A fronteira

Don Winslow · Capítulo 12 de 25

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A fronteira

2: Coiotes

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Coiotes

 

“O coiote está sempre por aí, rondando… e o coiote está sempre faminto.”

— ditado Navajo

Bahia de los Piratas, Costa Rica

Março de 2015

 

Sean Callan arranca a vela de ignição do motor de seu panga e a substitui por uma nova.

O barco, um Yamaha de sete anos e 22 pés por 5 pés de largura, ainda

está em bom estado, pois Callan é quase religioso com sua manutenção. Ele usa o barco para levar hóspedes para pescar de vara ou arpão, nadar de snorkel ou apenas passear ao pôr do sol. Portanto, Callan o mantém em ordem.

Ele tem uma relação de amor e ódio com o motor E-Arrow de dois

tempos, com 45 cavalos, que comprou de um dos pescadores comerciais, em Playa Carrillo. O motor exige mais atenção que as passageiras ricas que vêm de Los Angeles em busca do primitivo, sem abrir mão dos luxos da civilização, um conflito que Callan e Nora estão sempre se esforçando para atender.

Nora, pensa Callan, com mais graciosidade que eu. Eles mantêm a pequena pousada — quatro bangalôs e uma casa

principal, escondidos em meio às árvores acima da praia — há pouco mais de dez anos, e Nora fez dela um sucesso. Eles têm um ganho decente e uma vida tranquila, em especial fora da temporada, quando ficam praticamente sozinhos na pousada.

Callan adora aquilo ali.

Bahia de los Piratas agora é seu lar e ele jamais iria embora. Para quem

mora em um local mais afastado, na distância ideal de um resort maior, o de Tamarindo, e da cidadezinha de Matapalo, Callan até que é bem ocupado. Há sempre algo que precisa ser feito.

Se ele não está consertando o motor ou fazendo a manutenção do barco, está levando os clientes para a água. Ou embarcando todo mundo no velho Land Rover (por falar em consertar e manter) e rebocando-os até Rincón de la Vieja para andar a cavalo e fazer trilha, ou até Palo Verde Park para ver os crocodilos, os porcos-do-mato e jaguarundis. Ou ficando de babá dos grupos de observadores de pássaros, que Nora insiste em agendar.

Ou ele leva os hóspedes a bares e boates em Tamarindo (eles geralmente vão sóbrios e voltam bêbados), ou a aulas de surf, ou a um dos barcos grandes de pesca esportiva, para irem atrás de marlins ou agulhões-bandeira.

Se não está cuidando dos clientes, ele está cuidando do hotel em si. Sempre há algo que precisa ser consertado, costurado, remendado. Se não é uma palhoça nova para o telhado, é reboco ou um cano vazando. Fora da temporada, ele faz os reparos pesados: reboca paredes, lixa o piso, pinta os tetos.

Ou trabalha na casa principal, construída nos anos 1920, depois relegada ao abandono, até quando eles a compraram a preço de banana. Agora, ele afetuosamente refaz o trabalho de marcenaria — a balaustrada, os corrimões, pisos, o amplo deck com vista para o Pacífico.

Na loja que construiu nos fundos da casa, ele está fazendo uma mesa de jantar usando cedro espanhol de demolição. É sua surpresa de aniversário para Nora, e ele trabalha na peça em seu tempo livre.

Callan trabalhava como marceneiro lá em Nova York; um ótimo artesão, portanto, ele adora seu trabalho. Na verdade, ele adora todo o trabalho — adora estar ao ar livre, nos parques, na floresta tropical, nas margens do Tempisque, em alto mar.

É uma vida boa.

Nora cuida mais dos detalhes diários do lugar, embora Callan também ajude, e os dias passaram a ter uma rotina agradável. Eles moram na parte de cima da casa principal e acordam antes do amanhecer, para começarem o café da manhã lá embaixo, na cozinha.

A ajudante, María, geralmente já está na cozinha quando eles descem, e ela e Nora preparam bandejas de gallo pinto com ovos, creme batido e queijo. Montam a mesa com tigelas de papaia, manga e tamarindo. Bules de café forte e chá, e jarros de horchata, a bebida de fubá e canela que eles servem ali, na Província de Guanacaste.

Callan geralmente manda para dentro uma rápida caneca de café e,

enquanto os hóspedes estão comendo, vai ver se o Land Rover está ligando, ou se o barco está em ordem para qualquer atividade programada para aquela manhã. Se for um passeio mais demorado, nora e María preparam lanches; se não, elas limpam as mesas do café e começam a preparar o almoço, que geralmente consiste em um casado — feijão com arroz servido com frango, porco ou peixe.

Depois do almoço, Nora geralmente volta lá para cima para uma siesta

— seu “sono embelezador”, como ela chama, embora Callan ache que ela não precisa — enquanto uma pequena equipe, composta na maioria pelas moças da família de María, troca os lençóis e toalhas, e arruma os quartos para os hóspedes que vão chegar.

Callan geralmente não tem tempo de tirar uma siesta, mas, de vez em

quando, ele consegue, e esses são alguns de seus momentos preferidos: ficar deitado com Nora, nos lençóis que foram salpicados com água fresca.

Os jantares geralmente são pequenos, com apenas alguns hóspedes,

porque a maioria prefere ir a um dos restaurantes na Playa Grande ou em Tamarindo. Mas Nora e María sempre servem boquitas de patacones e arracaches, e pratinhos de ceviche ou chicharrón, antes de uma refeição completa com peixe grelhado — dependendo do peixe fresco que Nora consegue encontrar em Playa Carrillo, ou olla de carne, o ensopado local feito de carne e mandioca. Ou, às vezes, Nora fica criativa e faz um prato francês, tipo steak frites ou coq au vin, ou algo assim.

A sobremesa geralmente é salada de frutas ou, se Nora quiser algo mais

consistente, ela faz um bolo tres leches, seguido de café e conhaque, servido no deck, onde eles podem sentar e ouvir a música da praia em frente, e a floresta tropical atrás.

Eles geralmente vão dormir cedo (a não ser que Callan tenha que dar

“uma corrida” até a cidade para buscar hóspedes) e começam cedo na manhã seguinte.

Isso é na alta temporada — “temporada seca” —, mais ou menos de

dezembro até abril. Depois vem a chuva, abrindo a temporada verde, embora em Guanacaste isso geralmente signifique apenas chuvaradas diárias no fim da tarde e começo da noite. Mas isso já afugenta os turistas, então Callan e Nora adiantam a manutenção e também têm mais tempo para caminhar pela praia, sair de barco sozinhos, ter longas e amorosas siestas, jantares privativos, fazer amor ao som da chuva batendo no telhado de metal.

Os turistas voltam em julho.

Agora é março, está terminando a alta temporada, e Callan puxou o panga até a praia para substituir as velas de ignição, pois, às vezes, ele ancora perto de um arrecife e a última coisa que ele vai querer é estar a mil jardas de distância da costa com um motor pifado.

Agora é meio-dia e faz calor, mais de 30 °C, mas Callan continua de camisa. É uma brincadeira entre as hóspedes, o quanto elas gostariam de ver sem camisa o belo e musculoso anfitrião, mas, para um cara tão despreocupado, ele é tímido, e diz que isso simplesmente não é “adequado”. Então, agora ele está com um blusão de brim desbotado e bermuda de sarja, huaraches e um boné de beisebol surrado. Ao girar a chave de porca, ele belisca o dedo e solta um pequeno palavrão.

Então, ouve uma risada atrás de si.

É Carlos.

Callan conhece o filho de María desde menino, e precisa lembrar-se de que Carlos não é mais garoto, mas um homem feito, com esposa e dois filhos. E sua a camisa para sustentá-los. Carlos trabalha nos barcos esportivos e tripulações de pesqueiros e, ralando pesado, conseguiu economizar o suficiente para dar entrada em um Topaz conversível, 1989, de 32 pés, com motor a diesel de 735 cavalos de potência, forquilha de brandal, cadeira de luta e cabine dianteira, com uma copa completa para começar seu próprio negócio.

Callan vem ajudando a consertar o barco, assim como Carlos o ajuda quando ele precisa de uma mão a mais, alguém para levar os turistas para o mar, ou acompanhá-los aos parques, ou quando precisa de auxílio para consertar um telhado.

Agora, Carlos ri e pergunta:

— O motor está brigando?

— E ganhando — diz Callan.

— Você está ficando velho — afirma Carlos.

Callan tem 54 anos e concorda. Seus cabelos, que batem nos ombros, já estão se tornando grisalhos.

— E você está com uma cara horrível.

— Passei a noite fora.

— Com Bustamente?

— É.

Callan pergunta:

— Pescaram alguma coisa?

— Um bocado de albacora — diz Carlos. — Quer que eu troque isso pra

você?

— Não, pode deixar. — Callan gira a chave de novo e a peça solta. — Já

comeu? Elas fizeram almoço lá na casa e tem pouca gente.

Só quatro hóspedes — dois observadores de pássaros de meia-idade e

um casal hippie.

— Eu tô de boa — responde Carlos, passando a mão na barriga. Ou no que tem de barriga. Como María diz, se Carlos tem alguma

gordura, está na cabeça. Ele é esguio, mas musculoso, e tem uma beleza matadora. Se não fosse tão fiel à esposa, Elisa, ele passaria a noite toda pegando as turistas.

Agora ele ajuda Callan a trocar a vela de ignição e os dois marcam um

encontro para trabalharem no Topaz — Carlos quer fazer um deck de madeira na cabine da frente. Eles conversam por mais alguns minutos — sobre o clima, pesca, beisebol, o papo furado de sempre — e Carlos segue ao próximo trabalho, um passeio para a pesca de marlin.

Callan vai até a casa para saber se os hospedes querem mergulhar de

snorkel.

Nora está na cozinha picando legumes.

Eles estão juntos — com algumas interrupções — há dezesseis anos, e

ela ainda faz o coração dele disparar.

Nora Hayden é uma mulher espantosamente linda. Os cabelos que só podem ser descritos como dourados, agora cortados

um pouco mais curtos, para a vida nos trópicos.

Olhos azul-claros e calorosos como o Pacífico. Aos 52 anos, ela está mais linda que nunca, pensa Callan. Está em forma

graças à natação e à ioga, e as ruguinhas em volta dos olhos se da boca dão um ar ainda mais interessante.

E isso é só por fora.

O conteúdo do pacote, pensa Callan, é ouro puro. Nora é inteligente, muito mais que ele, uma excelente mulher de

negócios, e tem um coração de leoa.

Ele a ama mais que a vida.

Agora, ele chega por trás dela, passa um braço em volta de sua cintura e diz:

— Como vai seu dia?

