A fronteira

Don Winslow · Capítulo 23 de 25

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A fronteira

3: Armas baratas

3

 

Armas baratas

 

Guerras e um homem, eu canto — um exílio movido pelo destino.

Eneida, Livro 1

— Virgílio

Queens, Nova York

Março de 2017

 

Nico está em pé, no telhado, olhando atento.

Jackson Heights é lindo.

Muita gente não acha, mas Nico acha.

Há belos prédios e árvores e parques e comida por todo lado. Onde ele mora com os tios, junto à rua 82 e à Roosevelt, é acima da La Casa del Pollo, então, o tempo todo ele sente cheiro de frango, o cheirinho passando pelo piso. Na mesma quadra há um Dunkin’ Donuts, um Mama Empanada e, a maravilha das maravilhas, um Popeye’s Louisiana Kitchen, que abriu novos mundos para Nico quando, às sextas-feiras, ele e o tio vão lá, enquanto a tia ainda está no trabalho.

Bem, eles sempre iam.

“Extra crocante”, pensa Nico, devem ser as palavras mais lindas da língua inglesa.

Ele começou a aprender inglês na escola, que fica a apenas algumas quadras, na 82. Para chegar lá, Nico caminhava por baixo da linha do metrô na avenida Roosevelt, e ele adorava ficar ali, sentindo o trem reverberar acima dele.

Depois, ele subia a 82, passava a Duane Reade e o McDonald’s (sim!), onde ele até tinha dinheiro para comer de vez em quando, o outlet da Gap, onde a Tía Consuelo e o Tío Javier lhe compraram roupas novas, depois o Foot Locker, a Payless Shoes, e o Children’s Place, onde eles não tinham dinheiro para fazer compras. Então, ele atravessava a rua 37, uma grande via pública, sobre a qual sua tia o alertara para ter bastante cuidado. As duas quadras seguintes eram bem tediosas, sem muita coisas além de apartamentos “residenciais” (como ele havia aprendido a dizer), até que ele chegava ao colégio St. Joan of Arc, para onde a Tía Consuelo gostaria de tê-lo mandado, mas eles não podiam pagar a mensalidade; Nico, no entanto, estava igualmente contente, porque as crianças ali tinham que usar uniformes, jaquetas vermelhas horríveis.

E ele gostava da Escola Pública 212.

Dos oitocentos alunos, mais da metade eram hispânicos, a maioria do

restante era de indianos ou paquistaneses. Nico estava na aula de inglês como segunda língua, junto com uma porção de outros alunos de língua espanhola, e ele estava indo bem na leitura, mas o que ele gostava mesmo era de matemática.

Os números eram os mesmos, nas duas línguas. Ele era bom com números e, todo sábado de manhã, ele sentava com

seus tios e os ajudava a fazer o orçamento semanal — quanto eles precisavam para o aluguel, para as compras do supermercado e, se sobrasse, quanto eles precisavam para passear, e o que poderiam economizar.

Às vezes, eles iam ao McDonald’s, ao KFC, ou a um dos restaurantes da

rua 37, porém, ficavam mais em casa. Muito arroz e tortilhas, mas, às vezes, Consuelo preparava pepián com porco ou frango, ou pupusas, recheando as tortilhas grossas com feijão e queijo, às vezes porco. Quando tinha tempo e não estava cansada demais, ela preparava o predileto de Nico, rellenitos: massa de trigo e centeio com pasta de feijão, canela e açúcar. Quando ela não tinha tempo ou energia, Javier geralmente dava a ele algum dinheiro para que ele comesse algo de seu agrado, no Dunkin’ Donuts.

Nico não via seus tios tanto quanto ele gostaria, pois eles estão sempre

trabalhando muito, a maior parte do tempo. Javier era zelador em um dos condomínios de gente rica e Consuelo limpava as casas das pessoas. Eles trabalhavam o máximo de horas que podiam, porque precisavam de dinheiro para comida e aluguel, e estavam economizando para começar seu próprio negócio de fornecimento de produtos de limpeza.

Como a maioria das crianças de sua escola, Nico ficava sozinho em

casa. Ele não achava nada de mais — sempre passou a maior parte do dia sozinho. A única diferença entre ficar sozinho em casa na Guatemala e ficar sozinho em casa nos EUA era que sua casa ali tinha tranca.

Aos domingos, eles iam à igreja.

Não uma igreja católica, Nico ficou surpreso em descobrir, mas a Iglesia la Luz del Mundo, porque Javier e Consuelo haviam entrado para a igreja pentecostal. Nico não gostava muito de lá, pois era tedioso e o pastor ficava falando de Jesus sem parar, e eles cantavam uma música horrível, mas havia uma barraca de pupusa bem do lado de fora, onde Javier costumava passar para comerem queijo com chipilín.

Nico sentia falta da mãe. Em intervalos de algumas semanas, eles conseguiam colocá-la ao telefone, ao menos para dizer oi, mas as ligações eram curtas e geralmente o deixavam triste. Eles estavam procurando um jeito de trazê-la el norte, mas, entre a despesa e as complicações legais, o panorama não era bom. E as ligações faziam Nico se sentir um pouquinho culpado, porque ele sabia que mesmo que ele pudesse voltar para casa, na Guatemala, ele não iria.

Agora ele era americano. Ali era melhor.

Ele não precisava revirar o lixo para comer, nem estava sempre doente, ou faminto. Ele tinha uma cama dentro de paredes de verdade, um banheiro dentro de casa, e frequentava uma escola, onde lhe davam almoço e educação, sem cobrar nada, e os professores eram bondosos.

Uma coisa não tinha mudado da Guatemala.

Nem da Virgínia.

As gangues.

A rua 82, onde ele mora, é território da Calle 18.

Nico descobriu isso um dia, quando voltava a pé do Travers Park, onde estava jogando fútbol, na antiga quadra de basquete, com alguns garotos da escola. Ele atravessou a rua 78 e foi cortar caminho por outra quadra nos fundos da Salem House, mas um grupo de cerca de cinco garotos negros o impediu.

— O que está fazendo aqui, pepperbelly?

Nico não sabia o que significava pepperbelly, mas imaginava que fosse ele. Ele não respondeu.

— Perguntei o que você está fazendo aqui.

— Só estou indo pra casa — respondeu Nico.

— Arranja outro caminho pra ir pra casa — disse o garoto, um adolescente já grande. Ele estava com uma camiseta da marca Mecca e Nico viu que os outros quatro estavam com roupas iguais. — Essa quadra é nossa. Sabe quem somos?

Nico sacudiu a cabeça.

— Somos ABK — disse o garoto. Quando viu que Nico não entendeu,

ele esclareceu: — Always Banging Kings. Você está com quem?

— Estou com ninguém — respondeu Nico, se esforçando para falar

inglês.

O garoto deu uma risada.

— Então, é o seguinte, Estou Com Ninguém, pode correr agora. Vamos

deixar você sair na frente, três segundos. Se nós o pegarmos, vamos foder você. Vai!

Nico correu.

Nico Rápido correu por sua vida.

Ele já tinha feito isso em cima de um trem em movimento, então, ele

era bom em correr atravessando a rua 34, descer a 79 e atravessar o beco, na 80. Esses mayates eram velozes e estavam gritando enquanto o perseguiam, e ele virou e viu que eles estavam se aproximando, porque eram mais velhos e maiores, com pernas mais compridas.

Nico respirou e disparou em direção à rua 82, com a ABK logo atrás de

si, se aproximando.

Então, ouviu os passos deles parando.

Ele olhou adiante e viu um grupo de garotos hispânicos, talvez uns dez,

em pé, na esquina.

Um deles gritou:

— ¡Píntale, pendejos!

O garoto da ABK que tinha confrontado Nico gritou de volta: — Vá pra casa, seu rato da fronteira fodido!

Mas ele parou.

— Eu estou em casa, seu macaco de varanda! Isto aqui é território da

Calle 18!

Ele abriu a camisa para mostrar a coronha de uma arma. Os garotos negros gritaram mais alguns insultos, mas recuaram. Nico disse:

— Gracias…

O garoto lhe deu um tapa no rosto. Com força. — O que estava fazendo, pendejo? Estava onde? — Travers Park.

— Lá é tudo dos mayates, agora. — Eu não sabia.

— Você é idiota? De onde você é?

— Guatemala.

— Você está com quem? — perguntou o garoto.

— Ninguém — disse Nico.

— Onde você mora?

— Na rua 82, em cima da Casa del Pollo.

— Bem, agora você nos pertence, puta — disse o garoto. — Você tem que fechar com a 18.

— Eu não…

— Você não o quê?

— Eu não sei.

Nico estava muito confuso. Os garotos não pareciam da Calle 18, nenhum deles tinha as tatuagens no rosto. E não estavam vestidos como membros de gangue — estavam com camisas pólo e belos jeans, ou calças de sarja.

— Você não sabe nada, não é? — disse o garoto. — Deixe-me explicar como funciona. Por aqui, tem a Calle 18 e a Sureño 13. Se você usar preto e azul, está com a gente. Se usar vermelho, está com eles. Mas você não vai querer ficar com eles, hermanito, porque toda vez que nós o virmos de vermelho, vamos lhe dar uma surra. Aqui também tem a ABK, e eles não se importam se você é preto e azul, ou se é vermelho. Se for espanhol, eles vão sacanear você.

— E se eu não quiser ficar com ninguém? — perguntou Nico.

— Então, você vai ser uma cadelinha — disse o garoto — e todo mundo vai foder você.

Para ilustrar, ele deu outro tabefe em Nico.

Aqui não é diferente, pensa Nico, do que era lá.

— Pense a respeito — disse o garoto. — Venha me encontrar, me dar sua resposta. Mas, hermanito, se você não vier me encontrar, nós vamos encontrar você, entende?

Sim, Nico entendia.

Ele estava morrendo de medo que eles vissem que ele já tinha o 18 tatuado no tornozelo, e o matassem por ter sido desleal e fugido. E sentia-se um imbecil completo, por ter percorrido duas mil milhas para escapar da Calle 18 e acabar bem no meio deles.

Nico não sabia o que fazer. Ele gostaria de falar com Javier, mas temia que o tio lhe dissesse para não entrar na gangue (provavelmente não gostavam muito de gangues, na Iglesia la Luz del Mundo) e aí, ele talvez tivesse que ir contra ele, o que ele não queria fazer, pois gostava de Javier e o respeitava.

Mas Javier não entenderia, pensou Nico.

