenha sido a vítima pretendida, não é mesmo? —

perguntou O’Brien. — Talvez tenha sido a senhorita…

— A arma estava apontada diretamente para mim — falou Cirello. —

Eu revidei.

— O que estava fazendo lá, detetive Cirello? — perguntou O’Brien. —

Tão distante da cidade de Nova York, no apartamento de uma jovem?

— Estava tentando ajudar uma viciada.

— E ajudou?

— Não sei.

— Decerto, há muita coisa que o senhor não sabe — disse O’Brien. Ele

passou a metralhar Cirello. — O senhor é um jogador inveterado, não é? Deve dinheiro à máfia e está sob investigação pelo seu próprio departamento. Como devemos acreditar em qualquer palavra que o senhor diz?

Ao assistir a isso, Keller ficou furioso.

Mas Cirello não ficou visivelmente zangado, com certeza não perdeu a

linha. Ele já tinha uma carreira sendo atacado por advogados de defesa e deixou que a investida passasse, antes de responder, com calma:

— Senador, eu estava atuando como um policial infiltrado. Está claro

que o senhor desconhece o que isso implica, e creio que aqui nós não tenhamos tempo para que eu lhe explique.

Esse vídeo passou em todos os noticiários.

Mas isso não muda o fato de que nenhuma ligação foi feita entre Lerner

e os cartéis.

A próxima testemunha lógica seria Hugo Hidalgo.

Hidalgo poderia estabelecer o relacionamento entre Ruiz e Caro, testemunhar que foi Caro quem instruiu Ruiz a prover segurança para essas reuniões. Não estabeleceria o conhecimento culpado de Lerner — somente as gravações poderiam fazê-lo —, mas seria um bom avanço para ligar o cartel à Terra.

Mas Hidalgo está sumido.

Ninguém consegue encontrá-lo.

Keller teme que ele esteja morto.

Eles mataram Claiborne, tentaram matar Cirello, não há motivo para acreditar que não teriam ido atrás de Hugo também. Ele está desaparecido. O FBI procura por ele, assim como o Marshals Service, e Keller colocou seu pessoal ainda fiel da Divisão de Narcóticos à procura dele.

Nada.

Então, a próxima testemunha é Keller.

No fim das contas, tudo se resume a Keller.

Porque, até agora, a coisa não estava indo bem, explicou Crosby. Lerner se manteve firme, assim como Fowler e Howard. Cirello fez estrago, mas não conseguiu estabelecer o elo essencial.

O presidente e seus aliados estavam utilizando esses interrogatórios a seu favor.

NADA de lavagem de dinheiro, Dennison postou no Twitter. NADA de obstrução. Caça às bruxas provada. Agora, o Departamento de Justiça deve fazer seu trabalho e PROCESSAR KELLER.

Se os depoimentos não melhorarem em nada, Crosby explicou a Keller, isso vai fortalecer o procurador-geral para formalizar uma acusação contra ele.

— Em termos de Lerner e da Terra — disse Crosby —, está tudo nas gravações. Em termos do PG, de Howard e do presidente, agora é tudo relativo à credibilidade. É a sua palavra contra a deles. Só vai depender de em quem o público acredita.

Crosby não é boba.

Ela viu o nome de Ruiz na lista, viu como estava posicionado e tirou as conclusões certas.

— O que eles têm contra você, Art? — ela perguntou, na véspera de seu depoimento. — O que Ruiz tem contra você?

Ele não respondeu.

— Certo — disse ela. — Agora você tem uma escolha a fazer. Eu lhe

falei que reputo minha função em mantê-lo fora da cadeia. Como advogada, minha recomendação é que se exima de responder, pela Quinta Emenda. Eu francamente duvido que eles movam uma ação legal contra você, se você recuar durante os interrogatórios. Não vão querer reabrir essa lata de vermes. Deixe isso de lado, Art. É triste, é uma pena, não é esse o país que nenhum de nós quer, mas meu conselho é que você deixe isso pra lá.

Keller ouviu.

Precisava admitir que pensou a mesma coisa. Que não fazia sentido se tornar um camicase em uma guerra perdida. Naquele momento, ele realmente não sabia o que iria fazer. Nem o país.

O testemunho de Art Keller era um acontecimento extremamente

aguardado, semelhante ao julgamento de O.J. Simpson, ao episódio final de The Sopranos, ou ao Super Bowl. Todos estavam esperando para ver o que aconteceria, o que ele faria, o que ele diria.

Seria Keller contra Dennison.

Em pratos limpos.

Agora, Keller veste um terno cinza e dá o nó na gravata vermelha enquanto pensa nas ligações que recebeu ontem à noite.

A primeira foi de O’Brien.

— Esta é sua última chance — disse O’Brien. — Faça a coisa certa.

Lembre-se de quem nós temos e o que temos.

A segunda foi de Marisol.

— Eu só queria lhe desejar boa sorte.

— Obrigado — respondeu ele. — É bondade sua. — Ah, Arturo — disse ela. — O que você vai fazer? — Está tudo bem — disse ele. — Eu sei o que vou fazer. — Sabe?

Sim, ele pensa, conforme ajusta a gravata.

Talvez, pela primeira vez na vida, eu sei o que vou fazer. Eu vou salvar minha vida.

O nome do atirador é Daniel Mercado.

Veterano do exército, veterano no Iraque, franco-atirador, “estrangeiro ilegal”. Afastamento involuntário da carreira militar decorrente de “problemas psicológicos” não especificados. Mãe e irmãs ainda estão em Mexicali. Com problemas com La Eme.

Foi dito a Mercado que a solicitação veio do jefe do cartel Sinaloa, Ricardo Núñez, em nome do mártir, El Señor, Adán Barrera. Se Mercado for bem sucedido na conclusão de sua missão, dois milhões de dólares serão depositados em uma conta no exterior — para ele, se sobreviver, para sua mãe, caso contrário. De qualquer maneira, se ele aceitar a missão, sua família terá tratamento de ouro. Por outro lado, se ele negar um pedido de El Patrón, bem… quem pode garantir segurança, hoje em dia?

Rollins conhece seu tipo, Mercado é um homem com rancores — lhe foi negada a cidadania no país pelo qual ele lutou, ele foi expulso do exército que adorava. Ele precisa desesperadamente pertencer a algo; se não for o exército, será La Eme. Se ele sobreviver a essa tarefa, ganhará ingresso instantâneo no bonde. Mercado tem delírios de grandeza — ele quer ser um herói, uma lenda. O homem que obtém a esperada vingança por Santo Adán com certeza será isso.

E ele sabe atirar.

Segundo o arquivo DD214 de Mercado, o homem era um atirador “especialista”, do nível mais alto. Segundo seu próprio relato, que pode ou não ser fidedigno, ele teve quatorze mortes confirmadas no Iraque.

Disseram-lhe que essa não é uma missão suicida.

Uma equipe de resgate aguardará por ele em local designado, para tirá-lo da cidade e depois do país. Uma equipe e um local de reserva também estará preparada. As chances de fuga não são tão pequenas como parece — haverá caos, tumulto, principalmente quando Mercado começar a disparar. Ele tem boa chance de chegar a um dos pontos de resgate.

Se você for capturado, dizem-lhe, vá em frente e conte tudo. Nós queremos que os americanos saibam que nós estamos vingando Santo Adán. Se for para a cadeia, La Eme irá garantir que você tenha a melhor vida possível — birita, drogas, mulheres. Você será o rei do pátio, um herói para la raza.

E ali nos EUA, a morte de Keller terá um bônus político, pensa Rollins.

O assassinato de um alto funcionário do governo será como Pearl Harbor. O presidente poderá usar isso como pretexto para custear o muro da fronteira, deportar imigrantes ilegais, proceder com literalmente qualquer ação contra o México.

Eles não dizem a Mercado que lhe darão cobertura com mais dois

atiradores, que assumirão caso ele falhe. Mercado terá um AR-15, que é o esperado pelo público americano. Os atiradores de reforço vão usar armas de calibre 5.56.

Mercado aceita a missão.

Ele é Oswald, pensa Rollins. Ele é Ray, ele é Sirhan. Ele é o bode expiatório perfeito.

Não se pode simplesmente entrar e visitar o presidente dos EUA.

Bem, você pode, se você for Nora Hayden.

Ela fez uma ligação para alguém que fez uma ligação para alguém que

fez uma ligação e agora ela está no elevador a caminho da cobertura do prédio de Dennison, em Nova York. Ele provavelmente passa mais tempo ali do que na Casa Branca. Hoje, ele com certeza está ali, pois Art Keller irá testemunhar diante do Congresso e ele não quer estar em Washington nesse momento.