Ela arqueia o pescoço para trás e lhe dá um beijo no rosto.

— Bom. E o seu?

— Bom — responde Callan. — O que vai preparar para o jantar de hoje?

— Não sei — diz Nora. — Depende do que eu encontrar.

— Carlos falou que eles têm albacora.

— Quem tem?

— Bustamente.

Nora sacode a cabeça.

— Não, ele não tem. María passou lá, hoje de manhã. Ele não tem nada.

— Que estranho — diz Callan. — Carlos falou que eles saíram pra pescar ontem à noite.

Nora encolhe os ombros.

— O que posso lhe dizer? O barco está pronto?

— Ãrrã.

Ele leva os hóspedes para nadar de snorkel, traz de volta o mesmo número de pessoas que levou — que é uma das exigências do trabalho —, toma um banho rápido e depois leva todos até a cidade para jantar.

Volta para comer com Nora.

Sem hóspedes, ela preparou um jantar simples de arroz e feijão, que Callan come feito um cavalo.

— Você está ansioso pela temporada calma? — pergunta Nora.

— Um pouquinho.

Muito, pensa Nora. Ela conhece seu homem. Ele é na dele, tranquilo, e embora seja bom na interação social que o negócio deles exige — ele é bem charmoso quando quer —, ela sabe que isso não é um traço natural e que Callan prefere a tranquilidade.

Ele prefere ficar sozinho com seu trabalho e com ela.

Nora também está na expectativa disso.

Ela gosta do negócio, gosta de ser anfitriã, gosta da maioria dos hóspedes, muitos são clientes antigos, mas será bom ter uma temporada calma e um tempo a sós com Sean. Dar suas caminhadas pela praia, ao pôr do sol, algo que eles raramente têm tempo de fazer quando a casa está cheia.

Nora é feliz com sua vida.

Com o ritmo dos dias e noites, das temporadas. Ela nunca achou que seria feliz, mas é.

Depois do jantar e do café, Callan volta de carro até Tamarindo para

buscar os hospedes. Ele os encontra no Crazy Monkey. Os observadores de pássaros estão terminando a sobremesa, os hippies estão dançando na discoteca, então ele tem tempo para matar e senta para tomar uma cerveja.

Do bar, Callan vê os mexicanos na discoteca. Eles se destacam com as

roupas de caubóis norteños.

Algo mais recente ali em Guanacaste são os grupos de uma dúzia ou

mais mexicanos, na maioria homens, às vezes com namoradas. Ele os vê no Crazy Monkey, no Pacifico, no Sharkey’s, assistindo fútbol ou lutas de boxe.

Callan não gosta disso.

Não é que ele tenha algo contra mexicanos. Ele não tem — ele só tem

algo contra esses mexicanos.

— A época de chuva vem chegando — diz o bartender, entregando-lhe

um Rancho Humo e sacudindo a cabeça, quando Callan vai pegar a carteira.

Callan deixa uma gorjeta maior que o valor da cerveja. — Você vai ficar por aqui?

— Não — responde o bartender. — Vou voltar a San José, ver a família. — Legal.

Callan vira e vê Carlos.

Na discoteca, com um dos mexicanos. Um cara parrudo, encorpado,

com trinta e poucos anos, do tipo macho alfa, com pinta de líder do bando. Apenas ligeiramente mais bem vestido que o restante, mais bem arrumado.

O jefe, pensa Callan. Ele já o viu circulando em Tamarindo com dois

outros homens. Agora vê Carlos assentir e apertar a mão do jefe.

Callan termina sua cerveja, pega os hóspedes e leva para casa.

Não consegue dormir.

Callan é estritamente um cara do tipo “cuide da sua vida”, e sabe que é

isso que deve fazer agora.

Mas é o garoto da María.

E ele gosta de Carlos.

Então, mesmo não querendo, na manhã seguinte, ele encontra Carlos trabalhando no Topaz e pula a bordo.

— Achei que tivéssemos combinado no sábado — diz Carlos.

— Combinamos — diz Callan. — Eu queria falar com você.

— Sobre?

— Sobre o que você está fazendo.

Carlos parece inquieto.

— O que eu estou fazendo?

— Vamos, cara — diz Callan.

— Não sei do que você está falando.

— As corridas de coca que você está fazendo com Bustamente — diz Callan.

Motivo pelo qual os mexicanos estão ali. Eles transportam a cocaína de avião, da América do Sul, colocam em pequenos barcos e saem, passam para barcos maiores para levá-la até o México, ou até a Califórnia.

Pagam os pescadores locais para fazer essas corridas.

Callan entende; a pesca está ruim e mesmo que estivesse boa, não é nada, em comparação ao dinheiro que se pode ganhar — o dinheiro de um mês de trabalho, em uma única noite — transportando coca.

— Eu não…

— Não me ofenda.

Carlos fica injuriado.

— Isso não é da sua conta.

— Olhe, eu entendo — diz Callan. — Algumas corridas dessas e você consegue pagar o financiamento do barco e começar o negócio. Esse é o sonho, certo? Mas eu conheço essa gente. Pode acreditar, você não quer fazer negócio com eles. Você consegue o dinheiro do barco, acha que pode simplesmente parar o restante. Mas eles não vão deixar, Carlos. Eles vão querer que você transporte a droga no seu barco.

— Eu direi que não.

— Não se diz não a essa gente.

— Como é que você sabe tanto a respeito disso? — questiona Carlos.

— Eu simplesmente sei — diz Callan. — Isso não é pra você.

— Não? — pergunta Carlos. — O que é pra mim, Callan? Ser seu garoto barqueiro, pelo resto da vida?

— Você pode comprar seu próprio barco, começar seu próprio negócio de passeios.

— Isso pode levar anos.

Callan dá de ombros.

— Pra você é fácil — diz Carlos. — Você tem o seu negócio. É bem verdade, pensa Callan. Mas ele diz:

— Só estou sendo seu amigo, cara.

— Então, seja meu amigo — retruca Carlos. — E não conte nada à

minha mãe.

— Não vou contar — diz Callan. — Mas como ela irá se sentir, quando

botarem você em cana?

Carlos sorri.

— Primeiro terão que me pegar.

— Você lê os jornais, Carlos? — pergunta Callan. — Assiste aos

noticiários? O governo costa-riquenho acabou de renovar um acordo com os EUA. A porra da guarda costeira americana está por aí, patrulhando. Com a Divisão de Narcóticos.

Isso não vai acabar bem.

Logo na tarde seguinte, Callan está no barco, lavando para tirar a água salgada, quando o jefe chega até ele.

— Belo barco — diz ele, em um tom bajulador, com uma porra de um

sorriso na cara.

— Obrigado.

— Você é Donovan?

— Isso.

É o nome que Callan usa ali.

— Amigo do Carlos.

— Certo outra vez — diz Callan. Não faz sentido esconder. — O que

você quer?

O sorriso some.

— Quero que você cuide do que é da porra da sua conta. — Como você sabe — pergunta Callan —, o que é, ou não, da porra da

minha conta?

— Eu sei do que é da minha conta e não da sua. — Olhe — responde Callan — você pode arranjar todos os barcos e

pescadores que quiser. Eu só estou dizendo, por que não deixa esse único cara em paz?

— Você sabe como dizem — diz o jefe —, se abrir exceção para uma pessoa, terá que fazer para todos. Então, deixa de ser exceção.

— Só estou falando de um cara.

— Nós não precisamos de porra de yanquis — diz o jefe — chegando aqui para nos falar o que fazer ou deixar de fazer.

— Tampouco precisamos de mexicanos por aqui.

— Você não gosta de mexicanos?

— Não gosto de você — diz Callan.

— Você sabe quem somos nós?

— Até que sei.

— Somos Sinaloa — informa o jefe. — Não se meta conosco. E deixe Carlos fazer o que ele tem que fazer.

— Carlos é maior de idade — afirma Callan. — Ele pode fazer o que quiser.

— Isso mesmo.

— Isso mesmo — diz Callan.

— Não se meta conosco.

— É, você já disse isso.

O jefe lhe lança um olhar de valentão e depois vai embora. Callan fica olhando.

Eu deveria ter cuidado do que é da minha conta, pensa ele.

As semanas seguintes passam tranquilamente. A chuva vem e os turistas vão embora, exceto por alguns tipos aventureiros em busca de experiência e de uma barganha. Callan vê o jefe mais algumas vezes, uma no Crazy Monkey, outra vez no Pacífico. Ele até volta a vê-lo com Carlos, mas Callan desvia o olhar quando o jefe lhe mostra um sorrisinho malicioso.

Callan não toca mais no assunto com Carlos. Eles trabalham no barco de Carlos, trabalham nos telhados das casinhas de hóspedes e conversam sobre tudo, isso. Tentei uma vez, pensa Callan. Carlos é um homem adulto e seria um insulto voltar a falar no assunto.

A vida retoma sua rotina.

Callan passa a maior parte do tempo fazendo reparos, indo sorrateiramente para a loja, durante as tardes, para trabalhar na mesa de jantar. Pouco antes do pôr do sol, ele e Nora se encontram e vão caminhar na praia, mesmo que esteja chovendo, pois a chuva é morna e eles não se importam em se molhar.

Eles têm jantares tranquilos, fazem amor sob o telhado de zinco.

Em uma manhã de maio, ele acorda e ouve uma comoção lá embaixo.

É María, e ela está chorando.

Quando ele chega à cozinha, Nora está com María nos braços. — Pegaram Carlos! — María está aos prantos. — Pegaram Carlos! Eles tentam acalmá-la para saber os detalhes. Bem, o que ela sabe.

Houve uma “batida”, uma prisão no mar. Dizem que era cocaína. Onze Ticos foram presos.

Carlos é um deles.

Callan vai de carro até a cidade para saber detalhes. O chefe da polícia local conversa com ele.

Nada bom. É a maior apreensão de cocaína já feita na Costa Rica.

Quatro toneladas daquela merda. No barco de Bustamente e em mais um. Onze pessoas foram detidas, todas jovens, nenhuma com antecedentes criminais.

São todos pescadores, Callan sabe.

Tentados pelo dinheiro.

Agora estão fodidos.

Duas toneladas de coca? Independentemente de serem julgados na Costa

Rica ou nos EUA, eles estão diante de décadas atrás das grades.

Callan volta para a pousada, e ele e Nora tentam acalmar María. Eles

vão arranjar um advogado para Carlos, talvez ele possa fazer algum tipo de acordo…

Mas Callan sabe que não vai adiantar.

Se Carlos fizer um acordo e concordar em dar nomes, ou testemunhar,

ele será um homem morto. Eles vão pegá-lo na cadeia.

