A fronteira
3: La Bestia
3
La Bestia
“Deixai as crianças e não as impeçais…”
— Mateus, 19:14
Cidade da Guatemala
Setembro de 2015
Em seus dez anos de vida, Nico Ramírez nunca conheceu nada além de El Basurero.
O lixão é seu mundo.
Ele é um guarejo, um dos milhares que arrancam a sobrevivência do
lixo no aterro sanitário da cidade.
Nico é muito bom no que faz.
Um garotinho magrinho de jeans rasgados, tênis furados e que tem um
único tesouro — uma camisa de fútbol do Barcelona, com o nome de seu herói, Lionel Messi, número 10, nas costas. Ele é mestre em ludibriar os guardas dos imensos portões verdes do lixão. Crianças não devem entrar — embora Nico seja uma das milhares que entram — e ele não tem um dos preciosos cartões de identificação que lhe daria acesso como “funcionário”, então precisa escolher seus locais.
Aí é que ajuda o fato de ser pequeno, e agora, segurando um saco
plástico preto na mão direita, ele se abaixa atrás de uma mulher adulta e espera que o guarda vire a cabeça. Quando o guarda vira, Nico corre para dentro.
O lixão ocupa quarenta acres de uma ravina profunda e Nico ergue os
olhos para a parada de caminhões amarelos da companhia de lixo da cidade, descendo pelo caminho para despejarem quinhentas toneladas diárias de lixo. Cada caminhão tem letras e números pintados na lateral, e Nico, embora mal saiba ler ou escrever, conhece o significado desses números e letras tão bem quanto conhece os becos e labirintos da favela onde mora, na periferia do lixão. Os códigos se referem ao bairro onde o caminhão faz a coleta, e Nico fica de olhos grudados nos caminhões que vêm das áreas ricas da cidade, pois é de lá que chega o melhor lixo.
Gente rica joga muita comida fora.
Nico está com fome.
Ele está sempre com fome.
Ele não joga nada fora.
O cabelo e a pele do garoto são brancos da eterna nuvem de fumaça e poeira que paira acima do lixão e permeia todos os aspectos da vida dos basureros — suas roupas, pele, olhos, boca, seus pulmões. Os olhos dele são vermelhos, a tosse é crônica. O cheiro de lixo queimado — azedo, fétido, ácido — está impregnado em suas narinas, mas ele não conhece outra vida.
Ninguém em El Basurero conhece.
Nico limpa o nariz com a manga — seu nariz está sempre escorrendo — e espia, por entre a névoa, a fila de caminhões descendo a ravina.
Então, ele avista: NC-3510A.
Playa Cayalá, um bairro rico que fica lá na Zona 10.
Aquela gente joga tesouros no lixo.
Adentrando mais o lixão, ele tenta calcular onde o caminhão de Cayalá vai parar. Ela sabe que outros basureros também já o avistaram, e a concorrência será voraz. Alguns dizem que há cerca de cinco mil catadores de lixo, outros dizem que chega a sete mil, mas está sempre lotado e é sempre uma luta pelas coisas boas.
Sua mãe está entre eles, em algum lugar, mas Nico está atento demais em rastrear o caminhão de Cayalá para procurar por ela. Ele a verá mais tarde, em casa, tomara que com dinheiro na mão, graças a um saco cheio de coisas catadas.
Quem ele avista é La Buitra.
A Abutre.
Milhares de abutres de verdade circulam acima, esperando para pousar e lutar com os guajeros humanos para escolher os refugos, mas La Buitra — Nico não sabe seu verdadeiro nome — tem os olhos mais aguçados de todos. A mulher de meia-idade tem olhos sagazes e unhas compridas e afiadas que ela não tem medo de usar. Ela agarra, arranha, chuta, morde — qualquer coisa para conseguir catar os melhores itens.
Depois também tem aquela sua vara — um pedaço de madeira com uma ponta metálica afiada que ela usa para espetar os pedaços de lixo e colocá-los no saco. Ou ela usa aquilo para cutucar as pessoas e tirá-las de seu caminho.
Ou pior.
Uma vez, Nico a viu espetar a mão de Flor. Flor é amiga dele, tem mais
ou menos a mesma idade, e uma vez ela parou embaixo de La Buitra para pegar um sanduíche embrulhado em papel amarelo e La Buitra cravou o espeto nas costas da mão dela.
Infeccionou, e a mão de Flor até hoje não está boa. Há um buraco do tamanho do espeto de La Buitra, e está todo vermelho
e às vezes mina um líquido amarelo do buraco e Flor não consegue fechar a mão direito.
É isso que La Buitra faz.
Mas Nico não tem medo dela — pelo menos, isso é o que ele diz a si
mesmo.
Eu sou mais veloz, pensa Nico, e mais esperto. Consigo me abaixar sob
suas garras, pular para longe dos chutes. Ela não consegue me pegar, ninguém em El Basurero consegue.
Nico ganha todas as corridas, mesmo com os garotos mais velhos. “Nico
Rápido”, é como o chamam, e em raras ocasiões, quando eles conseguem encontrar algo que lembra uma bola de fútbol, Nico é o astro: rápido, ágil, esperto, habilidoso com os pés.
Agora ele vê que La Buitra avistou o caminhão de Cayalá. Nico não pode deixar que ela chegue lá primeiro. Ele precisa do dinheiro que aquele caminhão talvez traga, precisa
desesperadamente, porque ele e a mãe já devem à mara uma semana de pagamento, e se atrasarem mais uma, a desforra da gangue será terrível.
Um bom guayero consegue ganhar até cinco dólares por dia e, desse
valor, deve 2,50 dólares à mara, ou metade de tudo o que ganhar. Todos em El Basurero, em todos os barrios, pagam à mara — ou MS-13 ou Rua 18 — metade de tudo que ganham.
Nico já viu o que acontece com gente que não faz seus pagamentos —
ele já os viu apanhando com varas e fios elétricos, viu os gângsteres despejarem água fervendo por cima das crianças, já os viu arrastando a mãe da família pelo chão e estuprando-a.
Ele e sua mãe têm economizado cada quetzal — o dinheiro que, do
contrário, poderia ter sido usado para o café desta manhã, está em uma lata enterrada no chão de terra — mas eles estão atrasados mesmo assim, e a Calle 18 vai passar hoje à noite, para recolher o pagamento.
Um marero veio ontem à noite para lhes dizer isso.
O nome dele é “Pulga”. Eles o chamam assim porque ele morde, morde, morde, chupando o sangue de todos da vizinhança. Nico tem pavor dele — o rosto do Pulga é coberto de tatuagens: o algarismo “XVIII” escrito na testa, as letras UNO do lado direito de seu nariz e as letras OCHO do outro lado. Desenhos tribais forram o restante de seu rosto, de modo que não há nenhum centímetro de pele à mostra.
Pulga olhou abaixo, para a mãe de Nico, que estava sentada no chão de terra, com as pernas dobradas por baixo do corpo.
— Cadê o meu dinheiro, sua puta?
— Eu não tenho.
— Não tem? — perguntou Pulga. — Bem, é bom você arranjar.
— Vou arranjar.
A voz dela estava trêmula.
Pulga agachou na frente dela. Magro, com músculos definidos, ele a segurou pelo queixo, obrigando-a a olhar para ele.
— Puta, tenha o meu dinheiro amanhã, ou eu vou tirar essa grana da sua boceta, do seu cu, da sua boca.
Ele viu um lampejo de raiva nos olhos de Nico.
— O que foi, bichinha? — perguntou Pulga. — O que vai fazer? Vai me impedir? Talvez você possa chupar meu pau, deixar bem duro pra sua mami.
Nico ficou com vergonha, mas grudou na parede, um pedaço de outdoor que eles tinham encontrado no lixão.
Pulga disse:
— Você quer que sua mãe se divirta, não?
Nico olhou pro chão.
— Responda, hijo — mandou Pulga. — Você não quer que sua mami se divirta fodendo comigo?
— Não.
— Não? — disse Pulga. — Com que pau mole ela trepou pra fazer você? Ela não se divertiu, não foi?
Os insultos machucam o coração de Nico. Ele tinha quatro anos quando seu papi morreu, e eles o enterraram no Muro das Lágrimas, uma parede com pequenas criptas, acima do penhasco perto do lixão, que parece um prédio de apartamentos, um em cima do outro. Nico e sua mãe precisam arranjar vinte dólares por ano para manter os restos dele ali. Se alguém não pagar, ou nem puder colocar um morto lá, eles atiram o corpo lá embaixo, na ravina abaixo do muro.
Nico não pode deixar que seu papi seja jogado no vale dos Mortos. Lá é o pior lugar do mundo.
Nico se lembra de seu papi e o amava, e agora o mara estava dizendo
coisas terríveis.
— Eu lhe fiz uma pergunta — disse Pulga.
— Eu não sei.
Pulga riu.
— Nico Rápido, é como lhe chamam, certo? Porque você é veloz? — Sim.
— Está certo, Nicky Veloz — disse Pulga. — Eu voltarei amanhã e é
bom que vocês tenham a porra do meu dinheiro.
Então, ele foi embora.
Nico desencostou da parede e foi abraçar sua mãe. Ela é jovem e bonita,
ele sabe que Pulga a quer, vê o jeito como os mareros olham para ela.
Ele sabe o que eles querem.
Assim como sabe a história de sua mãe.
Ela tinha quatro anos, quando o PAC chegou ao seu vilarejo, no interior
do país maia, procurando insurgentes comunistas que não encontraram. Enfurecidos, eles agarraram os camponeses, aqueceram fios em fogueiras e enfiaram na garganta deles. Fizeram as mulheres cozinharem café da manhã e forçaram-nas a assistir, enquanto ordenavam que os pais matassem os filhos e os filhos matassem os pais. Os que se recusavam, eles encharcavam de gasolina e ateavam fogo. Depois, eles violentaram as mulheres. Quando acabaram com as mulheres, eles começaram a fazer isso com as menininhas.
