A fronteira

Don Winslow · Capítulo 16 de 25 · parte 1/2

Páginas do PDF

A fronteira

LIVRO 4: Cerimônia de posse

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

LIVRO 4

 

Cerimônia de posse

“E assim, visto a nudez de minha vilania com alguns pedaços roubados dos livros sagrados”

— Shakespeare

Ricardo III, ato 1, cena 3

1

 

Terras Estrangeiras

 

“Anaxágoras disse a um homem entristecido por morrer em terras estrangeiras: ‘A descida ao Hades é a mesma, a partir de todos os lugares’.”

— Diógenes

Washington, DC

Novembro de 2016

 

Na manhã após a eleição, Keller acorda achando que não conhece mais seu próprio país.

Nós não somos quem achávamos ser, pensa ele. De jeito algum, quem eu achei nós fôssemos.

Ele prossegue nos afazeres matinais de modo mecânico. Fica em pé no

chuveiro quente, como se o jato fosse enxaguar dele a depressão (não enxágua), faz a barba, se veste, depois desce e esquenta água para o café.

O que o deprime é a perda de um ideal, uma identidade, uma imagem do

que é esse país.

Ou era.

Que seu país tenha votado por um racista, um fascista, um gângster, um

envaidecido, um exultante narcisista, uma fraude. Um homem que se gaba por atacar mulheres, que debocha de um deficiente, que se aconchega com ditadores.

Um mentiroso manifesto.

É pior que isso, claro.

Keller viu ontem, quando John Dennison subiu ao palanque, e logo atrás

dele estava Jason Lerner, um homem íntimo do cartel, em débito com o cartel. Lerner já foi indicado como “consultor especial” do novo presidente e, como tal, terá acesso livre à segurança nacional, acesso aos assuntos de alta confidencialidade.

O que significa que a Casa Branca, o Departamento de Narcóticos e o

aparato da inteligência nacional foram todos penetrados pelo cartel.

E você tem dois meses, pensa Keller, para impedir isso.

Ele leva uma caneca de café para o andar de cima, onde Marisol está com as cobertas por cima da cabeça.

— Cedo ou tarde, você terá que levantar — ele diz, pousando a caneca na mesinha de cabeceira.

— Não necessariamente.

— Vai passar o resto da vida embaixo das cobertas? — pergunta Keller.

— Talvez sim. — Ela põe o rosto para fora do cobertor. — Arturo, como isso pôde acontecer?

— Não sei.

— Você vai pedir demissão?

— Eu sairia, de qualquer jeito — responde Keller. — É procedimento operacional padrão.

— Mas ela não teria aceitado.

Keller sacode os ombros.

— Você não tem como saber. Todo novo presidente tem direito à sua própria indicação para esse cargo.

— Deixe de ser tão estoico.

— Não é estoicismo — diz Keller. — É desânimo existencial. Eu vou ao escritório.

— Sério?

— É dia de trabalho.

O empréstimo é liberado.

Claiborne obedientemente entrega a papelada.

É imensa.

Parte está em formato de contratos de locação, já que empresas de fachada recebem dinheiro do HBMX e ocupam espaço no Park Tower. E são só de fachada mesmo, pensa Keller: com escritórios vazios, sem nada dentro.

Parte do dinheiro sai em turnê, dando a volta ao mundo, transferida do HBMX para a Costa Rica e Ilhas Cayman, depois para a Rússia, de onde é distribuída a diversos bancos de lá, da Holanda e da Alemanha. O dinheiro então vai para as empresas de fachada, nos EUA, a escritórios de advocacia e fundos de cobertura, antes de finalmente chegar à conta da Terra.

Então, vêm os pedidos de compra para reformas do prédio: janelas, drywall, hidráulica, carpete, materiais de limpeza, itens que são comprados, mas, conforme Claiborne explica, nunca se materializam de fato.

De uma maneira ou de outra, o HBMX transfere 285 milhões para a

Terra.

A Terra quita sua dívida.

A Berkeley recebe dez milhões de comissão.

O bônus de Claiborne é de um milhão.

Keller revisa seu caso potencial.

Ele já tem provas contra Lerner, a Terra e a Berkeley, possivelmente por

duas infrações federais de lavagem de dinheiro. Lerner se incriminou na gravação sobre evitar relatar as exigências que envolvem transações monetárias acima de dez mil (não sacaneia), e há uma instituição financeira envolvida.

Mas a lei 18USC de 1957 é a menor de duas acusações, com pena

máxima de dez anos. A paulada é a lei 18USC de 1956, que duplica a pena e exige uma multa que igualmente dobra o valor da quantia lavada. Mas a de 1956 requer que o réu tenha conhecimento da fonte escusa do dinheiro. Lerner, Claiborne e o restante tinham que saber que os 285 milhões eram provenientes de drogas.

Nós ainda não temos prova disso, pensa Keller. Estamos perto, mas um bom advogado de defesa — e esses caras têm os

melhores — vai detonar o que temos.

Ou melhor, o que não temos.

Não temos Lerner admitindo saber que Echeverría representa dinheiro

de drogas.

Eles terão que mandar Claiborne agir de novo.

Hidalgo está dentro de uma van estacionada perto da Bay View Drive, em Jamestown, Rhode Island, usando um headphone.

Claiborne veio à “casinha” de veraneio de Lerner, do outro lado de

Narragansett Bay, Newport. Lerner tem também uma casa na região dos Hamptons, mas acha que ficou “clichê demais”.

Hidalgo ouve os copos tilintando.

— Essa merda é mais velha que os nossos pais — diz Lerner. — Eu

estava guardando para uma ocasião especial.

— Fico honrado.

— Não, ouça — diz Lerner —, você nos tirou de um buraco fundo e eu sou grato.

— É meu trabalho.

— Acima e além — diz Lerner. — Saúde.

— Saúde — repete Claiborne. — E obrigado por mandar o helicóptero.

— A 95 é um pé no saco de sexta-feira — diz Lerner. — Eu não o faria passar por isso.

Silêncio.

— Então, o que aconteceu? — pergunta Lerner. — Pareceu urgente.

— Eu estou preocupado.

— Você parece preocupado. Com quê?

Vamos, Chandler, pensa Hidalgo. Consegue isso logo. Está um gelo aqui fora.

— Você sabe a procedência do dinheiro do HBMX, certo? — pergunta Claiborne.

— Já fiz negócios com Echeverría.

Cretino arisco, pensa Hidalgo. Não perca o fio da meada, Chandler.

— Então, você sabe que é dinheiro de drogas — conclui Claiborne.

Meu garoto.

— Não tenho certeza disso — diz Lerner. — Nem você.

— Ora, vamos, Jason.

— Vamos você, Chandler — diz Lerner. — Foi você que montou o consórcio. Se alguma procedência for problemática, isso é responsabilidade sua, não minha.

