A fronteira
3: Palhaços malevolentes
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Palhaços malevolentes
“Eu tive um amigo que era palhaço. Quando ele morreu, todos os seus amigos foram ao enterro no mesmo carro”.
— Stephen Wright
Moram uma casa de tijolinhos, na Hillyer Place, a leste da rua 21, no bairro Dupont Circle. Escolheram o local porque Dupont é uma área boa para Marisol pode caminhar, com cafés, restaurantes e livrarias próximas, e Keller gosta do ar histórico do bairro. Teddy Roosevelt morou por ali, assim como Franklin e Eleanor.
E Marisol adora a árvore de murta que vai até a janela do terceiro andar,
com as flores lilases que lembram as cores vivas do México.
Ela está esperando acordada, sentada em uma poltrona grande, perto da
janela da sala, lendo uma revista quando Keller chega.
— Nós somos um “casal poderoso” — anuncia, quando Keller entra
pela porta.
— Somos? — Ele se curva e lhe dá um beijo na testa. — É o que diz aqui. — Marisol aponta para a edição da Washington Life
que está em seu colo. — Casal poderoso de Washington, sr. e sra.… na verdade, doutor Art Keller ... apareceram no evento beneficente no Kennedy Center. O diretor da Divisão de Narcóticos e sua esposa latina estilosa… Essa sou eu, sou sua “esposa latina estilosa”…
Keller olha a página, nada contente por Marisol ter sido fotografada.
Não gosta da imagem dela por aí. Mas é quase inevitável — ela é mesmo estilosa e interessante, e a história do herói da Narcóticos com a esposa mexicana que já foi metralhada pelos narcos é irresistível, tanto para a mídia como para os tipos da alta sociedade de Washington. Dessa forma, sempre recebem convites para festas elegantes e eventos sociais — Keller estaria inclinado a dispensar, mas Marisol diz que gostando ele ou não, os contatos políticos e sociais são muitíssimo úteis para o seu trabalho.
Ela está certa, pensa Keller. O encanto de Mari já se provou um antídoto eficaz ao antes que era atribuído a ele como “anticharme”, e ela abriu portas (e manteve abertas) que estariam fechadas para ele.
Quando Keller precisa falar com um representante, um senador, um chefe de gabinete, um lobista, um editor, um embaixador, um facilitador — até alguém na Casa Branca —, há sempre a probabilidade de que Mari já tenha almoçado, tomado café da manhã ou até participado de algum comitê com a esposa do sujeito.
Ou ela própria fala. Marisol tem inteira consciência de que pessoas que talvez dissessem não a Keller sentem muito mais dificuldade em recusar a esposa encantadora e moderna, e não se faz de rogada para pegar o telefone quando um voto apropriado se faz necessário, quando alguma informação precisa chegar à mídia, ou quando um projeto precisa de patrocínio.
Ela se mantém ocupada. Participa do quadro diretor do Centro Médico de Pediatria Nacional e no Museu de Arte das Américas e tem trabalhado levantando fundos para o Children’s Inn, o Doorways for Women and Families e o AIDS United.
Keller fica com receio de que ela esteja ocupada demais para sua saúde.
— Eu adoro essas causas — explicara Marisol, quando ele expressou sua preocupação. — E, de qualquer forma, você precisa depositar fundos políticos no banco.
— Isso não é sua função.
— É minha função, sim. Essa é exatamente a minha função. Você cumpriu a promessa que fez para mim.
E cumprira mesmo. Logo que ligara para O’Brien para aceitar a oferta, dissera que tinha uma condição: um substituto para Mari em sua clínica, que O’Brien encontraria alguém e custearia. O’Brien ligara de volta na mesma manhã, com a notícia de que uma empresa no setor de óleo do Texas apresentara um médico qualificado e um belo cheque, e perguntando se havia algo mais de que ele precisava.
Marisol começara uma campanha diplomática para ajudá-lo. Ingressara em quadros diretores e comitês, comparecera a almoços e a eventos beneficentes. Mesmo com as objeções de Keller, tivera seu perfil publicado no Post e no Washingtonian.
— Os cartéis já conhecem minha aparência — dissera ela. — E você precisa que eu faça essas coisas, Arturo. Os trogloditas do Chá das Cinco já estão prontos para enforcar você, e os liberais também não morrem de amores.
Keller sabia que ela estava certa. Marisol era “politicamente perspicaz”,
como ela mesma dissera, uma vez. Suas observações e análises costumavam ser bem precisas, e ela era rápida em discernir as nuances do cenário americano, cada vez mais polarizado. E ele precisava admitir que seu desejo desesperado de fugir da política e “apenas fazer seu trabalho” era ingênuo.
— Todos os trabalhos são políticos — dissera Marisol. — O seu é mais
do que a maioria.
Era verdade, Keller era o maior “guerreiro contra as drogas”, em uma
época em que o governo questionava seriamente o que a guerra contra as drogas deveria significar e, mais importante, o que deveria ser ou não.
O procurador-geral, na verdade, havia ordenado que a Narcóticos
parasse de vez de usar o termo “guerra contra as drogas”, afirmando (com razão, na opinião de Keller) que não deveríamos travar uma guerra contra nossa própria gente. O Departamento de Justiça e a Casa Branca estavam reavaliando as leis draconianas aprovadas durante a epidemia de crack, nas décadas de 1980 e 1990, que regiam penas mínimas mandatórias, encarcerando transgressores não violentos com penas de trinta anos à prisão perpétua.