Nora é revistada pelos caras do Serviço Secreto. Ela não está com nenhuma arma.

Nenhuma arma que eles possam encontrar.

Dennison dispensa seus auxiliares, quando ela entra na sala com a vista

magnífica do Central Park. Ele olha para Nora a diz:

— Faz bastante tempo.

— Décadas — diz ela. — Mas eu me lembro como se tivesse sido

ontem à noite. Todos os joguinhos imundos, as esquisitices, excentricidades.

— O que é isso, chantagem? — pergunta Dennison. — Quanto você

quer? Eu lhe darei o número do meu advogado, sr. Cohn, e você pode resolver com ele.

— Eu não quero dinheiro.

— Um emprego? — pergunta Dennison, parecendo irritado. — Um

apartamento? O quê?

— Meu marido — responde Nora. — Sean Callan. Os olhos de Dennison tremulam. Ele sabe.

— Você mandará soltá-lo imediatamente — diz Nora. — Ou eu irei à

mídia, e aquilo que Art Keller está fazendo com você vai parecer um tapinha. Vou contar cada detalhe asqueroso.

— Ninguém irá acreditar em você.

— Vão, sim — diz Nora. — Olhe pra este rosto, seu filho da puta repugnante. Em segundos, eu serei uma estrela. E todos vão acreditar, porque eu darei detalhes. Depois, você negará, eu vou processá-lo e você terá que dar um depoimento, no qual esses detalhes serão expostos. Ou você terá que admiti-los, ou cometerá perjúrio. Então, o que vai ser?

Keller escuta o riso de uma criança.

É destoante, estranho, fora do lugar, conforme ele sobe os degraus do Capitólio. Repórteres colocam microfones diante de seu rosto, jornalistas gritam perguntas, pessoas pedem autógrafos. Algumas pessoas gritam “Vá pegá-los, Keller!”, outras o mandam para o inferno. Algumas erguem cartazes e placas FAÇA A AMÉRICA GRANDE OUTRA VEZ! PRENDAM-NO! O MURO SERÁ CONSTRUÍDO !

Ele sabe que está se tornando uma figura controversa, incorporando a fenda divisória que ameaça aumentar e partir o país em dois. Ele ocasionou um escândalo, uma investigação que se expandiu lá dos campos de papoulas, no México, até Wall Street e a própria Casa Branca.

Parando um segundo, Keller vira para trás e olha a longa extensão do Passeio Nacional, as cerejeiras em flor, o Monumento de Washington, à distância. Ele não consegue ver a piscina refletora, ou o Monumento de Veteranos do Vietnã, mas sabe que estão lá — ele sempre passa pelo “Muro”, para fazer sua homenagem a antigos amigos. Talvez ele vá até lá mais tarde, dependendo do desenrolar das coisas lá dentro; pode ser sua última chance, por muito tempo, talvez para sempre. Olhando para trás, para esse gramado verde, as flores cor-de-rosa literalmente flutuando na brisa, tudo parece tão calmo.

Mas Keller está em guerra — contra a própria Divisão de Narcóticos, o Senado americano, os cartéis mexicanos de drogas, até o presidente dos EUA.

E eles são a mesma coisa.

Alguns deles querem silenciá-lo e aprisioná-lo, destruí-lo; alguns, ele desconfia que querem matá-lo. Ele meio que espera ouvir o estampido de um fuzil, enquanto sobe os degraus para testemunhar; portanto, o riso da criança é um alívio bem-vindo, um lembrete necessário de que, fora desse mundo de drogas, mentiras, dinheiro sujo e assassinato, há outra vida, outra terra, onde as crianças ainda riem.

Keller mal consegue se lembrar daquele país. Ele passou a maior parte de sua vida lutando uma guerra do outro lado

da fronteira e agora, ele está em casa.

E a guerra veio com ele.

Ele vai empurrando para abrir caminho, adentra um Capitólio

relativamente seguro, e é acompanhado até a sala de audiências. Os senadores já estão em seus lugares, nas cadeiras de encosto alto, diante do lambri de madeira escura.

Keller senta em seu lugar, atrás da mesa, no salão. O ambiente é

deliberadamente organizado, ele sabe, para intimidar, para que ele tenha que olhar acima, aos senadores. Crosby senta a seu lado.

Ele dá uma olhadinha em volta e vê que a galeria atrás dele está lotada.

A maioria dos expectadores são jornalistas.

Mas um deles é Marisol.

Ela assente para ele, que assente de volta.

O’Brien bate o martelo para pedir ordem e então, o funcionário judicial

solicita o juramento de Keller.

Ele jura dizer a verdade.

O’Brien começa.

— Sr. Keller…

Crosby o interrompe.

— Senhor presidente, meu cliente gostaria de fazer uma declaração. — Que seja breve, por favor — diz O’Brien. — Temos muito a

discorrer. Mas, prossiga, sr. Keller.

— Obrigado, senhor presidente — diz Keller. — E meu agradecimento

ao comitê, por me ouvir. Hoje, não pretendo responder a quaisquer perguntas.

Surge um burburinho no salão.

O’Brien bate novamente o martelo.

— Compreende que isso o coloca em desobediência — diz O’Brien. —

Pretende optar pela Quinta Emenda?

— Não — diz Keller. — Eu creio que chegue um momento em que nós,

tanto como indivíduos quanto como uma nação, precisamos olhar para nós mesmos de maneira honesta e verdadeira, e falar essa verdade. É isso que eu pretendo fazer hoje.

A sala fica em silêncio.

Belinda entra no banco da frente do passageiro, no carro que Tito mandou para buscá-la.

O novo padrinho quer entregar sua recompensa pessoalmente.

O motorista diz olá, Belinda responde olá e prende seu cinto de segurança. Então, ela sente o cano da pistola encostado em sua nunca.

— Ah, não — diz ela.

— Eu conheci Adán Barrera em 1975 — diz Keller. — À época, eu era um jovem agente da Divisão de Narcóticos, designado ao escritório de Sinaloa, no México. Creio que Barrera tinha dezenove anos. Ele me apresentou seu tio, Miguel Ángel Barrera, então policial. Os Barrera me deram informações que levaram à prisão de inúmeros traficantes de heroína. À época, eu era ingênuo e não percebi que eles próprios eram traficantes e estavam me usando para eliminar a concorrência.

“É verdade que eu salvei Adán Barrera de uma surra severa e possivelmente da morte, nas mãos da polícia federal mexicana e de pilotos americanos mercenários. Isso foi durante a Operação Condor, na qual a Divisão de Narcóticos, incluindo eu, e os militares mexicanos e a polícia envenenamos e queimamos milhares de acres de plantações de papoulas, forçando milhares de campesinos (agricultores rurais mexicanos) a deixar seus campos e vilarejos.

“A consequência não pretendida da Operação Condor foi o fato de que ela forçou os cultivadores de ópio mexicanos a se espalhar pelo México. Ao tentar remover um câncer, nós só o transformamos em metástase. Eles formaram uma organização, a Federación, primeiro cartel de drogas, sob a liderança de Miguel Ángel Barrera, também conhecido como “M-1” ou “O Padrinho”. Ele dividiu o México em plazas, territórios, para contrabandear as drogas para dentro dos EUA, e dirigia a Federación de sua base, em Guadalajara.”

Keller faz uma pausa e toma um gole de água.

— Para substituir o comércio de heroína — ele prossegue —, Barrera introduziu um novo produto altamente viciante, a cocaína em “crack”, que fomentou uma trágica epidemia de efeitos devastadores nas cidades dos EUA, nos anos 1980.

“À época, a Divisão de Narcóticos estava concentrada no comércio de

cocaína da Colômbia para a Flórida e não deu atenção apropriada à “porta dos fundos” do México e ao que se tornou conhecido como o “Trampolim Mexicano”, ou seja, carregamentos de cocaína chegando em pequenas aeronaves e “quicando” da Colômbia para várias localidades na América Central, e depois a Guadalajara, de onde era distribuída em várias plazas e trazida para dentro de nosso país.

“Durante esse período, eu era residente e encarregado de nosso

escritório em Guadalajara, e tentei alertar meus superiores sobre o Trampolim Mexicano. Eu era uma voz na imensidão. Já nessa época, Adán Barrera estava morando em San Diego e vendendo cocaína em nome de seu tio. Como resultado de uma de nossas operações, Barrera teve que fugir de sua casa de San Diego e sua esposa, então grávida, sofreu uma queda grave na fuga da invasão. Em seguida, sua filha nasceu com um sério defeito que acabou sendo fatal.