A mãe de Nico era uma delas.
Seis soldados a violentaram e a deixaram catatônica, e ela foi uma das
que teve sorte. Outras, eles violentaram e penduraram em árvores, esquartejaram com machadinhas, ou estouraram suas cabeças nas pedras. Ela viu quando eles cortaram a barriga das grávidas e arrancaram os bebês de seu útero.
Esses PAC eram a milícia civil, eles mesmos eram quase crianças, criados nas mesmas vilas maia, depois brutalizados e drogados pelos Kaibiles — forças especiais treinadas pelos EUA, em sua guerra global contra o comunismo — para se tornarem animais. Depois da Guerra Civil da Guatemala, alguns foram para os EUA, onde encontraram racismo, desemprego e isolamento, e nenhuma ajuda para a psicose que levaram consigo. Alguns foram para a cadeia e formaram gangues como a Mara Salvatrucha e a Calle 18.
Os cruéis maras foram concebidos em uma guerra apoiada pelos americanos, e nasceram nas cadeias dos EUA.
Quando o PAC deixou a vila, a mãe de Nico era uma das doze pessoas que restaram vivas.
Doze de seiscentas.
Como milhares de outras maias, ela migrou para a cidade.
Agora, Nico tem que chegar antes de La Buitra ao caminhão de Cayalá. Não, ele pensa, não fique na frente dela, onde ela pode vê-lo. Fique atrás dela, observe o que ela vê, então, agarre em um golpe só, no último segundo, antes que ela pegue.
Se ela é o abutre, pensa ele, você é o falcão.
La Buitra, conheça Nico Rápido, El Halcón.
Curvando-se abaixo para ficar ainda menor, ele se espreme por entre a multidão, olhando em meio às pernas, ao redor dos braços, de olho em La Buitra, enquanto ela vai empurrando e abrindo caminho até o caminhão de Cayalá.
O caminhão para, a caçamba sobe e inclina, e o gemido hidráulico parece uma mula mecânica ao despejar o lixo. La Buitra se aproxima, sacudindo os quadris com determinação, os cotovelos voando, trombando nos outros para tirá-los do caminho.
Outros caminhões estão despejando lixo, guayeros caindo por cima da carga como formigas enxameando uma colina. Nico não olha os achados, ele foca apenas em La Buitra e em suas pernas curtas e atarracadas. Ele está intensamente empolgado — o que pode surgir do caminhão de Cayalá? Roupas, papel, comida? Ele fica abaixado atrás dela, mantendo dois outros guayeros entre eles.
Ela chega antes de todo mundo ao caminhão de Cayalá, e então Nico vê.
Um tesouro.
Ripas de alumínio.
Ele pode arranjar quarenta centavos por meio quilo de alumínio. Apenas
1,5 quilos — 1,20 dólar — já seria o suficiente para pagar os pandilleros.
La Buitra vê também, é claro. Sem poder espetá-lo, ela põe a vareta sob
o braço e abaixa para pegar o alumínio.
Nico avança.
Saindo de trás de seu escudo humano, ele dispara por baixo dos braços
estendidos de La Buitra e agarra as tiras.
Ela grita como um pássaro.
Pega a vareta e gira na direção dele, mas ele é Nico Rápido, El Halcón, e
se esquiva facilmente, saindo do caminho. Ela golpeia em reverso, e erra a cabeça dele por pouco, então ergue a vareta para espetá-lo, mas ele sai correndo, segurando as tiras preciosas de metal junto à barriga.
Ele nem desacelera para pôr mais lixo no saco. Precisa ir vender o
alumínio. Depois ele pode voltar e catar mais lixo. Mas primeiro ele precisa sair e arranjar seu dinheiro.
Seu dinheiro, pensa ele.
As palavras são uma canção em sua cabeça: meu dinheiro. O sorriso não sai de seu rosto, enquanto ele se imagina entrando no
barraquinho, tirando as notas do bolso e dizendo:
— Aqui, Mami. Não se preocupe com nada. Eu cuidei das coisas. Sou o homem da família.
Talvez eu mesmo vá procurar o Pulga, chegue até ele e diga: — Aqui está a porra do seu dinheiro, seu pendejo de pau mole. Ele sabe que não fará isso, mas é um pensamento feliz e o faz dar uma
risada. Ele abaixa a cabeça e sai trotando em direção ao portão, e então ele vê…
um papel de embrulho do McDonald’s…
branco…
um hambúrguer…
intocado.
Deus, Nico quer esse hambúrguer.
Deus, ele quer.
Ele está com tanta fome e o cheiro é maravilhoso e parece lindo, com
ketchup vermelho e mostarda amarela pingando para fora do pão. Um lanche do McDonald’s — algo de que ele ouviu falar, mas que nunca comeu. Ele quer enfiar na boca e disparar, mas…
Nico sabe que deve vendê-lo a um dos comerciantes de carne, em El Basurero, que vão colocar no ensopado. Ele provavelmente pode conseguir até dez centavos por ele, cinco dos quais pertenceriam a Pulga e à Calle 18.
Mas os outros cinco centavos ele deve dividir com a mãe.
Ele enfia o hambúrguer no bolso.
Sem ver, ele vai esquecer.
Mas não esquece.
Aquilo não lhe sai da cabeça.
Fica ali como um sonho tentador. Ele sente o cheiro do hambúrguer até acima do fedor do lixo, da fumaça pungente, do cheiro de sete mil seres humanos revirando lixo para sobreviver.
Mami jamais saberia, pensa ele, ao chegar ao portão.
Calle 18 e Pulga jamais saberiam.
Mas você saberia, pensa ele.
E Deus saberia.
Jesus veria você comendo o hambúrguer e iria chorar.
Não, pensa ele, venda o hambúrguer e leve todo esse dinheiro para casa, para Mami, tanto dinheiro que ela vai chorar de alegria.
Nico está divagando nesse pensamento feliz, quando a vara o acerta no rosto.
Derruba-o e o deixa desnorteado. Em meio aos olhos lacrimosos, ele vê La Buitra abaixando para arrancar dele as tiras de alumínio.
— ¡Ladrón! — ela grita pra ele. — Bandido!
La Buitra gira mais uma vez a vara e o acerta no ombro, fazendo com ele vire de barriga pra cima.
Ele fica ali deitado, olhando acima, para o céu.
Ou para o que há dele.
Uma nuvem de fumaça.
Abutres.
Nico ergue a mão e sente o sangue em seu rosto. Seu nariz dói muito e ele sente que já está inchando.
Ele começa a chorar.
Ele perdeu o dinheiro.
E Pulga virá esta noite.
Nico fica ali deitado por vários minutos, um garotinho por cima de um monte de lixo. Ele quer ficar ali deitado para sempre, desistir e apenas morrer. Está tão cansado e dizem que a morte é como o sono, e seria tão bom dormir.
Seria bom simplesmente morrer.
Mas se você morrer, pensa ele, vai deixar Mami sozinha para enfrentar
Pulga.
Ele se obriga a sentar.
Então, se força para cima, com uma das mãos, e fica de pé. Ele ainda
tem o hambúrguer e isso renderá um dinheirinho. Então, pode voltar ao lixão e talvez consiga um pouco mais.
Talvez o suficiente para pagar a dívida com o mara. Ele sai se arrastando para encontrar o homem da carne.
O homem da carne pega o hambúrguer, cheira o embrulho.
— Não presta.
— Não está estragado — diz Nico, achando que o homem quer enganá-
lo.
— Não, não está estragado — diz o homem —, mas o McDonald’s
borrifa óleo em seu lixo, para que não possa ser comido. Não posso vender isso, fará mal às pessoas. Agora, vá embora, vá encontrar algo que eu possa vender.
Nico vai embora. Ele fica se perguntando por que fazem isso. Se não
vão comer, qual é o mal em deixar que outras pessoas comam? É porque elas não podem pagar? Isso não faz sentido.
Faminto, cansado e desanimado, ele volta a entrar sorrateiramente no
lixão. Seu rosto dói muito, o sangue está pegajoso e misturado com ranho. A essa altura, os caminhões dos bairros ricos já terão sido catados, então Nico busca em meio às pilhas de lixo, procurando qualquer coisa que possa vender — um par de meias velhas, papel velho, qualquer coisa.
Ao encontrar o vidro de geleia, ele primeiro cheira, depois passa o dedo
dentro e lambe. É gostoso, doce, mas isso só assanha ainda mais a fome. Ele solta o vidro dentro do saco plástico — talvez consiga alguns centavos por ele.
Sua barriga dói de fome, porém mais pela ansiedade. O tempo está se esgotando e ele não encontrou o bastante para pagar os
mareros, e sabe que não vai encontrar.
— O que você vai fazer? — pergunta Flor.
Ela parte a tortilha e lhe dá metade.
Nico a enfia na boca.
— Não sei.
— Eu queria ter algum dinheiro, eu daria a você. — Ela tem nove anos e parece bem menor. Mas não mais nova — desnutrida e com uma infecção crônica, a garotinha tem a pele amarelada e olheiras profundas. — Pulga vai fazer o que disse.
— Eu sei.
Pulga vai, mesmo, porque ele tem que recolher uma determinada quantia, toda semana, e passar não apenas a seus chefes, na mara, mas à polícia também. Se não fizer ambos, ele está perdido — morto ou preso.
E Pulga precisa se provar — ele ainda nem é um membro integral, Barrio 18, mas um paro — um associado. Ele tem que fazer o dinheiro para passá-lo acima, a um sicário, que passa a um llavero, que depois passa ao ranflero, o chefe da clica, célula local da Calle 18. E o ranflero provavelmente passa a seus chefes, que também precisam pagar a polícia para se manterem no negócio.