Culhão, pensa Hidalgo. Digam o que quiserem de Lerner, mas esse cara tem culhão. Você tem que forçar a barra, Chandler.

— Se eu cair — declara Claiborne —, não vou cair sozinho.

— O que quer dizer?

— Quer dizer que eu estou lhe informando que é dinheiro de drogas — responde Claiborne.

— Jesus Cristo, você está com um grampo?

Caralho. Não pira, Chandler. Fica frio.

— Não seja babaca.

— Você está?!

— Não!

— Porque se estiver…

— Você acha que eu mexeria com essa gente? — pergunta Claiborne. —

Você sabe quem são eles, sabe o que eles fazem.

Bom trabalho, meu garoto. Você está ficando bom nisso. Botou de volta

nos trilhos, direitinho.

— Sim, eu sei. Você sabe?

Isso sugere ameaça. Conhecimento de culpa inerente. — Eles vão matar a mim e minha família toda — diz Claiborne. — Sim, isso mesmo.

— Eu estou com medo, Jason. Estou pensando em talvez ir à polícia. Lá vamos nós.

— Não faça isso — diz Lerner. — Essa é a última coisa que você vai

querer fazer.

— Se isso for por água abaixo…

— Nós estamos cobertos — afirma Lerner. — Você não entende isso? Se

é dinheiro de droga, se é dinheiro russo, tanto faz, nós podemos mandar encerrar qualquer investigação. Agora somos blindados. Somos intocáveis.

Talvez não, J, pensa Hidalgo. Talvez não, depois de você ser gravado

falando isso.

— Não sei…

— Chandler, eu precisava dessa porra desse empréstimo — diz Lerner.

— Meu sogro precisava dessa porra desse empréstimo. Está entendendo o que eu estou dizendo?

Puta que o pariu, pensa Hidalgo. Puta que o pariu. Silêncio.

— Beba seu uísque e relaxe — diz Lerner. — Vai ficar tudo bem. — Eu espero que sim.

— Eu sei que sim — diz Lerner. — Vou chamar o helicóptero para

buscar você.

— Está bem. Obrigado.

Hugo Hidalgo tira o headphone.

Certo, pensa ele.

Valeu.

— Você foi bem — diz Hidalgo.

Ele tira o microgravador de debaixo da gola de Claiborne, conecta a um

USB e faz o download do conteúdo em seu laptop.

— E se ele me revistasse?

— Ele não encontraria isso.

— E se encontrasse?

— Aí, eu acho que vocês teriam uma daquelas brigas de escola, quando duas piranhas se estapeiam, até que uma fique tonta — diz Hidalgo. — A questão é que ele não encontrou, e agora nós o pegamos numa 1956.

— Acho que ele está desconfiado.

— Claro que ele está desconfiado — responde Hidalgo. — Todos estão desconfiados.

— E agora, o que acontece?

— A gente avisa você — diz Hidalgo. — Continue tocando a vida, até entrarmos em contato. Vá jogar squash, beber uns martínis, velejar, fazer o que vocês fazem quando não estão ocupados nos causando problemas. Entraremos em contato quando precisarmos de você.

— Com certeza vão.

— É bom saber que existem certezas nesta vida, não é?

Keller ouve a gravação.

— Chandler, eu precisava dessa porra desse empréstimo. Meu sogro precisava dessa porra desse empréstimo. Está entendendo o que eu estou dizendo?

É, eu acho que estou, pensa Keller.

Dennison tem interesse na Terra. Interesse que ele não revelou em nenhum formulário financeiro.

Mas será que ele sabe sobre o empréstimo do Park Tower?

Keller honestamente espera que não, mas isso está a um passo de distância. O negócio agora é instaurar um processo contra Lerner.

O problema em mover a acusação contra Jason Lerner, pensa Keller, é encontrar um procurador assistente, um promotor público que assuma o caso.

Assim como ele, os promotores públicos são indicados pela Casa Branca e geralmente “aderem” a cada novo governo. Alguns mantêm seus cargos, muitos não. Mas os casos de acusação são regidos pelos assistentes da procuradoria, e os APs são indicados pelo procurador-geral dos Estados Unidos, como lhe aprouver.

O próximo PG não terá prazer em acusar Jason Lerner.

Nem a Terra.

O próprio Lerner disse isso, “Agora somos blindados. Somos

intocáveis”.

O escroto arrogante talvez tenha razão.

Um assistente da procuradoria terá medo de assumir o caso (seria

suicídio de carreira), e se eu for até um promotor federal com o que sei, pensa Keller, ele ou ela irão direto até Lerner contar tudo.

A ironia disso tudo é brutal — o mesmo procurador-geral que vai

pressionar por penas máximas por posse de maconha vai impedir a acuação de gente que está lavando a maior quantia em dinheiro de drogas no mundo.

Porque eles são ricos, brancos e bem relacionados. Se uma nota de dez pratas trocar de mãos nos conjuntos habitacionais, a

pessoa vai em cana. Mas se alguém transferir trezentos milhões de dólares em Wall Street, vai jantar na Casa Branca.

“Agora somos blindados. Somos intocáveis.” Talvez não, filho da puta.

Talvez não.

A abordagem tem que ser feita cuidadosamente, com muito tato, pois ele só terá uma chance.

E se eu estiver errado em minha intuição, pensa Keller, acabou. Ele

deixa o escritório logo cedo, na sexta, pega o Acela até Nova York e faz o check-in no Park Lane.

O quarto tem uma vista linda do Central Park. A campainha toca.

O procurador-geral do estado de Nova York estende a mão. Ele é alto,

magro, tem cabelos pretos com mechas grisalhas.

— Drew Goodwin.

— Art Keller. Entre.

Goodwin entra e olha a vista.

— Aceita uma bebida? — pergunta Keller.

— Bourbon, se você tiver — diz Goodwin. — Mas o suspense está me

matando. O chefe da Divisão de Narcóticos da NYPD me pergunta se eu posso ter uma reunião secreta com o cabeça do Departamento de Narcóticos. Em seu quarto de hotel. Vão pensar que estou tendo um caso.

Keller serve um Wild Turkey do frigobar. Goodwin pega seu drinque e

senta no sofá.

— Eu preciso de sua palavra — diz Keller — de que o que for dito aqui fica aqui.

— Estamos em Vegas, agora?

— Você não é amigo do novo governo.

— Isso não é nenhum segredo — responde Goodwin. — Sou um liberal, democrata, judeu nova-iorquino básico.

— Você pressionou pelas reformas nas penas por drogas.

— Assim como você.

— E você processou Dennison por fraude.

— Sua assim chamada “universidade” era uma fraude — diz Goodwin. — Não vim aqui para ouvir um resumo da minha Wiki. Aonde quer chegar?