O resultado dessa legislação era que mais de dois milhões de pessoas —
a maioria de afro-americanos e hispânicos — estavam na cadeia, e agora o governo revisava muitas dessas sentenças, considerando a clemência para algumas, e pensando sobre eliminar as penas mínimas obrigatórias.
Keller concordava com esse empenho, mas queria ficar fora de
controvérsias e concentrar seu tempo lá em acabar com a epidemia de heroína. Na sua opinião, ele encabeçava o cumprimento da lei da Divisão de Narcóticos, e, embora estivesse disposto a aplicar menos ênfase no cumprimento de leis relativas à maconha, por exemplo, preferia deixar as declarações sobre diretrizes políticas para o czar das drogas.
Oficialmente, o diretor do Diretório de Políticas Nacionais Antidrogas
da Casa Branca — o “czar antidrogas”, como fora batizada a função — era o cara que falava pelo presidente sobre as diretrizes de combate às drogas, o encarregado de supervisionar a implantação das intenções da Casa Branca.
Bem, mais ou menos.
O atual “czar” era um cara linha dura, um tanto resistente às reformas da Procuradoria Geral apoiadas pelo presidente dos Estados Unidos, de modo que estava de saída para se tornar o chefe da Divisão Alfandegária e de Proteção Fronteiriça Americana (portanto, Keller ainda teria que trabalhar com ele), e um cara novo, mais afável às reformas, estava entrando.
Para Keller, isso era apenas mais um viés burocrático, em uma rede já bastante embaralhada. Tecnicamente, o chefe imediato de Keller era o procurador-geral, mas os dois tinham que levar o czar em consideração, já que a PG atuava sob o comando da Casa Branca.
Depois, havia o Congresso. Em diversos momentos, a Divisão de Narcóticos precisava consultar e se reportar ao Comitê Judiciário do Senado, ao Comitê de Apropriações, ao Comitê de Orçamento e ao Comitê de Assuntos de Segurança Interna e Governamental.
A Casa Branca era ainda pior. Possuía seu próprio Orçamento, Apropriações e Assuntos de Segurança Interna e Governamental, mas seu Comitê Judiciário também tinha subcomitês — Criminal, de Terrorismo, de Segurança Interna, de Investigações, de Políticas de Imigração e de Segurança das Fronteiras.
Sendo assim, Keller precisava deliberar e coordenar com o Departamento de Justiça, a Casa Branca e os comitês do Senado e da Câmara, mas também havia outras agências federais cujas missões coincidiam com as dele — Segurança Interna, CIA, FBI, Departamento de Álcool, Armas de Fogo e Tabaco, Agência de Imigração e Alfândega, Departamento Prisional, a Guarda Costeira, a Marinha, o Departamento de Transportes, o Departamento de Estado… a lista era interminável.
E isso apenas no âmbito federal.
Keller também tinha que lidar com os governos e a força policial de cinquenta estados, mais de três mil xerifes de condados e mais de doze mil delegacias da polícia municipal. Sem mencionar os promotores e juízes locais.
E isso era nos Estados Unidos. Keller também precisava se comunicar, deliberar e negociar com oficiais governamentais e policiais de países estrangeiros — México, é claro, mas também Colômbia, Bolívia, Peru, Camboja, Laos, Tailândia, Mianmar, Paquistão, Afeganistão, Uzbequistão, Turquia, Líbano, Síria e todos os países da União Europeia onde a heroína era comprada, vendida e embarcada. E quaisquer desses despachos precisavam passar pelo Departamento de Estado e, às vezes, pela Casa Branca.
Claro que Keller delegava a maior parte dessas ações — em muitas
maneiras, a Divisão de Narcóticos era uma engrenagem de movimento contínuo, com funcionamento próprio —, mas ainda tinha que lidar com as questões de maior relevância e estava determinado a afiar sua lâmina e apontá-la diretamente para o problema da heroína.
Keller assumiu uma Divisão de Narcóticos muitíssimo ressabiada com
ele, por ser um ex-agente infiltrado, um agente de campo que pegava pesado, com reputação de implacável.
“Agora temos um caubói”, era a análise geral, e inúmeros burocratas de
níveis intermediários começaram a arrumar seus pertences, achando que o novo chefe traria seu próprio pessoal.
Keller desapontara a todos.
Convocara logo uma reunião geral, anunciando: — Não vou demitir ninguém. Meu ponto fraco é que não sou
administrador e não tenho a menor ideia de como tocar uma organização gigantesca. Estou falando sério: não tenho mesmo essa capacidade. O que tenho são vocês. Vou oferecer uma direção concisa e confio que farão a organização trabalhar rumo a esses objetivos. O que espero de vocês é lealdade, honestidade e trabalho duro. O que podem esperar de mim é lealdade, honestidade, trabalho duro e apoio. Nunca darei nenhuma facada nas costas, mas acerto uma facada no peito do primeiro que eu flagrar em joguinhos. Não tenham medo de cometer erros; só os que fogem ao dever e os covardes não erram. Mas, se tivermos qualquer problema, eu não quero ser o último a saber. Quero seus pontos de vista e suas críticas. Acredito firmemente que é preciso botar as ideias no campo de batalha; não preciso ter a única palavra, só preciso ter a última.
E estabelecera prioridades.
Em seguida, ligara para o Administrador Adjunto, Denton Howard, e
para os chefes da Inteligência e Operações e anunciara que a sua prioridade número um era a heroína.
A prioridade número dois era a heroína.
A prioridade número três era a heroína.