“Barrera me culpou pela tragédia de sua filha. “Nessa época, para disfarçar um grampo ilegal e sem mandado que eu

instalei na casa de Miguel Ángel Barrera, eu inventei um informante fictício com o codinome ‘Fonte Sugar’. Enfurecido pelas perdas causadas pelo vazamento de informações de ‘Fonte Sugar’, M-1 ordenou que Adán Barrera e os outros, incluindo Rafael Caro, raptassem meu então parceiro Ernesto Hidalgo, para forçá-lo a divulgar a identidade do informante.

“Ernie não tinha essa informação. Eu não havia contado a ele sobre a

escuta ilegal, e obviamente também não lhe dissera o nome de um informante que, na verdade, não existia.

“Barrera, seu irmão Raúl, Rafael Caro e outros torturaram Ernie

Hidalgo até a morte, ao longo de vários dias, apesar de um acordo que eu fizera com Adán, para encerrar minha investigação se ele soltasse Ernie.

“Na sequência ao assassinato do agente Hidalgo, Miguel Barrera fugiu

para El Salvador, onde eu e a polícia mexicana o rastreamos, prendemos e despachamos para o consulado americano da Costa Rica, momento em que o pessoal da inteligência americana forçosamente o removeu de minha custódia e o liberou.”

O’Brien bate o martelo.

— Acho que já ouvimos o suficiente do sr. Keller discursando. Ele foi

chamado aqui para responder perguntas, não para atrapalhar e…

— Eu fui raptado — interrompe Keller — e levado à base de treinamento de guerrilha dos contras, na fronteira da Nicarágua, uma base custeada por Miguel Ángel Barrera, onde um oficial de alto nível da inteligência chamado John Hobbs me explicou que o Trampolim Mexicano incluía carregamentos de cocaína via aérea feitos por uma empresa chamada SETCO, cujo dinheiro financiava a guerra dos contras em oposição ao governo comunista da Nicarágua.

“Deixe-me ser claro: uma investigação jornalística subsequente fez a acusação de que a CIA vendia crack em cidades americanas. Segundo meu conhecimento, isso não era verdade. A verdade era que o Conselho de Segurança Nacional realizou uma operação, chamada Cerberus, que encobriu o contrabando de cocaína com o propósito de financiar e armar os contras, algo que o Congresso havia recusado fazer. Eu vi as drogas, vi as aeronaves, vi o pessoal daquele conselho. Resumindo, a guerra contra o comunismo prevaleceu sobre a guerra contra as drogas.

“Em 1991, eu testemunhei diante de um comitê congressional investigando esse assunto.

“Sob juramento, testemunhei que nunca tinha ouvido falar da SETCO, ou da Cerberus. Também testemunhei que eu nunca ouvira falar em uma operação chamada Névoa Vermelha, que consistia em diretrizes multinacionais para assassinar líderes comunistas e de esquerda na América Central.

“Eu menti. Cometi perjúrio.”

Crosby põe a mão sobre o microfone.

— Art…

Ele delicadamente remove a mão dela e retoma o relato.

— Em troca de meu acobertamento, me foi dado o controle do Distrito Sudoeste da Divisão de Narcóticos, com autonomia absoluta para capturar e punir os responsáveis ou envolvidos no assassinato do agente Hidalgo.

“E foi o que fiz, impetuosamente.

“Levei anos para levar Adán Barrera à justiça e, no decorrer dessa busca, cometi inúmeros atos dos quais não me orgulho. Infringi leis americanas e mexicanas, para sequestrar suspeitos e levá-los para dentro da jurisdição americana.”

Crosby se debruça e fala ao microfone:

— Senhor presidente, eu gostaria de um recesso. Meu cliente…

— Está tudo bem — diz Keller. — Eu violei procedimentos da Divisão

de Narcóticos e inúmeras exigências de mandados. Usei o assassinato do cardeal liberal Juan Parada (um elemento da Névoa Vermelha), cometido por Barrera em 1994, para fazer com que a amante de Barrera, uma cidadã americana chamada Nora Hayden, o delatasse, tornando-se minha informante. A srta. Hayden era, assim como eu, uma amiga querida do cardeal Parada, o qual também fora padre da paróquia de Adán Barrera.

“Para resguardar a identidade da srta. Hayden, eu vazei informações

falsas aos Barrera, segundo as quais o informante era um jovem traficante chamado Fabián Martínez. Em resposta, Barrera mandou um bando de pistoleiros para matar Martínez e também dezenove inocentes, entre os quais homens, mulheres e crianças, que moravam no vilarejo de sua família.

“Eu levarei a responsabilidade por aqueles assassinatos para meu

túmulo.”

Ele faz uma pausa. A sala está em silêncio.

Velhos têm que tirar siestas.

E velhos levantam de suas siestas para urinar. Caro gira as pernas para fora da cama e põe os pés no chão frio. Ele está

vestindo apenas uma camiseta velha, de tamanho grande, que pende sobre suas pernas finas, que tremem conforme ele segue pelo corredor, até o banheiro.

Ficar velho é uma má ideia, pensa ele, é a maior imbecilidade que

podemos fazer.

E daí que ocorreram reveses?

Sempre haverá reveses.

No geral, a situação é boa.

Elena foi ficar com o irmão, no inferno.

Núñez é uma força esgotada.

Tito está tomando cada vez mais territórios dos Esparza e logo dará um

fim neles. Assim que ele o fizer, pensa Caro, você dá um fim em Tito. Seus sogros farão objeção, mas os Valenzuela são tão ricos porque valorizam dinheiro acima do sangue.

Um ano ou dois, talvez, um pouquinho mais, e você terá o que lhe é

devido.

E dentro de algumas horas, Art Keller estará morto.

Isso também me é devido.

Ele abre a porta do banheiro e pisca.

Tem um jovem sentado no vaso, com uma pistola apontada para ele.

— O que você quer? — pergunta Caro.

— A repórter — diz o jovem —, você tinha que matá-la, surrá-la até a morte?

Caro não responde.

— E os 43 garotos naquele ônibus — diz ele —, eles também tinham que morrer? Você precisava queimar seus corpos, para não sobrasse nada para as famílias enterrarem?

— Quem é você? — pergunta Caro.

— Eu sou um hijo — responde o jovem. — Meu pai era Ernesto Hidalgo. Esse nome significa algo pra você?

A bexiga de Caro se esvazia.

Keller diz:

— Houve uma especulação pública, relativa à minha prisão de Adán Barrera, em 1999. Estes são os fatos: eu ludibriei Barrera para atravessar a fronteira, com a falsa informação de que a morte de sua filha era iminente, depois o prendi, no estacionamento do hospital. Para efetivar sua libertação, o pessoal da inteligência americana raptou a srta. Hayden e nós combinamos uma troca de reféns, que ocorreu na ponte de San Diego. Miguel Ángel Barrera, John Hobbs e um detetive americano chamado Salvatore Scachi estavam presentes.

“A intenção deles não era trocar a srta. Hayden por Barrera, mas matá-la e a mim. No tiroteio que aconteceu em seguida, tanto Hobbs como Scachi foram alvejados pelo pistoleiro que eles tinham contratado para me matar. Eu matei Miguel Barrera e novamente prendi Adán.

“Posso confirmar os boatos de que havia mais um pistoleiro naquela ponte. Mais tarde, fiquei sabendo que se tratava de Sean Callan, ex-mercenário e guarda-costas de Adán Barrera, que tinha um envolvimento romântico com Nora Hayden.

“Depois do incidente na ponte, eu fiquei sob investigação e prestei depoimento a um comitê congressional especial sobre o que eu sabia a respeito do Trampolim Mexicano, das operações Cerberus e Névoa Vermelha. Eu acredito que esse depoimento tenha sido ocultado. Pelo meu conhecimento, ele nunca foi revelado ao público. Talvez, o senhor possa me contar o que aconteceu, senador O’Brien, já que era um membro daquele comitê.”

O’Brien o encara fulminante.