— Preciso de alguém que não tenha medo do novo governo — explica Keller. — Alguém que não deva nada a eles, alguém que não precise manter o emprego. Você atende a todos esses requisitos. Mas você tem laços com Nova York. Recebe doações de campanha dos interesses comerciais da cidade.

— Não vou me submeter a um teste de talentos pra você, Keller — diz Goodwin. — Mullen me disse que você é ponta firme, mas fale de uma vez, ou eu tenho mais o que fazer.

— Preciso de um promotor.

— Você tem milhares de promotores — retruca Goodwin. — É o que se chama Departamento de Justiça.

— Nenhum deles vai aceitar esse caso.

— E você acha que eu vou — diz Goodwin.

— Todos os atos ilícitos ocorreram em Nova York.

Goodwin dá de ombros.

— Então, me apresente.

Keller mostra as gravações.

Goodwin ouve…

— Esteve seguro em Bladen Square, não esteve, León? Esteve seguro no projeto Halterplatz. Está seguro no Park Tower…

— Seu dinheiro é bom como o de qualquer outro, é claro. Se não achássemos isso, não estaríamos sentados aqui. León, você está certo, nós somos velhos amigos e, se eu fiz algo que prejudicasse essa amizade, peço desculpas. Lamento. Entre velhos amigos: eu preciso de você. Se você não participar, vou pedir a execução da hipoteca e perderei a propriedade… —… se i pudermos chegar a um acordo… menos formal, nós estamos

dispostos a lhe dar dois pontos extras, o que o elevaria à terceira posição, no consórcio. Eu prometo, León, o Park Tower será um empreendimento vencedor. Seus garantidores vão ganhar muito dinheiro. Dinheiro limpo…

— E como você mencionou, você está sob análise minuciosa, por conta

de seus contatos próximos. Eu esperaria que, se nós fizermos esse favor a você, como um velho amigo, você nos disponibilizaria alguns desses contatos, caso precisemos de um ouvido para expor nossos pontos de vista.

— Não posso prometer que nossos contatos tomariam ou não

determinadas atitudes… mas você sempre encontrará um ouvido.

— Quem eu estou ouvindo aqui? — pergunta Goodwin. — Jason Lerner.

— Jesus Cristo.

— Ele está falando com León Echeverría — diz Keller —, grande figura

do círculo financeiro e político mexicano. Echeverría montou um consórcio com vários cartéis de drogas para atuar através de um banco chamado HBMX.

— Você não tem a conscientização de Lerner. Keller põe mais gravações.

— Se eu cair, não vou cair sozinho.

— O que quer dizer?

Goodwin para a gravação.

— Quem está falando aqui?

— Chandler Claiborne.

— Eu conheço o cara.

Keller liga novamente a gravação.

— Quer dizer que eu estou lhe informando que é dinheiro de drogas. — Jesus Cristo, você está com um grampo?

— Não seja babaca.

— Você está?!

— Não!

— Porque se estiver…

— Você acha que eu mexeria com essa gente? Você sabe quem são eles,

sabe o que eles fazem.

— Sim, eu sei. Você sabe?

— Eles vão matar a mim e minha família toda. — Sim, isso mesmo.

— Eu estou com medo, Jason. Estou pensando em talvez ir à polícia.

— Não faça isso. Essa é a última coisa que você vai querer fazer.

— Se isso for por água abaixo…

— Nós estamos cobertos. Você não entende isso? Se é dinheiro de droga, se é dinheiro russo, tanto faz, nós podemos mandar encerrar qualquer investigação. Agora somos blindados. Somos intocáveis.

— Não sei…

— Chandler, eu precisava dessa porra desse empréstimo. Meu sogro precisava dessa porra desse empréstimo. Está entendendo o que eu estou dizendo?

Keller para a gravação.

— Acho que eu preciso de outro drinque — diz Goodwin.

Keller serve para ele.

Goodwin pergunta:

— Você sabe o que tem aqui, certo? Sabe o que isso pode causar? Não se admira que você queira um promotor federal para assumir o caso.

— Você pode incorrer pela 47:20 — diz Keller.

O estado de Nova York tem seu próprio estatuto referente a lavagem de dinheiro, uma infração de Classe B, com pena de até vinte anos de cadeia e um milhão de dólares em multa, duplicada se houver envolvimento com drogas.

— Bela jogada, Keller — diz Goodwin.

— Você é um funcionário público eleito pelo estado de Nova York — argumenta Keller. — O governo não pode tocar em você.

— Isso passa uma péssima impressão — diz Goodwin. — Dennison está na sua cola, desde que você assumiu o cargo. Isso vai parecer vingança. O mesmo comigo, eu já fui gravado falando que o novo presidente é um picareta. Quem mais sabe sobre isso?

— Mullen — responde Keller —, um cara do meu pessoal e eu. Só.

— Você quer que vá em cima de algumas das pessoas mais poderosas de Nova York — diz Goodwin. — Eu frequento clubes com gente da Terra, da Berkeley. Eles contribuíram para a minha campanha, seus filhos estudam com os meus.

— Há garotos morrendo por esse estado inteiro — diz Keller. — Seus colegas de clube estão lavando dinheiro de heroína e sabem disso.

— Não seja hipócrita comigo. — Ele olha pela janela, depois pergunta: — Você me mostrou tudo o que tem?

— Quando seus peritos contábeis auditarem o Park Tower — afirma

Keller — eles vão encontrar empresas de fachada, superfaturamentos, notas frias de compra…

— Não tenho dúvidas — diz Goodwin. — E que vantagem você leva

nisso, Keller? Você está saindo. Se fizer isso, vão enforcar você.

— Eles vão tentar.

— Então, por quê?

— Isso faz diferença?

— Sim, faz — insiste Goodwin. — Se eu entrar nessa briga, gostaria de

conhecer o cara que está ao meu lado. Você está a fim de enrabar Lerner, ou nosso novo presidente, ou só quer fazer barulho a caminho da porta?

— Você vai rir da minha resposta.

— Tente.

— Eu sou patriota.

Goodwin fica olhando para ele.

— Eu não estou rindo. Meu avô veio da Polônia. Se eu tivesse conchavo

com esses escrotos, ele me amaldiçoaria do túmulo.

— O que ele diria se você deixasse esses escrotos livres? — pergunta

Keller. — Porque agora, você não pode mais alegar que não sabia de nada.

— Vou precisar de Claiborne — diz Goodwin. — Para validar as

gravações.

Goodwin pousa o copo e levanta. Um sinal claro de que essa reunião

acabou e que tudo o que precisava ser dito foi dito.

Ele assente educadamente para Keller e sai do quarto.

— Vocês não acham que eu vou testemunhar, acham? — diz Claiborne.

— Você acha que não vai? — pergunta Hidalgo. — Nós temos que ir a

júri para mover a acusação formal, e não podemos fazer isso sem seu testemunho.