Ele provavelmente nem sabe o que é a Calle 18. Nico não conseguiu dormir naquela noite. Ele queria fazer a coisa certa,

ficar fora das gangues, afinal fora para isso que ele viera até ali; mas, no fim das contas, a vida transformou Nico Ramírez em um realista. A vida ensinou-lhe que havia más escolhas e escolhas piores, e que ele tinha que fazer o que fosse preciso para sobreviver.

O dia seguinte era sábado.

Nico foi até a Modell’s, pegou um boné dos Yankees, preto com letras

azuis, enfiou embaixo da camisa e saiu da loja. Ele pôs o boné na cabeça e saiu à procura da Calle 18, e os encontrou no Taco Bell da rua 37.

O chefe viu o boné preto.

— Você é mais esperto do que parece. Qual é o seu nome? — Nico Ramírez.

— E você quer ser da Calle 18?

— Sim.

— Nós vamos torná-lo um paro — disse ele. — O que é isso? — perguntou Nico.

— Você é jovem demais para ser um membro integral — falou o chefe.

— Pode ser um associado, até se provar.

— Está bem.

— Mas, primeiro, você vai receber os sopapos do batismo de ingresso

— disse o chefe. — Não fique tão amedrontado, hermanito, nós vamos bater em você só por dezoito segundos. Quando você menos esperar, já acabou.

— Quando? — perguntou Nico, bancando o durão, para não parecer

assustado. — Onde?

O chefe olhou para ele com um pouco mais de respeito. — No Playground Moore. Hoje à noite. Oito horas. — Vejo você lá — Nico disse e foi embora.

Ele foi ao playground, naquela noite. Lá estava uma dúzia de membros

da gangue 18, nove garotos e três meninas. Eles formaram um círculo em volta dele e foram fechando.

— Esse é Nico — disse o chefe. — Ele pediu pelo batizado de ingresso.

Dezoito segundos não parecem muito tempo, quando não se está sendo empurrado e socado e chutado, mas é muuuito tempo, quando se está. Mas Nico suportou e foi esperto o suficiente para não cair.

— Tempo! — gritou o chefe.

Ele abraçou Nico.

— Bienvenido, hermano. Meu nome é Davido. Agora nós somos irmãos.

O nariz de Nico está escorrendo sangue, mas não está quebrado. Seu lábio inferior está inchado e ele está com um olho roxo, e hematomas pelo rosto e no corpo todo. Suas costelas doem, no lugar onde as meninas chutaram com a ponta dos pés.

Mas ele tinha entrado.

Como um “paro”, um associado no nível mais baixo da hierarquia da gangue.

Davido e alguns outros o levaram até o Taco Bell da rua 37 e lhe deram uma refeição. Nico perguntou sobre a ausência das tatuagens.

— Não fazemos mais isso — disse Davido. — A polícia fica em cima e se vir aquilo em você, eles acham um motivo pra prendê-lo e depois você é deportado. Nós retiramos, niño. Essa merda que você vê é camuflagem. Você tem que ser esperto.

Quando Nico foi para casa, naquela noite, ele tentou passar escondido pelos tios, mas Javier estava acordado e viu seu rosto.

— Sobrino, o que aconteceu com você?

— Nada.

— Nada? Olhe pra você.

O que aconteceu, foi o que Nico temia que acontecesse. Consuelo acordou e fez um estardalhaço. Lavou o rosto dele com um pano, depois pôs cubos de gelo em outro pano e o fez segurar sobre a boca e o olho.

Enquanto Javier o interrogava.

— Quem fez isso com você?

— Uns garotos negros.

Nico mentiu. Ele achou que não era uma mentira tão grande, pois se os garotos negros o tivessem pegado, eles teriam feito isso, ou até pior.

— Onde? — perguntou Javier.

— Travers Park.

Javier ficou desconfiado.

— Por que não levaram seu relógio, seus sapatos? Os negros geralmente levam os sapatos.

— Eu consegui fugir deles — explicou Nico. — Sou veloz. — Fique longe daquele parque — disse Consuelo. — É bem perto da escola.

— Encontre outro parque para brincar.

Javier esperou até que Consuelo voltasse para a cama, depois entrou no

quarto de Nico e disse:

— Você não está se envolvendo com gangues, não é? Diga-me que não

está se envolvendo com gangues.

— Não estou.

— Porque eu sei como é na rua — disse Javier. — Vejo coisas. Eu sei.

Você acha que precisa de garotos para protegê-lo. Mas tem que ficar longe desse troço, Nico. É ruim. Só vai metê-lo em confusão.

— Eu sei.

Mas você não vê as coisas, pensou ele. Você não sabe como é. Ou você entra.

Ou você é excluído.

Como isso era bom, como era gostoso.

Nico deu outra baforada na yerba e passou o baseado de volta para

Davido. Ele prendeu a fumaça nos pulmões pelo tempo que conseguiu, depois soltou.

E deu uma risadinha.

— Troço bom.

— Não brinca, troço bom.

Eles estavam farreando na casa de Davido, na rua 86. Uma dúzia e

pouca dos novos irmãos de Nico. Big Boy and Jamsha estrondava na tela plana Sony com “Donde Están Toas las Yales”. Nico assistia ao clipe e dava outro gole na Cuervo.

Na tela, uma chica de bunda grande e tetas grandes caminha até a casa

de Big Boy e grita com ele. Joga as coisas dele em um saco de lixo. Big Boy entra no carro com um cara da pizza, Jamsha, e eles começam o rap, enquanto andam de carro pelas ruas, olhando as garotas.

As garotas do vídeo eram gatas. Assim como a garota que estava dançando ao lado da TV, rebolando a

bunda e os quadris, como se não soubesse que Nico estava olhando.

Ele estava olhando.

Sabia que Dominique estudava na Pulitzer, tipo, na 8ª série.

E já tinha essas tetinhas tão bonitas e aquela bunda… os cabelos pretos compridos e brilhosos batendo na bunda, depois passando por cima das tetas.

— Está gostando, garoto? — perguntou Davido, ao perceber.

Davido percebia tudo.

Nico riu. Davido devolveu o baseado para ele.

— Eu estou tentando educá-lo, paro — disse Davido. — Você ao menos sabe o que é um mara?

— Um membro de gangue.

— Quero dizer de onde veio o nome — diz Davido. — Mara é uma formiga. Um tipo de formiga que enxameia em bando e mata tudo o que encontra pela frente. Uma formiga é fácil de esmagar, mas um exército de formigas é incontrolável. Conquista ou morre, manito. Como diz a canção, La vida en la 18 es fatal.

A vida na 18 é fatal.

Novo vídeo.

As meninas da “En 20 Uñas” estavam rebolando e dançando até o chão.

Dominique imitando.

Nico ficando de pau duro.

— Merda — disse Davido —, não tem conversa com pau duro. Ele não escuta. Você quer um pouco daquilo?

— Eu não sei.

— Ah, você sabe. Dominique, venga.

Dominique veio dançando. Abaixou o olhar para eles e sorriu.

Davido perguntou:

— Você acha meu garoto bonitinho?

— Até que é.

— Por que você não o leva até o banheiro? — sugeriu Davido. — Mostre que gosta dele.

— Está bem.

— Eu não sei — disse Nico, subitamente sentindo-se envergonhado. Ele nunca beijou uma garota.

— Ele não sabe — repetiu Dominique, e foi dançando para longe.

— Está tudo bem — disse Nico.

— Não, está tudo bom — disse Davido. — Agora você é da 18. Funciona assim: você é só um paro, então, ela não vai transar com você, mas vai chupar seu pau. Cachorra, volte aqui!

Dominique voltou.

Davido disse:

— Inaugure nosso garoto.

Dominique estendeu a mão e levou Nico até o banheiro, o colocou

sentado na beirada da banheira.

Ela ajoelhou na frente dele.

Nico nunca sentira nada assim.

Ele não demorou muito.

Dominique levantou, olhou no espelho, arrumou o batom, borrifou algo

na boca.

— Essa foi sua primeira vez, hein?

— Não.

— Sim, foi. Não se preocupe papi, você foi bem. Nico estava apaixonado.

— Guarda o seu negócio — disse ela.

— Ah, sim.

Ela sorriu para ele, pelo espelho, e saiu.

Ele levou um segundo para se recompor e voltar para a festa. Davido

sorriu para ele. Nico sorriu também.

Estava passando Pouya.

“South Side Suicide”.

Uma semana depois, Nico apareceu no local onde mandaram.

O estacionamento na frente do Burger King.

Davido foi até ele. Chegou bem perto, peito com peito. Enfiou a mão na

jaqueta dos Yankees, tirou algo e passou para dentro do casaco corta-vento de Nico.

— Pegue isto. Guarde em algum lugar seguro. Era uma arma. Nico sentiu.

— Eu não quero isso.

— Eu perguntei se você quer? — retrucou Davido. — pegue, ponha

embaixo de sua cama, ou em algum lugar onde sua tia não vai encontrar.

— Eu não vou usar isso.

— Não brinca, claro que não vai — disse Davido. — Acho bom que não

use. Não, você vai guardar pra mim, até que eu lhe peça, e aí você me devolve.

— Por que você não fica com ela?

— Porque você é menor de idade — respondeu Davido. — Se o pegarem com ela, você vai pro centro juvenil, por alguns meses. Se eu for pego, eu vou para a cadeia, por vários anos. Entendeu agora?

— Acho que sim.

— Essa é sua tarefa — disse Davido. — Como um júnior. Isto vem junto com o baseado, o álcool e as garotas. Você quer aquilo, você leva isto.

Nico caminhou para casa abraçando a arma junto ao peito.

Dava a sensação de que todo mundo na rua estava vendo.

Uma viatura passou por ele, que quase mijou nas calças.

Graças a Deus, não tinha ninguém em casa quando ele chegou, os tios estão fazendo turnos duplos. Ele levantou o colchão da cama, pôs a pistola entre o estrado de molas e o colchão, depois pôs o colchão no lugar. Olhou cuidadosamente, para ver se fazia algum volume.

Naquela noite, quando tentou dormir, ele sentiu como se a arma estivesse espetando sua barriga. Mas na noite seguinte, não foi uma sensação tão ruim, e algumas noites depois, era até bom ter a arma ali.

Dava uma sensação poderosa.

Tipo, vem se meter a besta comigo, para ver o que acontece.

Agora, mexe com Nico, e veja o que acontece com você.

Dou um pipoco na sua bunda.

Piranha.