— Vamos dedicar nosso empenho ao combate do tráfico de todas as
drogas — dissera —, mas nossa ênfase será na epidemia de heroína. Maconha não me interessa, a menos que possa nos levar aos traficantes de heroína.
O que significava concentrar os esforços a combater o cartel Sinaloa.
A abordagem de Keller trazia novas ideias — historicamente, Sinaloa não tivera muito envolvimento com a produção de heroína, desde os anos 1970, quando a Narcóticos e os militares mexicanos queimaram e envenenaram os campos de papoula (Keller estava lá) e os cultivadores se voltaram para outros produtos.
A ala do cartel de Barrera ganhara muito de seu dinheiro com cocaína e maconha; a ala Esparza, com metanfetamina; a facção Tapia, com uma combinação dos três.
— É um equívoco dedicar todos os esforços lutando no México — dissera Keller ao seu pessoal. — Eu sei, porque foi um erro que eu cometi. Várias vezes. De agora em diante, vamos estabelecer nossa prioridade em atingi-los onde podemos: aqui nos Estados Unidos.
— Essa é uma abordagem gradativa que vai exigir coordenação de dúzias de delegacias de polícia — argumentara Howard.
— Então providencie isso — respondera Keller. — Dentro de um mês, quero reuniões presenciais com os chefes da Narcóticos de Nova York, Chicago e Los Angeles. Se eles não puderem ou não quiserem vir até mim, irei até eles. Depois disso, quero Boston, Detroit e San Diego. E assim por diante. O tempo de ficar no escritório batendo cabeças já acabou.
Mas que ótimo, tenho um adjunto querendo me sabotar, pensara Keller. Terei que deixá-lo morrer de fome, e querendo fazer isso com um burocrata basta privá-lo de acesso e informação.
Keller detivera Blair depois da reunião.
— Howard está apaixonadinho por mim?
Blair sorrira antes de responder:
— Ele esperava ocupar seu cargo.
O chefe da Narcóticos e seu adjunto são indicações políticas — todo o restante do pessoal é composto por servidores civis selecionados através do sistema. Keller calculava que Howard devia achar que O’Brien e seu conspirador o tivessem ferrado.
No organograma da organização, todos os departamentos se reportam diretamente a Howard, que então se reporta a Keller.
— Qualquer coisa importante — dissera Keller a Blair —, você ignora Howard e traz diretamente a mim.
— Está me pedindo para fazer jogo duplo?
— Algum problema?
— Não — respondera Blair. — Também não confio naquele filho da
puta.
— Se isso estourar, eu tiro o seu da reta.
— E quem vai tirar o seu?
A mesma pessoa de sempre, pensara Keller.
Eu mesmo.
— Vamos assistir mais uma vez ao velório — diz Keller.
Blair exibe as fotos do velório de Barrera, tiradas por um infiltrado da
SEIDO incrivelmente corajoso, trabalhando como garçom para a empresa de bufê que prestara serviços no evento. Keller olha as fotos — Elena Sánchez sentada perto do caixão, os irmãos Esparza, Ricardo Núñez e seu filho “Mini-Ric”, uma porção de outros participantes importantes. Estuda as fotos tiradas na casa, no gramado, lá fora, perto da piscina.
— Consegue ordená-las seguindo uma sequência cronológica? —
pergunta.
O clichê é que cada foto conta uma história, mas a sequência pode
parecer mais com um filme, e contar uma história diferente. Ele acredita profundamente em cronologia, no princípio da causalidade, e agora estuda as fotos a partir dessa perspectiva.
Blair é esperto o bastante para ficar de boca fechada. Vinte minutos depois, Keller começa a selecionar e enfileirar as
imagens.
— Olhe isso: Núñez vai até Elena. Eles caminham lá para fora, digamos
que seja para conversar em particular.
Ele enfatiza uma série de fotos que mostram Elena e Núñez caminhando
bem próximos, no que parece uma conversa acalorada. Então…
— Merda — diz Keller. — O que é isso?
Ele dá um zoom na mão de Núñez, no pedaço de papel que ele entrega a
Elena.
— O que é? — pergunta Blair.
— Não dá pra ver, mas ela está lendo. — Keller dá um zoom em Elena,
que franze a testa, examinando o papel. — Pode ser a conta do bufê, quem sabe, e ela não está nada feliz.
Examinam as fotos de Elena e Núñez conversando, depois conferem o registro do horário. A conversa durou 5 minutos e 22 segundos. Elena devolveu o papel e voltou para dentro da casa.
— O que eu não faria por um áudio ... — comenta Keller.
— Eles estavam confabulando — fala Blair.
Keller volta à série “cronológica” de fotos e percebe Iván e Mini-Ric no que parece uma conversa casual, perto da piscina. Então, Núñez vai até lá e sai andando com Iván, deixando Ric sentado. Meia hora depois, conforme o marcador de tempo, Iván volta e fala com Ric.
E não parece casual.
— É coisa da minha cabeça, ou eles estão discutindo? — indaga Keller.
— Iván parece bem irritado.
— Deve ter ficado nervosinho por alguma coisa que ocorreu quando ele estava com Núñez — sugere Keller. — Não sei, talvez eu esteja interpretando demais.
Talvez não, pensa.
Tudo indicava que Iván era o próximo da fila a assumir o controle do cartel, juntando as alas Barrera e Esparza da organização. Mas agora parece que Ricardo Núñez chamou Elena Sánchez e Iván Esparza para conversas particulares, depois das quais Iván parece zangado.