— Vocês têm as gravações!

— Precisamos que você ateste a validade dessas gravações. — Eu não vou testemunhar — diz Claiborne.

— Então, você vai pra cadeia.

— Você me falou — diz Claiborne —, você prometeu. Que eu só estaria

nos “bastidores”, fornecendo dados para a inteligência. Você não falou nada quanto a testemunhar.

Hidalgo sacode os ombros.

— Olhe o seu acordo. Em troca da imunidade, você concordou em fazer o que nós precisássemos que fizesse. Se pular fora agora, Nova York vai dar prosseguimento à acusação e nós vamos entrar com o processo por lavagem de dinheiro. Então, digamos que você cumpra cinco anos em Nova York; depois que você sair, você começa a cumprir sua pena federal. Aliás, só pra você saber, é preciso cumprir, no mínimo, oitenta por centro de uma pena federal. Portanto, digamos que pegue vinte anos, que não é nada de mais, você cumpriria… bem, você é um cara dos números, faça a conta.

— Você não entende — insiste Claiborne. — Você não conhece essa gente.

Eu não conheço essa gente?, pensa Hidalgo. Essa gente torturou meu pai até a morte.

— Prefiro ir pra cadeia — afirma Claiborne. — Vou ficar com a cadeia.

Ele levanta.

— Senta, Chandler — diz Hidalgo. Keller o instruíra exatamente como lidar com esse momento. — Eu disse pra sentar.

Claiborne senta de novo.

Hidalgo espera até ter a atenção total de Claiborne. Keller ensinou-lhe, Faça com que ele crie o hábito de obedecê-lo, até nas pequenas coisas.

— Vou lhe explicar uma coisa. Você não tem escolha. Nós temos escolhas. Nós escolhemos por você. Se você desistir, acontece o seguinte: nós vamos deixar vazar para Lerner que você é um delator. Lerner vai até Echeverría, Echeverría vai aos amigos do cartel.

Claiborne parece aterrorizado.

— Vocês fariam isso?

— Isso depende de você — diz Hidalgo.

Meu Deus, Keller previu exatamente o que eu diria, o que Claiborne responderia.

Ele fica encarando Claiborne.

Agora, Claiborne não tem nada a dizer.

— Mas, se você ficar — afirma Hidalgo —, se trabalhar conosco, nós vamos trabalhar com você. Vamos prover proteção, uma nova identidade, uma nova vida.

— Como sei que posso confiar em vocês?

— Você não sabe — diz Hidalgo. — Mas, quem mais você tem, em quem pode confiar? Diga-me a lista de candidatos, Chandler. Seus amigos próximos na Terra? Lerner? Echeverría? Ou a pessoa que está sentada com você, neste momento, olhando em seus olhos, prometendo que vai tirar sua família da roubada em que você os colocou? Veja os números; nem uma única pessoa que entrou no Programa Federal de Proteção à Testemunha e permaneceu no programa foi morta. Já com os caras que preferiram a prisão… isso acontece toda hora. E se você escolher isso, sua família estará por conta própria.

— Você não os protegeria?

— Eu, sim — diz Hidalgo —, se coubesse a mim. Mas como é que eu

vou chegar aos meus chefes e justificar uma despesa ilimitada com um cara que simplesmente nos fodeu? Eles iriam rir de mim e me botar pra fora da sala. Sua família não significa nada pra eles.

— Vocês são as piores pessoas do mundo.

— É, nós somos terríveis — diz Hidalgo.

E você estava pouco se fodendo para as famílias das pessoas que

morreram de overdose da heroína paga pelo dinheiro que você lava. Você aceita dinheiro de gente que quebrou as pernas do meu pai, que arrancou a pele do corpo dele e o manteve vivo, com drogas, para que ele sentisse a dor.

Vá se foder.

Foda-se sua casa nos Hamptons.

Foda-se sua família.

— Então, qual vai ser? — pergunta Hidalgo. — Meu trem está vindo.

Não quero perdê-lo. Tenho um jantar com uma garota.

Ele já sabe o que será.

Exatamente como Keller lhe dissera: dê às pessoas a escolha entre uma

opção ruim e outra pior, e elas ficarão com a ruim. Elas vão espernear, gritar, reclamar, mas é como naquelas fases terminais — elas acabam aceitando.

— Você não me dá escolha alguma — responde Claiborne. — Eu farei contato — diz Hidalgo.

Ele levanta e segue rumo à porta que leva até seu trem.

Keller ainda não está morto, mas já estão cortando seu cadáver.

Nos corredores de Arlington, nos escritórios de campo, as pessoas estão

se virando para se adaptar à nova situação, correndo na tentativa de salvarem seus empregos ou encontrarem algo melhor, mudando suas filosofias para se alinharem melhor ao novo governo que desponta.

Keller não pode culpá-las; a sobrevivência é uma reação natural.

Começa com Blair. Ele entra no escritório com cara de dia chuvoso.

— O quê? — pergunta Keller.

Blair olha pro chão.

— Se você tem algo a dizer — fala Keller — diga.

— Você vai embora, Art — anuncia Blair. — Eu tenho que ficar. Tenho um filho na faculdade, outra no primeiro ano do Ensino Médio…

— E você não quer ser transferido para o leste da Mongólia.

— Preciso me afastar de você — diz Blair —, de agora até o momento em que o novo cara assumir.

— Será Howard.

— É o que estão dizendo?

— É o que estão dizendo.

E você sabe que é isso o que estão dizendo, Tom. Do contrário, não estaria aqui.

— Espero que não haja ressentimentos — diz Blair.

— Claro que não — garante Keller. — Então, o que você quer fazer? Quer sair no pau, no corredor? Eu acuso você de ter roubado meu sanduíche da geladeira do escritório…

— Você deve ter algumas coisas em andamento — diz Blair. — Eu só não quero ter nada a ver com isso.

— O que você disse ao Howard?

— Nada.

— O que você vai dizer a ele? — pergunta Keller.

É o que o pessoal dos cartéis faz, quando as pessoas vão presas, pensa Keller. Afirmam que tudo bem passar informação; só nos conte o que vai dizer, para que nós possamos nos organizar.

— Que você está investigando Lerner? — diz Blair.

— Você está me perguntando, ou me contando?

— Acho que estou lhe pedindo permissão.

— Você quer minha permissão pra me foder? — pergunta Keller. — Certo, então bota só a cabecinha. Alerte Howard pra cuidar dos amigos, mas que você não sabe detalhes. Você consegue dormir com isso?

— E você, consegue?

— Eu terei que conseguir, não é? — Keller levanta e Blair entende o

sinal de que a reunião acabou. — Obrigado por todo o seu excelente trabalho e apoio, Tom. Eu realmente agradeço.

— Eu lamento, Art.

— Não lamente.