Seus tios viam, mas não queriam ver.

Eles eram boa gente, trabalhavam duro, eram muito bons para Nico, o amavam, mas estavam muito ocupados ganhando a vida, se matando de trabalhar para serem bem-sucedidos nos EUA.

Então, eles viram os calçados novos, mas não viram.

Não quiseram saber de onde vieram.

Eles sabiam que os tênis Jordan não eram da Payless. A jaqueta dos Yankees, a camisa xadrez de mangas compridas, os óculos escuros, de onde vinham? Onde Nico arranjava dinheiro para aquilo? Onde ele arranjava dinheiro para ir ao Burger King, ao McDonald’s, ao Taco Bell? Para onde o menino ia, quando eles estavam no trabalho, quando estavam tão cansados que só conseguiam cair na cama e dormir? Eles sabiam, mas não queriam saber.

Eles não queriam ver as notas dele caindo, as notas em “comportamento” passando de “E”, de excelente, a “I”, de insatisfatório; eles não queriam responder os recados da escola, perguntando sobre as faltas.

Eles retornaram as ligações, eles foram à escola, eles conversaram com

Nico, ele jurou que não estava fazendo nada de errado; ele sabia que estava e eles sabiam que ele estava e eles sabiam o que ele fazia, mas não sabiam o motivo.

Sabiam, mas não queriam saber.

Nico talvez fosse o melhor surrupiador de celulares que a Calle 18 já teve, porque era pequeno e veloz. Os alvos nem viam quando ele se aproximava e não conseguiam pegá-lo, quando ele saía correndo. Os celulares davam dinheiro, mas ele entregava tudo diretamente a Davido, que lhe dava uma grana. Então, agora, embaixo do colchão de Nico, havia uma arma, dinheiro e um celular.

Davido ficou mais intenso. Disse que eles precisavam começar a

produzir mais, porque iam partir para cima da ABK e isso significava guerra e guerra demandava dinheiro.

— Todos pagam aluguel — disse ele. — Não há convidados na 18. Ele estipula uma cota de celulares para Nico — o garoto tinha que trazer

ao menos um por semana, o que significava que Nico precisava expandir suas atividades além de Jackson Heights, adentrando Woodside, Elmhurst e Astoria, o que era arriscado, por causa das outras gangues que trabalhavam naqueles territórios.

Não importava, Nico precisava expandir.

Ele estava tentando pensar em um jeito de fazer Dominique chupar seu pau de novo, ou ir a um cinema, algo assim, quando seu celular tocou e era Davido.

— Preciso do negócio.

— Que negócio? — perguntou Nico.

— O negócio que você guardou pra mim.

— Ah.

— Banheiro masculino. Taco Bell. Em meia hora. Nico correu para casa, pegou a pistola, enfiou dentro do casaco e foi

depressa para o Taco Bell. Davido já estava no banheiro masculino, e Nico lhe passou a arma.

— Fique onde eu possa encontrá-lo em uma hora — disse Davido. — Eu vou ligar.

Nico ficou pela rua dando um tempo, por uma hora, e então Davido ligou.

— Venha voando até Roosevelt. Agora.

Ele parecia bem pilhado.

Nico correu até a estação de trem.

Davido estava em pé na plataforma. Ele gesticulou para Nico se aproximar e enfiou a arma no bolso de seu casaco.

— Guarde até que a gente precise de novo.

— Não devo jogar no rio, ou algo assim? — perguntou Nico.

— Você não faz perguntas — disse Davido. — Você faz o que eu mandar.

— Mas…

— Nós não vamos jogar fora uma arma boa — disse Davido. — De qualquer maneira, o que você acha que eu fiz com ela? Vá. Anda logo.

Davido entrou no trem.

Nico levou a arma para casa e guardou.

Tentou não pensar sobre isso, mas, na manhã seguinte, ele ouviu o noticiário na televisão, dizendo que um garoto negro fora morto a tiros no Travers Park.

O Daily News disse que foi um membro da Always Banging Kings.

Davido sumiu por algumas semanas.

Nico deu um tempo com alguns outros membros da 18, mas nenhum deles sabia, ou nenhum deles dizia para onde Davido fora. Algum lugar no norte do estado, eles imaginavam, até que a polícia ficasse cansada de procurar alguém que sumira, alguém que sumiria de qualquer jeito.

Benedicto assumiu e alertou todo mundo para ficarem atentos, porque a ABK iria querer dar o troco pelo garoto deles. Eles não se cansariam como a polícia, pois não precisavam caçar uma pessoa, em específico — eles prefeririam pegar Davido, mas qualquer membro da 18 serviria.

Na vida bandida, as coisas são simplesmente assim, Nico deduziu.

La vida mara.

Então, agora, quando andava na rua, ele ficava sempre atento, porque a ABK não estaria procurando alguém em quem bater, eles procurariam alguém para matar. De qualquer maneira, era inverno e estava frio, por isso, grande parte da vida das ruas passara para dentro de casa, onde era mais quente e seguro.

As festas continuavam rolando na casa de Davido, mesmo sem ele lá.

Benedicto tinha a chave e eles entravam, fumavam, bebiam e Nico tentava fazer Dominique lhe dar pelo menos uma punheta, mas não tinha muita sorte.

— Você é novo demais — ela dizia a ele.

— Da outra vez eu não era novo demais — argumentava Nico. — E

agora já sou mais velho do que daquela vez. Ora, vamos, Nique.

Ela continuou dizendo não, mas, uma tarde, ficou chapada o bastante

para bater uma punheta para ele.

— De presente — disse ela.

— Não tenho nada pra você — disse Nico.

— Você tem algum bagulho?

Ele deu um pouco de bagulho para ela.

Na semana antes do Natal, Nico caminhava pela 37, todo feliz, com dinheiro no bolso, fazendo compras.

Para Tía Consuelo, ele comprou uma bela blusa e algumas belas

pulseiras, e depois encontrou umas luvas bacanas para Tío Javier, além de meias quentes e uma nova camisa de brim. E, para sua mãe, ele comprou um suéter, um jeans e pulseiras iguais às da Tía Consuelo, para enviar tudo isso à Guatemala.

Nico encontrou um colar de prata para Dominique. Então, ele foi até o Mc e devorou um quarteirão com queijo, fritas e

uma Coca. Terminou com uma torta de maçã e foi para casa, em um torpor de felicidade, por ter dinheiro para comprar coisas para as pessoas que ele amava.

Quando abriu a porta, Tía Consuelo estava chorando. Tío Javier está ali em pé.

Com a arma.

— O que é isso? — perguntou ele.

Nico não soube o que dizer.

— Nico, o que é isso? — perguntou Javier.

Em sua outra mão estavam o celular e um pouco do dinheiro de Nico. — Não é meu.

— Estava embaixo do seu colchão.

— Vocês não deviam ter mexido lá — disse Nico. — A cama é minha.

Javier era um homem bondoso, um bom homem que jamais iria querer machucar alguém, mas ele se aproximou e deu um tapa no rosto de Nico. A cabeça de Nico deu um solavanco para trás, mas ele continuou de pé e ficou encarando Javier, que o encarava de volta, envergonhado.

— Onde foi que você arranjou isso? — perguntou Consuelo. — Onde arranjou uma arma?

— Maras — disse Javier. — Não é isso? Você quer ir para a prisão com os outros malandros? Você quer ser deportado?

Eu não sou um malandro, pensou Nico. Eu ganho meu dinheiro.

— Eu trouxe coisas para vocês. Presentes.

— Leve de volta — disse Javier. — Nós não queremos presentes comprados com dinheiro sujo.

Nico ficou arrasado.

— Eu vou jogar isso fora — disse Javier, erguendo a arma. — Vou jogar no rio.

— Não! — gritou Nico.

— Sim.

— Eles vão me matar.

— Quem são eles? — perguntou Javier. — Eu vou falar com eles, colocá-los na linha.

— Mande eles deixarem Nico em paz — disse Consuelo.

— Se você falar com eles — disse Nico —, eles vão matar você! Por favor, não.

— Isto vai para o rio.

Ele passou por Nico. O garoto tentou atracá-lo pela cintura, para impedi-lo, mas Javier era grande demais. Ele empurrou Nico para o lado e saiu.

— Eles vão me matar! — gritou Nico.

Consuelo caiu em prantos.

Nico correu para o quarto.

Eles vão, mesmo, matá-lo, pensou ele. O melhor que ele podia esperar era uma boa surra, antes que eles o expulsassem da 18. Ele podia guardar segredo, mas o que aconteceria se Davido voltasse a exigir a arma? Seria ainda pior.

Nico sabia que não conseguiria dormir, só passaria a noite preocupado.

Ele saiu pela janela e desceu a escada de incêndio, e ligou para Davido

da rua.

— Preciso falar com você.

— Tô transando, mano.

Davido tinha acabado de voltar de sua viagem ao norte. — Preciso falar com você.

— Então vem.

Davido abriu a porta e Nico entrou.

Dominique estava sentada no sofá, vestindo o jeans. Ela olhou para Nico

tipo O que foi?, passou direto por ele e saiu porta afora.

Davido disse:

— O que é tão importante?

Nico engoliu em seco.

— Perdi a arma.

— Você o quê?

— A arma — repetiu Nico. — Eu perdi.

Davido o empurrou contra a parede.

— Porra, como é que você perdeu uma arma?! O que aconteceu? — Meu tio encontrou — disse Nico. — Ele pegou. — Então, mande ele devolver — disse Davido. — Não posso.

— Você quer que eu mande ele devolver? Nico disse:

— Ele a jogou no rio.

Davido soltou Nico. Caminhou até a mesa e acendeu um baseado. Não

ofereceu a Nico.

— Isso não é bom. Sabe o que vai acontecer com você, agora? — Não.

— Nem eu — disse Davido. — Preciso levar isso aos mandachuvas.

Pode ser ruim, Nico. Pode ser muito ruim.

— Eu vou lhe pagar pela arma.

— Quanto dinheiro você tem? — perguntou Davido. — Cinquenta.

— Me dá.

Nico tirou as notas do bolso e as entregou.

— Serão pelo menos trezentos pela arma — afirmou Davido. — Onde

você vai arranjar o resto?

— Não sei — disse Nico. — Mas vou arranjar.

— Eu vou falar com os llaveros, ver o que posso fazer por você — disse Davido. — É bom você começar a produzir, garoto. Muito. Saia, faça algum dinheiro, mostre a eles que você é útil, que você tem motivo pra viver.