É como o mundo é, pensa Nico. Todo mundo passa acima, para alguém. Talvez em algum lugar, bem lá no alto, haja homens que apenas recebam e recebam, mas ele não tem ideia de quem são essas pessoas.
— Pulga vai machucar você também — diz Flor.
Ela já sabe o que os homens fazem às mulheres, o que alguns homens fazem às crianças.
— Eu sei — diz Nico.
— Posso arranjar uma faca emprestada — sugere Flor — e ir lá matar La Buitra.
— Ela já vendeu o metal.
— Então, vou matar o Pulga.
— Não — diz Nico. — Você me arranja a faca e eu mato. Isso é trabalho de homem.
Mas os dois sabem que nenhum deles mataria o gângster, mesmo que pudessem. Mais mareros viriam e a punição seria pior.
— Tem algo que você pode fazer — diz Flor.
Nico sabe.
E ele fica apavorado.
— Está tudo bem. — Flor estende a mão e pega a mão dele. — Eu vou com você.
Depois de esperar o sol baixar no céu nebuloso, as duas crianças descem
ao vale dos Mortos.
Só a descida até ali já é perigosa.
O caminho é estreito, íngreme e lamacento, ladeando um penhasco com
encosta de trinta metros para dentro do precipício. Nico não quer olhar para baixo — ele fica tonto e enjoado. Já ouviu as pessoas fazendo piadas sobre cair da trilha — “Bem, ao menos você vai aterrissar onde é seu lugar” —, mas agora ele não acha engraçado. E seus pés escorregam dentro dos tênis — um velho par de Nikes que ele conseguiu no caminhão de Cayalá, no ano retrasado. É grande demais para ele e as solas estão quase inteiramente gastas, e agora ele vai descendo a inclinação, com os dedos dos pés doloridos de tanto pressionar as pontas.
Ao chegar no fundo do vale, Nico sente ânsia de vômito. Seus olhos, já lacrimejantes, se enchem de água pelo fedor terrível, e ele
luta para segurar o tiquinho de comida que tem no estômago.
Alguns corpos são antigos — só esqueletos, caixas torácicas ocas,
crânios com órbitas vazias. Outros, relativamente frescos, vestidos por inteiro, e Nico tenta dizer a si mesmo que eles só estão dormindo. Pior são os corpos que estão ali há alguns dias — inchados de gases, apodrecendo, repugnantes.
Cachorros famintos flanqueiam Nico e Flor, cautelosos, esperando por
uma chance de atacar uma refeição. Um abutre aterrissa sobre um homem morto, bica um buraco em sua barriga e sai voando com seus intestinos no bico.
Nico se curva e vomita.
Quer sair correndo, mas se força a ficar.
Ele tem que fazer isso, precisa ficar e encontrar algo com que pagar os
mareros. Então, ele pula por cima de cadáveres apodrecidos e esqueletos, procurando algo valioso que outra pessoa possa não ter visto. O chão é capcioso e ele tropeça e cambaleia, às vezes caindo por cima de um corpo, outras, no solo duro.
Mas ele se levanta e continua procurando. Ele se obriga a tocar os
corpos dos mortos, remexer em suas camisas e bolsos, em busca de um trocado, lenços, qualquer coisa que outros saqueadores ainda não encontraram e levaram.
Ele tropeça de novo, cai e aterrissa cego de dor. Ele está cara a cara com um homem morto. Os olhos o encaram com uma expressão acusadora. Então, ele ouve Flor gritar “Nico!” e olha para onde a amiga está ajoelhada, perto de um corpo inchado.
— Olhe!
Ela está sorrindo, enquanto ergue a mão com uma corrente.
É fina, delicada, mas parece de ouro e tem uma medalha na ponta.
— Santa Teresa — diz Flor.
Eles fazem o caminho de subida.
Mais de trinta mil pessoas se aglomeram na ravina ao redor do lixão. Seus barracos são feitos de caixotes velhos, placas, folhas plásticas, velhos pedaços de madeira. Os sortudos têm placas de zinco corrugado como telhado, os sem sorte dormem ao relento.
As ruas — caminhos lamacentos de terra com filetes de esgoto a céu aberto — se entremeiam em um labirinto que Nico e Flor percorrem com facilidade, enquanto se apressam para encontrar o sucateiro que vai comprar a corrente. Agora já está escuro e El Basurero está iluminado pelas chamas acesas em latões de lixo e fogareiros a carvão. Aqui e ali há focos de luz elétrica ilegalmente ligada aos postes de iluminação acima do barrio.
Gonsalves ainda está em sua “loja” — meio container montado de lado e aceso por um “gato” de luz. Ele vê as crianças chegando e avisa:
— Estou fechado.
— Por favor — diz Nico. — Só uma coisa.
— O quê?
Flor ergue a corrente.
— É ouro.
— Duvido. — Mas Gonsalves pega a corrente e segura diante da lâmpada. — Não, é falsa.
Nico sabe que o velho está mentindo. Gonsalves ganhava a vida enganando todo mundo, comprando barato e vendendo caro.
— Por eu ser um homem bondoso — diz Gonsalves —, vou lhes dar oito quetzals.
Nico está arrasado. Ele precisa de doze q para pagar Pulga.
— Devolva — diz Flor. — Herrera nos dá vinte.
— Então, leve ao Herrera.
— Vou levar.
Ela estende a mão.
Mas Gonsalves não devolve a corrente. Ele a olha cuidadosamente. — Acho que posso fazer por dez.
— Acho — diz Flor — que você pode fazer por quinze. Não, Flor, não, pensa Nico. Não force demais uma barganha — eu só
preciso de doze quetzals.
— Você falou que Herrera lhe daria vinte — diz Gonsalves. — É uma longa caminhada até lá.
— Bem, se mais um quetzal lhe poupar a caminhada… — Três — diz Flor. — Treze e é seu.
— Você é uma garotinha danada — diz Gonsalves. — Muito difícil. — Herrera me adora.
— Aposto que sim.
— Então?
— Eu lhe darei doze.
Aceite, pensa Nico. Flor, aceite. — Doze — diz Flor, olhando além de Gonsalves, para um balcão feito
de compensado, pousado em cavaletes — e aquela barra de chocolate.
— Aquilo vale um q inteiro.
— Nós vamos discutir a noite inteira — pergunta Flor —, ou você vai
simplesmente incluir a barra de chocolate?
— Se eu burlar a mim mesmo dessa maneira — diz Gonsalves —, você
promete que, de agora em diante, só vai vender ao Herrera e nunca mais volta aqui?
— Com prazer — diz Flor, enquanto Gonsalves conta doze quetzals e
entrega a ela. — O chocolate?
Gonsalves pega o doce da prateleira e lhe dá.
— Você nunca vai achar um marido.
— Jura? — pergunta Flor.
— Precisamos correr — diz Nico, quando eles saem. Conforme eles atravessam o barrio, Flor arranca a embalagem do
chocolate e dá metade a Nico. Ele devora enquanto eles correm, e o gosto é maravilhoso.
Quando ele chega em casa, Pulga já está lá.
Sua mãe, sentada no chão, está chorando.
— Estou com seu dinheiro — diz Nico. Ele entrega o que deve a Pulga. — Agora estamos em dia.
— Até a semana que vem — responde Pulga, enfiando o dinheiro no bolso. — Então, eu voltarei.
— Eu estarei aqui — afirma Nico, tomando coragem.
O homem da família.
Pulga olha pra ele atentamente.
— Quantos anos você tem?
— Dez — responde Nico. — Quase onze.
— Já tem idade suficiente para se candidatar — diz Pulga. — Quer proteger mi barrio, não quer? Eu poderia utilizar um garoto veloz para entregar pacotes.
Drogas.
Crack, cocaína. Heroína.
Pulga diz:
— Está na hora de fazer seu dever com a mara, Nick Veloz. Hora de se tornar Calle 18.
Nico não sabe o que dizer.
Ele não quer ser um marero.
— Sente-se — manda Pulga. Ele saca a faca. — Eu disse pra sentar.
Nico senta.
— Estique as pernas.
Nico estica as pernas à frente.
Pulga segura a lâmina no braseiro de carvão até ficar vermelha de tão quente. Então, ele agacha na frente de Nico, agarra sua perna esquerda e pressiona a lâmina na carne, acima do tornozelo.
Nico grita.
— Fique quieto, seja homem — diz Pulga. — Você grita como uma menina, eu o trato que nem menina. Está entendendo?
Nico assente. As lágrimas escorrem em seu rosto, mas ele mantém os dentes cerrados, enquanto Pulga queima o “XV” e o “III” em seu tornozelo.
O cheiro de carne queimada enche a cabaninha.
— Eu voltarei — afirma Pulga, levantando. — Para sua surra de ingresso. Não fique tão assustado, Nick Veloz, são apenas dezoito segundos. Um garoto durão como você pode aturar, não? Você aguentou isso, pode suportar aquilo, não?
Nico não responde. Ele engole um grito.
— Eu voltarei — repete Pulga.
Ele sorri para a mãe de Nico, faz um som de beijo e sai. Nico cai de lado, segurando o tornozelo, e chora. — Ele voltará — diz a mãe de Nico. — Vai obrigá-lo a juntar-se a eles.
Se os Números não fizerem isso, as Letras farão.
Os “Números” são Calle 18 e as “Letras” são Mara Salvatrucha. Nico sabe que ela está certa, mas não quer ir embora. Ele chora. — Não quero deixar você.
O que ela fará sem ele?
Para lhe fazer companhia, para acordá-la quando ela grita dormindo,
para ir ao lixão e encontrar coisas que lhe deem dinheiro para comer?
— Você precisa partir — diz ela.
— Eu não tenho para onde ir.
Ele tem dez anos e nunca saiu de El Basurero. — Você tem um tio e uma tia em Nova York — diz a mãe. Nico está perplexo.
Nova York?
El norte?
São milhares de quilômetros de distância, passando pela Guatemala,
cruzando o México inteiro, e ainda vários quilômetros dentro dos EUA.