Meu Deus, será que perdemos alguma coisa?
Keller considerava Ricardo Núñez um funcionário de nível médio, no máximo, uma espécie de conselheiro para Barrera, mas o homem assumira um papel muito maior durante o velório e o enterro, e agora parecia estar se metendo com Elena e Iván.
Mas negociando o quê?
Elena está fora há anos.
Keller tenta uma teoria diferente: talvez Núñez não esteja simplesmente provendo “boas políticas”, mas tenha se tornado uma força interna e aja por conta própria.
Fique ligado, pensa Keller.
¡ADÁN VIVE!
Elena Sánchez Barrera olha os muros grafitados no cemitério Jardines del Valle.
Viu a mesma coisa no trajeto até a cidade, a frase pintada em paredes, laterais de prédios ou outdoors. Disseram-lhe que o mesmo fenômeno ocorrera em Badiraguato e que pequenos altares ao “Santo Adán” tinham surgido em laterais de estradas de cidades menores e vilarejos por toda Sinaloa e Durango; aos poucos se espalhava a crença fervorosa de que Adán Barrera — o adorado El Señor, El Patrón, o “Padrinho”, o “Chefão dos Céus”, o homem que construira clínicas, escolas, igrejas, que dava dinheiro aos pobres e alimentava os famintos — é imortal, que ainda vive, em carne ou em espírito.
Santo Adán, pensa com deboche. Adán podia ser muitas coisas, mas santo não era uma delas. Elena olha pela janela e vê toda a estrutura poderosa do cartel Sinaloa
— na verdade, todo o mundo do tráfico mexicano reunido. Se o governo de fato pretendesse deter o comércio de drogas, poderia dar conta de tudo em um golpe só.
Uma única incursão pegaria todos.
O que, claro, nunca vai acontecer, e não apenas por haver centenas de
sicários do cartel posicionados ao redor e dentro do cemitério. O local tinha sido cercado por um cordão de isolamento da própria polícia estadual Sinaloa e da polícia municipal de Culiacán. Um helicóptero da polícia estadual paira acima e, de qualquer forma, o governo federal não fala sério quanto a cessar o comércio de drogas, só quanto a gerenciar o comércio de drogas e, portanto, não vão incomodar a cerimônia.
Ricardo Núñez está de pé, impecavelmente vestido com um terno preto
sob medida, esfregando as mãos, como um Uriah Heep latino. O homem insistira em se meter no planejamento de cada detalhe do enterro, desde a seleção do caixão até os assentos e a organização da segurança; e os sicários de Núñez, com seus típicos bonés Armani e coletes Hermès, estão mantendo guarda no portão e nos muros.
Elena avista a notória La Fósfora, um tanto abrandada pelo terno preto,
supervisionando os sicários, e precisa admitir que a garota é mesmo impressionante. O filho de Ricardo, “Mini-Ric”, está em pé ao lado dela, junto da esposa quietinha cujo nome Elena não consegue lembrar.
Os irmãos Esparza estão enfileirados como corvos em um cabo
telefônico. Pela primeira vez, não estão vestidos como figurantes de uma telenovela, mas respeitosamente trajados de ternos pretos e até com sapatos de cadarços. Ela assente para Iván, que assente brevemente em resposta, depois chega mais perto da própria irmã, como se quisesse afirmar sua posse.
Pobre Eva, pensa Elena. Ali com seus dois meninos, que agora são peças de um jogo do qual nada sabem. Assim como Eva, é claro. Iván vai querer assumir o controle dela para manobrar Núñez. Elena já pode até ouvir — Está vendo, nós somos a verdadeira família de Adán Barrera, os verdadeiros herdeiros, não um auxiliar qualquer, um assistente. Se Eva for fraca demais para decidir voltar à Califórnia, Iván vai jogá-la de um lado para o outro, e vai fazer o mesmo com os gêmeos, como se fossem bonecos.
Falando em bonecos, Eva mantém seu cão de guarda bem perto; o Mastim está suando no colarinho, parecendo claramente constrangido de terno e gravata, e Elena sabe que ele está ali como um lembrete de que Jalisco é aliado da ala Esparza do cartel e que, se a coisa chegar a uma luta, esse assassino brutal em massa e toda a sua tropa são leais a Iván.
Mas esperava que não chegasse a isso.
Ricardo ligara para ela avisando que Iván tinha — apesar de ter resmungando amargamente — aceitado a liderança de Núñez e — ainda resmungando amargamente — a transferência de Baja para Rudolfo.
Deve ter sido uma cena e tanto, pensa Elena, considerando, como Ricardo descreveu. Iván gritara, praguejara e chamara Elena de todos os nomes da cartilha e mais alguns, ameaçara guerra, prometera lutar até a morte, mas enfim foi exaurido por Ricardo, com sua técnica de tortura chinesa da goteira, em tom contínuo e monótono, repleto de lógica e razão.
— Ele concordou com um piso de dois por cento — completara Ricardo.
— Habitualmente, são cinco.
— Elena…
— Muito bem, está bom. — Teria concordado com zero, se fosse preciso.
Ricardo não pôde deixar de cravar um pouquinho a faca:
— E eu não deveria ter essa conversa com Rudolfo?
— Você ligou para mim.
— Liguei. Estava na discagem rápida.
— Vou seguir adiante sem falar com Rudolfo — respondera ela. — Mas tenho certeza de que ele irá concordar.
— Ah, com certeza — completara Ricardo.