— Está bem.

— Comece com os 250 que você deve — disse Davido. — Sem isso, você está fodido. Agora dê o fora. Até arranjar o dinheiro, eu não o conheço. Não venha mais aqui; se esbarrar com algum 18, atravesse a rua.

Nico foi para casa.

Javier estava acordado, esperando por ele.

— Desculpe por eu ter batido em você. Eu não deveria ter feito isso.

— Tudo bem.

— Sua audiência de deportação está se aproximando — disse Javier. — Se eles descobrirem que você está em uma gangue, não vão deixá-lo ficar.

— Não vão descobrir.

— Isso não está certo, Nico — insistiu Javier. — Essa gente é lixo.

— Eles são meus amigos.

— Não, não são — disse o tio. — Eles vendem drogas, matam pessoas. Não foi por isso que você deixou a Guatemala? Deixou sua mãe? Para se afastar desse tipo de gente? Para construir algum tipo de vida aqui?

Que tipo de vida você tem aqui?, pensou Nico.

Você trabalha o tempo todo, está sempre cansado.

Suas roupas são ruins.

— Eu lhe comprei luvas — disse Nico. — E uma camisa nova.

— Obrigado, mas eu não quero.

— Por que, não?!

— Você sabe por que não, Nico — disse Javier. — E você sabe distinguir o certo do errado. Você só se esqueceu. Precisa se lembrar.

O que eu preciso, pensou Nico, ao entrar em seu quarto, é de 250 dólares. Porque você jogou a arma fora.

Ele acordou cedinho e saiu para o trambique.

Foi até a linha “S” e pegou o trem 7, até a Grand Central Station.

Estava abarrotado, cheio de passageiros apressados para o trabalho, e gente chegando à cidade para fazer compras de Natal. Em vinte minutos, Nico já tinha arranjado dois celulares, e resolveu não abusar da sorte, então, ele saiu para a rua.

Nico nunca tinha ido a Manhattan.

Era incríííível.

Ele tinha visto o horizonte lá do Queens, mas nunca imaginara isso. O

tamanho dos prédios, a beleza, as ruas cheias, pessoas apressadas para todo lado, as fachadas das lojas com coisas lindas nas vitrines.

Um dia, eu vou morar aqui, ele prometeu a si mesmo. Se eu nunca conseguir morar aqui, eu vou morrer. Ele tinha ouvido falar da rua 42, então, seguiu caminhando, até chegar à

Times Square, onde simplesmente parou e ficou olhando. Mesmo durante o dia, era empolgante, as telas imensas de vídeo, as notícias passando e contornando os prédios, as luzes em neon… Nico ficou ali boquiaberto. Foi andando até a 7ª avenida, com o pescoço esticado, olhando acima, sentindo-se menor que nunca, mais empolgado do que jamais se sentira.

Aquilo era Nova York.

Aquilo era a América.

Ele quase se esqueceu por que estava ali, mas então se lembrou. Você

não está aqui para ficar olhando de boca aberta, está aqui para trabalhar, está aqui para roubar, está aqui para fazer dinheiro.

Ele precisava de três coisas: dinheiro, celulares e cartões de crédito. O dinheiro, ele usaria para quitar sua dívida, os celulares e cartões de

crédito, ele daria a Davido para impressionar os mandachuvas, porque eles faziam muito dinheiro revendendo os aparelhos e fraudando os cartões.

Nico escolhia seus alvos com cuidado.

Eram fáceis de identificar — turistas que também estavam admirados

pela Times Square e olhavam tudo ao redor, sem prestar atenção a seus pertences. Ele os escolhia em meio ao pessoal que andava depressa, indo de um ponto a outro, obviamente nova-iorquinos. Como qualquer bom predador, ele olhava e ouvia — em busca de pessoas falando línguas estranhas, estrangeiros, turistas que provavelmente não correriam atrás dele, se sentissem as carteiras tiradas de seus bolsos.

Ele descola seu primeiro ganho na frente da loja da Disney, um pai ali

em pé, com a esposa e os filhos, olhando a vitrine, vendo o Mickey e o Pateta, a carteira dele para fora do bolso, como se pedisse para ser levada desse tolo.

Nico foi obrigado a pegar.

Agarrou, enfiou no bolso e continuou andando, em meio à multidão, até

chegar a um McDonald’s. Entrou no banheiro masculino, dentro de um cubículo, tirou a carteira. Em termos de dinheiro foi meio decepcionante — duas notas de dez e uma de vinte — mas havia um cartão Visa. Nico enfiou o ganho no bolso do jeans, jogou a carteira no lixo e voltou para a rua.

Na rua 47, ele atravessou para a Broadway e seguiu caminhando ao sul, por duas quadras, até as imensas telas de vídeo, que poderiam ser as melhores amigas de um ladrão, porque algumas centenas de pessoas estavam ali paradas, olhando acima, apontando, sorrindo, tirando selfies, todo mundo feliz.

Nico focou em um grupo de adolescentes asiáticos, todos com lenços e chapéus azuis. Deve ser algum grupo escolar, pensou ele, garotos ricos, estrangeiros. Todos eles tinham um celular e estavam todos tirando fotos das telas de vídeo, uns dos outros e de si próprios. Ele mirou em uma garota segurando um iPhone 7, se preparando para tirar uma foto dela com a melhor amiga.

Pôu.

Ele pegou o celular e estava partindo.

Ouviu os garotos asiáticos gritando, mas não havia nada que eles pudessem fazer, porque Nico Rápido já estava no meio da multidão, atravessando, escondido em meio à massa de corpos. Às vezes era bom ser pequeno.

Eles não o pegariam.

Porra, eles nem o veriam.

Um bom cidadão tentou agarrá-lo pelo cotovelo, mas Nico se soltou e continuou em frente. Conseguiu chegar à 8ª avenida, viu outro McDonald’s — cara, tinha McDonald’s para todo lado em Manhattan — e entrou. Olhou em volta para conferir se alguém o havia seguido e viu que estava tudo tranquilo. Então, ele pediu um Big Mac, uma Coca e fritas, e sentou para comer.

Ele estava tentado a voltar para mais um ganho, mas depois concluiu que era arriscado demais. Alguém poderia reconhecê-lo (“foi aquele garoto!”). Então, ele caminhou na direção norte, para entrar no metrô e seguir para o Queens. Seu esconderijo embaixo do colchão fora descoberto, então, ele subiu ao telhado e enfiou sua tralha em um cano do exaustor.

Durante os três dias seguintes, Nico foi para Manhattan.

Ele roubou 327 dólares em dinheiro, quatro cartões de crédito e mais

três celulares.

Uma onda de crimes de um garoto só.

Nico ligou para Davido.

— Arranjei o dinheiro.

— Pode trazer.

Tem seis outros membros da 18 lá, incluindo Dominique. Assim que

Nico entrou pela porta, ele logo sentiu que isso não era boa coisa, pois nenhum deles sorriu, nem cumprimentou, nada. Não lhe ofereceram uma bebida, nem um baseado, nada.

Lápiz Conciente estava bombando nos alto-falantes. Davido disse:

— Você está com o dinheiro?

Nico entregou 250.

— Tinha balas dentro daquela arma — disse Davido. — Balas custam

dinheiro.

Nico lhe deu o restante do dinheiro, depois entregou os celulares e

cartões de crédito.

— Eu tenho sido produtivo.

— Ouça, eu conversei com os mandachuvas — disse Davido. — Eles

falaram que você precisa ser punido, tem que aprender a lição. Disseram que eu tenho que machucá-lo, Nico.

Dois caras atrás de Nico bloqueavam a porta.

— O que você tem que fazer? — perguntou Nico. — Eles disseram para cortar um dedo seu.

Nico sentiu que ia vomitar. Talvez desmaiar. Ele pensou em fugir, mas

não havia para onde ir.

— Mas eu os convenci a não fazer isso — disse Davido. — Em vez

disso, posso só quebrar seu braço.

— Obrigado.

— Ossos saram, dedos não crescem de novo.

— Certo — disse Nico.

Estava difícil respirar.

— Aceite sua punição — disse Davido. — Do contrário, nós vamos lhe

dar uma surra séria, expulsá-lo, e você não vai mais poder caminhar pelo bairro.

— Eu aceito.

— Que bom.

Davido pegou um taco de beisebol de alumínio, que estava no sofá. Os dois caras atrás de Nico o levaram até o bar.

— Você é destro, Nico? — perguntou Davido.

— Sim.

Davido assentiu para os caras e eles esticaram o braço esquerdo de Nico entre duas banquetas.

Erguendo o taco acima da cabeça, Davido perguntou:

— Você está pronto, paro?

Nico respirou fundo e assentiu.

Davido desceu o taco.

A dor foi terrível. Nico sentiu os pés se erguendo do chão, mas os dois caras o seguraram e ele não gritou, ele engoliu a dor e gemeu. Seus olhos se encheram, mas ele não deixou as lágrimas caírem. Ele estava de novo com vontade de vomitar, mas também conteve isso.

Com os olhas lacrimejando, ele viu Dominique o olhando.

Nico não ligava. Sentia dor demais para ligar para qualquer coisa além da dor e de se manter de pé. Ele ouviu Davido dizer:

— Levem-no ao Elmhurst.

— Eu não tenho plano de saúde — disse Nico.

— Mesmo assim, eles são obrigados a atender você, na emergência — disse Davido. Ele entregou a Nico uma garrafa de rum. — Toma um bocado. Talvez você tenha que esperar um tempo por lá.

Nico forçou um pouco de rum goela abaixo.

Eles o levaram lá para fora, o colocaram no banco traseiro de um carro e foram até o Hospital Elmhurst. Pararam na frente da entrada da emergência e mandaram ele descer. Ele teve dificuldade com a porta, mas conseguiu caminhar para dentro do hospital.

Ele estava tonto.

A enfermeira lhe perguntou o que aconteceu.

— Eu caí. Na escada, vindo do trem.

— Onde estão seus pais? — perguntou ela.

— Eu moro com meus tios.

— Onde estão eles?

— No trabalho — disse Nico.

— Meu bem, eu não posso tratá-lo sem a permissão deles.

Ele ligou para a tia. Os enfermeiros lhe deram uma compressa de gelo

para segurar e o mandaram sentar. Meia hora depois, Tío Javier chegou.

— Nico, o que aconteceu?

— Eu caí.

Ele vê que Javier não acredita.