— Não, Mami, por favor.
— Nico…
— Por favor, não me mande embora — pede Nico. — Prometo ser bom,
eu vou melhorar. Vou trabalhar com mais afinco, encontrar mais coisas…
— Nico, você precisa ir.
Sua mãe conhece os fatos.
A maioria dos mareros morre de forma violenta, antes de completar
vinte anos. Ela quer o que qualquer mãe quer — que seu filho viva. E para isso, está disposta a abrir mão dele para sempre.
— Na primeira hora da manhã — diz ela —, você irá. Só há um meio de ir.
No trem que chamam de La Bestia.
A besta.
Nico está deitado no capim, perto da linha do trem.
Ele não está sozinho; há dúzias de outras pessoas escondidas no escuro, à espera da chegada do trem. Tremendo — talvez de frio, talvez de medo —, ele tenta não chorar, enquanto pensa na mãe, em Flor.
Ele foi vê-la, ontem à noite.
Para se despedir.
— Pra onde você vai? — perguntou ela.
— El norte.
Ela ficou apavorada.
— No La Bestia?
Ele encolheu os ombros.
— E tem outro jeito?
— Ah, Nico, eu já ouvi coisas.
Todos já ouviram. Todos conhecem alguém que já tentou ir no trem rumo ao norte, passando pelo México, até os EUA. O trem tem muitos nomes — El Tren Devorador, El Tren de Desconocidos, El Tren de la Muerte.
A maioria não consegue chegar.
Eles são pegos pela migra mexicana e mandados de volta no El Bus de Lágrimas, o ônibus das lágrimas. Mas esses são os sortudos — tanto Nico como Flor conhecem pessoas que caíram embaixo do trem e tiveram as duas pernas amputadas, e agora andam de rodinhas, empurrando carrinhos com as mãos.
Algumas morrem.
Ou, pelo menos, isso é o que os garotos imaginam, pois nunca mais têm notícias dessas pessoas. E as crianças ainda conhecem gente que tentou fazer a viagem cinco, seis, dez vezes.
Algumas chegaram até el norte.
A maioria nunca chega.
Flor passou os braços em volta dele e lhe deu um abraço bem apertado.
— Por favor, não vá.
— Eu tenho que ir.
— Sentirei sua falta.
— Também sentirei a sua.
— Você é meu melhor amigo — disse Flor. — Meu único amigo.
Sentados no chão de terra do barraquinho dela, eles se abraçaram por um bom tempo. Nico sentiu as lágrimas dela em seu pescoço. Finalmente, ele recuou e disse que precisava ir embora.
— Por favor, Nico! — insistiu Flor. — Não me deixe! Ele a ouvia chorando, enquanto seguia pela rua. Agora ele está deitado no capim, vira a cabeça e olha o garoto deitado a
seu lado. O menino é mais velho, tem talvez uns quatorze ou quinze anos, é alto e magro, com um pulôver branco, jeans e um boné de beisebol dos New York Yankees bem baixo, na cabeça.
— Essa é sua primeira vez — diz o menino.
— Sim — responde Nico.
O menino apenas ri.
— Você tem que correr depressa. Eles aceleram para que a gente não
possa subir. Vá para a escada no vagão da frente; se você não conseguir, talvez consiga no de trás.
— Está bem.
— Se você cair — diz o garoto —, tome impulso, o máximo que puder,
para que suas pernas não caiam embaixo do trem, ou…
Ele faz um gesto de cortar as pernas.
— Está bem.
— Meu nome é Paolo — diz o menino.
— Eu sou Nico.
Ele ouve o trem se aproximando, chocalhando nos trilhos. As pessoas
começam a se movimentar, levantar da grama molhada. Algumas carregam sacolas, outras, sacos plásticos, algumas não têm nada. Nico está com um saco plástico de mercado — dentro há uma garrafa de água, uma banana, uma escova de dente, uma camiseta e um pedacinho de sabonete. Ele está com uma jaqueta velha, sua camiseta do Messi e seus tênis furados.
— Amarre esse saco no cinto — Paolo lhe orienta. — Você vai precisar
das duas mãos. E amarre a jaqueta em volta da cintura.
Nico faz o que ele diz.
— Certo — diz Paolo, levantando, mas ainda agachado —, siga-me. O trem chegou — um longo trem de carga com talvez uns dez vagões e
um funil de enchimento. O motor ronca e a fumaça sobe, conforme ele acelera.
— Venha! — grita Paolo.
Ele sai correndo.
Nico tem dificuldade em acompanhar o garoto atlético de pernas
compridas, mas faz o melhor que pode e diz a si mesmo: Você é veloz. Você é Nico Rápido. Você consegue fazer isso. Você consegue pegar esse trem. Por todo lado à sua volta, as pessoas estão correndo para o trem. A maioria são garotos adolescentes, mas há homens adultos e algumas mulheres. Algumas famílias, com menininhas e menininhos.
Ele corre pela margem até os trilhos e se assusta com o ruído de metal passando voando por ele. Paolo salta, agarra a escada na frente de um vagão de carga e se alça acima, enquanto Nico corre e tenta acompanhar. Ele acha que não vai dar, mas Paolo estica a mão abaixo.
Nico agarra a mão dele. Paolo o impulsiona até a escada.
— Segure firme! — grita Paolo.
Olhando para trás, Nico vê um homem mais velho tropeçar e cair.
Algumas pessoas conseguiram subir no trem, enquanto outras ficam para trás, desistem e param.
Mas eu consegui, pensa Nico. Nada pode deter Nico Rápido.
Paolo começa a subir a escada em direção ao teto do vagão.
— Venha!
Nico começa a segui-lo, então ele vê…
Flor.
Correndo para o vagão.
Ela está gritando, com os braços estendidos.
Em um lampejo, Paolo entende tudo.
— Deixe-a!
— Não posso! Ela é minha amiga!
Ele começa a descer a escada de volta.
Flor corre em direção a ele, mas ela está fora de alcance e ficando pra trás.
— Venha! — grita Nico, estendendo a mão.
Ela tenta pegar a mão dele.
Não consegue.
Nico desce até a argola e se estende para fora; seu corpo está a um palmo dos trilhos abaixo, que passam cada vez mais velozes. Sua pegada na escada está afrouxando, conforme ele tenta estender novamente a outra mão.
— Eu pego você!
Flor salta.
Ele sente as pontas dos dedos dela, desliza a mão abaixo e agarra seu punho quando ela pula.
Por um segundo, ela fica suspensa no ar, pouco acima das rodas
esmagadoras.
Nico não aguenta continuar segurando.
Ou ela ou a escada.
Ele começa a cair, mas continua segurando a mão dela, então… Nico sente que está sendo puxado acima.
Os dois estão sendo erguidos.
Paolo tem uma força imensa, puxa os dois escada a cima com músculos
retesados e grita:
— Agora venham!
Eles vão atrás dele até o alto do vagão, quatorze pés acima do solo. Está lotado lá em cima.
As pessoas estão sentadas e agachadas, segurando onde podem. Paolo
abre um espaço para que eles sentem, depois diz a Nico:
— Eu falei para deixá-la. Garotas são inúteis. Só problema. Ela tem
comida? Dinheiro?
— Tenho duas mangas — diz Flor —, três tortilhas e vinte q. — Acho que já é alguma coisa — fala Paolo. — Quero uma tortilha, por
ter salvado sua vida.
Ela tira uma tortilha do saco e entrega para ele. Ele devora e diz:
— Eu já fiz essa viagem quatro vezes. Da última vez, cheguei até os
EUA.
— O que aconteceu? — pergunta Nico.
— Eles me pegaram e me mandaram de volta — responde Paolo. —
Minha mãe está na Califórnia. Ela trabalha para uma moça rica. Desta vez, eu vou conseguir.
— Nós também — diz Nico.
Paolo olha pra eles.
— Duvido.
Porque para chegar aos EUA, eles precisam atravessar o México.
A ferrovia segue a oeste atravessando a região montanhosa da Guatemala, depois faz uma conversão acentuada ao norte, rumo à fronteira.
Nico não entende isso direito, seu conhecimento de geografia
basicamente acaba na periferia de El Basurero. Ele nunca saiu do interior, nunca viu essas pastagens, os vilarejos, os pequenos ranchos. Para ele, até agora, enquanto fica sentado no alto do vagão com Flor e Paolo, isso é uma grande aventura.
Ele está morrendo de fome, mas já se acostumou com isso.
A sede é algo novo, mas as pessoas passam a água que têm, geralmente, em velhas garrafas de refrigerante, e uma vez, quando o trem para por alguns minutos perto de uma vila, Paolo salta e implora para que os agricultores lhe deem água.
— Vai ser diferente no México — ele lhes diz, ao subir de volta. — Eles não gostam da gente por lá.
— Por que não? — pergunta Flor.
— Simplesmente não gostam — diz ele.
Não há muito que fazer em cima de um trem, além de olhar a paisagem e conversar, e se segurar, quando os trilhos viram para um lado ou outro, ou abaixar, quando há galhos a caminho. Nico começa o ritual de gritar “¡Rama!” quando eles veem um galho — é como um jogo.
Paolo é quem fala mais, assumindo o papel de veterano experiente.
— A primeira coisa que precisam saber é: — diz Paolo — não confiem em ninguém.
— Estamos confiando em você — diz Flor.
— Eu sou diferente — responde Paolo, um pouco irritado. — Não confie nos homens, eles fazem coisas com garotinhas, sabe o que eu quero dizer? — Não entre em vagões fechados, principalmente com os homens. Às vezes, a migra entra também e tranca todo mundo. Paolo é uma fonte de informação.
Eles terão que descer do trem, ao chegar à fronteira, pois a polícia mexicana estará aguardando no posto de controle. Há um rio entre a Guatemala e o México, e eles vão precisar de dinheiro para pagar alguém que os leve até o outro lado, em uma balsa.