— Conforme os boatos, eu de fato me recolhi em um monastério, no

Novo México — diz Keller. — Eu estava tentando encontrar um pouco de serenidade e também refletir sobre o que havia feito em minha busca por Barrera. Continuei lá, até que Barrera lançou uma recompensa de dois milhões de dólares pela minha cabeça, o que colocaria a vida de meus anfitriões em perigo, e o Departamento de Justiça concordou em transferir Barrera de volta para o México, para a conclusão de sua pena. Eu sabia que Barrera iria “fugir” da prisão de Puente Grande. É claro que aquilo não foi uma fuga; uma fuga não envolve a participação ativa de um dos carcereiros. Barrera foi simplesmente solto pelo diretor do presídio, Ricardo Núñez, que mais tarde se tornaria seu tenente-chefe.

“A pedido meu, regressei à Divisão de Narcóticos e fui designado ao

México, para auxiliar na captura e retorno de Barrera à prisão. Adán Barrera reformou a organização de seu tio, intitulando-a ‘cartel Sinaloa’, e iniciou uma guerra para dominar e eliminar vários outros cartéis regionais e tomar plazas de imenso valor em Tijuana, Nuevo Laredo e Ciudad Juárez. Durante os dez anos seguintes, as lutas internas entre cartéis matariam mais de cem mil cidadãos mexicanos, a maioria inocente, tornando aquele o conflito mais sangrento deste continente desde a Guerra Civil Americana, e estava acontecendo bem ao lado de nossas fronteiras. Pessoas no Texas, Arizona, Novo México e Califórnia literalmente escutavam os tiros de algumas dessas batalhas.

“O mais violento entre os cartéis era um grupo conhecido como Zetas,

que teve seu início com membros das forças especiais mexicanas que desertaram para servir ao cartel Golfo, mas acabaram se tornando um exército próprio. O sadismo absoluto é quase impossível de descrever. Imolações, decapitações, assassinatos em massa, de mulheres e crianças… tudo gravado e veiculado em vídeos para aterrorizar a população.

“Eu ficara assombrado pelos assassinatos de dezenove pessoas

inocentes, em 1997; mas, no auge da guerra das drogas, de 2010 até 2012, esse seria um índice diário baixo, quase nem considerado digno de cobertura do noticiário.

“Determinados elementos do governo mexicano, frequentemente

acusados de corrupção, com considerável justificativa, estavam desesperados para conter a carnificina, então fizeram um pacto com o diabo. Vendo o cartel Sinaloa como o menor das duas forças malignas, quando comparados aos zetas, esses elementos fizeram um tratado tácito com Adán Barrera, para auxiliá-lo a ganhar a guerra contra os zetas. Eu participei desse acordo.”

Ele toma outro gole de água.

Callan sai na luz do dia, protege os olhos e vê Nora e Flor, em pé, junto a um carro.

Ele caminha até elas e ambas o envolvem em um abraço.

— O que isso lhe custou? — pergunta Callan.

— Algumas lembranças ruins — diz Nora. — Um encontro desagradável. Não foi nada.

No trajeto ao aeroporto, ela fala:

— Flor vem falando de um garotinho com quem ela viajou. Eles perderam contato. Ela me perguntou se nós poderíamos ajudar a encontrá-lo.

— Certamente podemos tentar — diz Callan. — Qual é o nome dele?

— Nico — responde Flor.

— Você acha que ele conseguiu chegar até os EUA? — pergunta Callan.

— Não sei.

A maioria não consegue, pensa Callan. A maioria é mandada de volta ao lugar de onde veio.

Se eu me lembro da história de Flor, o lugar era um lixão.

Eu tive mais sorte, pensa ele.

Já estive em um monte de lixo, mais de uma vez na minha vida, e alguém sempre me resgatou.

Ele olha para Nora.

— Vamos começar procurando na cidade de Guat.

Eles pegam um voo para o aeroporto Juan Santamaría, em San José, Costa Rica.

María e Carlos estão lá para recebê-los e levá-los para casa.

Keller diz:

— Eu pessoalmente me encontrei com Adán Barrera e nós combinamos de suspender nosso conflito pelo propósito de destruir os zetas. Pelo interesse de revelar tudo, eu lhes direi que os zetas tentaram assassinar minha atual esposa, dra. Marisol Cisneros, causando graves ferimentos e ameaçando novos ataques. Tenho certeza de que isso influenciou em meu julgamento e minha decisão.

“No México, a campanha contra os zetas foi liderada pelas FES, as

forças especiais dos mariners mexicanos. Os zetas haviam assassinado a família de um de seus oficiais e eles formaram uma unidade secreta chamada ‘Matadores de Zetas’.

“Eu e outros membros da Divisão de Narcóticos auxiliamos esse

empenho, provendo recursos da inteligência americana para localizar as células Zeta, seus campos de treinamento e lideranças. Lembrem-se de que os zetas haviam matado um agente americano da Narcóticos, Richard Jiménez. Para não me alongar muito a respeito, esse era um programa de assassinato. Muito mais zetas foram mortos do que presos.

“Analistas da situação mexicana de drogas notaram um número

relativamente pequeno de capturas e prisões e mortes do cartel Sinaloa, se comparado com outros cartéis, incluindo, em especial, os zetas. Eles opinaram que isso demonstrava uma propensão governamental a favorecer o cartel Sinaloa. Posso afirmar que essa análise é verdadeira e precisa, e que os EUA participaram no favorecimento do cartel Sinaloa, como forma de trazer algum tipo de estabilidade ao México.

“Ocorreram boatos e relatos sobre uma operação secreta na Guatemala.

Agora, eu falarei sobre isso.

“Em outubro de 2012, Adán Barrera combinou um encontro com a

liderança dos zetas, para discutir um tratado de paz. Isso deveria acontecer num remoto vilarejo guatemalteco chamado Dos Erres.

“Foi uma emboscada.

“Eu renunciei a meu cargo na Divisão de Narcóticos para aceitar um

emprego numa empresa de segurança chamada Tidewater, baseada na Virgínia. Na verdade, isso era uma equipe de mercenários: ex-SEALs e detetives da DEVGRU que se uniram para ir a Dos Erres e eliminar a liderança dos zetas. A operação foi custeada com dinheiro oriundo de diversas empresas de petróleo (os zetas vinham atacando oleodutos no México), e organizada pelo senhor, senador O’Brien.

“Eu ajudei a liderar essa operação, com total conhecimento de que era

contra as leis internacionais, assim como as americanas. Contudo, acreditei, à época, como acredito agora, que a operação era moralmente justificável. Em outra contravenção, eu obtive a soltura temporária de um tal Eddie Ruiz, um líder de cartel nascido americano, e informante de longa data, para acompanhar o ataque, já que ele podia identificar pessoalmente a liderança Zeta.

“O que nós não sabíamos era que os zetas estavam planejando matar Barrera nesse encontro. Depois que as negociações de paz foram concluídas, os zetas emboscaram a ‘delegação’ Sinaloa e massacraram a todos eles. Nós pousamos na hora em que isso estava terminando e fomos bem-sucedidos na missão de eliminar os líderes zetas, destruindo a organização de forma efetiva.

“Os restos de Adán Barrera só foram localizados em março de 2014, pouco tempo depois que eu assumi a Divisão de Narcóticos. Todos acharam que ele tinha morrido durante o ataque dos zetas.

“Isso não é verdade.

“Eu matei Adán Barrera.”

A sala irrompe.

O’Brien bate o martelo.

Keller se debruça mais perto do microfone e diz, em voz alta:

— Eu deveria localizá-lo e capturá-lo, se ele ainda estivesse vivo. Eu o localizei. Ele havia sobrevivido ao ataque e estava escondido na selva, foram do acampamento.

“Eu lhe dei dois tiros na cara.

“Estou inteiramente preparado para assumir a responsabilidade por isso, se o governo da Guatemala escolher me extraditar, e também assumo a responsabilidade por quaisquer crimes que eu possa ter cometido sob a lei americana, ao participar desse ataque e seu subsequente acobertamento.”

Crosby joga as mãos para o alto e recosta em sua cadeira, como quem diz Vá em frente, destrua-se.

Eddie Ruiz está ao telefone com o Minimum Ben.

Que lhe disse que ele não pode mais estourar Art Keller, pois Keller acabou de estourar a si mesmo. Contou o negócio todo da Guatemala e da morte de Barrera também. Tirou o ás da manga de Eddie e o enfiou na sua bunda.

Agora, minha única jogada, pensa Eddie, é dedurar Lerner. Contar para eles que porra, sim, eu armei a segurança para as reuniões de Lerner. Mandei um traficante fazer isso, porque a reunião era para arranjar dinheiro de droga.

Como eu sei disso?, ele ensaiou.

Porque Rafael Caro me pediu para fazer.