Javier levantou e foi conversar com a enfermeira, em espanhol. Nico o

ouviu dizer que não tem plano de saúde, nem muito dinheiro. Mas, por favor, cuidem de seu sobrinho e ele vai encontrar um jeito de pagar, durante os próximos meses.

A enfermeira levou Nico até uma sala de exame. Um médico entrou e eles fizeram radiografias. Ele mostrou a imagem a

Nico.

— Seu “ulna”, seu antebraço quebrou. Vai levar algumas semanas, mas

vai ficar bom. O médico pôs o osso em posição, engessou, e escreveu uma receita de comprimidos analgésicos, que Javier compraria na farmácia.

Eles pegaram um táxi para casa.

— Você sabe o risco que nós corremos, em sequer vir ao hospital? —

perguntou Javier. — Será que você não sabe que estão pensando em nos expulsar do país, principalmente agora?

Nico sentiu-se mal. Seus tios economizaram dinheiro para abrir um

negócio e aquilo iria prejudicá-los.

— Eu vou lhe devolver o dinheiro.

— Você é uma criança. Isso não é sua responsabilidade. — Nem sua — disse Nico. — Vou arranjar o dinheiro. — Roubando? Vendendo drogas? — perguntou Javier. — Isso foi por

causa da arma, não foi?

Nico não respondeu.

— Seus “amigos” lhe machucaram. Será que agora você não vai sair? Não.

Se algo muda, é que ele se afunda ainda mais.

— Temos trabalho a fazer — Davido disse a Nico, mais cedo, hoje à

noite. Eles estavam comendo no Krispy Krunchy Chicken. — Vamos.

Porque a 18 estava entrando em drogas mais pesadas. Antes eles só

traficavam yerba, mas agora estavam de olho no lucro que vinha da chiva, e Davido estava comprando heroína para botar na rua.

Eles caminharam até a rua 92, perto da Northern. Davido lhe deu um celular descartável e um impulso para subir a escada de incêndio, mandou ele ficar no telhado.

— Fique de olho. Se avistar qualquer coisa esquisita, me avisa.

— Está bem.

Ele subiu no telhado e ficou de olho.

Jackson Heights é linda.

Bela vista do Playground Northern. Nico consegue ver Flushing Bay e os aviões pousando e decolando de LaGuardia. Eles passam tão baixo que parece que vão bater em sua cabeça. Então, ele percebe que não deveria estar fazendo isso, que deveria estar apenas olhando abaixo, vigiando a rua.

Nada acontece.

Ele precisa fazer xixi. Bate os pés para tentar se distrair.

Então, ele vê um Escalade preto se aproximando.

Uns caras negros descem do carro.

Nico liga para Davido.

— Tem uns mayates descendo de um carro.

— Aqueles são os caras com quem vamos encontrar, imbecil.

— Ah.

— Mas foi uma boa vigilância.

Nico continua vigiando. Não passam nem vinte minutos, e os caras negros saem, entram no carro e vão embora.

O celular toca.

— A rua está limpa?

— Sim.

Davido o encontra na rua, passa cem pratas e um saco de bagulho.

É assim que Nico entra para o tráfico de drogas.

Jacqui está no banco da frente, fazendo um boquete.

Porque ela não faz no banco traseiro.

Primeiro, porque é preciso abrir a porta da frente, descer, abrir a porta traseira, entrar e fechar a porta. A luz do teto acende, apaga, acende de novo. Isso chama atenção e é fácil demais para a polícia avistar, como se eles dessem a mínima, exceto quando a esposa do prefeito vê alguma vagabunda chupando o pau de alguém no estacionamento e diz a ele para chamar a polícia, e mandar que eles façam algo.

Há muitas coisas ruins que podem acontecer no banco traseiro. Quando

se está atrás, o cara geralmente tenta fazer a mulher deitar para transar. Na frente, é só se curvar, chupa o cara, e pronto. Se acontecer qualquer coisa, deve dar para apertar o botão e sair pela porta da frente. Às vezes, se o cara parece meio esquisito, ela faz o boquete com uma mão e deixa a outra na maçaneta.

Esse cara é esquisito.

Passou por ela quatro ou cinco vezes, em seu Camry velho, antes de

encostar.

Um cara branco de meia-idade (vai entender), com um barrigão caindo

por cima do cinto (vai entender), já meio careca (vai entender), sem aliança (meio incomum e meio que um sinal de alerta, pois os caras casados são geralmente seguros, só querem alguma sacanagem que não têm em casa). Ela teria mandado ele embora, mas está frio pra cacete e o aquecedor do Camry funciona. Além disso, ela precisa das vinte pratas para ficar chapada.

Vamos encarar, pensa Jacqui, alguns velhos ditados são verdadeiros.

Como aquele que diz que “Um viciado faz qualquer coisa para ficar chapado”. Isso deve ser verdade — eu estou no banco da frente de um carro horrível, chupando o pau de um gorducho careca.

Ou, tentando.

O babaca simplesmente não goza.

Quando criança, ela tinha um daqueles brinquedos em que um

passarinho de madeira abaixava o bico e mergulhava em um tubo de água, de novo e de novo, e é assim que ela se sente agora. Uma vez que o passarinho fosse colocado em movimento, ele nunca parava, mas Jacqui não tem certeza se possui a resistência de um passarinho de madeira, sem mencionar que a matemática não fecha — nesse ritmo, ela vai ganhar cerca de doze centavos por hora.

Ela ergue o tronco e suspira.

— Algum problema?

— Você não está fazendo direito.

Não estou fazendo direito?, pensa Jacqui. Como se fosse o quê, um

cappuccino? A equação aqui é bem simples, imbecil.

É sucção, física básica.

— O que você quer que eu faça de diferente? — pergunta ela. Tipo, ser a Fergie, a Jennifer Lawrence, uma Kardashian?

— Use mais a língua.

Jacqui suspira e abaixa de novo. Usa mais a língua, mas o que esse cara quer, por vinte pratas? Sexo de pornô? No banco da frente de um Camry, no meio do inverno, com o motor ligado? Isto aqui é sexo expresso, babaca. Sexo McDonald’s, não é nem sexo Wendy’s, ou sexo Carl’s Jr. Nós não vamos fazer um especial para você — você paga com seu dinheiro, pega seu Quarteirão e vai embora.

Ele aperta a cabeça dela para baixo.

— Me deixa meter até a garganta.

Negócio desfeito.

Jacqui força a cabeça para cima, mas o cara é forte e a mantém embaixo. Ela começa a sufocar e talvez seja isso que esse porra escroto queira (Ah, como seu pau é grande, eu estou até sufocando, estou adorando), talvez ele vá até gozar, mas ela não quer mais saber, ela só quer respirar e dar o fora dali.

Ele não a solta.

A mão dele revira nos cabelos dela e agarra.

— Chupa.

Ela lhe dá uma mordida.

Ele grita.

Mas solta ela.

Ela ergue a cabeça e estica a mão até a maçaneta, mas ele agarra sua gola e a puxa de volta. Ela tenta chutar a maçaneta, mas não rola.

— Eu devolvo seu dinheiro, só me deixe ir embora.

— Não, agora eu quero tudo, piranha.

Ela sente o cano da arma cutucar atrás de sua cabeça.

— Não, por favor.

Ele engata a marcha do carro, sobe a Washington, e vira à direita, na Powells Lane. Ali não há nada, exceto terrenos baldios e árvores, e ele encosta, engrena o ponto morto e lhe dá um cutucão com o cano da pistola.

— Vire. E tire as calças. Eu vou foder você, piranha.

— Tudo bem, tudo bem. — É difícil, ela está apavorada e é apertado no banco da frente, mas ela consegue virar, apoiar as costas junto à porta e se remexer para descer o jeans até os tornozelos. — Não me machuque.

— Você me mordeu, cachorra.

— Desculpe, desculpe.

— Vou foder você toda.

Ele sobe em cima dela.

Ele é pesado, ela não consegue respirar, mas começa a agir do jeito que

acha que ele quer.

— É, me fode, me fode, com esse pauzão, você vai me fazer gozar,

gostoso. — Qualquer coisa para salvar sua vida. — Vai me fazer gozar, gostoso.

Ele geme, arqueia as costas.

Afrouxa a pegada na arma, que escorrega junto à cintura dele. Perto da mão dela.

Ele tenta pegar, mas Jacqui a agarra primeiro. E aperta o gatilho.

Duas vezes.

— Ai, porra! Ai, porra!

Jacqui chuta, se remexe embaixo dele. A porta abre e ela cai para fora,

de barriga para cima. Ela levanta, puxa as calças e corre de volta para a estrada, está a metade do caminho para a Washington, quando percebe que ainda está com a arma na mão. Ela a enfia no bolso do casaco e continua andando.

Caminha até o Motel 19, onde tem um quarto com Jason. Jason é um babaca, mas ela não pode morar embaixo da ponte durante o

inverno, então, ela fica com ele, nesse motel barato, contanto que eles consigam pagar. O que eles só fazem porque ela está por aí, fazendo boquetes, enquanto Jason tenta descobrir que tipo de trabalho ele pode arranjar.

Quando ela chega ao quarto, ele está chapado. Magricela esparramado na cama, olhando a televisão. — Você descolou? — pergunta ela.

Ele balança a cabeça, meio que assente para a mesinha de cabeceira. Ele é um babaca, mas guardou um pouco para ela. Ela cozinha e aplica.

É difícil, porque suas mãos estão tremendo.

Depois disso, ela pergunta:

— Você tem algum dinheiro?

— Por quê?

— Eu tenho que dar o fora daqui.

— Então, vá.

Porra, mas que babaca, esse Jason.

— Da cidade.

Ele só está consciente o bastante para sentir que seus tíquetes-refeição estão escapando.

— Por quê?

— Eu matei um cara.

Jason ri.

— Ah, não fode, matou nada.

Ah, eu me fodi, matei sim.

O jeans dele está pendurado em uma cadeira. Ela olha os bolsos e encontra 6,37 dólares, e se pergunta quanto custa a passagem de ônibus até Nova York. Provavelmente, mais que 6,37 dólares.

— Você só tem isso?

— Sei lá.

Bem, então, quem mais saberia, lesado? Ela senta na cama, ao lado dele.

— Jason, ele me estuprou.

— Ah.

Ah. Só isso. Ah. O que você tem que se lembrar desse mundo, Jacqui sabe, é que, no fim das contas, ninguém está nem aí. Nem no começo das contas. Em hora nenhuma, ninguém dá a mínima.

— Jason…

— O quê?