É para isso que fazem botes salva-vidas, pensa Keller. Espera-se que

somente o capitão afunde com o navio.

Keller chama Hidalgo.

— Blair vai para o lado do mal — conta Keller. — Ele vai falar ao

Howard sobre a Agitador.

— Então, já era.

Keller sacode a cabeça.

— Nós vamos usar isso em nosso favor. Se Howard quer enfiar a cabeça

na forca, nós vamos deixar.

— O que quer dizer?

— Vamos ver pra quem ele conta — explica Keller. — Se chegar a

Lerner, isso irá nos dar uma dimensão da coisa. Nós injetamos veneno, vamos ver até onde vai, pela corrente sanguínea.

— Se Howard vazar isso, é obstrução de justiça. — Limpe tudo o que houver de dados da Agitador — diz Keller. —

Apague tudo dos computadores, leve os arquivos físicos. Quero tudo fora do prédio.

— Falando em obstrução.

— Se você não estiver disposto a isso…

— Eu estou disposto.

— De agora em diante, a Operação Agitador será tocada fora daqui —

afirma Keller. — Quem ainda é leal a nós no setor de inteligência?

Hidalgo levanta alguns nomes.

— McEneaney, Rolofson, Olson, Woodley, Flores, Salerno… — Mande eles criarem uma tonelada de dados insignificantes como

entulho — diz Keller —, passando para Blair. Nada que seja importante passa por ele; vai direto pra você e de você, pra mim. Eles fariam isso?

— Aqueles caras iriam até o inferno por você — responde Hidalgo. —

Tem muita gente que iria…

— Não precisamos de muita gente — diz Keller —, só dos corajosos,

dos poucos dispostos ao suicídio profissional. Eles precisam entender que nós não podemos oferecer nenhuma proteção, a partir de 17 de janeiro.

— Já tem muita gente empacotando as coisas — diz Hidalgo.

— Elabore um bocado de informações falsas — repete Keller — e mande para Blair.

Um teste de eco.

Não demora muito.

Naquela tarde, Howard entra na sala de Keller.

— Veio tirar as medidas para as cortinas? — pergunta Keller.

— Você está escondendo uma investigação de mim? — pergunta Howard.

Blair fez seu acordo.

— Eu não confio em você — diz Keller. — Você usa as informações que recebe pra me derrubar.

— Você criou reinos particulares dentro desta organização — diz Howard —, numa infração direta a nossas diretrizes de transparência, de modo a manter planos pessoais de motivação política que está em conflito com nosso propósito.

— Quem escreveu isso pra você?

— Criar uma operação de bandeira falsa dentro da agência pode até constituir um crime — afirma Howard.

— Você é o advogado.

— Você não sabe com quem está se metendo.

— A qualquer momento que você queira me contar, Denton — diz Keller —, ficarei feliz em ouvir seu depoimento juramentado.

— Para essa caça às bruxas?

— Estamos cheios de rodeios — diz Keller. — Você quer ser específico sobre o que o preocupa? Dar nome aos bois?

Howard não responde.

— Isso é um não? — pergunta Keller. — Então, o que nos resta para conversar?

— Eu quero os arquivos.

— Eu quero um pônei.

— Se eu identificar — diz Howard — qualquer empenho de sua parte para apagar ou remover arquivos antes de sua partida, juro por Deus, eu vou acusá-lo criminalmente.

— Saia daqui — diz Keller. — Antes que eu me incrimine por agressão.

— Fazendo jus ao que é de se esperar — responde Howard. — Como é

mesmo que o chamam? “Keller Matador”?

— Talvez seja bom você se lembrar disso — diz Keller.

Eles se encontram no monumento Washington.

Imperceptíveis, em meio aos turistas.

Está frio, Keller ergueu a gola do casaco e gostaria de ter vindo de

chapéu.

— Eu vou direto ao assunto — anuncia O’Brien. — Você está

investigando Jason Lerner?

— Você está flertando com obstrução de justiça — diz Keller. — Você informou ao procurador-geral sobre essa investigação? —

pergunta O’Brien.

Ele quer descobrir quem sabe sobre Lerner, pensa Keller. Até onde foi

uma potencial investigação, em que nível ele terá que cortá-la.

— Deixe-me perguntar, o que você sabe sobre Lerner? O que incita

essas perguntas? Denton Howard foi vê-lo? Foi ele que o mandou?

— Não sou garoto de recados de Howard.

— Ou foi o próprio Lerner? — pergunta Keller. — Ou foi seu presidente

eleito?

— Se Howard veio a mim — diz O’Brien —, foi por meu papel no

Comitê de Inteligência e, portanto, de forma perfeitamente legítima.

Eles ficam se encarando.

Então, O’Brien diz:

— Se você tem uma investigação em curso sobre Lerner, ou sobre a

Terra, precisa abandoná-la. Agora.

— Não vou confirmar que tenho, ou que não tenho — diz Keller. — Eu

farei o que faço em qualquer investigação. Vou apurar o que for preciso e, se isso me levar a uma acusação criminal, vou passar aos promotores apropriados. Não é política.

— Tudo é política — diz O’Brien. — Principalmente nestes tempos. — Você não sabe do que está falando, Ben. — Ao menos, eu espero em

Deus que não saiba, pensa Keller. — Não sabe o que está me pedindo.

— Sou o presidente do Comitê de Inteligência do Senado — diz

O’Brien. — Se o cabeça do Departamento de Narcóticos está investigando uma potencial ligação entre a Terra e traficantes de drogas, eu devo saber a respeito.

— Parece que você já sabe.

— Eu preciso de detalhes — diz O’Brien. — Preciso saber o que você tem.

— Então, faça uma intimação para uma audiência fechada, e eu vou testemunhar sob juramento.

O’Brien não responde. Ele não vai me levar a um depoimento oficial, pensa Keller, mesmo que seja restrito. Porque haverá outros senadores presentes, alguns deles, democratas.

— Você não quer fazer isso? — pergunta Keller.

— Achei que nós tivéssemos um relacionamento.

— Eu também achei.

Mas você mudou de lado. Você me trouxe aqui para conter a epidemia de heroína e agora se vendeu às pessoas que lavam o dinheiro da droga.

Eu não o conheço mais, Ben.

— Deixe seu cargo graciosamente e vá viver sua vida — diz O’Brien. — Se é dinheiro que quer, Art, nós podemos arranjar um lugar tranquilo para você aterrissar. Há locais de palestras, fundações, você pode pedir seu preço.

— Eu não tenho preço — diz Keller.

— Todo mundo tem um preço.

— Qual é o seu?

— Vá se foder — diz O’Brien. — Vá se foder com sua hipocrisia, sua baboseira católica de mais-sagrado-que-tudo.

— É, está certo.