Rudolfo está sentado ao lado dela, no banco traseiro da limusine. O filho dissera estar feliz, quando descobriu que seria o novo chefe de Baja, mas Elena notara seu nervosismo.
Ele tem motivo, pensa.
Há trabalho duro e incerto a ser feito. Traficantes e pistoleiros que um
dia foram “gente de Barrera” tinham sido transferidos para os Esparza e agora seriam convidados a voltar. Elena sabe que a maioria voltará de boa-vontade, mas outros ficarão relutantes, até rebeldes.
Alguns exemplos talvez precisem ser dados — a primeira pessoa que
verbalizar alguma objeção terá que ser morta — e ela receia que Rudolfo hesite em dar uma ordem como essa. Ele nunca foi assim — pobrezinho de seu filho, gosta de agradar. Um traço útil na música e nas boates, nem tanto em la pista secreta.
Elena tem gente disposta a assumir esse papel, e que o fará em nome
dele, mas é bom que Rudolfo tenha logo sua própria ala armada. Claro que cederá o pessoal para ele, mas o filho terá que comandar.
Pousa a mão sobre a dele.
— O que foi? — pergunta Rudolfo.
— Nada. Mas é uma ocasião triste.
O carro desacelera quando um dos homens de Núñez indica onde eles
podem estacionar.
Ao tomar o lugar ao lado da mãe, Elena pensa que o mausoléu é um monumento ao excesso. Uma edificação de três andares, com arquitetura clássica churrigueresque, uma cúpula ladrilhada em mosaico, colunas de mármore e estátuas entalhadas de pedra, em formato de pássaros, fênix e dragões.
E é climatizada.
Duvido, pensa Elena, que Adán sentirá calor. Há um sistema de som embutido nas colunas, entoando continuamente
depoimentos sobre Adán; dentro da cripta, um monitor plano mostra vídeos do grande homem e de seus bons trabalhos.
Que coisa medonha, pensa Elena. Mas é o que as pessoas esperam. E não dá para decepcionar as pessoas.
O padre chegou a hesitar quanto a celebrar uma missa para “um notório
chefão das drogas”.
— Olhe em volta, olhe bem para esse santuário, seu merdinha — dissera
Elena, quando se encontraram no escritório dele. — Vê essa mesa atrás da qual você está sentado? Nós que pagamos. A cadeira onde está sua bunda frouxa? Nós pagamos. O santuário, o altar, os bancos, os novos vitrais coloridos? Tudo saiu do bolso de Adán. Portanto, padre, eu não estou pedindo. Eu estou informando que o senhor vai celebrar a missa. Senão, juro pela Virgem Maria que mandaremos gente até aqui para retirar tudo desta igreja, começando por você.
Depois disso, ali no funeral, o padre Rivera faz algumas preces, dá suas bênçãos, depois faz uma pequena homilia sobre as virtudes de Adán como homem dedicado à família, sua generosidade com a igreja e a comunidade, seu profundo amor por Sinaloa e seu povo, sua fé em Jesus Cristo, no Espírito Santo e em Deus Pai.
Adán só tinha fé no dinheiro, no poder e em si mesmo, pensa Elena, enquanto o padre concluir o discurso. Essa era sua Sagrada Trindade, ele não acreditava em Deus.
— Mas acredito em Satã — dissera o irmão, certa vez.
— Não dá para acreditar em um sem o outro — respondera ela.
— Claro que dá. Pelo que entendi, Deus e o diabo travaram uma batalha gigantesca para reger o mundo, certo?
— Imagino que sim.
— Muito bem. Agora olhe à sua volta: é claro que o diabo venceu.
Aquilo tudo é uma piada, pensa Ric.
Também pensa em como está morrendo de vontade de mijar. Queria de ter ido antes do início dessa missa interminável, mas agora é tarde demais, e ele simplesmente vai ter que segurar.
E aturar a cara feia de Iván.
O amigo não para de lançar olhares fulminantes em sua direção desde que a missa começou. Assim como fez quando voltara de sua reunião com Ricardo Sênior, no velório, caminhara até Ric, na piscina e declarara:
— Você sabia.
— Sabia de quê?
— Que Adán nomeou seu pai o novo chefe.
— Não sabia.
— Não fode.
— Eu não sabia.
— Seu pai me chamou de palhaço — dissera Iván.
— Tenho certeza de que ele não falou isso, Iván.
— Não, mas aquela piranha da Elena falou. E seu pai repetiu. E você
sabia, Ric. Você sabia. Você me deixou ficar tagarelando sobre o que eu ia fazer, e o tempo todo você sabia.
— Ora, qual é, Iván, eu…
— Agora você é o cara, certo? — interrompera Iván. — Seu pai é o jefe,
isso faz de você, o que, hein, Mini-Ric?
— Ainda sou seu amigo.
— Não, não é — respondera Iván. — Não somos amigos. Não mais. E saira andando.
Ric tinha tentado ligar para ele, enviara mensagens de texto, mas não
tivera resposta. Nada. Agora, Iván está sentado ali, com um olhar fulminante, como se o odiasse.
O que talvez seja verdade, pensa Ric. E talvez eu não possa condená-lo.
Depois da conversa com Iván, o pai o chamara. Ric lera o papel e o deslizara de volta por cima da bancada de vidro. — Meu Deus.
— É só isso que você tem a dizer?
— O que quer que eu diga?
— Eu esperava algo mais do tipo “Me diga o que eu posso fazer para
ajudar, pai”, ou “Estou aqui para o que precisar”, ou “Adán escolheu com sabedoria, pai, você é a pessoa certa para o cargo”.
