A fronteira

Don Winslow · Capítulo 25 de 25

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A fronteira

Epílogo

 

Adios, meus amigos, nós estamos deixando El Paso. O rio Grande secou e todas as histórias foram contadas.

— Tom Russell, “Leaving El Paso”

Sudeste da Califórnia

Maio de 2018

 

Da colina perto de casa, onde eles caminham quase todos os dias, Keller vê o México.

Marisol acha que eles fazem um par e tanto, esforçando-se para subir a

colina, cada um com sua bengala.

Os feridos da guerra contra as drogas.

E nós somos os sortudos, pensa Keller.

Nós sobrevivemos.

A recuperação dele foi longa, difícil e incerta; uma bala fissurou o

crânio, três furaram as pernas. Ele teria morrido de hemorragia, perto da piscina refletora, se os paramédicos já não estivessem próximos.

O resultado do tiroteio do Passeio foi horrendo, mas não tão ruim

quanto poderia ter sido. Cinco mortos e quatorze feridos. As consequências foram as habituais: orações e conversas sobre controle de armas e saúde mental, e absolutamente nada foi feito.

O novo conselheiro especial indicado pelo Congresso investigou a

possibilidade de Daniel Mercado ter sido contratado pelo cartel Sinaloa para assassinar Art Keller, mas nunca conseguiu provar nada.

Ele conseguiu, no entanto, o suficiente para formalizar uma acusação

contra Jason Lerner, Denton Howard e Ben O’Brien.

Os julgamentos estão em curso.

Assim como as audiências referentes ao impeachment. Dennison e seus aliados estão refutando, como malucos, as acusações de

perjúrio obstrutivo e corrupção.

É difícil saber o que vai acontecer.

Eddie Ruiz não conseguiu fechar acordo com ninguém — nem com o conselho especial, nem com a Califórnia, nem com Nova York. Ele está de volta a Victorville, tomara que para ficar.

Não houve julgamento para Keller. Nem julgamento, nem acusações, porque nenhum promotor pensaria em apresentar a um júri um processo contra o herói do tiroteio do Passeio. E a Guatemala não quis fazer parte disso — que os mortos enterrem seus mortos. Keller, culpado católico até o fim, não consegue decidir se isso é certo ou errado.

— Aceite a graça, quando lhe é dada — Marisol disse a ele.

Ele tenta fazer isso.

Eles compraram um pequeno sítio, logo depois que ele deixou o hospital. Com sua fama — ou notoriedade —, Washington teria sido impossível, e o casal decidiu que queria uma vida mais tranquila. O sítio deles tem trinta acres em um terreno mais plano, uma gruta de carvalhos em meio às rochas e um acre de macieiras. Uma cidadezinha próxima tem um mercado, um bar e um sebo de livros.

É o suficiente.

Os dias são tranquilos e as noites, mais ainda.

Keller lê mais história, Marisol passou a pintar, um estilo chamado plein air.

Althea às vezes vem visitar; Marisol brinca que aquele é seu harém. Michael veio no Natal e passou vários dias. Até Hugo Hidalgo veio para respeitosamente se desculpar pelo que falou, e para contar a Keller que estava trabalhando com xerife do condado de Bexar. Ele disse que enfim tinha se libertado do que acontecera ao pai.

E eu, pensa Keller, finalmente me libertei de Adán Barrera.

Ele está morto.

A vida volta a você, pensa Keller.

Ele olha para a fronteira e imagina o que está acontecendo no México. O caos e a violência prosseguem. Rafael Caro morreu e Tito Ascensión é o novo “padrinho”, portanto, homens brutos e estúpidos governam, em ambos os lados da fronteira.

Mas não há muro ali, pensa Keller, sorrindo.

E jamais haverá. Uma fronteira é algo que nos divide, mas também nos une; não pode haver um muro real, da mesma forma que não há muro que divida a alma humana entre seus melhores ímpetos e os piores.

Keller sabe. Ele esteve em ambos os lados da fronteira.

Ele segura a mão de Mari e, juntos, eles vão mancando colina a baixo.

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Don Winslow

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