— Você agora é virgem? — pergunta O’Brien. — Quando foi que pegou seu cabaço de volta? Você jogou esse jogo do jeito mais sujo que qualquer pessoa que eu já conheci. Fez um monte de acordos ao longo da vida, alguns deles comigo. Você sabe que há todo tipo de moeda.

— Redução de impostos? Imigração? O muro?

— Eu não gosto desse filho da puta do Dennison, não mais do que você gosta — alega O’Brien. — Mas ele não está errado em tudo. E você não vai querer ser inimigo dessa gente.

— Já tive Adán Barrera, o cartel Sinaloa e os zetas como inimigos — lembra Keller. — Acha que eu tenho medo “dessa gente”?

— Você vai ser escoltado para fora de seu escritório, segurando uma caixa de papelão.

Primeiro o suborno, depois a ameaça, pensa Keller.

Sinto-me de volta ao México.

— Você não está em posição lançar suas tiradas de alto padrão moral —

diz O’Brien. — Você está com os pés na lama.

— E se eu lhe dissesse — diz Keller — que existe uma preocupação real

de que os cartéis de drogas estejam comprando influência nos mais altos escalões do governo dos EUA?

— Você está me dizendo isso? — Preciso dizer? — pergunta Keller. — Meu Deus, Ben, você me trouxe

pra cá pra ganhar essa guerra…

O’Brien pergunta:

— Você sinceramente acha que alguém quer ganhar essa guerra?

Ninguém tem interesse em ganhar essa guerra, eles têm interesse em mantê-la. Você não pode ser tão ingênuo. Dezenas de bilhões de dólares anuais em cumprimento da lei, equipamento, prisões… isso é um negócio. A guerra contra as drogas é um grande negócio. E isso é a “compra de influência nos mais altos escalões do governo dos EUA”, e sempre foi. Acha que você vai impedir isso? Como seu amigo, eu lhe imploro, deixe passar essa.

— Se não?

— Eles vão destruí-lo.

— Você quer dizer “nós vamos”.

— Está certo — diz O’Brien —, nós vamos destruí-lo. O’Brien vai se afastando, depois vira de volta. — As coisas boas deste mundo não são trabalho de santos. São trabalho

de pessoas comprometidas em fazer o melhor que podem.

Eles seguem em caminhos diferentes.

— Ele é um homem inteligente — diz O’Brien. — Vai fazer a coisa certa.

— Nós podemos correr esse risco? — pergunta Rollins. — Keller foi

um canhão desenfreado durante toda a sua carreira.

O’Brien não gosta de Rollins.

O homem já está na área há muito tempo: ex-integrante das forças

especiais, ex-agente da CIA e agora, um dos veteranos geralmente conhecidos como “operadores”, Rollins trabalhou para uma variedade de empresas de consultoria, em contratos no exterior, para governos, corporações e partidos políticos estrangeiros.

Ele é um consertador.

Agora ele está “consertando” as coisas para a Berkeley.

— Quais são nossas opções? — pergunta O’Brien.

— O homem passou um tempo cuidando de abelhas, num monastério, pelo amor de Deus — diz Lerner. — Ele é instável. Tem preconceito contra o presidente dos EUA, e sua esposa estrangeira é uma conhecida radical de esquerda.

— Art Keller é um herói americano — afirma O’Brien. — Ele dedicou a vida lutando por este país.

— Nós nem sabemos se Keller é cidadão americano — diz Lerner. — A mãe dele era mexicana, não era?

— Essa é sua solução? — pergunta O’Brien. — Uma controvérsia de nacionalidade? Olhe, você pode descreditar Keller o quanto quiser. Mas as provas falam por si, independentemente da fonte. Ele tem provas, Jason? Isso é possível?

— Não vejo como.

— O que eu estou perguntando é se existe base para uma investigação do Departamento de Narcóticos em seus acordos de negócios.

— Eu elaborei um pacote de empréstimo de um banco mexicano — diz Lerner.

— Que tem ligações com traficantes de drogas? — pergunta O’Brien.

— Não perguntei de onde vem o dinheiro deles.

— Encerre isso. Agora.

— O empréstimo já foi feito — diz Lerner. — Negócio concluído.

— Mas que droga.

— Ele pode ter gravações minhas falando com banqueiros mexicanos — diz Lerner. — E daí?

— Que conversas você teve com Claiborne? — pergunta Rollins.

— Muitas conversas.

— Nós temos que presumir que Claiborne estava grampeado — diz Rollins. — Você alguma vez falou sobre dinheiro de drogas?

— Talvez.

— Isso põe você no centro das atenções.

— Que provas esse Keller tem? — pergunta Lerner.

— Esse é o problema — diz Rollins. — Nós não sabemos. Ele ainda não levou nada até a PG.

— Não podemos ir até a PG — sugere Lerner — e mandar que ela instrua Keller a entregar os dados dessa investigação?

O’Brien pergunta:

— Você acha que a atual procuradora-geral vai nos fazer favores? Isso

teria que esperar até a posse e, depois, o novo PG poderia fazer essa exigência.

— Que Keller teria que obedecer.

— Bem, conhecendo Keller — diz O’Brien —, ele provavelmente

mandaria o PG ir se foder.

— Então, nós podemos demiti-lo — diz Lerner. — E de que adiantaria? — pergunta O’Brien. — Ele iria à mídia. — Então, nós o acusamos por conduta ilegal.

— Pra quê, porra? — pergunta O’Brien. — Pro Keller ficar numa cela

ao lado da sua?

— Dê um jeito nisso — diz Lerner.

Ele sai da sala.

A ameaça, o suborno.

No México, eles diziam plata o plomo. Prata ou chumbo.

Na mesma tarde, eles vêm com mais prata.

Howard liga e pede alguns minutos com ele, em seu escritório. — Art — começa Howard. — Você e eu tivemos nossas diferenças,

tanto pessoais como em termos de diretrizes, mas agora eu acho que estamos sofrendo sob o mesmo mal-entendido.

— O que nós entendemos mal?

— Que eu quero seu emprego — diz Howard. — Você não quer?

Howard dá um sorriso de político, tão sincero e franco quanto uma

piranha de vinte dólares, mas sem a ternura.

— Eu conversei com o presidente eleito. Ele expressou vontade de que

você permaneça no cargo.

— É mesmo?

— Ele conhece sua ficha — diz Howard. — Na verdade, ele é seu fã.

Acha que você e ele têm a mesma postura de atirador direto.

— Sei.

— Acha que, com as ideias que ele tem sobre segurança de fronteira e a

paixão que você tem pela interdição das drogas — diz Howard —, vocês dois podem realizar grandes feitos.

— Quando ele teve essa epifania?

— O presidente Dennison está disposto a considerar seriamente algumas de suas ideias referentes à legalização da maconha, reforma do sistema penal e recursos para tratamento — diz Howard.