— Você tem mais algum dinheiro, cara?

— Não.

É por isso que todo mundo detesta viciados, pensa Jacqui.

Porra, eu detesto viciados.

O ônibus não é uma opção, então ela vai caminhando até a rota 87 e estica o polegar. Pegar carona é perigoso. Algum esquisito pode lhe dar carona e tentar estuprá-la.

Por outro lado, pensa ela, Jacqui tem uma arma.

E nunca mais ela será violentada.

Ela mantém o dedo no gatilho, dentro do bolso, e o cano apontado para o cara, durante a maior parte do percurso.

Outro cara de meia-idade.

Desta vez, casado, de aliança no dedo.

Encostou, abaixou o vidro do Subaru e disse:

— Não gosto de ver uma moça como você sozinha assim. Pra onde você

está indo?

— Nova York.

— Eu vou até Nyack, se isso lhe ajudar.

— Não tenho dinheiro pra gasolina — disse Jacqui. — Eu não pedi.

Jacqui entrou.

Mantém a arma apontada. É uma sensação boa, a arma em sua mão. O cara quer puxar conversa.

— Meu nome é Kyle. E o seu?

— Bethany. — Tipo, por que não?

— Você está indo pra casa, ou pra longe, Bethany? — Hã?

— Nova York é sua casa, ou você mora em Kingston? — pergunta Kyle. — Eu vim de Albany — diz Jacqui. — Minha última carona me deixou

em Kingston.

— Então, onde você mora?

— No Brooklyn.

— Entendi.

Você entendeu, Kyle? O que há para entender? Ela olha para ele mais

atentamente e vê que ele é um pouquinho mais novo do que ela havia pensado, talvez tenha cinquenta e poucos anos. Cabelos alourados, começando a rarear, olhos azuis por baixo dos óculos.

Perto de New Paltz, ele pergunta:

— Você está com fome, Bethany? Eu convido. — Eu até que comeria — diz ela.

Ele sai da estrada e entra no Dunkin’ Donuts. Ela pede um café e um

croissant com ovo e linguiça, que está bom pra cacete. Em algum lugar perto de Harriman Forrest, ela pega no sono, o que não era sua intenção, e quando acorda, Kyle está sorrindo e diz:

— Você apagou.

Ele vira para entrar na 287, passando por Nanuet. — Eu posso lhe deixar na estrada, se você quiser — diz Kyle —, ou

posso entrar em contato com a St. Ann’s.

— O que é isso?

— A igreja que eu e minha esposa frequentamos — explica Kyle. —

Eles têm um programa, no inverno, para encontrar abrigo para pessoas sem-teto. Você é sem-teto, certo?

— Acho que sim.

— É, eu também acho — diz Kyle. — Eles podem lhe arranjar uma cama e um tratamento.

— Que tipo de tratamento?

— De drogas — diz Kyle. — Ora, vamos. Quem você acha que está enganando?

— O que você sabe sobre isso?

Kyle sai na rota 9 e segue rumo a Nyack.

— Não me sinto bem em deixar você na rodovia. — Ele tira duas notas de vinte da carteira e põe no colo dela. — Eu vou levá-la até a cidade. Pegue um táxi, isso deve dar para chegar até Nova York.

— O que eu tenho que fazer por isso? — pergunta ela.

— Não se envaideça.

— Só me deixe na cidade.

Kyle encosta o carro e diz:

— Aí está. Eu gostaria que você me deixasse levá-la até a St. Ann’s. Mas é sua vida. Se você mudar de ideia…

Ele lhe dá um cartão de visitas.

— Obrigada — diz Jacqui. Ela desce do carro.

— De nada.

Jacqui fica olhando, enquanto o carro dele vai embora, depois põe o cartão no bolso.

Ela precisa descolar um pico.

Viciados têm um radar infalível que os leva a outros viciados.

Eles conseguem se encontrar mesmo em territórios estranhos e desconhecidos.

Jacqui rapidamente encontra outra usuária, em um parquinho perto da rua Main. Outra jovem magricela.

— E aí.

— E aí.

— Sabe onde eu posso descolar um negócio? — pergunta Jacqui.

— Você tem algum dinheiro? — pergunta a mulher. — Pode me fazer uma presença também?

— Tudo bem.

— Vou fazer uma ligação. — A mulher pega o celular e se afasta de

Jacqui. Um minuto depois, ela volta e diz: — Venha.

Elas seguem pela Franklin, até a Depew, depois viram à esquerda na

direção do rio Hudson, até um conjunto de apartamentos de tijolinhos com cinco andares. Entram em um dos prédios e pegam o elevador até o quarto andar. A mulher toca a campainha, alguém abre uma fresta na porta e ela diz:

— É a Renee.

— O que você quer?

— Dois sacolés.

Jacqui lhe entrega uma nota de vinte. Renee a enfia pela porta. Alguns

segundos depois, dois papelotes saem. As duas mulheres saem do prédio, em um estacionamento, nos fundos. Elas cozinham e aplicam.

— Você tem um lugar onde eu possa dormir? — pergunta Jacqui. — Só

por uma noite?

— Sim, tudo bem.

Então, elas caminham de volta até a Depew, até uma casa antiga, depois

sobem uma escada a um quarto que Renee aluga. Um colchão, um micro-ondas no chão, uma TV antiga. No corredor há um banheiro — vaso, pia e chuveiro.

Tudo fede.

A urina, sêmen, merda e suor.

Jacqui abaixa ao chão, tira a jaqueta e bota embaixo da cabeça, para

servir de travesseiro.

Mantém a mão na arma.

Para um garotinho tão pequeno, Nico tem uma boca grande.

Isso é bom, porque ele pode botar um monte de sacolés na boca. Os papelotes estão cheios de heroína.

Agora, Nico pedala sua bicicleta em direção ao leste, seguindo pela 45ª

avenida, com um celular amarrado ao guidão, aberto no Google Maps, cuja moça bacana lhe dá direções.

Ele é um entregador.

Davido lhe deu a bicicleta e chamou de “presente de Natal atrasado”. — Obrigado!

— Você é um idiota — disse Davido. — Isso é para o trabalho.

O comércio de drogas mudou, Davido explicou. Antes era assim: garotos como Nico ficavam em uma esquina, ou em um parque, e os clientes vinham a pé, ou de carro, e davam o dinheiro ao garoto. O garoto então virava a esquina e entrava em um prédio, pegava o bagulho com um dos caras mais velhos e entregava ao cliente.

— Foi assim que eu comecei — diz Davido. — Eu era um desses garotos.

O sistema funcionava, ele explicou, porque isolava os traficantes dos compradores. Se um dos clientes fosse um policial infiltrado, ele só podia prender o garoto, o que acarretava vara de família e talvez um tempinho em um centro juvenil, nada de pena na prisão.

O tráfico de esquina ainda existe, disse Davido, os traficantes ainda fazem, mas é tolo e arriscado. Por que ficar em pé, exposto, quando se tem celulares, mensagens de texto e Snapchat, e essas merdas todas, e o cliente pode fazer contato, e você apenas entrega?

E dessa forma, os clientes brancos não precisam entrar em bairros esquisitos, cheios de crioulos e chicanos, eles podem ficar em suas belas casas, assistindo programas de reformas, ou alguma merda de güero, e o bagulho chega até eles.

Que é bem o que gente branca espera da vida.

— É preciso acompanhar a época — disse Davido —, se manter competitivo. Nós moramos na era do serviço. Se você não provê serviços, alguma outra pessoa o fará. Já ouviu falar do Blue Apron, GrubHub, DoorDash?

— Não.

— De qualquer forma — disse Davido —, temos que prover serviços. Entregar. Por isso que eu lhe arranjei a bicicleta. O cliente nos telefona, faz o pedido, nós entregamos. Vou chamar nosso produto de Domino’s, porque tem entrega.

Bem, Nico entrega.

O mesmo princípio de usar os garotos para o transporte se aplica, porque se o garoto for preso, não é grande coisa. O garoto passa um tempo no juvenil, e sempre tem mais garotos que querem fazer um dinheirinho e se enturmar. O que eles fazem é colocar a heroína ou cocaína em balões, e Nico põe os balões na boca e sai para entregar.

— E se um policial atender à porta? — perguntou Nico.

— Então, você engole — disse Davido.

— E se os balões arrebentarem na minha barriga? — Não se preocupe com isso — disse Davido. — Por que não?

— Porque você vai morrer — respondeu Davido. — Mas vai ficar tão

doidão que não vai saber o que está acontecendo.

Talvez, não, mas Nico espera que eles comprem balões bons e não dos

baratinhos que vendem na loja de 99 centavos. Ele realmente não queria fazer isso, não apenas porque as drogas poderiam explodir dentro de seu corpo, mas também porque esse troço era sério. Uma coisa é surrupiar alguns aparelhinhos, outra é ser vigia para uma compra de drogas, outras, totalmente diferente era traficar as drogas.

E não era só bagulho, eram coisas pesadas, como heroína.

As reuniões do NA a que Jacqui vai, em Nyack, acontecem no Centro da Terceira Idade, a apenas uma quadra de distância do prédio na Nyack Plaza, onde ela toma seus picos.

Isso torna a decisão conveniente.

Limpa e sóbria ou chapada e suja, apenas alguns metros uma da outra. Como um shopping da moral.

A praça de alimentação.

Eu escolho o Mr. Fields Cookies, ou o bufê de saladas? Jacqui pergunta

a si mesma. A junk food ou os troços que fazem bem? O lixo ou…

O quê?

O que tem por aí, quando não se está chapada? Toda noite, Jacqui se esforça com a decisão. Porra, todo dia… porra, o

tempo todo. Para chegar ao Centro da Terceira Idade, ela precisa passar pelo Nyack Plaza e, às vezes, seus pés simplesmente não a levam até lá. Às vezes, ela fica parada na calçada, do lado de fora do Plaza, como se estivesse paralisada — ela não consegue entrar e não consegue seguir em frente. Ela só fica ali em pé, sentindo-se uma idiota, uma tola, como uma coisa fraca e impotente, menos que um animal.

Em algumas noites, o Plaza ganha, em outras, o Centro da Terceira

Idade.

Às vezes, depende se ela tem ou não dinheiro. Se ela não tiver, fica mais

fácil decidir — não faz sentido ir ao Plaza, se ela não puder descolar; então, ela vai para a reunião, na esperança de que isso baste, rezando para que baste, para ao menos temporariamente preencher suas veias, fazê-la aguentar a noite e chegar à manhã seguinte, quando tudo começa outra vez.