Devem pegar, de qualquer jeito, só para garantir. É nessa noite que o jefe volta.

Ele está com dois caras.

Eles ficam mais atrás, ao lado.

Callan está colocando a lona do panga, na expectativa de uma chuva

forte que deve estar a caminho. Ele pula de cima do barco quando o jefe se aproxima.

— Ouviu falar do que aconteceu? — pergunta o jefe. — Ouvi.

— Estou imaginando se você teve algo a ver com isso.

— Não tive.

— Não sei, não — diz o jefe. — Mas é bom você falar com seu garoto, mandar ele ficar de boca fechada.

— Ele provavelmente já sabe disso.

— Caso ele não saiba — insiste o jefe. — Se ele falar, eu vou matar a mãe dele, você e aquela sua linda esposa…

A arma surge da camisa de Callan em um movimento suave.

Antes que os olhos do jefe possam se arregalar, Callan crava duas balas entre eles.

Um dos caras do jefe vai sacar a arma, mas é lento demais e Callan bota duas balas na cara dele, depois vira e faz o mesmo com o outro cara.

Três mortos em três segundos.

Sean Callan, também conhecido como John Donovan, foi conhecido, em outra vida, como “Billy the Kid” Callan.

Pistoleiro da máfia irlandesa.

Pistoleiro da máfia italiana.

Pistoleiro de Adán Barrera.

Foi em uma vida diferente, mas algumas habilidades não se perdem.

Callan põe os três corpos no panga e vai para o mar. Ele prende alguns pesos de mergulho nas roupas deles e os joga pela lateral do barco. Depois joga sua pistola, uma Sig 9 mm, que tem a muito tempo, da qual sentirá falta.

Agora chove forte e Nora está curiosa, quando ele entra encharcado. Ele lhe conta exatamente o que aconteceu, pois eles não mentem um para o outro, e depois de tudo o que ela passou, não há nada que a deixe abalada.

Mas ela fica inquieta, pelo fato de que os sinaloas estão tão perto quanto Tamarindo. Foi há muito tempo, e maioria das pessoas que ela conhecia morreu ou foi para a cadeia, mas Nora havia sido a lendária amante de Adán Barrera. Ele era o Chefão do Céu e ela era sua dama, e talvez ainda haja gente que poderia reconhecê-la, lembrar-se dela.

Ela espera que não. Tem sido feliz aqui, enfim encontrou a paz neste lugar, e não quer fugir outra vez. Mas, se for preciso…

Eles têm dinheiro guardado em segurança nas Ilhas Cayman, na Suíça, nas Ilhas Cook. Eles tentam viver só com os ganhos da pousada, mas se precisarem de dinheiro para desaparecer, ele estará lá.

— Ligue para María — diz Callan. — Diga a ela que Carlos pode dar

nomes.

— Você tem certeza?

— Os nomes que ele vai dar estão mortos — diz Callan. Se Carlos puder

fazer um acordo, ele deve. Todos os onze devem fazer isso; o cartel não vai dar a mínima se eles delatarem homens mortos.

— E se o cartel mandar mais homens pra cá? — pergunta Nora. — Eles não vão precisar — diz Callan.

Ele vai até o cartel.

Faz vinte anos que Callan não vai ao México.

Ele partiu para nunca mais voltar, depois de um tiroteio no Aeroporto de

Guadalajara que matou o melhor homem que ele conheceu na vida.

O padre Juan Parada era seu melhor amigo.

De Nora também.

Adán Barrera o emboscou para ser morto.

Callan abandonou tudo, depois disso — foi pela misericórdia de Deus

que ele e Nora se encontraram e, às vezes, Callan acha que era o padre Juan olhando pelos dois.

Mas agora Callan está de volta a TJ.

Nora também.

Ela não o deixou ir sozinho e finalmente o convenceu a levá-la junto.

Ele precisou admitir que seria mais seguro que ela estivesse com ele do que sozinha, na Costa Rica.

Ele sabe que, se vai salvar a vida deles, terá que ser aqui. Eles alugam um carro no aeroporto.

— Isso traz lembranças? — pergunta Nora, enquanto eles seguem de

carro por Tijuana.

— De outra vida.

— Parece que não.

Eles vão de carro até o Marriott, em Chapultepec e fazem o check-in

como sr. e sra. Mark Adamson, com passaportes que Art Keller conseguira para eles anos antes. O quarto é iluminado e alegre, com lençóis e travesseiros brancos, cortinas brancas, limpo a ponto de ser antisséptico.

Callan já sente falta da Bahia de los Piratas.

Ele toma banho e se barbeia com esmero, penteia o cabelo e veste uma

camisa branca guayabera e jeans.

— Fique no hotel — ele diz a Nora.

— Sim, senhor.

Callan sorri, sentido.

— Por favor, fique no hotel.

— Vou ficar.

— Eu ainda me sentiria melhor se você estivesse em San Diego.

A fronteira não fica nem a três quilômetros de distância.

— Mas eu, não — diz Nora. — Vou ficar bem. Como você vai encontrá-la?

— Não vou — responde Callan. — Vou deixar que eles me encontrem. Espero estar de volta em algumas horas. Se eu não voltar, pegue o seu passaporte, atravesse a ponte e entre em contato com Keller. Ele saberá o que fazer.

— Faz dezesseis anos que eu não falo com Keller.

— Ele vai se lembrar de você. — Ele lhe dá um beijo. — Eu te amo.

— Também te amo.

O manobrista traz o carro e Callan dirige até Rosarito. A boate Bombay fica na orla. Costumava ser um dos pontos deles, em Baja.

Ele senta no bar e pede uma Tecate.

Pergunta ao bartender:

— Os Barrera ainda são donos deste lugar?

O bartender não gosta da pergunta. Dá de ombros e pergunta:

— Você é repórter?

— Não — diz Callan. — Eu trabalhava para Adán, antigamente.

— Acho que não o conheço.

O bartender o observa com mais atenção.

— Faz muito tempo que não venho aqui — diz Callan.

O bartender assente e entra na cozinha. Callan sabe que ele vai dar um telefonema.

O policial leva vinte minutos para chegar.

Um guarda estadual de Baja, à paisana.

Ele se aproxima de Callan e vai direto ao assunto.

— Vamos dar uma volta, você e eu.

— Eu estava desfrutando da minha cerveja.

— Você vai desfrutar mais no sol — diz o guarda. — Não se preocupe, ninguém irá multá-lo.

Eles caminham até a avenida Eucalipto.

— Americano? — pergunta o policial.

— Houve uma época que sim.

— Nova York — diz o policial.

— Como sabe?

— Esta é uma cidade turística — diz o guarda. — Eu conheço os

sotaques. O que o traz aqui, perguntando sobre os Barrera?

— Velhos tempos.

— O que fazia para El Señor?

Callan encara o policial.

— Eu matava gente pra ele.

O policial nem pisca.

— É para isso que está aqui, agora?

— Isso é o que estou tentando evitar agora.

O guarda o conduz até um carro estacionado na beirada da praia. — Entre.

— Primeira regra de um yanqui que quer sobreviver no México — diz

Callan. — Não entre num carro de polícia.

— Eu não estava pedindo, senhor… — Callan. Sean Callan.

A pistola do policial surge, em um instante. Apontada para a cabeça de

Callan.

— Entre na porra do carro, Señor Callan.

Callan entra no carro.

Depois de dezoito anos, a lenda sobre “Billy the Kid” Callan continua viva. O americano que foi um dos principais pistoleiros de Adán Barrera, na guerra contra Güero Méndez. Fala-se de como Callan salvou a vida de Adán em uma tentativa de assassinato em Puerto Vallarta, lutou lado a lado com Raúl na famosa batalha da “Reunião de Troca Sinaloa”, na avenida Revolución, em Tijuana, e estava presente no tiroteio do aeroporto, quando o cardeal Parada foi morto.

Eles cantam canções sobre Billy the Kid Callan, e agora ele está sentado

no banco traseiro de um carro de polícia sem identificação, e o policial faz ligações, tentando descobrir o que fazer com ele.

Agora, Callan até que fala bem espanhol, portanto sabe o que o policial

está dizendo e entende a frase “Quer que nós simplesmente o matemos?”, entre outras. São inúmeras ligações, então deve estar havendo alguma discussão, e o policial enfim desliga o celular e liga o carro.

— Pra onde nós vamos? — pergunta Callan.

— Você vai ver.

Polícia é polícia, pensa Callan. Não importa a nacionalidade, eles gostam de fazer perguntas, mas não gostam de respondê-las. Ele recosta no banco traseiro e desiste de qualquer tentativa de mais conversa, conforme o carro faz um longo percurso pela costa, seguindo a rota 1, passando por Puerto Nuevo e La Misión. O carro sai de um trevo, onde a rota 1 se transforma em rota 3.

Há uma van parada na lateral da estrada.

Três homens armados de MAC-10 descem e apontam as armas para Callan, enquanto o policial o faz descer do carro e o entrega. Um dos guardas revista Callan.

— Acha que eu não saberia, se ele estivesse armado? — pergunta o policial, irritado.

— Só pra garantir.

O policial balança a cabeça, entra de novo no carro e vai embora. O guarda leva Callan para a traseira da van.

Outro cara, que Callan julga ter uns quarenta anos, liga a van e pega a estrada rumo ao sul, em direção a El Sauzal.

— O que você quer? O que está fazendo aqui?

Ele não é mexicano e, pelo sotaque, Callan imagina que seja israelense. Isso não o surpreende — os Barrera costumavam ter muitos ex-militares israelenses na segurança.

— Quero falar com a Señora Sánchez.

— Por quê? Pra quê? — pergunta o israelense.

— Há um problema.

— O quê? Que tipo de problema? — questiona o israelense. — Foi Iván que o mandou?

— Quem é Iván?

— Quem o mandou?

— Ninguém — diz Callan. — Vim por conta própria.

— Por quê?

— Nós vamos ficar nisso? — pergunta Callan.

— Não precisamos — diz o israelense. — Podemos simplesmente matar você e jogar seu corpo na estrada.

— Vocês podem — diz Callan —, mas isso deixaria sua chefe

descontente.

— E por quê?

— Porque uma vez eu salvei a vida do irmão dela — responde Callan. — Eu ouvi as canções — afirma o israelense. — As músicas dizem

muitas coisas que não são verdade. “Vou te amar para sempre”, “Você é meu tudo”…

— “Papai Noel está chegando”…

— É o que eu estou dizendo.