Quando o diabo vem, pensa Keller, ele vem de mãos cheias. Oferecendo uma opção por “um bem maior”, para que você possa racionalizar o mal. E eu fiz esse acordo, mais de uma vez. E é engenhoso, tentador — pense todo o bem que você poderia fazer, só para deixar para lá a história de Lerner.

— E eu presumo que, com essa nova postura — diz Keller —, os ataques da direita, na mídia, iriam diminuir?

— Acho que posso fazer essa representação — responde Howard.

Agora ele está com a risadinha presunçosa de um vendedor que tem certeza de que fechou a venda.

— Qual é o qui?

— Perdão?

— O quid pro quo? — diz Keller. — Eu imagino que você não esteja me oferecendo isso a troco de nada.

O rosto de Howard fica petrificado.

— Acho que você sabe.

— Também acho.

— Eu não vou entrar bailando em uma armadilha de obstrução, Keller.

— Então baile pra fora.

Howard levanta.

— Eu nunca gostei de você, Keller. Sempre o achei um hipócrita, talvez até um criminoso. Mas nunca achei que fosse imbecil. Até agora. Pense em nossa oferta; você não terá nada melhor.

Aí está a prata, pensa Keller. Qual é o chumbo?

Não demora muito.

— Quando você deixar este escritório — diz Howard — e eu assumir, vou dar início a uma investigação própria sobre certas coisas que aconteceram na Guatemala. Você sabe do que estou falando e sabe que isso vai colocá-lo atrás das grades.

Pôu.

A bala.

A noite dura quarenta anos.

Uma narrativa da insônia, relembrando os quarenta anos lutando essa

guerra.

Quatro décadas atrás, a noite dizia a ele, você estava queimando

papoulas em Sinaloa. Estava salvando a jovem vida de Adán Barrera, que Deus lhe ajude. Adiantando um bocado, com a velocidade de uma noite interminável, há cinco anos, você e Ernie Hidalgo tentavam dizer ao mundo que os mexicanos estavam levando cocaína colombiana através de Guadalajara, mas ninguém lhes deu ouvidos.

Mais filmes de fim de noite: você prendendo Adán, em San Diego, a

esposa dele, grávida, cai enquanto tenta fugir, a filha dele nasce com um defeito. Ele põe a culpa em você. Você e Ernie desvendam o Trampoline Mexicano — pequenos aviões de coca passando da Colômbia para a América Central, até o México e os EUA, abastecendo a epidemia de crack. M-1 ameaça sua família — Althea pega as crianças e vai embora. Ernie seria transferido de lá, mas Adán o agarra primeiro e o tortura para descobrir quem era a fonte, mas não havia fonte — você mentiu que havia, para encobrir um grampo ilegal.

Ernie morre pelos seus pecados.

Você jura derrubar os Barrera.

Você prende M-1.

É descoberto que ele estava financiando a operação da Agência

Nacional de Segurança, em oposição aos contras, na Nicarágua. Parte de algo chamado Névoa Vermelha — uma operação em curso para matar comunistas na América Central. Você poderia ter denunciado isso, mas não o fez. Em lugar disso, você fechou um acordo — como disse O’Brien —, você mentiu ao Congresso sobre a Névoa Vermelha, em troca de uma licença para ir atrás dos Barrera.

Você os pegou.

Não antes que Adán matasse o padre Juan, o melhor homem que você

conheceu na vida. Não antes que você usasse Nora, amante de Adán, para traí-lo.

Você fez algo nojento para atraí-lo ao outro lado da fronteira: disse-lhe

que sua filha estava morrendo. E o algemou do lado de fora do hospital.

O cartel estava com Nora.

Você ia trocar ele por Nora.

Mais filmes — o encontro na ponte.

Sean Callan deveria matá-lo. Ele não matou. Ele amava Nora, Nora o amava.

Você matou M-1.

Depois colocou Adán na cadeia.

Você deveria tê-lo matado ali.

Agora, tente dormir.

Vá em frente.

O filme não deixa, o filme continua.

Você tenta ter um pouco de paz no monastério.

Mas deixaram que Adán voltasse para o México para cumprir sua pena.

Você sabe o que vai acontecer. E acontece. Ele foge. Ele inicia uma guerra para tomar o México inteiro de volta.

Cem mil pessoas morrem nessa guerra.

Você volta lá e o encontra.

Demônios piores surgem — os zetas.

Eles decapitam, destripam, queimam gente viva.

Assassinatos em massa, covas coletivas.

Você conhece Marisol. Você se apaixona por Marisol. Os zetas a metralham e a aleijam. Você se junta a Barrera para destruir os zetas e protegê-la.

Mais sangue, mais matança, mais atrocidades.

Adán arma uma emboscada para os zetas.

Você vai para a Guatemala.

Você mata os zetas.

Você deve trazer Adán de volta, junto com você.

Em vez disso, você o mata.

É o troco, por Ernie, por todos os mortos.

Quarenta anos.

Lutando essa guerra, fazendo o errado, por um bem maior, fechando acordos, bancando Deus, dançando com o diabo.

O sol se levanta.

Um céu de inverno sem graça.

O sol nasce para os viciados, para os homens nas prisões, para as famílias enlutadas, para os rejeitados, para os estressados em abstinência, para os pressionados, para um país que não se reconhece mais.

O sono não vem no dia, como não veio à noite.

Você tem uma escolha a fazer.

Uma decisão.

Fazer outro acordo, dar a eles o que querem.

Deixar Lerner se safar.

Você está sendo um babaca, além disso, um egoísta. Pense no que

poderia fazer com o que estão lhe oferecendo — nos viciados que receberão tratamento, nas pessoas que sairão da cadeia. Você pode fazer um bem monumental, mas vai jogar tudo no ralo, só para botar um escroto como Lerner na cadeia por alguns anos? Isso, presumindo que você consiga, e é um tiro bem difícil de acertar.

Aceite o dinheiro para tratar os viciados, esvazie as celas. Ou.

Lute.

Continue lutando.

Você vai cair, mas vai levá-los junto.

Talvez. Se conseguir.

Talvez possa impedir que eles roubem o país. Se já não o fizeram.

O’Brien liga para Keller.

— As pessoas estão ficando nervosas. Impacientes. Preciso saber o que

dizer a elas.

— Diga-lhes — responde Keller — pra irem se foder.

Claiborne abre a porta para a garota de programa que ele chamou para aliviar o estresse.

Ela entra e três homens entram atrás.

Um deles dá uma coronhada atrás da cabeça de Claiborne. Ele acorda

amarrado à cama, com uma bola de trapo amordaçada na boca.

Rollins está sentado na cadeira do canto e lhe explica as coisas. — Quando eu tirar a mordaça, sr. Claiborne, o senhor irá me dizer tudo

o que revelou. Será minucioso. Se fizer qualquer outra coisa, eu vou matá-lo, vou matar sua esposa e suas duas filhinhas. Pode assentir se entendeu.