— Eu não tenho dinheiro nenhum — diz Nico.
— É bom você arranjar algum.
— Como? — pergunta Nico.
— Peça esmola. — Paolo dá de ombros. — Roube. Você sabe bater carteira?
— Não — diz Nico.
Paolo olha para Flor.
— Às vezes, eles deixam que uma menina pagar pegando no pau deles, mas, se eu fosse você, não faria isso.
— Não se preocupe, não vou fazer.
Mas vocês não vão querer gastar tempo demais na travessia do rio,
Paolo lhes diz, porque a cidade onde terão de esperar é lotada de gente ruim: ladrões, gângsteres, traficantes de drogas, pervertidos. Alguns deles são pessoas que tentaram fazer a viagem no La Bestia, mas simplesmente desistiram — já foram vítimas, um dia, e agora perambulam pela cidade à espreita de outras pessoas.
— Você só está querendo nos assustar — diz Flor. Paolo dá de ombros de novo.
— Só estou lhes contando. Vocês fazem o que quiserem. Nico está com medo, mas o pôr do sol é lindo. Ele nunca tinha visto um crepúsculo sem ser obscurecido pela névoa ou
pela fumaça do lixão. Agora ele olha para os tons radiantes de vermelho e laranja, como se o mundo fosse assim. É tão lindo.
Quando fica tudo preto, ele vê as estrelas.
Pela primeira vez na vida, Nico vê as estrelas. Flor divide uma tortilha e uma manga com ele, e Nico começa a se
sentir sonolento. Mas tem medo de pegar no sono. O teto do vagão é abaloado em ambos os lados e seria fácil escorregar para fora. Então, ele ouve uma cantoria. “El Rey Quiché” começa alguns vagões para trás, mas depois se espalha até a frente do trem, conforme os migrantes cantam para manter uns aos outros acordados.
Nico entra no coro.
Depois Flor.
Eles cantam e aplaudem e riem e é o momento mais feliz que eles
tiveram no dia inteiro, talvez o mais feliz que já tiveram na vida. Quando a música termina, alguém começa “El Grito” e depois “Luna Xelajú”, e a cantoria vai sumindo e Nico sente-se balançar, quase caindo do trem.
— Pode recostar em mim — diz Paolo. — Não vou dormir. Nico pega no sono. Ele não sabe por quanto tempo dormiu, quando
Paolo lhe dá um cutucão e avisa:
— A fronteira. Temos que descer.
Grogue, Nico pega a mão de Flor e eles seguem Paolo escada a baixo. A
maioria dos migrantes desce do trem, como gelo derretendo de um telhado de metal, e o fluxo segue aos arbustos que margeiam os trilhos.
A área parece um cortiço de migrantes — restos de plásticos de
forração, pedaços de papelão, meias rasgadas, roupa íntima, garrafas furadas.
Fede a urina e merda.
Nico e Flor encontram um pedaço de papelão e deitam nele. Aconchegam-se para se manter aquecidos. Exaustos, eles pegam no sono rapidamente, mas dormem só um tempinho, pois precisam arranjar dinheiro para pagar a travessia do rio.
Mas quando eles levantam, Paolo sumiu.
— Onde está ele? — pergunta Nico.
— Não sei — diz Flor. — Ele nos deixou.
Adentrando a cidadezinha, eles veem prostitutas em pé nas portas, outras crianças recostadas em paredes pedindo esmola com tigelas no colo, homens que os observam como coiotes famintos.
A música entoa saindo de uma cantina aberta e eles entram.
A bartender, uma velha de cabelos pintados de vermelho, grita ao vê-los:
— Saiam, seus nojentinhos! Nada de pedir esmola aqui!
Eles saem correndo.
Caminham pela rua, até mais adiante.
Há um velho sentado em uma cadeira de junco, em um beco. Ele fuma um cigarro, segura uma cerveja na outra mão, e encara Flor abertamente. Então abre o zíper de sua braguilha, bota o pau para fora e mostra a ela.
— Vou dar uma surra nele — diz Nico.
— Não, eu tenho uma ideia — fala Flor.
Ela olha de volta para o velho e sorri.
— O que está fazendo? — pergunta Nico.
— Só fique preparado — diz ela.
Ela o deixa ali parado e vai até o velho.
— Quer que eu pegue?
— Quanto?
— Cinco q — diz ela.
— Está bem.
— Então me dá o dinheiro.
— Pega primeiro — diz o velho.
O rosto dele tem pelos brancos esparsos, seus olhos estão remelentos.
Ele está bêbado.
— Está bem — diz Flor — Abaixe as calças.
Ele levanta, afrouxa o cinto, olha em volta e abaixa as calças de sarja
sujas até os joelhos.
Mais rápido que um raio, Nicky Rápido chega, enfia a mão no bolso do
velho e tira dinheiro. Notas.
— Corra! grita — Nico.
Ele agarra a mão de Flor e eles disparam pela rua. O velho grita e tenta
ir atrás deles, mas tropeça e cai.
As pessoas olham.
Ninguém tenta pegá-los.
Nico e Flor riem, enquanto correm para fora da cidade, adentrando
algumas árvores.
— Quanto nós conseguimos? — pergunta ela. — Doze q! — diz Nico.
— É o suficiente!
Não é difícil encontrar o local da travessia do rio; eles apenas seguem o
fluxo de migrantes. Alguns caminham, outros vão sentados em triciclos pedalados por crianças. Nico e Flor caminham, pois eles não querem gastar o dinheiro.
Paolo está na margem.
— Conseguiram o dinheiro? — pergunta ele.
— Sim — diz Flor.
— Como?
Ele olha com uma expressão engraçada para os dois quando eles caem
na gargalhada.
— Deixa pra lá. Venham, precisamos seguir em frente. Deem o dinheiro
pra mim.
— Por que deveríamos lhe dar o nosso dinheiro? — pergunta Flor. — Porque vão enganar vocês — diz Paolo. — A mim, não vão enganar. Eles dão o dinheiro a ele, que segue para falar com um grupo de homens
próximos a uma balsa feita de placas de madeira amarradas a tubulações antigas. Eles ficam olhando, enquanto ele negocia, acenando os braços, sacudindo a cabeça, mostrando o dinheiro e depois guardando de volta. Finalmente, ele dá parte do dinheiro e caminha de volta.
— Está tudo certo — diz Paulo. — Eles vão levar nós três. — Por que estamos pagando a sua? — questiona Flor. Nico franze o rosto pra ela.
— Ele está nos ajudando.
— Não confio nele.
Mas Paolo já saiu andando e eles vão atrás dele, até a beirada da água, depois entram lentamente, com a água batendo nos joelhos, e sobem na balsa, que balança com o peso até que eles se equilibrem. Um dos homens sobe por último e rema, levando-os ao outro lado do rio.
Eles descem da balsa e pisam no México.
— Agora nós caminhamos — diz Paolo. — Podemos pegar outro trem saindo de Tapachula.
— O que é Tapachula? — pergunta Nico.
— Uma cidade. Você vai ver.
É uma caminhada de seis milhas, uma estrada pavimentada de uma única faixa, passando por entre os campos e pomares. Os locais apenas encaram, ou gritam insultos, palavrões.
Nico segue pela estrada com o passo arrastado.
Faminto, sedento, cansado.
Paolo segue com eles, passando direto pela garagem dos trens, onde ele vê alguns outros migrantes parando.
— Por que não vamos ali? — pergunta ele.
— Tem muito bandido de gangue — diz Paolo. — É a mara 13 que domina toda essa área.
Ele os conduz até um cemitério.
Fica perto da linha do trem e é um bom lugar para se esconder.
O trem vem cedo.
As pernas de Nico parecem de madeira. Sua mente está enevoada, a boca está seca.
Ele e Flor dormiram atrás de uma lápide. Nico sonhou com o vale dos Mortos, com corpos saindo do túmulo onde ele estava para agarrá-lo, por ter roubado a corrente de ouro daquele homem.
O cemitério está lotado de gente viva. Eles levantam do chão sob a névoa matinal, enfiam o que possuem em seus sacos ou bolsos, e saem marchando até a linha do trem, como um exército de perdidos.
Arrastando-se sonolentos rumo aos trilhos, eles pisam nas pedras para atravessar um canal de esgoto, depois sobem a lateral do dique, onde ficam agachados e aguardam por um trem que torcem para levá-los ao lar onde nunca estiveram.
O trem acelera ao se aproximar do cemitério.
Começa a agitação.
Nico empurra Flor entre ele e Paolo. O garoto mais velho chega
primeiro à escada e estende a mão abaixo, para ajudá-la a subir. Nico sobe atrás, com dificuldade. Eles arranjam um pequeno espaço para ficar no alto do vagão de cargas e se acomodam para o trajeto.
Não dura muito.
Apenas alguns minutos depois, o trem desacelera, perto de uma estação,
e os maras entram.
Eles sobem no trem, três vagões atrás do vagão de Nico. Ele olha para
trás e vê a comoção, ouve os gritos e berros.
— De onde vocês são? — pergunta Paolo.
— Cidade da Guatemala.
— Eu sei disso, besta — diz Paolo. — De que lugar? — El Basurero.
— Isso é território da Rua 18 — diz Paolo. — Você tem tatuagem? Nico ergue a perna da calça e mostra o XVIII marcado em sua pele. — Se Mara 13 achar que você tem ligação com a Rua 18 — diz Paolo
—, eles vão matar você. É melhor correr.
— Pra onde?
Paolo aponta em direção à frente do trem.
O trem está novamente em movimento. O maquinista havia
desacelerado apenas para deixar que os maras embarcassem, e agora ele acelera para encurralar os migrantes que estão em cima. Nico olha — os gângsteres estão no vagão seguinte e se aproximam.
— Vai! — grita Paolo.
Nico levanta.
Flor também.