Ele grita para que encostem a van. O veículo para e eles arrancam

Callan do carro, em um terreno vazio que foi um campo de beisebol, mas que agora está só no pó. Começam a bater nele. Socos e chutes de todo lado, mas são todos no corpo, não no rosto, nem na cabeça, e Callan faz o melhor para se proteger e continuar de pé, enquanto o israelense lhe dá um sermão.

— Não venha aqui fazendo perguntas sobre os Barrera. Não chegue aqui

sem ser convidado. Você acha que nós permitimos que um conhecido pistoleiro fique simplesmente passeando pelo nosso território? O que realmente trouxe você aqui? O que você quer de verdade? Diga e isso pode parar.

— Eu já lhe disse.

— Pra mim, chega — diz o israelense.

Os guardas empurram Callan, que cai de joelhos. O israelense aponta a

pistola para a cabeça de Callan.

— Iván o mandou!

— Não.

— Diga a verdade! Foi Iván que o mandou!

— Não!

— Então, quem foi?

— Ninguém!

— Mentiroso!

— Eu estou dizendo a verdade!

O israelense aperta o gatilho

O som é horrendo, ensurdecedor. O estouro do cano chamusca a orelha

de Callan. Ele cai de cara na terra. Os guardas o desviram e ele olha acima, para o rosto do israelense. Callan não consegue escutar nada, só o zunido ruidoso nos ouvidos, mas consegue ler os lábios do homem, que diz:

— Última chance, fale a verdade.

— Eu falei. Estou falando.

Eles o levantam.

— Coloquem ele de volta no carro.

Eles o colocam sentado e lhe dão uma garrafa de água, e Callan bebe, enquanto olha o israelense falar ao celular.

A van pega a estrada e segue ao sul.

— Você está falando a verdade — diz o israelense.

— Eu já sabia disso.

— O que quer discutir com a Señora Sánchez?

— Não é da porra da sua conta.

O israelense sorri.

Às vezes, o que cantam nas músicas é verdade.

Nora fica deitada na piscina e isso a faz lembrar-se de sua juventude.

A garota californiana, a garota dourada, a gata de Laguna Beach paquerada pelos pais de todas as amigas. Ela agora reflete que foi deitada em uma piscina, em Cabo, que ela conheceu Haley, que a prostituiu, colocou-a naquela vida.

E tudo o que veio depois.

Adán.

Ela foi amante do maior traficante de drogas do mundo.

Depois se tornou a informante mais valiosa de Keller.

Depois, Callan salvou sua vida.

De tantas maneiras, Sean salvou sua vida e fez com que valesse a pena viver.

E ela, a dele.

Eles construíram uma vida juntos, uma vida que vale a pena viver, então, o passado surgiu sorrateiramente do nada, como velhos pecados para os quais não há redenção, apenas o adiamento da punição, uma suspensão da pena, e agora, ali estão eles, de volta ao México.

Como se Adán tivesse esticado a mão do túmulo e puxado os dois de volta.

Ele a amava, ela sabe disso. Talvez ela o tenha amado um dia, antes de saber o que ele realmente era. Art Keller lhe disse, Art Keller foi quem lhe ensinou quem Adán era de verdade; depois, Keller a usou, como todos os outros homens de sua vida.

Até Sean.

Mas você também os usou, pensa ela. Se for honesta consigo mesma —

e qual é o sentido de não ser? —, você também os usou.

Portanto, não banque a vítima.

Você é melhor que isso.

Mais forte.

Callan lhe disse que, se ele não voltasse, ela deveria atravessar a ponte,

mas Nora não vai fazer isso. Se ele não voltar, ela vai encontrá-lo, trazê-lo de volta, ou seu corpo, ou, no mínimo, descobrir o que aconteceu com ele, e agora ela está com raiva de si mesma, por tê-lo deixado ir sozinho.

Eu deveria ter ido com ele, pensa, deveria ter forçado até ele me

“deixar” ir. Eu poderia falar com Elena, ao menos, se não pudesse fazer melhor.

Afinal, eu a conhecia.

Nós jantamos juntas, fizemos compras juntas, compartilhamos as

reuniões em família. Ela sabia que seu irmão me amava, sabia que eu era boa para ele.

Até determinado ponto.

Ela nunca soube que eu o traí.

Se ela soubesse…

Mas eu deveria ter ido.

A casa fica no ponto norte da Ensenada.

A van para em um portão de segurança, os guardas acenam para que eles

entrem, depois sobe uma sinuosa entrada de veículos.

Callan não entra. O israelense o conduz ao redor da casa, até um imenso

gramado bem cuidado, com vista para o mar e para as rochas abaixo. Um punhado de palmeiras altas balança sob a brisa do lado norte, uma imensa extensão de praia ao sul, depois uma marina com veleiros. A casa, pensa Callan, deve custar milhões. É de estuque branco, imensas janelas panorâmicas — com vidro fumê —, decks e pátios generosos, várias edificações externas.

O israelense o põe sentado em uma cadeira de ferro branca, junto a uma

mesa, e se afasta — fica onde não pode ouvir, mas pode ver. Uma jovem mulher vestida de preto sai e pergunta se ele quer algo para beber ou comer. Uma cerveja, talvez, um pouco de chá gelado, talvez um pouco de fruta?

Callan recusa.

Alguns minutos depois, Elena Sánchez sai da casa.

Ela veste um vestido branco comprido, seus cabelos negros estão pesos. Ela senta de frente para Callan, o observa, por alguns instantes, depois diz:

— Peço-lhe desculpas pelo tratamento rude. Você compreende que meu pessoal precisava ter certeza. Creio que você tenha prestado serviços semelhantes ao meu irmão. Se as histórias das canções são verdadeiras, você uma vez salvou a vida dele.

— Mais de uma vez.

— Por isso eu concordei em vê-lo — explica Elena. — Lev disse que houve algum tipo de problema.

Callan vai direto ao ponto.

— Eu matei três de seu pessoal.

— Ah.

Callan conta o que aconteceu na Bahia de los Piratas e então diz:

— Eu vim para endireitar as coisas.

— Aguarde alguns minutos, por favor — diz Elena. — Eu já volto.

Callan fica olhando, enquanto ela volta à casa. Então, ele fica sentado olhando o mar. A adrenalina está passando e seu corpo começa a doer. Os caras de Lev são profissionais — nenhum osso quebrado —, mas os hematomas são profundos.

E ele está sentindo a idade.

Quinze minutos depois, Elena volta.

Há um jovem com ela.

— Este é meu filho Luis — apresenta Elena. — Na verdade, é ele que está encarregado dos negócios agora, então achei que ele deveria estar presente.

Se ele realmente fosse o encarregado dos negócios, pensa Callan, você que não estaria presente. Mas ele assente para Luis.

— Mucho gusto.

— Mucho gusto.

Basta uma segunda olhada para saber que Luis não quer estar encarregado dos negócios da família, que ele preferiria de estar em qualquer lugar do mundo, menos nesta discussão. Callan já conheceu muitos narcos — Luis não é um deles.

— Os três homens que você matou eram contratados independentes — diz Elena —, porém, sob nossa proteção.

E pagando uma porcentagem pelo privilégio, pensa Callan. — Estou disposto a pagar uma restituição, até proteção, se for preciso. — Não há como pagar pelo que eles eram — diz Elena. — Eu estou em

guerra, sr. Callan, e tenho certeza de que se lembra, as guerras são caras. Preciso de todos os recursos que eu puder conseguir. Preciso do dinheiro que estava saindo da Costa Rica.

— Eu só quero que minha esposa fique a salvo — afirma Callan. —

Adán também iria querer.

Elena parece surpresa.

— E por quê?

— Ele a amava — diz Callan.

É raro, mas Elena de fato demonstra surpresa. — Você se casou com Nora Hayden?

— Sim.

— Extraordinário — diz Elena. — Eu sempre a invejei, que beldade. Na

verdade, eu gostava muito dela. Mande minhas lembranças. Todos os mitos voltando. Primeiro, Rafael Caro, agora, você e Nora…

Surge um rompante ruidoso de crianças correndo pelo gramado, rindo,

gritando, perseguidas por uma babá, enquanto outra mulher olha.

— Meus netos. Os pequenos são tão resilientes. — Ela vê o olhar de

Callan, que não entendeu sua observação, e explica: — O pai deles foi morto há pouco tempo. Assassinado, na verdade. Na frente deles. Iván Esparza ordenou sua morte.

O que explica a guerra, pensa Callan. E a minha recepção rude. Iván o

mandou!

Ela recosta na cadeira e olha o mar.

— Lindo, não é?

É, se você não viu a Bahia de los Piratas, pensa Callan. — Toda essa beleza, essa riqueza — diz Elena —, e nós temos que

matar uns aos outros, como animais. O que há de errado conosco, sr. Callan?

Callan acha que é uma pergunta retórica.

— Talvez possamos chegar a algum tipo de acordo — afirma Elena. —

Eu lhe dou anistia pelos três, deixo seu vilarejo em paz, sem mencionar a bela Nora…

— Em troca de quê?

— Iván Esparza — diz ela. — Mate-o para mim.

Enquanto Lev o conduz de carro de volta a Rosarito, Callan pensa na oferta de Elena.

Lute por mim, lute por Luis. Ajude-nos a tomar o cartel e, se nós ganharmos, eu lhe darei tudo que quer.

Absolvição.

Segurança.

Sua esposa, sua casa.

Sua vida.

Ele sabe que não tem escolha.

Agora, ele está de volta na guerra.

Keller está sentado ao lado de Marisol, assistindo ao noticiário da noite.

Especificamente, John Dennison anunciando sua candidatura para a presidência dos EUA. “Eu vou construir um grande muro em toda a extensão da fronteira mexicana, e ninguém constrói muros melhor que eu. Vou construir um muro bem, bem grande lá, e sabe quem vai pagar por esse muro? O México. Guardem as minhas palavras.”

— Guardem as minhas palavras — repete Marisol. — Como ele vai fazer o México pagar por esse maldito muro?

Dennison prossegue: “Nosso país se tornou um aterro sanitário. Quando o México manda sua gente, eles não mandam os melhores. As pessoas que eles mandam pra cá trazem drogas, trazem armas, trazem o crime. São ladrões, são assassinos, são estupradores.”

— Essa TV foi cara — lembra Keller —, não vá arremessar um copo.

— “Estupradores”?! — diz Marisol. — Ele está nos chamando de assassinos e estupradores?!

— Acho que ele não está se dirigindo a você, pessoalmente.

— Como pode fazer piada? — pergunta Marisol.

— Porque é uma piada — diz Keller. — Esse cara é uma piada.