— Isso tudo nem precisa dizer.
— No entanto, estou dizendo. — Núñez se recostara na cadeira e unira
as pontas dos dedos, um gesto que Ric sempre detestou, desde pequeno, já que sempre significou que havia um sermão a caminho. — Agora vou precisar que você compareça, Ric. Tenha um papel mais ativo, me dê uma ajuda.
— Iván achava que seria ele.
Cada palavra que saía da boca de Iván era sobre como as coisas seriam
quando assumisse, e agora ali estava Adán, estendendo a mão de dentro da sepultura para arrancar isso dele.
— A felicidade dele não é da minha conta — dissera Núñez. — Na
verdade, nem da sua.
— Ele é meu amigo.
— Então talvez você possa persuadi-lo a ser sensato — respondera o
pai. — Ele ainda administra a ala Esparza da organização.
— Acho que Iván tinha ambições maiores.
— Todos nós temos que conviver com as decepções.
Ric compreendera que o pai estava falando dele. Da decepção que ele era.
— Iván terá que cuidar de toda a ala Esparza da organização — completara Núñez. — Nem terá tempo para Baja.
— Ele ia entregar Baja para Oviedo.
— O mesmo Oviedo que vi no Facebook pilotando uma motocicleta com os pés? — perguntara Núñez.
— Eu não sabia que você tem Facebook.
— Meus assistentes me mantêm atualizado. De qualquer maneira, você tem a permissão de Elena para continuar vendendo em Baja.
— De Elena ou de Rudolfo?
— Você está de gracinha comigo?
— Eu tinha um acordo com Iván.
— E o acordo agora é com Rudolfo. Mostre algum êxito com o narcomenudeo e eu talvez lhe dê trasiego. E, então, quem sabe?
— Você quer que eu mostre algum êxito.
— Pelo amor de Deus, Ric — dissera Núñez —, me mostre alguma coisa. Você é afilhado de Adán Barrera. Com isso, vêm alguns privilégios, e, com eles, a responsabilidade. Eu tenho a responsabilidade de garantir que os desejos dele sejam cumpridos, e você também carrega esse fardo.
— Está certo.
— E há outra coisa em que você deve pensar. Nós estamos guardando essa posição para os filhos de Adán até que eles tenham idade, mas isso será daqui a anos. E se algo me acontecer nesse ínterim? Só vai restar você.
— Eu não quero esse fardo — dissera Ric.
Lá estava, de novo — a expressão de decepção, até de repulsa, quando o pai perguntou:
— Você quer passar a vida inteira sendo o “Mini-Ric”?
Ric se surpreendia com a habilidade que o pai tinha para feri-lo. Achava que a essa altura já havia superado aquela dor, mas sentira uma facada no coração.
E não respondera.
Uma das coisas que o pai espera de Ric é que faça um discurso, um tributo durante a missa do funeral.
Ao que Ric se opusera.
— Por que eu?
— É o que se espera do afilhado de Adán — dissera Ricardo. Bem, se é o que se espera…, pensou Ric. Não fazia a menor ideia do que
diria.
Belinda oferecera algumas ideias.
— Meu padrinho Adán era foda e impiedoso, e matou mais gente que
câncer no cu…
— Que bacana.
—…e casou com uma chica deliciosa, com menos de metade de sua
idade, com quem todos gostaríamos de transar, para falar a verdade. O que há para não amar em Adán? O homem dos homens, o narco dos narcos, o padrinho dos padrinhos. Falou. Valeu.
Ela não foi de muita ajuda com seu problema com Iván. — Você conhece o Iván — dissera. — Ele vive de cabeça quente. Vai
superar, vocês estarão tomando uns goles juntos hoje à noite.
— Acho que não.
— Então, que seja. Você precisa começar a olhar para os fatos. Fato:
Barrera nomeou seu pai para ser o chefe, não Iván. Fato: você é o afilhado, não ele. Talvez você deva começar a agir como tal.
— Você está parecendo o meu pai.
— Nem sempre ele está errado.
Agora, Ric precisa mesmo mijar. A porra do padre enfim desce do
púlpito, e então entra um cantor. Um dos antigos amigos de gravadora do Rudolfo, que começa a cantar um corrido que escreveu “especialmente para El Señor”, e a canção é mais deprê que qualquer uma da Adele.
Depois disso, entra um poeta.
Uma porra de um poeta.
O que será que vem depois, marionetes?, se pergunta Ric. Na verdade, depois é ele.
O pai lhe dá o que pode ser chamado de um assentir “expressivo”, e Ric
caminha até o altar. Não é imbecil, sabe que é um momento importante, um tipo de comunicado de que saltou duas casas e passou à frente de Iván, para o começo da fila.
Ric se debruça na direção do microfone.
— Meu padrinho, Adán Barrera, foi um grande homem.
Um murmúrio geral em concordância, e a plateia aguarda que ele prossiga.
— Ele me amava como a um filho, e eu o amava como um segundo pai. Ele era um pai para todos nós, não era? Ele…
Ric pisca quando vê um palhaço — um payaso todo fantasiado, de maquiagem branca e peruca de cachinhos vermelhos, soprando um apito e carregando uma porção de balões brancos em uma das mãos.
Quem contratou isso?, se pergunta, achando que está vendo coisas.
Não poderia ter sido de Elena, que nunca ri, nem seu velho, nenhum dos dois afeitos a extravagâncias. Ric dá uma olhada para ambos, e nenhum dos dois está rindo.