Nico finalmente chega de volta a Manhattan.

Lá do centro, na parte mais velha da cidade, à Corte de Imigração, no

Federal Plaza. Uma longa fila do lado de fora aguarda para passar pela segurança. A maioria é de latinos, há alguns asiáticos. Há outras crianças, algumas com suas famílias, poucas sozinhas, como Nico. Sua tia e seu tio não quiseram vir à audiência, com medo de eles próprios serem deportados.

Então, Nico veio sozinho.

Ele passa pela segurança e sobe ao décimo segundo andar, onde

encontra o nome de sua sala de tribunal, em um quadro de avisos bem grande. O corredor está abarrotado de gente, os poucos bancos estão tomados, muita gente está encostada nas paredes, ou sentada no chão. Nico vai passando pela aglomeração, tentando encontrar a srta. Espinosa, sua advogada voluntária. Ele finalmente a vê e vai até ela, e eles conversam no corredor, pois não há salas.

Ela tem quase que gritar para se fazer ouvir.

— Nico, você vai ficar diante de um juiz que vai decidir se você pode

permanecer ou se será deportado. Certo, nós temos cerca de cinco minutos. Responda a todas as perguntas falando a verdade, e se ele perguntar se sua vida está em perigo se você voltar pra Guatemala, você diz que “sim”, está bem?

Eles entram na sala lotada do tribunal e sentam nos fundos. Nico fica

observando o juiz. Ele parece um homem velho, com cabelos brancos e óculos. Parece malvado e Nico fica ali sentado, por quase meia hora, enquanto o juiz nega refúgio a duas mulheres e um adolescente.

Então, ele ouve seu nome ser chamado.

— Vamos — diz Espinosa.

Ela o acompanha até o púlpito da testemunha e se apresenta: — Marilyn Espinosa, defensora pública para Nico Ramírez. — Obrigado, srta. Espinosa. Nós precisamos de um intérprete? — O sr. Ramírez fala um pouco de inglês — diz ela. — Mas, sim, para

ser mais seguro.

O juiz olha o arquivo, depois diz:

— Sr. Ramírez está solicitando status de refugiado?

— Sim, meritíssimo.

— Baseado em quê?

— O sr. Ramírez fugiu da Guatemala — conta Espinosa —, porque uma gangue de rua, a Calle 18, ameaçou matá-lo, se ele não ingressasse. É muito provável que eles o matem, se ele voltar.

O juiz estuda um pouco mais os papéis.

— Mas ele ingressou.

— Fizeram uma tatuagem de gangue, à força. Ele é uma criança, meritíssimo.

— Estou com a ficha na minha frente — diz o juiz. — Qual é a posição da Segurança Nacional?

O advogado da Segurança Nacional diz:

— O sr. Ramírez entrou no país ilegalmente. Recomendamos a deportação.

— Meritíssimo — chama Espinosa —, o senhor poderia ao menos ouvir meu cliente?

O juiz olha para Nico.

— Rapaz, por que você quer ficar nos EUA?

— Porque vão me matar, se eu voltar — diz Nico.

— Quem vai?

— Pulga.

— Quem?

— Ele é o mandachuva da 18, no meu barrio — explica Nico.

— Você tem mais algo a dizer? — pergunta o juiz.

Nico pensa com bastante afinco. O que ele pode falar que fará com que o deixem ficar? Ele está desesperado.

— Porque aqui é bonito — ele finalmente responde.

O juiz examina mais uma vez a papelada e ergue o olhar.

— Eu vou mandar que o sr. Ramírez seja devolvido à custódia da Segurança Nacional para ser deportado.

— Meritíssimo — diz Espinosa —, isso pode ser uma sentença de morte.

— E eu posso estar salvando uma vida americana ao me desfazer de um criminoso precoce — diz o juiz. — Já temos membros de gangue suficientes e traficantes de drogas de sobra neste país, sem ter que importá-los.

Ele olha para Nico e pergunta, só pela praxe:

— Você renuncia ao recurso?

Mesmo com tradução, Nico não sabe o que ele está falando. — Não, meritíssimo — diz Espinosa. — Nós pretendemos fazer a

apelação e solicitar fiança.

— O que, neste caso, significaria apenas regressar ao Sudeste da

Virgínia — diz o juiz. — Fiança negada. Você tem trinta dias para apelar. A ICE vai manter a guarda do sr. Ramírez e proceder com a deportação.

Um homem estranho algema Nico e o leva para fora da sala do tribunal.

Nico olha para Espinosa, que tenta acompanhá-lo, mantendo-se ao seu lado em meio à aglomeração.

— Eu vou entrar com uma apelação, Nico — diz ela. — E uma petição

de reconsideração.

Ele entende o suficiente para saber que ela vai pedir que eles mudem de

ideia.

Nico sabe que eles não vão mudar de ideia.

Ele vai voltar para El Basurero.

Ele é um lixo e vai voltar para o lixão.

— Alguns meses depois da operação na Guatemala — diz Keller —, o senador O’Brien me abordou quanto a assumir a Divisão de Narcóticos. Eu aceitei, pois realmente achei que pudesse fazer algo em relação à epidemia de heroína que aflige o país. Achei que esse fosse o motivo para que o senador O’Brien tivesse me convidado. Agora, eu percebo que mais uma vez, eu fui ingênuo, e que o senador me colocou naquela posição para encobrir a operação da Guatemala.

O’Brien diz:

— Creio que já ouvimos o bastante…

— Minha execução extrajudicial de Adán Barrera também teve o efeito

oposto do que eu pretendia — afirma Keller. — Durante a breve supremacia do cartel Sinaloa, o México vivenciou um período de relativa paz e segurança. Ao eliminá-lo, eu soltei uma porção de concorrentes menores ao trono que, por sua vez, provocaram o caos a um povo já tão sofrido. Na verdade, o México acaba de vivenciar seu ano mais violento, ultrapassando até os horrores ocorridos entre 2010 e 2012.

“E as drogas continuam entrando, o que me leva, enfim, à questão pela

qual fui chamado a depor, no dia de hoje.”

O’Brien diz:

— Eu vou suspender esta audiência até segunda ordem. O sr. Keller está simplesmente fazendo alegações sem fundamento…

— Eu quero que o depoimento prossiga — diz Elmore. — Nós convocamos o sr. Keller para depor e ele tem o direito de concluir seu testemunho.

— Ele não tem direito de ficar atrapalhando — responde O’Brien. — Eu vou adiar…

— Se o fizer — diz Keller —, eu vou retomar o depoimento nos degraus do Capitólio.

— Está se manifestando com desobediência, sr. Keller — diz O’Brien.

— Senador, o senhor não sabe da missa a metade.

— Prossiga — diz Elmore.

Keller prossegue:

— Em meu papel de gestor da Divisão de Narcóticos, tomei conhecimento de uma nova rede de contrabando de heroína, liderada por Eddie Ruiz e pelo traficante libertado Rafael Caro, a qual envia quantidades maciças de heroína e fentanil letal para dentro dos EUA, através de intermediários na cidade de Nova York. Também fiquei sabendo que Caro havia ordenado o assassinato de 49 estudantes no México, alguns queimados vivos, e a tortura e assassinato da jornalista Ana Villanueva, que estava investigando essa atrocidade.

“Fiquei ciente ainda, de que a Terra Company (encabeçada por Jason Lerner, consultor especial da Casa Branca), com o auxílio de um fundo de cobertura gerenciado por Chandler Claiborne, havia viabilizado um empréstimo multimilionário através de um banco mexicano. Mas o dinheiro, na verdade, era proveniente de um consórcio de organizações de drogas mexicanas, incluindo a organização de Caro e Ruiz, que perpetrou esse assassinato em massa.

“Escutas com autorização da justiça revelam que Lerner iniciou fraudes bancárias e conscientemente violou os estatutos de lavagem de dinheiro. Gravações autorizadas adicionais de uma conversa entre Lerner e Claiborne mostram, conclusivamente, que ambos sabiam que a fonte do empréstimo era dinheiro de drogas, vindo, entre outros, de Rafael Caro.

“Eu estava em negociações com o conselheiro especial Scorti para entregar as gravações e documentos incriminadores. Francamente, fiquei preocupado que se eu de fato entregasse as gravações, elas talvez fossem retidas. Portanto, eu agora gostaria de reproduzir os momentos relevantes para este comitê.”

Ele põe um pequeno toca fitas em cima da mesa. — Isso não vai acontecer! — diz O’Brien.