Os republicanos podem ganhar a próxima eleição e eu perderei meu emprego, pensa Keller, mas não será esse cara que vai me dar o cartão vermelho, mesmo sendo famoso por demitir pessoas.

Dennison continua: “Muitos nesta sala, tantos amigos me disseram que o maior problema que eles têm é a heroína. Como isso é possível, com tantos lagos lindos e árvores? As drogas estão vindo em enxurradas pela nossa fronteira ao sul, e quando eu digo que vou construir um muro, nós teremos um muro de verdade. Vamos construir o muro e vamos impedir que o veneno invada e destrua nossa juventude e muitas outras pessoas. E vamos trabalhar com essas pessoas que ficaram viciadas, que estão viciadas.”

Na manhã seguinte, o Washington Post pergunta a Keller sobre a

promessa de Dennison de construir um muro.

— Em termos de deter as drogas — alega Keller —, um muro não vai

adiantar nada.

— Por que não?

— É simples — explica Keller. — O muro ainda terá portões. Os três

maiores se chamam San Diego, El Paso e Laredo, as travessias comerciais mais movimentadas do mundo. Um trailer rebocador entra através de El Paso a cada quinze segundos. Setenta e cinco por cento das drogas ilícitas provenientes do México entram por essas travessias legais, a maioria em trailers, algumas em carros. Não há como pararmos e fazermos uma revista minuciosa nem sequer uma pequena porção desses caminhões, sem fechar completamente o comércio. Não faz sentido construir um muro, se os portões estão abertos 24 horas, 7 dias por semana.

Ele sabe que deveria abandonar o assunto, mas não o faz. — Você tinha mesmo que ficar falando sobre o muro? — pergunta

O’Brien.

— É uma ideia imbecil — diz Keller. — É mais que imbecil, é uma

manobra política cínica, de dizer a pais pesarosos de New Hampshire que um muro vai deter o fluxo de heroína.

— Eu concordo — diz O’Brien. — Só não vou ao Post falar isso. — Talvez você devesse.

— É uma questão de ótica — diz O’Brien. — O chefe do Departamento

de Narcóticos se manifesta contra algo que pode impedir o fluxo de drogas do México…

— Mas que na verdade não vai.

—… e ele tem uma esposa mexicana.

— Quero dizer isto com todo respeito e afeição, Ben — diz Keller. —

Vá se foder.

— Dennison não vai ganhar — afirma O’Brien. — Seu muro não será

construído. Deixe isso pra lá, deixe passar essa temporada de idiotices. Pra que arranjar briga com esse babaca?

Porque, dentre outros motivos, pensa Keller, o genro de Dennison está

afundado até o pescoço em dinheiro de drogas.

A Terra já foi à fonte ao menos três vezes, pegando milhões emprestados do HBMX para projetos de construção em Hamburgo, Londres e Kiev. Claiborne foi o agente do consórcio nas duas primeiras. O negócio em Kiev foi através do Sberbank, uma instituição russa que agora está sob sanção americana.

O HBMX tem seus próprios problemas. Em 2012, sua filial americana foi multada em 2 bilhões de dólares por “deficiência no impedimento do uso de seu sistema bancário para a lavagem de dinheiro criminoso”. A investigação foi lenta; e durante um período de cinco anos, o HBMX no México enviou às suas filiais americanas mais de 15 bilhões em espécie ou através de cheques suspeitos. O banco também foi sancionado por demonstrar “resistência em encerrar contas ligadas a atividades suspeitas” — eles tinham mais de dezessete mil relatórios de operações sem revisão.

Não se admira, pensa Keller, que eles sejam um “emprestador de último recurso”.

Mas agora Claiborne relata que Lerner está desesperado.

Ele não encontrou um substituto para o capital do Deutsche Bank, o relógio está correndo, com o tempo se esgotando para seu pagamento para o Park Tower, e o prédio está em hemorragia de dinheiro.

— Jason quer que eu vá à Rússia — Claiborne disse a Hidalgo —, ou ao México.

De qualquer forma é dinheiro sujo, pensa Keller, mas ele não se importa se Claiborne for à Rússia. Ele se importa muito se ele for ao México.

Há coisas acontecendo por lá.

O maior avanço é o rápido crescimento de Tito Ascensión e do cartel Jalisco Novo. O CJN ingressou, de forma contundente, no mercado de heroína e fentanil, desafiando o domínio de Sinaloa. A organização de Ascensión está deslocando seu produto pelas travessias em Baja, e tem forte presença não apenas em Jalisco, mas também em Michoacán e Guerrero. Também está desafiando os zetas em Veracruz.

A batalha não é só pela exportação das drogas. O México agora tem um mercado doméstico forte, e a concorrência pelas esquinas locais transformou cidades como Tijuana, La Paz e uma dúzia de outras em praças de guerra. A matança alcançou índices que não eram vistos desde “os dias ruins”, nos idos de 2010 e 2011.

As vendas domésticas e externas são fortemente emaranhadas — os cartéis pagam seus soldados dando-lhes territórios domésticos —, de modo que o mercado interno paga pelo efetivo que eles precisam para controlar as travessias fronteiriças.

Não são apenas drogas — as gangues locais que se aliam com um ou

outro cartel fazem boa parte de seu dinheiro através de extorsão, forçando pagamento de bares, restaurantes, hotéis, qualquer negócio dentro de seus territórios.

É um desfraldar relativamente novo — o antigo e dominante cartel

Sinaloa nunca permitiu extorsão. Eles acreditavam que isso causaria hostilidade de cidadãos que de outra forma seriam neutros, forçando o governo a tomar uma atitude.

O CJN não tem tais escrúpulos. Eles estão extorquindo os negócios até

na Cidade do México, bem debaixo do nariz do governo federal, desafiando o partido no poder, PRI, a fazer algo a respeito.

O governo mexicano bem que tentou.

Em janeiro passado, os federais tentaram capturar Ascensión, mas não

fizeram o serviço direito. No entanto, prenderam seu filho, Rubén.

Ascensión retaliou, atocaiando um comboio de federales, em Ocotlán,

com metralhadoras e lançadores de torpedo, matando cinco deles.

O governo reagiu atacando o rancho de Ascensión, no interior de

Jalisco, em uma madrugada.

Dois helicópteros EC-725 Caracals de fabricação francesa, da força

aérea mexicana — “Super Cougars” — deram rasantes por cima das árvores. Pares de metralhadoras 7.62 mm estavam embicadas para fora das janelas, à direita e à esquerda, e cada aeronave veio tripulada com vinte federales ou paraquedistas de elite do exército para matar ou capturar Tito Ascensión.

A ideia era pegá-lo dormindo, em um de seus muitos ranchos, e colocá-

lo para dormir de vez.

Só que Tito estava bem acordado.

De um celular descartável, em um quarto blindado de dentro da

hacienda, ele observava a chegada dos helicópteros. Esperou até que o primeiro começasse a pairar e viu os soldados começando a descer de rapel, como pirulitos em um palito.

Tão impotentes, pendurados no ar.

Cinco caminhões de guerra, escondidos por baixo de redes camufladas,

rugiram pra fora das árvores. Sua guarda residencial — também de elite, treinada por ex-componentes da força especial israelense, em caminhões pintados com FORÇAS ESPECIAIS DO ALTO COMANDO DO CJN.

Eles abriram fogo com AKs.

Os pirulitos despencaram do céu.

Um atirador do CJN lançou um foguete ao segundo helicóptero, atingindo o rotor de cauda. A aeronave entrou em giro, colidiu no solo e ardeu em chamas.

O ataque “surpresa” tinha acabado.

Nove soldados foram mortos, outros horrendamente queimados.

Durante os dois dias seguintes, os atiradores do CJN promoveram uma rebelião por toda Jalisco, tomando e queimando carros e ônibus, incendiando postos de gasolina e até bancos, e até a cidade de veraneio de Puerto Vallarta. O governo precisou enviar dez mil soldados, a um custo gigantesco, para restaurar algum resquício de ordem.

Três semanas depois, um grupo de federales avistou um comboio de carros com homens armados, deixando um racho em Michoacán, perto da fronteira de Jalisco. Eles tinham dados da inteligência alegando que Tito Ascensión possivelmente estaria se escondendo no “Rancho del Sol”, assim, eles tentaram parar os carros.

Os homens nos carros abriram fogo e aceleraram de volta ao rancho.

Os federales pediram reforços.

Primeiro, mais quarenta federales, depois, mais sessenta, então, um helicóptero Black Hawk descarregou mais de dois mil tiros nas edificações do rancho, matando seis pistoleiros do CJN e capturando outros três.

Dois dos mortos do CJN em Jalisco eram policiais estaduais de Jalisco.

Um federal foi morto.

Mas Tito Ascensión não estava entre os mortos ou capturados.

A Cidade do México concluiu que isso não era possível.

Eles precisavam de uma vitória.

Manchetes melhores.

Os federales circularam pela região e pegaram mais 33 suspeitos, homens que conhecidamente figuravam na lista de pagamento do CJN. Eles os levaram ao rancho e mataram todos com tiros na nuca. Então, espalharam os corpos pelo rancho, colocaram fuzis e lança-foguetes nas mãos deles e anunciaram que haviam matado 42 pistoleiros do CJN, durante uma luta armada feroz, com três horas de duração.

Isso ganhou as manchetes.

A mídia mexicana — incluindo Ana — pulou em cima e publicou mais

histórias relatando que a “batalha armada” fora uma farsa e que os federales haviam apenas executado 42 homens que talvez nem tivessem ligação com o CJN.

“Quarenta e nove em Tristeza” Ana escreveu “agora, quarenta e dois em

Jalisco. O governo federal está simplesmente assassinando seus oponentes?”

Ou o governo está simplesmente assassinando os oponentes de Sinaloa?

pensa Keller. Há um precedente e ele esteve envolvido, provendo inteligência americana a Orduña e às FES, para derrubar os zetas, inimigos de Adán Barrera.

E não há dúvida de que Sinaloa e o CJN estão em guerra. Todas as fontes da Narcóticos relatam que Ascensión culpa Sinaloa

pelos ataques contra ele e o encarceramento de seu filho. O consenso é que ele estava por trás da tentativa fracassada de assassinar Ricardo Núñez, embora uma minoria acredite que tenha sido Iván Esparza.

Isso parece improvável, pensa Keller, dado o relato de que Núñez teria

revertido sua decisão anterior e devolvido a Plaza Baja aos Esparza. Se for verdade, foi um passo inteligente, mesmo que tenha alienado Elena Sánchez e a levado aos braços de Ascensión. Núñez precisa do efetivo dos Esparza para lutar uma guerra contra Ascensión.