— Você, não — diz Paolo. — Você vai atrasar ele. Nico, vai! Nico sai correndo.
A mais de quatro metros do chão, em cima de um trem se deslocando a
65 km por hora, o garoto de dez anos corre em direção à ponta dianteira do vagão e pula um vão de 1,20 m, em direção ao vagão seguinte. Ele aterrissa com força, cai de quatro, depois levanta e tropeça nas pernas de um homem. O homem xinga, mas Nico levanta, olha para trás e vê os maras vindo atrás dele.
Como cães que perseguem algo que corre.
Nico continua em frente, passando por cima de pés, pernas, dedos. Dois maras pulam o vão e o seguem. Ele pula ao vagão seguinte e ao outro, então…
O outro vagão não é um vagão de carga, é um tanque.
O topo é convexo, com curvas acentuadas descendo em ângulo, pelas laterais.
E o salto não é de 1,20 m… é de 2,70 m.
Nico olha para trás, por cima do ombro, e vê os maras vindo. Sorrindo, gargalhando, sabendo que ele está encurralado. Eles estão tão perto que dá para ver as tatuagens em seus rostos e pescoços.
Se ficar, ele vai levar uma boa surra, eles talvez o matem.
Mas se tentar saltar e não conseguir pular os quase três metros, vai cair entre os vagões e será esmagado sob as rodas do trem. Mesmo que consiga, ele pode escorregar na lateral curva e aterrissar nos trilhos.
Não há mais tempo para pensar.
Nico dá alguns passos atrás, corre com toda força e se lança pelo ar.
— Por que aquele garoto correu? — o mara pergunta a Paolo.
— Não sei. Eu não o conheço.
O mara olha abaixo, para Flor.
— E você? Você o conhece?
— Não.
— Não minta.
— Não estou mentindo.
— Ele é Rua 18? — pergunta o mara.
— Não! — responde Flor.
— Achei que você tivesse dito que não o conhecia — diz o mara, encarando-a.
Flor encara também.
— Eu conheço a MS-13, conheço a Rua 18. Aquele garoto não é de nenhuma delas.
Ao redor deles, os maras seguem sistematicamente passando pelos migrantes, roubando dinheiro, pegando roupas, exigindo números telefônicos de parentes que possam enviar mais dinheiro. Eles interrogam os meninos e rapazes — “De onde você é? Você é ligado a alguma gangue? Qual? A nós? À Rua 18?”. Os maras tiram-lhes a roupa, para verificar se possuem tatuagens. O desenho errado impõe uma surra ou talho, antes de o azarado ser arremessado do trem.
— Você tem dinheiro? — o mara pergunta a Flor. — Passa. — Por favor, eu preciso dele.
— Talvez você precise mais de uma boa foda, niña. Ela entrega as moedas que tem. O mara pensa em fodê-la, mesmo
assim, mas conclui que ela é pequena demais, depois dá vários tapas no rosto de Paolo, arranca seu boné dos Yankees e segue adiante.
Nico aterrissa com força.
Seus dedos agarram o metal escorregadio, mas ele escorrega pela lateral
do vagão tanque como um ovo frito deslizando para fora de uma frigideira quente.
Cai com uma batida seca em uma grade sob o vagão. A queda arranca o ar de seus pulmões, mas ele aguenta firme. De
bruços, vê os trilhos passando velozes, ouve o som do ferro zunindo, sabe que está a alguns centímetros de ser esmagado ou cortado ao meio. Uma braçadeira liga a grade ao vagão e ele arrisca estender a mão para atracar, depois se impulsiona até alcançar uma escada no centro.
Ele se agarra ali, recupera o fôlego, e aguenta firme, ofegante de
esforço, medo, dor e adrenalina. Com medo de mover as pernas e acabar caindo, ele se força a fazê-lo. Recua os pés e põe embaixo de si, estende a perna direita e põe um pé em uma argola da escada.
O trem desacelera e deixa os maras descerem, então Nico fica grudado
na lateral do vagão tanque, torcendo para que eles não o vejam, ou que não liguem. Quando o trem começa a ganhar velocidade de novo, ele sobe a escada lentamente, todo dolorido. Há um corrimão contornando o alto da baia de combustível, e ele fica se segurando ali.
O trem de via única segue ao norte, pela Costa Pacífica de Chiapas.
Nico nunca tinha visto o mar e, com a resiliência da infância, ele o acha
emocionante e lindo. As montanhas verdes à sua direita, o mar azul à esquerda, ele se sente em outro mundo.
Meio tonto de fome e calor — a temperatura chega a 40ºC e o sol bate
em cima dos vagões do trem, fazendo o metal parecer um fogareiro —, Nico está em estado alucinógeno, olhando as bananeiras e cafezais, como se fosse uma estranha imagem de sonho.
Seu corpo dói.
A queda do trem fez hematomas em suas costelas, que talvez estejam fissuradas. A lateral do rosto está inchada, no local onde colidiu com o corrimão. Ainda assim, ele teve presença de espírito para descer o vagão de combustível, quando viu outros descendo do trem, antes de chegar a um posto de controle do governo, em La Arrocera.
Flor e Paolo o encontraram deitado nos arbustos ao lado da linha férrea, ajudaram-no a contornar o posto de verificação e esperaram com ele, até que viesse o próximo trem de carga, então, ajudaram Nico a embarcar.
Agora ele está sentado no topo do trem, olhando uma onda quebrar como um lápis branco desenhando sobre um pedaço de papel azul.
Flor parte uma tortilha ao meio e lhe dá um pedaço.
— Consegue mastigar?
Nico põe a tortilha na boca e tenta mastigar. Dói, mas ele está com fome e o petisco é gostoso.
— Eu estou esquisito?
— Meio esquisito — diz ela. — Está falando esquisito.
Ele sorri, e isso também dói um pouquinho.
— Esquisito como?
— Como se estivesse sempre de boca cheia — diz ela.
Ele olha em volta.
— É bonito aqui.
— Muito bonito.
— Talvez, algum dia, a gente more no interior — diz Nico.
— Seria legal.
Eles conversam por alguns minutos sobre comprar uma fazenda, ter galinhas e cabras, e plantar coisas, embora não saibam o quê.
— Flores — sugere Flor.
— Não se pode comer flores — diz Paolo.
— Mas podemos olhar pra elas — diz Flor. — E sentir o cheiro delas.
Paolo funga de aversão.
Nico acha a aparência dele estranha sem o boné dos Yankees. O cabelo é curto e picotado, como se tivesse sido cortado com uma faca, ou algo assim, e ele segura um pedaço de papelão acima da cabeça para se proteger do sol.
— Nós poderíamos cultivar milho — diz Nico. — E tomatillos e laranjas.
Paolo sacode a cabeça.
— Eu vou ser dono de um restaurante. Então, vou poder comer tudo o
que eu quiser, sempre que quiser. Frango, batatas, filé…
— Estou comendo um agora — diz Nico. — Ele faz mímica, como se
cortasse um pedaço de bife e enfiasse na boca. — Mmmmm. Delicioso.
Ele nunca provou um bife, mas sua imaginação o faz cerre os lábios e
revirar os olhos em deleite.
Até Paolo ri.
O trem passa por uma porção de lagos volumosos que separam o
continente de uma faixa estreita, depois segue ao norte, distanciando-se da costa, cortando fazendas e passando por vilarejos.
Nico lamenta ter que deixar o mar.
Ele acha que Nova York é perto do mar, mas não tem certeza. Naquela noite, eles descem do trem e entram em uma cidadezinha, em
busca de algo para comer, embora não tenham dinheiro para comprar comida. E é perigoso. Madrinas, civis locais que auxiliam a migra, patrulham os arredores da linha férrea, à procura de migrantes. Às vezes, eles os entregam à polícia, que exige uma propina polpuda para liberá-los. Esses são os sortudos; os madrinas são conhecidos por surrar, estuprar e assassinar outros.
Paolo explica tudo isso pra eles.
— Tem uma casa segura, perto de uma igreja. Se conseguirmos chegar
lá, eles nos darão comida, um lugar pra dormir.
Sob a lua minguante, ele os conduz descendo a margem de um córrego,
distante da estrada de ferro.
Nico vê lanternas à distância, patrulhas dos madrinas procurando
vítimas. Ele anda de cabeça baixa e segue Flor, mantendo a mão nas costas dela, tentando não tropeçar e fazer barulho. Eles saem da margem do córrego rumo à periferia da cidade, onde Nico vê uma igrejinha e, ao lado, uma edificação térrea de cimento.
— É aqui — diz Paolo, parecendo aliviado. — É mantida por um padre,
o padre Gregorio. Os madrinas não entram porque têm medo dele. Ele os ameaça com o inferno.
Eles entram.
Alguns beliches perfilam a parede e há colchões espalhados pelo chão.
Panelas de ensopado e feijão estão no fogão, em fogo baixo. Há tortilhas empilhadas em um aparador. Mais de uma dúzia de migrantes estão ali, dormindo ou comendo.
O padre Gregorio é um homem alto, de cabelos grisalhos, queixo comprido e nariz curvo. Ele fica perto do fogão, com uma concha na mão.
— Venham. Vocês devem estar com fome.
Nico assente.
— Você parece machucado — o padre Gregorio lhe diz.
— Estou bem.
O padre Gregorio se aproxima e dá uma olhada em seu rosto machucado.
— Acho que é bom ver um médico. Posso ir com você até a clínica. Ninguém vai incomodar você, prometo.
— Só preciso de comida, por favor — diz Nico.
— Coma primeiro, depois conversamos sobre isso — responde o padre Gregorio.
Ele enche tigelas de sopa, serve feijão por cima e lhes dá tortilhas.
Agachado no chão, Nico começa a comer.
— Faça o sinal da cruz — cochicha Flor. — Você vai deixar o padre zangado.
Nico faz o sinal da cruz.