Claiborne assente.

Rollins levanta e tira a mordaça.

— Fale.

Claiborne fala.

Em meio ao choro, ele conta tudo.

Rollins crava uma agulha em seu braço.

— Sua família ficará bem.

Ele aperta a seringa.

A morte de Claiborne é veiculada no Times e no Daily News.

BANQUEIRO DO SETOR IMOBILIÁRIO MORTO POR APARENTE OVERDOSE.

Seu corpo é encontrado em uma suíte no Fours Seasons, no chão, onde ele caiu da cama, com a agulha ainda no braço.

O perito legista declara a causa de morte como uma overdose de heroína batizada com fentanil. Ele atribui o hematoma na lateral da cabeça de Claiborne a uma batida no canto da mesa de cabeceira, durante a queda.

Funcionários do hotel contam à polícia que Claiborne era um cliente frequente e que sempre recebia “visitas”, embora nenhum dos funcionários em serviço tenha visto alguma mulher subindo à suíte. Colegas na Terra expressam não ter conhecimento de uso de drogas por parte de Claiborne, embora alguns deles acabem admitindo que já o viram usar cocaína.

Segundo o obituário, o falecido deixou esposa e dois filhos.

Cirello calcula que a melhor defesa é um bom ataque. Darnell vai culpá-lo porque aquele babaca do Claiborne estava grampeado — é mais inteligente que ele estoure primeiro. Então, ele grita para Darnell:

— Vocês mataram aquele cara, seus filhos da puta?!

— Quem é que você chamando de filho da puta, seu filho da puta?! — Darnell grita em resposta. — Você deveria ter garantido que a sala não estava com escuta!

— Se você queria que eu revistasse seus banqueiros — diz Cirello —, deveria ter me dito isso! E eu não me comprometi a matar ninguém!

— Se quiser sair, saia.

— É — diz Cirello. — Eu saio com uma etiqueta de enfeite nas costas. Vá se foder.

Eles estão em um dos cafofos de Darnell, no Harlem.

Sugar Hill.

Darnell não está contente.

— Eles também não me disseram que iriam matá-lo. Só mataram e pronto. Não contam nada pro negão.

Cirello aceita a oferta de paz.

— Seu nome apareceu nas gravações?

— O cara não sabia meu nome.

— Bom, ainda bem — diz Cirello. Eles ficam quietos, por um minuto,

então, ele comenta:

— Claiborne tinha dois filhos.

— Ele estava no jogo, cara.

— Ele sabia que estava no jogo? — questiona Cirello. — Se não sabia, deveria saber.

— E agora? — pergunta Cirello.

— De volta aos negócios — diz Darnell. — Você vai entregar um

dinheiro por mim. Ao meu fornecedor.

— Você tá brincando, porra? — pergunta Cirello. — A Narcóticos tá em

cima do negócio do empréstimo, do consórcio… eles vão encerrar tudo, botar gente na cadeia.

— Eles não vão fazer merda nenhuma — diz Darnell. — Um punhado

de policiais contra a Casa Branca? A Casa Branca ganha.

Ãrrã, isso é o que Darnell pensa.

Branco sempre ganha.

É possível que ele tenha tido uma overdose.

Não, não é, Keller diz a si mesmo. Não se engane. Eles o mataram.

Mas só depois que ele contou tudo. Primeiro eles tiraram todas as

informações dele, deram uma pancada na cabeça e injetaram o pico fatal. E eles sabem que a gravação com ele e Lerner é problemática, diante de um júri, sem Claiborne presente para validar.

Goodwin também sabia. Ligou pro Keller e disse: — Sua testemunha chave se matou?

— Coincidência e tanto, hein?

— Ora, vamos — disse Goodwin. — O pessoal de Lerner é muita coisa,

mas não são assassinos.

— Você ainda pode conseguir um júri para o indiciamento — disse

Keller.

— Talvez — falou Goodwin. — Mas aí, o juiz do julgamento vai

descartar a gravação sem validação de procedência. Mesmo que não o faça, a defesa vai questionar se o júri vai aceitar a palavra de um viciado.

— Você não vai pegar o caso.

— Não há caso para pegar — disse Goodwin.

— E quanto ao caso do assassinato de Claiborne?!

— O legista atestou suicídio! — respondeu Goodwin. — Você sabe como é difícil reverter um…

Keller desliga.

O pessoal de Lerner — que, claro, não são assassinos — mandou fazer o serviço, pensa Keller.

Mas eles cometeram um erro.

Mataram o único homem que poderia identificar Hugo Hidalgo.

Hidalgo está arrasado.

Keller conhece o sentimento — você fica destroçado da primeira vez que perde um cara que vinha manejando.

Não melhora muito com o seguinte, nem com o próximo.

Ele quer dizer a Hidalgo que não foi culpa dele, mas sabe que o garoto não vai acreditar. A única coisa que Keller pode fazer é canalizar a raiva de Hidalgo.

E tentar mantê-lo em segurança.

— Fui eu que fiz Claiborne morrer? — pergunta Hidalgo.

— Você não pode pensar assim — diz Keller. — Foram eles que o mataram.

— Eles não o teriam matado, se eu…

— Não se martirize — interrompe Keller. — Claiborne nunca ligou para nenhuma das pessoas que ele prejudicou.

— E quanto aos filhos dele? — pergunta Hidalgo. — Eles não fizeram nada.

— Não, não fizeram — diz Keller. — Seu trabalho por aqui acabou; eu vou mandá-lo pro oeste.

— Por que oeste?

— Porque é onde está o fornecedor de Darnell — responde Keller. — Se eles acham que eu vou deixar tudo isso passar, estão malucos. Agora, o negócio é trabalhar pelo ângulo da droga, em sentido contrário, descobrir quem é o fornecedor do bagulho do Darnell. Quem quer que seja, também mandou ele arranjar segurança nas reuniões do Park Tower.

Nós podemos rastrear em sentido oposto, pensa Keller.

É dinheiro e droga.

Se não conseguir trabalhar o dinheiro, trabalhe a droga.

Porque dinheiro e droga são como ímãs — eles vão acabar se juntando. Cirello é o único passageiro em um jato Citation Excel de sete lugares. Não há comissária de bordo, mas ele pode se servir de bebidas e um lanche leve, na pequena copa. E tem espaço de sobra para sua bagagem de mão, que é a finalidade.

Cirello está com duas malas com 3,4 milhões que Darius Darnell deve a

seu fornecedor. Fora o dinheiro, ele leva roupas suficientes para ficar em Vegas por três dias, e alguns presentes para um amigo de Darnell.

— Depois que você cuidar dos negócios, faça-me um favor — disse

Darnell. — Vá de carro até Victorviille, pra ver um amigo meu, leve umas coisas pra ele, por mim.

Continuar: parte 2 de 2