Elena, na verdade, parece bem irritada.
Mas, por outro lado, esse é o normal dela.
Ric tenta retomar o discurso.
— Ele dava dinheiro aos pobres e construiu…
Mas ninguém está ouvindo, pois o palhaço segue direto até o altar e joga flores e bichinhos de papel para o público estarrecido. Então, ele se vira, enfia a mão dentro do casaco de bolinhas e tira uma Glock.
Vou ser morto por uma porra de um palhaço, pensa Ric, incrédulo. Isso não é justo, não está certo.
Mas o payaso se vira e atira bem no meio da testa de Rudolfo.
O sangue respinga no rosto de Elena.
O filho cai no colo dela, que fica sentada o segurando, o rosto retorcido de agonia enquanto grita sem parar.
O assassino sai em disparada — mas com que velocidade um palhaço consegue correr em sapatos frouxos? Belinda puxa uma MAC 10 de dentro do casaco e frita o cara.
Os balões sobem pelo ar.
O Pax Sinaloa de Adán Barrera terminou antes que ele fosse enterrado, pensa Keller, assistindo ao noticiário na Univision.
Jornalistas do lado de fora dos muros do cemitério descreveram uma “cena de caos”, com os pesarosos fugindo, outros sacando “uma profusão” de armas, e as ambulâncias acelerando em direção ao local. E, com aquele toque de surrealismo que parece permear o mundo narco mexicano, os primeiros relatos informam que o assassino de Rudolfo Sánchez estava vestido de palhaço.
— Um palhaço — repete Keller a Blair.
Blair dá de ombros.
— Eles têm a identificação do atirador? — pergunta Keller, evitando
falar “do palhaço”.
— A SEIDO acha que é este cara — diz Blair, abrindo um arquivo na
tela do computador. — Jorge Galina Aguirre, “El Caballo”, figura do cartel Tijuana nos anos 1990, quando Adán e Raúl estavam assumindo. Um traficante de maconha de nível intermediário, sem inimigos ou ressentimentos conhecidos contra os Barrera.
— Mas parece que tinha um ressentimento contra Rudolfo. — Estão falando umas merdas, alegando que Rudolfo pegou a filha de
Galina, ou talvez a esposa — conta Blair.
— Rudolfo se metia no jogo.
— Apostas do pecado — diz Blair.
É, mas Keller duvida.
A velha ética de “honrar a morte” está ficando no passado, e o insulto
— o ato quase inacreditavelmente ofensivo de assassinar um dos sobrinhos de Barrera diante de sua família, em seu enterro — indica que tem mais coisa aí.
O ato é uma declaração.
Mas de quê, e proferida por quem?
Segundo todos os relatos, Rudolfo estava acabado, já esgotado pela
permanência em Florence. Ele era envolvido com boates, restaurantes e agenciamento musical, negócios favoráveis para a lavagem de dinheiro. Talvez tenha ferrado alguém, perdido uma soma muito alta de um terceiro?
Talvez, mas não se mata um Barrera desse jeito, principalmente, não no
funeral de El Señor. Você negocia um acordo ou engole a perda, porque é melhor para o negócio e para suas probabilidades de sobrevivência. De novo, segundo a inteligência, Rudolfo — ou qualquer membro da família Sánchez — não estava mais traficando, portanto não deve ter sido morto por território.
A menos que a inteligência esteja errada e as coisas tenham mudado. É claro que as coisas mudaram, pensa Keller. Barrera morreu, e esse
talvez tenha sido o tiro de abertura da batalha por seu trono.
Rudolfo não queria ser enterrado no cemitério; queria ser cremado, ter suas cinzas lançadas ao mar. Não haverá túmulo, nem lápide, nem mausoléu espalhafatoso para ser visitado, somente o som das ondas e o horizonte sem fim.
Sua viúva — temos tantas viúvas, pensa Elena, que formamos nosso próprio cartel — está ao lado do filho e da filha, de respectivamente dez e sete anos. Que tinham visto o pai ser assassinado.
Mataram meu filho na frente da esposa e dos filhos.
E da mãe.
Tinha ouvido a piada circulando: “Pegaram o palhaço que fez isso?”.
Pegaram.
Ele não chegou nem a sair do mausoléu. Alguém do pessoal dos Esparza o metralhara no corredor. A questão é como ele conseguira entrar. Havia tanta segurança, mas tanta... Segurança dos Barrera, dos Esparza, de Núñez, da polícia municipal, da polícia estadual… e aquele homem passara direto por tudo.
O atirador era Jorge Galina Aguirre, um traficante de maconha sem inimigos conhecidos, sem ressentimentos sabidos em relação aos Barrera.
Certamente não tinha nada contra Rudolfo.
Naquela noite, depois de providenciar que o corpo do filho fosse para uma funerária, Elena foi até uma casa, na periferia da cidade, onde todo o contingente da segurança estava sendo mantido no porão, sentado no chão de cimento, com as mãos amarradas às costas.
Elena caminhou pela fileira de gente e olhou nos olhos de cada um.
À procura de culpa.
À procura de medo.
Viu muito medo, mas nada de culpa.
Todos contavam a mesma história: tinham visto uma caminhonete preta encostando. Só com o motorista e o palhaço, que estava no banco do carona. O palhaço descera do carro, a caminhonete fora embora. Então foi uma missão suicida, pensou Elena. Uma missão suicida em que o atirador não sabia que era uma missão suicida. O motorista ficara olhando enquanto ele entrava, depois o abandonara.