A comida está quente e deliciosa. Embora sinta dor ao comer, ele devora tudo. Então, o padre Gregorio se aproxima e pergunta:
— E aquela ideia de ir ao médico?
Vendo Paolo balançar ligeiramente a cabeça, Nico diz:
— Eu estou bem.
— Não sei, não — diz o padre Gregorio —, mas, tudo bem. Todas as camas e colchões estão ocupados, vocês terão que dormir direto no chão. Tem um chuveiro nos fundos, se quiserem tomar banho.
Depois de comer, Nico vai até lá fora e encontra o chuveiro, uma torneira que sai da parede, atrás de uma porta de tábua. A água, mais um filete, não é aquecida, mas morna pelo calor do verão. Ele fica embaixo e usa o caquinho de sabão na saboneteira para se lavar, depois usa uma toalha comunitária, já molhada pelos outros, para se secar da melhor maneira que pode.
Ele toca o lado direito do corpo e se encolhe — há um hematoma enorme — ,então se esforça para levantar o braço e recolocar a camisa. Então, bota novamente o jeans e sai.
Paolo está esperando para usar o chuveiro.
— Ainda bem que você não vai à clínica — diz Paolo. — A migra fica
de olho que nem falcões, e dá rasantes assim que o padre Gregorio vai embora.
— Obrigado por me alertar.
— Você jamais conseguiria sem mim.
— Eu sei.
Nico sai do caminho, para deixar que Paolo entre no chuveiro. Mas, em
vez de voltar lá para dentro, ele senta em um pedacinho de grama para desfrutar do ar e das estrelas. Então, através das frestas, ele vê algo incrível: Paolo está desenrolando uma fita presa em volta de seu peito.
Nico vê os seios de Paolo.
Ele se dá conta de que Paolo é uma menina.
Quando a água para de cair, Nico vê Paolo — ele agora imagina que seja
Paola — cuidadosamente embrulhar a fita bem apartada em volta do peito, escondendo os seios sob a camisa. Quando Paolo sai, ela vê Nico e parece assustada.
— O que está fazendo? — pergunta Paola.
— Só estou aqui sentado.
— Está me espionando?
— Não vou contar, prometo — diz Nico.
— Não vai contar o quê? — questiona Paola, se aproximando dele. —
Você não vai contar o quê?!
— Nada! — diz Nico.
Ele levanta e corre pra dentro da casa.
Mas, deitado ao lado de Flor, mais tarde, ele cochicha em seu ouvido: — Paolo é uma menina.
— O quê? Que besteira.
— Não, eu vi…
— O quê?
— Você sabe. — Ele põe as mãos em concha no peito. — Por que… — Não seja imbecil.
— Ora, por quê?
— Por causa das coisas que os homens fazem às meninas — diz Flor. — Não diga que eu lhe contei.
— Durma.
— Não conte.
— Não vou contar — diz Flor. — Agora durma.
Subitamente, ele está dormindo, e subitamente, é de manhã.
É difícil levantar. As costelas de Nico ardem, quando ele se força a primeiro ficar de joelhos, depois de pé. O padre Gregorio dá a cada um uma tortilha, duas fatias de manga e um copo de água. Enquanto Nico mastiga a tortilha, ele dá uma olhada para Paola, que o encara, depois desvia o olhar.
Alguns instantes depois, Paola diz:
— Temos que ir. Vamos.
Nico está triste por partir, mas não entende o motivo real disso.
Ele não percebe que esse é um dos poucos lugares na vida onde foi tratado com bondade.
Crianças de bicicleta aparecem de repente, nas estradas de terra que percorrem os milharais, depois começam a pedalar ao lado da linha férrea.
Elas sorriem, acenam e gritam olá.
Nico acena e grita em resposta, então as bicicletas seguem velozes adiante e ele as perde de vista. Um minuto depois, ele olha em direção à frente do trem, onde há um punhado de árvores ao lado dos trilhos. Tem algo estranho nas árvores, algo que ele não consegue identificar direito.
São balões, nas árvores? Balões brancos?
Ou são piñatas?
Não, pensa ele, são grandes demais pra isso.
O trem começa a desacelerar.
O que está acontecendo? Nico fica pensando. Ele olha novamente as árvores e percebe que o que ele está vendo são colchões.
Colchões equilibrados em cima dos galhos.
Ele não entende.
Então, ele vê os garotos de bicicleta embaixo das árvores, gritando e apontando para trás, para o trem. Homens levantam dos colchões e começam a pular das árvores, como frutos pesados. Então, o trem para embaixo das árvores e os homens, segurando machadinhas e tacos de madeira, estão em volta, por toda parte. Não são maras — nada de tatuagens, nem cores de gangues, eles só parecem agricultores —, mas são bandidos dormindo nas árvores, até que as crianças locais lhe dissessem que o trem estava a caminho.
Paola grita:
— Corram!
Ela abre caminho em meio a outros migrantes e desce a escada
correndo, pulando da quinta argola. Um bandido agarra Nico pela frente da camisa, mas ele gira, agarra a mão de Flor e a puxa para a escada.
Eles descem e correm para dentro dos milharais. Os talos são mais altos que eles, que mal conseguem ver em volta, mas
Nico pensa ter um vislumbre de Paola correndo por entre a plantação.
Talvez seja Paola, mas Nico não consegue ver direito. Gritos de dor e medo vêm do trem.
Sem fôlego, eles param e agacham, se escondendo em meio aos talos de
milho.
Nico sente o coração disparado, tem medo que os bandidos escutem. Ele
ouve pés amassando os talos e vindo em direção a eles, e cobre os ouvidos com as mãos. Os passos vão se aproximando cada vez mais, e ele não consegue decidir se sai correndo ou fica imóvel e torce para que eles não o vejam.
Ele está paralisado de medo.
Então, ouve gritos.
— Peguei um! Venham aqui! Eu peguei um!
— Me solta! Tire as mãos de mim!
É Paola.
Nico acha que deveria tentar ajudá-la, mas ele não consegue se mexer.
Só consegue ficar sentado e ouvir a luta, as vozes — são quatro, talvez cinco — gritando e rindo, e um deles diz:
— Olhe! É uma garota! Achou que pudesse nos enganar, sua putinha?! Vá ajudar, Nico diz a si mesmo.
Você é Nico Rápido.
Nico, o Veloz.
Nico, o Corajoso.
Vá lutar contra eles.
Mas ele não consegue se mexer. Ele é um menino de dez anos e não
consegue fazer suas pernas se mexerem, quando ouve Paola gritar, enquanto eles arrancam a fita de seu peito. Não consegue se mexer, enquanto os ouve gritando “Segurem a garota!” —, enquanto ouve os gritos e a luta dela, depois a voz dela é abafada pela mão de um homem.
Nico é de El Basurero.
Ele conhece os sons do sexo, conhece os sons de homens transando com mulheres, os grunhidos, os gemidos, os palavrões, e agora ele ouve tudo isso e também ouve o riso e os gritos abafados, e o choro, enquanto eles se revezam sobre ela, usam seu corpo de todas as formas que ele conhece, de sua infância passada em um lixão.
O menino quer ser um herói, quer ajudar sua amiga, quer arrancar os homens de cima dela e salvá-la, mas suas pernas não se movem.
Tudo o que ele consegue fazer é ficar abaixado e ouvir.
Ele está envergonhado.
Então, silêncio.
Só por um momento, e depois Nico ouve os homens indo embora, e ele está envergonhado por estar feliz que eles estejam indo embora sem o terem encontrado, e ele fica sentado e ouve Paola chorando baixinho, batendo os pés na terra.
Alguns minutos depois, ele ouve o barulho do trem.
Flor se mexe primeiro.
Ela rasteja pelos talos do milharal em direção a Paola.
Nico fica sentado por mais alguns segundos, depois vai atrás dela.
Paola está de pé, em uma pequena clareira, com os talos de milho amassados, onde os homens a deitaram. Ela está vestindo o jeans e Nico vê o sangue gotejando pelas pernas dela. Ela se curva e pega a camisa, veste e começa a abotoar. Então, ela os vê e diz:
— Vão embora e me deixem em paz.
Ela vai andando em direção aos trilhos.
Quando eles a seguem, ela olha para trás e grita:
— Eu disse pra me deixarem em paz! Eu estou bem! Vocês acham que essa foi a primeira vez?!
O trem partiu e não há ninguém perto da via férrea, exceto dois corpos — a cabeça de um está esmigalhada e a do outro foi cortada por golpes de machadinha. Tem lixo espalhado em volta — sacos plásticos e garrafas vazias de água — mas tudo de valor foi levado.
As crianças sentam perto da linha férrea e esperam.
Algumas horas depois surge outro trem e eles embarcam novamente na Besta.
O trem segue ao norte, atravessando Oaxaca, em direção a Veracruz.
Paola está sentada sozinha, em silêncio.
Ela não olha para eles, nem fala.
O trem desce e adentra Veracruz e eles passam por campos de abacaxi e
cana-de-açúcar. As pessoas ficam mais ternas — algumas até esperam perto dos trilhos e jogam comida pra eles.
Paola não come, nem quando Flor tenta lhe dar um pouco de comida. O trem atravessa mais montanhas, em Pica de Orizaba. Conforme ele vai cortando as montanhas, o clima causticante vai
esfriando, e Nico e Flor se aninham juntos, tremendo. À noite, o perigo de morrer congelado é bem real e quando amanhece o dia, o sol fraco mal consegue aquecê-los.
É na periferia de Puebla, quando o trem ruma para a Cidade do México,
que Paola enfim fala com eles. Ela levanta, olha para a frente do trem, depois vira de volta para Nico e diz:
— Não foi culpa sua.
Então, Nico avista um cabo de alta tensão à frente e grita: — Abaixe! Paola, abaixe!
Ela não abaixa.
Paola vira novamente para a frente e abre os braços. O cabo bate em seu
peito e ela se torna um clarão de raio no dia ensolarado.