Mas isso lançou Baja ao caos absoluto, uma guerra multilateral, com as

tropas de Núñez e dos Esparza reunidas contra a organização “rebelde” Sánchez e seu aliado CJN. Até agora, nenhum dos líderes atacou outro diretamente — desde o ataque a Núñez —, mas estão lutando nas ruas, massacrando os traficantes de esquina e cobradores uns dos outros.

A “rua” está sofrendo.

Traficantes, soldados, donos de bares mal sabem, de um dia para outro,

quem está no controle, a quem eles devem pagar, a quem devem lealdade. Qualquer equívoco é fatal e eles são peões cegos, em um jogo de xadrez em 3-D, sendo derrubados do tabuleiro com frequência crescente.

E com brutalidade.

Corpos são pendurados em pontes e passarelas, queimados, decapitados,

picados e os pedaços espalhados pelas calçadas. Uma operadora de Sinaloa — chefe das forças armadas de Núñez, uma figurinha psicótica chamada “La Fósfora” — passou a pintar os cadáveres com tinta spray verde, proclamando que essa é a cor de Sinaloa e que “Baja é verde”.

Baja é um abatedouro, isso sim, pensa Keller.

Se ao menos fosse o único.

Sinaloa e CJN também estão lutando por cidades portuárias, não apenas pelas vendas de drogas e extorsão, mas pela habilidade crítica de controlar os carregamentos oriundos da China, que provê tanto o fentanil como a base química para a metanfetamina.

Mas as cidades portuárias também tendem a ser cidades de veraneio, e agora destinos famosos de férias como Acapulco, Puerto Vallarta e Cabo San Lucas vêm vivenciando uma violência jamais vista, afugentando dólares cruciais do turismo.

Os portos mais prosaicos como Lázaro Cárdenas, Manzanillo, Veracruz e Altamira se tornaram campos de batalha, estando Veracruz em uma luta de três lados entre Sinaloa, o CJN e os zetas. Em Acapulco, o conflito entre Sinaloa e o CJN se agravou pela presença de Damien Tapia e dos antigos remanescentes da organização de Eddie Ruiz.

Agora só existem dois supercartéis, pensa Keller, Sinaloa e CJN. Mas existe um punhado de organizações de segundo escalão: cartel “Nova Tijuana”, encabeçado pela família Sánchez; os zetas, ressurgentes em Tamaulipas e em partes de Chihuahua; e Guerreros Unidos, que parecem estar aliados com a antiga organização Tapia, sob o comando de Damien Tapia. Há remanescentes dos Cavaleiros Templários e da Família Michoacán. Esses são os personagens mais importantes, mas agora há mais de oitenta organizações de tráfico de drogas identificadas no México.

Se Keller tivesse que prever o vencedor, ele escolheria o CJN, embora por uma vantagem estreita. Eles fizeram ganhos consideráveis nos lucros com heroína, e Tito é o mais experiente líder de guerra. Não há dúvida de que Núñez esteja pessoalmente enfraquecido, ainda se recuperando de seus ferimentos, e que a ala Núñez esteja sendo liderada por seu filho, Ric. Por outro lado, Mini-Ric parece estar crescendo em seu papel, tendo se aliado com Iván Esparza, que é um forte líder em tempos de guerra, e Ascensión fica um tanto restringido em suas ações, porque seu filho está sob custódia federal. Porém, se forçado a apostar, Keller diria que, neste momento, o CJN é o cartel mais poderoso do México.

O que configura uma mudança tectônica na estrutura de poder.

Mas o governo federal mexicano está indo atrás de Tito com unhas e dentes, portanto, ele não transformou seu poder em influência política.

A Cidade do México está se mantendo com Ricardo Núñez e Sinaloa.

John Dennison está concorrendo a presidente. E seu genro está buscando dinheiro de drogas. Ele é um de Los Hijos, pensa Keller.

A festa está totalmente embalada.

Para o aniversário de Oviedo, Iván fechou um restaurante inteiro em

Puerto Vallarta e convidou todos Los Hijos e suas esposas.

Nenhuma segundera é permitida. Namoradas e amantes são para a festa depois da festa, que Ric sabe que

será uma orgia movida a drogas e birita, mas o jantar no restaurante chique está sendo um evento bem adulto — os caras todos arrumados, as esposas enfeitadas com tudo a que têm direito. Todos de preto, conforme o convite, porque o restaurante é inteiro branco — paredes brancas, mobiliário branco, toalhas brancas.

Elegante, adulto.

A comida também é muito adulta — para começar, tartare de carne,

aguachile de camarão, depois, paleta de porco, ravióli de frutos do mar e ragú de pato, terminando com crème brûlée de chocolate e pudim de pão de banana.

Ric está bebendo goles de um martíni de pepino — essa é nova para ele

— e conversa com a esposa, o que também é relativamente novo para ele, mas é algo que ele tem feito cada vez mais, passando as noites em casa, com Karin e a bebê.

O negócio estranho, e até Ric precisa admitir, é que o ferimento de seu

pai, e sua longa recuperação, forçaram Ric a se tornar o cara que as pessoas acham que ele é, que seu pai quer que ele seja. E ele está começando a gostar disso, descobre que quando para com a farra, a bebedeira e as drogas, ele gosta de cuidar dos negócios — das estratégias, da alocação de recursos e pessoal, até de lutar a guerra contra Elena e Tito.

Ric e Iván sentam juntos regularmente para coordenar suas atividades

para enfrentar o Cartel Baja Nuevo Generación, o CBNG. É complicado — traficantes de rua de algumas esquinas têm que ser passados de Núñez para Esparza e vice-versa; da mesma forma, seus respectivos pistoleiros, espiões e policiais precisam receber divisões claras de responsabilidades e territórios, para que não fiquem tropeçando nos pés uns dos outros.

É um trabalho detalhado e esmerado, o tipo de coisa da qual Ric teria

fugido, apenas alguns meses antes, mas agora o encara com zelo. Eles se debruçam no Google Maps, discutem os relatórios dos halcones, até padronizam o dinheiro que pagam à polícia, para que os policiais não tentem jogar uns contra os outros.

— Cartel Nova Geração Baja — disse Ric, em uma das reuniões — é apenas a maneira de Luis de deixar todos saberem que ele agora está no comando.

— Será preciso mais que isso — disse Iván. — Todos sabem que Mami ainda dá as ordens. Luis é engenheiro. O que ele sabe sobre administrar uma organização ou lutar uma guerra?

E o que nós sabemos? pensou Ric, mas não falou. Somos todos novos nisso, até Iván. Pouco tempo atrás, nenhum de nós levava isso a sério, e agora estamos aprendendo na prática. Luis pode não saber porra nenhuma de lutar uma guerra, mas Tito Ascensión sabe de sobra. Tito se esqueceu mais do que nós jamais saberemos.

Iván perguntou sobre Damien.

— Como vai indo a grande caça ao Jovem Lobo?

— Nada — respondeu Ric. — E você?

— O moleque sumiu — disse Iván. — Provavelmente foi uma boa ideia. Foi foda, o que ele fez.

— Sem dúvida, mas…

— Mas? — pergunta Iván.

— Não sei — disse Ric —, foi tão ruim assim? No fim do dia, ninguém importante foi ferido.

— A questão não é essa — disse Iván. — Ele nos desrespeitou.

— Ele atacou Elena — lembra Ric. — A mulher contra quem estamos em guerra, neste momento.

Tipo, talvez a gente devesse se aliar a Damien?

— Não interessa — disse Iván. — Ele atacou a mãe de Adán Barrera. Mãe de seu padrinho. Se deixarmos alguém se safar com isso, é o mesmo que virar de bruços e deixar que comam a nossa bunda. Não, Damien tem que cair.

— Certo, mas tem “cair” e “cair” — falou Ric. — Entende o que eu quero dizer?

— Ele tem que cair feio, Ric.

— Está bem.

— Ric…

— Eu entendo você — afirmou Ric. Valeu tentar. Ele mudou de assunto.

— Ei, falando em desrespeito, você viu aquela porra daquele yanqui dizendo que vai acabar com a gente?

— Quem? — perguntou Iván. — Dennison? O que está concorrendo a

presidente? O que vai construir o muro?

— Ele falou que se for eleito, vai acabar com a raça do cartel Sinaloa —

disse Ric. — Ele pôs isso no Twitter.

Iván fez aquela cara que geralmente significa problema. — Vamos foder com ele.

— O que quer dizer?

— O cara gosta de tuitar, certo? — Iván pegou o celular. — Então,

vamos tuitar.

— Isso não é inteligente.

— Ora, vamos — insistiu Iván. — Nós temos sido bons demais, nos

últimos tempos. Só trabalho e nada de brincadeira. A gente também precisa de um pouco de diversão.

Ele escreveu algo no celular e mostrou ao Ric.

Se você continuar incomodando a gente, nós vamos fazer você comer suas palavras, seu Ronald McDonald, Cabeça de Cheetos, cretino gorducho. Cartel Sinaloa.

— Meu Deus, Iván, não aperte enviar.

— Tarde demais — falou Iván. — Ele vai mijar nas calças. — Acho que acabei de mijar nas minhas — disse Ric. Mas ele estava rindo.

Iván também estava rindo.

— Nós somos a porra do cartel Sinaloa, mano! Temos mais dinheiro que

esse cara, temos mais homens que esse cara, mais armas que esse cara, mais tutano, mais culhão! Vamos ver quem vai acabar com quem. Foda-se ele. ¡Los Hijos, siempre!

Los Hijos para sempre, pensou Ric.

Ric saiu da reunião e foi procurar Damien onde ele não estava. O que

não significava, no entanto, que ele soubesse onde o Damien estava.

Belinda continuava fazendo as coisas de seu jeito. O pessoal dela descobriu que o cabeça das operações do CBNG andava

em um palenque, em Ensenada.

O homem gostava de briga de galo.

Ela atacou e matou quatro CBs, mas o cara escapou.

Não por muito tempo.

Duas semanas depois, ele estava indo para casa após uma reunião, às quatro da madrugada, na estrada 1, quando surgiram La Fósfora e seu pessoal, todos de motocicletas. Eles encostaram na lateral da estrada, ao lado de seu Navigator, e metralharam o carro, ele, o motorista e o guarda-costas.

Belinda e Gaby esquartejaram os corpos e pintaram com tinta spray verde.

— Decidi que essa é a nossa cor — explicou Belinda. — Sinaloa em Baja é verde. Vou chamar de “Céu verde”. Isso é ótica.

— Ótica.

— Ótica é algo importante — disse Belinda. — Eu assisto à CNN.