— Você está tentando ocultar uma prova? — pergunta Elmore. — Isso não é prova — responde O’Brien. — Nós não sabemos a

procedência dessas gravações, não sabemos sua origem, eles podem muito bem violar direitos legais de…

— Não saberemos, até ouvirmos — interrompe Elmore. — Não quer

que elas sejam ouvidas, senador O’Brien?

— Se for assim, que sejam ouvidas em sessão fechada — diz O’Brien. — Então, é o povo americano que o senhor não quer que ouça as

gravações — conclui Elmore. — Mas acho que o povo tem o direito de ouvir…

— Eu quero a apreensão dessas gravações — diz O’Brien. — Quero que

sejam apreendidas e entregues ao gabinete do procurador-geral.

— Quer dizer que eu estou lhe informando que é dinheiro de drogas. — Jesus Cristo, você está com um grampo?

— Não seja babaca.

— Você está?!

— Não!

— Porque se estiver…

— Você acha que eu mexeria com essa gente? Você sabe quem são eles,

sabe o que eles fazem.

— Sim, eu sei. Você sabe?

— Eles vão matar a mim e minha família toda. — Sim, isso mesmo.

— Eu estou com medo, Jason. Estou pensando em talvez ir à polícia. — Não faça isso. Essa é a última coisa que você vai querer fazer. — Se isso for por água abaixo…

— Nós estamos cobertos. Você não entende isso? Se é dinheiro de

droga, se é dinheiro russo, tanto faz, nós podemos mandar encerrar qualquer investigação. Agora somos blindados. Somos intocáveis.

— Não sei…

— Chandler, eu precisava dessa porra desse empréstimo. Meu sogro

precisava dessa porra desse empréstimo. Está entendendo o que eu estou dizendo?

Rebuliço total.

Repórteres saem correndo da sala.

O’Brien bate o martelo para pedir ordem, mas não a obtém.

Crosby cobre o microfone com a mão e diz:

— Meu Deus, Art.

Keller olha ao outro lado da sala, para Marisol, depois se debruça ao microfone e diz:

— Quando eu ainda estava em meu emprego, eu fui solicitado tanto pelo atual diretor da Divisão de Narcóticos, Denton Howard, como pelo senador O’Brien a encerrar a investigação sobre Jason Lerner. O sr. Howard, fortemente insinuando estar transmitindo um recado do presidente Dennison, ofereceu-me manter meu cargo, e também disse que o governo apoiaria determinadas políticas liberalizadas que eu endossei.

“Eu recusei essas ofertas. Temendo que as provas fossem destruídas, retirei as gravações e os documentos das instalações da Divisão de Narcóticos e secretamente guardei-as em lugar seguro. Tenho inteira consciência de que, ao fazê-lo, eu violei determinados estatutos federais e, mais uma vez, estou pronto a assumir responsabilidade e aceito as consequências. Deixarei que outros determinem se as atitudes de O’Brien e Howard configuram obstrução de justiça.”

O’Brien levanta e deixa a sala de audiências, seguido por sua equipe.

Elmore assente para que Keller prossiga.

— Como resultado dessa investigação — diz Keller — e com a soberba colaboração da Divisão de Narcóticos da NYPD, nós destruímos a rede Caro-Ruiz e apreendemos uma vasta quantidade de heroína batizada com fentanil. No entanto, a justiça pelos que lavaram seu dinheiro ainda está por ser feita.

“Nós costumamos apontar o dedo acusando o México de corrupto” diz Keller. “É fácil demais, porque com muita frequência, é verdade. Eu posso pessoalmente testemunhar a corrupção nos mais altos escalões do governo mexicano. No entanto…

“Nós também temos que olhar a corrupção aqui dentro dos EUA. Eu acabei de lhes mostrar uma gravação que revelou a corrupção nos mais altos escalões financeiros e governamentais americanos, pelas próprias pessoas que mais apontam o dedo para o México.

“Se não fizermos uma investigação minuciosa e honesta, e instaurarmos um processo para condenar essa corrupção, aqui em nossa casa, nós somos os piores hipócritas e deveríamos agora mesmo abrir as portas das celas de todos os homens, mulheres e, sim, crianças, que estão atualmente cumprindo pena por porte e tráfico de drogas.

“Mas a corrupção vai muito mais fundo do que apenas dinheiro.

Precisamos nos perguntar: que tipo de corrupção existe em nossa alma nacional coletiva, que nos torna o maior consumidor de drogas ilícitas? Podemos dizer que a raiz da epidemia de heroína está no solo mexicano, mas os derivados de ópio são sempre uma resposta à dor. Qual é a dor no coração da sociedade americana, que nos faz sair em busca de uma droga para abrandar, abafar?

“É a pobreza? A injustiça? O isolamento?

“Eu não tenho as respostas, mas nós temos que fazer a verdadeira

pergunta…

“Por quê?”

Cirello está sentado com um detetive de Kingston e um promotor público.

— Foi em legítima defesa — afirma Cirello. — O cara a estava

violentando e ia matá-la.

— Ela estava se prostituindo — diz o promotor. Cirello olha para o detetive e sabe que a entrevista vai transcorrer do

jeito que tem que ser. Ele fará as perguntas certas a Jacqui, da maneira certa, e vai deixar o promotor sem nada a fazer, a não ser despachar como legítima defesa.

— Por favor, faça o que puder por essa garota — pede Cirello. — Ela é

viciada. Precisa de ajuda, não de cadeia.

— Ela já esteve em reabilitação — diz o promotor. — Até quando você

quer que a mandemos para tratamento?

— Até dar certo — diz Cirello.

Jacqui está sentada a uma mesa, na sala de entrevistas.

O policial entra.

— E aí — diz Jacqui.

— E aí.

— Eu vou pra cadeia, hein? — pergunta ela.

— Acho que não — responde Cirello. — Seja o que for que o policial

perguntar, sua resposta será “sim”, está bem?

— Eu devo muito a você — diz Jacqui.

— Eu é que devo muito a você.

— Está certo — diz ela — a gente deve um ao outro.

— Cuide-se, está bem?

— Você também.

O policial vai embora.

Jacqui começa a cantar sua musiquinha.

— Quando Jacqui…

Então, ela para.

Eu não sou mais uma garotinha, pensa ela.

Ric está sentado em sua cela.

Não há mais nada a fazer, até que eles o transfiram. Ele apelou e recebeu uma pena de doze anos, metade da pena de seu pai. Ric sabe que o pai nunca mais vai sair.

Mas eu ainda serei jovem, estarei com quarenta e poucos anos.

Ainda posso ter algum tipo de vida.

Ao contrário de Belinda.

O mensageiro da cadeia já informou que ela morreu, que Iván Esparza a executou pelo pecado de não matar Ric.

Ele se sente mal por isso.

O mesmo mensageiro da cadeia disse a ele que Iván agora está subordinado a Tito Ascensión.

Então, acabou, pensa Ric.

O cartel Sinaloa acabou.

Você é afilhado de nada.

Não importa, pensa ele. De qualquer jeito, esse negócio de droga acabou. Agora, o que você precisa fazer é cumprir sua pena e voltar a sua família.

Valeria será adolescente.

Ele ouve uma voz abafada. Parece estar vindo da privada. Ele se curva e ouve:

— Ric? Ric Núñez?

— Sim?

— E aí? E aí, irmão? É Eddie Ruiz.

Eddie Maluco?, pensa Ric.

Mas que porra é essa?

— Ouça Ric. Nós podemos fazer uns negócios juntos…

Cirello entra no carro e segue ao sul, pela 87, em direção à cidade.

De volta ao trabalho.

A função de infiltrado finalmente acabou, Mullen vai lhe arranjar uma

excelente missão, mas ele sabe que o fedor que grudou nele nunca vai sumir. Sempre haverá aquela desconfiança, aquela dúvida, os sussurros por trás de suas costas, os boatos de que um pouco do dinheiro das drogas ficou colado nele, como aquelas notas amassadas que a gente acha no bolso do jeans, quando tira da secadora.

Ele pode continuar, completar seu tempo até a aposentadoria, mas nunca

será como antes.

Quando ele chega a Newburgh, ele vira a oeste, na 84. Não sabe para onde está indo, só sabe que não vai voltar para Nova

York, não vai voltar para a NYPD, não vai voltar a ser policial de narcóticos.

Para ele, deu.

— Passei minha vida adulta lutando a guerra contra as drogas — diz Keller.

“Tive muitos colegas, alguns mortos, nessa guerra, e me orgulho do

sacrifício que eles fizeram, de sua dedicação, do imenso empenho no combate do que eles veem como um mal não mitigado.