Para fazer o serviço e morrer.
Quando voltaram lá para cima, Ricardo Núñez dissera:
— Se você quiser que todos morram, vamos matar todos.
Membros de seu grupo de armamento já estavam posicionados, as
armas carregadas, prontos para fazer uma execução em massa.
— Faça o que quiser com seus homens — respondera Elena. — Solte os
meus.
— Tem certeza?
Elena só assentira.
Ficara sentada na traseira do carro, ladeada por guardas armados, seu
próprio pessoal que viera de avião de Tijuana, observando os homens locais de Barrera saindo da casa.
Todos pareciam surpresos, perplexos por estarem vivos. Elena dissera a um de seus homens:
— Vá até lá e diga que estão demitidos. Nunca mais trabalharão para
nós.
Então, ficara assistindo o pessoal de Ricardo entrar. Voltaram para seus carros uma hora depois.
Agora, observa a nora entrar no mar até os tornozelos, com a urna de
Rudolfo nas mãos, e despejar as cinzas.
Dissolvendo como café instantâneo, pensa Elena. Meu filho.
A quem dei meu peito, segurei em meus braços. Limpei sua bunda, seu nariz, suas lágrimas.
Meu bebê.
Naquela manhã, conversara com seu outro bebê, Luis. — Foram os Esparza — dissera. — Foi Iván.
— Eu acho que não, mãe — respondera Luis. — A polícia disse que o
Galina estava maluco. Desvairado. Achava que o Rudolfo tinha dormido com a filha dele ou algo assim.
— E você acredita nisso?
— Por que Iván ia querer matar Rudolfo? — perguntou Luis. Porque eu tirei Baja dele, pensou Elena. Ou achei que tinha tirado. — Eles mataram seu irmão e vão tentar matar você. Jamais nos
deixarão sair vivos, portanto, temos que continuar dentro. E, se ficarmos dentro, temos que ganhar. Lamento, mas essa é a pura verdade.
Luis empalideceu.
— Nunca tive nada a ver com o negócio. Não quero ter nada a ver com o
negócio.
— Eu sei. E gostaria que fosse possível deixá-lo fora disso, meu querido. Mas não é.
— Mãe… eu não quero isso.
— E eu não queria isso para você. Mas vou precisar da sua ajuda. Para vingar seu irmão.
Ela observa Luis olhando as cinzas do irmão flutuando na superfície da água, depois sumindo na espuma das marolas.
De repente.
Pobre menino, pensa.
Menino, não: Luis é um jovem de 26 anos. Nascido nesta vida, da qual não conseguiu fugir. Foi tolice achar que ele poderia.
E essa tolice custara a vida do seu outro filho.
Ela olha a onda retrocedendo, levando junto seu filho, e pensa na música que cantava nos aniversários dele.
No dia em que você nasceu,
Todas as flores nasceram,
E na pia batismal,
Os rouxinóis cantaram,
A luz do dia brilha sobre nós,
Levante pela manhã,
Veja que já amanheceu.
Um punhal pesado está cravado em seu peito.
Uma dor que nunca, jamais passará.
Keller está sentado no sofá, de frente para Marisol.
— Você parece cansado — comenta ela.
— Foi um dia e tanto.
— O funeral de Barrera — concorda a mulher. — Passou em todos os programas. Que cena, hein?
— Até morto, ele continua causando mais mortes.
Conversam por mais alguns minutos, e ela sobe para a cama. Keller vai até a sala e liga a televisão. A CNN mostra a história de Barrera, e fazendo uma retrospectiva de sua vida — contando como ele começou, ainda adolescente, vendendo jeans contrabandeados; como entrou no negócio do tio; sua guerra sangrenta com Güero Méndez para tomar a Plaza Baja; sua sucessão ao tio, assumindo como cabeça da Federación Mexicana. Conforme as poucas fotos de Barrera surgem na tela, o repórter prossegue falando que “boatos não confirmados” dizem que Barrera esteve envolvido na tortura e no assassinato do agente da Divisão de Narcóticos Ernie Hidalgo, que Barrera lançara duas crianças pequenas, filhos de seu rival Méndez, de uma ponte, que assassinara dezenove homens inocentes, mulheres e crianças, em um pequeno vilarejo em Baja.
Keller se serve de um drinque fraco enquanto o repórter fornece o
“contraponto” — Adán Barrera construiu escolas, clínicas e playgrounds em sua cidade natal de Sinaloa, proibiu seu pessoal de envolvimento com sequestros e extorsão, era “amado” pela população rural das montanhas de Sierra Madre.
A tela mostra as placas de “¡ADÁN VIVE!” e pequenos santuários
artesanais construídos nas laterais da estrada, com fotos dele, velas, garrafas de cerveja e cigarros.
Keller ainda lembra que Barrera não fumava.
O perfil relata a prisão de Barrera, em 1999, pelo “atual chefe da
Narcóticos, Art Keller”, sua transferência para uma prisão mexicana, sua “fuga ousada”, em 2004, e sua subsequente ascensão ao topo do mundo das drogas. Sua guerra com os “hiperviolentos” zeta, e sua traição, na conferência de paz na Guatemala.
Então, a cena do funeral.
O assassinato bizarro.
A solitária descida do caixão ao solo, apenas com a viúva, os dois filhos
gêmeos e Ricardo Núñez presentes.
Keller desliga a televisão.
Achava que meter duas balas na cara de Adán Barrera teria lhe trazido
alguma paz.
Estava errado.