Ótica é importante, assim como as palavras, o que explicava por que ela deixou nos corpos um cartaz que dizia: “O céu é verde, filhos da puta do CB. Nós estamos aqui e sempre estaremos. — Sinaloa em Baja”.

Um mês depois, ela encontrou outro operador do CB em uma boate de striptease, em Tijuana, na Zona Río, e deixou seus pedaços (verdes) em um saco plástico preto com a mensagem: “Só mais um lembrete de que nós ainda estamos aqui e sempre estaremos. Vocês nem existem. O céu sempre será verde, até para as strippers e as bonecas de CB/Jalisco”.

— O que você tem contra strippers? — perguntou Ric.

— Nada — disse ela. — Eu gosto de strippers. Gosto muito. Mas se vão tirar a roupa, elas têm que tirar pra gente, não para aqueles traidores do CB e seus companheiros de Jalisco.

— É, mas bonecas?

Belinda pareceu preocupada.

— Você acha que isso é sexista? Porque eu sou feminista, sou totalmente a favor do empoderamento das mulheres. Quer dizer, eu sou a primeira mulher chefe da segurança de um grande cartel, certo? E não quero que as pessoas pensem…

— Não, está tudo certo.

— Você ainda está em missão de busca e esquiva? — perguntou ela.

— Nós não conseguimos mesmo encontrar Damien — respondeu Ric. — O que ouvimos dizer é que ele está entocado em algum lugar lá em Guerrero.

— Quer que eu mande um pouco do meu pessoal?

— Foque em Baja.

— Que porra você acha que eu tenho feito? — perguntou ela. É, céu verde, pensou Ric.

— Isso está uma delícia — Karin está dizendo agora, segurando uma colher de pudim. — Você experimentou?

— Está ótimo.

— Quantos anos o Oviedo está fazendo, mesmo? — pergunta Karin. — Vinte e cinco, mas parece treze — diz Ric. Tecnicamente, Oviedo é o chefe da Plaza de Baja, mas Ric acha mais

fácil trabalhar ao redor dele e se encontrar com Iván, que está mesmo com dificuldades de delegar. Oviedo é um garoto legal, mas ainda é um garoto, não é sério, e Ric acha difícil conseguir fazer qualquer coisa com ele.

Iván caminha até a mesa.

— Preciso fazer uma ligação. Você segura aí? Ric assente.

— Pra onde ele vai, de verdade? — pergunta Karin. — Tem meio que uma festa depois da festa — diz Ric. — Ele

provavelmente vai cuidar de alguns detalhes.

Coca, piranhas… coca.

— Você vai nisso? — pergunta Karin.

— Não, eu vou voltar pro hotel com você.

— Você está chateado por não ir?

— Não — diz Ric. — Não estou.

Cerca de cinco minutos depois, a porta abre e Ric olha, esperando ver

Iván, mas, em vez disso, ele vê um cara de preto, encapuzado, empunhando um fuzil AK-47.

Ric pousa as mãos nos ombros de Karin e a empurra para debaixo da

mesa.

— Fique aí.

Mais homens entram pela porta.

Ric vê Oviedo levando a mão à cintura para pegar uma arma que não

está ali. Ninguém está armado, sendo este um jantar elegante em Jalisco, onde Tito Ascensión em pessoa garantiu a segurança dos irmãos Esparza. Portanto, eles estão totalmente impotentes quando os pistoleiros — são cerca de quinze — começam a separar as mulheres dos homens.

Karin grita quando um homem estende a mão embaixo da mesa e agarra

seu punho.

— Está tudo bem, meu bem — Ric diz a ela. Ao pistoleiro, ele fala: — Se machucá-la, eu mato você.

O pistoleiro que entrou primeiro começa a gritar ordens.

— Mulheres naquela parede! Homens naquela parede! Andem!

Ric conhece a voz.

Damien.

Ric vai até a parede e fica ao lado de Oviedo, Alfredo e seis outros homens. Ele olha para o outro lado do salão, para Karin, que está chorando, apavorada.

Ele sorri para ela.

O chão está salpicado de bolsas, carteiras e sapatos de salto alto.

— Vão! — grita Damien.

O pessoal dele segue pela fileira de homens, virando um a um para a parede, prendendo os punhos atrás das costas com tiras plásticas e levando-os porta afora.

Ric é o último.

— Ele não! — grita Damien. — Deixem esse!

Ele caminha até Ric.

— Onde está Iván?

— Não sei, cara.

Ric encolhe os ombros.

Damien recua e aponta o cano do AK para o rosto de Ric.

— Onde ele está, porra?!

Ric sente-se tonto, como se fosse desmaiar. Tem a impressão de que vai cagar nas calças, mas força a voz para sair equilibrada e responde:

— Eu já disse, não sei.

Ele vê os olhos de Damien nos buracos do gorro ninja.

Estão fervilhando de adrenalina.

— Vamos esperar por ele — diz Damien.

— Você não tem tempo pra isso, D — diz Ric, com uma calma que ele não sabia possuir. — Nós estamos com gente no fim da rua. Eles estarão aqui a qualquer momento. Se eu fosse você, iria embora antes de precisar atirar.

— Ouvi falar que você tem me defendido — comenta Damien.

— Agora, eu lamento ter feito isso.

— Não lamente. Esse é o único motivo para eu não levar você junto com o restante. — Então, Damien recua e grita: — Certo! Vamos embora! Já temos o que viemos buscar!

Bem, dois dos três irmãos, pensa Ric.

Os pistoleiros saem e Damien é o último a passar pela porta. Ric corre e agarra Karin. Passa os braços em volta dela e diz: — Está tudo bem, tudo bem, agora está tudo bem. Só que não está.

Keller está com Marisol, na varandinha do segundo andar, tentando ter um pouco de alívio da noite escaldante de agosto. Os verões em DC são o que se chama de “clima de três camisas”: se você sai mais de uma vez, tem que trocar de camisa duas vezes.

Mas Marisol fez um jarro de sangria e eles tomam com gelo, como

yanquis bárbaros. Ela está lhe ensinando que a maneira de lidar com o calor é ficar completamente parado, quando o telefone toca.

É Hidalgo.

— Alguém pegou os irmãos Esparza. Bem, dois deles. — Que dois?

— Ainda não está claro — diz Hidalgo. — A Univision já noticiou de

três maneiras. Escuta essa: um grupo de homens encapuzados entrou tranquilamente num restaurante em PV, onde eles estavam tendo uma festa, atracou todos os homens e os levou pra fora, numa van. Soltaram todo mundo, menos os Esparza.

— Quem tem culhão pra fazer isso?

— Não sei — responde Hidalgo. — Isso diz algo sobre Sinaloa, hein? É, pensa Art — as pessoas não estão mais com medo deles. Embora eles tivessem dado um susto que durou pouco, quando

ameaçaram “o candidato”, como Keller passou a chamá-lo.

Agora ele diz:

— Encontro você no escritório.

— Não vai mais ficar totalmente parado — diz Marisol. — Farei isso, quando eu estiver morto.

Então, terei tempo suficiente para isso, pensa ele.

Iván está apoplético.

— Ele está com meus irmãos! Ele está com meus irmãos! — Calma — diz Ric.

— Calma você, caralho! — berra Iván. — Ele está com meus irmãos! A essa altura, ele pode já tê-los matado!

Faz 45 minutos, pensa Ric.

Se Damien tivesse deixado os corpos em algum lugar, a esta altura eles já saberiam. E ele e Iván têm homens espalhados por toda Puerto Vallarta, circulando pelas ruas, vasculhando as praias. Estão falando com motoristas de táxi, gente da rua, até turistas, perguntando se viram algo.

Até agora, nada.

E nenhum telefonema.

Nenhum pedido de resgate.

Que porra Damien está fazendo? Ric se pergunta. Se quisesse matar os Esparza, ele simplesmente o teria feito no restaurante. Mas agora ele tem reféns. Para quê? Dinheiro de resgate? Outra coisa?

— Por que ele deixou você?

— Pra ter alguém com quem negociar — diz Ric. — Em quem ele confie.

— É bom que esse seja o motivo — diz Iván.

— O que você está dizendo? — pergunta Ric.

— Não sei. Estou fora de mim, porra. Juro por Deus, eu vou pegar as irmãs do Damien, vou pegar a mãe dele…

— Não faça nada precipitado — avisa Ric. — Não faça nada que piore a situação. Nós vamos resolver isso. Vamos voltar pra Culiacán. Não podemos fazer nada aqui.

— Não me diga o que fazer — retruca Iván. — Esse é o cara por quem você queria demonstrar piedade, certo? Esse é o cara que não fez nada de tão ruim… Quando eu o encontrar, e eu vou encontrar, vou escarná-lo como a uma galinha, depois vou arrancar toda a pele, e depois é que a coisa vai ficar séria.

— Se ele fosse matar seus irmãos, já teria feito isso.

— Como você sabe que ele já não fez?

— Porque ele não pode — diz Ric. — Ele já percebeu isso. Ele veio com tudo, pra levar os irmãos Esparza. Mas faltou o mais importante: você. Ele atirou e errou, Iván. Agora ele terá que lidar com você.

— Então, por que ele não liga?

Damien precisa fazer sua jogada parecer um golpe, pensa Ric. Ele pode fazer isso através da mídia, fingir que foi tudo um exercício para mostrar que o cartel Sinaloa não é mais o que foi, que ele pode peitá-los, que não tem medo e que ninguém mais deve ter. Então, ele vai deixar a mídia se esbaldar com isso, exatamente como eles fizeram depois da invasão à hacienda de Barrera. Talvez, tomara, humilhar os Esparza já seja o suficiente para ele.

— Ele vai ficar com eles até a história murchar — diz Ric. — Então, vai

soltá-los. A menos que você faça alguma burrice, Iván.

Se Iván bancar o Iván, ficar todo aloprado e pegar as mulheres Tapia,

então Oviedo e Alfredo provavelmente vão aparecer de bruços em alguma vala por aí.

E isso, pensa Ric, vai originar uma guerra que nunca vai acabar.

Seu pai não o recebe no escritório, mas na sala.

Núñez está sentado em uma poltrona, precisando cada vez menos da

bengala, agora apoiado no braço da cadeira.

Ele ainda parece fraco, pensa Ric.

Está melhor, agora fora de perigo, mas ainda fraco. Ele não recuperou

muito peso e seu rosto está abatido, a pele pálida.

E ele fala mansinho, como se ainda fosse um esforço. — Independentemente de como isso terminar, eu serei culpado. Dirão

que sou passivo demais, hesitante, tão fraco que o Jovem Lobo ousou raptar dois da família real Sinaloa. E se os garotos Esparza forem mortos, Iván sairá do cartel para buscar uma contenda sangrenta com a organização Tapia, o que vai inflamar ainda mais o país. O governo será forçado a reagir e vai se perguntar por que eu não consigo manter o controle. Eles vão procurar alguém que consiga. Talvez Tito.