“Eles são verdadeiros crentes, gente boa de verdade. “Mas agora, eu tristemente chego à conclusão de que nós lutamos a

guerra errada, e que isso precisa acabar.

“A guerra contra as drogas vem se estendendo há cinquenta anos, meio

século. É a mais duradoura guerra deste país. No processo de mantê-la, nós gastamos mais de um trilhão de dólares, colocamos milhões de pessoas atrás das grades, a maioria de negros, hispânicos e pobres; temos a maior população carcerária do mundo. Nós militarizamos nossas tropas policiais. A guerra contra as drogas se transformou em uma máquina de autossustento econômico. Cidades que um dia competiam por fábricas, agora disputam para construir cadeias. Na ‘privatização prisional’ (uma das mais horrendas combinações de palavras que eu posso imaginar), nós capitalizamos as correções; corporações agora obtêm lucro mantendo seres humanos enjaulados. Tribunais, advogados, a força policial, prisões… nós estamos mais viciados na guerra contra as drogas do que nas drogas contra as quais guerreamos.

“A guerra contra as drogas é uma guerra que vai além do nome. Um número incontável de pessoas morre porque as drogas são ilegais. Não se vê empresas de vinho ou tabaco trocando tiros pelo domínio do mercado, mas isso é exatamente o que vemos, nas esquinas e nos conjuntos habitacionais, pelo controle do comércio das drogas. E, claro, no México. Como drogas são ilegais, nós mandamos sessenta bilhões de dólares por ano para os violentos sociopatas dos cartéis, dinheiro que corrompe policiais e políticos, e compra armas que mataram centenas de milhares de pessoas, sem fim à vista.

“O ‘problema mexicano das drogas’ não é o problema mexicano das drogas. É o problema americano das drogas. Nós somos os compradores e sem compradores, não tem como haver vendedores.

“Nós travamos essa guerra há cinquenta anos, e após todo esse tempo, todo esse dinheiro, todo esse sofrimento, qual é o resultado?

“As drogas estão mais abundantes, mas potentes e mais disponíveis do que nunca.

“Overdoses fatais têm índices recorde. Hoje, nós perdemos mais gente por overdose do que por acidentes de trânsito ou violência com armas.

“Tudo isso enquanto as drogas são ilegais.

“Se é assim que a vitória se parece, eu detestaria ver a derrota.

“Nós temos que acabar com essa guerra.

“Precisamos legalizar todas as drogas e usar nosso tempo, dinheiro e empenho em abordar as causas profundas do abuso das drogas.

“Temos que fazer a pergunta ‘Por quê?’, e respondê-la.

“Até respondermos essa pergunta, nós estamos fadados a repetir, incessantemente, a mesma dança da morte.

“Hobbes disse ‘O inferno é a verdade vista tarde demais’”, diz Keller. “Eu rezo para que essa verdade não tenha vindo tarde demais. Obrigado por seu tempo.”

Keller levanta e deixa a sala.

Com o braço em volta do ombro de Marisol, Keller vai abrindo caminho em meio ao tumulto da mídia, do lado de fora do Capitólio, e depois a auxilia a entrar em um carro que aguarda.

— Pra onde nós vamos? — pergunta Marisol. — Nossa casa deve estar sitiada.

Verdade, pensa Keller.

Ele está exausto.

A adrenalina desse discurso purificador é extenuante, seu cérebro está

simplesmente cansado e ele não sabe o que vai acontecer a seguir. Ele será preso? Jogado na cadeia? Se for, será que algum dia vai sair?

— Eu gostaria de dar uma caminhada — diz ele. — Arejar a cabeça. Marisol olha para ele intrigada.

— Pra onde você quer ir?

— Ao Muro — diz Keller. Ele quer se despedir de alguns velhos

amigos, talvez dizer adeus para sua primeira guerra, enquanto ele tem a chance. — Quer vir comigo?

— As pessoas vão nos ver.

— Vai levar um tempinho até elas nos alcançarem — diz Keller. — Está certo — responde Marisol. — Vamos lá. Keller diz ao motorista para deixá-los na avenida Independence, entre a

Tidal Basin e o Memorial da Segunda Guerra Mundial.

Rollins está a vários carros atrás dele.

— Pra onde ele está indo? — questiona Mercado. O atirador está nervoso, pensa Rollins, vendo o pé dele tremular no chão

do carro. Um pouco de nervosismo é bom; em excesso, nem tanto.

Eles seguem o carro de Keller descendo a Independence. O carro para.

Rollins observa Keller ajudar a esposa a sair do carro. — Eu sei para onde ele vai — diz Rollins.

O Muro.

Mercado desce do carro.

Um lindo dia de primavera, do tipo que traz milhares de turistas para ver as flores de cerejeiras ao longo da Tidal Basin, o tipo de dia que deixa os residentes felizes por morarem em DC.

Keller e Marisol caminham pela margem do Memorial da Segunda

Guerra, não querendo se aproximar demais e interferir nas dúzias de momentos pessoais, de recordações e pesar, enquanto grupos de veteranos são acompanhados por guias voluntários locais, passando pelas lápides com nomes de batalhas. Ele se lembra que eles batizaram esse programa de “voos de honra”, trazendo, de avião, veteranos de todas as partes do país, para virem ao memorial. Eles são idosos, de cabelos brancos, curvados, alguns se apoiam em bengalas, não são poucos os de cadeira de rodas, e Keller se pergunta o que eles devem estar pensando, quando veem os nomes de suas antigas batalhas.

Uma “boa” guerra, pensa Keller, o bem contra o mal, preto versus branco.

Eles salvaram o mundo da tirania fascista, e nós… bem, nos foi dito, nos foi vendida a mitologia de que estávamos salvando o mundo do comunismo.

Eles viram no caminho que margeia o Lago dos Jardins da Constituição. A ironia não passa despercebida — uma coisa com que toda a mídia parece concordar é que ele originou uma crise constitucional”.

Mari diz:

— Estou orgulhosa de você.

— É.

— Te amo, Arturo.

— Te amo también, Mari.

Eles caminham pela margem oeste do lago, passam por um pequeno mirante e um caminho de pedestres que leva a um banheiro, depois seguem a caminho do Memorial do Vietnã.

— Alvo localizado — diz Mercado, em um microfone no pescoço.

— Assuma posição.

Um dos carros de trabalho está estacionado na avenida Constitution. Rollins contorna a área, agora na Henry Bacon Drive, que segue a nordeste, saindo do Memorial Lincoln. Mercado avança por entre as árvores e chega por trás do prédio onde fica o banheiro, com vista de cima para o Muro.

O Muro é baixo, em meio ao parque, como um segredo culpado, uma vergonha particular.

Keller olha para os nomes inscritos em pedra. O Vietnã foi há muito tempo, em outra vida, e ele lutou em sua própria guerra desde então. Aqui e ali, os pesarosos deixaram flores, ou cigarros, até pequenas garrafas de birita.

Não há batalhas gravadas no Muro do Vietnã. Nada de Khe Sanhs ou Quang Tris, ou Hamburger Hills. Talvez, por termos ganhado todas as batalhas, mas perdido a guerra, pensa Keller. Todas essas mortes por uma guerra fútil. Em vindas anteriores, ele vira homens debruçados no muro, chorando como crianças.

A sensação de perda é angustiante e esmagadora. Hoje há cerca de quarenta pessoas ali. Alguns parecem veteranos,

outros, familiares; a maioria, provavelmente turistas. Dois outros homens de quepe usando uniforme dos Veteranos de Guerras Estrangeiras estão presentes para auxiliar as pessoas a encontrar o nome de seus entes queridos.

É um dia quente de primavera, com uma brisa leve, as flores das

cerejeiras flutuam pelo ar. Sentindo a emoção dele, Marisol pega sua mão.

Ele vê o garotinho e o cintilar estranho da mira, ao mesmo tempo. A criança, segurando a mão da mãe, olha os nomes gravados na rocha, e

Keller fica imaginando se ele está procurando alguém — um avô, talvez, um tio — ou se a mãe apenas trouxe o filho até o Memorial dos Veteranos do Vietnã para terminar a caminhada pelo Passeio Nacional.

Agora, Keller vê o menino, então — à direita, na direção do Monumento

de Washington — o lampejo estranho de luz.

Mercado está com a mira fixa em Keller, agora se aproximando dele. Põe o alvo na cabeça dele e diz:

— Alegria.