Nico põe o braço sobre os olhos.
Quando ele tira, ela se foi, deixando apenas um leve vestígio de carne
queimada, que rapidamente é soprado pelo vento frio do norte.
O trem para na periferia da Cidade do México.
Mais gangues esperam.
Tão pacientes e convictos quanto abutres, eles pulam nos migrantes,
assim que estes descem do trem, e os fazem pagar para caminhar vinte quilômetros até o abrigo em Huehuetoca.
— Nós não temos dinheiro nenhum — diz Nico. — Isso é problema seu, não meu — responde o gângster. Ele passa os olhos em Flor.
— Tenho essa camisa — diz Nico.
— Messi, hein? — diz o gângster. — Está certo, número dez, dê pra
mim. Deve valer mais que a garota.
Nico tira a camisa e a entrega ao gângster.
Depois, ele e Flor seguem se arrastando até o abrigo.
Os voluntários de lá encontram uma camiseta pra ele. É grande demais e bate quase nos joelhos, mas ele fica feliz em tê-la.
De manhã, ele e Flor caminham de volta à linha do trem. Nico sabe, por falar com os migrantes veteranos no abrigo, que há inúmeras rotas que seguem ao norte, partindo do terminal. A Ruta Occidente vai até Tijuana, a Ruta Centro, até Juárez, a Ruta Golfo, até Reynosa. Ele quer a última, porque é a que leva mais para o leste, a que vai para mais perto de Nova York.
As linhas do lado de fora do terminal são um emaranhado confuso, mas ele finalmente encontra a que acha ser a Ruta Golfo, e eles caminham margeando os trilhos, até encontrarem um lugar seguro onde poderão pular a bordo, então ficam esperando o trem.
A chuva foi intermitente, mas agora parou e o céu tem um tom de cinza perolado.
— O que vamos fazer quando chegarmos à fronteira? — pergunta Flor.
Nico sacode os ombros.
— Atravessar o rio.
Embora ele não saiba como eles farão isso. A essa altura, ele ouviu histórias — das pessoas que se afogam, dos “coiotes” que exigem dinheiro para atravessá-las, da migra americana que fica esperando do outro lado.
Ele ainda não sabe como eles vão atravessar, só sabe que vão, e não faz sentido ficar se preocupando com isso ainda, porque primeiro eles precisam chegar lá.
Mais oitocentos quilômetros na Besta.
— E depois? — pergunta Flor.
— Eu vou ligar para os meus tios — diz ele. O número do telefone está escrito no elástico da cintura de sua cueca. — Eles nos dirão o que fazer. Talvez nos mandem bilhetes para viajarmos dentro de um trem.
Ela fica sentada quieta, por um momento, depois pergunta:
— E se eles não me quiserem?
— Eles vão querer.
— Mas e se não quiserem?
— Então, nós vamos pra algum outro lugar — diz Nico.
Se meus tios não quiserem ficar com ela, eles não vão me querer, pensa ele. Eles não são donos de Nova York, nós vamos encontrar outro lugar.
São os Estados Unidos.
Tem lugar para todo mundo, certo?
Ele vê um trem chegando.
Aqui há menos migrantes e os trens são diferentes. Eles carregam
menos produtos agrícolas e mais produtos industriais, como geladeiras e carros.
— Está pronta? — pergunta Nico.
Flor levanta.
— Sinto falta de Paola.
— Eu também.
Eles começam a correr ao lado do trem.
A chuva deixou os corrimões de madeira escorregadios e é difícil tomar
impulso com o pé, mas, com a prática, eles se tornaram bons nisso. Nico ainda está meio lento por conta das costelas machucadas e Flor chega na frente dele, para agarrar a escada e ajudá-lo a subir.
Ela sobe no vagão, segura na escada e estende a mão para Nico. Ele se estica para segurá-la e escorrega no piso. Cai de cara.
Levanta e tenta de novo, mas agora a mão dela está mais longe e o trem
começa a ganhar velocidade.
— Nico, anda logo! — grita Flor.
Ele continua correndo, mas o trem é mais veloz. — Nico!
Ela fica pendurada na escada, pensando em pular abaixo, mas o trem
agora está rápido demais e ela se machucaria, e ele acena para que ela siga em frente.
— Eu pego o próximo! — grita ele. — Encontro você na… Mas agora ela está mais longe, ficando pequena, sua voz sumindo,
enquanto grita:
— Nicooooooo…!
Pela primeira vez na vida, o menino está sozinho.
Nico segue no trem sozinho, fica quieto, não confia em ninguém, fala
pouco e, quando fala, é só para perguntar por Flor. Quando ele desce do trem para procurar comida, ele pergunta por ela. Ela não está na primeira parada, nem na seguinte. Ele pergunta por ela nos abrigos, nas clínicas. Não tem nenhuma foto dela, só pode descrevê-la, mas ninguém a viu, ao menos dizem que não.
Ele volta para o trem e segue ao norte.
Solitário, triste, amedrontado.
Ele não faz amigos, nem tenta, pois não pode confiar em ninguém. Além disso, amigos simplesmente desaparecem — em um clarão de raio, em cima de um trem, ou sumindo, a distância.
Enfim, a Besta para.
Nico sabe que ele está em Reynosa, porém, não sabe quase nada além disso. Paola lhe contara sobre um abrigo onde ele poderia pernoitar, antes de tentar a travessia do rio, e ele encontra o caminho até a Casa del Migrante, administrada pelos padres.
Ele recebe uma refeição simples e notícias de Flor.
Ela foi presa, uma mulher lhe diz. Sim, uma garotinha que casa com essa descrição foi levava pela polícia de Reynosa, perto do trem.
— Você viu isso? — questiona Nico.
— Eu vi — diz a mulher.
— O que fazem com eles? — pergunta Nico. — Com as pessoas que eles prendem?
As pessoas que não têm dinheiro para pagar propina.
— Mandam de volta — responde a mulher.
Então, Flor está no El Bus de Lágrimas, seguindo todo o caminho de volta à Cidade da Guatemala, e a El Basurero.
Ao menos ela está viva, pensa Nico, ao menos está segura.
Ele pega no sono no chão de concreto.
O rio Bravo, que os americanos chamam de rio Grande, é largo e marrom. Com ondinhas e redemoinhos.
Nico está em pé na beirada.
Ele não sabe nadar.
Percorreu 1600 quilômetros para chegar até ali e agora não sabe como atravessar esses noventa metros. Os coiotes cobram cem dólares ou mais para levar alguém ao outro lado, e Nico não tem nada.
Agora ele observa os coiotes levando grupos de pessoas ao outro lado, em botes infláveis, e as deixando na vegetação rasteira da margem oposta. As pessoas saem do barco e correm, antes que a migra americana venha pegá-las.
Nico encontra um lugar nos arbustos e espera o sol se por.
Quando a hora finalmente chega, quando a água fica negra, ele caminha quatrocentos metros acima, distanciando-se do restante dos migrantes que esperam para atravessar, e agacha perto da margem. Ele esteve observando esse ponto o dia todo e parece raso — ele viu pessoas atravessando a pé, com varas para equilibrá-las.
Nico tem um pequeno galho.
Quando fica mais escuro e as pessoas atravessando mais acima são
apenas silhuetas, ele caminha abaixo, até a beirada da água, e olha o outro lado. Ele não vê os faróis dos carros da migra, não ouve o ruído dos motores. Esta é uma parte tranquila do rio, um lugar mais estreito, em uma curva, e ele tem certeza de que consegue atravessar, subir a margem e se esconder na vegetação do lado de lá.
Agachado, ele espera pela escuridão e adentra a água preta. Está fria, muito mais fria do que ele esperava, mas ele se obriga a seguir
em frente, sentindo o fundo rochoso com os pés, tentando não tropeçar nas pedras e galhos afundados. Duas vezes, ele quase cai, mas se apoia em sua vareta e continua de pé.
A água fica mais funda.
Primeiro, bate em seus joelhos, depois, na cintura, e só então ele se dá
conta de que as pessoas que ele vira atravessando o rio eram homens adultos, não garotos de dez anos.
A água bate em seu peito e ele sente a corrente puxando, a correnteza
tentando levá-lo rio abaixo.
Ele faz força se lançando e empurrando com as pernas, mas agora a
água está batendo em seu queixo e depois na boca, e então, no nariz, e para respirar, ele precisa andar nas pontas dos pés, e sabe que a parte mais funda do rio é o meio e que depois vai melhorar.
Então, ele cai em um buraco.
Ele fica com água acima da cabeça, o rodamoinho girando lhe arranca a
vareta da mão e já não dá pé, pois seus pés estão escapando de debaixo dele e só há água à sua volta, e ele prende a respiração, porque se resfolegar e puxar o ar pelo qual seus pulmões imploram, ele vai engolir água e se afogar.
Sentindo o fundo, ele empurra com toda força, com os dedos dos pés, e
sobe, inala uma golfada de ar e cai à frente, batendo de cara, entrando na água. Ele bate os braços, conforme a correnteza o arrasta rio abaixo, um rodamoinho que o faz girar e girar, até que ele não sabe mais onde está a margem e há somente escuridão, conforme ele é levado e afunda outra vez e engole água, depois sobe de novo, tossindo, resfolegando, e ele está tão cansado que seus braços nem batem mais, e suas pernas parecem pedregulhos pesados e se recusam a chutar, e seu corpo quer dormir na água que não está mais fria, mas bem quente e a corrente o arrasta até a margem.
Um galho irregular enrosca em sua camiseta. Nico estende a mão e agarra, e se puxa acima, para a areia.
Ele fica ali deitado, engasgado, tossindo, exausto, então sente uma luz em seu rosto.
Uma lanterna.
Nico ouve uma voz.
— Meu Deus, é um garoto.
Mãos agarram Nico pelos braços e o recolhem.
Ele pisca e vê um distintivo.
É a migra americana.