— Tito estava envolvido nisso — diz Ric. — Ele teve que ao menos dar

sua autorização tácita para que isso acontecesse em Jalisco.

— Isso mesmo — concorda Núñez. — Tito tem a chave, mas não

podemos ir até ele.

Então, pensa Ric, temos que ir a quem podemos.

Rafael Caro inclina a cadeira para trás.

Ric vê as solas dos sapatos do velho.

A esquerda tem um buraco.

— Don Rafael — diz Núñez Sênior —, obrigado por nos receber para

esta reunião. Como um venerado e respeitado estadista idoso, o éminence grise…

— Do que ele está falando? — pergunta Caro.

— Acho que ele quer dizer que você tem cabelos grisalhos — diz Tito.

— São brancos — retruca Caro. — Sou um velho aposentado, já não tenho mais ligação com o negócio. Não tenho cachorro nessa briga. Mas se isso me permite ser um mediador objetivo, fico feliz em fazer o que eu puder para ajudar a resolver o problema.

Ele talvez seja o único que pode, pensa Ric. O único participante neutro com prestígio suficiente para fazer todos se reunirem e aceitarem o que resultar disso.

Logo que chegou ali, Ric ficou chocado pelas condições de vida maltrapilhas do famoso Rafael Caro. Agora estão todos sentados na salinha abafada, com uma TV antiga com o volume baixinho. Não há mesa, nada do habitual banquete pertinente a uma reunião. O empregado de Caro ofereceu apenas um copo de água a cada um — sem gelo — e Ric está sentado em uma banqueta, bebendo água em um vidro velho de geleia.

Lá fora, a história é diferente.

A segurança é imensa.

Seu pai está com gente ali, assim como Iván, e também o Tito — todos junto aos veículos, fortemente armados, esperando pelo menor sinal de faísca para disparar. Mais adiante, a polícia estadual armou um cordão de isolamento para manter à distância os curiosos, o público e, Deus os livre, a mídia.

Sem mencionar o exército e os federales.

Ric sabe que isso não vai acontecer. O governo tem muito interesse no êxito dessa reunião, tanto quanto qualquer um aqui. Eles não querem que esse negócio exploda.

— Por que Damien não está aqui? — pergunta Iván.

— Eu posso falar por ele — diz Tito.

— E por que motivo?

— Porque ele sabe que se viesse seria morto — responde Tito. — E, como eu disse, e não vou dizer de novo, eu posso falar por ele e garantir que ele aceitará quaisquer decisões que sejam tomadas aqui.

— Então, isso significa que ele trabalha com você — conclui Iván, pulando de pé. — Significa que você está nisso com ele.

— Sente-se — diz Caro. — Sente-se, rapaz.

Incrivelmente, pensa Ric, Iván senta.

Ele olha fulminante para Tito, mas o Mastim nem dá bola. Em vez

disso, ele se dirige a Caro.

— Tem gente nesta sala que tentou me matar. As mesmas pessoas nesta

sala colocaram meu filho na cadeia, onde ele permanece, porque essa gente disse a seus juízes para não libertá-lo. Mas… em respeito a Ignacio Esparza, eu estou aqui como uma ponte para libertar os filhos dele.

— Você garante a segurança dos irmãos Esparza? — Caro pergunta a

ele.

— Eles estão protegidos e confortáveis — responde Tito. — Eu quero que eles sejam soltos! — diz Iván. — Todos os querem soltos — afirma Caro. — É por isso que estamos

aqui, estou correto? Então, Tito, por que não nos diz o que será preciso? O que o Jovem Lobo quer?

— Em primeiro lugar, ele quer um pedido de desculpas pelo assassinato

de seu pai.

Iván diz:

— Nós não…

— Seu pai participou daquela decisão — diz Tito. — Assim como

outras pessoas nesta sala.

— Assim como você — retruca Núñez. — Se me lembro bem, você foi

especificamente eficaz em lutar contra os Tapias.

Tito olha para Caro.

— Diga a essa pessoa para não falar comigo.

— Não fale com ele — diz Caro. — Então?

— Eu imagino — diz Núñez — que nós possamos encontrar algum

fórum para expressar… arrependimento… sobre o que aconteceu à família Tapia.

Caro olha para Tito.

— O que mais?

— Ele quer perdão pelo ataque à casa de Barrera — diz Tito. — Ele quer perdão por isso?! — exclama Iván. — Isso não é certo! — Não é uma questão de certo ou errado — diz Caro. — É uma questão

de poder. Tapia está com seus dois irmãos e isso dá a ele poder para fazer exigências.

— Mas há limites — fala Iván. — Há regras. Não se toca na família. — Eu tenho idade suficiente para me lembrar de quando Adán Barrera

decapitou a esposa de meu velho amigo e atirou seus dois filhos de uma ponte — diz Caro. — Portanto, não vamos falar de regras.

— Eu só posso falar pela nossa organização — diz Núñez, com a voz cansada. — Não posso falar por Elena. Talvez você possa, Tito. Mas, quanto a nós, estamos dispostos a esquecer o ataque aos Barrera. Tem mais alguma coisa?

— Se Damien soltar seus reféns — anuncia Tito —, ele quer uma garantia de que não haverá retaliações contra ele.

— Ele perdeu a porra da cabeça — diz Iván. — Eu vou matá-lo. Vou matar a família dele…

— Cale a boca, Iván — diz Ric.

Iván olha fulminante para ele.

Mas cala a boca.

Núñez fala:

— O jovem Damien não pode esperar raptar figuras importantes do cartel, nos expor ao ridículo na mídia e se safar com isso. O que as pessoas irão pensar? Nós perderíamos o respeito, nos tornando alvos.

— Vocês não podem esperar que o garoto passe a vida toda negociando — diz Tito. — Se ele for morrer de qualquer jeito, ele não tem nada a perder matando os Esparza primeiro.

— Ninguém é imbecil aqui — diz Núñez.

— Cansei. — Caro tira um celular do bolso e aperta alguns números. Enquanto a ligação completa, ele diz: — Sinaloa vai emitir um pedido de desculpas e perdoar o ataque à casa de Barrera. No entanto, não haverá anistia para esse sequestro.

Tito olha para Iván.

— Então, seus irmãos estão mortos.

— Você jurou protegê-los — lembra Iván.

Caro ergue o celular.

Ric se inclina à frente e vê Rubén, filho de Tito, em pé, em um escritório, cercado de carcereiros. Seu velho amigo parece amedrontado.

Ele tem motivos.

Um dos guardas está com uma faca em seu pescoço.

— Os Esparza serão libertados — Caro diz a Tito —, ou o pescoço de seu filho será cortado enquanto você assiste. Porém, uma vez que eles forem libertados, um juiz irá decidir que não há base para as acusações contra Rubén, que a invasão à casa dele foi ilegal, e vai expedir a ordem para sua libertação.

Afinal, pensa Ric, não tem a ver com certo ou errado, não é? Tem a ver com poder.

— Temos um acordo, Tito? — pergunta Caro. — Sim. — Ele olha para Núñez e Iván. — Isso é apenas uma trégua, não

é a paz.

— Bom — diz Iván.

Núñez apenas assente.

— É melhor você ligar para o jovem Damien — Caro diz a Tito. —

Quando soubermos que os Esparza estão livres, as providências para a libertação de seu filho serão tomadas.

— Eu preciso de mais detalhes que isso.

— Você precisa de mais do que a minha palavra? — Caro pergunta,

encarando-o.

Tito não responde.

— Bom — diz Caro. Ele levanta da cadeira com dificuldade. — Agora

vou tirar um cochilo. Quando levantar, não quero ver nenhum de vocês, e não quero ficar sabendo que se mataram. Eu estava à mesa, quando M-1 fundou este negócio. E estava na prisão, quando todos vocês deixaram tudo desmoronar.

Ele vai para o quarto e fecha a porta.

No trajeto de volta, Ric pergunta ao pai

— Você sabia sobre Rubén e a prisão, antes de entrarmos na sala, não é?

Sabia que Caro tem esse tipo de influência com o governo.

— Ou eu não teria entrado na sala — diz Núñez. — Deixe-me lhe perguntar uma coisa — fala Ric. — Se Tito não tivesse

cedido, você os deixaria matar Rubén?

— Isso não cabia a mim — responde Núñez. — Mas Caro teria deixado,

pode ter certeza. Foi uma aposta bem segura que Tito tenha recuado; é raro ver homens dispostos a ser Abraão.

— O que isso significa?

— Que é raro que um homem sacrifique o próprio filho. Ric sorri.

— O que leva a uma pergunta…

— É claro que não — diz Núñez. — Fico chocado que você sequer

pergunte. Você é meu filho e eu o amo, Ric. E me orgulho de você. O que você tem feito, ultimamente…

— Então, nós ganhamos.

— Não — diz Núñez. — O mundo sabe que Damien sentiu-se seguro o bastante para fazer o que fez. Isso é um golpe em nosso prestígio. Quero que você publique nas redes sociais o que nós fizemos com Rubén. Isso vai ajudar, vai mostrar que somos implacáveis. Que ainda somos potentes. Coloque através de um dos nossos blogueiros, para que não seja rastreado até nós. Se alguém perguntar se aconteceu mesmo, negue. Isso fará com que acreditem ainda mais.

— Então, agora Damien está aliado a Tito — diz Ric. — O que Elena acha disso?

— Que escolha ela tem? — questiona Núñez. — Ela não gosta, mas tem que aceitar. Com Tito e Damien a seu lado, ela acha que pode nos derrubar. E talvez não esteja errada. Porque Caro pode estar com ela também.

— Ele acabou de ficar do nosso lado!

— Ficou? — pergunta Núñez. — Pense a respeito. Tito conseguiu o que queria. Seu filho será libertado. Sem qualquer custo, exceto fazer com que Damien liberte os Esparza. Eu não me surpreenderia se Caro tivesse ordenado o rapto deles. Eu não me surpreenderia se Caro estivesse por trás de tudo.

— Por que ele faria isso?

— Para nos fazer recorrer a ele — diz Núñez. — Agora, nós temos uma dívida com ele, assim como Tito e Damien têm. E ele só mostrou ao mundo que ele é o único que consegue fazer um acordo. Agora, ele senta e vê quem está ganhando. Depois, ele fará sua verdadeira jogada.

Núñez recosta a cabeça no banco e fecha os olhos.

— Caro — diz ele — quer ser El Patrón.