Ele ouve o comando — Vai.

E aperta o gatilho.

Saltando em direção à mãe e ao filho, Keller os leva ao chão.

Então, ele vira para proteger Mari.

A bala faz Keller girar como uma tampa.

Raspa em seu crânio e faz seu pescoço girar.

O sangue jorra em seu olho e ele literalmente vê tudo vermelho,

enquanto estende a mão e puxa Marisol para baixo.

A bengala dela cai ruidosamente na calçada.

Keller cobre o corpo dela com o seu.

Mais balas atingem o Muro, acima dele.

Ele ouve berros. Alguém grita:

— É um atirador!

Olhando para cima, Keller procura a origem dos tiros e vê que eles estão

vindo da direção sudeste, na posição de dez horas — de trás de um prédio pequeno, e ele se lembra que é onde fica um banheiro. Ele apalpa o quadril, em busca de sua pistola Sig Sauer, mas se lembra de que está desarmado.

O atirador aciona a automática.

As balas salpicam a pedra acima de Keller, arrancando lascas dos nomes. As pessoas estão deitadas no chão, ou agachadas junto ao Muro. Algumas, perto das bordas mais baixas, correm em direção à avenida Constitution. Outras apenas ficam paradas, desnorteadas.

Keller berra:

— Abaixem! É um atirador! Abaixem!

Mas ele vê que isso não vai adiantar e que o monumento agora é uma armadilha fatal. O Muro tem formato de V e há somente duas saídas, ao longo do caminho estreito. Um casal de meia-idade corre em direção à saída leste, ao encontro do atirador, e é atingido na hora, caindo como personagens de algum videogame horrendo.

— Mari — diz Keller —, nós temos que andar. Está entendendo?

— Sim.

— Prepare-se.

Ele espera uma pausa nos disparos — enquanto o atirador troca o pente — e levanta, atraca Mari e a pendura por cima do ombro. Ele a carrega margeando a parede até a saída oeste, onde a mureta fica mais baixa, da altura da cintura, então lança o corpo dela acima e ao outro lado, e a coloca embaixo de uma árvore.

— Fique abaixada! — grita ele. — Fique aí!

— Para onde você vai?!

Os tiros recomeçam.

Pulando de volta para o outro lado do muro, Keller começa a conduzir as pessoas à saída sudeste. Ele pousa a mão na nuca de uma mulher, empurra-lhe a cabeça abaixo e a leva adiante, gritando:

— Por aqui! Por aqui!

Então, ele ouve o chiado de uma bala e a batida seca quando a mulher é atingida. Ela cambaleia e cai de joelhos, segurando o braço, enquanto o sangue jorra por entre seus dedos.

Keller tenta erguê-la.

Uma rajada passa raspando pelo rosto dele.

Um jovem vem correndo até ele e estende as mãos para pegar a mulher.

— Eu sou paramédico!

Keller a entrega, vira de volta e continua empurrando as pessoas à sua

frente, afastando-as da linha de tiro. Ele vê novamente o menino, ainda segurando a mão da mãe, com os olhos arregalados de pavor, enquanto a mãe o empurra adiante, tentando protegê-lo com o corpo.

Keller passa um braço em volta dos ombros dela e a faz se curvar,

enquanto a mantém em movimento.

— Estou com você. Estou com você. Continue andando. Ele a deixa em segurança, na ponta distante do Muro, e volta mais uma

vez.

Outra pausa nos disparos, enquanto o atirador troca o pente de novo. Cristo, pensa Keller, quantos ele pode ter?

Ao menos mais um, porque os tiros recomeçam. As pessoas cambaleiam e caem.

Sirenes ecoam e uivam; o motor de um helicóptero reverbera pelo ar. Keller atraca um homem para empurrá-lo à frente, mas uma bala o

atinge no alto das costas e ele cai aos pés de Keller.

A maioria das pessoas conseguiu chegar à saída oeste, outras estão

deitadas, espalhadas pela calçada, e ainda há outras, que caíram no gramado ao tentar correr para o lado errado.

Água derrama de uma garrafa caída no caminho. Um celular, com a tela rachada, começa a tocar no chão, ao lado de um

souvenir — um pequeno busto barato de Lincoln — com o rosto respingado de sangue.

Keller olha ao leste e vê um policial do Parque Nacional, empunhando uma pistola, disparando em direção ao prédio dos banheiros, depois caindo, ao ser atingido por uma rajada de balas que riscam seu peito.

Abaixado no chão, Keller rasteja até o policial e sente sua pulsação no

pescoço. Ele está morto. Keller cola atrás do homem, enquanto outra rajada atinge o corpo. Ele olha acima e acha que avistou o atirador, agachado atrás do prédio dos banheiros, enquanto carrega outro pente na arma.

Art Keller passou a maior parte da vida lutando uma guerra do outro

lado da fronteira e agora está em casa.

A guerra veio com ele.

Keller pega a arma do policial — uma pistola Glock 19 — e segue por

entre as árvores, em direção ao atirador.

Mercado está apavorado.

Ele errou o alvo e agora o perdeu de vista, em meio às árvores. Tem muita gente caída, as sirenes ecoam e ele atirou em um policial. Ele carrega outro pente e espia pela lateral do prédio, tentando avistar Keller e concluir sua missão, antes de dar o fora.

Mas ele não vê o homem.

Olhando em direção à avenida Constitution, Mercado vê que aquela rota de fuga está fechada — viaturas estão cercando tudo, com equipes da SWAT fortemente armadas pulando para fora dos carros. Ele olha à sua direita e vê mais carros chegando velozes pelo passeio. Um helicóptero circula acima.

Sua única chance é sair pelo outro lado, a oeste, na Bacon Drive.

— Alvo no chão — ele mente ao microfone. — Batendo em retirada.

Ninguém responde.

— Responda — ele diz, começando a entrar em pânico. — Responda!

Nenhuma resposta.

Os filhos da puta o abandonaram.

Rollins sai da Constitution e segue a oeste, em direção à ponte Roosevelt. O plano era que um carro ou outro pegasse Mercado, o liquidasse ali e dispensasse o corpo, mas, agora, não faz sentido esperar.

A polícia vai se encarregar de Mercado e, se ele for capturado e falar, só vai dizer exatamente o que deveria.

Que Ricardo Núñez o contratou para matar Art Keller.

E no cenário mais provável, ele será morto antes, bem, ele é apenas mais um atirador.

Oremos.

Keller agacha atrás de um monumento de bronze.

Uma enfermeira segura um soldado ferido nos braços.

Seu coração dispara e o sangue ainda escorre em seus olhos. Ele limpa, respira fundo e parte.

Mercado está seguindo ao outro lado do prédio, atento.

O que vê o deixa ainda mais nervoso.

Um homem vindo em sua direção.

Ao menos, deve ser um homem, mais parece um monstro.

Seu rosto está com uma máscara rosa de sangue e massa encefálica, a

frente da camisa está manchada em vermelho.

Ele empunha uma pistola e vem em sua direção. É Keller.

Mas agora Mercado sabe que não vai haver dois milhões de dólares,

nem ingresso na La Eme, nem status privilegiado como o homem que vingou Santo Adán.

Ele sabe que foi uma armação.

Ele é um bode expiatório.

Ele corre.

Ergue o fuzil e dispara.

Keller corre atrás dele.

Mais cambaleia do que corre.

Até este momento, ele não tinha percebido que fora atingido. A dor em

seu peito é horrenda. Ou, talvez, pensa ele, eu esteja infartando. De qualquer forma, ele se sente fraco e tonto, mas segue em frente, olhos fixos no atirador, que corre em direção ao Memorial Lincoln, à piscina refletora.

Keller segue, passo a passo.

Isso é tudo o que ele consegue fazer, até não conseguir mais. Cada passo é uma punhalada em seu peito. Cada passo vai esgotando

suas forças. Sua respiração vai ficando mais curta e ele ouve seu ofego. Ele sabe que está com hemorragia interna.

Mas você sempre esteve, ele diz a si mesmo.

Sempre sangrou por dentro.

Um passo, depois outro, Keller diz a si mesmo. Até não conseguir mais.

Então, ele vê o atirador.

Ele está encurralado.

A piscina atrás dele, os policiais se aproximando pelos dois lados. Ele para e vira de frente para Keller.

Ergue o fuzil e dispara.

Keller mira bem no meio, aperta o gatilho e segura.

O atirador cai de costas na piscina.

Keller cai de joelhos.

Depois cai de cara no chão, com os braços estendidos à frente.