Há momentos em que ela tem algum dinheiro e o Plaza perde — ela para ali, dá umas voltas e depois caminha até a reunião.

Outras vezes, o Plaza ganha, ela não consegue passar direto, entra e descola e pode até demorar alguns dias até que ela force seus pés a entrarem de novo em uma reunião, e sentar em uma daquelas cadeiras dobráveis de metal e tomar uma caneca de café ruim, e dizer que ela teve uma “recaída”.

Outra recaída.

Eles sempre dizem a mesma coisa: continue voltando.

Vai funcionar, se você fizer funcionar.

Eles falam de se livrar da culpa, fazer reparações.

Culpa?, pensa Jacqui.

Eu matei meu namorado de overdose.

Eu atirei em um cara.

Como se faz reparações com gente morta?

Alguns deles sugerem methadone — eles oferecem, no Hospital Nyack — mas Jacqui não tem plano de saúde para entrar no programa e, de qualquer forma, ela não vê sentido em substituir uma droga por outra.

Mas, de pouquinho em pouquinho, quase como a água na pedra, as reuniões começam a ganhar. Ela vai tomando cada vez menos; quando toma usa doses menores, ela também cheira. As pessoas na reunião não entenderiam, elas são puritanas do tudo ou nada, mas ela acha isso um progresso. As feridas de seu rosto começam a sarar, ela ganha um pouquinho de peso, fica com uma aparência decente o bastante para arranjar um emprego no KFC, e eles estão tão desesperados por funcionários que perdoam sua disponibilidade esporádica.

Ela paga aluguel pelo espaço no chão de Renee.

O fato de Renee estar chapada o tempo todo e se prostituindo não ajuda muito, mas é bom quando Jacqui quer tomar, pois ela tem companhia. Mas ela está tentando economizar dinheiro para arranjar um quarto seu, em algum lugar, e imagina que isso será tudo o que terá em comum com Virginia Woolf em toda sua vida.

Então, ela está limpa e sóbria, mas não é fã disso.

Mas ela é fã da arma.

Jacqui raramente fica sem ela, mesmo quando está chapada.

A heroína e a arma não são relacionadas. Heroína, assim como qualquer

derivado de ópio, é uma resposta à dor. Jacqui tem algumas lembranças dolorosas. Lembranças traumáticas. Quando ela está tomando, essas lembranças se dissipam. Mas, quando não está, elas voltam com tudo.

Às vezes, são lembranças, filmes do passado. Outras são flashbacks no presente, em tempo real, acontecendo agora

mesmo.

Seu padrasto, Barry, entrando em seu quarto, e transando com ela,

quando ela era uma garotinha. Esse será nosso segredo (D), nosso segredinho (G), eu vou fazer você se sentir muito bem (Em).

Travis morrendo, tendo uma overdose nos braços dela. O cara transando com ela, violentando-a, no carro — a arma disparando. Essas coisas não estão acontecendo no passado, estão acontecendo neste

momento, a menos que ela se aplique, fique chapada, ou vá para longe, essa é a terrível escolha de Jacqui — ficar louca e esquecer, ficar limpa e lembrar.

Reviver essa merda repetidamente.

Então, ela tenta se manter limpa e se agarra à arma. A arma que a protege de novas lembranças.

Bem, meio que protege. Em noites longas, nas horas da madrugada, ela

já apontou a arma para si mesma. Quando os flashbacks são piores, quando Barry está em cima dela, sussurrando em seu ouvido, o gordão está em cima dela gemendo, Travis está morrendo, com a cabeça em seu colo, ela põe o cano da pistola na boca (como um pau?, ela especula) e tenta apertar o gatilho.

Só para fazer aquilo parar.

Fazer os flashbacks pararem.

Fazer parar a necessidade pela droga. Ela ouve Barry dizer Vá em frente, piranha, ela ouve seu estuprador

dizer Vá em frente, cachorra, ouve Travis dizer Vá em frente, benzinho, venha até mim, eu sinto sua falta, ouve a si mesma dizer Faça, faça, faça, simplesmente faça.

Mas ela não consegue.

Sua mão treme e ela tem medo de apertar o gatilho por acidente,

enquanto tira o cano da boca. Seria bem a cara dela, mesmo, fazer uma merda dessas e se matar sem querer. Então, ela fica sentada com suas lembranças, seus flashbacks, até que o sol pálido de inverno surge na janela suja.

Salvar uma viciada.

É o que Bobby Cirello está tentando fazer.

Quando deixou a cidade de Nova York, ele entrou no carro, sem nem saber para onde estava indo. Ele simplesmente seguiu ao norte e entrou em Catskills, alugou uma cabana perto de Shandaken e se entocou ali, como algum fugitivo da lei.

Ligou pedindo uma licença que ninguém contestou, nem mesmo Mullen, porque todo mundo da One Police estava bem contente de manter Bobby Cirello longe.

Então, ele estava ali sentado.

E ficou assim ao longo das festas, no inverno gelado de matar.

Saiu e cortou lenha para a lareira, leu alguns livros que o último inquilino tinha deixado. Uma vez por semana, dirigia até o Mercado Phoenica para fazer compras. O resto do tempo, vivia como um eremita, como Thoreau, como a porra do Unabomber, pensou ele, embora ele se barbeasse todos os dias, mesmo que ninguém ligasse, além dele.

Tentando decidir o que fazer agora, o que fazer a seguir.

Não encontrou nenhuma resposta, olhando a neve cair, do lado de fora da janela.

Então, a neve parou de cair, começou a derreter no solo, e o caminho de terra que levava à cabana ficou enlameado, e Cirello continuava sem ter ideia do que fazer para se salvar, se redimir, ao menos tentar endireitar as coisas.

Em uma manhã, ele levantou, fez café, fritou uns ovos e estava arrumando suas coisas, quando percebeu que ainda nem sabia para onde estava indo nem por quê. Entrou de novo no carro e foi dirigindo até Kingston, onde tinha visto um relance de Jacqui, a viciada. Ele encontrou a delegacia de polícia local e mostrou seu distintivo.

Eles o conheciam. Bem, tinham ouvido falar dele.

— Você é o policial que fez a apreensão dos Get Money Boys — disse o sargento da recepção. — Nós lhe temos muita consideração.

Cinco minutos depois, Cirello estava sentado com um detetive.

— Estou procurando por uma Jacqui Davis — disse Cirello. — É uma viciada em heroína. Eu a vi na cidade, alguns meses atrás, antes do Natal.

O detetive achou-a, no sistema.

— É, nós a conhecemos. Temos um mandado pra ela. — Porte?

— Tentativa de assassinato — disse o detetive. — Ela está envolvida

numa ocorrência com disparos. A vítima alegou que ela entrou em seu carro, o obrigou a dirigir até uma região remota e tentou roubá-lo. Ele lutou com ela, que atirou nele.

— Você acredita nisso?

— Conversa fiada — disse o detetive. — Sua garota estava se

prostituindo, nós a conhecemos há meses, o cara era um cliente. Isso foi exclusivamente um BDR.

Boquete Deu Errado.

— A vítima é um cara superesquisito — contou o detetive. — Ainda

assim, temos que esclarecer o caso. A garota deu o fora da cidade; desde o incidente, não a vimos mais pela rua.

— Alguma pista de onde ela foi?

— Sumiu do mapa — disse o detetive. — E nós não temos orçamento

para persegui-la. Só torcemos para que ela seja apreendida em algum lugar e puxem o mandado no sistema. Pode nos fazer um favorzão? Se a encontrar, dê um grito pra gente.

— Pode deixar.

Beco sem saída, pensou Cirello.

Ele sabia que deveria ter deixado quieto, desistido, a garota era só mais

uma viciada, dentre milhares.

Mas ele não parou.

Nem saberia dizer o motivo.

Baixou o detetive em Cirello.

Ele seguiu dirigindo pela 87, olhando tudo. Sabe que os viciados vão

onde há outros viciados. Como metais em um ímã. Então, se Jacqui deixou Kingston, ela provavelmente seguiu ao sul, em direção à cidade. Talvez esteja de volta a Nova York, talvez esteja na ilha. Talvez não tenha chegado tão longe. New Paltz tem uma área de drogas (porra, que cidade não tem?), assim como Nyack.

Ele foi até a delegacia de polícia de New Paltz. Eles não a viram, mas lhe mostraram onde ficava o movimento das

drogas, e ele passou dois dias por lá. Ficou em um quarto barato em um EconoLodge e tirou uns cochilos. Quer dizer, quando os federais não estavam lhe ligando. Um cara do conselho especial não parava de ligar para o seu número, deixando recados para que Cirello retornasse para ele.

Cirello ignorou.

Eles que se fodam.

Fodam-se todos eles — o conselho especial, Keller, O’Brien, todos eles. Eles podem jogar seu jogo sem mim.

Ele teve uma confirmação da DP de New Paltz e foi, ele próprio, até Southside Terrace. Encontrou uma viciada óbvia, em um dos corredores do prédio, e mostrou seu distintivo. Nenhum viciado vai enxergar diferença entre um distintivo da NYPD e um de New Paltz. A única preocupação deles é não ser presos.

— Você viu essa garota?

— Não.

— Olhe de novo, de verdade — disse Cirello. — Ou eu posso lhe pedir para olhar de novo lá na delegacia.

A mulher olhou melhor.

— Nunca vi.

Cirello foi de carro até Nyack e passou pela mesma sequência. Checou com os locais, conseguiu alguma informação, depois saiu zanzando. O maior núcleo de drogas, o Nyack Plaza, fora varrido com a prisão de Darius Darnell, e os viciados locais estavam sofrendo, perambulando.

Então, Cirello continuou procurando.

Apenas circulou de carro pela cidade, até que viu um grupo matando tempo em um estacionamento. Eles dispersaram como codornas, quando ele caminhou até eles e alcançou o mais lento, uma mulher chamada Renee.

— Eu não a conheço — disse Renee, quando Cirello mostrou a foto de Jacqui.

Cirello viu que ela estava mentindo.

— As suas opções são as seguintes — disse ele. — Se você mentir pra mim de novo, vai se desintoxicar dentro de uma cela de cadeia. Se disser a verdade, seu pico de despertar é por minha conta.

— Talvez eu a tenha visto.

— Ela está aqui em Nyack?

— Tá.

— Não me faça arrancar informação de você — disse Cirello. — Onde está ela?

— Ela arranjou um canto — respondeu Renee. — Quer dizer, ela estava

ficando comigo…

— Jesus Cristo.

—…mas arranjou um lugar pra ela.

— Onde? — perguntou Cirello.

— Você quer, tipo, um endereço?

— Pode ser.

— Eu não sei.

Viciados.

Mas ela lhe indicou a esquina e a descrição de uma casa. Cirello lhe deu vinte pratas.

A natureza abomina um vácuo.

E foi esse o resultado das prisões da Get Money Boys, em Kingston e

Nyack: um grande buraco no comércio de heroína.

Mas, no mundo das drogas, nenhum vácuo se mantém por muito tempo. Há dinheiro demais envolvido.

Então, alguém se apressa em preenchê-lo.

Corre para preencher.

A Calle 18 saiu na frente.

— Arrume suas tralhas — Davido disse ao Nico. — Você vai sair da

cidade.

— Para onde? — perguntou Nico.

— Nyack.

— Onde fica isso?

— Não sei — diz Davido. — Em algum lugar no norte. Você, Benedicto

e Flaco.

Ele explicou que, desde que os mayates dançaram, durante as grande

prisões, existe uma oportunidade nessa cidade e os mandachuvas vão aproveitar. Eles vão organizar um motel e espalhar por lá que será possível ligar para um número e pedir uma entrega.

— O que eu digo a meus tios? — perguntou Nico. — Não diga nada, apenas suma — diz Davido. — Eles provavelmente

ficarão aliviados.

Acho que vão.

Eu só trouxe confusão para eles.

— Posso levar minha bicicleta? — perguntou ele.

— Porra, de que outra maneira você vai fazer as entregas? — perguntou Davido. — De Uber?

— Eu tenho a minha audiência, em algumas semanas — disse Nico.

— Nico, me escute — disse Davido. — Sabe o que vai acontecer na audiência? O juiz vai mandar algemar e deportar você. Mas, manito, eles não podem deportar você, se não o encontrarem.

Nico foi para casa, jogou algumas coisas em um saco de lixo e saiu, antes que seus tios chegassem. Encontrou Benny e Flaco, e eles pegaram o metrô até a Grand Central, depois um trem para Tarrytown e um Uber para atravessar o rio até Nyack.

Então, agora ele dá um tempo na Super 8, jogando videogames com Benedicto e Flaco. É uma vida divertida — eles têm dinheiro, eles têm bagulho, ninguém lhes diz o que fazer, exceto fazer as entregas, quando o celular toca. E Nyack tem McDonald’s, Burger King, Wendy’s e KFC. Benny e Flaco estão sempre reclamando sobre a falta que sentem da comida guatemalteca, mas Nico, não. Ele não sente falta de arroz e feijão, e feijão e arroz, contanto que eles possam comer Quarteirões.

Agora ele aperta os botões do controle e espera o celular tocar.

De arma em punho, Jacqui espera seu padrasto passar pela porta.

Esse será nosso segredo (D), nosso segredinho (G), eu vou fazer você se sentir muito bem (Em).

Ela se afasta, de costas para a parede, aponta a arma para a porta.

Do quarto dela.

Seu próprio quarto.

Jacqui está indo bem, fazendo horas extras, pagando aluguel por um quarto em uma casa na avenida Alta, o que ela acha até meio engraçado e irônico, em seus momentos mais persuasivos. Ultimamente, ela tem ficado mais tempo limpa e sóbria e, como a Plaza foi fechada, é mais fácil passar direto, rumo às reuniões.

E ela gosta de seu quarto. No terceiro andar, a janela tem uma vista da rua Gedney e de um parquinho. Há uma confeitaria legal, no alto da rua, e ela já os convenceu de trabalhar algumas horas e talvez aprender a fazer pão.

Mas os flashbacks é que a estão matando.

As equações são cruelmente simples.

Drogada = sem flashbacks.

Sem droga = flashbacks.

Portanto, agora, ela está limpa e ferrada pra cacete. Barry está do lado

de fora da porta, ela até ouve os seus passos, sua respiração. Ele vai entrar, segurá-la, mostrar o quanto se importa com ela.

Esse será nosso segredo (D), nosso segredinho (G), eu vou fazer você se

sentir muito bem (Em). Ela está tremendo, suando. Como se estivesse em crise de abstinência. Então, qual é a porra da diferença?

A heroína canta para ela.

Esse será nosso segredo (D), nosso segredinho (G), eu vou fazer você se

sentir muito bem (Em).

De arma em punho, ela liga para o número.

Rollins conseguiu a localização de Cirello.

Seu cartão Visa mostrou que ele está no Quality Inn, em Nanuet, Nova

York, a oeste de Nyack. Ontem, ele estava em New Paltz, mas foi embora antes que eles pudessem mandar alguém até lá. Eles mandaram gente para Nauet. Se conseguirmos encontrar Cirello, pensou Rollins, o conselho especial também consegue. Portanto, uma equipe de dois homens está vigiando o motel, do outro lado da rua, e seguiu Cirello quando ele saiu.

Agora, eles estão em cima dele.

Esperando a hora certa.

Cirello tem que cair.

Depois pode ser divulgado que ele era um policial corrupto.

Cirello encosta o carro, na rua Alta.

A casa coincide com a descrição.

Ele sai do carro, encontra uma porta dos fundos e sobe a escada.

Jacqui ouve a batida na porta.

Aponta a pistola.

Acha que pode atirar através da madeira, antes que Barry entre. Seu dedo está firme no gatilho.

Eles estão ao telefone.

Rollins dá a ordem.

Nico vai pedalando furiosamente.

É divertido ir zunindo pelas ruas, mesmo com um saco de heroína entulhado dentro da boca, como se ele fosse um esquilo.

— Jacqui? — diz Cirello. — É o detetive Cirello. Você se lembra de mim?

Isso a traz de volta à realidade.

— Sim.

— Posso entrar? Precisamos conversar.

Jacqui levanta, esconde a pistola embaixo da blusa e abre a porta.

— Posso entrar? — pergunta Cirello.

Ela o deixa entrar. O único móvel no cômodo é a cama, então, ele senta ali. Ela senta a seu lado.

— Jacqui — diz Cirello —, você sabe que a estão procurando, em Kingston?

— Ãrrã.

— Você atirou naquela cara?

Ela assente.

— Me diga o que aconteceu.

Jacqui conta para ele.

— Eu quero levá-la de volta a Kingston — diz Cirello. — Você se entrega.

— Não.

— Escute — diz Cirello. — Você se entrega. Eles vão lhe fazer perguntas e você conta exatamente o que me contou. Eles vão lhe perguntar, porque eu vou mandar perguntarem, se você temeu por sua vida, e você vai responder que sim.

— Eu vou pra cadeia?

— Talvez — diz ele. — Talvez, não. Mas se você falar a eles que agiu em legítima defesa, você não vai ficar muito tempo.

Uma batida na porta.

Cirello ouve:

— Domino’s!

— Você pediu pizza? — pergunta ele.

Jacqui balança a cabeça.

Cirello levanta e abre a porta.

É um garoto.

Com bochechas de esquilo.

Eles veem o carro de Cirello estacionado na rua.

A viciada lá no parque, a que eles viram conversando com ele, disse que

ele ia visitar outra viciada.

É perfeito.

Policial corrupto é morto em batida de drogas.

A porta abre.

Uma mão agarra Nico pelo pescoço e o puxa para dentro. Então, o cara o

vira ao contrário e passa um antebraço forte em volta de seu pescoço.

— Não engula, seu merdinha. Não… engula… isso… Nico não tem escolha.

Ele não conseguiria engolir, nem se quisesse. Ele está sufocando.

— Cuspa — diz o cara. — Cuspa isso da boca. Você fala inglês?

Escúpalos, pequeño imbécil.

Nico cospe o balão.

O cara o empurra contra a parede.

— Eu sou policial. Mãos nas costas. Manos a la espalda. Nico põe as mãos para trás, sente as algemas. — Quantos anos você tem? — pergunta o policial. — Doze, eu acho.

— Você acha? Qual é seu nome?

— Nico.

— Nico de quê?

— Ramírez.

— O que você é, um paro? — pergunta o policial. — Com quem? Nico não é bobo de responder isso.

Ele sacode os ombros.

— Você acha que os mandachuvas ficariam um minuto presos, por

você? — pergunta o policial. — Eles não ficariam. É por isso que você está aqui, e não eles. Faça algo por si mesmo.

Nico sabe o que pode fazer por si mesmo.

Ficar de boca fechada.

Cirello vira para Jacqui.

— Foi você que ligou pra ele?

Ela olha para o chão e assente.

Envergonhada, tremendo de abstinência, tendo flashbacks infernais. O barulho, o movimento, a gritaria…

É demais.

Ela precisa de um pico.

Ela ouve passos subindo a escada.

Esperando, do lado de fora da porta.

Cirello se amaldiçoa por tentar salvar uma viciada.

Agora ele tem uma viciada em abstinência para arrastar de volta a Kingston e um garoto traficante com quem terá que lidar.

É isso que você arranja, pensa ele, por ser…

A porta é escancarada e bate contra a parede.

O cara está com a arma em punho, na altura do ombro, mirando a cabeça de Cirello.

Estou morto, pensa Cirello.

O estrondo é ensurdecedor.

O cara deixa a arma cair, cambaleia para trás, para fora da porta, e depois cai contra a parede.

Desliza abaixo, deixando um borrão de sangue atrás de si.

Cirello gira e vê Jacqui ali em pé.

Com a arma na mão.

O cano grudado na cabeça.

Esse será nosso segredo… nosso segredinho…

— Não faça isso — diz Cirello. — Por favor.

Ele dá um passo em direção a ela.

Ela aponta a arma para ele.

Ele estende a mão.

— Você não quer fazer isso.

Quando Jacqui era pequenina…

Quando ela era pequenina…

Quando Jacqui era uma garotinha.

Ela entrega a arma a ele.

Nico fica olhando o policial.

— O que você viu? — pergunta o policial.

Nico não responde.

— O que você viu?

— Nada!

— Isso mesmo — diz o policial. — Agora dê o fora daqui. Corre! Nico corre.

Cirello dá a chave de seu carro a Jacqui.

— Vá sentar no carro, vou levar só um minuto — diz Cirello. — Não vá

fugir de mim. Vá, anda.

Jacqui vai.

Cirello fica em pé diante do corpo do atirador e dá mais dois tiros em

seu peito.

Então, ele liga para a delegacia de Nyack.